rede ex aequo

Olá Visitante08.abr.2020, 17:26:38

Autor Tópico: Recordações, Lembranças, Memórias...  (Lida 15123 vezes)

 
Recordações, Lembranças, Memórias...
#0

Offline abreasasas

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Decidi criar este tópico para que contemos histórias. Histórias da nossa vida e das dos outros, reais ou inventadas. Eu adoro contar histórias e ainda mais ouvi-las (neste caso, lê-las!).
    todos compreendem a utilidade do que é útil.
    ninguém compreende a utilidade do que é inútil
    chuang tse em "capítulos interiores"

    Histórias
    #1

    Offline abreasasas

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    • Membro Ultra
    A primeira história que quero contar aqui é, ao mesmo tempo, um agradecimento a uma senhora desconhecida.

    Há uns meses lembrei-me de perguntar à minha mãe como é que ela tinha ficado assim, tão "liberalista", dado que a minha avó era (é) uma daquelas senhoras "castradoras", que apenas permitia à minha mãe sair de casa para ir para a escola. O que ganhou com isso foi que a minha mãe fugiu de casa aos 18 anos. Mas a minha dúvida era: Onde é que a minha mãe tinha ido buscar a ideia -e a coragem!- de sair assim de casa? Podia ter ficado uma menina tímida e bem comportada para sempre.

    Então a minha mãe contou-me: uma senhora conhecida da minha avó, quando conheceu a minha mãe. deve ter ficado cheia de pena  :-/ dela e aconselhou a minha avó a oferecer o livro "Memórias de uma menina bem-comportada" da Simone de Beauvoir à minha mãe. A minha avó -felizmente!- nunca tinha ouvido falar da bem-dita Simone e, tendo em conta o título do livro, achou que era um bom livro para torturar mais a minha mãe.

    A minha mãe, quando viu o título do livro, ficou enjoada... mas como não tinha muito que fazer, o único grande prazer que tinha era devorar livros. Fossem quais fossem. E começou a ler aquele. A minha mãe tinha 12 anos quando leu o livro e ficou de tal forma impressionada que foi nessa idade que planeou sair da casa aos 18.

    Ainda hoje ela está agradecida à outra senhora e eu também. É incrível como se pode influenciar assim a vida das pessoas...
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      #2

      Offline Magia

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      Humm... interessante! Fugir de casa, dd buscar a coragem? axo k não é termos de coragem mas sim de se nao tas mesmo bem, mudares-te, tao simples kto isso... convem é ser planeado, lol eu dd os 12 k ando a planear a mia tb... ;)
        Podem fazer-me de tudo que eu perdoo, desde que não me mintam.

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        #3

        Offline Ines

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        • aprende a amar as tempestades, não fujas delas...
        :curtain magia ;)


        A isso é k se chama um plano MTO bem planeado :up ;)



        :curtain ;D


        Hmmm...uma história! Bem tão cá vai uma de qd era ainda mto pekenita :P deveria ter os meus 6 anitos tlz ::) E como não poderia deixar de ser, passa-se no meu alentejo. Eu sempre adorei animais, e como "galinha de aviário" qd ia até ao monte dos meus avós maternos...perdia-me nakeles vales e montes :P Bem um belo dia, aconteceu algo k é bastante comum qd morre um pintainho...vai p lixo  :-/ Mas eu citadina de gema...qd vi a minha avó fazer akilo...revoltou-me td cá dentro...Então não vou de modas...toca a ir buscar o desgraçado do bicharoco e fui fazer-lhe um funeral digno de um pitaínho :D Tão peguei numa latita de atum vazia p caixão do bichito...mas dp surgiu-me um problema...é k ele ficava c as patitas de fora...mas pensei "Bem como tb já tá morto mm...n sente dor" tão toca de patir as patitas... ;D ::) E assim foi...enterrei o bicharoco até teve direito a flores e td :up  :o


        Enfim...coisas de criança ;) errr



        :-* a tod@s :up
          De todos os canto do mundo
          Amo com um amor mais forte e mais puro
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          Onde me uni ao mar, ao vento e à lua.

