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Olá Visitante29.out.2020, 10:22:03

Autor Tópico: Depressão devido a um problema peculiar  (Lida 5707 vezes)

 
Depressão devido a um problema peculiar
#0

Offline Unstable

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Olá... Não sei bem por onde começar, mas tenho de desabafar dê por onde der, porque já não aguento ficar sem "verbalizar" o que anda cá dentro há tantos anos... e não tenho com quem falar sobre isto...

Nasci do sexo feminino e, enquanto criança, tinha uma certa aversão a coisas mais femininas, principalmente a roupa. Lembro-me de chorar em frente à minha mãe (devia ter uns 5 anos) depois de ela me vestir um top cheio de folhos e uma saia, mas ela via isto como uma birra. Eu não gostava de brincar com meninas que fossem muito femininas e vaidosas (fugia delas e sempre me senti mais à vontade com os meninos).

Por volta dos 12 anos foi quando estes pormenores começaram a ganhar maior dimensão. A transformação do corpo provocou-me sentimentos de raiva e desconforto, mas sempre vi isto como uma fase típica da adolescência e esperei que passasse. No 9º ano de escolaridade foi quando me apaixonei seriamente por um rapaz e a minha "fase" agravou-se... A minha auto-estima desceu ao ponto mais baixo, faltei dias seguidos às aulas e acabei por chumbar esse ano. Eu sentia-me tão mal, mas não sabia porquê. Em casa, os meus pais nem davam conta (ou nem queriam saber) e andavam ocupados a discutir todos os dias (que levou ao divórcio quando eu tinha 16 anos).

Passei os anos seguintes a tentar perceber o que se passava comigo. Eu apaixonava-me por rapazes (exclusivamente) e os namoros (que foram poucos) só duravam umas semanas, sem haver qualquer intimidade. Fui sempre eu a terminar os namoros, porque nunca me sentia bem. E continuava a não perceber qual era o meu problema. Na minha família, alguns familiares comentavam o facto de eu não ter vaidade e as minhas roupas serem sempre muito "fechadas" (nada de decotes, etc) e que eu era, portanto, "muito tímida" (era o que diziam e eu acreditei que era este o meu problema).

Aos 20 tive, pela primeira vez, intimidade com um rapaz. Não foi propriamente um pesadelo, mas não foi bom para mim... Senti-me sempre "fora de contexto" e com um incómodo psicológico que não consigo descrever. Eu tinha desejo sexual, gostava dele... mas algo em mim não estava bem. Foi nesta altura que comecei a achar que algo estava muito errado comigo e que não era só um problema de baixa auto-estima. Comecei a pesquisar intensivamente onde e como podia... e cheguei ao tema dos problemas com o corpo e, eventualmente, identidade sexual.

Pelos 23 ou 24 comecei a desconfiar seriamente que tinha definido o problema: transsexualidade. Tudo o que lia sobre este tema encaixava na perfeição com aquilo que eu senti e vivi durante tanto tempo: o desgosto com o corpo (tudo aquilo que o define como sexo feminino) e, finalmente, admitir que, se pudesse ter escolhido, tinha escolhido um corpo masculino. Mas mesmo assim não acreditei que fosse verdade, por dois motivos: eu nunca tive um comportamento físico que fosse muito masculino e, além disto, a minha orientação sexual sempre esteve bem definida (atracção pelo sexo masculino). Achei que não podia ser transgénero por estes motivos.

No entanto, agora que fiz 30, esta realidade afecta-me cada vez mais e percebi que identidade sexual e orientação sexual não têm padrões entre si, são independentes um do outro... e, assim, a minha situação é verdadeira e possível: tenho atracção por homens e o corpo com o qual me identifico é, também, com o sexo masculino. É simplesmente desolador e horrível...

