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Olá Visitante03.mar.2021, 03:24:30

Autor Tópico: La Vie D'Adèle [filme]  (Lida 9965 vezes)

 
La Vie D'Adèle [filme]
#20

PsyGirl_Av

  • Visitante
Já li a BD em inglês e recomendo. Esta e o filme complementam-se, focando diferentes temáticas - mais enfoque no bullying homofóbico na BD, ao passo que o filme sobressai mais as diferenças sociais. São ambos apaixonantes, com a BD a ser, na minha opinião, um pouco mais emotiva.



Ainda bem que partilhaste, vou tentar ler. Por acaso, no filme, que gostei imenso, fiquei com água na boca para ver as repercussões sociais das decisões tomadas - aquela cena na escola revoltou-me. No entanto, acho que optaram bem por focar a diferença entre classes, procurando fugir ao que é um cliché dos filmes juvenis lgbt.


Pois eu acho que um dos defeitos do filme foi mesmo ter ignorado as repercussoes na escola, depois daquela grande cena (o confronto) nao da mais nada, ate parece que ficou tudo bem  ::)

Quanto a bd, tambem fiquei com curiosidade em ler  ;)


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    La Vie D'Adèle [filme]
    #21

    Offline Spektrum

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    José Marmeleira escreveu na Ípsilon «Na banda desenhada vence o amor, no filme vence a vida».
    Responder
    Abdellatif Kechiche deixou-se seduzir pela representação da intimidade que Julie Maroh construiu em Le Bleu est une couleur chaude. Mas o seu filme não é uma adaptação ou mera interpretação da banda desenhada. É uma transfiguração da tragédia original numa história em que as personagens vivem e resistem depois do amor.

    Penso que o foco do filme não era tanto o bullying nem o romance lésbico. Era sobretudo uma crítica às classes sociais, e as repercussões destas no amor entre duas pessoas provenientes de estratos distintos. Para mais, Kechiche pretendeu que a história se desenrolasse desse modo, que o amor não fosse tão eterno e triunfante e quis, sobretudo, mostrar que é possível continuar, tal como a cena final o revela. Adèle afasta-se do local onde estava Emma e segue o seu percurso, pela rua fora. A vida continua, e o amor não foi eterno.

    Existem diferenças significativas entre a BD e o filme. Não vou enumerar, para não fazer ainda mais spoilers. Contudo, apreciei bastante a adaptação de Kechiche. Para mim, um dos melhores filmes que saiu este ano, e nesta década.
      “Always be a poet, even in prose.”
      ― Charles Baudelaire

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      #22

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      José Marmeleira escreveu na Ípsilon «Na banda desenhada vence o amor, no filme vence a vida».
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      Abdellatif Kechiche deixou-se seduzir pela representação da intimidade que Julie Maroh construiu em Le Bleu est une couleur chaude. Mas o seu filme não é uma adaptação ou mera interpretação da banda desenhada. É uma transfiguração da tragédia original numa história em que as personagens vivem e resistem depois do amor.

      Penso que o foco do filme não era tanto o bullying nem o romance lésbico. Era sobretudo uma crítica às classes sociais, e as repercussões destas no amor entre duas pessoas provenientes de estratos distintos. Para mais, Kechiche pretendeu que a história se desenrolasse desse modo, que o amor não fosse tão eterno e triunfante e quis, sobretudo, mostrar que é possível continuar, tal como a cena final o revela. Adèle afasta-se do local onde estava Emma e segue o seu percurso, pela rua fora. A vida continua, e o amor não foi eterno.

      Existem diferenças significativas entre a BD e o filme. Não vou enumerar, para não fazer ainda mais spoilers. Contudo, apreciei bastante a adaptação de Kechiche. Para mim, um dos melhores filmes que saiu este ano, e nesta década.


      Diferenças sociais? Se queres com isso dizer perspectivas de vida diferentes e diferentes objetivos, etc, concordo, se falas em classes sociais nao, ate porque nenhuma delas era rica ou pobre, andavam pela classe media, por isso nao foi isso que as separou. Alem do mais, o peso da homossexualidade e muito mais pesado que diferenças de classe social, que hoje em dia ja pouca gente liga a isso, penso eu.

