rede ex aequo

Olá Visitante20.ago.2019, 10:58:37

Autor Tópico: LGBT Budistas  (Lida 4387 vezes)

 
LGBT Budistas
#20

Kaiser

  • Visitante
qualquer coisa no budismo é um obstaculo para o nirvana, mas impedir as pessoas de fazerem o que gostam e querem danifica o karma, coisa que atrapalha o processo de atingir o nirvana como um todo.

    Convém esclarecer as coisas um bocadinho, ok?
    #21

    Offline Sandra M. Lopes

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    • Pessoa transgénero com um fetiche do acto de fumar
      • Sandra M. Lopes - Rantings from a crossdresser
    Olá a todos :)

    Fico contente por ver algumas discussões sobre Budismo num contexto LGBT, que acho que fazem bastante falta. Noutros forums (estrangeiros!!) costumo participar energicamente em diversas discussões (no bom sentido da palavra) com outros budistas LGBT, na expectativa de explicar melhor a abordagem do Budismo enquanto filosofia de vida e método de auto-ajuda (e de ajuda aos outros), especialmente no contexto LGBT (claro), mas com menos foco na noção «religiosa», muito menos em termos de «religião comparativa» — porque o Budismo não é uma «religião». Tecnicamente nem sequer existe «budismo» no sentido de «organização que segue os ensinamentos do Buda» — o próprio Siddhartha ficaria chocado ao pensar que tinham «institucionalizado» os seus ensinamentos dessa forma! — mas o termo «budismo» foi popularizado pelos Teosofistas no século XIX e assim ficou... aqueles que seguem os ensinamentos de Siddhartha auto-denominam-se simplesmente «praticantes», ou, se preferirem, «praticantes do Buddhadharma» (que quer dizer, literalmente, «ensinamentos do Buddha»). No Tibete usa-se uma palavra engraçada que quer dizer apenas «pessoa interior», no sentido em que o trabalho principal do praticante budista é a auto-observação com atenção.

    É também simpático da parte dos praticantes explicarem de quem receberam os ensinamentos. Isto talvez faça um pouco de confusão a quem esteja habituado a outras religiões, em que há um líder espiritual (histórico ou presente) e todos os seus crentes supostamente fazem a mesma coisa. No Budismo é completamente o oposto. Siddhartha explicou uma série de métodos e técnicas para obter os mesmos resultados que ele (tradicionalmente consideram-se que foram 84.000 os métodos que ensinou). Porquê tantos? Porque Siddhartha sabe que todos somos diferentes, e que não é possível que exista um método tipo «tamanho único» que funcione para todos. Em vez disso, optou por ensinar consoante as capacidades de compreensão dos seus alunos. Assim todos podem colher benefícios. Ao longo dos últimos 2.600 anos, milhões de pessoas seguiram escrupulosamente esses métodos e atingiram o mesmo estado que Siddhartha; por sua vez, continuaram a ensinar novos alunos; mas como estes eram também diferentes entre si — e provavelmente diferentes dos alunos do próprio Siddhartha! — também ensinaram de acordo com os seus alunos, e assim por diante, até chegar aos dias de hoje. Logo, é perfeitamente normal que dois praticantes budistas tenham técnicas e métodos muito diferentes e incompatíveis entre si!

    No entanto, a base é a mesma. Só a aparência externa da forma como os métodos são colocados em prática é que pode realmente ser muito diferente! Isto não quer dizer que o método A ou B seja «melhor». Quer dizer apenas que, para certas pessoas, o método A obtém melhores resultados; para outras, talvez seja o B; para outras o C, D, E... um bom professor saberá muitos métodos e técnicas, e explicará aos seus alunos de acordo com o que for melhor para eles. Os alunos do mesmo professor podem, pois, aprender coisas diferentes! Não há qualquer contradição nisto: cada qual aprenderá, sob orientação de um professor qualificado, aquilo que lhe ajudar mais.

    Assim sendo, no que passo a explicar, é importante tomarem em conta que a minha experiência depende exclusivamente dos métodos e técnicas que me foram transmitidos pelos meus professores, e, logo, podem haver algumas diferenças para o que outros tenham aprendido. Não querendo «esticar-me» muito, posso dizer que a sequência ininterrupta de professores de budismo, iniciada por Siddhartha e que chegou aos meus professores, está incluída no dito Budismo Tibetano (outro nome estúpido inventado pelos académicos ocidentais; os tibetanos ficariam completamente chocados ao saber que as pessoas no Ocidente pensam que eles «inventaram» alguma forma nova de Budismo, quando se orgulham precisamente de ter preservado os melhores ensinamentos indianos [e muitos chineses]!). Dentro deste, existem várias escolas principais (tradicionalmente falam-se de quatro, mas na realidade são um pouco mais do que isso...), sendo a mais antiga, Nyingma, a minha escola principal. Porque um grupo dos meus professores recebeu, por sua vez, ensinamentos da escola Kagyü, tenho um misto de conhecimentos das duas escolas, e conheço abordagens ligeiramente diferentes para os mesmos assuntos — que é a tradição da minha linhagem. Por sua vez, os meus professores descendem de uma tradição iniciada no século XIX conhecida como «movimento não-sectário», que considera que todos os ensinamentos de professores qualificados, não importa a escola que pertencem, são válidos por si só, e é normal, entre os meus professores, ouvir ensinamentos de todas as escolas. No entanto, a minha prática principal é essencialmente Nyingma; o conhecimento, esse, provém de várias escolas.

    Não faço parte da organização do Paulo Borges, que, embora seja igualmente Nyingma, não tem a mesma linhagem que eu. Assim, se me «apanharem» a dizer coisas diferentes do Paulo Borges, é natural — ele segue os seus professores, eu sigo os meus! Mas claro que haverão muitos mais pontos comuns do que diferenças!

    Finalmente, claro que o 14º Dalai Lama e os seus ensinamentos são profundamente respeitados e reverenciados na minha linhagem — mas o Dalai Lama pertence à escola Gelug, que não há muitos séculos atrás massacrava (sim, literalmente — genocídio) membros da escola Nyingma :) Mas isso não impede, de todo, que os ensinamentos de Sua Santidade o 14º Dalai Lama sejam respeitadíssimos também pela nossa escola, especialmente porque este Dalai Lama é igualmente um feroz adepto do movimento não-sectário e recebeu toneladas de ensinamentos de grandes praticantes Nyingma e Kagyü que coloca em prática todos os dias (por vezes, um pouco contra a vontade dos restantes membros da sua própria escola... mas como ele é o líder dessa escola... não têm outro remédio senão respeitá-lo!). Quer isto dizer que reverencio o Dalai Lama como um sublime professor, independentemente da escola a que ele pertença, mas a minha prática pessoal é ligeiramente diferente da dele — a escola dele tem outras técnicas e uma visão ligeiramente diferente. Mas alguns professores do Dalai Lama foram também professores dos meus próprios professores — por isso, mais uma vez, haverão muito mais pontos comuns do que diferenças.

