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Olá Visitante23.jul.2019, 15:02:40

Autor Tópico: Poesia Açoriana  (Lida 19200 vezes)

 
Poesia Açoriana
#0

Offline maris

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Esta terra linda que é os Açores gerou, e continua a gerar, pessoas únicas, que acho que vale a pena expôr alguns dos seus resultados aqui.

Força para quem conhecer e espero que gostem para os que vão ficar a conhecer...

Ilhotas de beijos,

marisa
    "And if we are courageous enough to face the truth, the world will change."   Alice Miller

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    #1

    Offline maris

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    A concha


    A minha casa é concha. Como os bichos
    Segreguei-a de mim com paciência:
    Fechada de marés, a sonhos e a lixos,
    O horto e os muros só areia e ausência.

    Minha casa sou eu e os meus caprichos.
    O orgulho carregado de inocência
    Se  vezes dá uma varanda, vence-a
    O sal que os santos esboroou nos nichos.

    E telhadosa de vidro, e escadarias
    Frágeis, cobertas de hera, oh bronze falso!
    Lareira aberta pelo vento, as salas frias.

    A minha casa... Mas é outra a história:
    Sou eu ao vento e à chuva, aqui descalço,
    Sentado numa pedra de memória.


    Vitorino Nemesio
      "And if we are courageous enough to face the truth, the world will change."   Alice Miller

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      #2

      Offline maris

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      O sol nas noites e o luar nos dias

      De amor nada mais resta que um Outubro
      e quanto mais amada mais desisto:
      quanto mais tu me despes mais me cubro
      e quanto mais me escondo mais me avisto.

      E sei que mais te enleio e te deslumbro
      porque se mais me ofusco mais existo.
      Por dentro me ilumino, sol oculto,
      por fora te ajoelho, corpo místico.

      Não me acordes. Estou morta na quermesse
      dos teus beijos. Etérea, a minha espécie
      nem teus zelos amantes a demovem.

      Mas quanto mais em nuvem me desfaço
      mais de terra e de fogo é o abraço
      com que na carne queres reter-me jovem.


      Natalia Correia
        "And if we are courageous enough to face the truth, the world will change."   Alice Miller

        Poesia Açoriana
        #3

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        Requiescat


        Direi, pela noite, não ódio que tivesse
        Nem detestar vida corpórea e ninhos de manha,
        Mas meu alto cansaço, a tristeza de lá
        Onde se sente o aqui traído, a falsa entranha.

        Direi --- não "fora!" ao mundo que me cinge
        (Outro onde o sei e como chegaria?),
        Mas dos anos de ver, pensar durando
        Retiro uma moeda de nada,
        Fruto do meu suor, e pago o pão que se me deve,
        Compro o silêncio que se me deve
        Por ter cumprido a palavra,
        Trabalhado nas palavras,
        E por elas merecido a terra leve.


                Vitorino Nemesio
               15 de junho de 1971

        (In: Obras completas. Vol. II. Poesia. Lisboa, Imprensa Nacional/Casa da Moeda, 1989, p. 634)
          "And if we are courageous enough to face the truth, the world will change."   Alice Miller

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          #4

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          A UM CONSTRUTOR DE BARCOS QUE FOI MEU PAI

               Os punhos que ergueste contra
               um tempo de promessas
               e a tua voz que não passou além
               do cume dos nossos montes adormecidos,

          MEU PAI:  os barcos que fizeste
               eram pequenos de mais para viajar
               o teu sonho
               a tua raiva
               o teu cansaço

               tu fabricante de viagens
               amordaçadas
               arquitecto de ilhas
               naufragadas

          MEU PAI:  sei bem do tempo
               em que os carangueijos roíam as raízes
               da tua ilha - apodrecendo
               e os barcos murchavam
               na baía
               (recordo que a viola perdeu
               a voz num prego da parede.)
               E daí
               o teu barco de tédio e cansaço
               único a não esbarrar
               contra os muros das ilhas vizinhas.


          Urbano Bettencourt

          in 21 Poetas de Aqui e de Agora, Angra do Heroísmo, 1972
            "And if we are courageous enough to face the truth, the world will change."   Alice Miller

            Poesia Açoriana
            #5

            ana

            • Visitante
            Uma piscadela de olho ao Vitorino Nemésio!  ;)
            Uma boa escolha maris!  :up
            Adoro o poema "A concha"...

