rede ex aequo

Olá Visitante25.mai.2020, 05:39:31

Autor Tópico: Estado Novo  (Lida 14128 vezes)

 
Estado Novo
#0

EYre

  • Visitante

O que sabemos nós sobre como era Portugal antes do 25 de Abril? O que temos ouvido contar aos nossos pais e aos nossos avós? Que pequenas histórias temos conhecimento e temos para contar? O que pensamos sobre esta época da nossa história? Para os mais novos, têm falado sobre o Estado Novo na escola?

Digam de vossa justiça.

    Estado Novo
    #1

    Whisper

    • Visitante
    A minha avo sempre que fala do 25 de abril diz que naquela altura o pais estava melhor! Que depois do 25 de abril deram cedencia de passagem a toda agente na escola mesmo que fossem burros e que é porisso que hoje em dia portugal está no estado visto que esta a ser governado por essas pesosas! Diz tambem que agora a muito mais vandalismo que antes e que antes havia mais respeito e mais honestidade! De resto não ouvi falar muito mais, so as tais cenas das pessoas nao se poderem reunir na rua, e das pessoas serem presas so por terem opiniões diferentes! Honestamente não tenho nenhuma opiniao criada sobre o 25 de abril em alguns aspectos acho que Portugal ficou melhor obviamente o Salazar não nos deixava desenvolver e porcausa dele nos atrasamos bastante mas no entanto acho que muita coisa má veio com o 25 de abril...

      Estado Novo
      #2

      DaRk_WiNgS

      • Visitante
      A minha avó passa a vida a falar do passado...até chateia...
      Sempre fala do Salazar,ele é que rockava nakela altura..epah o gajo devia ser mesmo bom...fonix..enfim....passa a vida a dizer que no poupar é que está o ganho cm mandava o Salazar..bah.....lá vem censura again.. >:(

        Estado Novo
        #3

        Offline kat

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        eu sei d mt coisa antes d 25 d abril e d cm as coisas eram..até pk venho d uma famila c 1 paxado comunista..e o meu bisavo era militante d partido comunista e mts x xegaram a revistar.lh a casa ms p sorte ele nc foi preso..nakela altura era mt dificil ter.s 1 ideal politico diferente, n tnh liberdade nhm p protestar contra o regime politico em vigor..e para alem dixo eram tempos mt dificeis a nivel económico pois a miséria era generalizada e havia pouca gente c condições económicas estáveis..axo q eram tempos complicados, a tds os niveis, d td o q me contaram n parece q foxe mt facil viver numa ditadura onde és mt prexionada e vives c medo e sem qq liberdade p te xprexares...

        axo q na xcola s devia falar + sobre os estado novo e td akilo q ele implicou..fala.s mt no geral e eu axo q se deveria aprofundar 1 pouco + pois creio q mt gente inda está mt às xcuras em relação ao estado novo e ao 25 d abril..
          We're all wounded. We carry our wounds around with us throughout life and eventually they kill us. Things happen that leave a mark in space, in time... in us.

          Why do you let me stay here?

          Estado Novo
          #4

          Offline blueboy

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             A minha familia como vem de uma aldeia acho que não sentia muito a "opressão" do estado, ou então até gostavam  :( mas a verdade é que nunca me falaram sobre isso, e a minha mãe era demasiado nova e tb não me sabe dizer nada.
             Em Novembro passado participei como "coro/figurante" numa peça de Teatro na biblioteca de Sintra, chamada "Liberdeade, Liberdade" que abordava, não o 25 de Abril, mas os tempos aureos de Salazar e ao principio, quando falavam das torturas e das prisões não achei muito realista, mas no fim de cada sessão ao ver o publico a aplaudir quase com lágrimas nos olhos, e vinham ter connosco, jovens figurantes, e nos diziam cada coisa, comecei a acreditar que se calhar aquilo não era nenhum exagero, até porque agora conheço casos de pessoas amigas que tiveram familiares afectados pela opressão do Estado Novo... E essa Grande Treta dos cofres tarem cheios... NUNCA ACREDITEI... É preciso ter lata para afirmar "Portugal nessa altura é que era bom"  >:( >:( 
            Ainulindalë

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            #5

            Offline candy cane

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              • não estou in the mood
            e que antes havia mais respeito

            com muito medo à mistura
              Though nothing can bring back the hour
              Of splendor in the grass, of glory in the flower
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              Strength in what remains behind

