rede ex aequo

Olá Visitante20.set.2018, 06:29:52

Autor Tópico: [Projecto] Livro REA [Projecto Pessoal]  (Lida 5716 vezes)

 
[Projecto] Livro REA [Projecto Pessoal]
#0

dre_o

  • Visitante
Olá membros da REA.

Este projecto foi algo que surgiu quase como de repente assim na minha mente.
É uma pequena grande ideia que quero usar para dinamizar o fórum. Para dinamizar os membros. E para dinamizar o nosso movimento dentro da sociedade. Desde já, deixo claro que este projecto é algo realizado por âmbito pessoal. Está aberto a todos os membros que participem neste fórum, sem restrições.

Começando, explico em que consiste o projecto e o porquê.
Este projecto consiste em escrever um livro, que seria escrito por todos os membros que participam no fórum da rea.
Este livro abordaria um tema, uma linha de história lógica, e seria formado por excertos escritos pelos membros como resposta a este mesmo tópico. Se organizado de forma correcta e se os membros que nele participem se comprometerem com as regras do projecto, o mesmo pode levar à publicação de um livro real, escrito por todos nós que queremos participar.

Se calhar muitos de nós gostam de escrever, como eu gosto, e muitos de nós gostariam de ter algo publicado em formato real, ou seja, um livro real. E se calhar, esta é a tua oportunidade.


Estruturação do Projecto

Como foi dito, esta história seria composta por excertos publicados neste mesmo tópico por todos os membros que quiserem participar no projecto.
Não é necessário qualquer tipo de inscrição. Apenas criatividade, seriedade e paciência!
Regras teriam que ser seguidas. Terá que existir coerência entre os excertos publicados, o tema terá que ser abordado de forma verdadeira, a linha de lógica terá que ser seguida. É simples. Apenas trabalhoso. Tudo o que é escrito tem que ser lido, entendido, interpretado, para que se escreva um "novo" excerto de forma a dar uma continuidade lógica à história.

Regras

Regras são necessárias. Como é óbvio, isto será escrito por muita gente, (assim espero), daí não podermos ter a máxima liberdade para escrever o que quisermos.
Quais seriam estas regras?

- Género Real, ou seja, a história não terá que ser baseada em factos reais, mas terá que ser escrita com base na realidade, sem qualquer tipo de ficção.

- Seguir a linha narrativa, para que haja sempre concordância. Começando com narrador participativo, será a história toda participativo.

- Concordância de factos, daí sendo importante ir lendo tudo o que é escrito. Não podemos distorcer os factos uma vez que foram escritos. Falo de factos, como idades, descrições físicas de personagens, locais, etc. Várias pessoas terão a necessidade de descrever personagens/locais nos seus excertos, e as pessoas seguintes obrigatoriamente terão que seguir essa linha. Ou seja, num excerto se "a Laura tem cabelo loiro" no outro não pode "ter o cabelo castanho".

- Anonimato, pelo que nenhuma pessoa deve ser mencionada, nenhuma cidade, país, local específico, associação. Os nomes das personagens não devem ser associados a figuras públicas. Não haverá problema mencionar nomes de marcas, produtos.

- Uma vez escrito um excerto, não pode ser alterado. Excepto se for para corrigir erros ortográficos, de concordância e afins. Mas nunca para alterar o conteúdo da história, ou poderá entrar em conflito com os que estão escritos a seguir.

- Usar uma escrita séria, lógica, correcta, sem "smiles". Trata-se da elaboração de um livro. Tem que ter nexo. Não "disparatar" por assim dizer.

- Moderar a nossa opinião. Isto é muito importante. Lembrando que será escrito por muita gente, temos que moderar a nossa opinião ao escrever. Não podemos tornar nada demasiado pessoal nem demasiado superficial. O controlo é fundamental para que a coerência entre excertos esteja em sintonia.

- Proibido o uso de palavrões de forma excessiva, de descrição de cenas sexuais/violência explícitas e discriminação contra qualquer tipo de raça, etnia, religião, orientação sexual e identidade de género.

- Cada excerto, deverá ter pelo menos 5 linhas e não deve exceder mais de 30 linhas.

- Podem postar as vezes que quiser mas nunca fazendo double-post, ou seja, postar duas vezes seguidas.

Pronto, são algumas regras, e sei que algumas delas dão trabalho, mas também, apenas participa quem quiser, certo?
Sendo uma das regras quebradas, o post em questão será apagado e por consequência, os seguintes terão que ser apagados também pois irão entrar em conflito com a coerência da história. Por isso, peço desde já aos participantes que ao ler, se o post anterior entrar em conflito com as regras, que "reportem" ao próprio membro para alterar o excerto.
Queremos um trabalho bem feito, certo?

Desde já, muito obrigado a todos os que leram e desde já obrigado a todos os que vão mostrar interesse em participar.
Todos tão convidados. Nenhum excerto irá precisar de aprovação. É tão simples como responder ao tópico e escrever.
Peço-vos também que todas as respostas a este tópico que não contribuam para a continuação da história, sejam feitas em spoiler.
Podem também usar o seguinte tópico para comentários: [Projecto] Livro REA [Comentários]
Também podem o tópico acima para consultar os factos revelados sobre as personagens.
Os mesmos estão em spoiler para quem quiser ler. Na minha opinião, tira um pouco de misteriosidade à história mas é para garantir a coerência do projecto.


