rede ex aequo

Olá Visitante31.mar.2020, 17:08:46

Autor Tópico: Poesia  (Lida 110104 vezes)

 
Poesia
#200

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 O SENHOR, DOUTOR MARTIN

O senhor, Doutor Martin, termina
 o pequeno-almoço e entra na loucura. Agosto tardio,
 apresso-me pelo túnel antisséptico
 onde cada morto móvel ainda fala
 em empurrar os ossos contra o poderio
 da cura. E eu sou rainha deste hotel de Estio
 ou a abelha a rir num caule

de morte. Dispomo-nos em linhas descompassadas
 e aguardamos que eles descerrem
 a porta e nos contem aos portões gelados
 do jantar. A senha é pronunciada
 e avançamos para o caldo nas nossas batas
 de sorrisos. Mastigamos em fila, os nossos pratos
 rangem e chiam como giz

na escola. Não há facas
 para cortarmos a garganta. Faço
 mocassins a manhã toda. De início, as minhas mãos
 mantinham-se vazias, desenredadas das vidas
 para as quais trabalhavam. Agora reaprendo
 a usá-las, cada dedo irado ordena
 que eu remende o que outro irá quebrar

amanhã. É claro, eu amo-o;
 o doutor debruça-se sobre o céu de plástico,
 príncipe de todas as raposas, deus do nosso quarteirão.
 As coroas quebradas são novas,
 estas coroas de zé-ninguém. A sua terceira visão
 move-se entre nós, iluminando as caixas isoladas
 onde dormimos ou choramos.

Que crianças grandes nós somos
 aqui. Por todo o lado eu cresço com fulgor
 na melhor enfermaria. A sua profissão são as pessoas,
faz visitas no asilo, um olho oracular
 no nosso ninho. Lá fora no corredor
 o intercomunicador chama-o. O doutor vira costas
 às crianças matreiras que o puxam e caem com o vigor

diluvial de vida em geada.
 E somos magia falando para si própria,
 ruidosa e só. Sou rainha de todos os meus pecados,
 esquecida. Ainda estarei desnorteada?
 Outrora era bonita. Sou eu mesma, agora,
 contando estes mocassins, esta fiada e aquela fiada
 aguardando na estante silenciosa.

Anne Sexton

Fonte: http://davidlfurtado.wordpress.com/2013/04/11/anne-sexton-quatro-poemas/

    Poesia
    #201

    Offline Bolívar

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    • No ano da verdade em combate com a realidade
    A louca que grita tão alto
    Entre a rua que lhe da abrigo
    E faz pensar na ilusão
    Que é balançar no perigo
    No seu gritar tudo insulta
    Em blasfémias roga por mim
    Mas não pode a essa dor
    Ela colocar-lhe um fim
    Sua história ninguém sabe
    Só sua solidão e conhecida
    Foi deixada, abandonada
    Pela gente, pela vida
    Não sabem sua identidade
    Nem seu nome de baptismo
    O único que se sabe
    E que ela brinca com o abismo
    O abismo da razão
    Entre a realidade e o ilusório
    Fala, grita e resmunga
    Ninguém irá ao meu velório!
    Quem a conhece já sabe
    Que de mal não é feita
    Só a tristeza tomou conta
    Da sua estrutura desfeita
    Ela rasga suas roupas
    Num confronto com divino
    Já não acredita na sorte
    Muito menos no destino
    Será ela louca, será ela sim
    Ou nos e que não vemos
    O quanto real deixa de ser
    Tudo aquilo que fazemos
    Não posso dizer que ela esteja
    Tão errada quanto penso
    Pois o universo tem dimensões
    Que o tornam tão imenso
    Ela grita mas sem falar
    Ela já transmite a mensagem
    De que a tanta gente louco
    Nesta hilária viagem.

    HN

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      #202

      Offline lautrèamont

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      CÁRCERE
      Adolfo Luxúria Canibal

      As noites de solidão sob as estrelas
      No vazio do teu quarto
      A casa encaixotada
      O soalho
      E as horríveis linhas paralelas até à parede
      O nada absoluto
      Que te faz vomitar e te tortura
      Nessa letargia de junkie sem tempo
      Fora do tempo

      Tudo por um grama de pó
      Não era isto a revolução
      Não era esta a liberdade lisérgica que te estava prometida