Não tenho a quem contar isto, pois tenho a certeza que ninguém ia perceber. De certeza que a resposta seria algo como "Se gostas de homens e és fisicamente mulher, qual é o teu problema?"... O meu problema é grande. Desisti de ter relações amorosas e íntimas, porque nunca me sinto bem com este corpo. Tentei, forcei-me a aceitá-lo e a viver assim, mas quando chego ao momento da intimidade, a realidade atinge-me como uma facada e não consigo deixar de me sentir mal. Rejeito qualquer avanço de interesses amorosos, porque já nem tenho forças para lidar com isto. Não suporto que me chamem "mulher", não suporto que me perguntem "Tu, que és mulher, o que achas disto?", nem que dividam um grupo entre homens e mulheres... aconteceu-me uma vez e acabei por abandonar o local e as pessoas. Foi extremamente ofensivo. Mas que posso dizer? "Não me chamem mulher e não me separem com elas!" ??

Sinto que sou uma pessoa que nunca ninguém vai conhecer. Uma pessoa que, quando se olha ao espelho, não consegue ver o seu próprio reflexo. Uma pessoa cuja confiança e potencial estão inibidos devido à depressão e ao choque. Nunca contei isto a ninguém, nunca o tinha escrito em lado nenhum... É aquela sensação de estarmos sozinhos, mesmo quando estamos rodeados por pessoas... Obrigado por terem este fórum, que penso ser o único em Portugal para a comunidade LGBT...

    Depressão devido a um problema peculiar
    #1

    Offline Sinvastatina

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    Ola Unstable, antes de mais Bem Vindo aqui ao Fórum da Rea. Sou a Sinvastatina identifico-me como transexual , devo dizer que identifico-me com as tuas palavras, passei por muitas situações identicas às tuas,  quando mencionas "Sinto que sou uma pessoa que nunca ninguém vai conhecer. Uma pessoa que, quando se olha ao espelho, não consegue ver o seu próprio reflexo", revejo-me bastante nas tuas palavras. Passei quase uma vida a tentar esconder isto dentro de mim, eu também desde que tinha uns 10-12 anos, nunca me senti confortável enquanto ser masculino em que nasci.
    A ILGA em Lisboa tem um grupo de apoio para pessoas que questionam a identidade de género ou estão em processo de mudança de sexo. (GRIT) Grupo de Refexão e Intervenção Trans. A pessoa responsável chama-se Dani Bento. grit@ilga-portugal.pt ou  danibento@overdestiny.com

    Se Precisares envia mp.



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      #2

      Offline nick

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      Dou-te os parabéns pela tua coragem ao escreveres todas as tuas angústias, porque não é nada fácil verbalizar toda a história que contaste, onde se sente muito bem a emoção presente em cada palavra. Espero que o ter escrito aqui te tenha trazido algum conforto e alívio.
      Pelo que descreves, pertences a duas minorias (ou uma dentro de outra, dependendo de como se vê) e pertencer a uma minoria tem as implicações que tem, pertencer a duas tem ainda mais. Eu pertenço a algumas também: ser gay, de minoria étnica, minoria religiosa, etc.
      Tenho boas notícias para ti. Sou orador de sessões do Projeto Educação LGBTI onde moderamos debates sobre a orientação sexual, identidade e expressão de género nas escolas, e, cada vez mais e mais, as/os estudantes chegam à conclusão que sim: a orientação sexual é independente da identidade de género! E quando questionamos se é possível uma pessoa transexual ser homossexual, cada vez mais as/os estudantes percebem e afirmam que sim, que é possível. Ou seja, tem havido uma mudança nas mentalidades a caminho da compreensão das nossas realidades e é motivo para nos alegrarmos.
      Há um percurso grande ainda a fazer, claro, especialmente em relação às pessoas mais chegadas que tal como disseste, poderão ter o discurso de "Se gostas de homens e és fisicamente mulher, qual é o teu problema?"
      Infelizmente uma grande parte da população, por não viver na pele o que estás a viver, poderá levar muito tempo para compreender a situação. Se tu próprio levaste anos, e vives na pele o que és, muitas pessoas também poderão levar muito tempo. Felizmente, todas as pessoas, mesmo que não vivam o mesmo que nós, têm a capacidade de ter empatia por nós, se forem expostas/explicadas sobre o que é que se passa connosco e consequentemente compreender-nos. Isto porque é muito importante termos o apoio de quem amamos e de quem nos ama. E as pessoas que nos amam verdadeiramente irão fazer um esforço mínimo para nos compreenderem =)
      É preciso de termos muita paciência e de nos fortalecermos constantemente por causa do desconhecimento e preconceito à nossa volta, mas há esperança =)
      Conheço uma pessoa que nasceu com o sexo biológico masculino, com a identidade de género feminina e a orientação sexual homossexual. Também passou por um processo longo de auto-conhecimento e auto-aceitação. Hoje, felizmente, a pessoa está feliz e tu também estarás porque sinto que deste um passo importante. Reconheces o que és e estás a estabelecer contacto e diálogo =)
      Estamos aqui para ti!

