rede ex aequo

Olá Visitante07.set.2019, 21:58:26

Autor Tópico: [Projecto] Livro REA [Projecto Pessoal]  (Lida 6425 vezes)

 
[Projecto] Livro REA [Projecto Pessoal]
#20

Offline SuperMan-SuperWords

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  • Ser ou não ser, eis a questão! :)
    • O meu mundo
Segundos depois na minha cabeça só se ressoava "Não, não pode ser!" A minha mente dizia-me: "Sinto-me um hipócrita e falso, apenas conhecem aquilo que eu permito conhecerem: a máscara, e esta é tão perfeita que (quase) ninguém se apercebe." Não me conhecem, de verdade apenas veem e falam com o João perfeito que eu criei para que todos me desejem e eu me sinta desejado bem como popular. Apenas vês aquele ser que não se magoa com ninguém, não se apaixona, apenas vês o João falso que aparenta estar sempre bem mas que nunca esta, apenas vês o 'Eu' que decido mostrar mas que verdadeiramente não existe, é apenas uma criação minha...para ser bem-sucedido na vida! Mas lá no fundo sei que não sou, sinto-me terrivelmente mal por ter de fazer este papel todo, que tanto odeio, tudo por causa um mundo cheio de hipocrisia e gente desumana!

Olho para trás, e deparo-me com ele a olhar fixamente para mim e só pensava naquela carta que ele me havia escrito... Por um lado, sentia que deveria aproximar-me dele e mostrar-lhe os meus verdadeiros sentimentos, não com palavras mas com atitudes: um simples beijo transmitiria tudo; mas por outro lado o lado conservador da minha mente pouco ambientada a esta nova realidade teimava em dizer-me que não poderia fazer nada do que aquilo que sentia, por medo e vergonha de mim mesmo. No meu lado racional prevalecia um texto que lera no dia anterior num blog:

"O medo que é muitas das vezes o muro, o inimigo, aquele que nos faz pensar vezes sem fim a decisão entre um simples 'Sim' e 'Não', é aquilo que nos impede de sermos felizes da maneira que somos, impede-nos de fazermos uma série de coisas que podíamos ter feito, ou fazer mas...que pelo grande medo de tentar e de falhar acabamos por desistir de algo, talvez um sonho, uma ilusão, uma vida, uma história...não sei, não faço a mais plena ideia. Sinto porém que, por vezes nós podemos ter tudo, mas tudo, tudo aquilo que os outros pensam que é o essencial para nos sentirmos bem e felizes, mas de que serve ter o armário cheio de roupa cara, tudo do melhor que existe, e simplesmente nada nos satisfaz, nada capta a nossa atenção, pensamos e voltamos a pensar: O que será que está errado connosco? Talvez aquilo que nos falte pode ser uma simples coisa que não conseguimos ver, mas sentimos que é realmente a grande falta de um sentimento: o amor! "

Estava decididamente apaixonado, ele não me saia da cabeça! Ainda esforcei-me por olhar para umas miúdas naquela noite, mas… aquilo não me dizia nada, não sentia absolutamente nada...apenas pensava nele, naquele dia, e no quão perfeito foi...
Agora vem a parte mais difícil: "Que hei eu de fazer à minha vida? Como vou lidar com isto tudo? Devo procurá-lo, mostrar-lhe o que sinto e lutar contra o mundo?" Uma série constante de perguntas e mais perguntas, todas procurando uma resposta que me confortasse minimamente. Dei por mim, já eram cinco da madrugada...voltei a casa, triste sentindo uma enorme vergonha de mim mesmo, porque mais uma vez não consegui ser EU e enfrentar este monstro presente dentro de mim! Deitei-me na cama e adormeci pensando nas perguntas e no turbilhão de sentimentos e emoções em que estava a minha mente, sussurrando as últimas palavras daquela noite: "Amanhã, será um dia diferente!!"
« Última modificação: 25 de Fevereiro de 2014 por SuperMan-SuperWords »
    "Ser ou não ser, eis a questão!"
    SuperMan-SuperWords :)

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    #21

    Offline kenprt

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    Amanhã seria de facto um dia diferente. Não estivesse eu quase a voltar a adormecer... o telemóvel vibra. Já tinha adormecido mas acordei entretanto meio entorpecido como se uma força maior estivesse a chamar por mim. Só poderia ser uma força maior! O meu amigo copo acompanhou-me a noite toda. Os meus amigos com os seus respectivos copos também o fizeram. Digamos que o caminho para casa apesar de meio cabisbaixo foi feito aos berros...

