rede ex aequo

Olá Visitante30.mai.2020, 15:31:12

Autor Tópico: Questionar o Género: Diferença, Percepção e Existência.  (Lida 1772 vezes)

 
Questionar o Género: Diferença, Percepção e Existência.
#0

Offline BrunoMCP

  • *****
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  • Membro Ultra
  • Ter orgulho é rejeitar a vergonha.
Olá a todos.
Durante o 9º Acampamento de Verão da rede ex aequo, devido a uns debates,
ocorreram-me umas questões relativas à Identidade de Género, e até passei a questionar o meu próprio género.


Quando eu era pequeno, antes de saber os termos destas questões,
eu acreditava que o género era algo apenas físico e social, a que as pessoas davam demasiada importância.
Achava que no fundo, os homens e as mulheres eram iguais.

Ao crescer, como toda a gente, soube da existência de transexuais.
Logicamente, para o género e o sexo não estarem de acordo, ambos tinham de existir.

Durante uma dinâmica sobre Transgenerismo, no Acampamento,
tive uns desacordos com algumas pessoas presentes, e levantei alguma confusão.
Estava a questionar de novo a existência da Identidade de Género,
porque eu não tenho na minha cabeça uma vozinha a dizer-me que sou homem.
Não me sinto homem nem mulher, apenas sei que sou biologicamente homem por razões óbvias.

Claro que questionar a existência do género pode ser ofensivo para os transexuais, mas não é por isso que vou ignorar a questão.
No fim da dinâmica, a rapariga transexual que estava a coordenar veio-me perguntar se achava que el@ era um homem.
Eu apenas lhe soube responder o mesmo que a mim mesmo: Biologicamente, sim, és um homem.
Isso é óbvio, mas ela perguntou para além disso. Não sei.
Agora sei o que devia ter respondido:
"Então e eu, achas que sou homem?"

As questões que vos coloco são:
  • Acreditam na existência da identidade de género como algo que não é apenas social, físico ou hormonal?
  • Se realmente formos todos psicologicamente iguais, então como justificamos o desconforto dos transexuais com o seu corpo?
  • Como rotulo a minha identidade de género? Agender?
  • Como se encaixa isto na "teoria Queer"?

« Última modificação: 14 de Janeiro de 2012 por Boreas »

    Questionar o Género: Diferença, Percepção e Existência.
    #1

    Offline Lunge

    • ***
    • Membro Total
    • Género: Masculino
    • Yep.
    Acima de tudo o resto, somos seres humanos. Tal como salientaste, há quem se sinta homem, há quem se sinta mulher, e há quem simplesmente se sinta pessoa. Só por isso, não somos psicologicamente iguais. Talvez isto vá parecer uma má analogia, mas, tal como uma pessoa não gosta da sua cara ou do seu cabelo ou da maneira como ri, também é possível não gostar do sexo que se tem. Apenas acontece que esta última tem repercurssões mais profundas. E, na minha opinião, o teu caso de não te sentires nem homem nem mulher mas apenas humano, é bom. É sinal de que estás confortável com quem és, e não vale a pena incidir muito nesse assunto.

    Quanto à questão da identidade de género de cada, a questão complica-se por se tratar de um caso de percepção. Um homem pode sentir-se uma mulher, mas, enquanto passar uma imagem associada ao sexo masculino, é assim que o resto do mundo o verá. É tudo uma questão da mensagem que se transmite, e, se a mensagem que queremos transmitir não é aquela que sentimos ser a mais adequada, então tenta-se mudar.

    Isso de sexo biológico é uma noção que não me agrada. A medicina por trás do processo da mudança de sexo não é perfeita, mas, de um ponto de vista puramente utilitário, a diferença de um transsexual FTM e de um homem infértil é zero. De um ponto de vista social, também. Por isso, porquê focarmo-nos nisso, quando não significa nada? Deixem as pessoas serem o que são e pronto.

      Questionar o Género: Diferença, Percepção e Existência.
      #2

      Offline Radiant_Jaguar

      • ****
      • Membro Sénior
      • Género: Masculino
      Eu penso que este vídeo é extremamente útil neste tópico!

      Transgender Basics - Gender Identity Project (GIP)

        Questionar o Género: Diferença, Percepção e Existência.
        #3

        Offline wilhelmina

        • *
        • Novo Membro
        • Género: Feminino
        Olá BrunoMCP,

        Fico contente por te ver criar este tópico. Significa apenas que aquilo que ouviste nas dinâmicas do acampamento - e fora delas - te puseram a pensar. (E sim, sou eu "a rapariga transexual que estava a coordenar".)

