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Olá Visitante20.set.2020, 09:15:26

Autor Tópico: Sociedade Erotizada!  (Lida 2029 vezes)

 
Sociedade Erotizada!
#0

Soueu20

  • Visitante
O que há de errado com o comportamento sexual das pessoas no Ocidente? Por que vivemos nesse excesso de erotismo?

Quando vejo, hoje em dia, matérias na televisão sobre gravidez na adolescência, AIDS, abortos e separações, fico a pensar no processo de erotização que todos nós temos sofrido há muito tempo.

Quando estive na Índia, em 1994, bem como em países árabes, como o Egito, em 1993, fiquei sabendo que nesses países a virgindade ainda é importante, antes do casamento, diferentemente do que temos nos países ocidentais. E que o índice de AIDS e abortos é bem menor por lá. Sem falar que não há tantas adolescentes grávidas, nem pais precoces e despreparados para educar seus filhos.

Tudo isso me leva a refletir acerca de nosso passado distante, no tempo do homem das cavernas.

A expectativa de vida do Homem de Neandertal, por exemplo, o conhecido homem das cavernas, que surgiu por volta de 200 mil anos atrás e desapareceu por completo há mais ou menos 50 mil anos, era de cerca de 20 anos de idade. É a idade com que alguns jovens hoje entram na faculdade. Eles viviam em geral muito pouco. Morriam de várias doenças e atacados por animais ferozes. Não havia medicamentos, médicos, nem hospitais. Um ferimento não costurado era capaz de causar uma hemorragia incontida e levar à morte.

Hoje a expectativa de vida dos brasileiros já passa dos 70 anos, e não é das maiores. Quanta diferença.

A fêmea neandertal já era fértil aos doze ou treze anos de idade, e engravidava possivelmente uma vez por ano, sem ter muitas vezes um pai único para seu filho, pois ainda não havia o casamento como hoje conhecemos e chamamos de monogâmico. E a maioria de seus filhos não sobrevivia. Poucos, alías, chegavam aos 50 anos. E isso era excepcional, e o homem de 50 anos já era considerado ancião. É a minha idade hoje, e não me sinto velho.

Na antiguidade, e até a Idade Média, ainda era comum as meninas se casarem com quatorze ou quinze anos. E com o passar do tempo a idade foi aumentando, à medida que a expectativa de vida também aumentava.

Hoje, são raras as mulheres que se casam antes dos 20 anos. E a tendência, principalmente das que fazem faculdade, é de se casarem lá pelos 30 anos ou mais.

Todavia, mesmo com o aumento da expectativa de vida do ser humano, e da elevação da idade para o casamento, no Ocidente as pessoas iniciam a vida sexual cada vez mais jovem, muitas vezes com 12, 13 ou 14 anos apenas. Alguma coisa está fora do rumo nessa estória.

Crianças e adolescentes hoje começam a fazer sexo com a mesma idade dos homens de Neandertal. Mas a época deles era outra, e a vida deles era curta demais. Eles não estudavam, e seu trabalho era apenas caçar, coletar frutos e raízes e encontrar uma boa caverna para morar, principalmente para dormir.

O que há de errado com o comportamento sexual das pessoas no Ocidente?

Os índios não fazem sexo antes do casamento. Os homens antigos não faziam sexo antes do casamento. O sexo estava para eles no seu devido lugar. O lugar que a natureza lhes reservou: Procriação.

É claro que hoje vemos as coisas de modo um pouco diferente. O sexo também contribui para aumentar os laços afetivos, amorosos, unir os casais, fazer brotar o amor...

No mundo primitivo, no qual viviam nossos irmãos neandertais, ainda não se usavam roupas, mas apenas peles de animais por cima do corpo, isso nas regiões frias. Antes disso as pessoas andavam nuas. Mas não havia o sentido de erotismo que há hoje. Um homem não ficava ansioso para ver um seio à mostra, nem uma mulher ficava eufórica quando via regiões mais íntimas dos homens. Tudo isso era comum, era cotidiano, era natural, como entre os índios.

Depois que passamos a usar roupas mais fechadas, o corpo foi gradativamente sendo escondido, até chegar ao ponto de, em algumas regiões frias da Europa, não se poder ver quase nada do corpo, mas somente a cabeça e as mãos, fazendo os homens delirarem com a simples mostra de parte do seio em decotes mais ousados.

