a carregar...

rede ex aequo - associação de jovens lgbti e apoiantes

Esqueceste-te da password?

Apoio e recursos

Aqui encontras todos os recursos de apoio para as tuas dúvidas e questões

  1. home
  2. apoio
  3. Histórias de Coming Out
  4. Vítor, 20 anos

Vítor, 20 anos

Olá. Sou um rapaz de 20 anos de uma típica pequena cidade portuguesa do sul, e mais que contar uma simples história acerca do momento em que decidi assumir a minha orientação sexual, pretendo mostrar como esta fase das nossas vidas pode ser ainda mais dolorosa do que nós pensávamos. E desculpem se, de certa forma, posso persuadir alguém a não assumir (mas acredito que isso não aconteça).

Ou seja, tudo começou a acontecer mais rapidamente e quase que de forma abrupta quando, pela primeira vez, e isto reportando-me há aproximadamente um ano atrás, tive a oportunidade de aceder de forma livre e com privacidade à Internet, pois foi nessa altura que os meus pais decidiram “colocar” uma ligação à Internet em casa.

Como qualquer jovem LGBT que sou (e sempre soube que era) aproveitei a Internet para pesquisar tudo e mais alguma coisa acerca do tema… desde assuntos mais sérios como notícias acerca da homossexualidade e a forma como é encarada até a “coisas” mais banais e de “conteúdo impróprio” (que não é tão impróprio quanto isso…) enfim… até que, finalmente, encontrei um chat gay muito engraçado, foi então a partir daí que começaram os contactos e conversas mais “insinuantes” com outros homens… resumindo tive o meu primeiro namorado.

No entanto, o facto de os meus pais não saberem que era gay e além do mais, serem muito unidos a mim ao ponto de estarem sempre “colados” a mim, quanto mais não seja por telefonemas, fez com que a relação acabasse pois eu não aguentava um namora à distância, pois ele era de longe e eu andava sempre cheio de medo de me encontrar com ele e alguém próximo nos visse e percebesse. Isto, como é óbvio, causou-me uma enorme revolta mas continuei com a minha “pesquisa gay” na Internet.

Mas, de forma gradual, a minha revolta ia aumentando de dia para dia até que simultaneamente a uma tristeza profunda juntava-se a minha curiosidade sobre grupos de ajuda na net. Até que encontrei o site da rede ex aequo e aquelas histórias (muitas delas encorajadoras acerca do tema “assumir-se”), e foi aí que pensei… “porque não?!”; “…porque haveriam os meus pais de me odiar só pelo simples facto de ser homossexual?”

Então comecei a fazer “filmes” de uma vida feliz, onde nesse filme aparecia eu, os meus pais e um, eventual, namorado… todos felizes (peço desculpa pela divagação e ironia). E era precisamente nesses momentos que reparava que a minha vida era contrária aos meus sonhos, ou seja, infelicidade sobre infelicidade.

Entretanto, e contando com o facto de os meus pais se estarem a aperceber do meu (péssimo) estado de espírito, perguntavam-me continuamente o que se passava comigo… isto sem contar com as diversas estratégias que eles encontraram para tentar descobrir a causa de tanta tristeza e solidão… e diziam sempre estarem dispostos a ajudar-me fosse qual fosse o problema. Mas não imaginavam eles que o “problema” era a minha orientação sexual [reparem que problema está entre aspas – homossexualidade não é, evidentemente, um problema].

Depois de tantas insistências dos meus pais e de ter lido tantas coisas lindas na net acerca de jovens que se assumiram e de pais liberais (desculpem novamente a ironia), decidi dar também esse passo. Resultado: Se “continuasse assim”, como se a homossexualidade fosse passageira, um vício, uma doença ou algo parecido, eu ia simplesmente interromper o curso que adoro, ter que trabalhar sabe-se lá onde para me sustentar, e não sei até que ponto ser posto fora de casa, ou pior do coração dos meus pais. Obviamente menti-lhes, disse que o que sentia foi uma confusão, mas que agora era um “homem” (isto porque na perspectiva retrógrada dos homofóbicos os gays não são homem… percebem?!) e que só pensava em ter uma profissão bonita, casar e dar-lhes resmas de netinhos.

Conclusão:
Hoje além da infelicidade de ser um gay não assumido, acrescenta-se a infelicidade de não poder ser infeliz com medo que os meus pais reparem e desconfiem que “o mal voltou”. Também terminaram as saídas com amigos que eles não conheçam e que não tenham a “certeza” da sua heterossexualidade. Eu um dia vou contar-lhes claro, mas quando estiver longe e a ganhar o suficiente para o meu sustento; só me pergunto: “Serei Feliz?”