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Olá Visitante18.set.2019, 01:56:29

Autor Tópico: Heterossexualidade é natural ao ser humano?  (Lida 1624 vezes)

 
Heterossexualidade é natural ao ser humano?
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Offline Prysma

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  • Género: Masculino
Boas amigos.

Há pouco tempo estive a ler um artigo bastante interessante e achei que vos pudesse interessar. O artigo fala da construção do Homem como ser heterossexual, homossexual ou bissexual e como a sociedade pode influenciar essa mesma construção. Eu sei que o texto ainda é bastante longo mas percam algum tempinho porque realmente vale a pena.

Fonte: http://literatortura.com/2013/07/heterossexualidade-e-natural-ao-ser-humano/

Heterossexualidade é natural ao ser humano?


Há uma essência de homem e de mulher? Nascemos definidos para ser heterossexual, homossexual, bissexual, ou somos construídos socialmente? Desde a antiguidade, o ser humano é definido e conhecido como um zoon politikon: o animal político, ou seja, a característica da natureza humana é ser social, sociável, viver em comunidade, em relação com os outros. Sabe-se também que outros animais vivem em bando, em conjunto e têm certos tipos de organização. Todavia, diferente deles, a espécie humana não se reduz à dimensão biológica, genética e física.

A natureza humana é amorfa, sem forma: uma potência de vida em busca de atualização, uma energia desde o princípio sem definição. Difícil afirmar, sem medo de errar, que alguém nasce homem ou mulher; homossexual, bissexual e, inclusive, heterossexual:

“Todos têm essa possibilidade de se relacionar com o mesmo sexo, mas, no processo de socialização, as pessoas podem perdê-la. Desde crianças somos adestrados. Heterossexualidade não é algo natural, hoje sabemos que ela é compulsória“ – diz Richard Miskolci, professor do departamento de Sociologia da UFSCAR (Universidade Federal de São Carlos). Desta fala de Miskolci, apenas um adendo podemos acrescentar: é a heteronormatividade que se constitui como anormal e anti-natural e não a heterossexualidade. Pois a norma machista heterossexual além de desqualificar tanto a homossexualidade quanto a bissexualidade como expressões da sexualidade, ela tacha as pessoas homoafetivas e as biafetivas como promíscuas. Mais uma ideia equivocada: Segundo a psicóloga Claudia Lordello – sexóloga do projeto Afrodite, o ambulatório de sexualidade feminina da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo) –, tanto os homossexuais quanto “O bissexual pode ter relacionamentos estáveis e duradouros”. Conforme declarou à Cléo Francisco em reportagem para a Uol, a psiquiatra Carmita Abdo, fundadora e coordenadora do ProSex (Programa de Estudos em Sexualidade da USP) diz: “há promíscuos e não promíscuos heterossexuais, bissexuais e homossexuais. O indivíduo que realiza sua bissexualidade não pode ser considerado promíscuo por esse comportamento exclusivamente. Promiscuidade é trocar ou acumular parcerias sem critério e sem limite. É fazer do sexo uma forma banal e irresponsável de relacionamento. E isso resulta de um perfil de personalidade independentemente da orientação sexual”. Para ela, os bissexuais essencialmente continuarão sendo atraídos tanto por homem quanto por mulheres, mesmo assumindo uma relação monogâmica.

E se as pessoas homoeróticas se vêm a priori desqualificadas, as bissexuais são preconceituosamente tachadas de “gays”: “O bissexual sofre muito preconceito. Já ouvi muitas vezes que não existe bissexual, mas homossexual que não quer se assumir. Isso não é verdade”, diz o psicólogo e sexólogo Ronaldo Pamplona da Costa – diretor do departamento de Sexualidade da Associação Paulista de Medicina. Entretanto, as pessoas bissexuais têm uma certa aceitação dentro da heteronormatividade por também se atraírem pelo sexo oposto conforme diz a psicanalista Regina Navarro Lins sobre os bissexuais: “São tidos como gays enrustidos. Numa cultura de mentalidade patriarcal, se você diz que é bissexual, também informa que faz sexo com seu oposto, o que pode amenizar um pouco o preconceito”.

