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Olá Visitante20.set.2020, 09:32:17

Autor Tópico: Numa sociedade semelhante a uma tipografia!  (Lida 6029 vezes)

 
Numa sociedade semelhante a uma tipografia!
#0

poshboy

  • Visitante
Efectuando uma pesquisa num dicionário pela palavra "tipografia", um dos resultados que surge é: "Sistema de imprimir com formas de relevo (tipos)" e pesquisando noutro local a definição que obtemos é: "Antigo processo de impressão (geralmente apenas de textos e pequenos símbolos) de forma mecânica, com pressão da matriz ... sobre o papel.". É exactamente sobre a associação deste termo à sociedade moderna que quero divagar hoje.
Cortei o meu cabelo, que por acaso, já estava grande demais para o meu gosto,  e eu gosto dele bem curto, curto é como EU GOSTO, para alem de ter cortado decidi fazer uma riscas laterais, pouca gente me tem visto não me tem apetecido sair á noite. e de dia... cá no Alentejo está "muita calma" para isso. Quando reapareci reparei que as pessoas quando falavam comigo não me olhavam nos olhos como é hábito, mas sim para o meu penteado. Houve inclusive quem pergunta-se escandalizado "O que é que fizeste ao cabelo?", “Ai como tu estás….”  Talvez fosse a falta de hábito que as pessoas tinham de me ver assim (visto que foi a primeira vez que fiz as riscas no cabelo)... mas o que interessa aqui não é realmente o meu cabelo, mas sim, a sociedade constituída por estéreo tipos em que vivemos actualmente. O assunto do meu cabelo apenas me fez querer expressar a minha opinião sobre isso, sim, porque eu também sei escrever tão bem como qualquer "impressão". O que se passa é que cada vez vejo mais as pessoas a utilizar clichés, como se isso fosse original, a vestirem-se com as mesmas marcas, as mesmas roupas, a pensarem quase de formas idênticas... será que o contraste se tornou um pecado? Lá porque 90% da população daqui usa o cabelo "à beto", porque é que eu tenho que usar? Lá porque 90% gosta de uma coisa porque é que hei-de gostar? Lá porque 90% tem determinado ponto de vista acerca do assunto X, porque hei-de eu ter o mesmo ponto de vista? Será que não posso ser eu mesmo, andar como gosto, fazer o que gosto,  dizer o que penso, o que sinto, sem que por isso seja olhado como se fosse um imigrante ilegal? Será que ser diferente em alguma coisa é sinónimo de ter um autocolante na cara a dizer tudo sobre mim? 
Acho que perante tanta gente igual posso considerar que vivemos numa sociedade semelhante a uma tipografia. Numa tipografia todas as letras são impressas por pequenos símbolos formados por um relevo (tipos). Os tipos são alinhados na prensa de forma a formar um texto, pintados com tinta e pressionados inúmeras vezes sobre folhas de papel, para formar imensas cópias do texto. É assim que a sociedade funciona actualmente... são colocados os tipos não sei onde, e surgem de repente inúmeras cópias em forma de pessoas, que parecem ficar surpresas quando alguém tenta fugir, nem que seja só um pouco, da prensa.
Qualquer dia tenho ondas de "fotocópias" á porta para me criticar por dizer frases que contenham "e se...?", "porquê?", "eu acho..." ou "pára de...".
Sinceramente, e cada vez mais, estou-me nas tintas para a o sitio onde pertenço, para o que as pessoas à minha volta fazem ou digam, não vou desperdiçar o meu tempo a tentar integrar-me numa sociedade onde quem tem todos os privilégios são os que tem dinheiro, onde a cultura é definida pelos menos inteligentes e onde se fica para trás se não nos integrarmos.
Muito orgulhosamente vou ficar para trás e ver se aprendo algo de novo.

