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Olá Visitante22.nov.2019, 02:57:45

Autor Tópico: "Não me obrigas a nada. Já não estamos na escola."  (Lida 1841 vezes)

 
"Não me obrigas a nada. Já não estamos na escola."
#0

Offline FilhoDeApolo

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  • "A Esperança é só uma distração."
    • Aeminium
Ao fim de muito tempo a pensar no que iria dizer sobre o assunto, anos na verdade, hoje decidi dizer algo mais sobre má convivência nas escolas, Bullying, como chamam hoje em dia.

Há pouco mais de 5 anos atrás essa palavra eu encontrava pela internet internacional, sempre que procurava ajuda do que fazer na escola, felizmente hoje em dia é um assunto abordado pela opinião pública.

Sim, sempre existiu, eu sei, mas mudou, não só o nome, mas o conceito, pois agora já não visto como “faz parte”, “é só uma brincadeira de miúdos”, porque a verdade é essa, não é apenas brincadeira, é marcante e muda a maneira de ser de cada um.

Peço desculpa a todas as pessoas que lerem este texto e virem coisas feitas por vocês, eu não vos odeio, todos temos as nossas fases, tenho pena é que para uma gargalhada vossa tinha de custar tanto.

Nem sei por onde começar, talvez pelo o início.

Sim, era a minha mãe que me escolhia a roupa, cada peça cuidadosamente escolhida especialmente para o seu filho que adorava. Boas marcas, cores clássicas e delicadas. Betinho. Botinhas Chanel. Quem usa rosa são os maricas.
Uma vez decidiram chamar-me isso quando cheguei à porta do cinema. A minha mãe ouviu, e defendeu-me. O dia depois foi um inferno. Menino da mamã. E agora ela não está aqui, queres levar mais um pontapé?

Marcelo deixa-me copiar os trabalhos de casa. Marcelo deixa-me sentar atrás de ti no teste. Marcelo ajuda-me a convencer professora a dar-me um 3 na pauta.
Marcelo tu até és fixe, porque não usas gel e compras umas Total 90?
Tentei, não resultou.

Comecei a engordar, chegava a casa e passava horas a falar com o meu gato e a comer chocolate que havia na despensa que o meu pai trazia da Suiça. Não estudava, não era preciso. Passava cada aula atento a tudo, não tinha distracções, por isso quando chegava a casa tinha tempo para fazer o que queria, comer e ler.
Nem os trabalhos de casa eram sempre problema, pois no intervalo fazia-os, já que não tinha ninguém para brincar muito, e os que tinha, eu era demasiado chato para os manter muito tempo por perto. O problema era quando eu a ler, ou a fazer trabalhos de casa, isso era ofensivo para alguém, e tinha de ir a correr atrás do meu estojo, e buscar o meu gorro no meio do parque à chuva, ou fugir de alguém que queria me tirar a minha lancheira, que a minha mãe me fez prometer que não a estragava, para jogar à bola com ela.

Lendo o que escrevi, até me rio. Mas era todos os dias. Do 5.º ao 6.º ano. No 7.º mudei de escola, e desde esse dia nunca mais sofri violência física, tirando uma meia dúzia de empurrões para o chão, nada de muito grave. Mas sofri pela primeira vez ofensas por parte de raparigas.
Até lá, sempre foram os rapazes, altos, com namorada, que gozavam comigo. A partir daí, houve igualdade de género no assunto de fazer a vida do Marcelo mais difícil.

Também foi lá que comecei a ter mais profundidade de amizades, pessoas em quem confiava. “Infelizmente” eram raparigas, e isso era motivo de chacota.

Apaixonei-me pela rapariga errada. E o meu bilhete piroso e lamechas passou por mais de 60 mãos (pelo menos a turma dela). No dia a seguir tinha sido criado um grupo no hi5 "Pessoas que odeiam o Marcelo" , chegou a ter quase 30 pessoas, e todas tinha o mesmo em comum, nunca tinham falado comigo na vida, apenas me conheciam da escola. A minha presença deveria ser mesmo repugnante.

A partir do 10º ano as coisas mudaram. E muito. Eu tinha crescido. Decidi por um término à minha depressão. Comecei a ignorar. As pessoas não existiam, graças à minha imaginação. Tornei-me mais irreverente, divertido, estudioso, tentava conversar com pessoas fora do meu grupo de quatro meninas que adorava, e fiz mais amigos, alguns deles, das pessoas mais importantes que conheci na vida.

As coisas não eram fáceis, pois não me sentia bem em lado nenhum. Não gostava de estar na escola. Não gostava de estar em casa. Nem sozinho, nem mal acompanhado.
Mas pouco a pouco as coisas resolviam-se.

E quando entrei para a faculdade, mal pude conter a minha felicidade. Tudo mudou.
Afinal não era eu o problema. Eu tinha a capacidade de fazer amigos. Eu era minimamente interessante. Tinha a capacidade de amar e ser amado.
Daí eu ser tão apegado a este novo “mundo”.

Peço desculpa a todos os meus amigos pré-faculdade. Vocês lidaram com o pior do Marcelo, e mesmo assim estavam ao meu lado. Amo-vos.

No outro dia, fui vítima de Bullying, estava a conduzir e um rapaz lá da escola (que já não via há anos) decidiu-me seguir e fingir que ia bater contra o meu carro, porque eu não tinha agradecido de forma genuína e pomposa à forma como ele me fez sinal de luzes a avisar que estava com os faróis desligados.
Eu respondi:

"Não me obrigas a nada. Já não estamos na escola."