A história

O tema, será um que todos nós LGBT, passamos.
Quer tenha sido difícil ou não, todos nós passamos ou queremos/vamos passar por um processo de Coming Out.
É sobre o que vamos escrever. Dêem asas à vossa imaginação. Escrevam. Imaginem que um dia este livro pode ser publicado e o teu nome pode estar lá.
Eu vou começar com o meu excerto. Após isso, anseio ver os vossos, para que no fim, os possamos ligar e realmente formar uma história. Mais uma vez explicando, porque penso que não é demais: Isto é uma história só. Os excertos vão ser unidos uns aos outros para formar uma história só, um livro. Nada de excertos "únicos" e "independentes". É um livro com vários autores.
O livro vai acabar quando este tópico tiver 1000 respostas. A resposta número 1000 será o último excerto. É da responsabilidade de todos os autores escreverem os excertos de forma a que tudo seja coerente, para que o enredo do livro tenha nexo e lógica.
Mais uma vez, é trabalhoso, mas imaginem o gosto que será realmente ter um livro escrito por nós: membros da REA.

Objectivos do projecto

A visibilidade da REA claro. Afinal de contas, temos que nos integrar na sociedade certo? Todos nós temos que contribuir para o mundo em que vivemos. Somos um grupo, lutamos pelo mesmo. Os passos têm que ser dados.

Ao iniciar este tópico dei o primeiro passo. Serás tu a dar o próximo?


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"Era de manhã. A chuva batia na janela com uma força tremenda. Parecia mais um dia para ficar na cama. Afinal de contas, porque me haveria de levantar? Licenciado há mais de 6 meses, sem emprego, sem objectivos, sem um rumo. O que vou eu fazer da minha vida? A única decisão que consigo fazer é se me viro para a esquerda ou para a direita enquanto estou enrolado nos lençóis.
Acho que até essa decisão me custa a tomar. Escolhi levantar-me. Preparar-me para mais um dia de rotina.
Mais um banho, mais um pequeno almoço em frente à televisão. Mais uma manhã no computador a jogar algo que me vai acabar por aborrecer. Quando vai a minha vida mudar?
Nada do que fazia parecia ter qualquer impacto naquela rotina que me matava todos os dias por dentro. Nada parecia mudar, o tempo passava mas eu ficava no mesmo sítio, quase que como preso.
Levantei-me e olhei pela janela. Chovia. Mas pela primeira vez em dias, comecei a ver um raio de Sol entre as nuvens. Não das nuvens do céu, mas sim das nuvens da minha vida."
« Última modificação: 6 de Junho de 2015 por Odra »

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    #1

    Offline Excidium

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    Encostei a testa à janela. Lá fora, conseguia ver as pessoas a andarem atarefadamente na rua. Um homem corria, encharcado, com um jornal por cima da cabeça. Uma mulher gorda atravessava a rua de uma maneira um pouco hesitante como se não o quisesse mesmo fazer. E comecei a pensar ...
    Primeiro pensei neste emprego de que eu estava à procura há tanto tempo. Quando tinha sido licenciado, o futuro parecia muito brilhante e cheio de possibilidades mas aparentemente era mais uma mentira da vida. Sentira-me todo poderoso mas, afinal de contas, quem não se sente invincível aos vinte e três anos? Aquilo que eu achava que era um início de uma carreira prometedora, talvez fosse o fim de uma vida despreocupada.
    Desculpas esfarrapadas, eram tudo desculpas esfarrapadas. Eu sabia perfeitamente a razão pela qual me sentia assim.
    O barulho das gotas não parava e criava uma música na barra em metal da varanda. Levantei-me e fui tomar banho. O jato de água a ferver encheu devagar a banheira e no meio das colunas de vapor apareceu um ponto de interrogação. Toda a gente tem segredos. Alguns mais bem guardados que outros, alguns mais importantes que outros, alguns feitos para serem descobertos, outros criados para serem enterrados na escuridão da ignorância para sempre. Qual seria o segredo do homem encharcado que corria há bocado? Talvez estivesse a ir ter com a amante, ou talvez fosse um segredo ridículo, como todos os pequenos segredos e mentiras que se contam todos os dias, ou que não se contam. Todas essas pequenas coisas que se vão acumulando e que nos roubam lentamente a nossa alegria de viver. Fuga aos impostos, um encontro com o ex-namorado que não se disse ao namorado, um pensamento racista, um assassínio, uma carta que se recebe, uma relação sexual desprotegida num momento de desinibição total, o número de copos de vinho que se bebeu, uma lágrima num momento de fraqueza.
    Naquele momento, invejei as pessoas que dizem com uma confiança serena que sabem que são atraentes, as pessoas que não têm moral e que quando olham para um espelho, só vêem ambição e falta de escrúpulos, as pessoas que sabem que não têm princípios e que é isso que faz a força delas.
    O raio de sol tremeu um pouco no meio das nuvens carregadas. 
    « Última modificação: 18 de Fevereiro de 2014 por Excidium »
      Ad augusta per angusta