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          #4

          Offline Dolfinne

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          Bem.. eu já contei parte da minha história mas posso aprofundar mais um bocadito...

          Tal como a magia, eu há muito que planeava sair de casa. Só que os meus planos começaram por volta dos 6 anos quando pela primeira vez escrecevi uma carta a minha mãe a relatar-lhe as minhas intenções de sair de casa caso algo não mudasse...

          A verdade é que não mudou nada e por volta dos 12 anos voltei a ameaçar que saía de casa.

          Muita história pelo meio disto (se vamos contar histórias eu tenho toneladas delas, mas esta é a principal).

          Quando fiz 18 anos arranjei trabalho que me deu a oprtunidade de continuar pós férias... já não voltei para a escola e procurei a minha independência. Só que o dinheiro que ganhava não era o suficiente para isso e a minha vida não saía do mesmo sítio.

          Resumindo um bocadito, apareceu-me alguém que me deu a oportunidade de sair de casa, só que mudei de cavalo para burro pois a vida ficou pior, acrescida das demais responsabilidades. Só não acabei com aquilo mais depressa por orgulho e por não querer  voltar para casa.

          O resto da história já é conhecido... passado um tempo voltei para casa, grávida de 6 meses e com uma bagagem pesada de má vivência, tristeza e amargura.

          Fui recebida de braços abertos.

          Desculpem partilhar uma historia triste... a próxima vai ser mais alegre.

          Jinhos

            A impossibilidade do amor é um desbaratar de vagos afectos...

            Histórias
            #5

            Offline cacao

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            Hei dolphinne!!!

            o final da tua história tem duas coisas boas... o seres recebida de braços abertos e o de hoje teres uma filhota de 4 anos!!  ;)

            Um abraço!
              Another one will bite the dust...

              "Se não houvesse nem mar nem amor, ninguém escreveria livros." -  Duras

              "A felicidade é o livre uso das nossas capacidades". - V. Woolf

              "Esta Chuva"
              #6

              Offline beatriz

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              • "my soul has a shadow"
              Aqui vai a minha mais recente Short Story (espero que não esteja longa demais!) :book

              Esta Chuva

              Quando criança, era costume Catarina isolar-se no seu quarto. Não que se desse mal com os pais e irmãos… era mesmo ela que apreciava a solidão. O silêncio.
              Era capaz de passar horas a baloiçar no quintal, sozinha, perdida na sua imaginação. Podiam chamá-la, falar com ela, nada adiantava. Ela permanecia ali, inabalável, baloiçando para trás e para a frente, em leves movimentos, como quem está à espera do óbvio.
              Mas a verdade é que nunca ninguém percebeu o que Catarina tanto esperava.

              Um dia, tinha ainda 7 anos, Catarina observou atentamente o pai a pintar o seu quarto. No fim, comparou as paredes com as folhas do seu caderno, e quando o pai lhe perguntou se as queria pintar, Catarina respondeu que não, que algumas coisas, como o silêncio, não deveriam ser ocupadas. E ficou imóvel durante horas a olhar para elas. Depois, e de repente, pegou no seu caderno e desatou a desenhar. Desenhou e pintou folhas e mais folhas, até terminar o caderno. Só por isso parou.

              Não podia explicar.

              Talvez o silêncio, o inabalável silêncio, aquele que sempre a acompanhara e lhe dara largas à imaginação, fosse o responsável. Ou talvez fosse a impossibilidade voluntária de não pintar as paredes, o proibido, que lhe tivesse enchido a mente de imagens e ilustrações.
              Como se tentasse exprimir todas as palavras que tinha caladas.

              A partir desse dia, todas as tardes, assim que chegava da escola, Catarina corria para o seu quarto e pintava até a hora de jantar. Pouco ligava  correrias e risos que se ouviam do outro lado da janela, ou aos pedidos da mãe para que fosse lanchar.
              Só havia uma coisa que a fazia largar os lápis e os pincéis, mesmo que temporariamente: o baloiço.

              Aos 12 anos, crentes das suas potencialidades, os pais ofereceram-lhe a maior tela que encrontraram à venda.
              Por mais estranho que pareça, Catarina não achou muita piada à ideia. Achou que lhe queriam cobrir as paredes - que lhe queriam roubar o silêncio.  E não ousou um sequer golpe de pincel em tão imponente tela.