Assim, devido mesmo à melhor aceitação social e às aberturas provocadas pelo feminismo e o movimento hippie, a historiadora Mary Del Priore acredita que “Caminhamos para um mundo onde os papéis sexuais vão ficar cada vez mais diluídos e as pessoas vão se permitir escolher e não ser necessariamente a mesma coisa a vida toda. A bissexualidade se abre hoje como uma possibilidade para todo mundo. Acho que a intolerância em relação ao bissexual vai decrescer”. Semelhantemente a Del Priore, a psicanalista Regina Navarro Lins opina: “é possível que haja mais bissexuais daqui a algum tempo por conta da dissolução das fronteiras entre masculino e feminino. Não existe mais nada que só interesse a mulher ou ao homem. Acredito que, no futuro, muito mais gente poderá ser bissexual porque a escolha de objeto de amor provavelmente se dará pelas afinidades e não pelo fato de ser homem ou mulher”.

Tudo isso porque o ser humano nasce com a condição humana: a possibilidade de ser e transformar-se, de sentir e conscientizar-se. A condição humana é abertura, possibilidades indeterminadas de ser o indeterminado, mutante, indefinido. Sendo assim, o primeiro dado na condição humana é a sexualidade. Sua identidade, personalidade e reconhecimento de si se produz como uma miscelânea influenciada por diversos fatores internos e externos. Por isso, não podemos reduzi-la à dimensão biológica e, mais ainda, ao reducionismo radical dado no órgão genital/ sexual. Ademais, tudo é comportamento, expressão da ação-reação implicada pelo resultado de várias interações. A pessoa humana é uma construção sociocultural: “Nas ciências sociais, desde a década de 1960, começaram a surgir estudos que mostram que as pessoas são socialmente treinadas para gostar do sexo oposto” – afirma Miskolci.

Consequentemente, como tal produto, as atribuições, as expectativas, as perspectivas, as habilidades e os aspectos psico-socio-culturais que são impostos à pessoa humana, formalizam e padronizam a sexualidade humana para haver uma correspondência e referência necessárias entre papel e identidade de gênero e identidade sexual. Essa normatização ou tentativa de dominar a natureza começa, pois, por desvirtuá-la e deformá-la ao distinguir presunçosamente o que deve ser reconhecido pelo sexo biológico e o que pertence necessariamente ao gênero “correspondente”. A sexualidade não se limita ao sexo, ao gênero, à identidade de gênero e ao papel sexual. Cromossomos, órgãos genitais, hormônios, gônadas não dizem quem somos; não somos só machos ou só fêmeas, homens ou mulheres; não só pensamos, sentimos e agimos masculinamente, mas também somos, pensamos, sentimos e agimos femininamente. A condição é humana, somos seres humanos e não nos restringimos a ser macho, menino, homem ou fêmea, menina, mulher.

Há muitos estereótipos e tipificações de sexo e gênero. Há muita normatização do erotismo. Fixação da identidade e engessamento do papel e identidade sexual. Faz-se necessário considerar aquelas generalizações para falar sobre a sexualidade humana. Sua sexualidade significa prazer, conforme afirma a psicóloga Claudia Lordello, “Esse interesse pode ser pelo mesmo sexo ou o contrário: a pessoa vive uma relação homossexual e, descobre que tem desejo pelo sexo oposto”. Tudo está sujeito à mudança. “A orientação sexual pode ir mudando no decorrer da vida. Sei do caso de um homossexual assumido por 30 anos, casado com outro homem que, aos 60, casou com uma mulher por opção” – conta o psiquiatra Ronaldo Pamplona da Costa.

A heterossexualidade não é anormal tampouco a homossexualidade ou bissexualidade. O feminismo ou o movimento GLBT não vêem as pessoas heterossexuais como inimigas. O que se mostra como algo não natural é a heteronormatividade – um fascismo na sociedade, onde o machismo presume saber o que é bom para a mulher e para todos. Ele recria os homens com um plano de vida universal, julgando saber a necessidade alheia e delimitando as importâncias em suas vidas. Por isso, em último caso, feminismo não faz sentido para o machismo. Há demasiadas ponderações promovendo a desqualificação geral e esvaziamento do feminismo e do movimento GLBT reafirmando o machismo como autoridade e voz de todos. Essa é a ideologia presunçosa, onde as minorias e os oprimidos não podem decidir as questões que lhes cabem e as suas demandas: o machismo heterossexual quer ditar o que é importante para o diverso.

