Relatos como estes são enganadores, pois opinam da perspectiva de alguém no século XXI. Vejam, por exemplo, a seguinte passagem do 'Senhor dos Anéis', de J.R.R. Tolkien. Lembro que o Tolkien era um católico ultraconservador, casado e com quatro filhos:
'Well, you have now, Sam, dear Sam,' said Frodo, and he lay back in Sam's gentle arms, closing his eyes, like a child at rest when night-fears are driven away by some loved voice or hand. Sam felt that he could sit like that in endless happiness.'A correspondência escrita entre amigos (do mesmo sexo) até à segunda metade do século XX usa recorrentemente linguagem deste género. É exemplo a do compositor Franz Schubert (1792 - 1828), nas aproximadamente 100 cartas que sobrevivem da sua autoria, grande parte escritas a amigos. Este paradigma cultural é semelhante àquele que, particularmente em finais do século XVIII, considerava que a sensibilidade e a demonstração efusiva das emoções eram características de masculinidade. O melhor exemplo deste fenómeno é o livro 'As Mágoas do Jovem Werther', de Göethe, que causou uma febre na Europa, mas podemos remontar inclusive à 'Ilíada' de Homero, em que os protagonistas, valentes guerreiros, choram copiosamente em mais que uma ocasião.
Por fim, recordo um artigo online com fotografias de amigos tirados ao longo do século XIX. Há várias fotografias em que os homens estão sentados ao colo uns dos outros.

Isto foi na época em que a chamada 'sodomia' era ilegal em praticamente todo o mundo ocidental, com excepção de França.
Creio que foi precisamente a 'normalização' do comportamento homossexual na sociedade, e da abertura em relação à sexualidade em geral, que levou a que passássemos a ver cariz romântico/sexual em linguagem e atitudes que anteriormente não o possuiam, e se referiam puramente à amizade. O resultado é uma acrescida pressão junto dos rapazes mais novos em evitar o comportamento 'efeminado', reprimindo emoções, instintos, opiniões, desejos e maneiras de estar em geral.
Outra coisa interessante que importa referir é que, no caso de personagens históricos que sabemos terem tido relações homossexuais, não se conhecerem praticamente quaisquer casos de androfilia - atração entre homens de faixas etárias semelhantes - mas conhecerem-se amplos casos de efebofilia, paixões de homens por rapazes adolescentes. Temos Lord Byron com Nicolo Giraud e Loukas Chalandritsanos, Tchaikovsky com Bob Davidov, Miguel Ângelo com Febo di Poggio, Szymanoswski com Boris Kochno (dedicatório do seu livro 'Ephebos')... e Oscar Wilde, no seu célebre julgamento, definiu expressamente o 'amor que não ousa dizer o seu nome' como aquele entre o homem maduro e o jovem. Até o nosso Bocage, num jocoso poema intitulado 'Adeus às p****', conclui assim:
p****, adeus! Não sou vosso devoto;
Co'um sesso engannarei a phantasia,
Numa escada enrabando um bom garoto.Théophile Gautier, em Voyage en Espagne, é bastante mais refinado. Escreve:
L’éphèbe grec, le yalouled algérien, le ragazzo italien, le muchacho espagnol, comblent de leur grâce jeune et de leur beauté encore indécise entre les deux sexes la lacune qui sépare l’enfant de l’homme.Mesmo no século XX, activistas pioneiros dos direitos LGBT como Larry Kramer expressaram ideias positivas acerca destas relações. Kramer opôs-se à marginalização da NAMBLA e procurou homenageá-la na Marcha Gay de São Francisco em 1994 (na qual foi proibido de participar). O fenómeno da relação homossexual igualitária como a mais visível e politicamente correcta é recente e limitador.