              Wordsworth
              | www.naoestouinthemood.blogspot.com |

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              #6

              Offline southboy

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              O Estado Novo só contribui para o atraso do país! Ainda hoje, passados quase 32 anos do Golpe Militar do 25 de Abril que devolveu Portugal à liberdade, o nosso país é influenciado por esse período de ditadura que manchou o século XX português.  :-\

              E será que hoje, em pleno século XXI, já somos um país completamente democrático ou ainda haverá muito para fazer?  ::)
                O que torna um sonho irrealizável é a inércia de quem sonha. ;)

                http://passarodosul.blogspot.com/

                Estado Novo
                #7

                Offline HumanNature

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                O Estado Novo só contribui para o atraso do país! Ainda hoje, passados quase 32 anos do Golpe Militar do 25 de Abril que devolveu Portugal à liberdade, o nosso país é influenciado por esse período de ditadura que manchou o século XX português.  :-\

                E será que hoje, em pleno século XXI, já somos um país completamente democrático ou ainda haverá muito para fazer?  ::)

                Ao ler este tópico pensei exactamente nisso!
                A época do 25 de Abril só contribuiu para o atraso no nosso país e ainda hoje "sofremos" um pouco isso!
                Em relação à tua questão o meu pai costuma dizer que isto qualquer dia, volta ao mesmo, só com a diferença de não existir a PIDE e haver liberdade de expressão, manifestações etc...
                Mas os meus avós falam muito da fome que houve na altura quando o Salazar estave no poder em plena época de guerra, de como eram aqueles tempos e também da falta de liberdade de expressão o medo de se poder criticar o regime...
                Graças a deus e aos militantes de Abril existiu o 25 de Abril, pode não ter corrido tudo na perfeição desde aí, mas tenho orgulho disso ter acontecido e termos saído daquilo, e de saber que houve gente que lutou para que hoje em dia possamos pensar, criticar, falar sem repressões sobre o estado do nosso país e de quem o conduz!
                  This Who I Am, Like it or Not!
                  «Express Yourself Don't Repress Yourself»

                  Estado Novo
                  #8

                  Offline southboy

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                    • Pássaro do Sul
                  O Estado Novo só contribui para o atraso do país! Ainda hoje, passados quase 32 anos do Golpe Militar do 25 de Abril que devolveu Portugal à liberdade, o nosso país é influenciado por esse período de ditadura que manchou o século XX português.  :-\

                  E será que hoje, em pleno século XXI, já somos um país completamente democrático ou ainda haverá muito para fazer?  ::)

                  Ao ler este tópico pensei exactamente nisso!
                  A época do 25 de Abril só contribuiu para o atraso no nosso país e ainda hoje "sofremos" um pouco isso!
                  Em relação à tua questão o meu pai costuma dizer que isto qualquer dia, volta ao mesmo, só com a diferença de não existir a PIDE e haver liberdade de expressão, manifestações etc...
                  Mas os meus avós falam muito da fome que houve na altura quando o Salazar estave no poder em plena época de guerra, de como eram aqueles tempos e também da falta de liberdade de expressão o medo de se poder criticar o regime...
                  Graças a deus e aos militantes de Abril existiu o 25 de Abril, pode não ter corrido tudo na perfeição desde aí, mas tenho orgulho disso ter acontecido e termos saído daquilo, e de saber que houve gente que lutou para que hoje em dia possamos pensar, criticar, falar sem repressões sobre o estado do nosso país e de quem o conduz!

                  E não é só isso! Acho que fomos um país que em 30 anos conseguiu evoluir bastante em relação ao que era o Portugal da Ditadura, em comparação com outros países que demoraram mais tempo a modernizarem-se. No entanto, esta evolução não foi a suficiente para que Portugal pudesse hoje ser um país melhor a nível cultural e social. Ainda há muito por fazer!
                    O que torna um sonho irrealizável é a inércia de quem sonha. ;)

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                    Estado Novo
                    #9

                    EYre

                    • Visitante
                    O meu avô uma vez foi preso pela GNR porque foi pagar os impostos e saiu a reclamar e dizer que o governo andava a roubar o pessoal. O edifício da GNR era perto e eles ouviram, foi o suficiente para o prenderem. É curioso porque eu acho que ele até devia de simpatizar com o Salazar, mas pronto, naquele dia pesou-lhe na carteira, e ele só de se queixar um bocadinho, e nada de muito consequente, foi logo preso..