Escrevo a todos que passam situações destas e piores, no dia a dia das escolas portuguesas. Sabem, eu também pensei que às vezes mais valia não existir, mas como se costuma dizer, apesar de ser cliché.. Tudo vai melhorar.

    "Não me obrigas a nada. Já não estamos na escola."
    #1

    Offline _ricardo_

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    • Membro Sénior
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    Obrigado pelo teu testemunho :)

    Que a tua força para superar essa situação sirva de exemplo a muitas pessoas que infelizmente se vêm nessas situações.
      "Great spirits have always found violent opposition from mediocrities. The latter cannot understand it when a man does not thoughtlessly submit to hereditary prejudices but honestly and courageously uses his intelligence." Albert Einstein

      "Não me obrigas a nada. Já não estamos na escola."
      #2

      Offline Spektrum

      • *****
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      • [P]oiesis.
      Partilho da sensação.

      Hoje, ao passar por quem me agrediu, levanto a cabeça e orgulho-me da vida que consegui.
      O próprio curso da vida acaba por nos trazer tudo aquilo que queríamos e não tínhamos, na adolescência. O amor, a amizade, a felicidade, a estabilidade e o mérito.
        “Always be a poet, even in prose.”
        ― Charles Baudelaire

        "Não me obrigas a nada. Já não estamos na escola."
        #3

        Cardo

        • Visitante
        É complicado sim, eu sempre fui o gordo, o caixa de oculos... Relativamente à minha homossexualidade, por acaso nunca senti assim grande preconceito, mas sei que sou um sortudo.

          "Não me obrigas a nada. Já não estamos na escola."
          #4

          Offline Itsuni

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          Devo dizer que me vejo um pouco no teu testemunho, quando andava no 9º ano, foi quando eu descobri que era homossexual, e por contar às  pessoas a quem não devia, fui alvo de muito gozo. Depois quando pro 10º ano decidiram ignorar-me e eu passei a ser mais verdadeiro a mim mesmo, hoje vejo essas mesma pessoas a ficarem na escola ainda e eu já na faculdade :)

            "Não me obrigas a nada. Já não estamos na escola."
            #5

            Kaiser

            • Visitante

            Peço desculpa a todas as pessoas que lerem este texto e virem coisas feitas por vocês, eu não vos odeio, todos temos as nossas fases, tenho pena é que para uma gargalhada vossa tinha de custar tanto.

            Eu, no entanto, odeio-vos. E muito. Nem sequer tentem.

            Responder
            No outro dia, fui vítima de Bullying, estava a conduzir e um rapaz lá da escola (que já não via há anos) decidiu-me seguir e fingir que ia bater contra o meu carro, porque eu não tinha agradecido de forma genuína e pomposa à forma como ele me fez sinal de luzes a avisar que estava com os faróis desligados.
            Eu respondi:

            "Não me obrigas a nada. Já não estamos na escola."

            És melhor pessoa que eu, eu na mesma situação era bem capaz de fazer queixa na policia :V

            Não ia dar em nada, mas ao menos o outro ficava com o dia estragado.
            « Última modificação: 18 de Agosto de 2014 por Kaiserina »

              "Não me obrigas a nada. Já não estamos na escola."
              #6

              Offline random_dude

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              Grande testemunho, tive alguns momentos parecidos e não guardo grandes memórias da minha adolescência mas a não se compara aquilo que passaste. Infelizmente as escolas preferem ignorar do que fazer aquilo que lhes compete - educar e formar crianças e adolescentes para serem melhor adultos. Ainda bem que tudo ficou melhor!  :)

                "Não me obrigas a nada. Já não estamos na escola."
                #7

                Offline searching_the_love

                • ***
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                Identifico-me totalmente, também fui vitima de bullying na escola (do 5º ao 9º ano. Porque ao mudar de escola, tudo mudou, não sei que acontece na cabeça das pessoas, mas a partir do 10º fiz amigos e ninguém chateava a ninguém, até pessoas que vieram da mesma escola, quando me viam, tratavam-me com respeito, coisa que eu achava muito estranho... No entanto do 5º ao 9º essas mesmas pessoas estavam em grupinhos e aquilo era ver quem fazia pior...

                Hoje em dia não tenho o mínimo contacto com nenhum dos meus "colegas" do 5º ao 9º e nem estou interessado em ter, foram uns idiotas. Ser criança não é desculpa para tratar mal os outros e se por acaso os encontra-se, seria educado e cumprimentaria, mas não falaria com eles como se nada se tivesse passado, provavelmente nem lhes daria mais cavaco após o cumprimento.
                Eu também fui criança e sabia que o que eles faziam era errado e não tratava os outros mal por causa disso e tinha muitas razões para o fazer, não só como resposta aos insultos e bullying da parte deles, como dos problemas que tinha na minha própria casa. Mas não usava os outros para descarregar as minhas frustrações.

                Eu costumo ver gente no facebook e afins a dizer "ena, encontrei colegas meus da preparatória, que bom" e eu "ainda bem para ti", mas no meu caso, não estou minimamente interessado em revê-los, eu vivo o presente e voltar a falar com essas pessoas é voltar ao passado. Não obrigado.

                   

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