        La Vie D'Adèle [filme]
        #23

        HigherThanMe

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        José Marmeleira escreveu na Ípsilon «Na banda desenhada vence o amor, no filme vence a vida».
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        Abdellatif Kechiche deixou-se seduzir pela representação da intimidade que Julie Maroh construiu em Le Bleu est une couleur chaude. Mas o seu filme não é uma adaptação ou mera interpretação da banda desenhada. É uma transfiguração da tragédia original numa história em que as personagens vivem e resistem depois do amor.

        Penso que o foco do filme não era tanto o bullying nem o romance lésbico. Era sobretudo uma crítica às classes sociais, e as repercussões destas no amor entre duas pessoas provenientes de estratos distintos. Para mais, Kechiche pretendeu que a história se desenrolasse desse modo, que o amor não fosse tão eterno e triunfante e quis, sobretudo, mostrar que é possível continuar, tal como a cena final o revela. Adèle afasta-se do local onde estava Emma e segue o seu percurso, pela rua fora. A vida continua, e o amor não foi eterno.

        Existem diferenças significativas entre a BD e o filme. Não vou enumerar, para não fazer ainda mais spoilers. Contudo, apreciei bastante a adaptação de Kechiche. Para mim, um dos melhores filmes que saiu este ano, e nesta década.


        Diferenças sociais? Se queres com isso dizer perspectivas de vida diferentes e diferentes objetivos, etc, concordo, se falas em classes sociais nao, ate porque nenhuma delas era rica ou pobre, andavam pela classe media, por isso nao foi isso que as separou. Alem do mais, o peso da homossexualidade e muito mais pesado que diferenças de classe social, que hoje em dia ja pouca gente liga a isso, penso eu.



        Acho que houve intenção notória de comparar perspetivas de vida e diferenças de objetivos, como também classes sociais - podes ver isso com os jantares em casa dos pais de cada uma. Sem querer ser preconceituosa, o capital intelectual e as diferentes abordagens de cada família, traduziam bem a diferença entre elas - não havia era preconceito de nenhuma das partes.
        Agora quanto ao resto que referiste, não sei se é assim tão linear.
        « Última modificação: 8 de Janeiro de 2014 por HigherThanMe »

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          #24

          Offline Spektrum

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          Diferenças sociais? Se queres com isso dizer perspectivas de vida diferentes e diferentes objetivos, etc, concordo, se falas em classes sociais nao, ate porque nenhuma delas era rica ou pobre, andavam pela classe media, por isso nao foi isso que as separou. Alem do mais, o peso da homossexualidade e muito mais pesado que diferenças de classe social, que hoje em dia ja pouca gente liga a isso, penso eu.

          Se atentares ao filme, denotas que Adèle come rapidamente, limpa-se com as mãos, e come sempre comidas mais simples e comuns entre a classe média (como é o caso do esparguete à bolonhesa). Na refeição de Adèle, os pais não conversavam sobre nenhum tópico, limitavam-se a ver televisão. Existe até o diálogo em que Emma vai jantar com a família de Adèle e os pais dela comentam que a profissão que Emma tem não lhe dá empregabilidade ou, pelo menos, eles não a vêem dessa forma. Comentam até que uma mulher precisa de um homem para conseguir ter uma vida estável. (É triste admiti-lo - e não quero estar a ser preconceituosa - mas concordo com a abordagem de Kechiche: este pensamento é recorrente nos estratos socioeconómicos mais baixos.)

          Por outro lado, os pais de Emma eram separados, a mãe dela já tinha um segundo companheiro e faziam-se servir de ostras e um bom vinho para o jantar (os típicos hábitos mais excêntricos e extravagantes das classes socioeconómicas mais altas). Adèle não sabia, contudo, apreciar esses hábitos, uma vez que nunca os tivera. E a própria disparidade entre as cenas, quando Adèle jantou com os pais de Emma, estes questionaram-na sobre a profissão dela. E, na perspectiva da família de Emma, ser educadora de infância é uma profissão de classes médias/baixas. Estes tinham discursos mais intelectuais e cultos, sobre pintura e filosofia, e não conseguiam explorar muito mais temas sobre as ambições de Adèle.