                      Estado Novo
                      #10

                      nakedboy

                      • Visitante
                      (...)
                       Diz tambem que agora a muito mais vandalismo que antes e que antes havia mais respeito e mais honestidade!
                      (...)
                      Isso era porque havia censura na altura e não se podia noticiar o que acontecia verdadeiramente no País...

                      O Estado Novo foi um regime que parece em que tudo eram sobre rodas, mas que não era bem assim.
                      Antes de mais, tenho 31 anos, por isso não tenho experiência vivida do regime, apenas o que estudei, li, ouvi; por isso vale o que vale.

                      Na altura, havia as perseguições e assasinatos políticos; não se podia ter opinião própria; a pobreza era imensa, havia pessoas que andavam descalças e eram perseguidas também por isso.
                      Raparigas eram separadas dos rapazes nas escolas;
                      Era-se obrigado a pertencer à Mocidade.

                      Concluindo... era-se obrigado a seguir os ideais do regime ou então cadeia! :-\

                        Estado Novo
                        #11

                        EYre

                        • Visitante
                        Já para não falar dos manuais escolares que estavam impregnados da ideologia do Deus, pátria e família!! Desde muito novo que a educação ideológica era feita!

                          Estado Novo
                          #12

                          Offline Diabinha

                          • ****
                          • Membro Sénior
                          • Género: Feminino
                          Estado Novo...
                          Por acaso às vezes ponho-me a imaginar como seria manter uma relação homossexual nesse tempo.
                          Se nem as coisas básicas como a liberdade de expressão podiam existir, como seria amar alguém do mesmo sexo?
                          Gostava de ouvir o testemunho de alguem desse tempo.

                            Estado Novo
                            #13

                            Offline Gharam

                            • *****
                            • Membro Elite
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                            A minha avo sempre que fala do 25 de abril diz que naquela altura o pais estava melhor!

                            a minha avó tb... ela é fã de Salazar, mas ela teima em ignorar mtas das coisas k estavam mal nesse tempo e k ela na sentiu por estar numa família rica e de direita... os meus pais falam bem do 25 de Abril, embora critiquem certos aspectos.

                            sobre as relações homosexuais, a minha avó dixe-me k os gays tinham k rapar o cabelo para as pexoas saberem kem eram (tipo judeus com a estrela de David) mas não sei se as coisas iam a exe extremo, mas sei k era mt, mas msm mt dificil, impoxível até, nos meios mais rurais. engraçado, é k a minha avó falou em termos de homosexualidade masculina, pelos vistos, duas mulheres juntas era coisa k nem seker se punha  :P

                              "Quem nos deu asas para andar de rastos? Quem nos deu olhos para ver os astros - Sem nos dar braços para os alcançar?!... " - Florbela Espanca

                              "Gostaria muito de quebrar certas ideias à martelada. Infelizmente nenhuma das ideias que me incomodam foi moldada em cerâmica"

                              (\ /)
                              ( . .) c(")(")

                              Estado Novo
                              #14

                              EYre

                              • Visitante
                              A minha avó passa a vida a falar do passado...até chateia...
                              Sempre fala do Salazar,ele é que rockava nakela altura..epah o gajo devia ser mesmo bom...fonix..enfim....passa a vida a dizer que no poupar é que está o ganho cm mandava o Salazar..bah.....lá vem censura again.. >:(
                              A minha avo sempre que fala do 25 de abril diz que naquela altura o pais estava melhor!

                              a minha avó tb... ela é fã de Salazar, mas ela teima em ignorar mtas das coisas k estavam mal nesse tempo e k ela na sentiu por estar numa família rica e de direita... os meus pais falam bem do 25 de Abril, embora critiquem certos aspectos.


                              Pois é, há uma geração em que muitas pessoas gostavam do Salazar, que é mais oui menos a geração dos nossos avós. Eu acho piada porque ás vezes vou no autocarro e ouço as pessoas mais velhas a falar e prontos, quando começam a criticar como isto está e mais não sei o quê começo logo a ver o rumo que a conversa leva. "Precisavamos era outra vez do Salazar", "o Salazar é que faz cá falta para por ordem nisto", ...

                              Não sei, se calhar é alguma dificuldade de adaptação aos novos tempos à mistura com algumas saudades da sua própria juventude.

