rede ex aequo

Olá Visitante26.out.2020, 00:47:47

Autor Tópico: A minha história  (Lida 1399 vezes)

 
A minha história
#0

Offline FilipeVS

  • *
  • Novo Membro
  • Género: Masculino
Boa noite a todos.
Espero que o tópico esteja no lugar correcto...


Antes de mais, quero pedir desculpa a todos, pois não quero escandalizar ninguém com a minha apresentação... simplesmente quero ter a oportunidade de dizer a alguém, nem que seja através de um teclado, aquilo que sinto. Pelo menos uma vez, na minha vida.

O meu nome é Filipe, tenho 24 anos, e sou natural de Lisboa. Numa breve descrição pessoal, posso dizer que sou introvertido num meio desconhecido. Mas assim que me sinto à vontade, posso ser bem extrovertido (e as minhas gargalhadas ouvem-se bem nas redondezas). Para a generalidade das pessoas (e não me levem a mal, ou considerem arrogante por fazer esta descrição): sou nervoso, simpático, tímido, bem humorado e inteligente. Sou licenciado em História - e a minha parte favorita é mesmo todo o século XIX, desde a Revolução Francesa até à Primeira Grande Guerra. Vivo ainda com os meus pais.

Não me posso queixar da minha família - sempre foram pais carinhosos e atenciosos; um irmão com quem tive uma relação igual à dos outros irmãos (brincávamos, andávamos à tareia, confidências - menos esta que aqui escrevo).

No entanto, tenho tido imensas dificuldades ao longo da minha vida, desde que tenho consciência de que "algo não estava correcto" ou, pelo menos, não correspondia à "generalidade da realidade actual". Isto tudo para dizer que sou homossexual, mas só eu (nas profundezas do meu íntimo) sei deste pormenor.

O meu melhor amigo - completamente desinteressado e sem segundas intenções - uma amizade verdadeira entre nós - sabia também disto. Não por lhe ter dito directamente, mas por lhe ter dado a entender indirectamente que eu era homossexual. Talvez por saber que este assunto me causava grande desconforto, nunca tocou no assunto, e tratou-me sempre como o grande amigo que era. Infelizmente, no desenrolar de uma depressão, acabou por cometer suícidio o ano passado. Foi um rude golpe no meu estado emocional, mas que progressivamente se torna mais fácil para mim aceitar.

Este ano acabei por me tornar grande amigo de outro rapaz, mais novo que eu (com 20 anos). Sublinho que considero-o como um irmão, e não há segundas intenções, ou algo do género por trás desta amizade. Mas à semelhança da minha família, que nada sabe acerca disto, também este meu amigo não sabe. E por mim, neste momento, também não saberá. E talvez nunca o chegue a saber.

E aqui reside, precisamente, o meu dilema. Por influência/ pressão de um conjunto de condicionantes - sociais, culturais e psicológicas - tomei sobre mim a intenção de ir escondendo este detalhe da minha pessoa. Sociais, porque há preconceito contra a homossexualidade (e eu confesso ter alguns problemas quanto a algumas temáticas ainda); culturais, porque venho de uma família profundamente conservadora; e psicológicas, enfim, que dá para entender - mais ao menos - no meu perfil neste tópico.

Apesar de poder ser tido como antiquado, ou algo do género, tudo aquilo que eu queria era dar-me sem medidas a alguém que me amasse também, desinteressadamente. Querer um relacionamento estável, de verdadeiro amor mútuo - como os meus amigos ou colegas. Ou será que estou destinado a caminhar por esta vida, como se de um longo deserto se tratasse? Como se o sofrimento de hoje fosse, como dizia C.S. Lewis, a felicidade de amanhã?

Agradeço a vossa atenção, e peço-vos desculpa por vos incomodar.
Cumprimentos, Filipe.

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    #1

    Offline caires

    • *****
    • núcleo lgbti funchal
    • Membro Elite
    • Género: Masculino
    Olá Filipe.

    Antes de mais, lamento o que aconteceu com o teu amigo. Sinceramente, emocionei-me quando cheguei a essa parte. Imagino a dor que tenhas sentido. Mas de certeza que ele te quererá o bem e a sorrir.

    E eu também sou um pouco como tu. Bastante introvertido e reservado, mas quando tenho confiança nas pessoas quase que me transformo numa outra pessoa e sou bastante extrovertido, divertido, brincalhão... Eu acho que isto é um mecanismo de defesa que criamos para não sermos desiludidos pelas pessoas.

    Quanto ao restante que escreveste, noto que queres muito esconder a tua orientação sexual. Eu digo-te que esse pode ser o pior caminho que alguém pode tomar. Não digo para ires para as ruas gritar que és homossexual, mas teres mais abertura sobre o tema com algumas pessoas que te são próximas acho que era um bom passo para ti. Tenta fazer amigos lgbt, talvez seja mais fácil para ti falares sobre o assunto com eles do que falares com alguém que é heterossexual e que, "à partida", te irá descriminar.