          O próprio circulo de amigos de Emma era, todo ele, intelectual. Havia um casal de lésbicas que estava a tirar um doutoramento sobre o trabalho de um pintor, se não me engano. Segundo a perspectiva da classe média, estudar e pensar é para quem não têm mais nada para fazer da vida, nem todas as famílias se dão ao luxo de terem filhos a tirar doutoramentos, uma vez que um doutoramento têm custos elevados e não possibilitam lucro directo, como aconteceria caso exercessem uma profissão mais prática. Emma estudava Belas Artes, um curso que, como sabem, não tem uma taxa de empregabilidade de causar inveja, e que ela gostava de estudar porque lhe dava prazer aprender aquela área. Adèle optou por um curso mais prático, que lhe permitisse trabalhar rapidamente e ganhar dinheiro, embora fosse o que gostasse, pois foi educada para tal.

          Havia uma enorme disparidade entre ambas as personagens. Na festa de Emma, Adèle era como uma empregada para Emma: organizou toda a festa, servia os amigos de Emma e não tinha assunto/interesse para participar nas discussões intelectuais daquele grupo. A meu ver, Emma tinha Adèle como sua musa (o que acontecia muito na Antiguidade com os pensadores de estratos mais altos), enquanto que Adèle procurava servir Emma (o que lhe foi educado pelo meio onde estava inserida - uma mulher tem de ajudar e servir o seu marido, pois é este quem lhe possibilita uma vida melhor).

          No entanto, esta é uma das muitas interpretações que existem por aí, sobre o filme. Eu acho que este foi grandiosamente pensado e realizado, no que diz respeito aos pequenos pormenores, que revelam essa tal disparidade. A homossexualidade, em nada alteraria o desenrolar da história. Se fossem personagens heterossexuais, teria o mesmo desfecho, porque o foco do filme era esse mesmo: mostrar que o meio onde estamos inseridos condiciona (e muito!) as relações que (man)temos com as pessoas provenientes de estirpes opostas à nossa.

          Daí eu o ter como um grande filme. Não por ser lésbico, mas porque me deixa perplexa com a realidade que observo. É um filme que me ficou, durante semanas, na cabeça e que me gela de cada vez que penso nele, não pelas cenas sexuais explícitas, mas devido a esses pequenos pormenores (à tragédia, efemeridade e fragilidade do/no amor).
          « Última modificação: 8 de Janeiro de 2014 por Spektrum »
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            #25

            PsyGirl_Av

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            Atenção: o texto contém spoilers!

            Além do que a Spektrum disse, e correctamente, existem outros pormenores que o realizador incluiu de forma a acentuar a diferença social, cultural e até educacional das personagens.
            A própria forma como as personagens se expressam emocionalmente também é totalmente díspar: Emma mantém sempre o seu rosto minimamente limpo (recorrendo a lenços de papel), pelo contrário Adèle chora de forma compulsiva, não tendo o cuidado de se limpar, quer ao nível das lágrimas, quer ao nível dos fluidos nasais que lhe escorrem, inclusivamente, para a boca (que imagem tão desagradável, eu sei, mas é a verdade) - tal é visível na cena em que se encontram no café. Outro pormenor remete para a cena em que estas se encontram no bar, e Emma dá a experimentar uma bebida mais "requintada", que Adèle detesta - recorde-se que esta estava na altura a beber cerveja.
            Relembre-se a cena em que estas estavam no jardim, a fazer uma espécie de piquenique, em que Emma retira parte do fiambre porque "não gostava", ao passo que Adèle refere que adora essa parte - nesse seguimento Adèle verbalizou que comia quase todo o tipo de refeições, menos ostras (aquilo que Emma mais gosta, e que viria a ser o jantar destas na casa dos pais de Emma, no qual "educaram" Adèle a gostar). Por falar em educar, não podemos deixar de atentar às constantes investidas de Emma para Adèle seguir uma vida mais artística, como escritora - mais em conformidade com o estatuto de Emma.
            Além de todos estes aspectos, sobressai ainda a diferença da expressão do casal nas casas dos respectivos pais: na casa dos pais da Emma, estas manifestam-se livremente, quer a nível afectuoso, quer a nível sexual; tal não acontecia na casa dos pais de Adèle.
            Esta questão das diferenças sociais não foi algo inventado, o próprio realizador salientou em inúmeras entrevistas que esse era o foco do filme, a sua idealização da história (algo que é bastante comum nas suas obras).