                              Para outras pessoas é porque passaram dificuldades e devido ás dificuldades que passaram tornaram-se mais duras, mais intolerantes. Por exemplo, no outro dia ia no autocarro a ouvir uma senhora dizer que tinha já não sei quantos filhos e que os tinha criado a todos, "com a graça de Deus" e que ia lavar para o lavadouro público de manhazinha com o frio e os filhos iam todos atrás e mais não sei o quê. E continuava a senhora "elas agora querem é andar na moda, e ir para oas cafés"... :P

                              Em relação ao crime, creio que era um facto que existia menos crime em Portugal, mas havia muito mais miséria do que há agora e muito mais injustiça social. Para além, é claro da repressão e da falta de liberdade.

                                Estado Novo
                                #15

                                nakedboy

                                • Visitante

                                Pois é, há uma geração em que muitas pessoas gostavam do Salazar, que é mais oui menos a geração dos nossos avós. Eu acho piada porque ás vezes vou no autocarro e ouço as pessoas mais velhas a falar e prontos, quando começam a criticar como isto está e mais não sei o quê começo logo a ver o rumo que a conversa leva. "Precisavamos era outra vez do Salazar", "o Salazar é que faz cá falta para por ordem nisto", ...
                                (...)

                                É verdade... também me acontece ouvir isso nos transportes públicos (é o que dá andar de transportes, né EYre lol ;))
                                Às vezes nem ligo, mas muitas vezes saio a remoer >:( porque isso irrita-me bastante. E agora até já nem é só a geração dos nossos avós e isso começa a deixar-me preocupado :-\ :wor

                                  Estado Novo
                                  #16

                                  EYre

                                  • Visitante
                                  Hugo Loetscher conseguiu convencer a televisão suíça a fazer um filme sobre Portugal. O filme foi feito na Primavera de 1964, mas enquanto as imagens - sempre gravadas sob controlo da PIDE - eram inofensivas, o texto que as acompanhava era uma crítica severa ao regime salazarista. Trata-se de uma “elegia política” intitulada “Ach, Herr Salazar” (“Ó Senhor Salazar”) em que o ditador é directamente interpelado. No texto, Loetscher mistura um estilo jornalístico com um estilo literário. Enquanto descreve é inofensivo, mas uma só frase ou palavra acaba por tornar tudo que tinha escrito anteriormente numa grave acusação. Uma acusação que termina com a palavra que mais falta fazia no Portugal de então: liberdade.

                                  Uma hora antes da emissão, a exibição do filme foi cancelada. Parece estranho, mas paradoxalmente este cancelamento contribuiu muito para que Loetscher pudesse alcancar o seu objectivo. A “questão Loetscher” causou um grande escândalo na opinião pública de um país que se dizia um dos mais democráticos do mundo. Nunca se tinha falado tanto sobre Portugal na Suíça e até nos jornais desportivos sairam artigos discutindo a situação política no país de Eusébio. Além de conseguir cumprir o seu objectivo sem que nada fosse mostrado - o filme, aliás, “perdeu-se” - Loetscher tinha ficado famoso a nível nacional.

                                  Ó Senhor Salazar,
                                  Em breve se fazem quarenta anos
                                  que governa.
                                  Quem serviu durante tanto tempo a nação
                                  deve amá-la.
                                  E Portugal merece o amor.
                                  Porque Portugal é um belo país;
                                  onde tudo é fértil
                                  e o solo é estéril.
                                  Célebre pelas suas amêndoas
                                  e pelo seu vinho,
                                  pelos seus campos e jardins
                                  pela sua cortiça e seus moinhos
                                  que já não precisam de vento
                                  e já não moem milho.
                                   
                                  Um país,
                                  que vira as costas à Europa
                                  e espreita o Atlântico
                                  e cujos barcos outrora partiam
                                  “para dar mundos
                                  ao Mundo”.
                                   
                                  E neste belo país
                                  fica uma bela cidade:
                                  Lisboa -
                                  com tantos terraços
                                  para se deixar admirar de todos os lados;
                                  com o Tejo,
                                  que a Lisboa
                                  concede o porto -
                                  uma cidade
                                  onde o sol
                                  passa o inverno.
                                   
                                  Sim,
                                  é um belo país.
                                  Tem uma história
                                  que se tornou arquitectura por toda a parte
                                  como no mosteiro dos Jerónimos.
                                  Aí, mostra o escultor
                                  em monumentos
                                  o que outrora o marujo
                                  em outros continentes
                                  descobriu na natureza.
                                   
                                  E em Queluz,
                                  os reis portugueses
                                  imitaram o Versalhes francês.
                                   
                                  Existem tantos monumentos
                                  quantos nomes para eles podem haver.
                                  Um país
                                  a conhecer
                                  de castelos e cidadelas,
                                  de claustros e igrejas,
                                  um país
                                  cheio de monumentos.
                                   
