Ainda muito desunida
PEDRO CORREIA
À esquerda, o diálogo continua muito difícil. O recente Fórum Social deixou bem evidentes as divergências que persistem nas principais forças da esquerda portuguesa. Trocam-se acusações, apontam-se responsabilidades e deixam-se avisos no ar. A unidade na acção com vista a uma alternativa de poder à direita parece ainda vir longe...
«A democracia é, antes de mais, a democracia dos partidos. Mas permite também a expressão livre e autónoma dos movimentos sociais. Nem todas as forças políticas têm esta visão. Algumas destas forças têm uma visão arcaica, insistindo que os movimentos sociais devem estar um pouco ao serviço dos partidos políticos, que são vanguardas desses movimentos», diz ao DN Vieira da Silva, membro do Secretariado do PS e porta-voz socialista.
A acusação visa o PCP. Mas o dirigente comunista Vítor Dias garante que «as divergências e os conflitos» à esquerda «não alteram a tranquilidade» do seu partido, tantas vezes acusado de instrumentalizar movimentos sociais. Vítor Dias, membro da Comissão Política do PCP, assegura ao DN que estas críticas baseiam-se em «preconceitos» contra os comunistas, que a seu ver são vítimas da «duplicidade de critérios» de vários sectores de opinião.
«O Fórum não era vocacionado para aumentar a capacidade de convergência das forças à esquerda. Esse relacionamento continua a ter as potencialidade e as dificuldades que já tinha antes, com uma história e uma complexidade muito específicas», acentua o dirigente comunista.
Para Luís Fazenda, deputado do Bloco de Esquerda, o segredo para uma convergência é «ninguém invadir a área de ninguém». Partidos e movimentos sociais devem respeitar-se, sem hegemonias de qualquer espécie. «Os partidos devem convencer-se de que só têm a ganhar se respeitarem a autonomia dos movimentos sociais em vez de optarem pela pilotagem aparelhística desses movimentos», afirma o deputado ao DN, lamentando que existam «fraquíssimos índices de participação cívica» em Portugal.
Tal como Vítor Dias, também Luís Fazenda declara que o Fórum nada fez para dissipar as divergências «que já existiam» na esquerda. Mas houve uma vantagem: «A esquerda aproximou-se mais dos movimentos sociais.»
Acesas trocas de acusações
Os jornais têm servido, nos últimos dias, para algumas trocas de acusações entre dirigentes de esquerda a propósito do Fórum Social Português, que terminou a 10 de Junho com duas manifestações desencontradas. O bloquista Miguel Portas, no DN, atribuiu responsabilidades aos comunistas, que a seu ver são «irreformáveis». O socialista Augusto Santos Silva, no Público, também apontou o dedo ao «controleirismo» do PCP. Por sua vez, o comunista Vítor Dias denunciou, nas páginas do Avante!, os «patetas ou cegos» que acusaram o seu partido. Trata-se, diz, de uma «grotesca falsificação do pensamento alheio e um caso do pior dogmatismo que pode haver».
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