              Um ano depois, num domingo à tarde, caiu em tempestade a maior chuva que Catarina alguma vez viu.
              Curiosa, foi até à janela e ficou a olhar para os relâmpagos que, acompanhados pelo retumbar da trovoada, se faziam abater sobre o quintal. De repente, e sem que nada pudesse ser feito, a árvore que lhe apoiava o baloiço foi apanhada por um raio de luz. Quebrando-se em chamas, tombou para o lado, testemunhando a destruição do ser.

              Azar, injustiça, exiguidade.
              Aquilo era tudo que existia.

              Todas as lágrimas que Catarina verteu, dias e dias trancada na escuridão do seu quarto, não fizeram a árvore renascer, ou o baloiço erguer-se no meio do quintal - e não demorou para que Catarina o percebesse. Enxugou as lágrimas e começou a pintar a grande tela que outrora tinha recusado e escondido.

              Mais tarde, cobrindo a janela do quintal, a grande tela mostrava a segura árvore e o seu baloiço, rodeados de flores e relva verde, num lindo dia ensolarado.
              Em frente, Catarina admirava a sua obra, cobrindo também o seu coração da memória de uma tempestade.

              -----------------------------------------------------------------------
                "És alta em mim por essa cicatriz que se abre ao dormir e quando se acorda fica aberta."
                Herberto Helder

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                #7

                Offline mega

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                  Histórias
                  #8

                  Offline cacao

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                  Beatriz,

                  a tua história lembra-me o livro « Meu pé de laranja-lima»...

                  Um abraço!
                    Another one will bite the dust...

                    "Se não houvesse nem mar nem amor, ninguém escreveria livros." -  Duras

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                    Histórias
                    #9

                    Offline Dolfinne

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                    Cacao,

                    Pois tem....


                    E podia contar milhentas histórias boas dela.... muito engraçadas... mas mais tarde...a falta de tempo faz parte do meu dia a dia..

                    Jitos (depois conto)

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                      Histórias
                      #10

                      Offline cacao

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                      Dolfinne,

                      ficamos à espera :)
                        Another one will bite the dust...

                        "Se não houvesse nem mar nem amor, ninguém escreveria livros." -  Duras

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                        #11

                        Offline Magia

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                        eu tb ja ameacei fugir e, inclusivé tentei-o há uns anitos... hehe
                        mas correu mal.. e por isso k dd aí, (12) tenho andado a planear...
                          Podem fazer-me de tudo que eu perdoo, desde que não me mintam.

                          Histórias
                          #12

                          Offline Ines

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                          • aprende a amar as tempestades, não fujas delas...
                          :curtain Dolfinne ;)


                          Isso só denota...k vais em busca dos teus sonhos :up as más experiências...Essas, fazem-nos crescer mm k nesse crescimento existe mta lágrima e dor è mistura!  :-/ Mas nada como sair sempre vencedora e de cabeça erguida ;) E TU saiste :up e tal como disse a nossa kerida forense  :curtain cacao :-* com uma filhota de 4 anitos :) k acredito terá mts razões p se orgulhar da mamã k tem ;)           UMA LUTADORA  :-* ;)





                          :-* a tod@s :up
                            De todos os canto do mundo
                            Amo com um amor mais forte e mais puro
                            Aquela praia extasiada e nua,
                            Onde me uni ao mar, ao vento e à lua.

                            Histórias
                            #13

                            Offline abreasasas

                            • *****
                            • Membro Ultra
                            não sei se alguém gosta de histórias zen, eu adoro. deixam-nos assim, sem nada a dizer. é só aquilo e pronto! aqui ficam algumas




                            Zen Dialogue

                            Zen teachers train their young pupils to express themselves. Two Zen temples each had a child protégé. One child, going to obtain vegetables each morning, would meet the other on the way.

                            "Where are you going?" asked the one.

                            "I am going wherever my feet go," the other responded.