        No fim da dinâmica, a rapariga transexual que estava a coordenar veio-me perguntar se achava que el@ era um homem.
        Eu apenas lhe soube responder o mesmo que a mim mesmo: Biologicamente, sim, és um homem.
        Isso é óbvio, mas ela perguntou para além disso. Não sei.
        Agora sei o que devia ter respondido:
        "Então e eu, achas que sou homem?"

        Pois à tua resposta-pergunta, respondo eu: Não, não acho que és um homem. O que acontece é que te percepciono como um homem, e isto apenas porque te apresentas como um homem, além de cultivares uma imagem masculina. E esta percepção não iria mudar se me confidenciasses ter uma vagina, e não um pénis como poderia ser espectável.

        Se pensares, é o mesmo que te aconteceu em relação a mim (e irá acontecer com outras pessoas transexuais que venhas a conhecer). Como tu próprio disseste, não me percepcionaste como homem ou transexual quando me conheceste. Isto porque eu me apresento como mulher, além de cultivar uma imagem feminina. Só levantaste outras hipóteses quando te dei acesso a outras informações, que não podias percepcionar à primeira vista.

        E se o que te leva a ti a apresentares-te como homem e a cultivares uma imagem masculina são apenas os factores biológicos, físicos, por mim tudo bem. Na verdade é o que a esmagadora maioria da população faz. Numa discussão mais aprofundada até poderíamos concluir que é daí que advêm fenómenos como o sexismo, o machismo, o generismo, a homofobia, a transfobia e etc., mas secalhar é melhor nem irmos por aí...

        O que me leva a mim a apresentar-me como mulher e a cultivar uma imagem feminina é a percepção que tenho de mim própria quanto ao meu género. A tal identidade de género. Já Freud, provavelmente ainda antes de saber e refletir sobre os transexuais, estudava sobre a sua origem e concluía que aquilo que determina o género não é só o sexo biológico com que se nasce. São também factores psicológicos, sociais e culturais.

        Se tu és agender ou não, só tu o poderás dizer. Mas não duvides que o facto de possivelmente não te sentires "nem homem, nem mulher", é em si a tua percepção em relação à tua identidade de género. Ela pode realmente não ser masculina, de acordo com o teu corpo e aspecto físico, nem feminina. Só tu podes fazer a reflexão que te leve a definir onde te situas. E só se quiseres. A maioria das pessoas é feliz sem questionar estas coisas. São elas e ponto final... Não precisas de rotular a tua identidade (e isto em qualquer um dos seus aspectos, seja o género ou outro).

        Da minha parte, não posso realmente dizer-te o que me leva a definir a minha identidade de género num sentido oposto ao corpo com que nasci. Isto porque somos todos mesmo psicologicamente diferentes (e não só em relação ao que define o nosso género). Posso apenas partilhar a forma como evoluiu essa definição na minha cabeça, que me fez perceber quem era e quem tinha de ser, que me levou a procurar soluções para me sentir bem comigo mesma e chegar ao ponto em que estou hoje: o de me poder apresentar como quem sou, e exigir respeito por isso. Mas cada caso é um caso...

        Não podes mesmo é questionar a existência dos transexuais, porque nós existimos... Seja o género algo que exista mesmo ou não. Não nos vamos conformar com o corpo com que nascemos, pelo qual sentimos um repúdio que só nós compreendemos, só porque se conclua que afinal somos todos psicologicamente iguais. Mas de facto não somos, e se quisermos deixar de lado teorias de género, e focar-nos na transexualidade, podíamos refletir também nas evidências que se começam a estudar e a identificar na constituição neurológica dos cérebros das pessoas transexuais (aproximando as anatomias cerebrais de homens transexuais a homens biológicos e de mulheres transexuais a mulheres biológicas). Estudar a transexualidade é mais complexo que estudar e refletir apenas as teorias de género. Por isso nenhuma das tuas questionações ofende os transexuais ou descridibiliza a sua existência. Enquanto existirem, biologicamente, homens e mulheres, nós vamos, muito provavelmente, continuar a existir também...
        « Última modificação: 14 de Janeiro de 2012 por Temphis »

           

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