Daniel Boto
« Última modificação: 9 de Julho de 2009 por Simposium »

    Numa sociedade semelhante a uma tipografia!
    #1

    Offline Petit_Prince

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    Tens toda a razao poshboy! Mas ja ouvi neste forum que a isso se chama "progresso".... Enfim  ;)

      Numa sociedade semelhante a uma tipografia!
      #2

      Offline Arms

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      Concordo contigo poshboy. Infelizmente, a nossa sociedade gosta de etiquetar pessoas. É mais fácil do que conhecê-las.

      Pois. Lá está. O ser humano gosta de fazer grupinhos numa tentativa vã de se identificarem, esquecendo que a sua identidade está na variedade. Funciona mais ou menos como os produtos em série. Um igaual ao outro, que é a cópia do outro, que é o espelho do fulano xis, que parece o irmão do fulano ípslon.
      Quem não se encaixa nos supostos padrões sociais que esses fulanos criam são vistos como "bichos de sete cabeças". Mas, pronto... Lá temos nós que aturar as habituais bocas do género "Mas... não gostas de Morangos com Açúcar!? Toda a gente gosta. É a série dos adolescentes." (Adolescentes que mais nada têm na cabeça senão um conjunto de neurónios decadentes, talvez. Mas eu não disse nada!) e sorrirmos e pensarmos que o mundo seria muito melhor se as pessoas soubessem aceitar a diversidade humana. Enfim, foi um pensamento...
        Se dependes unicamente dos outros para seres feliz prepara-te para ficares desiludido.
        Instead of telling people to plan ahead, we should tell them to plan to be surprised.

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        #3

        Offline Petit_Prince

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        as pessoas sao todas iguais. mas nao e consciente. sao assim. iguais simplesmente iguais. ms isso e bom! e mais produtivo.  :P

          Numa sociedade semelhante a uma tipografia!
          #4

          Offline Petit_Prince

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          Poshboy eu odeio a massificaçao! Mas ela agora e estimulada! Se formos todos iguais, todos consumimos aquelas mm porcarias, todos temos a mm atitude perante a realidade do nosso tempo, temos aquelas vidinhas iguais (p. ex. 40 anos casado com 3 filhos casa nos suburbios...), todos produzimos e seguimos os padroes. Agora se saltarmos dessa igualdade ja nao contribuimos para o fluir da corrente na direcçao determinada.... portanto ja nao e "bom"....  ;)

            Numa sociedade semelhante a uma tipografia!
            #5

            Offline Petit_Prince

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            • Membro Elite
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            Se essa é a sua opinião, então siga a corrente, e nao a perca! ;)

            Isto nao e de opiniao! E uma questao de realidade! e o desenvolvimento daquilo que tu disseste! Eu disse: "odeio a massificaçao". Axo q e a perda da humanidade. Mas sao esses os termos com que jogamos agora.

              Numa sociedade semelhante a uma tipografia!
              #6

              nuni

              • Visitante
              Se essa é a sua opinião, então siga a corrente, e nao a perca! ;)

              Isto nao e de opiniao! E uma questao de realidade! e o desenvolvimento daquilo que tu disseste! Eu disse: "odeio a massificaçao". Axo q e a perda da humanidade. Mas sao esses os termos com que jogamos agora.

              eu acho que somos um exemplo de uma coisa que a sociedade considera ma, nos somos diferentes, quer queiramos ou nao somos diferentes da maioria e isso e considerado mau pela sociedade. ontem uma amiga minha quando viu o numero total de membros do forum disse "nao admira que a taxa de natalidade seja tao baixa", pk nos nao fazemos filhos e para a sociedade isso é mau, seria suposto casarmos e termos um ou dois filhos!!!! isto é a nossa realidade.....

              Numa aula de ingles tavamos a falar sobre minorias e um colega meu diz "a unica forma de vivermos bem era matando as minoras"..acho que esta frase diz tudo!!!......

                Numa sociedade semelhante a uma tipografia!
                #7

                Offline gumby

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                • Associad@
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                • It is possible to see a rainbow in the dark.
                A questão da sociedade gostar de ter uma corrente dominante sempre existiu. Não é nada de novo. A tendência de qualquer civilização é para a homogeneidade.