                            This reply puzzled the first child who went to his teacher for help. "Tomorrow morning," the teacher told him, "when you meet that little fellow, ask him the same question. He will give you the same answer, and then you ask him: 'Suppose you have no feet, then where are you going?' That will fix him."

                            The children met again the following morning.

                            "Where are you going?" asked the first child.

                            "I am going wherever the wind blows," answered the other.

                            This again nonplussed the youngster, who took his defeat to his teacher.

                            "Ask him where he is going if there is no wind," suggested the teacher.

                            The next day the children met a third time.

                            "Where are you going?" asked the first child.

                            "I am going to the market to buy vegetables," the other replied.




                            Nothing Exists

                            Yamaoka Tesshu, as a young student of Zen, visited one master after another. He called upon Dokuon of Shokoku.

                            Desiring to show his attainment, he said: "The mind, Buddha, and sentient beings, after all, do not exist. The true nature of phenomena is emptiness. There is no realization, no delusion, no sage, no mediocrity. There is no giving and nothing to be received."

                            Dokuon, who was smoking quietly, said nothing. Suddenly he whacked Yamaoka with his bamboo pipe. This made the youth quite angry.

                            "If nothing exists," inquired Dokuon, "where did this anger come from?"




                            A Parable

                            Buddha told a parable in a sutra:

                            A man traveling across a field encountered a tiger. He fled, the tiger after him. Coming to a precipice, he caught hold of the root of a wild vine and swung himself down over the edge. The tiger sniffed at him from above. Trembling, the man looked down to where, far below, another tiger was waiting to eat him. Only the vine sustained him.

                            Two mice, one white and one black, little by little started to gnaw away the vine. The man saw a luscious strawberry near him. Grasping the vine with one hand, he plucked the strawberry with the other. How sweet it tasted!

                            está tudo aqui
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                              Histórias
                              #14

                              nicsparks

                              • Visitante
                              Responder
                              Humm... interessante! Fugir de casa, dd buscar a coragem? axo k não é termos de coragem mas sim de se nao tas mesmo bem, mudares-te, tao simples kto isso... convem é ser planeado, lol eu dd os 12 k ando a planear a mia tb... ;)



                              Em parte tens que ter muita coragem sim! Fi-lo á cerca de dois anos e pouco e olha que tive que ir buscar coragem, até á minha célula mais pequena dos dedos dos pés!!

                              Também é certo que não o fiz sozinho :heart, mas deixar para trás tanta coisa, mesmo MUITAA :-/ d eum momento para o outro é e foi complicado :-/

                              Hoje olho paar trás e digo VALEU A PENA!! :up, mas olha que com 20 aninhos, nunca pensei passar pelo que passei!!

                              Eu tenho em mente escrever a minha história tim tim , por tim tim, para uma dia mais tarde, dar a conhecer, mas ainda nao tive coragem para pegar na caneta e ir buscar coisas, que estao muito bem guardadas!! :-/

                              :-*

                                Histórias
                                #15

                                Offline barthez

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                                • k os números nunca te façam eskecer as pessoas
                                Um dia um macaco aproximou-se de um lago e viu um peixe a nadar. "Pobre animal", pensou o macaco: "está a afogar-se". O macaco decidiu então salvar o peixe.
                                Lançou-se à água e com muito esforço conseguiu agarrar o peixe e trazê-lo para terra firme.
                                Enquanto o peixe saltava e se contorcia, tentando voltar para dentro da água, o macaco chamou os amigos: "Vejam como está feliz o pobre animal que eu salvei de morrer afogado. Vejam como dança". Isto durou alguns minutos. Depois o peixe morreu. "Pobre animal", disse o macaco: "Morreu de alegria".
                                  "people should be allowed to fall in love with whoever they want! I mean... otherwise what's the point of living?!" once and again

                                  Histórias
                                  #16

                                  Offline skydoll

                                  • **
                                  • Membro Júnior
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                                  • "I Know not what tomorrow will bring."  F. Pessoa
                                                 ESTÁ-SE MUITO SOZINHO NUM BURACO?



