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Olá Visitante07.abr.2020, 20:49:12

Autor Tópico: Gostar de entretenimento politicamente incorrecto - Sentem-se culpados?  (Lida 762 vezes)

 
Gostar de entretenimento politicamente incorrecto - Sentem-se culpados?
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Offline KanyesGodComplex

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  • Género: Feminino
Hey pessoal!

Já me apresentei noutro tópico, mas para dar um bocado de background a esta questão, aqui estão os factos importantes: Sou a Raquel, tenho 21, Queer(como em durmo com quem me apetece, mais ou menos como na música, mas menos loira), e feminista/politicamente activa em relação aos direitos das mulheres.

Problema: Como podem ter percebido pelo meu username(que é genial, btw), sou fã de hip hop. Do género de ser obcecada, ouvir tudo o que aparece, ler artigos sobre o assunto, escrever artigos sobre o assunto, passar horas a olhar para fotos de rappers e a suspirar porque nunca vou encontrar um/@ namorad@ assim... Este género de gostar.

E sinto-me super culpada acerca do assunto.

Primeiro: o hip-hop é, como forma de arte, absurdamente terrível em termos de... Bem, em termos de tudo. É possivelmente a coisa mais politicamente incorrecta que existe, a seguir ao KKK e a Westboro Baptist Church. Inclui violência contra as mulheres, violência contra toda a gente, insultos racistas, uma imensa quantidade de homofobia, referências a canibalismo e assassinato, histórias realmente sobre assassinatos que aconteceram na vida real... Vocês estão a perceber a ideia. Eu sei tudo isto. Pior, esta é uma parte tão fundamental do hip-hop que mesmo como queer/feminista/pacifista eu tenho que admitir que apagar estes elementos era eliminar uma parte integrante de um movimento artístico que é fundamental em termos de dar voz a quem não a tem. E ao querer policiar estas questões no hip-hop podemos cair na falácia do racismo/classissismo e apagar experiências de pessoas que foram empurradas para os limites da sociedade.

Mas também não devíamos alimentá-las, e é isso que eu faço cada vez que compro um album no iTunes ou uma t shirt ou um bilhete de concerto a alguém que usa insultos homofóbicos nas suas músicas. Okay, não dou dinheiro ao Chris Brown(até porque as músicas dele são terríveis) mas dou dinheiro ao Tyler, The Creator que tem possivelmente das músicas mais violentas de todos os tempos.

Eu tento ser consciente das minhas acções quando consumo produtos dos media, e esta é possivelmente a única excepção que faço, o que me faz sentir ainda mais culpada. Deixei de ler livros do Orson Scott Card, e de ver filmes do Polanski, mas continuo a ouvir música do Eminem? Isto não faz de mim uma hipócrita?

(resposta: ya, faz, um bocado)

Por outro lado, A VIOLÊNCIA NO HIP HOP NEM SEQUER É REAL NA MAIOR PARTE DAS VEZES. A maior parte do hip-hop que ouço(um bom exemplo é o Tyler e os Odd Future, que mencionei acima) usa a ultra-violência como metáfora para outras questões, e eu não deixei de ler A Laranja Mecânica apesar dos elementos problemáticos no livro, e muitas vezes é esse estilo de violência que o hip-hop está a emular. E, ainda mais, principalmente no caso do Tyler, ele apoiou o Frank Ocean no seu coming out, e é melhor amigo da Syd The Kid, que é lésbica e uma parte integrante da colectiva. Mas isso não apaga o facto do Tyler usar a palagra "fa**ot" nas suas músicas.

Como vêem, eu não paro de andar às voltas com o assunto. O facto de eu vir de uma família extremamente liberal não ajuda, uma vez que a minha mãe ficou mais desiludida comigo quando me ouviu a cantar que tenho "99 problems but a bitch ain't one" do que quando lhe disse que gosto de meninas/meninos/meninos que querem ser meninas/meninas que querem ser meninos/pessoas que não querem ser nenhum deles. Ah, e outro dia a minha irmã pequena, que olha para mim como um ídolo, perguntou-me porque continuo a ouvir aquela música mesmo quando ele diz que vai bater numa mulher e eu fiquei sem resposta.

Vale a pena explicar que o uso de violência na expressão artística serve para erguer um espelho à sociedade e não para falar de algo literal? Oh pá, eu tentei mas a verdade é que para a miúda de 15 anos tudo o que ficou foi que a irmã dela que se queixa da maneira como as mulheres são tratadas nos Morangos com Açúcar ouve música sobre homens que espancam mulheres.

Mas antes de ser mulher e feminista e queer e Raquel, sou uma pessoa. E o hip hop ajuda-me a libertar agressão que eu suprimo, e faz-me sentir mais forte e mais capaz, e sim, eu gosto da música violenta que não é apropriada para meninas e pessoas bem educadas. Há poucas coisas mais catárticas do que gritar insultos e rappar sobre ter uma pila maior que a do nosso adversário (mesmo que não haja pilas envolvidas).

Portanto acho que as minhas perguntas são:
Sou uma pessoa horrível?

Vocês ouvem/vêem/lêem/consomem entretenimento que não é politicamente correcto?

Sentem-se culpados a seguir?


tl;dr: A Raquel ouve hip-hop e pensa demasiado sobre o assunto.
« Última modificação: 19 de Março de 2013 por KanyesGodComplex »

     

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