    Dito isto tudo, é agora muito importante também explicar que não sou uma professora qualificada. Há regras bem estritas para quem pode e para quem não pode falar sobre os ensinamentos de Siddhartha. Porquê? Porque uma explicação mal dada pode induzir uma pessoa genuinamente interessada em erro; uma má interpretação, por ignorância, mesmo que bem intencionada, pode fazer com que alguém se afaste dos ensinamentos do Buda, pensando que estes não fazem sentido. Nesse sentido, não posso falar autoritativamente sobre os ensinamentos do Buda. As únicas pessoas que o podem fazer foram as que foram devidamente autorizadas pelos seus próprios professores. Se houver dúvidas, o que uma pessoa interessada deve imediatamente fazer é perguntar: «quem é que te autorizou a falar sobre os ensinamentos do Buda?» Deve-se desconfiar imediatamente de quem não saiba responder a isso. Escusado será dizer que «li um livro sobre o assunto» não é um «pretexto» para se poder explicar o que se leu. O Budismo não se «aprende» lendo livros ou páginas na Internet. Em vez disso, coloca-se em prática sob orientação de um professor qualificado — e usam-se livros apenas como uma referência, como auxiliares de memória.

    Há, no entanto, uma longuíssima tradição de debate no Budismo, em que se espera que qualquer praticante saiba muito bem o que está a fazer, e, principalmente, porque é que o está a fazer. Ou seja, não basta dizer: «eu medito porque o meu professor me disse que me fazia bem» (falácia da autoridade!). Em vez disso, o praticante deve saber exactamente porque é que está a meditar (segundo a técnica X ou Y), para que serve, e qual o objectivo dessa meditação. Caso contrário, a prática budista de nada serve — é apenas fazer de «macaquinho de imitação». Pelo contrário, quem realmente coloque genuinamente em prática os métodos e técnicas, vai obter resultados, que lhe darão confiança na razão pelas quais esses métodos são assim e não assado. Significa também que compreende a prática e poderá explicá-la — não porque leu sobre o assunto, ou porque ouviu nalgum lado, mas porque experimentou e sabe do que está a falar :)

    É só nesse sentido que me arrisco a fazer um ou dois pequenos comentários.

    Mas, como o próprio Siddhartha disse, «Não acreditem em mim só porque dizem que sou o Buda. Experimentem por vocês próprios, vejam se tem lógica e se funciona para vocês, e analizem criticamente os resultados. Se não servir, rejeitem as minhas palavras.» Se isto foi o próprio Sidhhartha que disse, mais verdade será para pessoas como eu, que sou uma mera principiante :)

    Vamos então a alguns comentários...

    O Budismo é ou não contra a homossexualidade?

    Até podia ir mais longe, será o Budismo contra a comunidade LGBT em geral?

    Há na longa lista de preceitos (pequenas regras do dia-a-dia que ajudam no treino) uma regra divertida, que é que não se deve ensinar budismo a uma pessoa que tenha mudado de sexo mais de três vezes. Sério! Não estou a brincar! O mais giro é que isto foi escrito há mais ou menos 2.200 anos atrás. Tinha um objectivo bastante claro: alguém que esteja a mudar de sexo várias vezes, terá dificuldade em colocar em prática certos ensinamentos que só se aplicam a homens ou a mulheres, de forma consistente. Há razões culturais para haver regras diferentes: por exemplo, ainda hoje, na Índia, é perigoso a uma mulher andar sozinha na rua. Imaginem como seria há 2.600 anos atrás! Assim, o Buda achou por bem que uma monja não andasse sozinha, mas sempre acompanhada, quando estivesse fora do mosteiro — por uma questão de segurança. Deve-se compreender que, há 2.600 anos atrás, não existia forma nenhuma de mulheres entrarem para organizações religiosas, e os pais destas ficariam muito preocupados com a sua segurança, quando uma filha dizia que se queria tornar praticante dos ensinamentos do Buda num mosteiro. Os pais quereriam ter a certeza de que estavam a lidar com uma organização séria, que tomasse conta das suas filhas! Assim, há ligeiras diferenças nas regras monásticas. Mas alguém que esteja sempre a mudar de sexo pode começar a fazer confusão com as regras todas.

    Ou seja: não há problema, no Budismo, em ser-se transsexual. Até se alguém se «arrepender» da transição, e quiser «voltar para trás», também o Budismo nada diz àcerca disso. Agora se, depois de se ter mudado de sexo duas vezes, se quiser outra vez mudar de sexo... bem... uma pessoa assim tem muita dificuldade em seguir uma prática consistentemente, e o segredo para obter resultados com os ensinamentos budistas é justamente manter uma prática consistente!

    Relativamente à orientação sexual, o que Siddharta propôs é que todos os praticantes se devem abster de ter uma conduta sexual imprópria. Isto quer apenas dizer que, no acto sexual, deve-se evitar que a outra pessoa sofra, seja de que forma for. Isto é usado, por exemplo, para evitar que as pessoas cometam adultério — não porque o acto seja «errado», mas porque o esposo ou esposa de quem foi «enganado» vai sofrer com a situação. Obviamente que isto também significa que se deve evitar a violação (seria evidente) ou a prática sexual com menores ou deficientes mentais que não compreendem muito bem o que se está a passar mas que pode deixar uma marca de sofrimento para toda a sua vida.

    Isto é praticamente tudo o que o budismo tem a dizer sobre a conduta sexual.

    Agora obviamente que, consoante a escola, o país, a cultura, etc. as coisas podem variar. Aqui o Buda foi claro — há ensinamentos que são fundamentais, e outros que são acessórios. Os fundamentais — essencialmente os ensinamentos sobre a natureza última das coisas — não mudam, por definição. Por exemplo, fazer sofrer uma pessoa é sempre errado, seja qual for a cultura e a época. Estes são os chamados ensinamentos definitivos. Outros são ensinamentos provisórios — inserem-se num determinado contexto. Por exemplo, na Índia e no sul da Ásia, os monges só usam uma roupa muito simples (pouco mais é do que um pano quadrado dobrado sobre o corpo). No Tibete, norte da China, Mongólia, e Sibéria, porque está muito mais frio, são autorizados a vestirem roupa de inverno. Para quem esteja habituado a ver monges de climas quentes poderão ficar chocados ao ver pessoas que se intitulam de monges mas que vestem roupas quentes de inverno — parecendo assim desrespeitar uma regra! Mas trata-se apenas de uma regra provisória, não definitiva — respeitar uma regra que conduza a morrer de frio na neve não ajuda ninguém!

    Assim, culturalmente, em muitas escolas os monges devem praticar abstinência sexual, apenas porque a constante preocupação com o sexo (que é da natureza humana!) distrai a atenção para coisas que não são verdadeiramente importantes. No entanto, noutras escolas, pode-se ser ordenado monge e ter-se sexo à vontade — basta para isso que o praticante não seja distraído com a «obsessão» pelo sexo. Regra geral, tudo aquilo que nos cause «obsessão», enquanto somos principiantes, vai-nos distrair, e deve ser abandonado. Quando estivermos muito estáveis de forma a que essas «obsessões» não nos distraiam, então podemos praticá-las à vontade. Mas a maioria de nós andará «distraída» durante muitas décadas! Então mais vale ser-se sincero connosco próprios e abandonar tudo o que nos distraia.