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      #2

      Offline kenprt

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      As paredes da casa ressoavam a minha angústia e aquela confinidade matava-me as vontades. Estar preso em casa é algo desgastante. Decidi sair depois de combinar algo com os amigos.
      Sai um café e uns bons dedos de conversa para a mesa... Estava eu, o Hugo e a Ana. Sim, a conversa flui e os problemas dos meus amigos surgem naturalmente. Tantas vezes o ritual se repetia. Café, distrair-me e ouvi-los. Deparo-me comigo a pensar que continuo preso/a e já não estava em casa. 'Ainda há pouco estavas cheio/a de energia para mudar algo e agora nem um raio de força vislumbras... Faz algo!'. Sim, o meu eu e eu a falar. Só me apetecia contar-lhes que sou... mas detesto vitimizar-me e não sei como introduzir ou colocar a conversa. Devo eu fazer isto? Estarei preparado/a para as perguntas?
      Segredos, sim todos têm... e as pessoas ouvem os segredos e... o que hoje é novidade amanhã não passa de uma meia história.
      « Última modificação: 18 de Fevereiro de 2014 por kenprt »

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        #3

        dre_o

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        "Talvez deva acender um cigarro." - Pensei.
        Hábito que estou a tentar deixar. Mas isto consome-me. O stress apodera-se da minha pessoa sempre que penso... nisto.
        Os meus amigos falavam, as suas bocas mexiam, mas não ouvia um único som. Estava perdido na minha mente. Um prisioneiro do medo. Um prisioneiro da verdade. Prisioneiro de um segredo.
        Porque tenho eu que usar uma máscara? Sem dúvida que esta vida não foi feita para pessoas fracas. Fracas como eu.
        "João, estás a ouvir?" - Vi uma mão a acenar em frente dos meus olhos. - "Estás aqui sequer?" - Perguntou Hugo.
        Realmente... eu estava ali... excepto, que realmente não estava.
        "Vou fumar." - Respondi. Estava a chover. A música que a chuva compunha era relaxante. Precisava de me acalmar.
        Precisava de saber o que fazer. Precisava de um novo começo.
        Acendi o cigarro. "O último." - espero eu.

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          #4

          Offline SuperMan-SuperWords

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          • Ser ou não ser, eis a questão! :)
            • O meu mundo
          Recuando no tempo: A certa altura da minha vida, … senti algo a chamar-me uma espécie de desafio, foi bem-vindo, mas algo me inquietou interrogando-me, que tipo desafio será este? Uma espécie de auto conhecimento, talvez, e muito provavelmente, o mais certo… pois tudo isso acontece a todos os jovens, numa fase, aquela em que se começa a vivenciar a adolescência. Como quem não quer a coisa, decidi abrir a porta e entrei, instalando-me confortavelmente, quando vi do que se tratava assustei-me, fiquei passado, chorei noites sem fim, não pensei que eu pudesse ser assim, mas depois de questões atrás de questões, do tipo interrogatório sem fim, ainda tive o bom senso de não mandar embora este grande desafio, afinal porque não conhecer melhor essa parte de mim? Afinal nunca coloquei de parte a sua chegada à minha vida. Então aceitei o desafio, com um ‘Sim’ e confiança! Levou o seu tempo, processo de muita burocracia…. até que por fim depois da tempestade veio a bonança, e em todos os momentos que tive, consegui perceber aos poucos o que era isto novo que eu sentia, e que nome poderia lhe dar, que novo sentimento era este (...) e deixo-me estar, pensando se devo ou não dizer a frase que me libertará ou condenará à prisão. E, enquanto espero, vou morrendo asfixiado. Peço espaço, tempo mas estes escasseiam. Vou morrendo, a pouco e pouco. Arrisco-me, no meio de tanta indecisão, a ficar asfixiado, a não conseguir dizer a frase: Eu… sou um homem capaz de amar outro homem, "Sou gay".
          À volta de uma frase tão simples agora de ser dita, que antes era o mais completo terror, por eu ter crescido numa sociedade tão estereotipada e preconceituosa, e ser-me ensinado que era um pecado, contra as leis da natureza e errado, agora esta frase tornou-se tão compreensiva para mim, não tenho medo algum de dizê-la se me perguntarem é claro, porém ainda com ela está tanta agonia... e associada à mesma a pior fase do egoísmo, "Não me faças isso!”, e sim é isso mesmo que está escrito que eu sou, admito-o para mim com toda a certeza e verdade!
          O tempo avançou, mas a história marcante fica e jamais será esquecida, aconteça o que acontecer! Sinto-me melhor depois de conseguir isto, admitir perante mim a minha verdadeira identidade sem medos nem credos, estou tão orgulhoso de mim mesmo! O que era um «um bicho-de-sete-cabeças» tornou-se na mais banal realidade do mundo, e sei que me espera um longo caminho a percorrer: a partir de hoje terei dentro de mim um novo "EU".
          « Última modificação: 19 de Fevereiro de 2014 por SuperMan-SuperWords »
            "Ser ou não ser, eis a questão!"
            SuperMan-SuperWords :)

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            #5

            Offline kenprt

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            O cigarro queima e com ele queima-se a minha memória. A energia de outrora e o fulgor desta certeza ainda me assolam a alma. Sei o que sou e orgulho-me mas... O tempo é contado e sinto-o a contar-se... As chávenas estão vazias, o cigarro apagou-se e a conversa esgotou-se. Mais um dia em que não tive as forças para dizê-lo.

            O caminho para casa é preenchido por pessoas e chuva caída que me molha os pés. O estado de despreocupação com o mundo e com o que se passa à minha volta abate-se mais uma vez. Mais uma rotina minha... a rotina psicológica. Estou consciente que poderei estar perto da loucura/depressão mas depois reconforto-me na minha qualidade de auto-avaliação e percepção. O caminho continua a fazer-se à minha frente...

            'João!'
            Era a...