Com o passar do tempo, chegando o século XX, mais precisamente no meado do século, teve início a revolução sexual, a revolução feminista, e as pessoas passaram a tirar mais as roupas, as mulheres abondonaram o sultien, passaram a usar saias cada vez mais curtas, e os homens passaram a usar também calções curtos, deixando à mostra partes do corpo há tanto tempo escondidas.

Tudo parece, em princípio, bom, normal, natural. Mas não nos demos conta de que a nudez foi aumentando tanto até chegar aos biquínis minúsculos, que nada mais tapam das nádegas das mulheres, e na frente só tapam mesmo a micro região do sexo, e as sungas de algumas décadas atrás deixavam entrever o volume dos membros dos homens, tudo despertando cada vez mais o sentido erótico do corpo e despertando o desejo sexual.

Hoje, as pernas e seios estão à mostra sem limites. Os músculos dos homens são cada vez mais exibidos. As emissoras de TV competem na apresentação de novelas e filmes cada vez mais erotizados, e em horários cada vez mais cedo. E transmitem novelas cheias de erotismo e atividade sexual infanto-juvenil até no final da tarde no Brasil, sem absolutamente qualquer controle ou freio disso. Se alguém critica, dizem que é contra a democracia, contra a liberdade de expressão. E assim, sem nenhuma censura, seja prévia, seja após a realização e transmissão de material incompatível com o horário de exibição, nos tornamos reféns das emissoras de TV, que podem impor para nós e nossos filhos o que bem entenderem. Tudo o que querem é apenas a “audiência” maior, pois isso lhes dará mais e mais dinheiro. Tudo, no final, para os encarnados que dominam a mídia, se resume a dinheiro. Nós somos apenas consumidores, a lhes darem dinheiro. Nada mais do que isso.

Não vemos muitas vezes uma relação direta entre os programas de TV, os outdoors, e as revistas escancaradas nas bancas de revistas mostrando a nudez total e cenas de sexo explícito com a idade cada vez mais precoce com que nossos filhos iniciam sua atividade sexual sem o devido preparo, e sem maturidade para serem pais ou mães, nem preparo para morrerem precocemente de AIDS. Nem os pais estão preparados para isso tudo.

Atualmemte, quando saímos de casa damos de cara logo na primeira esquina com um outdoor com cenas eróticas, que nos desperta desejos e fantasias. Se pararmos numa banca para comprarmos um jornal ou uma revista, estaremos sendo também bombardeados com mensagens eróticas agressivas e maciças. E ao chegarmos em nossas casas, depois do trabalho, continua o bombardeio erótico pela TV. Tudo leva ao erotismo desenfreado.

Será que tudo isso é mero acaso?

Não, não é não. As inteligências malignas do mundo espiritual vêm planejando isso há muitas e muitas décadas, pacientemente, até que conseguiram dominar o mundo Ocidental quase que inteiramente, com a propaganda erótica ostensiva.

É difícil as pessoas serem bombardeadas diariamente com propaganda erótica e não se deixarem inconscientemente levar pela onda erótica. Simplesmente entram na onda, sem perceber, e ficam presos a ela, sem conseguirem sair, e muitos se afogam em meio a tanto sexo fácil que acaba decorrendo da propaganda erótica planejada nas trevas, na calada da noite, e que envolve quase todos.

Fazem apologia do homossexualismo, do sexo livre, antes chamado inicialmente de amor livre, na era hippie, e também da normalidade do adultério. Tudo hoje parece ser permitido e normal. Essa é a ideia que os planejadores lançaram na humanidade, e engolimos direitinho, sem reclamar, e com o maior prazer.

Estamos hoje vivendo uma era de grande erotismo, de aumento da sexualidade, de aumento da libido, exacerbada enormente pela propaganda erótica, e da diminuição da idade inicial da vida sexual, com grave prejuízo para as famílias e para toda a sociedade, e ninguém faz nada. Será que as pessoas não enxergam isso tudo? Ou não querem simplesmente enxergar, por estarem curtindo tudo isso e sem querer abrir mão de tanto sexo?

Hoje o banquete do sexo está aí para todos. Só não se deleita quem não quer. Só não se lambusa se não quiser.

Crianças usadas por pedófilos, pedofilia incontrolável na internet, gravidez precoce, desarmonia familiar, adultérios incontidos e destruidores causando tantas e tantas separações, mesmo daqueles que se amam de verdade, mas que se deixam arrastar pela onda, pelo Tsunami do sexo e do erotismo...

Orai e vigiai, dizia Jesus, apresentando uma fórmula de não cairmos em tentação.

Isso parece pieguice...mas observe se você não está também preso na onda erótica universal...e talvez também enceguecido por ela...sem conseguir se livrar...como uma mosca presa na teia de aranha...ou um mosquito preso no mel...