      E as cinzas vermelhas dos teus olhos
      Em contrabando de afectos
      Sentindo o vácuo
      E o medo de não ter a m**** do pó
      De acordar sem a m**** do pó
      Os músculos rígidos
      O poderoso nó no estômago
      Que te faz saltar as tripas
      O medo de não poderes fugir de ti
      De não conseguires esquecer esse corpo

      Tudo por um grama de pó
      Não era isto a revolução
      Não era esta a liberdade lisérgica que te estava prometida

      Esse corpo que já não serve para nada
      Retalhado na sua cosmogonia
      Que te tortura na sua inactividade
      Que te prende agora ao quotidiano metálico da prisão
      Morto nos odores da humidade
      Dejecto pútrido
      Esperma
      Em valsas sonhadas no ressonar da noite de cimento que te envolve
        "A dúvida é uma homenagem prestada à esperança."
        Comte de Lautrèamont

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        #203

        Offline _ricardo_

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        Sul

        Era verão, havia o muro.
        Na praça, a única evidência
        eram os pombos, o ardor
        da cal. De repente
        o silêncio sacudiu as crinas,
        correu para o mar.
        Pensei: devíamos morrer assim.
        Assim: explodir no ar.

        Eugénio de Andrade
          "Great spirits have always found violent opposition from mediocrities. The latter cannot understand it when a man does not thoughtlessly submit to hereditary prejudices but honestly and courageously uses his intelligence." Albert Einstein

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          #204

          Offline haka

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          Adeus

          Já gastámos as palavras pela rua, meu amor,
          e o que nos ficou não chega
          para afastar o frio de quatro paredes.
          Gastámos tudo menos o silêncio.
          Gastámos os olhos com o sal das lágrimas,
          gastámos as mãos à força de as apertarmos,
          gastámos o relógio e as pedras das esquinas
          em esperas inúteis.

          Meto as mãos nas algibeiras e não encontro nada.
          Antigamente tínhamos tanto para dar um ao outro;
          era como se todas as coisas fossem minhas:
          quanto mais te dava mais tinha para te dar.

          Às vezes tu dizias: os teus olhos são peixes verdes.
          E eu acreditava.
          Acreditava,
          porque ao teu lado
          todas as coisas eram possíveis.

          Mas isso era no tempo dos segredos,
          era no tempo em que o teu corpo era um aquário,
          era no tempo em que os meus olhos
          eram realmente peixes verdes.
          Hoje são apenas os meus olhos.
          É pouco, mas é verdade,
          uns olhos como todos os outros.

          Já gastámos as palavras.
          Quando agora digo: meu amor,
          já se não passa absolutamente nada.
          E no entanto, antes das palavras gastas,
          tenho a certeza
          que todas as coisas estremeciam
          só de murmurar o teu nome
          no silêncio do meu coração.

          Não temos já nada para dar.
          Dentro de ti
          não há nada que me peça água.
          O passado é inútil como um trapo.
          E já te disse: as palavras estão gastas.

          Adeus.

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            #205

            Nutopia

            • Visitante
            Amo-te com amor constante
            embora muitos dos humanos amores mais não sejam que miragens.
            Consagro-te um amor puro e sem mácula:
            em minhas entranhas é visível e está gravado o teu amor.
            Se no meu espírito outra coisa houvesse que tu,
            arrancá-la-ia e com as minhas próprias mãos a dilacerava.
            De ti outra coisa não quero que amor;
            do mais, nada te peço.
            Se o obtiver, a Terra inteira e a Humanidade,
            serão para mim como montes de poeira, e os habitantes daqui,
            insectos apenas. 
                                                                   
                                                                                          Ibn Hazm.

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              #206

              Offline Spektrum

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              • [P]oiesis.
              Spoiler (clica para mostrar/esconder)
              Ausência

              Num deserto sem água
              Numa noite sem lua
              Num país sem nome
              Ou numa terra nua

              Por maior que seja o desespero
              Nenhuma ausência é mais funda do que a tua.