            Que filme brilhante!

              La Vie D'Adèle [filme]
              #26

              Offline Spektrum

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              Necessito de realçar a importância destas duas cenas, de enorme valor para uma interpretação clara do filme.
              Relembre-se a cena em que estas estavam no jardim, a fazer uma espécie de piquenique, em que Emma retira parte do fiambre porque "não gostava", ao passo que Adèle refere que adora essa parte - nesse seguimento Adèle verbalizou que comia quase todo o tipo de refeições, menos ostras (aquilo que Emma mais gosta, e que viria a ser o jantar destas na casa dos pais de Emma, no qual "educaram" Adèle a gostar). Por falar em educar, não podemos deixar de atentar às constantes investidas de Emma para Adèle seguir uma vida mais artística, como escritora - mais em conformidade com o estatuto de Emma.

              Quanto a esta, necessito de acrescentar algo mais... algo relacionado, já, com a homossexualidade.
              Além de todos estes aspectos, sobressai ainda a diferença da expressão do casal nas casas dos respectivos pais: na casa dos pais da Emma, estas manifestam-se livremente, quer a nível afectuoso, quer a nível sexual; tal não acontecia na casa dos pais de Adèle.

              A homossexualidade era percepcionada de forma diferente por ambas as famílias. Daí a Emma não ter qualquer pudor em fazer amor com uma mulher no seu quarto, possivelmente com a presença da sua família em casa. Por outro lado, Adèle escondia, a todo o custo, esse acontecimento. Quando fazia amor com Emma, no seu quarto (que era pequeno, desorganizado e com pouca luz natural), Adèle tapava (ou pedia para tapar) a boca a Emma, de forma a que os seus gemidos não se ouvissem pela casa. Para além disto, Adèle escondia o seu relacionamento homossexual dos pais, uma vez que eles pensavam que Emma dormia no sofá/noutra cama e era explicadora de Adèle. Ao invés, Emma apresentou Adèle como sua namorada à sua família, que reagiu naturalmente. Aqui surge, na minha opinião, a literacia e a educação como factores preponderantes na percepção e aceitação da homossexualidade.

              Outro aspecto que não foi mencionado, ainda, é relativo aos planos de câmara utilizados por Kechiche, para representar os pequenos pormenores da vida de ambas. Adèle surge, por mais do que uma vez, deitada na cama, vestida com roupa desportiva e descoberta, a dormir de boca aberta e barriga para baixo, sem qualquer postura corporal mais correcta.
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                #27

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                Se atentares ao filme, denotas que Adèle come rapidamente, limpa-se com as mãos, e come sempre comidas mais simples e comuns entre a classe média (como é o caso do esparguete à bolonhesa). Na refeição de Adèle, os pais não conversavam sobre nenhum tópico, limitavam-se a ver televisão. Existe até o diálogo em que Emma vai jantar com a família de Adèle e os pais dela comentam que a profissão que Emma tem não lhe dá empregabilidade ou, pelo menos, eles não a vêem dessa forma. Comentam até que uma mulher precisa de um homem para conseguir ter uma vida estável. (É triste admiti-lo - e não quero estar a ser preconceituosa - mas concordo com a abordagem de Kechiche: este pensamento é recorrente nos estratos socioeconómicos mais baixos.)

                Por outro lado, os pais de Emma eram separados, a mãe dela já tinha um segundo companheiro e faziam-se servir de ostras e um bom vinho para o jantar (os típicos hábitos mais excêntricos e extravagantes das classes socioeconómicas mais altas). Adèle não sabia, contudo, apreciar esses hábitos, uma vez que nunca os tivera. E a própria disparidade entre as cenas, quando Adèle jantou com os pais de Emma, estes questionaram-na sobre a profissão dela. E, na perspectiva da família de Emma, ser educadora de infância é uma profissão de classes médias/baixas. Estes tinham discursos mais intelectuais e cultos, sobre pintura e filosofia, e não conseguiam explorar muito mais temas sobre as ambições de Adèle.