                Agora, a questão é como é que cada um de nós lida com isso.

                Há quem escolha seguir a corrente, mesmo quando isso vai contra o que a pessoa sente. E há quem opte por ser fiel a si próprio, mesmo sabendo que assim pode ter alguns problemas com a sociedade.

                  Numa sociedade semelhante a uma tipografia!
                  #8

                  Offline FalsoDeus

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                  esse teu argumento das diferentes culturas nao entra nesta discussao. eu referia.me a pessoas da sociedade ocidental  ;)

                  O facto de haver opinioes divergentes nao significa q as pessoas n pensem da mm maneira e nao actuem da mm maneira e nao sejam iguais.  :-\ pequenas opinioes nao sao factor de diferença... Dizer "gosto de roxo e nao de vermelho" nao me torna diferente de alguem que diz "gosto de vermelho e nao de roxo". e insuficiente para se fazer uma distinçao capaz. O ser humano nao e so senso comum...

                    Pequenas opiniões!? Tipo, eu gostar de vermelho e não de roxo vai-se reflectir em várias das minhas acções. E tipo, agora todo o povo ocidental é igual. Claro, faz todo o sentido. Eu até sou ateu mas tenho uma mãe cristã. A não ser, claro, que esta também seja uma "pequena opinião", ou algo de que "não temos consciência".

                   E sim, eu queria mesmo dizer o que disse :)

                    Numa sociedade semelhante a uma tipografia!
                    #9

                    Offline HLuso

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                    • Membro Elite
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                    • Nós somos as palavras que escrevemos....

                    Houve inclusive quem pergunta-se escandalizado "O que é que fizeste ao cabelo?", “Ai como tu estás….”  Talvez fosse a falta de hábito que as pessoas tinham de me ver assim (visto que foi a primeira vez que fiz as riscas no cabelo)... mas o que interessa aqui não é realmente o meu cabelo, mas sim, a sociedade constituída por estéreo tipos em que vivemos actualmente. O assunto do meu cabelo apenas me fez querer expressar a minha opinião sobre isso, sim, porque eu também sei escrever tão bem como qualquer "impressão". O que se passa é que cada vez vejo mais as pessoas a utilizar clichés, como se isso fosse original, a vestirem-se com as mesmas marcas, as mesmas roupas, a pensarem quase de formas idênticas... será que o contraste se tornou um pecado? Lá porque 90% da população daqui usa o cabelo "à beto", porque é que eu tenho que usar? Lá porque 90% gosta de uma coisa porque é que hei-de gostar?

                    Já pensaste que provavelmente amanhã podem aparecer, outros tantos rapazes da tua terra, a imitarem o teu corte de cabelo???



                      Nascer HOMOSSEXUAL num Pais tão homofobico, foi destino!!!....Alguem ainda ha-de cantar este fado...!!!;)

                      Numa sociedade semelhante a uma tipografia!
                      #10

                      Offline HLuso

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                      • Membro Elite
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                      • Nós somos as palavras que escrevemos....

                      Houve inclusive quem pergunta-se escandalizado "O que é que fizeste ao cabelo?", “Ai como tu estás….”  Talvez fosse a falta de hábito que as pessoas tinham de me ver assim (visto que foi a primeira vez que fiz as riscas no cabelo)... mas o que interessa aqui não é realmente o meu cabelo, mas sim, a sociedade constituída por estéreo tipos em que vivemos actualmente. O assunto do meu cabelo apenas me fez querer expressar a minha opinião sobre isso, sim, porque eu também sei escrever tão bem como qualquer "impressão". O que se passa é que cada vez vejo mais as pessoas a utilizar clichés, como se isso fosse original, a vestirem-se com as mesmas marcas, as mesmas roupas, a pensarem quase de formas idênticas... será que o contraste se tornou um pecado? Lá porque 90% da população daqui usa o cabelo "à beto", porque é que eu tenho que usar? Lá porque 90% gosta de uma coisa porque é que hei-de gostar?