                                        Sophia de Mello Breyner Andresen
                “Always be a poet, even in prose.”
                ― Charles Baudelaire

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                #207

                Offline _ricardo_

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                Em todas as ruas te encontro
                em todas as ruas te perco
                conheço tão bem o teu corpo
                sonhei tanto a tua figura
                que é de olhos fechados que eu ando
                a limitar a tua altura
                e bebo a água e sorvo o ar
                que te atravessou a cintura
                tanto tão perto tão real
                que o meu corpo se transfigura
                e toca o seu próprio elemento
                num corpo que já não é seu
                num rio que desapareceu
                onde um braço teu me procura

                Em todas as ruas te encontro
                em todas as ruas te perco

                      Mário Cesariny
                  "Great spirits have always found violent opposition from mediocrities. The latter cannot understand it when a man does not thoughtlessly submit to hereditary prejudices but honestly and courageously uses his intelligence." Albert Einstein

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                  #208

                  Offline Gisty

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                    • Tumblr :)
                  Passei toda a noite, sem dormir, vendo, sem espaço, a figura dela,
                  E vendo-a sempre de maneiras diferentes do que a encontro a ela.
                  Faço pensamentos com a recordação do que ela é quando me fala,
                  E em cada pensamento ela varia de acordo com a sua semelhança.
                  Amar é pensar.
                  E eu quase que me esqueço de sentir só de pensar nela.
                  Não sei bem o que quero, mesmo dela, e eu não penso senão nela.
                  Tenho uma grande distração animada.
                  Quando desejo encontrá-la
                  Quase que prefiro não a encontrar,
                  Para não ter que a deixar depois.
                  Não sei bem o que quero, nem quero saber o que quero.
                  Quero só Pensar nela.
                  Não peço nada a ninguém, nem a ela, senão pensar.


                  Alberto Caeiro

                  Poesia
                  #209

                  dre_o

                  • Visitante
                  Que Medo é esse?


                  Perto estás, mas longe te sinto,
                  cada vez mais ao meu coração minto.
                  Iludo-me com sonhos, talvez fantasias,
                  realidades que tu nunca me darias.

                  Sei os teus medos, conheço as tuas falhas,
                  leio os teus sentimentos frágeis como palhas,
                  choros desesperados que ouço do to teu silêncio,
                  perturbam a minha paz, deixam-me apreensivo...
                  se tu não és certo para mim, para que é que então eu sirvo?

                  Tens medo de sentir, talvez de te entregar,
                  medo que um abraço te faça sequer sonhar.
                  Medo do calor, de um beijo, de uma ternura,
                  medo que este amor seja uma loucura.

                  Mas chega de ser fantoche,
                  manipulado por uns meros fios.
                  A minha alma não arrefece com sentimentos tão frios.

                  Deste boneco não levas mais,
                  o teu controlo acabou.
                  Não te querias magoar...
                  mas fui quem se magoou.

                  André Oliveira

                  « Última modificação: 12 de Janeiro de 2014 por ErXdan »

                    Poesia
                    #210

                    Offline Spektrum

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                    Estás só. Ninguém o sabe.

                       Estás só. Ninguém o sabe. Cala e finge.
                    Mas finge sem fingimento.
                       Nada 'speres que em ti já não exista,
                    Cada um consigo é triste.
                       Tens sol se há sol, ramos se ramos buscas,
                    Sorte se a sorte é dada.

                    Ricardo Reis



                    Lídia

                       Lídia, ignoramos.  Somos estrangeiros
                    Onde que quer que estejamos.

                       Lídia, ignoramos.  Somos estrangeiros
                       Onde quer que moremos, Tudo é alheio
                    Nem fala língua nossa.
                       Façamos de nós mesmos o retiro
                       Onde esconder-nos, tímidos do insulto
                    Do tumulto do mundo.
                       Que quer o amor mais que não ser dos outros?
                       Como um segredo dito nos mistérios,
                    Seja sacro por nosso.

                    Ricardo Reis
                      “Always be a poet, even in prose.”
                      ― Charles Baudelaire

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                      #211

                      Nutopia

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                        #212

                        Offline Spektrum

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                        Quando estou só reconheço

                        Quando estou só reconheço
                        Se por momentos me esqueço
                        Que existo entre outros que são
                        Como eu sós, salvo que estão
                        Alheados desde o começo.

                        E se sinto quanto estou
                        Verdadeiramente só,
                        Sinto-me livre mas triste.
                        Vou livre para onde vou,
                        Mas onde vou nada existe.

                        Creio contudo que a vida
                        Devidamente entendida
                        É toda assim, toda assim.
                        Por isso passo por mim
                        Como por cousa esquecida.


                                    Fernando Pessoa
                          “Always be a poet, even in prose.”
                          ― Charles Baudelaire

                          Poesia
                          #213

                          Offline pink panther

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                          Ithaka

                          As you set out for Ithaka
                           hope your road is a long one,
                           full of adventure, full of discovery.
                           Laistrygonians, Cyclops,
                           angry Poseidon-don’t be afraid of them:
                           you’ll never find things like that on your way
                           as long as you keep your thoughts raised high,
                           as long as a rare excitement
                           stirs your spirit and your body.
                           Laistrygonians, Cyclops,
                           wild Poseidon-you won’t encounter them
                           unless you bring them along inside your soul,
                           unless your soul sets them up in front of you.