            Escusado será dizer que já sinto um pouco de saudades dos verdes que outrora me toldaram a retina...........  :wor

              Poesia Açoriana
              #6

              Zahid

              • Visitante
              ROCHA DO MAR

              Ao Armando Santos, primo e poeta


              Já uma vila dos Açores
              Loze ligeira no horizonte.
              Será num alto das Flores,
              No Pico ou logo de fronte,
              Espraiadinha num cume
              Ou encolhida em Calheta?
              O ser nossa é que resume
              Seus amores de pedra preta.
              Para vila da Lagoa
              Falta-lhe a cidade ao pé,
              A distância de Lisboa
              Já não me lembro qual é.
              Para Vila Franca ser
              Falta-lhe o ilhéu à ilharga,
              É airosa pra se ver,
              Mais comprida do que larga.
              Povoação não me parece,
              Nos padieiros não condiz,
              Aos camiões estremece,
              Mas não aguenta juíz.
              Pra Ribeira Grande falta-lhe
              O José Tavares no quintal,
              Rija cantaria salta-lhe
              Dos cunhais, branca de cal,
              Mas não é Ribeira Grande:
              Essa merecia foral!
              No dia em que haja quem mande
              Será cidade mural.
              Nordeste - só enganada
              Na vista da Ilha Terceira,
              Longe de Ponta Delgada,
              Sua sede verdadeira.
              Nem Vila do Porto altiva,
              A mais velha da fiada,
              Em suas ruas cativa
              Como princesa encantada.
              De cimento a remendaram,
              Coroaram-na de aviões,
              Mas eternos lhe ficaram
              Os bojos dos seus tàlhões.
              Se é a Praia da Vitória
              Não lhe reconheço a saia:
              Enchem-lhe a areia de escória,
              Ninguém diz que é a mesma Praia.
              Talvez seja Santa Cruz
              Da Graciosa, ou a sua Praia,
              Com o Carapacho e a Luz
              Cheirando a lenha de faia.
              De S. Jorge a alva Calheta
              Ou a clara vila das Velas,
              E o alto, alvadio Topo
              Com um monte de pedra preta
              Dando realce  janelas.
              As Lajes ou o Cais do Pico,
              A escoteira Madalena
              Vilas são de vinho rico,
              Qual delas a mais morena.
              Santa Cruz das Flores seria
              Essa vila açoriana
              Ou as Lajes de cantaria
              Do bom Pimentel soberana.
              Finalmente, só o Rosário,
              Que do Corvo vila é,
              Pequena como um armário
              Ou um chinelinho de pé.
              Mas não é nenhuma delas,
              Nem Água de Pau, que o foi,
              S. Sebastião, ou Capelas,
              Da Terceira arca de boi
              Como a nossa Vila Nova,
              Que nem chegou a ser vila,
              Tão branca na sua cova,
              Tão airosa, tão tranquila.
              Ah, já sei! É delas, fundo,
              Que o muro alvo se perfila
              Contra os corsários do mundo
              Que invejam a nossa vila,
              Nosso povo, na folia
              De uma rocha de mar bravo,
              Que o Guião da autonomia
              Só por morte torna escravo.

              24 de Abril de 1976



              Vitorino Nemesio


              Uma grande viagem aos Açores...

              Beijo para ti Maris!

              Zahi

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                #7

                Offline maris

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                Para uma grande amiga de viagem para Aveiro...

                Saudade


                Eu tenho dentro de mim,
                tenho dentro do peito,
                uma saudade, que enfim,
                me esquece o que tens feito.

                Eu tenho dentro de mim,
                tenho cá dentro em verdade,
                aquela saudade, enfim,
                do que me deste em saudade.

                Esta saudade, saudade,
                esta saudade sem fim
                como eu a tenho em verdade
                bem dentro, dentro de mim,
                é talvez, só a verdade
                que deva sair de mim
                em bem estranha saudade.

                Gilberto de Vasconcelos
                (Açores Natural de São Miguel, Nascido
                em 1924. Falecido em 1971.)
                  "And if we are courageous enough to face the truth, the world will change."   Alice Miller

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                  #8

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                  ILHA


                  Só isto:

                  O céu fechado, uma ganhoa

                  pairando. Mar. E um barco na distância:

                  olhos de fome a adivinhar-se, à proa,

                  Califórnias perdidas de abundância.


                  Pedro da Silveira

                  in A ilha e o Mundo, Lisboa, 1952
                    "And if we are courageous enough to face the truth, the world will change."   Alice Miller

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                    #9

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                    ETERNAMENTE

                    Quando eu morrer hás-de sentir o vento

                    a gritar através da noite escura.

                    - Sou eu, sou eu, que vim da sepultura

                    protestar contra o nosso afastamento.


                    Quando eu morrer, se ouvires um lamento

                    rezado pela brisa que murmura,

                    sou eu, sou eu, chorando com ternura

                    a saudade do nosso casamento.


                    Quando eu morrer, escuta a voz da água

                    gemendo na vidraça a minha mágoa,

                    a soluçar, a soluçar por ti.


                    E se houvires bater à nossa porta,

                    abre sem medo, meu amor - que importa ? -

                    - Sou eu, sou eu, que nunca te esqueci.