    Diz-se justamente que ser-se eremita é a forma mais fácil de se praticar budismo — porque não há distracções. Só estamos lá nós e a nossa mente. Sem mais preocupações. Não há nada que nos incomode! A segunda forma mais fácil é ser-se monge: estamos numa comunidade que não tem outro objectivo senão praticar, e não nos precisamos de preocupar com comida, roupa, emprego, vida familiar... tratam-nos de tudo, para que possamos praticar em paz. Mas a vida de monge é mais difícil do que a de eremita: temos de lidar com outras pessoas no dia-a-dia, e vão surgir invejas e rivalidades, etc. É, pois, mais difícil ser-se monge que eremita. Mais difícil que tudo isso é ter-se uma vida familiar mundana, com emprego, crianças, e as preocupações de dinheiro. Há tantas distracções! É muito mais complicado então praticar como deve ser. Mas lá porque seja «difícil» não quer dizer que seja «proibido»! Pelo contrário: entre os maiores professores de toda a história, contam-se imensos governantes e homens de negócio com vastas famílias — porque lhes era tão complicado praticar, quando o conseguiram fazer, tiveram enormes avanços na sua prática. Os maiores desafios são por vezes bons catalizadores. Mas também é verdade que a prática de um eremita é diferente da dum monge, que por sua vez é diferente da de uma pessoa que viva com a sua família: são pessoas diferentes, logo, têm práticas diferentes.

    Bom. Dito isto, porque é que há, de facto, alguns professores budistas que parece darem a entender que a homossexualidade é contraditória ao budismo?

    A questão fundamental aqui tem a ver com a essência da forma como o budismo é propagado: através do exemplo. Ou seja, ao contrário de muitas religiões, filosofias, e métodos de auto-ajuda, o Budismo não é proselitista. Não se anda por aí com imagens do Buda e uns livrinhos a bater à porta das pessoas e a perguntar se querem vir a um templo :) (isso, na realidade, é estritamente proibido). Em vez disso, os praticantes são encorajados a dar o exemplo: a integrarem-se na sua comunidade, em mostrarem-se disponíveis a ajudar os outros, sendo simpáticos, mas também calmos e despreocupados, brincalhões e bem dispostos. Um professor meu dizia-me sempre: «Desconfia de uma pessoa que diz ser budista e que está sempre com um ar sério, distante, mal-humorado. Como pode um caminho para a felicidade fazer pessoas que estejam sempre sérias?» Os Budistas devem ser bem dispostos e alegres, senão, não estão a fazer bem a sua prática! (Ou andam a ler demais e a praticar pouco...)

    Ora, devido a estigmas sociais, preconceitos, e mentalidades, alguém que pareça muito diferente do resto da comunidade, nos seus actos quotidianos, pode causar aversão. Ou seja: no limite extremo, um Budista pode dispensar completamente a roupa — estar vestido ou não vestido não tem nada a ver com a experiência interior que tenha. Mas se for ensinar a principiantes estando completamente nu, os alunos podem achar que não é uma pessoa séria e digna de ser escutada. Assim, um verdadeiro praticante pode estar-se completamente nas tintas para a roupa que usa, mas, para não chocar ninguém e mostrar-se integrado na sociedade, mostrando também que respeita os costumes e tradições da sociedade a que pertence, usará roupa comum que não choque ninguém. Afinal de contas, se estar vestido ou nu é a mesma coisa... porque não andar vestido? Se o objectivo é efectivamente ajudar o maior número de pessoas, o que é mais funcional? Dar aulas nu ou dar aulas vestido? O critério da funcionalidade — aquilo que vai efectivamente beneficiar mais pessoas — é central no Budismo.

    Uma monja americana muito famosa é conhecida por se arranjar muito bem antes de dar aulas aos alunos — maquilhagem, brincos, vestidos bonitos, cabelo bem arranjado. Perguntam-lhe muito frequentemente se isso não são tudo actos de vaidade, impróprios para uma monja. Ao que ela responde que, do ponto de vista dela, andar arranjada, ou careca com um pano vermelho ou açafrão, é a mesma coisa. Mas para os seus alunos, a distracção causada pelo «exotismo» de uma mulher careca num pano dobrado é grande demais. Em compensação, ela não tem problema algum em inserir-se nos costumes da sua sociedade, que valoriza quem se dá ao trabalho de ter uma boa apresentação para dar aulas. É muito mais funcional. Quebra-se uma barreira — um professor que seja demasiado «exótico», demasiado estranho, é difícil de seguir. Pensamos logo: «é impossível ser budista, pois eu não posso andar assim na rua, gozavam comigo». Um bom professor saberá, pois, qual a forma mais adequada para se apresentar aos seus alunos de forma a não os chocar, mas, em vez disso, de forma a dar um bom exemplo que eles se sintam encorajados a seguir.

    Ora infelizmente, 90% da população não é LGBT. Assim, um professor budista que exprima abertamente a sua orientação LGBT vai chocar esses 90% de pessoas. Claro que 10% o aceitarão, mas porque é que um professor budista se deve limitar a apenas ajudar uns poucos, quando pode ajudar todos? Assim, um professor budista que também seja LGBT, quando estiver em público a ensinar os preciosos ensinamentos de Siddhartha, vai evitar andar aos beijinhos ao namorado/a — seja heterossexual, seja bissexual, seja o que for. Se for transgénero, vai evitar chocar a audiência vestindo roupas de outro género. Se for sadomasoquista, deixará o chicote em casa! Isto não tem absolutamente nada a ver com uma «condenação» LGBT, ou de quaisquer práticas sexuais, ou de qualquer orientação de género — tem pura e simplesmente a ver com o adoptar de uma atitude que beneficie o maior número de pessoas, não as chocando, respeitando mesmo os preconceitos dessas pessoas — pelo menos numa fase inicial, em que os alunos são ainda muito principiantes e têm mentes muito fechadas.

    Claro que existem comunidades de budistas estritamente LGBT. Nestas, evidentemente, os professores exprimem abertamente a sua condição, sem reservas — porque estão a falar para uma audiência que não é «chocada» com a orientação LGBT, pelo contrário, estão à espera que um bom professor budista, que se dirija a uma audiência LGBT, seja ele ou ela próprio também membro dessa comunidade (ou, se não for, que seja abertamente tolerante e encorajador).

    Mas unicamente com o objectivo de não chocar aqueles que não são LGBT, se alguma vez formos convidados a ensinar em público, devemos ser reservados quanto à nossa orientação, estilo de vida, etc. Isto não tem nada a ver com uma «condenação»; tem a ver, única e exclusivamente, com o reconhecimento daquilo que é mais funcional para todas as pessoas.

    Em comunidades de praticantes budistas LGBT obviamente que esta «restrição» não se aplica: os professores LGBT, quando se dirigem a uma audiência LGBT, são muito abertos quanto à sua condição ou orientação. Ver, por exemplo, http://mybuddhaispink.blogspot.pt/

    É também muito importante não se usar as palavras «condenação» (ou, pior, «pecado», como infelizmente fazem tantos budistas...) quando se referem a coisas relacionadas com Budismo. O Budismo não «condena» ninguém. O objectivo é ajudar todas as pessoas a serem felizes, não a «condená-las». Podem, isso sim, haver regras para atingir essa felicidade. Uma delas, por exemplo, é abrandar a obsessão com o sexo. Não quer isto dizer que os budistas tenham de ser todos abstinentes sexuais! Mas quer dizer, isso sim, que se a preocupação com o sexo for uma coisa que não nos deixa sequer descansar, então essa obsessão está a criar-nos insatisfação e infelicidade constantes. Recomendar uma conduta sexual moderada não é «condenar o sexo»; é apenas apontar um problema que nos está a fazer sofrer.