Que Deus nos dê a luz necessária e a força para sairmos dessa onda erótica destrutiva, e que consigamos colocar novamente o sexo no seu devido lugar e no seu devido papel evolutivo do espírito...

Muita Paz.

"Luis Roberto Mattos"

P.S: Eu não sou contra o sexo, mas acredito que possamos fazer mais do que sexo e eleva-lo ao intimo do nosso ser, criando paz e energias poderosas para evoluirmos plenamente em comunhão com os ideias criados desde o principio pelo nosso ser Divino ;)
« Última modificação: 20 de Abril de 2010 por Soueu20 »

    Sociedade Erotizada!
    #1

    Offline Boreas

    • *****
    • Moderação Sénior
    • Membro Vintage
    • Género: Masculino
    • "Tu és rato!"
    Ahem, desculpa a minha confusão, mas...isto é um texto de autoria de terceiros? ???  Não seria melhor especificares de onde foi retirado?
      Just live!!! WILL POWER HOPE COMPASSION LOVE

      Sociedade Erotizada!
      #2

      Soueu20

      • Visitante
      Ahem, desculpa a minha confusão, mas...isto é um texto de autoria de terceiros? ???  Não seria melhor especificares de onde foi retirado?

      Se bem reparares esta especificado o nome do autor...
      Esta antes do p.s, o nome do autor entre aspas, Luis Mattos ;)

        Sociedade Erotizada!
        #3

        Offline Back Room

        • *****
        • Membro Elite
        • Género: Masculino
        Esse senhor não sabe muito bem o que escreve. Este texto é um terramoto de ideias de alguém ofendido com sabe-se lá o quê, que decidiu disparar contra tudo o que mexe. Ora dispara contra o excesso de nudez, ora dispara contra o não haver "censura" (censura? era mesmo essa a palavra?) em relação ao erotismo nos programas televisivos, ora dispara contra a homossexualidade, ora passa para o adultério, ora já vai na pedofilia. Sugere a grande conspiração do erotismo e remata ao bom jeito católico.

        Grande dose de riso antes de ir dormir.  ;D
        « Última modificação: 21 de Abril de 2010 por Back Room »
          "I started being proud of being gay, even though I wasn't." Kurt Cobain.

          "Quelle est votre plus grand ambition dans la vie? Devenir immortel... et puis... mourir." À Bout de Souffle, Godard.

          "One of the great tragedies of mankind is that morality has been hijacked by religion." Arthur C. Clark

          Sociedade Erotizada!
          #4

          Offline _Margot_

          • *****
          • Membro Elite
          • Género: Feminino
          • The show must go on!
          Se este senhor fosse portugues era o João César das Neves.
            "Be anything but a coward, a pretender, an emotional crook, a whore: I'd rather have cancer than a dishonest heart." Truman Capote - Breakfast at Tiffany's

            Sociedade Erotizada!
            #5

            Soueu20

            • Visitante
            Este texto para mim é muio bom, diz muito do que penso...

            Claro que mudava algumas coisas, mas prefiri manter o texto igual ate pelo facto de nã ser eu o autor...

            Se bem repararmos a verdade é que estamios numa era de liberalidade excomunal, levando a que os verdadeiros falore da sociedade se dissipem e só vejamos sexo e mais sexo á frente, andando iludidos que o sexo é que nos dá felicidade...

            O autor não é homofobico... Se lerem bem irão perceber o porque de ele referir algo sobre a homossexualidade... Tem o seu Q de verdade...

            Mas para isso teremos de conhecer os dois lados... A homossexualidade e o autor do post...

            Sexo é bom... Quando usado para nossa elevação moral e espiritual... De resto só nos prejudica...

            E a homossexualidade leva muito o sexo á libertinagem... Talvez pelo facto de estar oprimida em muitos pelo preconceito... E depois vingam-se nas relaçoe abertas... Nos encontros de uma noite só... Na perdição...

            Claro que tento os heteressexuais como os homossexuais são "libertinos", não generalizando tudo e todos é claro... Mas se conhecermos bem bem os dois lados teremos as nossas conclusoes (eu ja tirei e continuo diariamente a tirar as minhas)...

            Não é um texto de censura, mas sim de educação...

            É como vejo a questão...

            (E não, não sou religiosamente fanático), ate porque tenho noção de que tudo faz parte, porque a nossa moral é mutavel ao longo dos tempo ;)

            Paz


              Sociedade Erotizada!
              #6

              Offline SoulTiger

              • **
              • Membro Júnior
              • Género: Masculino
              ...e remata ao bom jeito católico.