                O próprio circulo de amigos de Emma era, todo ele, intelectual. Havia um casal de lésbicas que estava a tirar um doutoramento sobre o trabalho de um pintor, se não me engano. Segundo a perspectiva da classe média, estudar e pensar é para quem não têm mais nada para fazer da vida, nem todas as famílias se dão ao luxo de terem filhos a tirar doutoramentos, uma vez que um doutoramento têm custos elevados e não possibilitam lucro directo, como aconteceria caso exercessem uma profissão mais prática. Emma estudava Belas Artes, um curso que, como sabem, não tem uma taxa de empregabilidade de causar inveja, e que ela gostava de estudar porque lhe dava prazer aprender aquela área. Adèle optou por um curso mais prático, que lhe permitisse trabalhar rapidamente e ganhar dinheiro, embora fosse o que gostasse, pois foi educada para tal.

                Havia uma enorme disparidade entre ambas as personagens. Na festa de Emma, Adèle era como uma empregada para Emma: organizou toda a festa, servia os amigos de Emma e não tinha assunto/interesse para participar nas discussões intelectuais daquele grupo. A meu ver, Emma tinha Adèle como sua musa (o que acontecia muito na Antiguidade com os pensadores de estratos mais altos), enquanto que Adèle procurava servir Emma (o que lhe foi educado pelo meio onde estava inserida - uma mulher tem de ajudar e servir o seu marido, pois é este quem lhe possibilita uma vida melhor).

                No entanto, esta é uma das muitas interpretações que existem por aí, sobre o filme. Eu acho que este foi grandiosamente pensado e realizado, no que diz respeito aos pequenos pormenores, que revelam essa tal disparidade. A homossexualidade, em nada alteraria o desenrolar da história. Se fossem personagens heterossexuais, teria o mesmo desfecho, porque o foco do filme era esse mesmo: mostrar que o meio onde estamos inseridos condiciona (e muito!) as relações que (man)temos com as pessoas provenientes de estirpes opostas à nossa.

                Daí eu o ter como um grande filme. Não por ser lésbico, mas porque me deixa perplexa com a realidade que observo. É um filme que me ficou, durante semanas, na cabeça e que me gela de cada vez que penso nele, não pelas cenas sexuais explícitas, mas devido a esses pequenos pormenores (à tragédia, efemeridade e fragilidade do/no amor).
                Necessito de realçar a importância destas duas cenas, de enorme valor para uma interpretação clara do filme.
                Relembre-se a cena em que estas estavam no jardim, a fazer uma espécie de piquenique, em que Emma retira parte do fiambre porque "não gostava", ao passo que Adèle refere que adora essa parte - nesse seguimento Adèle verbalizou que comia quase todo o tipo de refeições, menos ostras (aquilo que Emma mais gosta, e que viria a ser o jantar destas na casa dos pais de Emma, no qual "educaram" Adèle a gostar). Por falar em educar, não podemos deixar de atentar às constantes investidas de Emma para Adèle seguir uma vida mais artística, como escritora - mais em conformidade com o estatuto de Emma.

                Quanto a esta, necessito de acrescentar algo mais... algo relacionado, já, com a homossexualidade.
                Além de todos estes aspectos, sobressai ainda a diferença da expressão do casal nas casas dos respectivos pais: na casa dos pais da Emma, estas manifestam-se livremente, quer a nível afectuoso, quer a nível sexual; tal não acontecia na casa dos pais de Adèle.