                    Espínola de Mendonça
                    in Sicómoro, Ponta Delgada, 1937.
                      "And if we are courageous enough to face the truth, the world will change."   Alice Miller

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                      #10

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                      A UM CRUCIFXO


                      Pregado em uma cruz de ébano expira
                      O alvor do corpo de marfim deslumbra
                      A vista que divaga na penumbra
                      Dentro de uma cela aonde a alma suspira.

                      Cada pisada chaga é de safira;
                      Reluz na sombra que o altar obumbra!
                      São alforges as lágrimas... Ressumbra
                      Em tudo a dor que em êxtase delira.


                      Doce Jesus ! sem conhecer a vida,
                      E sem saber porquê, na flor da idade,
                      Chora a teus pés a infância amortecida:

                      Ver perder-se a legria, a mocidade,
                      Ou ver-te exengue nessa cruz erguida,
                      Qual fará, bom Jesus, mais piedade ?



                      Teófilo Braga
                        "And if we are courageous enough to face the truth, the world will change."   Alice Miller

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                        #11

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                        A UM POETA
                        Surge et ambula


                        Tu, que dormes, espírito sereno,
                        Posto à sombra dos cedros seculares,
                        Como um levita à sombra dos altares,
                        Longe da luta e do fragor terreno,

                        Acorda! é tempo! O sol, já alto e pleno,
                        Afugentou as larvas tumulares...
                        Para surgir do seio desses mares,
                        Um mundo novo espera um só aceno...

                        Escuta! é a grande voz das multidões
                        São teus irmãos, que se erguem! são canções...
                        Mas de guerra... e são vozes a rebate!

                        Ergue-te, pois, soldado do Futuro,
                        E dos raios de luz do sonho puro,
                        Sonhador, faze espada de combate!


                        Antero de Quental
                          "And if we are courageous enough to face the truth, the world will change."   Alice Miller

                          Poesia Açoriana
                          #12

                          ana

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                          Morte que mataste Lira

                          Morte que mataste lira
                          Mata-me a mim que sou teu
                          Mata-me com os mesmos ferros
                          Com que a lira morreu

                          A lira por ser ingrata
                          Tiranamente morreu
                          A morte a mim não me mata
                          Firme e constante sou eu

                          Veio um pastor lá da serra
                          À minha porta bateu
                          Veio me dar por notícia
                          Que a minha lira morreu

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                            Poesia Açoriana
                            #13

                            Offline Scorpio_Angel

                            • *****
                            • Membro Vintage
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                            • I faced it all and I stood tall; And did it My Way
                              • My Way
                            Morte que mataste Lira
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                            Sempre a conheci e não fazia ideia que vinha dos Açores!  :o

                            (as coisas que uma pessoa fica a saber no fórum :))
                              ~ Journey Towards Angel Wings ~

                              "People should be allowed to fall in love with whoever they want. I mean, otherwise what's the point of living?..." - O&A

                              "A vontade, se não quer, não cede; é como a chama ardente, que se eleva com mais força quanto mais se tenta abafá-la." - Dante Alighieri

                              Poesia Açoriana
                              #14

                              Eyre

                              • Visitante
                              Morte que mataste Lira
                              Popular

                              Sempre a conheci e não fazia ideia que vinha dos Açores!  :o

                              (as coisas que uma pessoa fica a saber no fórum :))

                              É verdade, Morte Que Mataste Lira é popular açoriana. Eu tenho essa música cantada pelo Adriano Correia de Oliveira que foi um dos intérpretes que gravou esta música..
                              « Última modificação: 24 de Maio de 2006 por Eyre »

                                Poesia Açoriana
                                #15

                                source_code

                                • Visitante
                                Aqui fica a letra de umas das minhas músicas preferidas... é o que mata a saudade das minhas ilhas.  :'(

                                Link: http://www.youtube.com/watch?v=cnwOWnxbnls

                                Ilhas de Bruma
                                Autor: José Ferreira


                                1.
                                Ainda sinto os pés no terreiro
                                Onde os meus avós bailavam o pezinho
                                A bela Aurora e a Sapateia
                                É que nas veias corre-me basalto negro
                                E na lembrança vulcões e terramotos



                                Refrão:
                                Por isso é que eu sou das ilhas de bruma
                                Onde as gaivotas vão beijar a terra
                                (REPETE-SE)



                                2.
                                Se no olhar trago a dolência das ondas
                                O olhar é a doçura das lagoas
                                É que trago a ternura das hortênsias
                                No coração a ardência das caldeiras.
                                Refrão



                                3.
                                É que nas veias corre-me basalto negro
                                No coração a ardência das caldeiras
                                O mar imenso me enche a alma
                                E tenho verde, tanto verde a indicar-me a esperança.


                                   

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