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Pedro, 21 anos

Tal como muitos outros jovens portugueses eu também sou homossexual. No entanto escapo à grande maioria porque foi só há cerca de 2 meses, com 21 anos, que me assumi como homossexual perante mim próprio.

A minha infância e adolescência foram passadas sem que me apercebesse de forma clara da minha verdadeira orientação sexual. Tive algumas “namoradas”, mas era tudo baseado em “amores platónicos”, em que o mais importante para mim era saber que ela gostava de mim e não tanto se eu gostava dela, porque o que pretendia era carinho, atenção e amor. Eu, no entanto, não tolerava beijos ou toques mais sensuais, e mesmo as mãos dadas era intolerável, porque me sentia verdadeiramente mal com isso; razão pela qual elas acabaram sempre os “namoros”. Isto foi tudo o que se passou, a nível emocional, até ao final do 12º ano de escolaridade.

Eu moro no conselho de Marco de Canaveses, distrito do Porto, e vim estudar para Lisboa, para o Instituto Superior Técnico. Após uma entrada na faculdade algo atribulada, dadas as dificuldades de adaptabilidade dos conhecimentos adquiridos no ensino secundário com o que é esperado pelas instituições de ensino superior, que é já um velho problema nacional, foi no segundo ano de faculdade que comecei a notar que de facto sentia algo …. de uma forma “estranha”. Não conseguia encontrar nas raparigas nada de atraente, e questionava-me como é que era possível que os meus colegas ficassem “loucos” quando viam uma rapariga que correspondia ao estereótipo de “mulher boa”. Pelo contrário, conseguia distinguir perfeitamente um rapaz bonito e atraente de outro menos bonito. Achava alguns rapazes verdadeiramente atraentes, em especial um rapaz da minha residência, no entanto, por saber que isso estava “mal”, retraí sempre os meus sentimentos. Entrei num período de negação da minha homossexualidade de tal forma violenta que me tornei o rapaz mais homófobo da minha turma. Durante cerca de dois anos mantive uma vida dupla infernal: por um lado era o rapaz que detestava os “gays”, que estava sempre a (estrategicamente) comentar todas as raparigas que passassem por mim, em especial se estavam colegas meus a meu lado, para que nunca suspeitassem do meu “segredo”; por outro lado, era o rapaz que chegava a casa sempre deprimido e triste, sem qualquer auto-estima ou objectivos, passava os dias fechado no quarto a não fazer nada, não tinha capacidade de concentração e não tinha qualquer prazer em estudar, evitava sair porque não me conseguia divertir de tão amargurado que estava, sabia que estava qualquer coisa de errado comigo, mas pensava que seria uma fase, um percalço na minha evolução e/ou desenvolvimento, e que esta atracão por rapazes iria acabar por desaparecer com o tempo, enquanto continuava a ver todos os sites na Internet sobre gays que pudesse encontrar. Esta dupla vida horrenda não me deixava respirar. Quer em casa quer na faculdade o teatro era uma constante. Sorria ao ver outros falarem mal dos homossexuais (ao mesmo tempo que ia achando cada vez menos piada aos comentários homófobos porque os via cada vez mais como ataques pessoais), evitava mostrar sensibilidade e lutava imenso para nunca cair na tentação de olhar descaradamente para um rapaz à frente deles (olhar de uma forma desejosa claro está!).

Todo este acumular de situações desagradáveis desembocou numa profunda depressão, tristeza, apatia, perda de apetite, desprezo por mim mesmo, falta de auto-estima e auto-confiança, dificuldades de concentração e ataques de pânico sem razão aparente. Chegou a um ponto em que eu tive que admitir perante mim próprio que “se calhar” até podia ser homossexual. Comecei a juntar todas as peças do puzzle que teimava em não montar. Precisava contudo de dizer isso a alguém para me convencer a mim próprio, o que veio a acontecer há cerca de dois meses quando desabafei com uma colega da minha residência. Foi o descarregar de um peso monstruoso de cima de mim. Contudo, passado algum tempo as coisas começaram a descontrolarem-se. Comecei a verificar que encontrar um parceiro seria extremamente difícil e comecei a pensar num futuro que não conseguia discernir com clarividência, as dificuldades de ser um homossexual, de um momento para o outro, caíram em cima de mim, não encontrava saída para a minha angústia, para o imposto sentimento de pecado, para a impossibilidade de contar aos meus pais e aos meus colegas de faculdade. Encontrava-me perante um dilema: por um lado tinha admitido ser homossexual e por outro esse facto parecia que me ia tornar infeliz para todo o sempre.

Comecei a escrever poemas então para descarregar os sentimentos retraídos e as angústias de um mundo desconhecido. Mas não bastava; estava à beira do precipício. Foi então que tentei o suicídio ao tomar comprimidos em excesso. Uma colega e um colega da residência levaram-me ao hospital Curry Cabral por volta das três da manhã, onde fui atendido e encaminhado para a secção de psiquiatria, onde fui por sua vez aconselhado a iniciar sessões de acompanhamento psicológico. A partir deste dia, que lamento imenso ter sucedido, contei a mais amigos meus que era homossexual e desenvolvi um grupo pequeno de cinco colegas que me ajudam imenso. Quanto à minha família contei a uma prima minha e à minha mãe, e ambas reagiram muito bem.

Estou neste momento a ter sessões de aconselhamento psicológico e a tomar um anti-depressivo leve e está tudo a andar melhor. No entanto continuo a não conhecer quase ninguém que seja homossexual (só conheço um rapaz mais velho que já acabou o curso e já está a trabalhar) e talvez por causa disso viva com o receio que a relação dita monogâmica, que gostava de ter com um rapaz, não exista. Neste momento o meu maior medo é não encontrar ninguém com a capacidade de ser fiel e de se entregar totalmente numa relação estável a dois.