                      Já pensaste que provavelmente amanhã podem aparecer, outros tantos rapazes da tua terra, a imitarem o teu corte de cabelo???





                      leia de novo o topico!  ;)

                      Já li, e repito a mesma pergunta...

                      ok, :)

                      Adoptando a tua teoria da sociedade ser uma tipografia, como muito criativamente descreveste, ficou apenas por dizer que existem estilos de letras diferentes...no word por exemplo, existe o Arial, o Times New Roman etc...E essas letras para além dos estilos, ainda podem ter cores diferentes...

                      Isto para te dizer, que há dois tipos de pessoas, aquelas que inovam e que são  precursoras, e as outras que só mais tarde, é que vão na onda...

                      Eu com a tua idade, 17 anos, pus um brinco, o mundo ia caindo à minha volta, anos mais tarde, montes de rapazes punham brinco, hoje já não uso...a minha mãe foi a primeira mulher a usar biquini na sua terra, tenho um primo que usou calças rasgadas antes da moda delas (que tambem entretanto ja passou ha muito), e tantos outros casos...

                      O Mundo pode até ser uma tipografia, mas concerteza que as letras todas juntas, e em forma de palavras e textos, dão origem a histórias diferentes, unicas, umas mais criativas que outras, umas mais arrojadas e extravagantes, outras mais moderadas e reservadas..

                      O Mundo até pode ser uma tipografia, mas se olhares bem, é uma tipografia de diversidade...

                        Nascer HOMOSSEXUAL num Pais tão homofobico, foi destino!!!....Alguem ainda ha-de cantar este fado...!!!;)

                        Numa sociedade semelhante a uma tipografia!
                        #11

                        Offline seraphine

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                        • Membro Ultra
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                        Poshboy,

                        It’s true  (e aplaudo veementemente as tuas palavras). A metáfora inerente a este tópico surge-me imensamente dotada de sentido, comprovação efectiva e constante numa série de emanações do meio para o qual remete o cerne do texto por ti escrito.

                        Manifestações flagrantes e contínuas do teor massivo e massificado dos parâmetros de ser, de agir e de pensar que são continuamente evocados numa replicação constante de moldes que estabelecem uma representação exclusiva desses mesmos parâmetros, numa manifestação "corpórea" comum e universalizável a cada contexto em particular, asfixiando individualidades com a pressão exercida sobre a isenção inata de todos esses apetrechos? Cultura e socialização estabelecem-se nesses artifícios e, tudo quanto escapa ao conceito de normalidade conotado como “norma estatística”, rege-se pela propensão, em potência, ao estímulo imediatamente susceptível de gerar estranheza naqueles que se gerem pelo modelo inicial a partir do qual se elaboram as cópias/backgrounds  comuns nas formas de agir, de ser, de estar e de pensar a que tu, enquanto criador do tópico, te referes.

                        Cultiva-se o desejo de integração, de pertença e de partilha através da identificação estabelecida por esses parâmetros massivos de “identidade” universalizável, ainda que certas noções e manifestações variem em função de uma série de aspectos que estabelecem a unicidade variavél de cada cultura  consoante, por exemplo, a localização geográfica.

                        Talvez por tudo isto, por demasiada vez me tenha sentido francamente deslocada e pouco intimamente envolvida ou realizada em certas noções comuns à maioria. Escapo a determinadas coisas, a partir do momento em que sobreponho a minha individualidade ao desejo de integração no redor com que interajo (e que comigo, por sua vez, interage). Mas isso, como é evidente, cabe a cada um de nós. Existe a escolha, estabelecida em consciência, de romper com as convenções que ditam que, por exemplo - para mencionar apenas um exemplo e considerando o contexto em que nos situamos (o fórum!) -, o heterossexualismo subjaza à esmagadora maioria das mentalidades que estão naturalmente cientes da existência de uma orientação sexual em qualquer pessoa mas que a concebem, de um ponto de vista universal, quase exclusivamente na perspectiva da tendência compulsiva para assumir imediatamente que toda a gente é heterossexual, ainda que se oiçam falar de outros sentidos dessa orientação. O fervor da tipografia imprime e massifica de tal modo essa noção, que ela se manifesta como inerente e incontornável à primeira reflexão da grande maioria das pessoas. Assume-se que assim seja, porque é próprio da aplicação inerente a todo o funcionamento destes mecanismos pérfidos e implacáveis, gerar tipologias nos modos de ser, de estar, de pensar e de agir de qualquer pessoa, em consonância consigo e com o meio.