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        #3

        Offline Unstable

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        Dou-te os parabéns pela tua coragem ao escreveres todas as tuas angústias, porque não é nada fácil verbalizar toda a história que contaste, onde se sente muito bem a emoção presente em cada palavra. Espero que o ter escrito aqui te tenha trazido algum conforto e alívio.
        Pelo que descreves, pertences a duas minorias (ou uma dentro de outra, dependendo de como se vê) e pertencer a uma minoria tem as implicações que tem, pertencer a duas tem ainda mais. Eu pertenço a algumas também: ser gay, de minoria étnica, minoria religiosa, etc.
        Tenho boas notícias para ti. Sou orador de sessões do Projeto Educação LGBTI onde moderamos debates sobre a orientação sexual, identidade e expressão de género nas escolas, e, cada vez mais e mais, as/os estudantes chegam à conclusão que sim: a orientação sexual é independente da identidade de género! E quando questionamos se é possível uma pessoa transexual ser homossexual, cada vez mais as/os estudantes percebem e afirmam que sim, que é possível. Ou seja, tem havido uma mudança nas mentalidades a caminho da compreensão das nossas realidades e é motivo para nos alegrarmos.
        Há um percurso grande ainda a fazer, claro, especialmente em relação às pessoas mais chegadas que tal como disseste, poderão ter o discurso de "Se gostas de homens e és fisicamente mulher, qual é o teu problema?"
        Infelizmente uma grande parte da população, por não viver na pele o que estás a viver, poderá levar muito tempo para compreender a situação. Se tu próprio levaste anos, e vives na pele o que és, muitas pessoas também poderão levar muito tempo. Felizmente, todas as pessoas, mesmo que não vivam o mesmo que nós, têm a capacidade de ter empatia por nós, se forem expostas/explicadas sobre o que é que se passa connosco e consequentemente compreender-nos. Isto porque é muito importante termos o apoio de quem amamos e de quem nos ama. E as pessoas que nos amam verdadeiramente irão fazer um esforço mínimo para nos compreenderem =)
        É preciso de termos muita paciência e de nos fortalecermos constantemente por causa do desconhecimento e preconceito à nossa volta, mas há esperança =)
        Conheço uma pessoa que nasceu com o sexo biológico masculino, com a identidade de género feminina e a orientação sexual homossexual. Também passou por um processo longo de auto-conhecimento e auto-aceitação. Hoje, felizmente, a pessoa está feliz e tu também estarás porque sinto que deste um passo importante. Reconheces o que és e estás a estabelecer contacto e diálogo =)
        Estamos aqui para ti!

        Obrigado pelo apoio e esclarecimento. De facto, não bastava pertencer a um, ainda tinha de pertencer a outro, ao mesmo tempo... Mas deu, finalmente, para compreender os meus sentimentos confusos em relação aos homens: que é sempre uma mistura de bom (atracção) e mau (inveja - eu sei que é um sentimento feio e tenho vergonha em admiti-lo).

