Segundos depois na minha cabeça só se ressoava "Não, não pode ser!" A minha mente dizia-me: "Sinto-me um hipócrita e falso, apenas conhecem aquilo que eu permito conhecerem: a máscara, e esta é tão perfeita que (quase) ninguém se apercebe." Não me conhecem, de verdade apenas veem e falam com o João perfeito que eu criei para que todos me desejem e eu me sinta desejado bem como popular. Apenas vês aquele ser que não se magoa com ninguém, não se apaixona, apenas vês o João falso que aparenta estar sempre bem mas que nunca esta, apenas vês o 'Eu' que decido mostrar mas que verdadeiramente não existe, é apenas uma criação minha...para ser bem-sucedido na vida! Mas lá no fundo sei que não sou, sinto-me terrivelmente mal por ter de fazer este papel todo, que tanto odeio, tudo por causa um mundo cheio de hipocrisia e gente desumana!
Olho para trás, e deparo-me com ele a olhar fixamente para mim e só pensava naquela carta que ele me havia escrito... Por um lado, sentia que deveria aproximar-me dele e mostrar-lhe os meus verdadeiros sentimentos, não com palavras mas com atitudes: um simples beijo transmitiria tudo; mas por outro lado o lado conservador da minha mente pouco ambientada a esta nova realidade teimava em dizer-me que não poderia fazer nada do que aquilo que sentia, por medo e vergonha de mim mesmo. No meu lado racional prevalecia um texto que lera no dia anterior num blog:
"O medo que é muitas das vezes o muro, o inimigo, aquele que nos faz pensar vezes sem fim a decisão entre um simples 'Sim' e 'Não', é aquilo que nos impede de sermos felizes da maneira que somos, impede-nos de fazermos uma série de coisas que podíamos ter feito, ou fazer mas...que pelo grande medo de tentar e de falhar acabamos por desistir de algo, talvez um sonho, uma ilusão, uma vida, uma história...não sei, não faço a mais plena ideia. Sinto porém que, por vezes nós podemos ter tudo, mas tudo, tudo aquilo que os outros pensam que é o essencial para nos sentirmos bem e felizes, mas de que serve ter o armário cheio de roupa cara, tudo do melhor que existe, e simplesmente nada nos satisfaz, nada capta a nossa atenção, pensamos e voltamos a pensar: O que será que está errado connosco? Talvez aquilo que nos falte pode ser uma simples coisa que não conseguimos ver, mas sentimos que é realmente a grande falta de um sentimento: o amor! "
Estava decididamente apaixonado, ele não me saia da cabeça! Ainda esforcei-me por olhar para umas miúdas naquela noite, mas… aquilo não me dizia nada, não sentia absolutamente nada...apenas pensava nele, naquele dia, e no quão perfeito foi...
Agora vem a parte mais difícil: "Que hei eu de fazer à minha vida? Como vou lidar com isto tudo? Devo procurá-lo, mostrar-lhe o que sinto e lutar contra o mundo?" Uma série constante de perguntas e mais perguntas, todas procurando uma resposta que me confortasse minimamente. Dei por mim, já eram cinco da madrugada...voltei a casa, triste sentindo uma enorme vergonha de mim mesmo, porque mais uma vez não consegui ser EU e enfrentar este monstro presente dentro de mim! Deitei-me na cama e adormeci pensando nas perguntas e no turbilhão de sentimentos e emoções em que estava a minha mente, sussurrando as últimas palavras daquela noite: "Amanhã, será um dia diferente!!"