    Há imensos exemplos de grandes mestres budistas que tiveram justamente quantidades incríveis de sexo com tudo o que lhes aparecia pela frente :-) Mas, lá está: não andavam obcecados com a ideia de terem sexo o tempo todo. Logo, desfrutavam plenamente do sexo que tinham (e com quem tinham), sem estarem obcecados — afinal de contas, é quando não estamos obcecados com uma coisa que mais a aproveitamos! Mas entender isto não é fácil...

    O Forbidden escreveu:

    Responder
    Nao ha o conceito de pecado, mas ha o conceito de evoluçao espiritual, ha uns que sao mais elevados espiritualmente, e esses seres elevados (como o dalai lama e outros monges) nao fazem estas coisas de sexo anall ou sexo entre homens, pois consideram isso inferior. Em termos praticos, vai dar ao mesmo que a posiçao da Igreja Crista.


    Em primeiro lugar, ninguém sabe quem é que é «mais elevado espiritualmente». Visto de fora, Siddhartha era um ser humano perfeitamente vulgar (e passou a juventude a ter sexo com um harém inteiro, para além de ter sido casado com filhos :) ). Se fizerem uma análise de sangue ou de DNA ao Dalai Lama, ou mesmo uma ressonância magnética, vão ver que ele não é mais «evoluído» que ninguém :)

    Também não há um «ranking» no Budismo, tal como existe, por exemplo, em hierarquias religiosas. Isto faz por vezes muita confusão a quem vai a um templo e vê que quem está a orientar uma sessão de meditação não é um professor, cheio de parafernálias e coroas e jóias, mas um simples e vulgar aluno como os outros. Acontece com frequência. Se o professor acha que o aluno já aprendeu o suficiente para estar seguro na sua prática e ser capaz de orientar outras pessoas que estão a começar, então é normal que peça ao aluno para fazer isso. Isto não quer dizer que esse aluno seja «mais elevado espiritualmente». Quer apenas dizer que praticou mais, ou com mais diligência, e que, graças a isso, o professor nota alguns resultados dessa prática. E ao notar esses sinais, pede-lhe que seja este a orientar outros — para que lhes sirva de exemplo.

    Os sinais são simples (nada de mágico!) — uma certa felicidade espontânea interior, descontracção, boa disposição, capacidade de moderar conflitos em vez de os piorar, tranquilidade, sentido de humor, coisas simples assim.

    A maior parte das pessoas que vê o Dalai Lama não esconde um sorriso. Especialmente quando ele se mete a brincar com as pessoas à sua volta. Todos os professores que conheci sempre foram assim. Serão «mais evoluídos espiritualmente»? Eu não sei! Sei, isso sim, que colocaram em prática os métodos que me ensinam, e que, devido a isso, são pessoas mais felizes, contentes, bem-dispostas, com poucas preocupações.

    Metade dos meus professores são casados e têm filhos. Um vai já no segundo casamento. Tenho a certeza que têm muito e bom sexo :) mas claro que não ando a espreitar o que fazem com as companheiras na cama! Dois dos meus professores são monges celibatários. São tão felizes e contentes e descontraídos e brincalhões como os que são pais de família. E um, apesar de não ser monge, de ter sido casado, e (penso) ter uma companheira, é celibatário por opção. Mas não «desdenha» o sexo.

    Ou seja...

    Ter ou não sexo é completamente irrelevante para se ser um bom praticante. Tanto é feliz aquele que tem sexo como aquele que não tem. Do ponto de vista externo, nas qualidades que revejo nos meus professores — as mesmas que revejo no Dalai Lama — o facto de terem bem mais sexo do que eu, ou nunca terem tido sexo na vida, é completamente irrelevante. O importante aqui é a forma como o sexo «atrapalha» a nossa prática. Se não for um obstáculo — se não houver, lá está, a tal obsessão constante com sexo, que nos distrai do que é essencial — então não há qualquer problema.

    O sexo trás sem dúvidas felicidade, mesmo que seja temporária :) Como poderia um caminho para a felicidade impedir que as pessoas tenham sexo se isso as fizer felizes? O que o Budismo lhes ensina é que não é com sexo constante que vamos deixar de nos sentir insatisfeitos. Desde que compreendamos isso perfeitamente, não precisamos de nos «abster» das coisas que nos fazem felizes. Não podemos é deixarmo-nos enganar, pensando que são essas as coisas fundamentais para a nossa felicidade última!

    Kareem perguntou:
    {quote]Existe inferno budista?[/quote]

    O meu principal professor, quando começa a dar aulas a alunos novos, costuma começar dizendo: «Desiluda-se quem venha para aqui vindo da religião católica, fugindo do medo do inferno, e pensando que no Budismo não há inferno. Errado! Pelo contrário, no Budismo há pelo menos dezoito tipos de infernos! A vantagem é que, como tudo o resto no universo, são temporários. A desvantagem é que, enquanto por lá estivermos, os sofrimentos são bem piores que os sofrimentos do inferno cristão!»

    A questão mais importante é compreender que a existência (ou não) do inferno só depende da nossa mente. Para imensas pessoas, esta vida é já literalmente um inferno — para elas, tudo é sofrimento constante, todas as pessoas são suas inimigas, o mundo está todo contra elas. Quantos de nós não conhecemos gente assim? É isso o que é um inferno, e que é bem real para essas pessoas — embora para nós, normalmente, as coisas não sejam vistas da mesma forma.

    A discussão se o inferno «existe mesmo» é explicada, de forma ambígua, dizendo que tem exactamente a mesma existência física do universo que nos rodeia. Afinal de contas, também acreditamos que as coisas à nossa volta (e nós próprios!) «existem mesmo», por si só. Mas isso é uma falácia, as coisas existem apenas em dependência umas das outras (nomeadamente, em dependência da mente que observa).

    Assim, a resposta budista a esta questão pode parecer ambígua. Sim, existe(m) inferno(s), que são tão reais para nós como o mundo que nos rodeia o aparenta ser. Nesse(s) inferno(s) haverá tanto sofrimento e insatisfação «reais» tal como o sofrimento e a insatisfação são «reais» para nós neste mundo. As boas notícias são que não existe uma entidade externa que nos «condena» ao inferno, seja lá o que isso for: apenas a nossa mente, devido às suas tendências habituais, irá causar a continuação num «inferno». Mais ninguém ou nenhuma coisa influencia o que nos vai acontecer senão a nossa própria mente. Não há uma assembleia de Budas que «decide» quem vai para aqui ou para ali (ou quem não vai para lado nenhum, ou seja, que se liberta deste ciclo). Só nós é que temos o poder, nas nossas mentes, por decisão nossa, de decidir o que nos vai acontecer. A principal prática de todos os Budistas é a de se preparem para esse momento de decisão: quando ocorrer a morte física do corpo, quanto mais tranquilos e pacíficos estivermos — porque passámos uma vida toda a fazer o melhor possível pelos outros e a eliminar as nossas causas de sofrimento e satisfação — maior a probabilidade de irmos ficar num estado calmo, tranquilo e pacífico. Não é só o momento de morte que determina tudo; mas é essencialmente a preparação que fizémos durante toda a nossa vida para enfrentarmos esse momento de morte com lucidez e tranquilidade. Isso não se consegue nos últimos segundos de vida, se nunca praticámos: é tarde demais. Seria como alguém querer aprender a nadar para não se afogar, imediatamente no momento em que é largado no meio da água! Em contraste, alguém que tenha praticado natação a vida toda, se estiver num barco a afundar-se, como tem perfeita consciência de que é um bom nadador, poderá salvar-se com facilidade, porque está perfeitamente à vontade a nadar.