    "Onde estás?"

    No meio de entusiasmo por ver o nome dele no ecrã senti-me triste e desanimado por não ter feito nada... e depois aquela mensagem! Quem é que sai da cama às 5:30 da madrugada depois de uma noite de copos?

    "Tou em casa. E tu?" - Respondi sem pensar muito.
    "Saí agr do bar e gostva d estar cntg". Por momentos pensei que ele estivesse bêbado e aquilo fossem apenas as recordações a virem ao de cima.
    "Já estou na cama a dormir. :P"
    "Oh, queria dormir cntg... Gostei de te ver".

    Adormeci...

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      #22

      dre_o

      • Visitante
      ... Adormeci num sono meio acordado.

      "João?"
      Ouvia alguém chamar por mim - "João??"
      Senti um enorme arrepio nas costas. Senti-me tonto, senti-me a cair num poço sem fundo...
      "JOÃO!"
      Levanto-me repentinamente.
      Ouço uma música a surgir cada vez mais forte, umas luzes fortes e rápidas cegam-me os olhos por segundos.
      "João? Estás bem?"
      Levantei-me lentamente: "Estamos no bar?" - Pergunto estupefacto - "Dói-me a cabeça..."
      "Rapaz!" - Exclamou o Diogo - "Como é que raio bebeste uma Vodka Preta e caíste para o lado??"
      "O quê?" - Interroguei - "Não me lembro disso."
      "Mano... Pregaste-nos um susto... Precisas de algo?"
      "Sim..." - Pensei - "Uma explicação vinha a calhar."

      Aparentemente segundo o Diogo, mal entrei no bar, dirigi-me ao balcão e pedi a Vodka Preta.
      Ele diz que a Ana veio ter comigo e perguntou se eu estava bem. A minha resposta foi um acto silencioso de pegar no copo e beber tudo de uma vez. Passado segundos, semicerrei os olhos, pus a mão na cabeça e caí.
      Não me lembro de nada. É engraçado como um pouco de álcool e uma mente confusa nos deixam num estado de psicose.

      Devia ter percebido que era tudo um sonho. Tudo uma história na minha mente, distorcida.
      Nunca na vida, alguém como o Pedro passaria de cartas escritas à mão, com uma caneta bem específica para ocasiões especiais, para mensagens sem sentido.
      O Pedro não era assim.

      Incrível como a minha mente desejava que ele ali estivesse.
      Imaginei com tanta força que quando ele me pôs a mão no ombro, pareceu real. Mas não foi...
      Num acto instintivo peguei no telemóvel: "Nenhuma mensagem dele. Sonho ridículo."
      "Dê-me uma garrafa de água se faz favor." - Pedi eu ao senhor no balcão - "Já chega de surpresas por hoje."

      Olhei para o relógio. "23h46" - A noite era uma criança.
      Mais 14 minutos, e o Diogo tinha 24 anos.

      "Bora arrasar umas miúdas João?"

      « Última modificação: 27 de Fevereiro de 2014 por ErXdan »