Com essa ideologia, o machismo impõe leis para continuar déspota e vê a educação como o caminho para sua manutenção: Quer inculcar nos animaizinhos uma determinação natural inexistente. Principalmente a educação cissexista (quando a pessoa é sócio-politicamente vista com uma sexualidade cujo corpo e gênero estão alinhados) que identifica os gêneros das pessoas pelos órgãos que lhes são “inerentes”, ou seja, indicados pelos órgãos reprodutores: os homens são machos e têm pênis, testículos e peitoral (…) e as mulheres são fêmeas e têm vaginas, ovários e seios (…). A natureza teria predeterminado tudo e devemos obedecê-la. A ordem natural, portanto, seria o paradigma da ordem sexual e social. Um binarismo natural. Ledo engano.

Nossa educação deve ser revista desde a raiz, pois é no seio da educação familiar que as atrocidades contra a diversidade se fundem. Projeções e transmissões de atribuições começam ali desde a relação sexual, no desenvolvimento do nascituro e petrificam-se a cada ultrassom. Não devemos brincar com a sexualidade infantil, conceituando-a delimitadamente. Devemos vê-la como uma noção genérica e não pode ser definida pelo exterior. Quem assim procede, perde-a de vista, torna-a pseudo. Ao lado da biologia, a dimensão psico-socio-cultural compõe a sexualidade humana. Ouso dizer: a dimensão sócio-cultural-dialógica é mais importante que os XX e XY e todas as gônadas, os órgãos genitais, as características sexuais secundárias implicadas pelas glândulas endócrinas (produção de hormônios) e os comandos do córtex cerebral. A sexualidade do ser humano é a interação interpessoal e não se restringe a um único atributo. Os modos masculino e feminino são normativamente impostos nas formas de ser e agir da pessoa. A dimensão sociocultural é uma expressão relacional e quem a padroniza é o poder do sexo vigente. Por conseguinte, é uma ordem falsa. Normatizar é contrariar a natureza.

A sexualidade, aquilo pelo qual a condição humana se conecta com o mundo e se atualiza, é essa abertura ao eu, ao outro, ao conjunto. A única coisa que define a sexualidade é a disposição de sentir prazer: E uma vez consciente deste prazer (de sua sexualidade), a pessoa vai se formando, age e reage. O órgão genital não define a sexualidade e o gênero da pessoa: a sexualidade constitui a pessoa inteira. A sexualidade enquanto uma expressão humana envolve, portanto, a dimensão corporal, psicológica e sociocultural. E essa última dimensão se desenvolve pela interação e comunicação: É comportamento interpessoal e precisa do reconhecimento e integração de si mesmo à medida que interage, dialoga e sente o outro.

O sexo é uma das expressões da sexualidade. Ele se dá nas autonomias dos “eus”, entre aqueles que gozam das mesmas condições: por exemplo, a descoberta do corpo entre as crianças, o sexo entre os adolescentes, as relações entre os que têm maioridade civil.

O feminismo e o movimento GLBT alertam sobre a educação heteronormativa, deformadora da condição humana ao reprimir a sexualidade e as posições sexuais. Eles são contra os papeis dados e impostos também na cama, onde há muita repressão: A questão não é engolir ou não engolir o sêmen ou transar ou não transar de quatro; seja por trás ou pela frente, em cima ou embaixo, o erro consiste em calar as expressões da sexualidade. A denúncia se manifesta contra a heteronormatividade machista, que está com medo de perder o poderio por pensar que as outras formas de sexualidade (prazer e ser) pretendem agir como o Leão Alfa Macho. A heteronormatividade escraviza todos os gêneros e prazeres sexuais. Eis o inimigo da sexualidade humana: o padrão e normatização machista heterossexual.