                          Hope your road is a long one.
                           May there be many summer mornings when,
                           with what pleasure, what joy,
                           you enter harbors you’re seeing for the first time;
                           may you stop at Phoenician trading stations
                           to buy fine things,
                           mother of pearl and coral, amber and ebony,
                           sensual perfume of every kind-
                           as many sensual perfumes as you can;
                           and may you visit many Egyptian cities
                           to learn and go on learning from their scholars.

                          Keep Ithaka always in your mind.
                           Arriving there is what you’re destined for.
                           But don’t hurry the journey at all.
                           Better if it lasts for years,
                           so you’re old by the time you reach the island,
                           wealthy with all you’ve gained on the way,
                           not expecting Ithaka to make you rich.
                           Ithaka gave you the marvelous journey.
                           Without her you wouldn’t have set out.
                           She has nothing left to give you now.

                          And if you find her poor, Ithaka won’t have fooled you.
                           Wise as you will have become, so full of experience,
                           you’ll have understood by then what these Ithakas mean.


                          Khalil Gibran
                            i love girls who love girls who love boys who love boys

                            Poesia = Jogo de palavras?
                            #214

                            Strings910

                            • Visitante
                            Olá, artistas!  ;D

                            Estive a procurar por alto e acho que não existe tópico igual ou semelhante. Caso esteja enganada, peço desde já desculpas.

                            Hoje, devido a uma série de pequenos acontecimentos e estados de alma que posso resumir numa palavra, fortuna, peguei num caderninho com alguns poemas rabiscados da minha autoria. Após decifrar pacientemente tudo o que lá estava escrito (a minha letra era bastante mais pequena na altura ;D), eis que me assaltaram uma par de questões:

                            Um bom jogo de palavras pode ser considerado poesia?
                            Acham que aquilo que distingue a poesia é essencialmente uma boa sucessão de rimas?
                            A poesia tem de ser um texto obscuro por natureza ou tem de ser claro o suficiente para o leitor perceber de que trata o poema sem andar com grandes rodeios?
                            ... (Pergunta que achem que se encaixe nesta conversa)

                            Apaixonados pelos versos, quero ouvir os seus cantos! ;D

                              Poesia = Jogo de palavras?
                              #215

                              dre_o

                              • Visitante
                              Alô!

                              Um tópico bem interessante a meu ver!
                              Poesia é toda a mensagem que transmite uma mensagem sem limites à imaginação, onde tudo é possível acontecer.
                              É uma escrita que transcende os factos mundanos.

                              Poesia, ao contrário do que muitos possam pensar, não é rimas atrás de rimas.
                              Uma simples metáfora é considerada poesia.
                              Ex.: "Os seus cabelos ardiam como labaredas tocados pelo próprio Sol."
                              É uma frase, contêm uma metáfora e claro, esta é poética.

                              Existem também alguns tipos de poesia, mas não me vou alongar por aí.
                              As mais conhecidas são as ditas "rimas", em estrofes divididas. Muito usada também é a Prosa Poética, que surge em vários textos e livros. Muitos escritores escrevem poesia nos seus livros através de diversas figuras de estilo!

                              Responder
                              Acham que aquilo que distingue a poesia é essencialmente uma boa sucessão de rimas?
                              De todo.
                              Muita da poesia que eu escrevo por exemplo, não rima. E gosto do que escrevo sinceramente.

                              Responder
                              A poesia tem de ser um texto obscuro por natureza ou tem de ser claro o suficiente para o leitor perceber de que trata o poema sem andar com grandes rodeios?
                              Isto vai muito do estado de humor, espírito e consciência do poeta!
                              Todos nós escrevemos coisas mais obscuras, alegres, enigmáticas ou claras!


                              É a minha opinião em relação ao assunto!

                              « Última modificação: 7 de Março de 2014 por ErXdan »

                                Poesia = Jogo de palavras?
                                #216

                                Strings910

                                • Visitante
                                Acho que tocaste num ponto essencial e do qual me esqueço de tempos a tempos, que é do papel da metáfora na poesia. Tanto podemos ter versos, tal como o exemplo que deste, como o próprio poema poder vir a ser uma metáfora de um dado estado de espírito ou acontecimento.