    O Kaiser também apontou a segunda vantagem: é que nada disto é permanente. Nem a nossa vida durará para sempre, nem uma «visita» pelos infernos — seja lá o que forem — durará para sempre. Eventualmente tudo terminará. Do ponto de vista budista, mais cedo ou mais tarde todos nós nos haveremos de «libertar» deste ciclo de vida. A única questão é quando. Enquanto não fizermos nenhum esforço para isso, vamos continuar em permanente insatisfação, seja neste mundo, seja noutro qualquer.

    De notar que a visão de um Céu e Inferno cristãos/muçulmanos não é «incompatível» com a filosofia budista. Se, no momento da morte, a nossa mente realmente acreditar que vêm uns anjinhos buscar-nos para levar-nos para um Paraíso Celeste, então, tal como num sonho, essa passará a ser a nossa realidade. O que o Budismo diz é que essa realidade é temporária, não eterna. E vai chegar a um ponto em que a vida nesse Paraíso Celeste, sempre a tocar harpa e a louvar um deus qualquer que habite nesse espaço, vai-nos dar cabo do juízo — vamos sentir insatisfação. Esse é o ponto essencialmente diferente da doutrina.

    Convinha também esclarecer que no Budismo não há «crenças». As «crenças» em nada nos ajudam no nosso caminho, excepto num aspecto: inicialmente é conveniente «acreditar» que um determinado professor só tenha o nosso bem-estar em mente e que nos ensine certas técnicas para que melhoremos a nossa condição (e eventualmente a dos outros também). Isso é a única coisa em que um budista «acredita» — mas apenas numa fase inicial. Depois aplicar-se-á nessas mesmas práticas e deverá analisar criticamente os resultados, e perguntar-se sempre: isto está a funcionar ou não? Estou a tornar-me numa pessoa melhor? Estou a ficar menos afectado pelas coisas que me incomodam, pelas pessoas que me irritam? Estou menos deprimido e mais contente? Se não estou, porquê? É porque a técnica não presta? O professor não sabe ensinar? Ou não estou a praticar como deve ser? Todas estas questões devem ser racionalmente analizadas e temos de chegar às nossas próprias respostas, com a convicção da experiência pessoal em determinadas técnicas para que saibamos que realmente funcionam, não porque «acreditamos» que funcionam, mas porque as experimentámos e sabemos que assim é.

    Tal como o nadador profissional inicialmente «acredita» no seu treinador de que certas técnicas o levam a nadar melhor, e, «acreditando» no treinador, começam a praticar natação de acordo com essas técnicas. Uma vez começando a ver resultados, deixam de precisar de «acreditar» no treinador. Sabem que as técnicas de natação funcionam porque as experimentaram e viram os resultados. A partir desse momento têm uma confiança inabalável no treinador — não porque o treinador seja muito simpático, ou porque «acreditem» muito nele, mas sim porque experimentaram as suas técnicas e sabem que funcionam porque viram os resultados.

    O Budismo é todo assim. Não há espaço para «crenças». Nem sequer há espaço para dizer «gosto muito do Dalai Lama, por isso vou acreditar cegamente no que ele me diz, pois se ele é o Dalai Lama, deve saber o que anda a fazer». Isto é completamente errado e não conduz a resultados nenhuns! Em vez disso, assumindo que o Dalai Lama é uma inspiração, devemos, isso sim, perguntar: Será que ele é mesmo assim, simpático, calmo, divertido, bem-disposto o tempo todo? Ou estará a fingir? Assumindo que ele é mesmo assim, será que eu também quero ser uma pessoa simpática, calma, divertida e bem-disposta? Que técnica é que ele usou para isso? Posso aprender? Se colocar essa técnica em prática, começo realmente a ficar mais simpática, calma, divertida e bem-disposta? Se sim, então prossigo nessa técnica — mas já não preciso de «acreditar» em nada, pois sei que funciona. Se não, talvez esteja a usar a técnica errada, ou a aplicá-la mal, e aconselho-me com os professores em quem confio para que me expliquem melhor.

    Há, isso sim, uma noção de «confiança», mas é uma confiança que vem da experimentação e da prática — tal como no nadador que confia no seu treinador. Ou, se preferirem, é a mesma «confiança» que um cientista tem que a Teoria da Relatividade Geral está correcta, porque a pode validar e verificar sempre que quiser (não precisa de «acreditar» em Einstein: pode reproduzir em laboratório qualquer das experiências que validem qualquer teoria, por si próprio, e ganhar confiança de que a teoria está correcta).

    Citação de: Forbidden
    No fundo, o Budismo e contra a sexualidade no geral, assim como a Igreja Catolica, nao ha diferença nenhuma na pratica, apenas nos motivos.


    Nada disso, antes bem pelo contrário!

    A sexualidade, para o budismo, faz parte da experiência humana. Sem sexo não há reprodução (e note-se que não afirmei o contrário!), e se não houverem mais seres humanos, não há pessoas que possam praticar :) É uma redução ao absurdo, mas significa isto que o Budismo não pode «condenar» o sexo — seria absurdo fazê-lo, não tem lógica. Seria como dizer, «respirar faz mal»!

    Depois, como referi, há imensas escolas budistas com abordagens e técnicas muito diferentes. Para certas pessoas, a sexualidade é a obsessão que conduz as suas vidas: em nada mais conseguem pensar do que na próxima relação sexual. Ora isto quer invariavelmente dizer que as relações sexuais nunca serão uma fonte de satisfação permanente. No momento em que temos prazer, é fabuloso; no resto do tempo, não andamos a pensar noutra coisa que não no sexo, e sentimo-nos insatisfeitos enquanto não arranjarmos outra experiência sexual. Isto significa que passamos a vida toda a desejar ter sexo e que, quando finalmente o obtemos, temos um momento de prazer... para se seguir imediatamente a seguir longos períodos de desejo de mais um momento de prazer. É frustrante.

    Em vez disso, algumas escolas budistas propõe que não se considere essa obsessão com o sexo como tão importante. Em vez disso, treinamo-nos para erradicar completamente a insatisfação das nossas mentes. Há milhares de técnicas para o fazer, mas, no fundo, todas elas vão fazer com que possamos aproveitar ao máximo o prazer sexual quando este ocorre, mas sem ficarmos obcecados com a ideia de termos sempre de ter sexo para estarmos satisfeitos e contentes. O budismo é um Caminho para a Felicidade: se o sexo nos dá prazer e nos torna felizes, não faz sentido acabar com uma coisa que nos dá prazer! O que o budismo faz é ensinar-nos a lidar com os momentos em que não temos sexo, e, consequentemente, andamos frustrados porque não conseguimos pensar noutra coisa senão na próxima experiência sexual.