                        Mas nem a máquina, ainda que busque continuamente a igualdade replicada (no âmbito da cópia) na impressão tipográfica realizada sobre as folhas imaculadas que nascem continuamente e sempre, inevitavelmente, lhe são submetidas, pode ditar a forma como cada folha sente as letras que sobre si se vincam com menor ou maior força e que, apesar de moldarem certas formas e contornos da sua individualidade, nem sempre moldam conteúdos naqueles que conseguem superar a pressão que a máquina exerce na sua consciência enquanto folha individual, sempre que um modelo tipo(gráfico) se (a)firma num exemplar/página em branco.
                        « Última modificação: 9 de Setembro de 2006 por seraphine »
                          "I'd rather learn from one bird how to sing
                          than teach ten thousand stars how not to dance"

                          Associação dos Amigos dos Animais Abandonados da Moita

                          Numa sociedade semelhante a uma tipografia!
                          #12

                          Offline Petit_Prince

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                          • Membro Elite
                          • Género: Masculino
                          Seraphine então advogas uma cisão com o saber popular e algum do senso comum como forma de conquista da individualidade?

                          Mas nem a máquina, ainda que busque continuamente a igualdade replicada (no âmbito da cópia) na impressão tipográfica realizada sobre as folhas imaculadas que nascem continuamente e sempre, inevitavelmente, lhe são submetidas, pode ditar a forma como cada folha sente as letras que sobre si se vincam com menor ou maior força e que, apesar de moldarem certas formas e contornos da sua individualidade, nem sempre moldam conteúdos naqueles que conseguem superar a pressão que a máquina exerce na sua consciência enquanto folha individual, sempre que um modelo tipo(gráfico) se (a)firma num exemplar/página em branco.

                          Na minha opiniao, as "folhas" só aprendem a sentir depois de serem "vincadas" (e não sentirem enquanto são vincadas como tu advogas)... Por isso creio que não existe individualidade real. Poucos são os indivíduos de facto. São os poucos que possuem a capacidade de "reler" a folha que os constitui. (para seguir a metafora...  :P )

                            Numa sociedade semelhante a uma tipografia!
                            #13

                            Offline seraphine

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                            • Playground Twist
                            Seraphine então advogas uma cisão com o saber popular e algum do senso comum como forma de conquista da individualidade?

                            Na minha opiniao, as "folhas" só aprendem a sentir depois de serem "vincadas" (e não sentirem enquanto são vincadas como tu advogas)... Por isso creio que não existe individualidade real. Poucos são os indivíduos de facto. São os poucos que possuem a capacidade de "reler" a folha que os constitui. (para seguir a metafora...  :P )

                            Petit_Prince,

                            A consciência e a sensibilidade humana caracterizam-se por uma multiplicidade de formas e essa noção integra o próprio senso comum em si. Não digo, de modo algum, que as pessoas nas quais estas noções se processam de modo quase exclusivamente inconsciente sejam insensíveis, mas digo antes que são talvez menos propensas à susceptibilidade que impõe à consciência a noção em bruto de toda a envolvente referente ao processamento e à integração dos "vincos" no seu interior.

