A Interrogação do Orgulho ou a Afirmação do Arco Íris?
Sobre a Marcha Gay em Lisboa
Quero dizer a Esther Mucznick que julgava começar bem o dia quando li, a 25 de Junho passado, o seu artigo de opinião no Público intitulado Orgulho (?) “Gay”. Julgava que sim, por sempre ter considerado úteis as palavras com que nos tem presenteando em representação da sua comunidade. Conciliados o seu nome e o título do referido artigo, precipitei-me ao achar que alguém com essa capacidade de representação a todos, “cidadãos de um país livre e democrático” como diz, trouxesse um bocadinho de luz sobre a tanta escuridão em que ultimamente nos temos perdido e agrilhoado ao falar de orientações sexuais. Depois o café que acompanhava a minha leitura foi azedando e pedi um outro, ou para ver se conseguia ler em jeito mais doce o que dizia ou para me certificar se estaria suficientemente acordado para tentar encontrar sentido na incoerência e na desadequação das suas palavras. Não consegui. Tenho francas dúvidas sobre a exactidão da sua percepção de liberdade e de democracia: jamais me aventuraria a dizer que não se sente livre e democrata, mas sei que a forma como o exprime em registo escrito de nada vale. Pior: no caso das considerações que tece ao movimento lésbico, gay, bissexual e transgender (LGBT) está seguramente distante da história e dos propósitos que o têm regido. O que dá origem ao seu artigo é algo que seguramente não percebeu: diz e muito bem que há direito a que nos manifestemos mas, tão curiosamente, desaprova de seguida que o façamos. Porque receia um (virtual) desacato da ordem com base numa movimentação pública onde certamente nunca esteve, mas onde certamente também nunca a desordem se instalou, como saberia se por lá alguma vez tivesse estado. O que tentamos em cada marcha, isso sim, é que essa ordem se faça realmente inclusiva, que de uma vez por todas nos coloque lado a lado, e que o espaço se tinja de cores, para que o céu não volte a constelar-se das cinzas em que acaba(ra)m na história alguns (e não poucos) que tenta(ra)m o direito à figuração nessas cores. Disto saberá certamente mais do que eu, até porque evoca a história nas suas palavras. Mas não sei se sabe que são essas angustiantes e hediondas imagens de cinzas que muit@s de nós lembram, também ao marchar pelas ruas de uma cidade, quando revemos a história da comunidade que a senhora representa. Não sei se sabe que muitos de nós marcham transportando consigo um triângulo rosa, gerado nessas terríveis cinzas (e em tributo aos que as consubstanciaram) que não queremos voltar a vislumbrar no céu de Lisboa ou de qualquer outro lugar. Lembre-se, por favor, que a “ordem” que a tranquiliza, pode reverter-se e aniquilar (pela viva alma do fogo e do crime e/ ou pela violentíssima regra do silêncio) muitos de nós, que ao querem apenas dizer “também estamos aqui”, podem ser desfeitos num pó, que tem muito mais de terreno e de quotidiano do que de celeste e contra o qual não vamos deixar de lutar.
Ainda me restava uma esperança: a de que o ponto de interrogação que colocava a seguir à palavra “orgulho” nos esclarecesse. Mais uma vez, enganei-me: interrogou, mas respondeu mal. Também não sei se sabe que de há longa data muit@s de nós (activistas, investigadores, quem quer que seja que pensa e reflecte sobre a necessidade de afirmarmos a nossa existência) vem tentando fazer perceber que a semântica que reveste a citada a palavra não é pacífica. Se por um lado nos debatemos com a inexistência de um vocábulo português que dê a “pride” um sentido idiomático tão dignificante e elucidativo quanto encontramos na origem lexical desta última palavra (e bem vinda seja se nos oferecer alternativas), por outro continuamos a encontrar sentido na utilização de “orgulho”. Não se choque, minha senhora, porque o único sentido que lhe atribuímos é o de nos sentirmos tão pouco envergonhados como devem sentir-se (nomeados seus) “ciganos, deficientes, negros ou judeus” e (acrescento) qualquer ser humano. É pena, pois, que diga que a diferença é característica da democracia, que é uma realidade irrecusável e que, mais adiante, queira cobri-la com uma burca. Que queira defender o que, por decorrência lógica, não se defende: a diferença contemplada numa lei igual para todos. Ao contrário do que julga ser uma solução, não é um todo coerente que queremos, mas um todo que se pinta de cores, esbatidas como num arco-íris, de que temos feito bandeiras. Nas anteriores marchas teria visto muitas destas bandeiras, e se olhasse mais de perto, perceberia que nenhuma das seis cores que as pintam se sobrepõe às restantes. Não há uma cor mais saliente que nos distinga e se algum defeito as bandeiras têm é a de não poderem ser de tamanho infinito para que nela caibam as categorias identitárias que nomeia no seu artigo e todas as outras que a estas se queiram juntar. O que sabemos é que a nossa “escultura interior” se valida com os outros: estou em profundo desacordo consigo quando pretende que nos fechemos nesse interior, porque francamente me parece que dentro de mim mais beleza pode existir se moldada num beijo sem vergonha, numa conversa sobre as minhas alegrias e dificuldades conjugais, nos problemas e nas conquistas dos meus filhos, na plenitude que a todos nós deve ser oferecida, orientações sexuais à parte. É apenas essa troca que queremos tornar pública, politicamente legitimada e celebrada numa marcha que socialmente nos enriquece e nos torna efectivamente visíveis. Acho que melhor entenderia o que “participativo” quer dizer se entendesse que é nesta plenitude humana que queremos, justamente, participar. Há um último desajuste, quando nos fala da necessidade de cumprimento da lei: é que também nós, LGBT’s, a queremos cumprida, desde que contemplativa dessa realidade multicolor. A lei deve servir, acima de tudo e em meu entender, para assegurar que tod@s sejamos felizes (ou pelo menos, não envergonhados) em torno do que queremos ser. É assim que gostaria de ver conciliadas igualdade e diferença. Acho que é assim que o movimento LGBT quererá também.
Nuno Santos Carneiro
Psicólogo
Doutorando da Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade do Porto