Não há heterofobia: é um contrassenso sócio-político-cultural dizer “orgulho de ser hetero”, “orgulho de ser homem”, “orgulho de ser branco”. Quem governa não é reprimido ou está oprimido. Ainda não há a plena liberdade sexual porque quem domina a sociedade são os titãs do machismo e da heterossexualidade. E eles estão com medo de uma nova ordem se instaurar no olimpo do sexo e verem o declínio do seu império. Todavia, o feminismo não quer pôr a mulher no lugar do homem pretendendo gerar uma vaginocracia ou suplantar o patriarcalismo pelo matriarcalismo. Assim como a homossexualidade e a bissexualidade não querem tolher o erotismo heterossexual para impetrarem a homonormatividade ou a binormatividade. Eles querem ensinar que: 1) a natureza humana é ser-com, 2) a condição humana é conjunto e relação, 3) a pessoa se desenvolve em contato e que 4) o comportamento, esse movimento fluente que constrói os indivíduos a cada ação, reação e consciência, conduz a sexualidade humana em sua indefinição. Na condição e sexualidade humana não há lados opostos ou semelhantes, superiores ou inferiores, interno ou externo, dentro ou fora. Somos uma fita de Möbius. A sexualidade humana não é definível. Não somos só machos e fêmeas. Não somos só homens e mulheres. Somos performances. Somos trans: Somos uma constante transformação, uma perene mudança, uma necessária possibilidade de ser.

Nem o feminismo nem o movimento GLBT têm por característica o totalitarismo: não querem transformar todos em mulheres, homossexuais ou bissexuais, não reduzem as pessoas ao corpo. Esses movimentos não querem substancializar a natureza humana: São vozes conclamando a todos para reconhecer a diversidade, para perceberem o outro lado que nem lado é: Não há lado do homem ou lado da mulher. Eles também põem em relevo essa condição humana e, como a sociedade está marcada pelo binômio macho-fêmea, homem-mulher e pai-mãe, chamam a atenção para a isonomia que as mulheres têm em relação aos homens e não em detrimento dos homens, os mesmos direitos e deveres que os homossexuais, bissexuais e pessoas trans têm em relação às pessoas heterossexuais e não em detrimento de sua heterossexualidade. Eles verbalizam sobre os direitos que lhes são negados, os condicionamentos que lhes foram e são impostos. Não há lugar para o negligenciamento da condição e sexualidade humana.

Os movimentos feministas e GLBT’s existem enquanto houver a cegueira causada pela ideologia da pseudociência da superioridade machista na teoria de gênero. A teoria do gênero é um fato e quem a considera pseudociência se localiza na ala dominante, imbuído pela razão e ideal da lei da selva do todo poderoso machismo. Habitat reprimido onde há um panóptico vigiando a todos até quando o Leão dorme, pois dominou as fêmeas e subjulgou os outros machos que não estão preocupados em destronar o símbolo Alfa, mas tornarem-se eles mesmos continuadores da ordem. A teoria do gênero quer abolir esta lei irracional, anormal e anti-natural que se chama heteronormatividade.


    Heterossexualidade é natural ao ser humano?
    #1

    rluz

    • Visitante
    Boas amigos.

    Há pouco tempo estive a ler um artigo bastante interessante e achei que vos pudesse interessar. O artigo fala da construção do Homem como ser heterossexual, homossexual ou bissexual e como a sociedade pode influenciar essa mesma construção. Eu sei que o texto ainda é bastante longo mas percam algum tempinho porque realmente vale a pena.

    Fonte: http://literatortura.com/2013/07/heterossexualidade-e-natural-ao-ser-humano/

    Heterossexualidade é natural ao ser humano?


    Há uma essência de homem e de mulher? Nascemos definidos para ser heterossexual, homossexual, bissexual, ou somos construídos socialmente? Desde a antiguidade, o ser humano é definido e conhecido como um zoon politikon: o animal político, ou seja, a característica da natureza humana é ser social, sociável, viver em comunidade, em relação com os outros. Sabe-se também que outros animais vivem em bando, em conjunto e têm certos tipos de organização. Todavia, diferente deles, a espécie humana não se reduz à dimensão biológica, genética e física.