    Nas escolas do budismo tântrico ou esotérico (nota: «tantra» apenas significa «teia», não tem nada a ver com experiência sexual; isso é uma conotação que o Ocidente dá a essa palavra em sânscrito. E «teia» neste contexto significa que, tal como numa teia, está tudo interligado por causas e efeitos) a experiência sexual está no cerne das práticas mais avançadas. Isto seria terrivelmente chocante para qualquer cristão, judeu ou muçulmano (por mais tolerante que fosse relativamente ao sexo). Não tenho experiência alguma nesse tipo de práticas pelo que não posso falar delas, mas posso pelo menos dizer que nalgumas escolas não há outra forma de atingir um estado final de libertação do ciclo da vida sem passar pela prática sexual. No entanto, posso dizer que nada tem a ver com o sexo obsessivo recheado de apego, de desejo prazenteiro, de ciúmes, de inveja, de frustração, de insatisfação. Enquanto um praticante estiver à mercê de todos esses sentimentos, ainda não pode praticar de acordo com essas instruções. E, claro, o parceiro sexual dessas práticas também deverá estar ao mesmo nível de treino que nós.

    Bem sei que isto é muito esquisito de imaginar — sexo como prática espiritual! — mas posso dizer desde já que não é absolutamente nada do que possam estar a pensar. O maior praticante vivo dessas práticas avançadas tem um pouco mais de cem anos de idade :) mas isso não quer dizer que não continue a ter sexo com alguma regularidade, com praticantes ao mesmo nível que ele (e com quase a mesma idade). Antes de começarem a torcer o nariz de nojo, apenas dou este exemplo para explicar que o Budismo não condena nada o sexo — pelo contrário, os praticantes destas escolas muito avançadas praticam sexo como forma de meditação (e sim, com orgasmos controlados) até morrerem de velhos :)

    Claro que a maior parte das escolas correntes não ensina este tipo de práticas a qualquer um. E escusam de perguntar a um professor destas escolas se vos ensinam essas práticas sexuais; vão sempre dizer que não. Porquê? Porque sabem que qualquer principiante ainda não praticou o suficiente para se ver livre do desejo obsessivo por sexo, e este é um obstáculo à prática (pensamos mais em sexo do que em praticar para sermos boas pessoas!). Só ao fim de muitas décadas de prática, em que a mente está mais calma, menos afectada por esses desejos obsessivos que só nos causam frustração e insatisfação, é que vale a pena começar com técnicas mais avançadas. Mas são os próprios professores que sabem avaliar quando os alunos estão preparados para isso; é inútil (e pode ser mesmo prejudicial!) começá-las «antes do tempo», pois não servirão de nada.

    O karma no Budismo

    Talvez seja melhor deixar umas palavrinhas sobre esta palavra karma, tão mal entendida fora de contexto. Karma, em sânscrito, quer dizer acção — e mais nada que isso. Não quer dizer nem «destino» nem «premeditação». Não é algo que exista «misticamente» de forma sobrenatural «algures» por aí. Não é uma coisa «inevitável». Não nos é «imposta» por terceiros.

    Karma pode ser entendido simplesmente como a Lei de Causa e Efeito que existe no universo, e que se aplica a nós também: todas as nossas acções têm consequências, positivas, negativas, ou neutras. Se agarrarmos numa faca e cortarmos um dedo, sangra e dói. Isso é karma. Não quer dizer que houve um demónio malévolo que de repente nos queira ver a sofrer, quando cortamos o dedo com a faca! É da natureza da faca ter uma lâmina afiada que corta; é da natureza do dedo poder ser cortado por uma lâmina afiada; quando juntamos as duas coisas, cortamos o dedo. Parece absurdamente simples? E é: karma é só isto — a acção de cortar um dedo com uma faca tem como efeito um dedo cortado, que sangra e dói.

    Isto parece óbvio, mas deixa de o ser quando pensarmos que todas as acções têm consequências, não apenas aquelas que são «óbvias». Por exemplo, se embirrarmos com alguém porque nos está a chatear, mais cedo ou mais tarde essa pessoa irrita-se connosco, e pode-nos dar um tabefe. Isto é a consequência de embirrarmos com essa pessoa. Se não a andássemos a chatear o tempo todo, ela não nos iria bater. Ora a maior parte das pessoas dirá, «eu não tenho culpa, o outro gajo é que é um chato, tenho que embirrar com ele». Isso é esquecer a Lei de Causa e Efeito, e atirar com as culpas para fora de nós é um erro fatal. Porque enquanto estivermos consciente que é a nossa mente que determina tudo, então saberemos agir de acordo com a Lei de Causa e Efeito, e obter o efeito desejado apenas mudando conscientemente a causa. Isto, sim, é que significa ter o «karma» presente na nossa mente e agir de acordo com este.

    Vamos a um exemplo concreto. O tal tipo continua a chatear-nos. A nossa tendência habitual é embirrar com ele. Mas isto vai ter a consequência dele nos bater depois — é a tendência habitual dessa pessoa: se embirrarmos com ela, ela torna-se agressiva. Ora, prestando atenção e reconhecendo isto de antemão, podemos pensar: «este gajo é um chato, mas se eu não embirrar com ele [remover a causa], ele não me vai bater depois [efeito que não se produz]». Ou seja, quem toma a decisão de criar as causas ou de as remover somos nós. Não é o «universo»; não é «o destino»; e de certeza que não é nenhum deus, Buda, demónio, entidade sobrenatural, ou qualquer coisa assim.

    Quando os Budistas falam de coisas como «purificar o karma» o que querem dizer é precisamente isto: reconhecer as causas daquilo que nos vai criar insatisfação, frustração, infelicidade, sofrimento, e evitá-las ou removê-las. Esta é a prática budista na sua essência. A um nível inicial, o que se treina é prestar atenção (para identificarmos as causas em todas as situações que nos ocorrem) e aplicar antídotos (para evitar as causas de coisas que não pretendemos que nos aconteçam, e criar as causas daquilo que é benéfico para nós e para os outros). Mais tarde, reconhecemos que todas estas causas das coisas desagradáveis que nos acontecem se podem restringir a uma única causa, e, uma vez que a erradiquemos, nunca mais estamos sujeito a coisas desagradáveis :) Mas lá chegar requer muita prática nestas técnicas. As boas notícias é que é perfeitamente possível de lá chegar (sim, há muita gente que o conseguiu fazer) e que a técnica para isso é perfeitamente acessível (leva tempo e dá trabalho, mas não é algo que requeira «talento» ou qualquer característica especial, qualquer pessoa pode fazer isso) e reprodutível (há literalmente milhares de anos que há pessoas que seguiram estas técnicas e que chegaram aos mesmos resultados).

    Ou seja, ao contrário do Hinduismo, para os quais a palavra «karma» tem um significado completamente diferente (é uma «coisa exterior»), e que o Ocidente identifica com «destino», «fatalismo», ou «predestinação», no Budismo nada disso existe. O karma está completamente sob controlo da nossa mente. Somos nós que somos os únicos responsáveis pelas nossas acções e consequências. Não há «bodes expiatórios»; não há interferência dos outros nas nossas acções; só nós é que ditamos o que nos acontece em consequência do que fazemos.