                A homossexualidade era percepcionada de forma diferente por ambas as famílias. Daí a Emma não ter qualquer pudor em fazer amor com uma mulher no seu quarto, possivelmente com a presença da sua família em casa. Por outro lado, Adèle escondia, a todo o custo, esse acontecimento. Quando fazia amor com Emma, no seu quarto (que era pequeno, desorganizado e com pouca luz natural), Adèle tapava (ou pedia para tapar) a boca a Emma, de forma a que os seus gemidos não se ouvissem pela casa. Para além disto, Adèle escondia o seu relacionamento homossexual dos pais, uma vez que eles pensavam que Emma dormia no sofá/noutra cama e era explicadora de Adèle. Ao invés, Emma apresentou Adèle como sua namorada à sua família, que reagiu naturalmente. Aqui surge, na minha opinião, a literacia e a educação como factores preponderantes na percepção e aceitação da homossexualidade.

                Outro aspecto que não foi mencionado, ainda, é relativo aos planos de câmara utilizados por Kechiche, para representar os pequenos pormenores da vida de ambas. Adèle surge, por mais do que uma vez, deitada na cama, vestida com roupa desportiva e descoberta, a dormir de boca aberta e barriga para baixo, sem qualquer postura corporal mais correcta.
                Necessito de realçar a importância destas duas cenas, de enorme valor para uma interpretação clara do filme.
                Relembre-se a cena em que estas estavam no jardim, a fazer uma espécie de piquenique, em que Emma retira parte do fiambre porque "não gostava", ao passo que Adèle refere que adora essa parte - nesse seguimento Adèle verbalizou que comia quase todo o tipo de refeições, menos ostras (aquilo que Emma mais gosta, e que viria a ser o jantar destas na casa dos pais de Emma, no qual "educaram" Adèle a gostar). Por falar em educar, não podemos deixar de atentar às constantes investidas de Emma para Adèle seguir uma vida mais artística, como escritora - mais em conformidade com o estatuto de Emma.

                Quanto a esta, necessito de acrescentar algo mais... algo relacionado, já, com a homossexualidade.
                Além de todos estes aspectos, sobressai ainda a diferença da expressão do casal nas casas dos respectivos pais: na casa dos pais da Emma, estas manifestam-se livremente, quer a nível afectuoso, quer a nível sexual; tal não acontecia na casa dos pais de Adèle.

                A homossexualidade era percepcionada de forma diferente por ambas as famílias. Daí a Emma não ter qualquer pudor em fazer amor com uma mulher no seu quarto, possivelmente com a presença da sua família em casa. Por outro lado, Adèle escondia, a todo o custo, esse acontecimento. Quando fazia amor com Emma, no seu quarto (que era pequeno, desorganizado e com pouca luz natural), Adèle tapava (ou pedia para tapar) a boca a Emma, de forma a que os seus gemidos não se ouvissem pela casa. Para além disto, Adèle escondia o seu relacionamento homossexual dos pais, uma vez que eles pensavam que Emma dormia no sofá/noutra cama e era explicadora de Adèle. Ao invés, Emma apresentou Adèle como sua namorada à sua família, que reagiu naturalmente. Aqui surge, na minha opinião, a literacia e a educação como factores preponderantes na percepção e aceitação da homossexualidade.

                Outro aspecto que não foi mencionado, ainda, é relativo aos planos de câmara utilizados por Kechiche, para representar os pequenos pormenores da vida de ambas. Adèle surge, por mais do que uma vez, deitada na cama, vestida com roupa desportiva e descoberta, a dormir de boca aberta e barriga para baixo, sem qualquer postura corporal mais correcta.


                Eu percebo o que queres dizer, e e obvio que o realizador quis realçar a diferença entre dois mundos, a diferença esta que e eu nao vejo a origem dessa diferença em base social ou economica. A certo que a Emma podia ser um pouco mais rica que a Adele, ma snao muuito mais, nao era propriamente milionaria, nem a Adele era pobre, entendes o que quero dizer? Existia uma grande diferença em termos de mentalidade, talvez devido a diferentes noçoes de vida devido a experiencias de vida diferentes, etc, em suma, familias com culturas diferentas. Mas talvez essas diferenças tenham mais a vez com a educaçao que tiveram do que com as posses que tem... alias, lembrem se que ha familias com muito dinheiro bem preconceituosas, nao e muito por ai que se chega a conclusoes, penso eu.