        Ainda não sinto coragem para falar disto pessoalmente com ninguém, mas estou a pensar falar com um profissional, pela minha saúde mental... Mas tenho receio de receber algum comentário desagradável ou algum olhar desaprovador. E da maneira em que me encontro neste momento, bastava mesmo só um olhar para dar cabo de mim...

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          #4

          Offline nick

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          Sim, compreendo. É sempre aquele sentimento do "uuuuh, mas porquê eu?!"
          Por outro lado, nós humanos somos multifacetados e mesmo que fosses heterossexual e cissexual, haveria outras questões em que pudesses ser uma minoria e isso teria os seus desafios. O importante é que tens mais consciência e conhecimento do que sentes, do que és, e é um passo para te sentires cada vez melhor e mais seguro.
          É, entendo a vergonha em admitir o sentimento, mas, és humano e todos nós sentimos tudo: a inveja, a raiva, o ciúme, etc. Faz parte, e dada a tua história, é naturalíssimo. Mesmo eu que sou cissexual também tenho por vezes inveja de alguns homens haha
          O importante é procurar perceber porquê e como suavizar esse sentimento. De novo, estás num bom caminho porque dizes que vais procurar ajuda profissional. Isso é excelente!
          A rede ex aequo tem esta lista de especialistas recomendadas/os: https://www.rea.pt/psis-recomendados/
          Também sugiro, como Sinvastatina recomendou, que perguntasses à ILGA se também têm alguma recomendação de alguma/um profissional na tua zona de residência :)
          As primeiras sessões serão sempre as mais difíceis porque é o momento de criação de ligação com a/o profissional e há sempre aquela sensação "será que ela/e me está a julgar?", mas depois passará :)

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            #5

            Offline Unstable

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            Sim, compreendo. É sempre aquele sentimento do "uuuuh, mas porquê eu?!"
            Por outro lado, nós humanos somos multifacetados e mesmo que fosses heterossexual e cissexual, haveria outras questões em que pudesses ser uma minoria e isso teria os seus desafios. O importante é que tens mais consciência e conhecimento do que sentes, do que és, e é um passo para te sentires cada vez melhor e mais seguro.
            É, entendo a vergonha em admitir o sentimento, mas, és humano e todos nós sentimos tudo: a inveja, a raiva, o ciúme, etc. Faz parte, e dada a tua história, é naturalíssimo. Mesmo eu que sou cissexual também tenho por vezes inveja de alguns homens haha
            O importante é procurar perceber porquê e como suavizar esse sentimento. De novo, estás num bom caminho porque dizes que vais procurar ajuda profissional. Isso é excelente!
            A rede ex aequo tem esta lista de especialistas recomendadas/os: https://www.rea.pt/psis-recomendados/
            Também sugiro, como Sinvastatina recomendou, que perguntasses à ILGA se também têm alguma recomendação de alguma/um profissional na tua zona de residência :)
            As primeiras sessões serão sempre as mais difíceis porque é o momento de criação de ligação com a/o profissional e há sempre aquela sensação "será que ela/e me está a julgar?", mas depois passará :)

            É isso... Desde criança, sempre interiorizei tudo. Fosse que sentimento fosse, até os mais positivos. Uma criança normal pula de alegria e faz barulho... eu nunca fui assim. No máximo, sorria. Por isso, o medo que sinto em verbalizar tudo com um profissional é tão grande que ainda me pergunto se vou realmente ser capaz. Tenho sintomas de ansiedade que não consigo controlar... Como criança e adolescente, nas escolas sempre disseram que eu tinha extrema dificuldade em expressar-me verbalmente (ideias ou sentimentos), mas que me expressava impecavelmente através de outros meios, nomeadamente nas artes, mas principalmente na escrita. E concordo. Quando escrevo, sou finalmente EU. Por este motivo, tenho pena que este tipo de consultas com profissionais sejam tão frontais e verbais... mas suponho que tenha mesmo de ser assim... não sei...

