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Olá Visitante19.fev.2020, 08:07:56

Autor Tópico: O Risco Moral do Euro  (Lida 3300 vezes)

 
O Risco Moral do Euro
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Offline strings

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Este artigo, pelo economista espanhol Jesus Huerta de Soto, é o prefácio do novo livro de Philipp Bagus, 'A Tragédia do Euro', que diz respeito á actual situação económica de Europa. Sendo Portugal um dos países mais severamente mergulhados na crise, achei relevante colocar aqui este ponto de vista pouco ortodoxo sobre o que é a situação actual em que nos deparamos, sobretudo para os que por aqui tiverem 'picadinha económica'. Não traduzi o artigo completo, já que o resto compara a política monetária europeia com a norte americana e fala do euro em termos gerais, sobretudo pela vertente política. A versão completa, juntamente com o livro em si, encontra-se no link em cima.

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O RISCO MORAL DO EURO

A actual crise das dívidas soberanas é o resultado directo de uma expansão de crédito por parte do sistema bancário europeu. No início da década passada, o crédito expandiu-se sobretudo na periferia da zona monetária europeia, em países como a Irlanda, Grécia, Portugal e Espanha. As taxas de juro foram reduzidas substancialmente através da expansão do crédito emparelhada com uma queda nas expectativas inflacionárias e nos prémios de risco. A queda acentuada das expectativas inflacionárias foi causada pelo prestígio do recentemente criado BCE como cópia do Bundesbank. Os prémios de risco foram reduzidos artificialmente devido à expectativa do apoio de países mais fortes. O resulto foi um boom artificial. Bolhas especulativas de preços de activos, como a do imobiliário em Espanha, desenvolveram-se. O dinheiro recém criado foi injectado sobretudo nos países periféricos onde financiou excessos de consumo e investimentos mal direccionados, sobretudo em sectores da construção superestendidos. Ao mesmo tempo, a expansão de crédito ajudou a financiar e expandir estados providência insustentáveis.

Em 2007, os efeitos microeconómicos que revertem qualquer boom artificial financiado por expansão de crédito, e não por verdadeiras poupanças, começaram a aparecer. Os preços dos meios de produção aumentaram. Taxas de juro subiram devido à pressão inflacionária que fez com que os bancos centrais reduzissem a sua política expansionista. Finalmente, os preços dos bens de consumo começaram a subir em relação aos preços dos factores de produção originários. Tornou-se cada vez mais óbvio que muitos investimentos não eram sustentáveis devido a uma ausência de verdadeiras poupanças. Muitos destes investimentos ocorreram no sector da construção. O sector financeiro viu-se pressionado à medida que hipotecas eram securitizadas, acabando por estar directa ou indirectamente nos balanços de instituições financeiras. Estas pressõas culminaram no colapso do banco Lehman Brothers, que levou a um autêntico pânico nos mercados financeiros.

Em vez de deixar as forças do mercado seguir caminho, os estados infelizmente interviram no processo de ajustamento. Foi esta infeliz intervenção que não só preveniu uma recuperação mais rápida e completa mas também produziu, como efeito secundário, a crise das dívidas soberanas a partir da primavera de 2010. Os estados tentaram escorar os sectores superestendidos, aumentando a sua despesa. Pagaram subsídios para novas compras de automóveis para apoiar a indústria automóvel e começaram obras públicas para apoiar o sector da construção assim como o sector que havia emprestado a essas indústrias, o bancário.

Além do mais, os estados apoiaram o sector financeiro directamente dando garantias aos seus passivos, nacionalizando bancos e comprando os seus activos, total ou parcialmente. Ao mesmo tempo, o desemprego aumentou estratosfericamente devido a mercados de trabalho regulados. As receitas governamentais de impostos sobre rendimentos e da segurança social caíram a pique. As despesas para subsídios de desemprego aumentaram. Consequentemente, os défices e dívidas cresceram como consequência directa das suas respostas à crise.

Neste aspecto, o euro mostrou uma das suas 'vantagens'. Sem o euro, o governo espanhol teria quase de certeza desvalorizado a sua moeda como fez em 1993, imprimindo dinheiro para reduzir o seu défice. Isto teria implicado uma revolução na estrutura de preços e um empobrecimento imediato da população espanhol à medida que os preços das importações aumentariam. Além do mais, ao desvalorizar, o governo poderia ter continuado a sua despesa sem quaisquer reformas estruturais. Com o euro, os estados em sarilho não podem desvalorizar a sua moeda para pagar a dívida. Estes governos tiveram de seguir medidas de austeridade e algumas reformas estruturais após pressão por parte da comissão e de estados membros como a Alemanha. Assim sendo, é possível que o Pacto de Estabilidade e Crescimento seja reformulado e aplicado.

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    #1

    Offline Adónis

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      Uma saída do EUR implica desvalorização da moeda e uma maior impossibilidade de pagar as dívidas (contraídas em euros).
      Tal, por sua vez, aumenta a probabilidade de default de algo que já está em presque default.
      Daí que a Srª Merkel e o Sr Sarkozy se mostrem tão assustados com uma saída do EUR por parte dos periféricos.

      Na óptica de PT, um default implica zero de capacidade de financiamente, mesmo com FMIs e Fundos de Estabilização.
      Há sim o aumento das exportações, mas quem me conseguir justificar que isso é mais importante que evitar um default nesta dupla óptica da desvalorização da moeda, que dê uma justificação forte porque nesta fase não vejo isso como viável tendo em conta as circunstâncias supra.