                Mas concordo com essa diferença intelectual que falas, que la esta, provem da educaçao (suponho eu), e das experiencias de vida de cada familia, a cultura que cada uma tem... a familia da Emma e mais "intelectual" e artistica, e a da Adele e mais "pratica", por assim dizer, nao liga as coisas que a familia da Emma ligam. Mas eu nao acho que essas diferenças tenham propriamente a ver a classe social per se, so isso.

                Ja agora, devo dizer que nao percebi muito bem porque e que o filme continuou pos o "esclarecimento" no restaurante entre a Adele e a Emma, ai seria um optimo momento para acabar.
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                  Offline Juh'

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                  Acho que deveria de ter ganho o Globo de Ouro ! :(
                    After all this time?
                    Always...

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                    #29

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                    Acho que deveria de ter ganho o Globo de Ouro ! :(

                    Aparentemente, o cinema italiano triunfou. [smiley=desconfortavel.gif]

                    De qualquer forma, ser premiado em Cannes, já é um grande feito! :)
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                      #30

                      PsyGirl_Av

                      • Visitante
                      Acho que deveria de ter ganho o Globo de Ouro ! :(


                      Aparentemente, o cinema italiano triunfou. [smiley=desconfortavel.gif]

                      De qualquer forma, ser premiado em Cannes, já é um grande feito! :)

                      Só depois de ver o filme "La grande bellezza" é que posso argumentar, mas de facto fiquei um pouco triste por "La Vie D'Adèle" não ter vencido - também porque ganhei um apego sentimental ao filme.

                      Spoiler (clica para mostrar/esconder)

                        La Vie D'Adèle [filme]
                        #31

                        Offline Juh'

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                        nem uma nomeação teve para Óscares... estou triste!
                          After all this time?
                          Always...

                          La Vie D'Adèle [filme]
                          #32

                          Offline Spektrum

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                          • [P]oiesis.
                          nem uma nomeação teve para Óscares... estou triste!

                          Se eu fosse realizador, iria preferir a Palme D'Or a um Oscar[smiley=estiloso.gif]
                            “Always be a poet, even in prose.”
                            ― Charles Baudelaire

                            La Vie D'Adèle [filme]
                            #33

                            PsyGirl_Av

                            • Visitante
                            nem uma nomeação teve para Óscares... estou triste!

                            É, de facto, lamentável. Mas o filme ficou muito manchado pelos comentários depreciativos das próprias actrizes aos métodos de realização de Kechiche. Fica na mesma o valor da obra para poder ser contemplado na posterioridade.

                              La Vie D'Adèle [filme]
                              #34

                              Offline .CC

                              • **
                              • Membro Júnior
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                              nem uma nomeação teve para Óscares... estou triste!

                              É, de facto, lamentável. Mas o filme ficou muito manchado pelos comentários depreciativos das próprias actrizes aos métodos de realização de Kechiche. Fica na mesma o valor da obra para poder ser contemplado na posterioridade.

                              ouvi falar disso mas nunca soube ao certo o que elas disseram.. É pena! :/
                                If you try to be something you're not, you'll end up being nothing.

                                La Vie D'Adèle [filme]
                                #35

                                Offline Spektrum

                                • *****
                                • Membro Vintage
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                                • [P]oiesis.
                                Em seguimento das vossas conversações: Abdellatif Kechiche preferia guardar o seu ménage à trois na gaveta.
                                Responder
                                [...] Numa entrevista à revista Télérama desta semana, Kechiche diz que, depois das declarações recentes das suas actrizes (sobretudo Léa Seydoux), o filme está “demasiado sujo”: “Na minha opinião, este filme não devia sair. A Palma de Ouro não foi mais do que um breve instante de felicidade, logo de seguida senti-me humilhado, desonrado, senti uma rejeição à minha pessoa que vivo como uma maldição.”

                                [...]
                                “Kechiche é um génio, mas torturado”, “em certo sentido, fica-se preso numa armadilha” de violência física e emocional, foi-se ouvindo. “Vê-se que estávamos realmente a sofrer”, disse Adèle Exarchopoulos ao Daily Beast. “Com a cena de luta, foi horrível. Ela [Léa Sey­doux] estava-me a bater tantas vezes, e [Kéchiche] gritava: Bate-lhe! Bate-lhe outra vez!” [...]
                                  “Always be a poet, even in prose.”
                                  ― Charles Baudelaire

                                  La Vie D'Adèle [filme]
                                  #36

                                  Offline Forbidden

                                  • *****
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                                  nem uma nomeação teve para Óscares... estou triste!