                            Não sentem quando são vincadas?  Sentem-no e sentem-no por vezes de forma tão pungente que, em alguns casos, a exposição contínua a certos trâmites dos processos de impressão (por impressão entenda-se os parâmetros que são incutidos/impressos na pessoa) sobre a pele, carne e osso do ser que constitui o indivíduo,  gera de tal modo dilemas, contradições e toda uma multiplicidade de insinuações conflituosas, que as mesmas surgem como fenómenos capazes de conduzir o individuo em questão a repensar/colocar em causa alguns/todos dos/os contornos da envolvente que constituí o meio em que ele se desloca, vive, sente, experimenta e adquire tudo quanto é emanação desse exterior. Por vezes, essa consciência torna-se mesmo alarmante, desgastante e perfidamente angustiante. Outros haverá que vivem as suas vidas sem questionar nada e aceitam tudo quanto lhes é posto ou imposto no caminho  e isto, meu caro, é algo que por si só, do ponto de vista da concepção imaginária e reflexiva da minha identidade, me angustia severamente.

                            Certas escolhas surgem-nos sujeitas a uma infinidade de mecanismos interiorizados de sentir e de pensar e em momento algum considero válido achar-se que nenhuma criatura viva e humana irá sentir o vinco e o vínculo de algo que se estabelece por vezes tão notoriamente sobre si. A figura sobre a qual recai o incutir perpétuo de um molde não é voluntariamente moldada, mas pode ter alguma consciência dos contornos a partir do qual se citam as aparências e os parâmetros comuns que compõem algumas partes da fisionomia da imagem de si mesma. Se é possível romper com esses processos? Depende da sua extensão, da predisposição da pessoa ao acto de se questionar a si e ao redor, depende de que modo esses processos e emanações/impressões do exterior actuam sobre o indivíduo, depende da profundidade dos vínculos, depende de uma série de acepções que jamais, em momento algum, realizam como verdadeira a hipótese hedionda de que ninguém questiona o que é e o que tem em si e de que é feito consciente e inconscientemente,  do mesmo modo que a nossa natureza nos impõe que se questione se há vida noutros planetas e se a hipótese creacionista da origem da vida é a mais válida e pertinente ou, até, se o ovo veio primeiro que a galinha ou se pelo contrário, a galinha antecedeu a existência desse mesmo ovo.

                            Ainda que a nossa consciência seja apenas um ínfimo ápice do monstruoso e desmesurado icebergue que compõe todo o nosso sistema psíquico, é da natureza humana indagar determinadas acepções do exterior e interior com que ela lida.
                            « Última modificação: 15 de Setembro de 2006 por seraphine »
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                              #14

                              Offline Petit_Prince

                              • *****
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                              • Género: Masculino
                              Seraphine:

                              Eu creio que somos "vincados" e desse vinco podemos vir a ter a capacidade de sentirmos e de querermos modificar/questionar a nossa condição. É essa formação base (esse vinco) que nos vai facultar certas capacidades imprescindiveis a comunhão com o meio envolvente. Mas muito poucos são capazes de reanalisar-se. Assim advogo que na sociedade não ha individualidade. Poucos são aqueles que tem um ego distinto e real em si.

                               :-*


                                Complete a frase...
                                #15

                                Diotima

                                • Visitante
                                Eu gosto de desenterrar tópicos antigos :) . Penso que  ás vezes as pessoas que têm este tipo de discurso não são coerentes para aceitar os que são efectivamente diferentes na sociedade: os pobres, os deficientes, os doentes (físicos e mentais) , os obesos, ... Parece que mesmo nos que se dizem diferentes, não fazendo parte de uma sociedade homogênea, há diferenças que são mais aceites do que outras...
                                « Última modificação: 26 de Março de 2013 por Diotima »

                                  Numa sociedade semelhante a uma tipografia!
                                  #16

                                  Offline strings

                                  • ***
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                                  • Don't tread on me
                                  Já que todos reconhecemos os males da rotulagem e da categorização, não criemos excepções inconscientes... já escandalizei muito pessoal LGBT, supostamente todos 'livres pensadores' cosmopolitas, por não ser Bloquista, por não gostar da Lady Gaga ou dos Scissor Sisters, e acima de tudo por detestar o movimento político que supostamente luta pelos meus direitos.

                                     

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