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Comunicado: Artigo do Público sobre Disforia de Género de Início Rápido em jovens

A “geração de raparigas em risco": O Mito da Disforia de Género de Início Rápido e as Terapias de Conversão 

No passado dia 26 de Março, o Público publicou online um artigo escrito pela sua antiga diretora, Bárbara Reis, sobre "jovens que querem mudar de sexo de noite para o dia", falando sobre "danos ao corpo" e "uma onda bizarra, de contágio social", com direito a teorias alarmistas sobre pessoas trans.

Ao longo do artigo, menciona Abigail Shrier, conhecida por repetidos discursos anti-trans, e toma a retórica de que a "epidemia trans" vitimiza meninas ao serem influenciadas por uma "moda".

Pelo trabalho que o Público já fez no passado e o facto de terem jornalistas capacitades pela rede ex aequo, espera-se mais rigor e responsabilidade no que diz respeito a usar palavras e expressões patologizantes em artigos sobre pessoas trans, que adicionam às violências experienciadas por esta comunidade, já muitas vezes em situações vulneráveis.

O perigo associado às retóricas usadas pela autora de "contágio social" e "salvar vidas", remete para algo que o próprio Público já publicou através do artigo “Afirmação LGBTI+: como criminalizar as terapias de conversão?”“ de Júlia Mendes Pereira —  o perigo da ideia da "cura trans" associada às terapias de conversão. As práticas de terapia de conversão, tendo como principal alvo a comunidade trans, têm como objetivo a manutenção dos papéis de género tradicionais, tentando — através da manipulação e do discurso de ódio — convencer a pessoa a parar ou retroceder o processo de transição. É algo que acaba por acontecer com muitas pessoas que não conseguem aguentar a pressão e os abusos psicológicos contínuos, principalmente as que foram submetidas a estas terapias ainda antes dos 18 anos (mais de 50%), altura de maior vulnerabilidade (Cox & Pruden, 2021; F. Ashley, 2020).

Em adição ao já mencionado, também devemos assinalar que não só existem dados sobre pessoas que escolheram parar os seus processos de transição, como estes afirmam que menos de 1% das pessoas que realizaram cirurgias de reafirmação de género mostraram arrependimento — não querendo dizer com isto que as pessoas não sejam trans (Wiepjes et al, 2018; van de Grift et al, 2018). Também se verificou que o principal motivo para a interrupção da transição foi atribuído a fatores externos, tal como "falta de apoio social" (Gijs & Brewaeys, 2007).

Para além do demonstrado acima, o uso do termo "Rapid-onset Gender Dysphoria" revela a total descredibilidade do artigo, enterrando qualquer réstia de rigor científico ou até jornalístico que este texto pudesse ter. ROGD não só não é um diagnóstico de saúde mental, como não tem base factual proveniente de relatos de crianças, jovens ou profissionais de saúde que defendam sequer o uso deste termo. O reporte inicial sobre ROGD de Littman (2019)  que põe esta mera hipótese, derivando-a apenas de relatos de pais, também não é claro quanto à proveniência destes relatos e tem sido repetidamente contestado.

É de notar que a identidade de género das pessoas pode fluir naturalmente ao longo do tempo e que ao explorar a sua identidade, uma pessoa pode ir chegando a várias conclusões sobre a sua vivência de género e como se quer apresentar ao mundo. Muitas vezes, pessoas trans têm impostas em si, pela sociedade e profissionais de medicina, narrativas e padrões sobre o que é ser trans e sobre procedimentos que "têm" de querer realizar. Todas as pessoas devem ser livres e ter o direito à determinação do seu corpo e identidade de género sem pressões exteriores.

São flagrantes as partes do artigo de Bárbara Reis que mencionam vários pontos usados por alegadas feministas, especificamente na obsessão pela defesa da "mulher biológica". O argumento à volta da "filha que quer ser rapaz", parte do título do artigo, retrata a mulher constantemente como vítima dentro da "retórica trans". Por outro lado, é de notar a falta de apoio às próprias mulheres trans, mais especificamente a agressões e violência constante, por parte de defensoras do "sexo biológico" que procuram retratá-las como falsas mulheres e agressores sexuais em espaços femininos.