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        #23

        Offline Excidium

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        Por falar em miúdas, uma rapariga estava a olhar fixamente para mim. Estava encostada ao bar, virada para a sala. Era sem dúvida alguma muito atraente: tinha a pela morena e cabelo castanho claro. Os lábios eram finos e o nariz aquilino, e eu reparei que ela tinha um piercing discreto na orelha direita.
        - Estás-te a sentir melhor? perguntou ela, com um sorriso ligeiramente sarcástico.
        Tinha os dentes ligeiramente irregulares mas esta imperfeição tornava-a paradoxalmente mais bonita. Os olhos delas estavam perdidos na escuridão criada pelo jogo de luzes do bar mas senti que me fitavam com uma atenção redobrada.
        - “Sim, sinto-me melhor”, respondi. “ Foi só uma tontura passageira”.
        -“Pareceu-me mais que uma tontura”.
        A gargalhada dela ecoou aos meus ouvidos.
        -“ Sou a Sara, já agora” apresentou-se ela.
        -“João”.
        Instalou-se um silêncio que nenhum de nós quebrou. Talvez ela estivesse a olhar para mim, talvez estivesse a observar a sala cheia de gente, talvez estivesse perdida nos pensamentos dela.
        De repente, ouviu-se uma explosão de palmas. Virei-me e vi o Diogo às cavalitas de um rapaz. Toda a gente começou a entoar os parabéns e o Diogo, com um sorriso até às orelhas agradeceu a todos. As conversas retomaram.
        -“Não te ofereces para me pagar um copo?” indagou vagarosamente a Sara, com um sorriso de desafio.
        Eu atrapalhei-me e comecei a gagejar.
        -“ Estou a brincar contigo”, riu-se ela.
        E a gargalhada dela outra vez.
        “Sou lésbica” disse ela.” Não me parece que me vais seduzir assim tão facilmente.”
        A frase tinha sido dita com um estranha confiança, como uma informação desnecessária mas útil no prosseguimento da conversa. O tom de voz não se tinha alterado e permanecia sério, com aquela ponta de gozo que parecia ser uma constante nela. Ela mexeu-se ligeiramente e os olhos dela sairam da escuridão. Pareciam duas brasas pretas que libertavam uma energia enorme, com um brilho escuro que desafiava o mundo. Ela sorriu.
        -“ Que cara ... Nunca conheceste uma lésbica antes?” 
        « Última modificação: 28 de Fevereiro de 2014 por Excidium »
          Ad augusta per angusta

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          #24

          Offline SugarCube

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          O que é que eu lhe ia responder? Sim, já tinha conhecido uma lésbica, de vista apenas, mas conhecia. Não passava de uma rapariga que andava a fazer o secundário ao mesmo tempo que eu. Era discreta, se eu não soubesse nunca teria suspeitado. A rapariga tinha-se assumido a uma amiga e dentro de uma semana a escola toda sabia. Dentro de um mês tinha-se transferido para outra escola. Não aguentou os olhares e os sussurros constantes sempre que passava no corredor. A Sara no entanto pareceu-me diferente, muito diferente. Tinha uma confiança inabalável que desarmava qualquer um que pensasse sequer em rebaixa-la. Invejava-a.

          “Bem vou interpretar esse silêncio como um não.”

          Fez-me um sorriso trocista, tentei improvisar algo meio inteligente para lhe responder mas a minha cabeça ainda estava uma confusão. Depois de um silêncio quase interminável ela pôs a mão no meu ombro.

          “De certeza que estás bem?” Perguntou.

          Não compreendia o porquê de ela estar tão preocupada com um estranho. O que é que ela queria de mim?

          “Estou bem” – Consegui responder – “ Só preciso de beber mais um pouco de água e fico ótimo.”

          Pela cara dela vi que não ficou convencida. Na verdade eu não estava nada bem. O barulho da festa intensificou-se. Um cheiro a suor e álcool invadiu-me o nariz deixando-me enjoado. Será que se voltasse a desmaiar voltaria para aquele sonho demasiado real? Será que podia voltar a ver o Pedro e tentar ganhar coragem para fazer o que não fiz da última vez?

          “Anda, vou tirar-te daqui.” - A Sara arrancou-me dos meus pensamentos – “Anda lá, levanta-te! Estás mais do que verde, vem comigo lá fora um bocado.”

          “O quê? Não, eu estou bem a sério.”

          Porque é que ela simplesmente não me deixava em paz?

          “Tens medo do que uma lésbica te possa fazer lá fora sozinho é?”

          Esta rapariga funcionava com uma mistura tóxica de gozo, sarcasmo e sorrisos desafiados. Talvez seja devido a essa mistura que me deixei arrastar por ela até ao exterior.

          « Última modificação: 4 de Março de 2014 por SugarCube »
            “Why fit in when you were born to stand out?”

