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Rita, 18 anos

Não tenho muito jeito para contar histórias, especialmente deste tipo. Cheias de caos. Não sei apontar um momento exacto. Algures na minha adolescência comecei a sentir que me faltava um pormenor qualquer de qualquer coisa que eu sabia presente, sem saber o que era. Como vivia num meio pouco aberto a este tipo de situações foi um processo moroso e complexo. Lembro-me de começar a ter a sensação de que os rapazes não me diziam muito, que estava mais a ficcionar o sentimento do que a vivê-lo, mas sempre era melhor que me sentir anormal. Apesar de me sentir desconfortável nas duas versões da coisa. Ou freira, ou farsa.

Feliz ou infelizmente existe um momento em que o desconforto passa a desespero. Esse é o momento onde percebemos que o jovem a quem escrevemos cartas no dia dos namorados é apenas o nome onde se esconde a jovem a quem realmente as escrevemos. A minha primeira paixão foi uma coisa muitíssimo lírica. Era inegável o afecto, mas recusava-me a admitir que fosse outro tipo de afecto… levei um ano em depressão profunda até perceber que a causa da minha tristeza era amá-la e ainda outro ano na mesma situação a tentar integrar a ideia que não era errado amá-la. Nunca antes tinha pensado ser possível que chegar à palavra amor fosse muito mais difícil do que senti-lo. Dei por mim em buscas incessantes por definições do termo. Sabia que o meu caso não era novo na história da humanidade, que o dicionário não trazia designações de género, mas não conseguia ignorar o facto de o odiarem com tão acérrimo despeito… de o ter odiado também, de saber que iam meter deus pelo meio, sem ninguém o ter chamado. E pelo meio também fiz como muita gente… achei que era preferível acabar com a vida, do que vivê-la na angústia que sentia. Devem existir poucos sentimentos tão exaustivos como a solidão… por carregar um segredo, que nem nós próprios temos a coragem de conhecer.

Houve um momento em que fiquei a sós com ela e ela começou por dizer: Sabes… há coisas que os olhos dizem… e depois de uma longa pausa concluiu: mas tu não tens maldade! E ficámos as duas de olhos no chão em silêncio. Até alguém trazer dois dedos de leviandade. Falhada a tentativa e meio ano a ruminar sobre que seria que ela falava que os meus olhos lhe diziam sem maldade, não pude mais renunciar à verdade e enfrentei-a! Compreendi então que os sentimentos são factos, a moralidade é um conceito.

Entretanto mudei de cidade e acabei por conhecer uma pessoa benevolente o suficiente, paciente o suficiente e com maturidade suficiente para me ajudar a encarar o problema e transformá-lo numa rotina. Não posso afirmar com veemência que me sinta plenamente confortável com a minha “condição”, mas as razões que me levam a tal serão com certeza apenas de ordem social. Não creio que seja possível compreender as consequências da discriminação sem a ter sentido… Especialmente se a sentimos por qualquer coisa que não podemos escolher, que tentamos evitar a todo o custo e que afinal de contas não prejudica ninguém, se não os lesados pelo preconceito.

Dizê-lo a alguém não foi fácil, mas de meia palavra em meia palavra lá contei a palavra inteira à minha irmã: “lésbica”. Sou lésbica, amo-a. À minha semelhança, não foi fácil para ela integrá-lo. Mas apoiou-me como pôde e o melhor que soube e isso foi indiscutivelmente, muitíssimo importante para mim. Pouco a pouco lá fui contando a alguns amigos e fazendo outros. Deslizando para uma nova “realidade” onde afinal tinha o direito de ser como era, sem ofender ninguém. Talvez por isto preze tanto o privilégio de amar quem amo e ser amada em retorno. O privilégio de ser um ser humano com direito à sua condição humana, igual a toda a gente cujo objectivo ultimo é apenas ser feliz.