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              #6

              dre_o

              • Visitante
              ... espera. Quem era mesmo?
              Uma cara desconhecida chamara por mim.
              'João!' - repetiu ela - 'Espera por mim!'
              Assustei-me. Não reconhecia a cara dela. Não reconhecia a pessoa que chamava por mim. Estaria realmente a loucura a apoderar-se de mim? A turvar-me a memória? Sentia mais uma vez a minha mão a agarrar o maço de tabaco. 'Será que foi mesmo o último?'
              'Ufa, estava a ver que não te apanhava!' - Disse ela.
              A sua voz não me era estranha mas a sua cara... não me dizia nada. Senti-me triste. Como não me lembrava eu de alguém que claramente se lembrava de mim como se fosse ontem? Dei por mim, inconscientemente, a relembrar o dia de ontem em meros segundos. A rotina foi a mesma: Levantar-me, tomar banho, comer em frente ao computador. Mais um café, mais uma conversa de palavras vazias e mais um cigarro queimado desejando que fosse o último. No entanto, em nenhum momento me lembro desta cara que agora está à minha frente. Devo perguntar quem é? Serei eu assim tão mau amigo?
              'Então, parece que viste um fantasma Johny.' - Exclamou ela sorrindo e afastando o seu cabelo da frente dos olhos. 'Um fantasma?' - Pensei eu em silêncio. 'Um fantasma... isso é o que eu me sinto neste momento.'
              Fraquejei. Afinal aquele cigarro não foi o último.

                [Projecto] Livro REA [Projecto Pessoal]
                #7

                Offline Excidium

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                Aqueles olhos castanhos como o veludo, o sorriso leve naqueles lábios finos, os cabelos soltos e ligeiramente ondulados ... Quem seria a rapariga? Com as mãos a tremer, acendi o cigarro.
                ' Bem me parecia que não me tinhas reconhecido' - riu-se ela. ' Sou a Daniela, a irmã do Diogo, falámos ao telefone uma vez quando ligaste para casa. Tinha-te visto numa fotografia de turma quando estavas com ele e pareceu-me que eras tu.'
                Realmente, agora que ela o dizia, eles tinham uma certa parecença. Os olhos grandes e expressivos, a maneira imperceptível de morder o lábio inferior, os cabelos pretos como a noite. O Diogo tinha no entanto um estilo mais luminoso. Talvez fossem os olhos castanhos esverdeados cor de avelã, dele, a tez mais clara ou os gestos suaves. Ou o perfume que ele usava ou talvez fosse o cheiro da pele dele, uma mistura suave de canela e de almíscar.
                ' Como estás?' - disse eu numa tentativa derradeira de esconder a minha confusão e os pensamentos culpados que se tinham apoderado de mim.
                ' Bem, bem! Olha, sei que o Diogo queria combinar uma saída contigo para os anos dele, com o Hugo, com a Ana e com alguns amigos. Acho que ele depois fala convosco. Queria só avisar-te para não marcares nada por volta dessa altura. Eu sei que ele vai avisar à última da hora como sempre.'
                Ela olhou para o relógio e soltou uma exclamação.
                'Desculpa ter de me ir embora tão depressa mas tenho de ir aos correios antes que fechem. Sabes como é ...'
                Ela abanou a mão depressa e depois de piscar o olho, fugiu depressa demais para eu ter de responder.
                A cinza continuava a cair para o chão e eu fiquei ali especado até que caí em mim e virei os calcanhares. Fui para casa sem me preocupar com a chuva que se tinha tornado torrencial e que tinha apagado o meu cigarro. As pessoas à minha volta moviam-se como ilusões aceleradas, e eu senti-me preso ao chão.
                Com chuva a escorrer pelo pescoço, enfiei a chave na fechadura da porta. Fui ao correio e abri a caixa. A mesma publicidade de sempre, pizzas, sushis ... E uma carta, com o endereço escrito à mão. Quem é que escreve cartas à mão hoje em dia?
                « Última modificação: 22 de Fevereiro de 2014 por Excidium »
                  Ad augusta per angusta

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                  #8

                  Offline kenprt

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                  A excitação percorre-me as veias e a curiosidade desperta-se em mim... Uma carta do Pedro? As minhas mãos como por vontade própria rasgam o papel. Os meus dedos tocam a carta e as memórias assolam-me...

                  Eu e o Pedro... Há quanto tempo. Um primeiro amor nunca se esquece. E que amor foi aquele. Dias quentes de Verão que me fizeram tremer e me aqueceram a alma. O destino não escreveu um final feliz para nós mas... escreveu esta carta...

                  Abro a porta do quarto e deito-me na cama, os cigarros e a curiosidade consomem-me a respiração. Ganho o folgo...

                  Fecho a carta e sorrio.
                  « Última modificação: 21 de Fevereiro de 2014 por kenprt »

                    [Projecto] Livro REA [Projecto Pessoal]
                    #9

                    Offline Excidium

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                    Pus a carta em cima da mesa de cabeceira e fui buscar cereais e leite na cozinha para o lanche. Sentia a carta a deitar ondas pela casa como se fosse uma fonte de calor.
                    Não consegui resistir e fui ler a carta outra vez. A caligrafia era tal e qual como me recordava. Aquela estranha maneira de fazer os p's e as letras maiúsculas sempre tão grandes, como se fossem árvores que dessem sombra ao resto da frase. A carta vinha escrita a preto mas não me espantou. Ele usava sempre aquela caneta de tinta permanente preta mas só a usava para "ocasiões especiais". Senti-me outra vez lisonjeado.

                    Preto é a cor do tempo.