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            #25

            Offline Excidium

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            Na rua, o ar estava fresco e uma brisa ligeira corria pela rua. A habitual núvem de fumo subia do pequeno grupo de fumadores que se tinha amontoado à frente da porta.
            Fomos para um sítio mais calmo. Ela acendeu um cigarro, sempre com os mesmos gestos certos e confiantes. A espiral de fumo que subiu cobriu a cara dela durante uns instantes e só a ponta vermelha do cigarro brilhou com o fulgor de uma brasa, iluminando os traços dela e fazendo reluzir o piercing como um diamante. Era realmente muito bonita, de uma forma invulgar. Não se podia dizer que a cara dela fosse especialmente elegante: a curva do pescoço e a cara vistos de relance podiam parecer sem qualquer interesse. Mas aqueles olhos ... Pareciam fogo liquido negro que evacuavam a energia incrível que emanava dela. E a cara, aparentemente banal, parecia irradiar aquele magnetismo inflamável que se espalhava à volta dela.
            “Queres um cigarro?” perguntou ela.
            “ Não obrigado, não fumo”.
            Porquê que eu tinha respondido aquilo?! É claro que eu fumava, até sentia o isqueiro no meu bolso esquerdo e o maço no direito. Ela acenou devagar como se ficasse a meditar sobre a minha resposta.
            De repente, senti-me gelado. Comecei a tremer ligeiramente mas ela não pareceu notar.
            “ Estás aqui porque o teu amigo faz anos?”
            “ Sim, o Diogo. Ele convidou imensa gente, mas eu conheço poucas pessoas.”
            “ É uma boa ocasião de as conhecer então, não achas?”
            Senti-me irritado. Quem era ela para em dizer o que fazer?
            “ Sinto-me cansado. Acho que vou voltar para casa”.
               O meu tom de voz era seco, mais do que aquilo que eu queria. Arrependi-me imediatamente, mas ela não pareceu levar a mal. Sorriu levemente. Nenhum de nós se mexeu.
               “No que é que estás a pensar?”
            A pergunta dela apanhou-me desprevenido. Os olhos dela olhavam para os meus com um ar sério. Para evitar responder, tirei um cigarro e acendi-o.
            “Pensava que não fumavas”. Teve uma gargalhada divertida.
            “ Não fumava há cinco minutos. Agora está a apetecer-me fumar.”
            “Não devias, faz mal à saúde”, riu-se, antes de apagar o cigarro dela.
            Voltámos ao silêncio, ligeiramente embarçoso do meu ponto de vista.
            “Quem é o problema?” inquiriu ela.
            Bolas, ela só fazia perguntas há cinco minutos. Será que ela nunca se calava? A pergunta fez-me hesitar. Senti-me dividido. Nunca tinha dito em voz alta o que quer que fosse. A regra número dois tremeluziu nas cinzas vermelhas do meu cigarro. Nunca contar a verdade.
            “ Não te conheço de lado nenhum, se calhar nem te chamas Sara”, repliquei agressivamente.
            “ Não sei se isso será muito importante. Acho que é precisamente porque não me conheceres que me vais dizer a verdade”.
            Os olhos dela deitaram faíscas e o sorriso dela pareceu-me curiosamente reconfortante.


            « Última modificação: 8 de Março de 2014 por Excidium »
              Ad augusta per angusta

              [Projecto] Livro REA [Projecto Pessoal]
              #26

              dre_o

              • Visitante
              "Não creio que haja algum tipo de verdade para contar." - Ripostei.
              "Há sempre uma verdade para contar." - Respondeu ela com um sorriso na cara.
              "Estás a ver isto?" - Aponta para uma cicatriz no pulso direito - "Conta uma verdade que eu digo que não existe."
              As palavras dela confundiram-me. E que cicatriz era aquela?
              Por momentos, sentia estar a falar com uma pessoa com problemas psicológicos, mas as palavras dela a seguir fizeram-me perceber que estava perante um caso diferente.
              "Esta marca está aqui. Mas para mim, na minha mente, a razão de esta existir... não existe."
              Fiquei calado. Não sabia o que dizer naquele momento. As palavras não se formavam, as ideias estagnaram. Havia sequer algo próprio para ser dito naquele momento?
              "Mas... não quero falar de mim. Queres contar a tua verdade que não existe... João?"
              Repensei.
              "Se calhar podíamos começar pela parte em que estás sempre a mexer no teu dedo anelar.
              Sentes falta de algo? Talvez... uma aliança?"
              Dei por mim realmente a mexer no dedo. Sentia falta do conforto que a aliança que o Pedro me dera à uns meses. Da segurança. Do sentido de ter alguém como ele ao meu lado.
              A conversa começava a intensificar-se. Ela sabia ler uma pessoa pelos seus simples gestos.
              "E essa cicatriz... Sara?" - Perguntei receoso da resposta dela.
              "É apenas uma marca que me lembra que valorizo mais a minha vida do que aquilo que eu pensava."
              Ficamos a olhar um para o outro por momentos naquela noite de ar fresco.