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              #6

              Offline nick

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              Realmente nota-se uma eloquência no que tens escrito :)
              Fiquei mesmo comovido com o que li. Quanto ao que te diziam, olha, ninguém é perfeito. Todas/os nós temos qualidades e... menos-qualidades haha
              Já experimentaste pesquisar por consultas via texto? Pode ser que exista essa modalidade, especialmente hoje em dia.
              Por outro lado, ao seres confrontado com uma situação à qual não estás habituado (verbalizar o que sentes a alguém) poderá ter a longo prazo um efeito positivo: fazer-te descobrir outro mundo, outra forma de te expressares. E não será com qualquer pessoa. A/o profissional é profissional para lidar com situações que desconforto inicial (e mesmo posterior), afinal de contas :)
              É uma questão de experimentar. Pode surpreender-te!

                Depressão devido a um problema peculiar
                #7

                Offline Atomic

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                Olá Unstable! Penso que não terei nada tão informativo ou pessoal para ti como a Sinvastatina e o Nick já expressaram, porém contudo não pode deixar de escrever algo para te dar todo o apoio possivel :)

                Felizmente para todos nós, ser trans é cada vez mais fácil na sociedade atual, já ouvi relatos de transexuais que antigamente mudar de sexo legalmente era uma assombração, medonho mesmo. Felizmente as coisas estão a mudar para melhor e cada vez mais a sociedade compreende e aceita os trans. A rede ex aequo organiza anualmente um encontro nacional de jovens trans que a cada ano tem vindo a crescer em participantes. Embora eu não possa dizer que sei o que sentes, acredito que seja uma jornada muito complicada para ti, mas também acredito que todas as jornadas têm um fim alcançável e eu acredito que um dia vais chegar ao fim da tua e nunca mais vais olhar para trás!

                Depressão devido a um problema peculiar
                #8

                Offline T-Rex

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                • Associad@
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                  • Um gajo trans a falar de cenas
                Olá, Unstable! Bem vindo ao fórum :)

                Como mais gente já disse neste tópico, a orientação sexual não está relacionada com a identidade de género. Eu sou um homem trans e gosto de homens, assim como de mulheres - sou bissexual. O facto de gostar de homens nada tem a ver com o facto de me identificar como um homem. Da mesma forma que há homens que não são trans e gostam de homens, também existem homens trans que gostam de homens. É normal, não anula a nossa identidade :)

                Eu já iniciei a minha transição há cerca de 4 anos, e sei que o mais complicado costuma ser no nício, ou perceber sequer se é isso que precisamos. Se precisares de falar fica à vontade!

                Depressão devido a um problema peculiar
                #9

                Offline Unstable

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                • Novo Membro
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                Depois de ter conseguido coragem para avançar e marcar uma consulta, estou a ter muita dificuldade em encontrar profissionais especialistas nesta área... São assim tão escassos? Estava à espera de ver um certo número de clínicas, etc. com este tipo de apoio, mas não encontro nada e o que encontro parece ter "encerrado". Podem aconselhar-me alguém? Obrigado.

                  Depressão devido a um problema peculiar
                  #10

                  Offline Unstable

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                  • Novo Membro
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                  Olá... Quero, desde já, agradecer a todas as pessoas que me apoiaram e encaminharam desde que vim desabafar ao fórum.

                  Entretanto, já fui a uma consulta de psicologia e vou continuar. Foi muito, mesmo muito, difícil falar desta situação... Foi a primeira vez que o fiz e, sinceramente, preferia nunca mais tocar no assunto... mas sei que isto sou eu a tentar evitar a realidade, para variar.

                  Quando vim desabafar no fórum, nem sabia ao certo o que se passava comigo. Isto deveu-se, acima de tudo, ao facto de ter ideias erradas e falta de informação sobre a transsexualidade. Também tinha ideias erradas sobre o acompanhamento psicológico nesta área. Pensei que era "obrigatório" avançar com uma transição depois das consultas, porque era a "cura" para a disforia de género.