    Podemos, isso sim, dizer que as outras pessoas são condições para que surjam certas causas, mas isso não quer dizer que a responsabilidade seja delas! No tal exemplo do gajo chato, o facto de ele estar presente pode induzir-nos a aborrecê-lo. Se ele estiver ausente, nada nos aborrece. Mas quem se aborrece somos nós; quem embirra com o gajo chato somos nós; mais importante do que isso: quem o considera chato é a nossa mente (e mais nada nem ninguém). Logo, a acção que tomamos nesta situação — embirrar com ele ou ser simpático com ele — só depende da nossa vontade. Agora, qualquer que seja a acção, esta terá consequências. Se simplesmente o evitarmos, isto é uma acção neutra — nem nos prejudicamos, nem o prejudicamos a ele. Se embirrarmos com ele, a consequência é negativa: ele torna-se agressivo, e prejudica-nos a nós (mas também ele foi prejudicado pois ficou chateado connosco). Se em vez disso formos simpáticos com ele — mesmo sabendo que ele é um chato do caraças! — então estamos a beneficiá-lo (ele fica contente porque estamos a ser simpáticos em vez de embirrentos), mas também a nós, porque vamos evitar que ele se torne violento e agressivo connosco. Pode ser que a sua surpresa seja tanta que seja também simpático connosco, e assim saímos ambos a ganhar! Mas o importante é que evitámos a tendência habitual de embirrar com ele, e, ao fazê-lo, estamos a mudar o karma — estamos a mudar o efeito habitual causado pelas nossas acções.

    Dir-me-ão que é muito difícil fazer isto: quando alguém nos irrita, não nos conseguimos controlar, e vamos sempre responder da mesma maneira. Pois é. É isto que se chamam respostas condicionadas; os budistas falam de tendências habituais. Passámos tantos anos a «responder da mesma maneira» que o fazemos automaticamente, sem pensar — sem pensar sequer nas consequências. E fazêmo-lo assim porque foi assim que aprendemos — com os pais, com os amigos, com os colegas. «Toda a gente» faz o mesmo, pelo que imitamos o seu comportamento, e adoptamo-lo para nós também. Mas depois ficamos sempre surpreendidos quando embirramos com alguém e essa pessoa nos agride. Pensamos que, de alguma forma, da próxima vez vai ser diferente! Ora o que nos diz a Lei da Causa e Efeito é que as mesmas causas vão gerar os mesmos efeitos. Embirrar com pessoas que ficam agressivas vai, justamente, torná-las agressivas: não é «de repente» que as coisas vão ser diferentes! Assim, em vez de mudarmos o universo para se adaptar àquilo que pretendemos, mudamo-nos a nós: passamos a criar novas causas, que vão contra as nossas tendências habituais. Isto é o que vulgarmente se chama livre arbítrio: a capacidade que temos de tomar decisões, mesmo contra as nossas tendências habituais, que, por condicionamento, nos «obrigam» a reagir de certa forma.

    Mas a verdade é que não há nada nem ninguém que nos «obrigue». Temos essa ilusão porque passámos a vida toda sempre a fazer a mesma coisa, e isto acontece «por impulso». Na realidade acontece «por treino», tal como alguém que tenha treinado natação, uma vez estando na água, consegue nadar imediatamente sem precisar de pensar muito no assunto.

    Podemos obviamente libertarmo-nos desses condicionamentos mas... não estou a dizer que seja fácil, porque não é! Na maior parte dos casos nem sequer nos apercebemos de que são «condicionamentos»! Dizemos coisas, à laia de desculpa, como: «sou mesmo assim» ou «é da natureza humana reagir assim» ou ainda «até nem lhe queria bater, mas é mais forte do que eu» ou mesmo «quando as emoções surgem, são mais fortes que a mente, ninguém consegue ultrapassar a força das emoções e sentimentos, isso é impossível». Nada disto é verdade, mas «acreditamos» que é — porque passamos a vida toda a «acreditar» nisso e a comportarmo-nos como se fosse mesmo verdade.

    O que as técnicas budistas nos permitem é aprender a prestar atenção e a questionar estas «verdades» e ver se é mesmo assim. E como um budista é sempre céptico relativamente a tudo, a primeira coisa a que aprende a ser céptico é relativamente a si próprio: será que eu «sou mesmo assim»? Será que sou «obrigado» a agir de acordo com os meus condicionamentos? Quem me condicionou? Quem me «obriga» a fazer isto e não aquilo? Quando finalmente chegamos a uma resposta — de que não há nada nem ninguém que nos ande a «forçar» a reagir de determinada forma, mas que podemos, de livre vontade, reagir da forma que for mais funcional em cada momento — então já demos um enorme passo na nossa prática. E posso dizer por experiência própria que a primeira vez que isto acontece é uma experiência muito estranha. Geralmente ocorre no meio de uma discussão, em que estamos preparados para irritar ainda mais a outra pessoa dizendo-lhe uma coisa desagradável... mas que subitamente nos apercebemos do que estamos a dizer e fazer... e por um breve momento interrogamo-nos: «porque é que eu tenho de responder assim? porque é que não posso em vez disso ficar calado? porque é que a minha raiva me força a berrar ainda mais alto?» Isto às vezes é o suficiente para parar uma discussão! E da próxima vez será mais fácil identificar esse momento preciso e tirar partido dele para evitar a discussão desde o início.

    De notar que os budistas não são apáticos. São calmos e funcionais — uma coisa completamente diferente. Um budista que vê uma criancinha a atravessar uma rua fora da passadeira vai imediatamente dar-lhe um berro para que ela saia da estrada. Não vai ficar apático e letárgico à espera que a criança seja atropelada. Pelo contrário: pelo facto de se estar a treinar a prestar atenção às coisas, poderá até reparar no perigo muito mais cedo do que uma pessoa que não esteja treinada a prestar atenção. E, devido ao treino, poderá saber exactamente o que é mais funcional — naquele momento, dar um berro à criancinha é muito mais funcional do que lhe estar tranquilamente a contar uma história sobre os perigos da rua!

    Citação de: Kaiser
    qualquer coisa no budismo é um obstaculo para o nirvana, mas impedir as pessoas de fazerem o que gostam e querem danifica o karma, coisa que atrapalha o processo de atingir o nirvana como um todo.


    Isto é uma forma um pouco deturpada de ver o budismo :)

    «Qualquer coisa» pode ser tanto um obstáculo, como uma forma de progredir — tudo depende da mente do praticante. Por exemplo, todas as escolas budistas praticam atenção. Mas atenção a quê? Normalmente presta-se atenção ao que a mente está a fazer. Externamente, as outras pessoas chamam a isto «meditação». Mas não quer dizer que a única maneira de meditar seja de pernas cruzadas no chão a olhar para uma parede. Na realidade, isto não é muito funcional. Se ocorrer uma situação para a qual temos de dar uma resposta imediata — tipo o nosso patrão irritar-se connosco — não podemos dizer: «Com licença, agora tenho de me sentar no chão um bocadinho para meditar.» Seria ridículo e pouco funcional!