    A natureza humana é amorfa, sem forma: uma potência de vida em busca de atualização, uma energia desde o princípio sem definição. Difícil afirmar, sem medo de errar, que alguém nasce homem ou mulher; homossexual, bissexual e, inclusive, heterossexual:

    “Todos têm essa possibilidade de se relacionar com o mesmo sexo, mas, no processo de socialização, as pessoas podem perdê-la. Desde crianças somos adestrados. Heterossexualidade não é algo natural, hoje sabemos que ela é compulsória“ – diz Richard Miskolci, professor do departamento de Sociologia da UFSCAR (Universidade Federal de São Carlos). Desta fala de Miskolci, apenas um adendo podemos acrescentar: é a heteronormatividade que se constitui como anormal e anti-natural e não a heterossexualidade. Pois a norma machista heterossexual além de desqualificar tanto a homossexualidade quanto a bissexualidade como expressões da sexualidade, ela tacha as pessoas homoafetivas e as biafetivas como promíscuas. Mais uma ideia equivocada: Segundo a psicóloga Claudia Lordello – sexóloga do projeto Afrodite, o ambulatório de sexualidade feminina da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo) –, tanto os homossexuais quanto “O bissexual pode ter relacionamentos estáveis e duradouros”. Conforme declarou à Cléo Francisco em reportagem para a Uol, a psiquiatra Carmita Abdo, fundadora e coordenadora do ProSex (Programa de Estudos em Sexualidade da USP) diz: “há promíscuos e não promíscuos heterossexuais, bissexuais e homossexuais. O indivíduo que realiza sua bissexualidade não pode ser considerado promíscuo por esse comportamento exclusivamente. Promiscuidade é trocar ou acumular parcerias sem critério e sem limite. É fazer do sexo uma forma banal e irresponsável de relacionamento. E isso resulta de um perfil de personalidade independentemente da orientação sexual”. Para ela, os bissexuais essencialmente continuarão sendo atraídos tanto por homem quanto por mulheres, mesmo assumindo uma relação monogâmica.

    E se as pessoas homoeróticas se vêm a priori desqualificadas, as bissexuais são preconceituosamente tachadas de “gays”: “O bissexual sofre muito preconceito. Já ouvi muitas vezes que não existe bissexual, mas homossexual que não quer se assumir. Isso não é verdade”, diz o psicólogo e sexólogo Ronaldo Pamplona da Costa – diretor do departamento de Sexualidade da Associação Paulista de Medicina. Entretanto, as pessoas bissexuais têm uma certa aceitação dentro da heteronormatividade por também se atraírem pelo sexo oposto conforme diz a psicanalista Regina Navarro Lins sobre os bissexuais: “São tidos como gays enrustidos. Numa cultura de mentalidade patriarcal, se você diz que é bissexual, também informa que faz sexo com seu oposto, o que pode amenizar um pouco o preconceito”.

    Assim, devido mesmo à melhor aceitação social e às aberturas provocadas pelo feminismo e o movimento hippie, a historiadora Mary Del Priore acredita que “Caminhamos para um mundo onde os papéis sexuais vão ficar cada vez mais diluídos e as pessoas vão se permitir escolher e não ser necessariamente a mesma coisa a vida toda. A bissexualidade se abre hoje como uma possibilidade para todo mundo. Acho que a intolerância em relação ao bissexual vai decrescer”. Semelhantemente a Del Priore, a psicanalista Regina Navarro Lins opina: “é possível que haja mais bissexuais daqui a algum tempo por conta da dissolução das fronteiras entre masculino e feminino. Não existe mais nada que só interesse a mulher ou ao homem. Acredito que, no futuro, muito mais gente poderá ser bissexual porque a escolha de objeto de amor provavelmente se dará pelas afinidades e não pelo fato de ser homem ou mulher”.

    Tudo isso porque o ser humano nasce com a condição humana: a possibilidade de ser e transformar-se, de sentir e conscientizar-se. A condição humana é abertura, possibilidades indeterminadas de ser o indeterminado, mutante, indefinido. Sendo assim, o primeiro dado na condição humana é a sexualidade. Sua identidade, personalidade e reconhecimento de si se produz como uma miscelânea influenciada por diversos fatores internos e externos. Por isso, não podemos reduzi-la à dimensão biológica e, mais ainda, ao reducionismo radical dado no órgão genital/ sexual. Ademais, tudo é comportamento, expressão da ação-reação implicada pelo resultado de várias interações. A pessoa humana é uma construção sociocultural: “Nas ciências sociais, desde a década de 1960, começaram a surgir estudos que mostram que as pessoas são socialmente treinadas para gostar do sexo oposto” – afirma Miskolci.