                    Levantei os olhos da folha e olhei para o vazio. Não sabia muito bem o que tinha de sentir em relação à carta. Tinha-me sentido feliz ao lê-la pela primeira vez mas não sabia mesmo o que pensar ... Que primeira frase tão estranha. Como se o tempo tivesse uma cor. Se algo tivesse uma cor, seria a saudade. Branca como uma núvem a desfazer-se no céu.

                    Preto é a cor do tempo. Pensei em ti ontem. Perguntei-me aquilo que te tinha acontecido desde aquela noite. Acho que ficaram coisas por dizer e sinto que não fui correcto contigo. Sabes como foi difícil parar mim namorar com um rapaz que não era assumido. Sabes como foi para mim ter a sensação de voltar atrás no tempo, passear contigo na rua e não te poder dar a mão. Viver constantemente aquelas hipocrisias quotidianas. Dar-te um aperto de mão quando nos encontrávamos num espaço público como se fosses outro amigo qualquer, fingir que as nossas mãos se tocavam sem querer quando íamos ao cinema, pôr as minhas pernas entre as tuas quando apanhávamos o metro e que ias sentado no banco à minha frente ...

                    Fui injusto contigo mas também não foste justo comigo. Eu gostava de ti e sei que gostavas de mim. Deixámos as circunstâncias levar a melhor e aquela noite foi só uma série de acasos que não deviam ter acontecido.

                    Pensei em ti quando passei à frente do Jardim Botânico e vi aquela flor roxa que tu tinhas adorado. Será que roxo é a cor da memória? Gostava de beber um café contigo e achei que mandar uma carta era melhor que mandar um SMS. Pareceu-me antiquado enviar uma carta mas sei que tu sempre apreciaste esse traço da minha personalidade. Tens o meu número de telemóvel por isso liga quando quiseres.

                    Abraço,

                    Pedro


                    « Última modificação: 20 de Fevereiro de 2014 por Excidium »
                      Ad augusta per angusta

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                      #10

                      dre_o

                      • Visitante
                      Afastei a carta de mim. Tudo isto parecia irreal. Por momentos perdi-me nos meus pensamentos.
                      Tu adoravas flores. Tal como eu.
                      Parece um pouco feminino, não é? Dois rapazes a apreciar flores num jardim?
                      Recordo aquele dia mais que perfeitamente.
                      O Sol brilhava no céu, os seus raios aqueciam as nossas costas e faziam a beleza do teu cabelo e barba sobressaírem de uma maneira divinal. Eras lindo. Decerto continuas a ser. Belo mesmo. Nunca tinha visto um sorriso como o teu. Nunca mais vi um sorriso como o teu.
                      Os teus cabelos, despenteados e negros brilhavam. Pretos mas brilhantes. Pretos... como a cor do tempo? Os teus olhos eram azuis, um azul que transmitia todo ele uma tranquilidade inexplicável. No teu olhar sentia o abraço que tinha medo de te pedir quando estávamos em público.
                      Oh... o que não dava eu para te abraçar agora Pedro?
                      Olho para os espaços entre os dedos das minhas mãos. Imagino as tuas mãos, brancas, cuidadas, suaves... Arrepio-me de pensar o quão perfeito eras... e quão este mundo imperfeito nos separou.
                      A flor ainda lá está. Mas nós... seguimos caminhos diferentes.

                      Suspirei.
                      'Onde estás Pedro?' - Murmurei para mim mesmo. Porque é isso que eu faço. Murmuro. Penso. Tudo em segredo. Tudo nesta prisão da qual eu tenho a chave mas teimo em não usar.
                      Talvez deva ir tomar um café. E levar uma pequena flor. Roxa.
                      « Última modificação: 22 de Fevereiro de 2014 por ErXdan »

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                        #11

                        Offline Odra

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                        • Welcome to the Town of Gay! ;D
                        Perdido nos meus pensamentos dominados pelo Pedro, lá chegou a hora do jantar, não me apetecia ir para a cozinha preparar algo para comer, encomendei um dos pratos de um dos panfletos que vinha com a carta, uma dose individual de sushi, mas preferia ter encomendado uma dose dupla, tal como o tínhamos feito no nosso primeiro jantar. Vivam as entregas ao domicílio! Maldita seja a saudade e as memórias que esta traz! Não bastava já estar de vida esvaziada e vens tu fazer com que eu me sinta ainda pior! Maldito sejas Pedro! És maldito, mas és tu quem ainda habita a minha cabeça e o meu coração!

                        O jantar chegou, comi-o, alimentou o estômago, mas para além dos sentidos que ficaram satisfeitos, deixou-me ainda mais faminto, fome essa que nem toda a comida do mundo poderia saciar! A minha fome não é de alimentos... Esta fome é também sede, dor, cansaço, desassossego, é de tudo! Tudo o que me faça sentir que necessito de alguma coisa. E aquilo de que necessito és tu, o culpado destas sensações que me fazem questionar tudo à minha volta! Quero o teu amor... Preciso dele como o dia precisa da noite... Vou para a cama, que dormindo não penso em ti, e como diz o povo, o travesseiro é bom conselheiro...
                          Estamos a fazer um jogo. Lançam-se os dados e quem obtiver maior pontuação faz uma pergunta aos restantes jogadores. Utilizaremos um dado com 20 lados. /roll 1d20

                          Nível de originalidade: o mais alto de todos!
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                          #12