                                  “O fundo caiu e não havia maneira de alcançar a parte de cima. Até a luz lá no alto era escura. Um poço sem fundo. Stork Clark ouviu o barulho dos carros que passava e perguntou ao rapazinho que o levava pela mão: «Porque é que não acendem os faróis? Vêem muito bem que estou aqui.» O garoto não respondeu, pois não queria que ele se sentisse envergonhado por ser cego. «Está-se muito sozinho num buraco?» perguntou o rapaz. Stork Clark não respondeu. Estava a conduzir uma parelha de cavalos pelo bosque a fim de levar café aos lenhadores. «Não tenho medo do escuro», continuou o rapaz. «Mas devias ter», disse Stork. Atravessaram a aldeia, e as pessoas sussurravam: «coitado do velho.» Um sussurro silencioso que Stork interpretou como sendo noite. «Talvez seja um eclipse. Em Yucon, vi coisas dessas.» o garoto não compreendeu o sentido da palavra «eclipse», mas julgou que queria dizer «círculo». «Temos estado a andar rumo ao Norte.»
                                       «Conheço o caminho, meu fedelho. Cresci nestes bosques. O sol deve estar a nascer não tarda nada. Vi coisas dessas no Norte.» Deu um puxão na mão do rapaz e passou para a frente, esticando a cabeça como um cavalo de carga.«Devia deixar-me levá-lo pela mão, Stork. Esta noite, há muitos camiões.» Stork meteu para a esquerda e desenvencilhou-se da mão do rapaz, avançando através dos campos na direcção do bosque. O rapaz correu atrás dele, gritando: «Eh, eles querem que eu o leve de volta para jantar, Stork! Eh!» Stork continuou a andar, cambaleando e tropeçando nos sulcos abertos pelas charruas. O garoto continuou a correr atrás dele, puxando-o pelo braço. Stork resmungou e empurrou-o. «Hei-de encontrar o caminho.» «Mas está a ir na direcção do bosque!»
                                       Stork passou por entre os troncos de uma fileira de abetos e desapareceu. O garoto teve medo de ir atrás dele e medo de voltar ao asilo, onde teria de explicar que o velho lhe escapara. Sentou-se e ficou a ouvir os passos de Stork que se afastavam num restolhar de folhas secas, até desaparecerem. Choramingou um bocado e, depois pôs-se a olhar para a lua. Sentiu a noite misteriosa chegar silenciosamente e viu, ao longe, os faróis dos camiões carregados de troncos que passavam na estrada. Viu as casas com as luzes acesas lá dentro. A diferença entre o exterior e o interior. Imaginou as pessoas sentadas no conforto das casas. Ao calor. A falar, a tricotar, a fumar, a beber café ou chá. Levantou-se e atravessou os campos a caminho da estrada. Um grande camião deu-lhe boleia.«Para onde é que vais?», perguntou o motorista. O garoto fitou-o sem dizer uma palavra.«Está-se muito sozinho num buraco?», pensou.”

                                  Lua Falcão, Sam Shepard

                                    Crónicas
                                    #17

                                    Offline Sacerdotisa

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                                    • "Sê plural como o universo" - Pessoa
                                    Dois Testemunhos

                                    De todo o tempo que perdem os portugueses, não há eternidade como o tempo que perdem a não ler. Durante o Verão, o país enche-se de turistas estrangeiros e quase todos- seja na praia, seja no hotel- andam quase permanentemente com um livro na mão. Esta estranha proclividade deixa o português perplexo: "estes bifes são todos malucos- pagam um balúrdio para cá virem e depois, em vez de aproveitarem, passam o tempo todo a ler... até usam os livros abertos para marcar lugares!"

                                    É o  facto cultural mais assustador de todos- os portugueses não lêem livros. Em nenhum outro país da Europa é tão raro ver alguém a ler um livro em público. Causa genuína aflição vê-los a não ler. Na praia, nas salas de espera, nos combóios, enquanto almoçam sozinhos, nos cafés... em toda a parte se vê uma população atarefadamente dedicada à actividade de não- ler. Porque é que não aproveitam os tempos mortos?