                                  É, de facto, lamentável. Mas o filme ficou muito manchado pelos comentários depreciativos das próprias actrizes aos métodos de realização de Kechiche. Fica na mesma o valor da obra para poder ser contemplado na posterioridade.


                                  Quanto a total ausencia nos oscares, tambem acho muito estranho, e uma injustiça! Devia ter sido nomeado pelo menos nas categorias de Melhor Atriz e Melhor Filme Estrangeiro...

                                  Pois foi, e se o que as atrizes disseram foi verdade eles tem totalmente razao! O realizador exagerou muito, foi cruel mesmo.
                                  « Última modificação: 17 de Janeiro de 2014 por Forbidden »

                                    La Vie D'Adèle [filme]
                                    #37

                                    S from Small

                                    • Visitante
                                    nem uma nomeação teve para Óscares... estou triste!

                                    É, de facto, lamentável. Mas o filme ficou muito manchado pelos comentários depreciativos das próprias actrizes aos métodos de realização de Kechiche. Fica na mesma o valor da obra para poder ser contemplado na posterioridade.


                                    Quanto a total ausencia nos oscares, tambem acho muito estranho, e uma injustiça! Devia ter sido nomeado pelo menos nas categorias de Melhor Atriz e Melhor Filme Estrangeiro...

                                    Pois foi, e se o que as atrizes disseram foi verdade eles tem totalmente razao! O realizador exagerou muito, foi cruel mesmo.

                                    Bem, a ausência nos Óscares é natural porque praticamente os filmes lá são nomeados conforme a divulgação na imprensa e o merchandising que eles próprios fazem dos filmes, dando mais oportunidades, claro, aos americanos (e o filme não foi visto com muito bons olhos, as atrizes até disseram que estavam admiradas com o facto de os americanos aceitarem mais depressa um filme extremamente violento do que um filme com cenas de sexo). Mas fartou-se de ganhar outros prémios tão ou mais importantes do que o óscar e isso é de valorizar.

                                    Quanto aos comentários das atrizes sobre o realizador...elas depois explicaram porque disseram aquilo sobre o realizador! Não foi para o criticarem negativamente, foi mais para demonstrarem como ele era exigente. Tanto que esta exigência é comparada à de Alfred Hitchcock :) Verdade seja dita, para se ser bom realizador tem de se ter um bocado de loucura misturada com exigência.

                                    Quanto à minha opinião sobre o filme...óbvio que é positiva porque gosto da maneira como está feito, gosto da história e claro que às atrizes  tenho de lhes tirar o chapéu, porque acredito que não seja fácil expor-se assim tanto ao mundo como elas o fizeram e tão bem.

                                      La vie d'adele - filme lésbico frances
                                      #38

                                      Offline beautifulflower

                                      • *****
                                      • Membro Elite
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                                      Está qualquer coisa  ::)

                                        La vie d'adele - filme lésbico frances
                                        #39

                                        Offline Tânia88

                                        • ***
                                        • Membro Total
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                                        Mal soube que ia passar no Lisbon e Estoril film festival comprei logo o bilhete. Ja tinha lido a BD e pela primeira vez gostei mais do filme do que propriamente do livro (claro que sendo uma BD da-nos uma visao mais reduzida do que daria uma narrativa). Adorei o facto dos contrastes na sociedade estarem tao presentes e parecer tudo real, as emocoes, os sentimentos, ate quando ela comia (a Adele a comer esparguete e algo peculiar ahaha) . Sinceramente e um filme que tenho de adquirir, vale a pena ver.

                                        Ai ela a comer de boca aberta é descomunal ahahah
                                        Eu adorei o filme e adoraria ler também o livro, ao que tudo indica é possível que haja continuação, eu espero que sim :)
                                          Não dês valor apenas depois de perder, aprende antes a dar valor para não perderes.

                                           

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