                          Offline Excidium

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                          De manhã, acordei mais calmo mas com a sensação de estar de ressaca. Quando abri os cortinados, a luz do dia jorrou para dentro do quarto. O céu estava muito claro, um azul quase branco que se estendia por cima da cidade. O ar fresco do exterior acordou os meus sentidos adormecidos. Um avião estava a passar ao longe, com as luzes a piscar.
                          Um olhar ao espelho do quarto acentuou a impressão que tinha da minha indisposição. Será que eu ainda gostava do Pedro? Eu achava que não, que era só saudade de um tempo em que era inocente, saudade que tinha aparecido com toda a sua intensidade ao ler a carta. Se calhar, queria o amor dele porque me sentia só e um pouco perdido na minha vida. E provavelmente porque ele era uma das únicas pessoas com quem eu podia ser eu e não a pessoa que eu era o resto do dia. Ele era definitivamente uma pessoa especial na minha vida e eu sabia que ele seria sempre alguém por quem eu iria sentir algo intangível. Mas amor?
                          Os meus pensamentos voltaram atrás no tempo para aquela noite em que tudo tinha acontecido, a última noite em que nos tínhamos visto. Semicerrei os olhos. É estranho como o tempo passa e que, por mais marcantes que sejam, os acontecimentos acabem sempre por se desfazer num nevoeiro de dúvida que vem encobrir a floresta de factos. Eram duas da manhã ou dez da noite? Ele tinha uma camisa vermelha ou castanha? Porque é que os detalhes só ganham valor quando já não nos lembramos deles? Eu teria dado uma fortuna para saber se ele estava a usar aquela camisa vermelha às riscas naquela noite. E agora, o Pedro já nem se devia lembrar da camisa que ele tinha usado. Pareceu-me uma desilusão ridícula perceber que ninguém poderia saber esse facto.
                          Eu lembrava-me de uma coisa no entanto. Ele tinha aquela pulseira de cabedal entrançado fina no pulso. Eu tinha pensado que aquilo lhe dava um ar gay e que as pessoas iam desconfiar que nós namorávamos. Uma simples pulseira de cabedal que ele tinha trazido de Marrocos quando lá tinha ido de férias.
                          Naquele momento, sentado em cima da minha cama a olhar para o céu níveo e para um sol mais pálido que a neve, tive vergonha como nunca.
                           
                            Ad augusta per angusta

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                            #13

                            Offline joaninhavoavoa

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                            • Membro Júnior
                            • Género: Feminino
                            Vou tomar um banho bem quente na tentativa de que a vergonha e as memórias me escorram corpo abaixo com a água. Sinto o corpo mais leve mas a consciência mais pesada...tentativa falhada! Parece que em vez de as memórias me escorrerem pelo corpo elas começaram a sair do chuveiro para dentro da minha mente.
                            Sinto que se tivesse dado mais de mim as coisas poderiam ter resultado. Deixei-me vencer pelo medo do preconceito dos outros e pelo meu próprio preconceito em relação ao que sou, ao que somos...
                            Saio do banho, enrolo uma toalha à volta da cintura e vou direto ao telemóvel. Abro a lista de contatos e fico por alguns segundos a olhar para o número dele. Ligo? Não ligo?
                            Sinto que lhe devo um pedido de desculpas por não ter lutado por nós, mas... Não ligo...
                            Pouso o telemóvel na mesinha de cabeceira e vou secar-me, voltando à rotina diária.

                            De estômago cheio com o pequeno-almoço, é hora de me deitar no sofá a fazer zapping para passar o tempo. Já prestes a adormecer ouço um barulho irritante, mas bastante familiar. O meu telemóvel está a vibrar. Alguém me está a ligar. Será o Pedro?
                            Salto do sofá e vou a passo rápido buscar o telemóvel, como se a minha vida dependesse daquela chamada mas eu não quisesse que ninguém perceba.

                            Leio "Diogo" no visor do telemóvel e o meu rosto expressa automaticamente a pequena desilusão que acabei de sentir.

                            - Estou? - atendo.
                            - Então pah? Como estás? Bem disposto?
                            - Sempre! - minto, evitando ter de falar sobre o que ele não entenderia.
                            - Olha lá, este fim de semana vamos comemorar o meu aniversário, ok? Já falei com o pessoal e está tudo combinado. A Ana vai levar umas amigas que ainda não conhecemos, pode ser que as coisas corram bem para o nosso lado! Prepara-te para arrasar corações!
                            - Cool! A que horas? - pergunto, fingindo entusiasmo.
                            - 23h no spot do costume, ok? Nada de atrasos! Vá, xauzinho!
                            - Ok, combinado! xau

                            Boa, lá vou eu mais uma vez ter de fingir estar interessado em alguém que não me diz nada. Lá vou eu ter de interpretar este personagem que nada tem a ver comigo. Mais uma página a acumular neste livro de mentiras que é a minha vida. Quando é que isto acaba?