                                  Mas este,
                                  Senhor Salazar,
                                  é o seu monumento:
                                  a fortaleza de Caxias
                                  do século dezassete
                                  com presos políticos do século vinte.
                                  Na linha do Estoril.
                                  Aqui se passa
                                  quando se vai tomar banho ou se vai para o casino;
                                  o clima desta costa é de louvar,
                                  pois é suave.
                                   
                                  Mas o senhor vive atrás do Parlamento.
                                  Um homem deve estar perto do Governo,
                                  para que nada lhe aconteça.
                                   
                                  O senhor passeia-se
                                  pelos jardins de São Bento.
                                  Diz-se que está muito só
                                  por detrás dessas grades.
                                  E tem mesmo assim todo o povo.
                                  Mas quem governa
                                  nem sempre tem tempo para o povo
                                  e nem sempre sabe
                                  o que se diz pelo país.
                                  E pelo país diz-se muito.
                                   
                                  Ora tem sorte,
                                  Senhor Salazar,
                                  por ter como presidente
                                  o Almirante Tomás.
                                  Onde o governo pisa,
                                  ele lá está -
                                  com música.
                                  E foi eleito sem candidatos opositores.
                                  Que pena que o seu possível adversário
                                  até tenha sido assassinado!
                                   
                                  O Almirante Tomás dirige-se por si ao povo.
                                  Não só aos aspirantes,
                                  não só a esses filhos de oficiais,
                                  não -
                                  também inaugura escolas.
                                  Não escolas para aqueles 18 por cento
                                  que não sabem ler nem escrever.
                                  Estes não votam,
                                  estes não conseguem passaporte.
                                  E quanto às crianças, parece
                                  que em breve estarão na escola
                                  seis em vez de quatro anos,
                                  em breve todas irão para a escola.
                                  Mas, Senhor Salazar,
                                  quem vai para a escola
                                  entende a frase
                                  que se diz pelo país:
                                  A democracia existe.

                                  Também se diz pelo país
                                  que existe pobreza.
                                  Não só aqui e acolá,
                                  mas muito frequente
                                  e continuamente.
                                  Pelo menos o mar tem boas intenções para com o povo.
                                  Melhores do que as da terra
                                  à qual falta água;
                                  disso sabem os agricultores
                                  que não vão ao mar.
                                  Os peixes têm boas intenções para com o povo
                                  e pelo povo metem-se nas redes.
                                  Mas os peixes não vêm todo o ano;
                                  por três meses sossegam.
                                  O peixe proletário
                                  ajuda o proletário do peixe;
                                  mas a natureza já previa
                                  três meses de crise,
                                  e depois vêm as tempestades
                                  em que não se pode ir ao mar -
                                  o que dá menos três tostões e meio por dia
                                  e uma mão cheia a menos de peixe.
                                   
                                  Diz-se pelo país
                                  que há pobreza.
                                  Sabe-se
                                  que o país é pobre.
                                  Por isso antigamente partiam
                                  e traziam ouro e especiarias.
                                  Diz-se pelo país
                                  que também há pobres em Tóquio,
                                  Nova Iorque e Paris
                                  mas não se deve tomar o estrangeiro
                                  como exemplo,
                                  você próprio o diz,
                                  Senhor Salazar.
                                   
                                  E se for verdade
                                  o que se diz pelo país,
                                  que o país é pobre,
                                  então é preciso partilhar a pobreza com mais justiça.
                                   
                                  O que se diz pelo país
                                  não se diz em voz alta;
                                  diz-se
                                  que existe uma polícia secreta.
                                  Dê fardas à polícia secreta
                                  e então suspeitar-se-á de quem realmente é suspeito.
                                   
                                  Naturalmente que existe o milagre
                                  e aconteceu em Fátima.
                                  Lá apareceu a Virgem Maria
                                  aos três pastorinhos.
                                   
                                  O céu, tal como o mar, parece
                                  estar do lado do povo
                                  e os santos não podem tecer considerações
                                  sobre a situação política,
                                  já viram demasiados regimes cair.
                                  Agora vêm outros
                                  e esperam pelo milagre
                                  que um dia possa surgir.
                                   
                                  Que sorte tem,
                                  Senhor Salazar,
                                  em ter um povo
                                  que parte em peregrinação.
                                  Um povo
                                  dotado para rezar
                                  e sempre disposto
                                  a fazê-lo.
                                  É bom que o senhor conte
                                  com o céu,
                                  mas ele também pode enganar
                                  pois o milagre não substitui a política.
                                   