Concluí-se que neste tipo de retórica haverá sempre algum motivo para se justificar posições críticas das realidades e vivências trans, posicionando sempre o corpo, até de crianças, como principal foco para justificar exclusão e violência da suposta vítima, a "mulher biológica", ironicamente reduzindo-a às suas funções reprodutoras e características sexuais.

A aproximação deste artigo do Público a argumentos historicamente abusivos e apologistas de terapias de conversão, é altamente condenável e extremamente danoso à comunidade trans. 

Infelizmente, muitas pessoas têm se deixado influenciar pelo tom alarmista de cartas como a que a autora recebeu, não conhecendo a realidade do movimento trans-exclusionário que motiva este tipo de retórica e distorce estudos. Já o ouvimos de Clara Ferreira Alves em directo no Eixo do Mal, que tal como este texto, menciona autoras populares em movimentos transfóbicos, e lamentamos ver que não serviu de exemplo para escolher ter uma perspectiva mais informada e responsável. 

Apelamos de novo, e continuamos disponíveis, para capacitar e sensibilizar jornalistas, órgãos de comunicação e de imprensa para as questões de orientação sexual, identidade e expressão de género e características sexuais. A imprensa molda a nossa visão do mundo e como tal tem uma responsabilidade inegável para noticiar e informar o público respeitando e não colocando em causa o seu direito de autodeterminação da identidade e expressão de género. Neste sentido, é inaceitável dar-se espaço a discursos alarmistas, baseados em informação falsa, e que levem a possíveis situações de discriminação e violência para com populações já marginalizadas e vulneráveis. 

Hoje estaremos na Marcha da Visibilidade Trans, mais uma vez, para reivindicar os direitos que ainda nos faltam atingir, e lutar por uma representação positiva nos média, através da nossa ocupação das ruas.
Não desistimos.

 

A direção da rede ex aequo,
31 Março de 2022

 

Shirley Cox; David Pruden (2021). "Working with Members of the Church of Jesus Christ of Latter-day Saints Who Struggle with Unwanted Same-Sex Attractions and Behaviors" - Journal of Human Sexuality Vol. 11. Alliance for Therapeutic Choice and Scientific Integrity.

Danker, S., Narayan, S. K., Bluebond-Langner, R., Schechter, L. S., & Berli, J. U. (2018). Abstract: A Survey Study of Surgeons’ Experience with Regret and/or Reversal of Gender-Confirmation Surgeries. Plastic and Reconstructive Surgery Global Open, 6(9 Suppl), 189-189. https://doi.org/10.1097/01.GOX.0000547077.23299.00

Florence Ashley (2020) Homophobia, conversion therapy, and care models for trans youth: defending the gender-affirmative approach, Journal of LGBT Youth, 17:4, 361-383,
DOI: 10.1080/19361653.2019.166561

Tim C. van de Grift, Els Elaut, Susanne C. Cerwenka, Peggy T. Cohen-Kettenis & Baudewijntje P. C. Kreukels (2018) Surgical Satisfaction, Quality of Life, and Their Association After Gender-Affirming Surgery: A Follow-up Study, Journal of Sex & Marital Therapy, 44:2, 138-148, DOI: 10.1080/0092623X.2017.1326190

Reis, B. (2022, March 26). De repente, a filha quer ser rapaz. Esta é a carta da mãe. Jornal Público. Retrieved March 26, 2022, from https://www.publico.pt/2022/03/26/sociedade/opiniao/repente-filha-quer-rapaz-carta-mae-2000223

Littman L (2018) Parent reports of adolescents and young adults perceived to show signs of a rapid onset of gender dysphoria. PLoS ONE 13(8): e0202330. https://doi.org/10.1371/journal.pone.0202330

Wiepjes CM, Nota NM, de Blok CJM, et al. The Amsterdam Cohort of Gender Dysphoria Study (1972–2015): Trends in Prevalence, Treatment, and Regrets. J Sex Med 2018;15:582–590.

Tags: "rapid onset gender dysphoria", "detrans reddit", "disforia de género de início rápido"