                                Já há mais de um ano, assisti a uma palestra dada pelo James Ragan, poeta americano nascido na antiga Checoslováquia do qual nunca tinha ouvido falar até essa altura, e um dos aspetos de que falou foi isso mesmo, de a poesia ser mais do aparenta em primeira instância e de ser um meio excelente para transmitir o Universo num punhado de palavras, o que só é possível graças às metáforas e imagens que é capaz de criar quando tratada com respeito, paixão e dedicação que merece. Se estiveres interessado e tiveres oportunidade de encontrar algo dele, aconselho. A sua poesia, ou aquilo que me foi dado a conhecer, para ser mais precisa, assenta muito nestas duas figuras. Dá trabalho ler o que escreve, de tão rica que é, mas acho que vale o esforço. :)

                                Também me apercebi que são estes os poemas que mais me enchem o espírito, pois não me entregam a sua mensagem de mão dada, o que me permite não apenas dar asas à imaginação sobre o que é que o poeta pretendeu transmitir, mas também dar-lhe o meu próprio toque graças a interpretação que, no momento, fez mais sentido de acordo com a minha pessoa. Desta forma, posso dizer que peço emprestado o poema e que passa a ser meu, nem que seja apenas naquele instante. ;D

                                  Poesia = Jogo de palavras?
                                  #217

                                  Strings910

                                  • Visitante
                                  E sim, acho que tens razão quanto à questão da clareza. O poema é aquilo que eu quiser que seja, sobre o que quiser e como eu quiser. Basta olhar para Fernando Pessoa & Co., que escreve sobre os mais diversos assuntos, de N formas.

                                  Veio-me agora à memória "Cansaço" de Álvaro de Campos. Claro, direto, sem rimas atrás de rimas e nem por isso vale menos enquanto poema ;D

                                  O que há em mim é sobretudo cansaço
                                  Não disto nem daquilo,
                                  Nem sequer de tudo ou de nada:
                                  Cansaço assim mesmo, ele mesmo,
                                  Cansaço.

                                  A subtileza das sensações inúteis,
                                  As paixões violentas por coisa nenhuma,
                                  Os amores intensos por o suposto alguém.
                                  Essas coisas todas -
                                  Essas e o que faz falta nelas eternamente -;
                                  Tudo isso faz um cansaço,
                                  Este cansaço,
                                  Cansaço.

                                  Há sem dúvida quem ame o infinito,
                                  Há sem dúvida quem deseje o impossível,
                                  Há sem dúvida quem não queira nada -
                                  Três tipos de idealistas, e eu nenhum deles:
                                  Porque eu amo infinitamente o finito,
                                  Porque eu desejo impossivelmente o possível,
                                  Porque eu quero tudo, ou um pouco mais, se puder ser,
                                  Ou até se não puder ser...

                                  E o resultado?
                                  Para eles a vida vivida ou sonhada,
                                  Para eles o sonho sonhado ou vivido,
                                  Para eles a média entre tudo e nada, isto é, isto...
                                  Para mim só um grande, um profundo,
                                  E, ah com que felicidade infecundo, cansaço,
                                  Um supremíssimo cansaço.
                                  Íssimo, íssimo. íssimo,
                                  Cansaço.


                                  « Última modificação: 8 de Março de 2014 por Strings910 »

                                    Poesia
                                    #218

                                    Nutopia

                                    • Visitante
                                    I am in need of music that would flow
                                    Over my fretful, feeling fingertips,
                                    Over my bitter-tainted, trembling lips,
                                    With melody, deep, clear, and liquid-slow.
                                    Oh, for the healing swaying, old and low,
                                    Of some song sung to rest the tired dead,
                                    A song to fall like water on my head,
                                    And over quivering limbs, dream flushed to glow!

                                    There is a magic made by melody:
                                    A spell of rest, and quiet breath, and cool
                                    Heart, that sinks through fading colors deep
                                    To the subaqueous stillness of the sea,
                                    And floats forever in a moon-green pool,
                                    Held in the arms of rhythm and of sleep.


                                                                                     Elizabeth Bishop
                                    « Última modificação: 26 de Março de 2014 por Nutopia »

                                      Poesia
                                      #219

                                      Offline lxmartini

                                      • *****
                                      • Membro Ultra
                                      • Género: Masculino
                                      Só se pode dizer amante da poesia se for ao Mês da Poesia de SJM :P

                                         

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