              Ou neste caso, espírita.

                Sociedade Erotizada!
                #7

                Fetch!

                • Visitante
                a família tradicional
                Fernanda Câncio - Domingo, 11 de Abril de 2010

                Há um momento em que percebemos que já não somos nem nunca mais vamos ser crianças. É quando temos uma daquelas conversas de adultos, de verdades duras e de histórias reveladas, com alguém para quem nos habituámos a ser sempre pequenos, protegidos, incapazes de enfrentar a sós a vida. Uma conversa que nos leva pela mão, com firme doçura, para um território de brutal nitidez – como se passássemos de um Matisse ou de um John Singer Sargent para um Lucien Freud, dos retratos felizes, luminosos, tranquilos e guardados para a lúcida e sórdida crueza de corpos expostos, sem fuga nem filtro.

                Uma conversa em que descobrimos por exemplo que o avô que idolatrávamos e que nos morreu aos três anos (e que idolatramos também por isso) podia ser uma pessoa bastante insalubre, de uma insensibilidade extrema, com gente que lhe deveria merecer o maior desvelo e respeito. Que a tia avó de quem só recordamos a voz meiga, as unhas esmeradamente pintadas e os brincos, mais aquela vez em que nos levou pela mão ao poço do pomar, em passos pequeninos nos saltos altos, para ver a cobra que lá vivia, era uma mulher infelicíssima cujo único bebé nasceu morto, talvez graças a uma doença venérea transmitida por um marido que só aparecia de oito em oito dias – quiçá para mandar lavar as camisas, comenta quem narra – e que ela tratava pelo apelido, como se de um estranho se tratasse.

                Que o bisavô que nunca conhecemos fugia para dançar com as saloias nos montes, onde a bisavó de quem só recordamos o riso e o choro vindos do quarto onde morreu acamada e demente (a memória prega assim partidas, garantem-me que a visitei muitas vezes – que defesa, que muro ergui contra essa imagem, contra essa émula da louca, invisível e aterrorizadora, que encontraria depois em Jane Eyre?) ia buscá-lo, rodeada de filhos, para o ouvir no meio do bailarico gritar “passa a mulher”. Que a nossa mãe, quando miúda, ouvia nas conversas entre as parentes mais velhas as confidências de agravos, tristezas, enganos e desmanchos, só percebendo, muito mais tarde, o que tinha ouvido e a dimensão do fenómeno, transversal e inclemente, uma espécie de trincheira secreta onde, iguais, as mulheres de todas as origens e posições se encontravam, numa determinação de dor, coragem e resiliência.

                Que essas mesmas mulheres, que as mais das vezes na ignorância ou contra a opinião dos maridos e com risco de vida mantinham o número de filhos limitado ao que consideravam ser compatível com os proventos da família, eram capazes de ser as mais beatas das beatas e, em público e para benefício da reputação, maldizer tudo o que cheirasse a feminismo, contracepção ou, horror dos horrores, aborto legal. Que, chegado o dia de votar o assunto em referendo, entre muita genuflexão,  persignação e confissão, lá riscariam, bem alto, um hierático NÃO. Sim, tudo isto na mesma conversa em que descobrimos, cereja no topo do bolo, que um tio bisavô padre, um dos orgulhos da família, chegado a monsenhor (seja lá isso o que for) e do qual sobraram até hoje umas fivelas de prata dos sapatos e uns cálices de relicário, esteve envolvido num muito enigmático e abafado “escândalo homossexual”, que lhe valeu um desterro de alguns anos numa terriola qualquer, a fazer tempo até à promoção final.

                Que tem isto de novo ou de especial? Realmente nada. Nada a não ser o facto de aquilo que sabemos como lei geral – que nada nem ninguém é aquilo que à superfície parece, que tudo é infinitamente mais complicado e geralmente mais perverso e labiríntico do que as narrativas da “naturalidade” e da “tradição” querem vender – se aplicar aqui mesmo, na nossa casa, na nossa família, aos nossos pais, tios, avós e bisavós. Que o retrato sépia de rendas, bilros e bigodes retorcidos, com a sua enganadora e imóvel patine de bucolismo e pertença, é um filme de David Lynch. Sempre foi. Portanto, se faz favor, deixem-se de m*****.