                                  Não se pode deixar tudo nas mãos do milagre
                                  nem nas do fado.
                                  A melancolia do seu povo
                                  é a sua capital, Senhor Salazar.
                                   
                                  Também se diz pelo país
                                  que existe política
                                  e uma grande instituição
                                  que diariamente sai em cada jornal:
                                  a censura.
                                   
                                  E apesar de tudo:
                                  Coimbra.
                                  “Coimbra é uma mulher,
                                  só passa quem souber”, assim diz a canção dos estudantes.
                                   
                                  Aqui outrora o senhor foi professor
                                  em illo tempore.
                                  Aqui teve os jovens como ouvintes
                                  numa das mais antigas universidades da Europa.
                                  Mas nem todos
                                  que querem estudar
                                  aqui chegam e daqui partem -
                                  muitos o senhor agora expulsa
                                  e prende
                                  só porque os estudantes acham
                                  que o Estado Novo,
                                  que o senhor criou,
                                  é um novo estado,
                                  sabendo que nas repúblicas se pode
                                  ser um estudante autêntico.
                                  Lembra-se das noites de Coimbra,
                                  Senhor Salazar?
                                   
                                  Hoje, Senhor Salazar,
                                  tem mais jovens.
                                  Os jovens
                                  de toda a nação.
                                  Geração após geração,
                                  e cada geração durante quatro anos.
                                  Dois anos na pátria
                                  e dois nas colónias
                                  a que o senhor chama “províncias do ultramar”.
                                  Também estes jovens usam uniformes,
                                  não casacas, nem capas negras,
                                  não a batina,
                                  mas sim o caqui do soldado,
                                  e não em Coimbra,
                                  mas em Angola, Moçambique e na Guiné.
                                   
                                  E um dia
                                  eles voltarão.
                                  Se puderem voltar...
                                   
                                  A guerra é um preço
                                  demasiado alto
                                  para festejar o reencontro.
                                   
                                  Não chega
                                  Portugal ter filhos,
                                  têm que ser heróis.
                                  Que poderiam ser de melhor?
                                   
                                  Ó Senhor Salazar,
                                  o senhor sonhou com a disciplina
                                  e fez a ditadura.
                                  O senhor estabilizou as finanças do seu país,
                                  mas agora estabiliza a história.
                                   
                                  Na capela dos ossos em Évora
                                  está escrito:
                                  Nós, ossos
                                  que aqui estamos,
                                  pelos vossos esperamos.  

                                  Isto é que é democracia.
                                  Aqui reina a irmandade,
                                  crânio sobre crânio
                                  sem oposição,
                                  apenas alguma argamassa pelo meio.
                                   
                                  Mas antes da morte
                                  há outras possibilidades
                                  de fazer chegar a justiça às mãos de todos,
                                  mesmo desempenhando
                                  a morte melhor o papel.
                                   
                                  Ó Senhor Salazar,
                                  LIBERDADE também é uma palavra portuguesa.
                                   
                                  « Última modificação: 14 de Fevereiro de 2006 por EYre »

                                    Estado Novo
                                    #17

                                    nakedboy

                                    • Visitante
                                    Bonito!!!!


                                    LIBERDADE também é uma palavra portuguesa.

                                      Estado Novo
                                      #18

                                      EYre

                                      • Visitante
                                      Bonito!!!!


                                      LIBERDADE também é uma palavra portuguesa.

                                      Ya!! Isto foi traduzido pelo meu professor do curso livre de alemão, ele tem uma tese sobre o autor deste discurso. Mas o discurso em si está muito bonito. :up

                                        Estado Novo
                                        #19

                                        MisticThought

                                        • Visitante
                                        Há factos que sustentam alguma saudade, na altura eramos um país rico. Agora temos liberdade, mas há que saber usa-la de maneira correcta. O que agora acontece é vermos políticos corruptos e completamente incompetentes a dar rumo ao nosso futuro inclinando para o lado deles. Claro que Salazar também o fez, mas fez também muito mais por este país do que agora esses burros que não têm outro nome. Em vez de subirmos só descemos, até já vendemos património... qualquer dia vendemos a nossa alma.

                                        Enfim... isso sim entristece-me e dá-me raiva. Andamos a suar para ter dinheiro para comer, vêm os impostos que vão dar luxo a quem está no tapete vermelho. No fundo a liberdade é a deles, não a nossa!

                                        (suspiro)

                                           

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