              Umas pingas começaram a cair do céu.
              "Chuva... de novo?" - perguntei com um sorriso disfarçado.
              "É." - Respondeu ela num tom de gozo. - "Se calhar é boa ideia abrigares-te dentro do teu armário."
              « Última modificação: 10 de Março de 2014 por ErXdan »

                [Projecto] Livro REA [Projecto Pessoal]
                #27

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                Senti-me gelado. A minha boca ficou completamente seca, e as minhas mãos começaram a tremer. A Sara não olhava para mim, a cara dela estava mergulhada na escuridão da árvore que estava por cima de nós. O sorriso trocista tinha desaparecido tão depressa como tinha aparecido.
                Olhei para o céu. Adivinhavam-se as núvens pretas no céu negro. Passei a mão pelo cabelo molhado. Uma série de memórias passaram-me pela cabeça: os olhos do Pedro como dois pedaços de oceano, as ruas desertas ao nascer do sol, a árvore no jardim com as folhas vermelhas, e o barulho das chamas a queimarem o jornal na lareira.
                - “A vida é bastante simples”, disse a Sara.
                -“ A sério? Não acredito nisso”, respondi amargamente. “ A minha tem tido tendência para se complicar bastante ultimamente.”
                - “Havia um escritor francês que dizia: escolhi ser feliz porque é bom para a saúde”, disse a Sara. “ Acho que ele tinha razão. Escolher ser feliz é por vezes a solução mais complicada de todas mas o resultado final vale a pena. Devias tentar ser feliz de vez em quando.”
                -“ E como é que se faz isso?”
                Ela devia estar a brincar comigo. Eu nem sequer tinha reparado que tinha lágrimas a escorrer pela cara mas, com a escuridão e a chuva, não se deviam notar muito. Pelo menos, eu assim esperava. A Sara não respondeu à pergunta. Em vez disso, fez-me outra pergunta:
                -“ Já estiveste apaixonado?”
                Os olhos magoados do Pedro naquela noite, que parecia ser há centenas de anos atrás, atravessaram-me como uma facada. O pensamento da pulseira fez-me corar de vergonha mas, mais uma vez, o escarlate da minha desonra foi engolido pela noite. A Sara não pareceu levar a mal o meu silêncio e continuou:
                -“ Eu já estive apaixonada.”
                Pela primeira vez, eu senti uma emoção diferente. Como se tudo aquilo que ela era, toda a força animal e o ar de desafio constante tivessem desaparecido. Durou um segundo. A voz dela voltou ao tom sarcástico com uma ponta de dureza que não havia antes.
                -“ Ela era elegante e inteligente. Quando eu estava com ela, sentia uma felicidade ridícula, como se fosse uma criança de dez anos. Eu tinha problemas nessa altura, imensos problemas. Mas quando estava com ela, esses problemas eram postos de parte. Não desapareciam porque as coisas más nunca desaparecem, mas pareciam-me segundários.”
                Ela interrompeu e olhou para mim. Pareceu-me ver o brilho de uma lágrima mas a voz dela não tremeu nem um pouco.
                -“ Enfim, não cometas o mesmo erro que eu e luta por aquilo que tens.”
                -“ É tarde demais, já perdi aquilo que eu tinha”.
                A Sara olhou para mim, e acenou ao de leve com os olhos semi-cerrados.
                -“Tenho de me ir embora, porque tenho de me levantar cedo amanhã e já é uma da manhã”.
                Fechou o casaco, e hesitou um instante. Tirou um recibo amarrotado e uma caneta do bolso e rabiscou um número.
                -“Liga se te apetecer”.
                Deu-me um beijo nos lábios, tão rápido que nem sei se aconteceu e desapareceu na noite.
                  Ad augusta per angusta

                  [Projecto] Livro REA [Projecto Pessoal]
                  #28

                  Offline SugarCube

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                  • Novo Membro
                  • Género: Masculino
                  Já não voltei para dentro para a festa. Na verdade o resto da noite ficou envolto em nevoeiro e os detalhes esbateram-se na tela tosca que é a minha memória. Sei que acordei na minha cama completamente vestido. O papel da Sara continuava no meu bolso.