      Além disso: desvalorizar a moeda não é solução eterna. Veja-se o Japão com taxas de juro ~0% há ad eternum e respectiva estagnação económica. Volta-se ao tema da competitividade. 
      « Última modificação: 4 de Agosto de 2011 por johny.n.1986 »
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        #3

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        Além disso: desvalorizar a moeda não é solução eterna. Veja-se o Japão com taxas de juro ~0% há ad eternum e respectiva estagnação económica. Volta-se ao tema da competitividade. 

        Se há factor positivo em estar no euro é precisamente o de se evitar essa possibilidade de desvalorização (leia-se imprimir dinheiro do nada), que nada mais é do que a erosão das poupanças.

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          #4

          Offline johny.n.1986

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          Além disso: desvalorizar a moeda não é solução eterna. Veja-se o Japão com taxas de juro ~0% há ad eternum e respectiva estagnação económica. Volta-se ao tema da competitividade. 

          Se há factor positivo em estar no euro é precisamente o de se evitar essa possibilidade de desvalorização (leia-se imprimir dinheiro do nada), que nada mais é do que a erosão das poupanças.

          Mas aumenta investimento privado e exportações -> aumento do PIB (via taxa de juro + baixa)
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            #5

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            Além disso: desvalorizar a moeda não é solução eterna. Veja-se o Japão com taxas de juro ~0% há ad eternum e respectiva estagnação económica. Volta-se ao tema da competitividade. 

            Se há factor positivo em estar no euro é precisamente o de se evitar essa possibilidade de desvalorização (leia-se imprimir dinheiro do nada), que nada mais é do que a erosão das poupanças.

            Mas aumenta investimento privado e exportações -> aumento do PIB (via taxa de juro + baixa)

            É uma pinga que se segue de uma ressaca. O verdadeiro crédito vem de poupanças concretas e não de valores arbitrários. Prova também a falta de exactidão do PIB enquanto medidor do crescimento económico, quanto mais do aumento do nível de v ida.

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              #6

              Offline johny.n.1986

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              Além disso: desvalorizar a moeda não é solução eterna. Veja-se o Japão com taxas de juro ~0% há ad eternum e respectiva estagnação económica. Volta-se ao tema da competitividade.  

              Se há factor positivo em estar no euro é precisamente o de se evitar essa possibilidade de desvalorização (leia-se imprimir dinheiro do nada), que nada mais é do que a erosão das poupanças.

              Mas aumenta investimento privado e exportações -> aumento do PIB (via taxa de juro + baixa)

              É uma pinga que se segue de uma ressaca. O verdadeiro crédito vem de poupanças concretas e não de valores arbitrários. Prova também a falta de exactidão do PIB enquanto medidor do crescimento económico, quanto mais do aumento do nível de v da.

              Para teres poupanças concretas, tens de vender mais ou reduzir custos. A 2ª implica à priori um aumento de custos se olharmos na óptica da eficiência tecnológica e dos investimentos em capital que lhe estão subjacentes.
              Voltando ao aumento das receitas, tens de vender algo inovador, estrategicamente diferenciado, seja por via da qualidade ou do preço. A questão da desvalorização da moeda é exactamente sobre o preço. Assim, acaba sim por contribuir para a poupança, aumento o cashflow e consequente saldo de caixa final das empresas.
              O PIB não é igual ao desenvolvimento, mas não só é um proxy (parcial) como é base para desenvolvimento sustentável.

              Note-se que mesmo assim não sou apologista disto como estratégia  :)
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                #7

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                Para teres poupanças concretas, tens de vender mais ou reduzir custos. A 2ª implica à priori um aumento de custos se olharmos na óptica da eficiência tecnológica e dos investimentos em capital que lhe estão subjacentes.

                Tudo verdade, mas o alicerce mais básico é que essas poupanças dependam de verdadeira riqueza e não de uma moeda arbitrariamente designada com um certo valor pela monopolização dos bancos centrais.

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                  #8

                  Offline dummie

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                  Pessoalmente prefiro que Portugal faça uma saída organizada do euro. Por mil e uma razões.

                  Bom, não é assim tão fácil. E depois, qual seria o nosso poder económico?
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                    #9

                    Offline PRubia

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                    uma saída do euro, seja de Portugal, seja de qualquer outro país acarreta consigo custos muito elevados, a começar pelos custos de transição tanto para a Europa como para o próprio país que saia. Não esquecendo depois que as relações ecónomicas entre os países que continuavam na zona euro seriam afectadas pois os custos de transacções eram maiores, já para não falar da força da moeda que iria cair. É verdade que já existem algumas regras para a saída de um país da zona euro, mas essas mesmas regras ainda são muito "verdes" para se porem em prática.

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                      #10

                      Offline winkie

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                      a Inglaterra pertence à  União Europeia e não adotou o Euro....
                      foram os mais espertos.
                        "O macaco é um animal demasiado simpático para que o homem descenda dele." Nietzsche

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                        #11

                        Thought

                        • Visitante
                        a Inglaterra pertence à  União Europeia e não adotou o Euro....
                        foram os mais espertos.


                        Mas a Inglaterra e a Suiça entre outros mesmo que não tenham aderido ao Euro vão acabar por sofrer as consequências por pertenceram à UE

                          O Risco Moral do Euro
                          #12

                          Offline winkie

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                          Mas a Inglaterra e a Suiça entre outros mesmo que não tenham aderido ao Euro vão acabar por sofrer as consequências por pertenceram à UE

                          duvido... duvido mesmo. mas a ver vamos. esperemos que não.
                            "O macaco é um animal demasiado simpático para que o homem descenda dele." Nietzsche

                             

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