                                    Não se sabe. Uma das causas será o facto de o português ter horror à solidão. Esteja onde estiver, e por muito entendida que seja a sua condição, o português prefere estar a olhar para os outros- os tais que, por sua vez (e em vez de estar a ler), estão a olhar para ele. O português tem medo de se mergulhar num livro porque isso significa que deixa de estar à coca. Não pod3e estar em lado nenhum sem sentir que está de serviço, a controlar a situação. olha os que entram, os que saem; os que ficam, os que voam e fazem "Bzzz...". Nem é só por bisbilhotice- é por desconfiança. Não pegam num livro porque têm medo com uma paulada nas costas enquanto estão distraídos. Para um português, ler é estar desprevenido.
                                      Sacer

                                      Crónicas
                                      #18

                                      Offline Sacerdotisa

                                      • *****
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                                      • "Sê plural como o universo" - Pessoa
                                       (continuação)


                                      Os preconceitos contra a leitura são terríveis. Entre o povo, diz-se que faz mal à digestão ler a seguir ao almoço ou ao jantar. (...)

                                      Os contos de bruxas não acabam aí. Existe também a noção grosseira de ler "cansa a vista", porque "faz mal puxar muito pela cabeça". O típico brutamontes defende-se destas acusações dizendo que "ando a trabalhar todo o dia e, quando chego a casa, é para descansar, não é para ler".  A realidade é triste, mas tem de ser revelada: o português prefere cansar-se a trabalhar (e lembremo-nos que tem a capacidade singular de cansar-se muito a trabahar pouco) ao descanso que seria ele ler. resiste aos livros como aos castelhanos. Que outro povo, nos seus ditos, consegue atribuir um sentimento pejorativo à palavra "ler"? A expressão "estar a ler", segundo o Dicionário de Caldas Aulete, é uma locução familiar que significa "estar enganado, dar provas de inexperiência".

                                      Inexperiência! Aí está a raíz do mal. Viver é experimentar, enqunro ler é deixar de viver. É por isso que, nos lugares públicos, preferem passar o tempo a viver- a ver a vida dos outros. No fundo, os portugueses querem saber o que se passa, mais do que querem, através da leitura de livros, passar a saber. Se lêem jornais, é com esta mesma intenção de "saber o que se passsa"- folhear as páginas é como estar fechado num café ainda maior.



                                        Sacer

                                        Crónicas
                                        #19

                                        Offline Sacerdotisa

                                        • *****
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                                        • "Sê plural como o universo" - Pessoa
                                        (continuação)

                                        Têm medo de entrar nas livrarias, que pensam serem só para intelectuais, segundo a definição corrente de "intelelectual"- alguém que lê um livro de vez em quando, por estrita obrigação profissional. Preferem receber os livros pelo correio, num envólucro castanho, como outros povos encomendam publicações pornográficas e clandestinas. Livros esses que não são geralmente livros para ler, mas para ver, e chamam-se quase sempre Os Animais da Terra.

                                        Em contrapartida, não há português que não escreva. O português é uma criatura maravilhosa- assim como fala, mas não ouve; escreve, mas não lê (...) Uma das consequências deste desnível entre quem escreve e quem lê é o seguinte: em Portugal há somente quarenta leitores para cada trinta mail autores. Não há nada mais fácil, hoje em dia que escrever um livro e publicá-lo. E nada mais difícil que achar alguém que o compre e que o leia.

                                        É um círculo vicioso. Como os que escrevem não lêem, não escrevem muito bem. E como, de qualquer modo, não há quem os leia, ainda escrevem pior. É por isso que tantos escritores produzem livros absolutamente ilegíveis. (...)

                                        A tranquilidade necessária à leitura (que nem é assim tanta) não parece abundar no nosso povo. dizem que o povo é sereno, mas um polvo com epilepsia é mais. O português está para a tranquilidade como o "delirium tremens" está para a cirurgia. Nas salas de espera, passam horas a folhear revistas velhas a um ritmo alucinante, como se estivessem a tentar criar um efeito televisivo de animação como os bonecos. (...) Curiosamente, os analfabetos ainda são os que mais se interessam pela leitura propriamente dita. Como não sabem ler, os livros têm para eles um mistério e uma dignidade que só os bons leitors lhes atribuem. (...)


                                        Miguel Esteves Cardoso in A Causa das Coisas
                                          Sacer

                                           

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