    Consequentemente, como tal produto, as atribuições, as expectativas, as perspectivas, as habilidades e os aspectos psico-socio-culturais que são impostos à pessoa humana, formalizam e padronizam a sexualidade humana para haver uma correspondência e referência necessárias entre papel e identidade de gênero e identidade sexual. Essa normatização ou tentativa de dominar a natureza começa, pois, por desvirtuá-la e deformá-la ao distinguir presunçosamente o que deve ser reconhecido pelo sexo biológico e o que pertence necessariamente ao gênero “correspondente”. A sexualidade não se limita ao sexo, ao gênero, à identidade de gênero e ao papel sexual. Cromossomos, órgãos genitais, hormônios, gônadas não dizem quem somos; não somos só machos ou só fêmeas, homens ou mulheres; não só pensamos, sentimos e agimos masculinamente, mas também somos, pensamos, sentimos e agimos femininamente. A condição é humana, somos seres humanos e não nos restringimos a ser macho, menino, homem ou fêmea, menina, mulher.

    Há muitos estereótipos e tipificações de sexo e gênero. Há muita normatização do erotismo. Fixação da identidade e engessamento do papel e identidade sexual. Faz-se necessário considerar aquelas generalizações para falar sobre a sexualidade humana. Sua sexualidade significa prazer, conforme afirma a psicóloga Claudia Lordello, “Esse interesse pode ser pelo mesmo sexo ou o contrário: a pessoa vive uma relação homossexual e, descobre que tem desejo pelo sexo oposto”. Tudo está sujeito à mudança. “A orientação sexual pode ir mudando no decorrer da vida. Sei do caso de um homossexual assumido por 30 anos, casado com outro homem que, aos 60, casou com uma mulher por opção” – conta o psiquiatra Ronaldo Pamplona da Costa.

    A heterossexualidade não é anormal tampouco a homossexualidade ou bissexualidade. O feminismo ou o movimento GLBT não vêem as pessoas heterossexuais como inimigas. O que se mostra como algo não natural é a heteronormatividade – um fascismo na sociedade, onde o machismo presume saber o que é bom para a mulher e para todos. Ele recria os homens com um plano de vida universal, julgando saber a necessidade alheia e delimitando as importâncias em suas vidas. Por isso, em último caso, feminismo não faz sentido para o machismo. Há demasiadas ponderações promovendo a desqualificação geral e esvaziamento do feminismo e do movimento GLBT reafirmando o machismo como autoridade e voz de todos. Essa é a ideologia presunçosa, onde as minorias e os oprimidos não podem decidir as questões que lhes cabem e as suas demandas: o machismo heterossexual quer ditar o que é importante para o diverso.

    Com essa ideologia, o machismo impõe leis para continuar déspota e vê a educação como o caminho para sua manutenção: Quer inculcar nos animaizinhos uma determinação natural inexistente. Principalmente a educação cissexista (quando a pessoa é sócio-politicamente vista com uma sexualidade cujo corpo e gênero estão alinhados) que identifica os gêneros das pessoas pelos órgãos que lhes são “inerentes”, ou seja, indicados pelos órgãos reprodutores: os homens são machos e têm pênis, testículos e peitoral (…) e as mulheres são fêmeas e têm vaginas, ovários e seios (…). A natureza teria predeterminado tudo e devemos obedecê-la. A ordem natural, portanto, seria o paradigma da ordem sexual e social. Um binarismo natural. Ledo engano.

    Nossa educação deve ser revista desde a raiz, pois é no seio da educação familiar que as atrocidades contra a diversidade se fundem. Projeções e transmissões de atribuições começam ali desde a relação sexual, no desenvolvimento do nascituro e petrificam-se a cada ultrassom. Não devemos brincar com a sexualidade infantil, conceituando-a delimitadamente. Devemos vê-la como uma noção genérica e não pode ser definida pelo exterior. Quem assim procede, perde-a de vista, torna-a pseudo. Ao lado da biologia, a dimensão psico-socio-cultural compõe a sexualidade humana. Ouso dizer: a dimensão sócio-cultural-dialógica é mais importante que os XX e XY e todas as gônadas, os órgãos genitais, as características sexuais secundárias implicadas pelas glândulas endócrinas (produção de hormônios) e os comandos do córtex cerebral. A sexualidade do ser humano é a interação interpessoal e não se restringe a um único atributo. Os modos masculino e feminino são normativamente impostos nas formas de ser e agir da pessoa. A dimensão sociocultural é uma expressão relacional e quem a padroniza é o poder do sexo vigente. Por conseguinte, é uma ordem falsa. Normatizar é contrariar a natureza.