                             
                            « Última modificação: 21 de Fevereiro de 2014 por joaninhavoavoa »
                              “Trago no olhar visões extraordinárias, De coisas que abracei de olhos fechados...”
                              Florbela Espanca

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                              #14

                              Offline Odra

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                              ]Mais um dia se passou. E mais outro e mais outro. Dei por mim num sábado. Um sábado de céu limpo. Mais uma rotina habitual, excepto que hoje era o aniversário do Diogo. Chegando o fim da tarde, fui fazer o jantar e toda aquela parafernália de rituais aos quais já me fui habituando no meu dia-a-dia, para depois ir ter com o Diogo, lá festejar mais uma volta da Terra ao largo do Sol, bons eram os tempos em chegavam os aniversários e eu só pensava em festejar, era inocente, não sabia ainda a porcaria em que a vida se ia tornar, tantas confusões, tantas esquisitices, tantas fachadas, tanto código sobre o que é certo ou errado, coisas que na minha infância não tinha de lidar, não sabia  o que elas eram, apenas queria voltar a ser criança. Mas o tempo não volta atrás. Saí de casa, fumando mais um cigarro no caminho para a paragem, para apanhar o último autocarro que iria sair naquela noite, tentar que o facto de festejar o aniversário do Diogo me tirava da cabeça os meus pensamentos sobre o Pedro e a falta que ele me fazia e os meus pensamentos nostálgicos em relação à minha feliz infância. Entrei no autocarro, um veiculo velho, quase a cair de podre, mas que ainda cumpria com o seu propósito, transportar quem paga para tal.

                              Cheguei ao local onde tínhamos combinado...
                              « Última modificação: 22 de Fevereiro de 2014 por Odracir1991 »
                                Estamos a fazer um jogo. Lançam-se os dados e quem obtiver maior pontuação faz uma pergunta aos restantes jogadores. Utilizaremos um dado com 20 lados. /roll 1d20

                                Nível de originalidade: o mais alto de todos!
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                                #15

                                dre_o

                                • Visitante
                                Sentia-me indisposto.

                                O jantar caiu-me mal. Ou talvez fosse um peso na consciência. Não tinha a certeza mas sinta-me indisposto.
                                Sentei-me no banco da paragem e olhei para o relógio - 'Cheguei cedo' - pensei.
                                Assim tinha tempo para pensar, para reunir forças, para mais uma vez vestir este disfarce.
                                'Quero tanto ser eu.' - Era o pensamento que me invadia vezes sem conta, ressoando na minha mente como alguém me tivesse a murmurar o mesmo.
                                Talvez devesse pensar noutra coisa qualquer. Talvez durante uma noite, devesse abstrair-me destes pensamentos e divertir-me. Afinal de contas, era uma festa. A festa de um grande amigo.
                                Um amigo ao qual continuo a mentir... pois ele não conhece quem verdadeiramente sou.
                                Será que ele iria compreender?
                                Apercebo-me que seja qual for o pensamento que pense ter, este segredo bate à porta da minha consciência - 'Quero ser quem sou' - mais uma vez ressoa na minha mente.

                                Tentei abstrair-me. Olhei à minha volta para um bairro já tão conhecido.
                                Árvores despidas pelo frio do inverno, mas o céu mantinha-se limpo. Não ameaçava chover.
                                As pedras da calçada molhadas, grandes poças na rua, papeis a serem levados pela suave brisa daquela noite, nem fria, nem quente.
                                No entanto tremia. Batia com a perna nervoso, entrelaçava os dedos das mãos e olhava para o relógio impaciente.
                                Os prédios degradados à minha volta deixavam-me receoso. Apenas via uns bares do outro lado do largo que se encontrava em frente da paragem. Umas luzes vermelhas e azuis.
                                Apetecia-me ir embora. Estava indisposto.

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                                  #16

                                  Offline Excidium

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                                  Era estúpido recuar. O meu reflexo apareceu no vidro riscado da paragem de autocarro. Meu deus ... Eu tinha um ar tão perdido. Eram os meus olhos desnorteados e o meu cabelo despenteado pelos solavancos do autocarro. Testei uma expressão de desafio no espelho improvisado. Mas não me ficou muito bem, eu não era uma pessoa de desafios. Escolhi um olhar mais alegre: só precisava de esboçar um esgar como se fosse um sorriso e a ilusão não era má. A brisa tornou-se mais fria de repente, ou então fui eu que tive um arrepio. Uma luz de receio acendeu-se nos olhos do rapaz no vidro.

                                  Fechei os olhos e respirei fundo. Realmente, não me estava a sentir nada bem. Apeteceu-me vomitar. Quantas pessoas é que viriam à festa? Umas dez ou umas vinte talvez ...
                                  Lembrei-me de repente que não tinha ido ver a minha conta do banco. Tinha de ter cuidado com as despesas porque estes meses consecutivos de desemprego não me tinham ajudado muito. Eu tinha trabalhado em pequenos empregos durante o Verão e tinha conseguido amealhar algum dinheiro. Os meus pais davam-me mais um pouco de dinheiro para pagar a renda. Fiz umas contas rápidas. Tinha dinheiro para mais uns dois meses mas era pouco. Provavelmente iria engolir o orgulho e perguntar ao café ao lado de casa se tinham vagas para empregado de mesa.
                                  Bem, eram horas. Andei até ao fundo da rua para a praça na qual tínhamos marcado o encontro. Já tinham chegado várias pessoas entre as quais a Ana e o Diogo.
                                  O Diogo não me viu logo. Estava a morder nervosamente o lábio como sempre quando estava à espera. Ele parecia ainda mais atraente do que o costume mas eu não sabia dizer porquê. Aliás, eu não sabia explicar a razão pela qual eu via nele um charme irresistível até porque ele não era especialmente giro. Mas havia algo inexplicável, talvez fossem as covinhas que ele tinha quando sorria, o ar distraído dele quando se desligava das conversas, ou aqueles olhos claros cor de avelã.
                                  Pensei na carta do Pedro. E no Pedro. Que confusão ... Senti-me mesmo enjoado. Nessa altura, o Diogo viu-me e fez-me um sorriso enorme.
                                  "Já estava a ver que não vinhas! Como estás? "
                                  Agoniado.
                                  " Óptimo", menti.
                                  E o meu reflexo da loja fez um sorriso radiante.
                                    Ad augusta per angusta