    Abraço e tudo de bom para ti! ;)

      A minha história
      #2

      Offline Cra_19

      • *
      • Novo Membro
      • Género: Masculino
      Boas. :)

      Fiquei um pouco emocionada com a tua historia. Mas concordo plenamente com o caires, o primeiro passo devia ser tentares fazer amizades com pessoal lgbt e talvez isso te ajude.
      Eu ja estive numa situacão parecida à tua, em que nem sequer imaginava contar a alguem sobre a minha homossexualidade. Na altura acho que reprimia tanto essa parte para a tentar esconder dos outros que ate a escondia de mim proprio. So quando consegui estar a vontade com a minha sexulidade é que tive coragem para contar a alguem. Hoje em dia os meus melhores amigos sabem todos. :)
      Se precisares de alguma coisa podes mandar mensgem. Abraco. :)

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        #3

        Offline soraia_asd

        • ****
        • Membro Sénior
        • Género: Feminino
        • Happiness is only real when shared (Into the wild)
        Ola!!! sou a soraia,tenho 25 anos e sou de tomar... E ainda não sou totalmente assumida. Sempre tive atração por raparigas mas nunca quis realmente saber o que era,se era atraçcão ou nao.  Hoje estou feliz... decidi realmente exprimentar e gostei de tar com uma rapariga. Curti com a minha actual namorada,e estamos juntas ha 5 meses.. A minha irma e mae ja sabem do nosso relacionamento. O meu pai nao. E tem sido dificil gerar toda esta situaçao. O ter de mentir para estar com a minha namorada,dá cabo de mim... o querer contar ao meu pai e nao saber como. A minha mae está a reagir mal com a situaçao... mas pronto com calma tudo se resolve. Mas posso dizer que nunca fui feliz como sou hoje e tenciono assim continuar... ;)
        Modificar mensagem
          "É preciso amar as pessoas como se não houvesse amanhã!"

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          #4

          Offline FilipeVS

          • *
          • Novo Membro
          • Género: Masculino
          Olá caires, Cra_19 e soraia_asd. Agradeço imenso a vossa atenção, mas também pela vossa resposta.

          Quando recebi a notícia do falecimento do meu melhor amigo, o meu cérebro simplesmente não conseguia processar nada... só me vinha à cabeça um flashback de quando ele me deu uns pauzinhos de chocolate After-Eight como prenda de Natal. É algo que ainda me custa, porque tenho imensas saudades dos nossos serões, a conversar sobre tudo um pouco. Uma pessoa bastante equilibrada e com uma cultura geral acima da média (e com quem aprendi imenso). Tem sido mais fácil pensar no passado, sem começar a chorar - recordo-me que no ano passado, só de tentar recordar alguns momentos que passámos juntos, me punha logo a chorar.

          Certamente que sim, também já me tinha apercebido - é um mecanismo de defesa próprio que criamos.

          Finalmente, neste momento parece que não consigo fazer nada quanto a isso. Como se se tratasse de um estado psicológico que me impede de tomar qualquer decisão. Tenho um medo terrível de ser descoberto... bem, talvez o medo seja das eventuais repercussões - e de sofrer ainda mais.




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            #5

            Offline _Blitz

            • *
            • Novo Membro
            • Género: Masculino
            Olá FilipeVS,


            Antes de mais, bem-vindo ao fórum da rede ex aequo.

            Não tens de pedir desculpa por nada nem acho que haja alguma coisa de escandaloso no teu texto.
            Devo, aliás, dizer-te que o que narras é muito familiar. Se fizeres uma rápida pesquisa pelo fórum, reparas que há imensas histórias semelhantes à tua. Rapazes e raparigas iguais a tantas outras que têm um segredo: são gays, lésbicas, bissexuais ou transgéneros.
            Digo isto para que percebas que, apesar de difícil, nada do que és, sentes e pensas é uma condenação à infelicidade. Trata-se tão somente de um obstáculo que podes (e deves) ultrapassar.

            Contas também que perdeste alguém que te era muito próximo. É-me difícil imaginar o sofrimento que deves estar a sentir. Todavia, pensa que o tempo que passaste com ele não te pode ser retirado. Não tira a dor, mas pode ser um consolo.

            Apesar de referires a decisão de esconder esse "detalhe", as coisas não são assim tão simples. Primeiro, porque não é um detalhe. É uma parte muito significativa da tua personalidade. Encerra afectos, memórias, pensamentos e sentimentos. É algo que pesa muito. E ainda bem.