    A sexualidade, aquilo pelo qual a condição humana se conecta com o mundo e se atualiza, é essa abertura ao eu, ao outro, ao conjunto. A única coisa que define a sexualidade é a disposição de sentir prazer: E uma vez consciente deste prazer (de sua sexualidade), a pessoa vai se formando, age e reage. O órgão genital não define a sexualidade e o gênero da pessoa: a sexualidade constitui a pessoa inteira. A sexualidade enquanto uma expressão humana envolve, portanto, a dimensão corporal, psicológica e sociocultural. E essa última dimensão se desenvolve pela interação e comunicação: É comportamento interpessoal e precisa do reconhecimento e integração de si mesmo à medida que interage, dialoga e sente o outro.

    O sexo é uma das expressões da sexualidade. Ele se dá nas autonomias dos “eus”, entre aqueles que gozam das mesmas condições: por exemplo, a descoberta do corpo entre as crianças, o sexo entre os adolescentes, as relações entre os que têm maioridade civil.

    O feminismo e o movimento GLBT alertam sobre a educação heteronormativa, deformadora da condição humana ao reprimir a sexualidade e as posições sexuais. Eles são contra os papeis dados e impostos também na cama, onde há muita repressão: A questão não é engolir ou não engolir o sêmen ou transar ou não transar de quatro; seja por trás ou pela frente, em cima ou embaixo, o erro consiste em calar as expressões da sexualidade. A denúncia se manifesta contra a heteronormatividade machista, que está com medo de perder o poderio por pensar que as outras formas de sexualidade (prazer e ser) pretendem agir como o Leão Alfa Macho. A heteronormatividade escraviza todos os gêneros e prazeres sexuais. Eis o inimigo da sexualidade humana: o padrão e normatização machista heterossexual.

    Não há heterofobia: é um contrassenso sócio-político-cultural dizer “orgulho de ser hetero”, “orgulho de ser homem”, “orgulho de ser branco”. Quem governa não é reprimido ou está oprimido. Ainda não há a plena liberdade sexual porque quem domina a sociedade são os titãs do machismo e da heterossexualidade. E eles estão com medo de uma nova ordem se instaurar no olimpo do sexo e verem o declínio do seu império. Todavia, o feminismo não quer pôr a mulher no lugar do homem pretendendo gerar uma vaginocracia ou suplantar o patriarcalismo pelo matriarcalismo. Assim como a homossexualidade e a bissexualidade não querem tolher o erotismo heterossexual para impetrarem a homonormatividade ou a binormatividade. Eles querem ensinar que: 1) a natureza humana é ser-com, 2) a condição humana é conjunto e relação, 3) a pessoa se desenvolve em contato e que 4) o comportamento, esse movimento fluente que constrói os indivíduos a cada ação, reação e consciência, conduz a sexualidade humana em sua indefinição. Na condição e sexualidade humana não há lados opostos ou semelhantes, superiores ou inferiores, interno ou externo, dentro ou fora. Somos uma fita de Möbius. A sexualidade humana não é definível. Não somos só machos e fêmeas. Não somos só homens e mulheres. Somos performances. Somos trans: Somos uma constante transformação, uma perene mudança, uma necessária possibilidade de ser.

    Nem o feminismo nem o movimento GLBT têm por característica o totalitarismo: não querem transformar todos em mulheres, homossexuais ou bissexuais, não reduzem as pessoas ao corpo. Esses movimentos não querem substancializar a natureza humana: São vozes conclamando a todos para reconhecer a diversidade, para perceberem o outro lado que nem lado é: Não há lado do homem ou lado da mulher. Eles também põem em relevo essa condição humana e, como a sociedade está marcada pelo binômio macho-fêmea, homem-mulher e pai-mãe, chamam a atenção para a isonomia que as mulheres têm em relação aos homens e não em detrimento dos homens, os mesmos direitos e deveres que os homossexuais, bissexuais e pessoas trans têm em relação às pessoas heterossexuais e não em detrimento de sua heterossexualidade. Eles verbalizam sobre os direitos que lhes são negados, os condicionamentos que lhes foram e são impostos. Não há lugar para o negligenciamento da condição e sexualidade humana.