                  Não podia estar mais errado... A forma como cada pessoa sente a disforia é diferente, assim como as técnicas usadas para amenizar a dor de ter o sexo errado... e não há uma "cura". Eu, infelizmente, por uma série de motivos, nunca poderei sequer pensar na transição... por isso, aquilo que espero obter das consultas é arranjar métodos para lidar com a disforia de género de outra forma... Não sei se vou conseguir, mas tenho de tentar, porque não me resta mais nada...

                  Estranhamente (ou não), no meu caso, embora a aparência me incomode, acho que aquilo que "não se vê" me incomoda muito mais (o aparelho reprodutor, por dentro)... Tive mesmo inveja da minha cadela quando foi esterilizada: removeram tudo por dentro. Isto é uma coisa que, se fosse mais simples e não dependesse das hormonas, etc..., eu ia fazê-lo sem qualquer dúvida.

                  Dói quando me tratam por "mulher" e dói, às vezes ainda mais, quando me assinalam como "hetero", uma vez que isto vinca ainda mais o facto de ser fisicamente mulher... Isto são coisas que nunca poderei evitar, mas espero conseguir aprender a lidar/reagir melhor nestas situações...

                    Depressão devido a um problema peculiar
                    #11

                    Gael Romã

                    • Visitante
                    Olá Unstable,

                    Obrigadx por voltares a escrever aqui, pela confiança que depositas ao partilhar algo tão delicado e difícil para ti.

                    Parabéns pelo passo da consulta ! E fico feliz por saber que continuarás a ir, estou certx que com o tempo se tornará mais fácil e encontrarás (sem dúvida ! Coragem com isso!) formas de lidar com o que estás a sentir.

                    Sim, a maneira como cada pessoa vive a disforia é diferente, e não necessariamente igual todos os dias, sequer.
                    Quaisquer que sejam as razões que te levam a não poder/querer fazer uma transição, não invalidam quem tu és nem o que sentes. E com o tempo e com a habituação à vida "fora do armário" (mesmo nunca fazendo nenhum processo de transição), sentir-te-ás eventualmente à vontade para, ainda assim, mudar coisas de maneira a sentires-te melhor. Podes por exemplo pedir para ser tratado por pronomes masculinos, mudar de nome etc...
                    Claro que também nada disto é obrigatório, se não quiseres, e não há nada que faça de ti menos do que aquilo que és, sejas lá tu o que fores. Homem, mulher, nenhum dos dois, um pouco de ambos ... A bem dizer, importa pouco, desde que te sintas bem e respeitado por ti e pelos outros.

                    Acrescento só mais uma coisa.
                    Sim, a disforia perante aquilo que não se vê também é (às vezes mais ainda) tramada.
                    Mas não estás sozinho. Aqui entre nós, eu também tive inveja da minha cadela quando ela foi esterilizada, e não foi pouca. Mais, ponho as minhas mãos no fogo em como também não somos xs únicxs.  ;)

                    Coragem !
                    Estás no início de um processo teu de descoberta, e vai melhorar.

                    Estamos aqui sempre que precisares :)

                    Coragem e linda semana para ti,

                    Gael

                      Depressão devido a um problema peculiar
                      #12

                      Offline Atomic

                      • *****
                      • Membro Ultra
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                        • Somos Blergh
                      Fico feliz por saber que estás mais ou menos encaminhado, muitas vezes o mais importante é percebermos qual é o próximo passo a dar! ^^

                      Vai partilhando a tua jornada (se assim o desejares) que acho que será importante para ti e para quem mais estiver a ler este tópico, não só não estás sozinho como há muita gente que está neste momento a passar pelo que estás a passar!

                      Força nisso! ^^

                       

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                      por Fetch!
                      5 Respostas
                      1572 Visualizações
                      Última mensagem 28 de Setembro de 2014
                      por Dééé
                      7 Respostas
                      1845 Visualizações
                      Última mensagem 12 de Junho de 2015
                      por Minions