                  Passei a manhã a tentar concentrar-me em tarefas específicas e acabei por falhar em todas. Quando dei por mim estava sentado na cozinha a fumar o meu quinto cigarro do dia e ainda não era hora de almoço. A minha cabeça estava um inferno. A conversa da noite passada, as memórias do Pedro, o delírio demasiado real… Estava tudo a acontecer demasiado depressa.

                  Não sabia o que haveria de fazer. A Sara tinha razão, eu ainda amava o Pedro, não o podia deixar escapar-me. Tinha medo de ser rejeitado, de ele já ter seguido em frente e de eu não ser mais do que um ponto no seu passado que ele prefere esquecer. Preferia viver sem ele do que saber que ele me esqueceu. Não sei se aguentaria.

                  Se ao menos fosse só isso a incomodar-me! A Sara era tudo o que eu queria ser. Confiante, livre, feliz… Sim foi magoada e deitada a baixo mas levantou-se. Assumiu-se. Eu precisava de coragem, mais nada, será que ela é a ajuda que preciso?

                  Peguei no maço que tinha deitado para cima da mesa. Só tinha mais um cigarro. Peguei nele e acendi-o. “Último.” Prometi-me mais uma vez antes de o levar á boca. Talvez fosse mesmo. Se queria mudar a minha vida tinha de começar nalgum lado. Talvez não ligasse ao Pedro, pelo menos não para já, mas o papel que tinha no bolso iria ter alguma utilidade e talvez ainda para breve.
                    “Why fit in when you were born to stand out?”

                    [Projecto] Livro REA [Projecto Pessoal]
                    #29

                    dre_o

                    • Visitante
                    Esbatiam-se na minha consciência os momentos do passado. Os momentos que vivi com o Pedro.
                    Quão correcto era sequer tentar reatar algo com ele depois do que aconteceu?
                    É verdade que ele me escreveu uma carta, como eu gostava quando ele fazia, e disse para combinarmos algo... Mas... O que vai na mente dele?
                    Será que ele está confuso com tudo o que aconteceu entre nós? Será que este "café" que ele quer marcar é nada mais do que um encontro com intento de "sondar" os destroços que ficaram após a bomba?
                    Não o vejo desde então... pelo menos na vida real, porque tenho a leve sensação que o vejo sempre que durmo.

                    "Acho que ficaram coisas por dizer e sinto que não fui correcto contigo." - disseste tu na carta.
                    Oh Pedro... houve sequer forma de ser correcto depois daquela facada nas costas da nossa relação?

                    Fui ao meu bolso, peguei no papel.
                    - "Deveria ligar à Sara. Não sei porquê mas deveria."
                    Peguei no telemóvel, marquei o número e pus a chamar.
                    - "Boa, sem saldo..." - Exclamei. - "Tenho uma sorte."

                    « Última modificação: 24 de Março de 2014 por ErXdan »

                      [Projecto] Livro REA [Projecto Pessoal]
                      #30

                      Offline kenprt

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                      • Género: Masculino
                      Em casa, sozinho, atento a cada detalhe. Chave na porta, tapete no chão, espelho na parede... Revejo-me em posição horizontal deitado sobre uma cama, paralelo a um tecto que não paro de admirar. Por momentos sinto-me a flutuar perdido no imenso universo como que mais uma estrela perdida nesse plasma. Sentia o brilho a consumir-me por dentro... Eu não queria implodir.

                       NÂÃÃOO! gritei implodindo.

                      O dia começa, a cabeça ergue-se e com ela uma pequena felicidade, réstia desse tal brilho que quero tanto mostrar. Sou movido por ela... porque não a liberto!? , questionei-me.
                      Saio de casa e organizo na minha cabeça... inscrição no ginásio, comprar um livro e manter-me actualizado. Carrego o telemóvel numa caixa multibanco e quando me viro, uma bicicleta quase me atropela... normal seria ficar fulo mas não, sorrio.

                      "Viver é como andar de bicicleta: é preciso estar em constante movimento para manter o equilíbrio", a frase de um génio que me assolou o sorriso. Einstein, uma estrela polar neste imenso universo. E ele tinha razão... Se queria viver bem teria de mexer-me e parar de estar parado.

                      O dia preenche-se de movimento, e correria. Chego a casa exausto mas vivo...Sim, sinto-me vivo. 'Bora ligar à Sara...
                      « Última modificação: 11 de Abril de 2014 por ErXdan »