Associações de Homossexuais Criticam Confusão nos "Media"
Por PAULO MIGUEL MADEIRA
Sexta-feira, 07 de Março de 2003
Caso da Casa Pia projectou para a comunicação social confusão entre homossexualidade e abuso sexual de menores
Oito organizações defensoras de direitos de minorias sexuais apelaram ontem aos jornalistas e à comunicação social para que não alimentem a confusão entre pedofilia e homossexualidade que têm visto nos últimos meses, desde que começou a cobertura noticiosa dos acontecimentos deste tipo na Casa Pia. Estas organizações elaboraram uma "Recomendação para um Código dos Media Contra a Discriminação" (ver caixa) que enviaram à Alta Autoridade para a Comunicação Social e ao Conselho Deontológico do Sindicato dos Jornalistas, dia 17 de Fevereiro, e aos quais pediram parecer.
Associação ILGA Portugal, Clube Safo, COG - Grupo Oeste Gay, Grupo de Trabalho Homossexual do PSR, Não Te Prives - Grupo de Defesa dos Direitos Sexuais, Nós - Movimento Pela Liberdade Sexual, Opus Gay e PortugalGay.PT divulgaram ontem, em conferência de imprensa, um texto onde dizem que se tem "verificado uma associação, nalguma cobertura mediática recente, entre homossexualidade e abuso sexual de menores". Exemplo de situações deste tipo é "a utilização de expressões como 'práticas homossexuais pedófilas' ou 'violações homossexuais' ou ainda 'práticas homossexuais reincidentes' quando as crianças envolvidas são do sexo masculino, por oposição a 'abuso sexual' quando se trata de crianças do sexo feminino".
Além disso, foram referidos casos de "pessoas fundamentalistas e extremistas que tentam despudoradamente canalizar a indignação pública em relação ao abuso sexual de menores para a promoção de sentimentos anti-homossexuais entre a população", o que nalguns países "seria crime de incitamento a crimes de ódio", segundo Paulo Vieira, presidente da Não Te Prives.
Estes movimentos condenam o abuso sexual de menores, "bem como qualquer violação da liberdade e do mútuo consentimento, que têm que ser a base do exercício da sexualidade". Mas consideram grave o discurso que fomenta esta confusão, por ser visto como "tendencialmente criminalizador da homossexualidade, ao reflectir e perpetuar a ignorância e o preconceito" em relação a ela, "estando também a promover a discriminação e a violência homofóbica". E também "porque o combate ao abuso sexual de menores exige uma informação que, em vez de se alimentar de preconceitos e de alimentar preconceitos, seja, pelo contrário, de uma clareza absoluta na explicitação dos motivos pelos quais essa prática é criminosa".
O presidente da Opus Gay, António Serzedelo, insurgiu-se contra o uso na imprensa de expressões como "homossexual inveterado", a qual pressupõe que a homossexualidade seria uma orientação que se poderia alterar por opção.
Foi também salientado que em vários países as discriminações não admitidas nos códigos deontológicos dos jornalistas incluem a orientação sexual. É o caso da Austrália, Brasil, República Checa, Gana, Irlanda, EUA. A Federação Internacional de Jornalistas adoptou o mesmo princípio. Com vista a ajudar os jornalistas a lidarem com estes assuntos, foi ainda apresentada uma proposta de dicionário LGBT (Lésbico, Gay, Bissexual e Transexual).
http://jornal.publico.pt/publico/2003/03/07/Media/R03.html