            É certo que há um conjunto de mitos que pululam na cabeça das pessoas (se calhar, também na tua). No entanto, trata-se de tomares uma opção: viveres em função do medo ou vencê-lo em nome da tua felicidade. Não é fácil, mas é simples.

            Não querendo fazer de psicólogo, mas arrogando-me a interpretar um pouco do que escreveste, ficaram-me algumas impressões do que escreveste. Primeiro, a de que terás feito um ponto de situação na tua vida: tens um segredo, tens medo, mas não queres ser infeliz. Em segundo lugar, quer parecer-me que queres "mudar de vida".
            Como te disse, a decisão é tua. A associação e as pessoas que a compõem também estão cá para ajudar. :)

            Sugiro que vás participando no fórum e vai dando uma vista de olhos aqui (https://www.rea.pt/forum/index.php?board=20.0). Pode ser que sintas vontade de participar numa reunião. Com tempo e quando te sentires confortável.

            E já que gostas de história do século XIX, cá vai: o Tolstói (autor de "Guerra e Paz" e "Anna Kareninna") terá visitado Proudhon, em Bruxelas, em 1861. Ia angustiado com as suas dúvidas, mas expô-las de forma sistematizada. Proudhon ter-lhe-á dito algo como "vieste até mim já sabendo o que queres fazer. Desejas apenas que te diga para fazê-lo".
            Se este for também o teu caso, conta com a rede ex aequo. Podes sentir que tens muito a perder. Contudo, tens muito a ganhar e este é um espaço em que podes dar os primeiros passos com segurança.

            Boa sorte, limpa as lágrimas e força!
            João
              "Eu não peço um menor fardo, mas sim ombros mais fortes."

              (Provérbio judeu)

              A minha história
              #6

              Offline Cra_19

              • *
              • Novo Membro
              • Género: Masculino
              Quanto à dor que sentes pela perda do teu melhor amigo eu percebo perfeitamente. No ano passado um dos meus melhores amigos de infancia morreu de acidente de automovel. No incio estava em choque, e nao conseguia sentir nada porque ainda nao tinha processado a informacao. Quando caí em mim foi algo que me custou muito. E agora no verao esta o pessoal todo reunido e sentimos a falta dele. Nao ha muito que se possa fazer. Dou por mim as vezes a pensar mandar lhe mensagem como fazia. O que me ajudou bastante foi comecar a falar com o resto do pessoal sobre os bons momentos que passamos com ele, tentado nao ficar triste, mas sim tentando rir das nossas parvoices. Parece estupido, mas isso fez que com o tempo sentisse alegria pelos bons momentos juntos, e nao tristeza pela morte dele. Mas pronto
              Forca, e se precisares de alguma coisa diz. Abraco.

                A minha história
                #7

                Offline rk

                • ****
                • Membro Sénior
                • Género: Masculino
                Boas, bem vindo ao forum. Sobre o teu amigo lamento o sucedido, a depressao e uma doenca grave e muitas vezes as pessoas nao se apercebem que existem pessoas com reais intencoes suicidas( e nao aquelas de chamar a atencao).
                Deste assunto nao posso dizer grande coisa, para a morte nao ha remedio, aconselho te a estar com outras pessoas e a tentar ultrapassar a questao o melhor possivel. Se calhar comecando a viver?
                O que leva ao segundo ponto: O coming out e um processo, nao e algo que aconteca de repente, mas a medida que o inicias e tens boas reaccoes as coisas vao sendo mais faceis primeiro porque tens uma base de apoio, e depois porque ganhas confianca para ir contando.
                O primeiro passo do coming out e assumires te a ti proprio e aceitares-te. Eu no meu caso demorei varios anos a faze lo e isso so atrasou a minha vida e o meu desenvolvivmento, e acredito que quanto mais rapido ultrapassares essa fase melhor. Recomendo te a ires as reunioes locais do grupo onde vive( se e que existe) para conheceres outras pessoas e nao te sentires tao "estranho". Eu no meu caso quando comecei a ir ja me tinha aceite e contado a alguns amigos, pelo que ja estava bem e nao precisava de "ajuda", mas mesmo assim reconheco que fez bem ir e discutir os assuntos de forma natural. Tens varias tematicas, desde o coming out, pais e amigos, dst's, etc.
                Faz pela vida que ela nao faz por ti.
                E já que gostas de história do século XIX, cá vai: o Tolstói (autor de "Guerra e Paz" e "Anna Kareninna") terá visitado Proudhon, em Bruxelas, em 1861. Ia angustiado com as suas dúvidas, mas expô-las de forma sistematizada. Proudhon ter-lhe-á dito algo como "vieste até mim já sabendo o que queres fazer. Desejas apenas que te diga para fazê-lo".

                Interessante, nao sabia disto. thanks :)
                Cumps
                « Última modificação: 18 de Setembro de 2014 por rk »

                   

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