                (publicado na coluna 'sermões impossíveis' da notícias magazine de domingo passado)

                  Sociedade Erotizada!
                  #8

                  Offline _Margot_

                  • *****
                  • Membro Elite
                  • Género: Feminino
                  • The show must go on!
                  a família tradicional
                  Fernanda Câncio - Domingo, 11 de Abril de 2010

                  Há um momento em que percebemos que já não somos nem nunca mais vamos ser crianças. É quando temos uma daquelas conversas de adultos, de verdades duras e de histórias reveladas, com alguém para quem nos habituámos a ser sempre pequenos, protegidos, incapazes de enfrentar a sós a vida. Uma conversa que nos leva pela mão, com firme doçura, para um território de brutal nitidez – como se passássemos de um Matisse ou de um John Singer Sargent para um Lucien Freud, dos retratos felizes, luminosos, tranquilos e guardados para a lúcida e sórdida crueza de corpos expostos, sem fuga nem filtro.

                  Uma conversa em que descobrimos por exemplo que o avô que idolatrávamos e que nos morreu aos três anos (e que idolatramos também por isso) podia ser uma pessoa bastante insalubre, de uma insensibilidade extrema, com gente que lhe deveria merecer o maior desvelo e respeito. Que a tia avó de quem só recordamos a voz meiga, as unhas esmeradamente pintadas e os brincos, mais aquela vez em que nos levou pela mão ao poço do pomar, em passos pequeninos nos saltos altos, para ver a cobra que lá vivia, era uma mulher infelicíssima cujo único bebé nasceu morto, talvez graças a uma doença venérea transmitida por um marido que só aparecia de oito em oito dias – quiçá para mandar lavar as camisas, comenta quem narra – e que ela tratava pelo apelido, como se de um estranho se tratasse.

                  Que o bisavô que nunca conhecemos fugia para dançar com as saloias nos montes, onde a bisavó de quem só recordamos o riso e o choro vindos do quarto onde morreu acamada e demente (a memória prega assim partidas, garantem-me que a visitei muitas vezes – que defesa, que muro ergui contra essa imagem, contra essa émula da louca, invisível e aterrorizadora, que encontraria depois em Jane Eyre?) ia buscá-lo, rodeada de filhos, para o ouvir no meio do bailarico gritar “passa a mulher”. Que a nossa mãe, quando miúda, ouvia nas conversas entre as parentes mais velhas as confidências de agravos, tristezas, enganos e desmanchos, só percebendo, muito mais tarde, o que tinha ouvido e a dimensão do fenómeno, transversal e inclemente, uma espécie de trincheira secreta onde, iguais, as mulheres de todas as origens e posições se encontravam, numa determinação de dor, coragem e resiliência.

                  Que essas mesmas mulheres, que as mais das vezes na ignorância ou contra a opinião dos maridos e com risco de vida mantinham o número de filhos limitado ao que consideravam ser compatível com os proventos da família, eram capazes de ser as mais beatas das beatas e, em público e para benefício da reputação, maldizer tudo o que cheirasse a feminismo, contracepção ou, horror dos horrores, aborto legal. Que, chegado o dia de votar o assunto em referendo, entre muita genuflexão,  persignação e confissão, lá riscariam, bem alto, um hierático NÃO. Sim, tudo isto na mesma conversa em que descobrimos, cereja no topo do bolo, que um tio bisavô padre, um dos orgulhos da família, chegado a monsenhor (seja lá isso o que for) e do qual sobraram até hoje umas fivelas de prata dos sapatos e uns cálices de relicário, esteve envolvido num muito enigmático e abafado “escândalo homossexual”, que lhe valeu um desterro de alguns anos numa terriola qualquer, a fazer tempo até à promoção final.

                  Que tem isto de novo ou de especial? Realmente nada. Nada a não ser o facto de aquilo que sabemos como lei geral – que nada nem ninguém é aquilo que à superfície parece, que tudo é infinitamente mais complicado e geralmente mais perverso e labiríntico do que as narrativas da “naturalidade” e da “tradição” querem vender – se aplicar aqui mesmo, na nossa casa, na nossa família, aos nossos pais, tios, avós e bisavós. Que o retrato sépia de rendas, bilros e bigodes retorcidos, com a sua enganadora e imóvel patine de bucolismo e pertença, é um filme de David Lynch. Sempre foi. Portanto, se faz favor, deixem-se de m*****.

                  (publicado na coluna 'sermões impossíveis' da notícias magazine de domingo passado)

                  *****
                  Amei
                    "Be anything but a coward, a pretender, an emotional crook, a whore: I'd rather have cancer than a dishonest heart." Truman Capote - Breakfast at Tiffany's

                     

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