    Os movimentos feministas e GLBT’s existem enquanto houver a cegueira causada pela ideologia da pseudociência da superioridade machista na teoria de gênero. A teoria do gênero é um fato e quem a considera pseudociência se localiza na ala dominante, imbuído pela razão e ideal da lei da selva do todo poderoso machismo. Habitat reprimido onde há um panóptico vigiando a todos até quando o Leão dorme, pois dominou as fêmeas e subjulgou os outros machos que não estão preocupados em destronar o símbolo Alfa, mas tornarem-se eles mesmos continuadores da ordem. A teoria do gênero quer abolir esta lei irracional, anormal e anti-natural que se chama heteronormatividade.


    Muito interessante, obrigado

      Heterossexualidade é natural ao ser humano?
      #2

      PsyGirl_Av

      • Visitante
      Óptimo texto. Necessitamos de auferir informação à sociedade, porque quanto menos elucidada ela for, mais preconceituosa se tornará. O problema é que só os elementos discriminados se dão ao trabalho de ler este tipo de textos, uma vez que quem os discrimina opta por se manter à margem do que desconhece. Ignorância gera ignorância, levando ao preconceito.

        Heterossexualidade é natural ao ser humano?
        #3

        Offline theone111

        • ****
        • Membro Sénior
        • Género: Masculino
        Óptimo texto. Necessitamos de auferir informação à sociedade, porque quanto menos elucidada ela for, mais preconceituosa se tornará. O problema é que só os elementos discriminados se dão ao trabalho de ler este tipo de textos, uma vez que quem os discrimina opta por se manter à margem do que desconhece. Ignorância gera ignorância, levando ao preconceito.

        Verdade. Quem realmente precisava de ler o texto não o faz...

        Somos uma fita de Möbius. A sexualidade humana não é definível. Não somos só machos e fêmeas. Não somos só homens e mulheres. Somos performances. Somos trans: Somos uma constante transformação, uma perene mudança, uma necessária possibilidade de ser.

        Gostei particularmente!
          E acredita, a vida é bastante melhor com bolachas! lol

          Heterossexualidade é natural ao ser humano?
          #4

          Offline theone111

          • ****
          • Membro Sénior
          • Género: Masculino
          Óptimo texto. Necessitamos de auferir informação à sociedade, porque quanto menos elucidada ela for, mais preconceituosa se tornará. O problema é que só os elementos discriminados se dão ao trabalho de ler este tipo de textos, uma vez que quem os discrimina opta por se manter à margem do que desconhece. Ignorância gera ignorância, levando ao preconceito.

          Verdade. Quem realmente precisava de ler o texto não o faz...

          Somos uma fita de Möbius. A sexualidade humana não é definível. Não somos só machos e fêmeas. Não somos só homens e mulheres. Somos performances. Somos trans: Somos uma constante transformação, uma perene mudança, uma necessária possibilidade de ser.

          Gostei particularmente!
            E acredita, a vida é bastante melhor com bolachas! lol

            Heterossexualidade é natural ao ser humano?
            #5

            Offline lautrèamont

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            • Membro Júnior
            • Género: Masculino
            confesso que não li o texto, mas penso sim que a heterossexualidade é natural ao ser humano. da mesma forma que a homossexualidade, bissexualidade e outras formas/expressões de sexualidade o são.
              "A dúvida é uma homenagem prestada à esperança."
              Comte de Lautrèamont

               

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              Última mensagem 16 de Maio de 2011
              por FailedTheories
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              Última mensagem 14 de Fevereiro de 2016
              por oasisgirl
              Falta de "toque humano"?

              Iniciado por Gonçalo21 « 1 2  Todas » Apoio

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              Última mensagem 15 de Janeiro de 2015
              por searching_the_love
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              Última mensagem 12 de Novembro de 2017
              por carolinalg
              Serei gay,bi ou humano?

              Iniciado por O Amigo Apoio

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              Última mensagem 3 de Janeiro de 2018
              por BrunoMCP