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                                    #17

                                    dre_o

                                    • Visitante
                                    Aparentemente mentir é o que faço melhor. Sinto-me tão falso, tão... reles?
                                    Tenho medo.
                                    Onde está a minha força? Onde está a minha coragem? Porque me limito eu a espreitar pelas portas do armário quando podia simplesmente abri-las e aproveitar o mundo?
                                    O mundo...
                                    Sinto-me numa realidade alternativa. Numa realidade onde existo mas não vivo. E esta festa... será apenas mais um evento onde me vou afundar, mais um buraco para onde salto e a luz fica cada vez mais longe.
                                    'Pedro...' - O nome dele soava na minha mente cada vez mais. Nada fazia sentido. Já foi há algum tempo que nos separamos. Porquê que sinto isto hoje? Agora?
                                    Olho para o meu reflexo nos vidros que me rodeiam: estou lá. Mas não estou completo. Falta-me aquele brilho nos olhos.
                                    Falta-me a garra para viver.
                                    Maldito armário... Lá te vou eu arrastar para a festa.
                                    Respirei fundo mais uma vez. Penteei o meu cabelo castanho com as minhas mãos, tentei espetá-lo mais do que o normal.
                                    'Vamos lá arrasar corações.' - Exclamei com um sorriso falso.
                                    'Sim, vamos indo!' - Disse o Diogo - o resto do pessoal já lá está!
                                    Fiquei reticente em dar o primeiro passo. Apertei o meu casaco de ganga, pus as mãos nos bolos e suspirei.
                                    Comecei a caminhar com os olhos no chão... Talvez por vergonha... talvez por medo...

                                    'João, não vens??' - Gritou a Ana
                                    Pensava estar a andar mas estava parado. O que me prende?
                                    'Sim, vou.' - Respondi reticente.
                                    'Não quero... mas vou.' - Murmurei.

                                      [Projecto] Livro REA [Projecto Pessoal]
                                      #18

                                      Offline Excidium

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                                      Na vida, regia-me por três regras. A regra número um é a mais natural. Nunca mostrar os nossos sentimentos aos outros porque isso é que faz a nossa fraqueza. Quando alguém nos diz algo que não queriamos ouvir, basta sorrir e isso poupa-nos uma resposta. Se sentirmos que vamos chorar, fixar um ponto no horizonte e esperar que passe é um bom remédio. A minha última noite com o Pedro tinha sido assim, ele tinha os olhos azuis deles cheios de lágrimas. Pelos vistos, ele não seguia as mesmas regras que eu ...
                                      A regra número dois é a mais arriscada. Nunca contar a verdade. É uma regra perigosa porque as mentiras têm de ser consistentes umas com as outras, suficientemente variadas para não ser óbvio mas suficientemente realistas para não haver dúvidas. “Onde é que estiveste ontem à noite?”. “ Estive em casa a estudar”. “Olha para aquela rapariga e para o peito dela. Quem te dera a ti ir para a cama com ela”. “ Ahah, quem me dera mesmo”. E desviar os olhos do Pedro que não dizia nada e que apertava os lábios com força. Não chorar. Olhar para o horizonte.
                                      A regra número três é a mais difícil das três e talvez uma mistura das duas primeiras. Mas por ser aquilo que é, sempre a considerei como uma regra à parte. Nunca dizer “amo-te”. Essa frase não faz sentido nenhum, quebra a regra número um e viola a número dois. E as consequências dela são inaceitáveis. O Pedro também não seguia essa regra.
                                      Os outros andavam depressa e apercebi-me que íamos para um bar onde já estava toda a gente.
                                      “Então, como é que foi o teu dia?” perguntou a Ana, com a boa disposição que era costume ter.
                                      Sorri. E poupou-me uma resposta. A regra número um é infalível.
                                        Ad augusta per angusta

                                        [Projecto] Livro REA [Projecto Pessoal]
                                        #19

                                        Offline kenprt

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                                        A porta do bar abre-se e ergo a cabeça. O ar abafado abate-se em mim e já eu estava abatido. Ergo a cabeça e levanto a moral. Nada como representar... uma evolução da minha fantástica capacidade de mentir.

                                        Chovem braços e apertos de mão. Sorrisos e gargalhadas.
                                        Rebentam na minha cabeça as frases 'inauditas' "Então tudo bem?". Claro que estava tudo bem. O sorriso estava posto, a máscara também... só faltava o copo. E de que maneira faltava o maldito copo. Esse e os malditos cigarros benditos àquela hora.

                                        Desculpo a breve ausência do grupo numa ida até à máquina do tabaco... breve momento que aproveito sozinho para apreciar o ambiente solvente e recompor esta cabeça solvida. Marlboro, 4,30 euros... A minha p*ta de eleição... Barata e de qualidade. Nunca questionava aqueles 4 euros e 30. Valor justo nesta minha cabeça que amava-os e os odiava... de morte.

                                        Flicto os joelhos, agarro o troco do tabaco e... algo se agarra a mim. É uma mão no ombro direito que me aperta. Giro a cara como por reflexo mas não me apercebo quem é. Apresso-me a recolher ao bolso o troco. Ergo a cabeça e levanto a moral. "Então tudo bem?"
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