    Em vez disso, o que os principiantes fazem no início é realmente arranjar um local mais ou menos sossegado, com poucas distracções (porque, a início, tudo nos distrai — tudo parecem ser obstáculos!) e sentam-se confortavelmente a seguir as instruções que o ajudam a prestar atenção ao que a mente anda a fazer. Mas logo que ganhem experiência, o objectivo é colocar isso em prática no dia-a-dia. Por exemplo, se estamos a treinar a prestar atenção às nossas reacções condicionadas pela raiva, então a melhor forma de colocar em prática o nosso treino é interagirmos com outras pessoas, especialmente aquelas que nos podem irritar mais. Só assim podemos realmente prestar atenção como deve ser! Nesse caso, as outras pessoas — e a própria raiva que sentimos! — não são «obstáculos»: são auxiliares que nos ajudam a identificar aquilo que estamos a treinar.

    Assim, o sexo, por si só, não é nenhum «obstáculo». Só é um obstáculo se nos distrair da nossa prática de atenção! Mas se, pelo contrário, estivermos constantemente a prestar atenção à nossa mente durante todo o acto sexual, então estamos a meditar, mesmo que não pareça! Isto é muito complicado de perceber para alguém que não seja um praticante com muita experiência, pois parece que realmente haverão tantas distracções no sexo que não vamos conseguir prestar grande atenção a nada. Por isso é que não se começa por aí :) Ao fim de uns anos, aprende-se a meditar enquanto se está a andar e a comer. Depois vai-se treinando também a meditação enquanto se conversa com outras pessoas — o que vai ser já muito útil, pois pelo menos podemos prestar atenção ao que vamos dizer, e dizer aquilo que seja mais benéfico para nós e para os outros. Um praticante muito experiente até consegue estar atento à sua mente enquanto dorme (sério).

    Mas a início claro que isto é tudo muito difícil, e por isso é que se começa com o mínimo de distracções possíveis. É por isso que estas distracções, a início, são «obstáculos». Mas a dada altura passam a ser objectos de estudo — qualquer coisa serve também para prestarmos atenção. Em certa medida, usando as vossas palavras, a dada altura «qualquer coisa» serve para prestarmos atenção, logo, «qualquer coisa» avança-nos na direcção do nirvana; mas isso não é para principiantes que não conseguem ficar sentados quietos a prestar atenção à sua mente mais do que uns minutos de cada vez :)

    A propósito, também convém explicar o que querem dizer estas palavras, «nirvana» e «samsara». «Samsara» quer apenas dizer «ciclo de existências condicionadas». Significa isto que, enquanto estivermos a reagir de forma condicionada, sem prestar atenção, e sem estar a evitar as causas daquilo que nos frusta e nos trás insatisfação, «estamos em samsara». No momento em que deixemos de ser uma espécie de robots que só reage de forma condicionada — mas em que nos libertamos dos condicionamentos das nossas próprias emoções: sentimos todas as emoções com a mesma intensidade que qualquer outra pessoa (ou talvez mesmo mais, por estarmos constantemente a prestar atenção às emoções que surgem!), mas não somos «condicionados» a portarmo-nos da maneira X ou Y — então «estamos no nirvana». O nirvana é um estado em que uma pessoa está quando não é condicionada por absolutamente nada e está em pleno controle de todas as suas acções, sabendo perfeitamente o que é benéfico para si e para os outros (e adoptando essas acções) e o que que é prejudicial para si e para os outros (e evitando essas acções).

    Sim, isto quer dizer que há muitos budistas que andam por aí e que «estão no nirvana». Fisicamente não foram para lado nenhum! Mas a sua mente deixou de ser condicionada pelas suas emoções e tendências habituais, apenas pelo treino que fizeram. E é muito provável que esses praticantes avançados tenham vidas familiares perfeitamente vulgares, tenham sexo com os(as) companheiros(as), tenham filhos, um emprego, vão ao cinema, metem-se nos copos e vão a festas — não quer dizer, de todo, que tenham de viver num mosteiro ou numa caverna! Aliás, historicamente, são os praticantes que vivem vidas perfeitamente normais na sociedade mundana que tendem a ser mais avançados — porque justamente tiveram muito mais «obstáculos» para ultrapassar do que um ermita no meio do deserto, e assim atingiram resultados mais depressa. Mas tiveram um treino muito mais difícil!

    «Impedir as pessoas de fazerem o que gostam e querem» não «danifica» o karma! O budismo não impede ninguém de fazer o que gosta e o que quer; em particular, não impede, de todo, que as pessoas façam coisas que as tornem felizes! Seria burrice falar de um Caminho de Felicidade em que as pessoas teriam só de fazer coisas desagradáveis e frustrantes! Não, o que o budismo diz é para observarmos com extrema atenção o que são essas coisas que fazemos e de que gostamos, e qual é a base fundamental para «querermos» alguma coisa. O que vamos descobrir é que a maior parte das coisas de que gostamos são temporárias. Um gelado é maravilhoso até se acabar. Sexo é fenomenal até acabar uma noite de prazer. Mas todas as coisas de que gostamos vão acabar. O que é importante é perceber o que acontece depois delas acabarem. Ficamos insatisfeitos? Queremos mais? Sentimos pena do que acabou? Começamos imediatamente a querer sentir isso de novo? Não conseguimos pensar noutra coisa senão mais sensações prazenteiras — e enquanto não conseguimos pensar noutra coisa, estamos insatisfeitos e frustrados? É isso que o praticante budista faz constantemente. Se estamos obcecados por coisas que nos trazem prazer, então essa obsessão doentia causa-nos insatisfação permanente. Se, pelo contrário, aceitamos perfeitamente de que um gelado é óptimo, mas quando se acabou, acabou-se — porque tudo tem de acabar mais cedo ou mais tarde — então tiramos o máximo de prazer do momento em que comemos o gelado, e depois, «largamos», não pensamos mais no assunto, mas também não andamos agora a matutar o tempo todo no próximo gelado que temos de comer para nos sentirmos satisfeitos. O mesmo se aplica às coisas negativas da nossa vida: a única coisa que têm de positivo é que também se acabam! Por pior que sejam, não são eternas. Assim, um praticante budista não está sempre «aos altos e baixos», ao sabor do que lhe acontece, tipo bipolar: super-entusiasmado e aos pulos quando acontece uma coisa boa, e deprimido e frustrado quando não acontece. A maior parte das pessoas é assim, mesmo que não o admita! O praticante budista, pelo contrário, mantém uma mente muito mais calma. Quando acontecem coisas boas, óptimo! Mesmo que não durem muito, não faz mal! Se não acontecerem coisas boas... também óptimo! Não vai durar muito tempo até que voltem a acontecer coisas boas! O importante é que não vale a pena estar obcecado com coisas boas, sempre à espera que aconteçam, nem frustrado com as coisas menos boas que nos aconteçam, porque vão ser temporárias.

    Samsara é quando andamos «aos altos e baixos», sempre à procura de coisas boas que nos acontecem, e sempre frustrados porque duram pouco tempo; e infelizes quando as coisas más acontecem. Nirvana é quando não andamos minimamente preocupados com essas coisas: tiramos o máximo partido das coisas boas que nos acontecem, desfrutamos delas plenamente, mas não ficamos obcecados com elas; e, quanto às coisas más, por pior que sejam, um dia também acabarão, pelo que não nos irão afectar muito. Uma pessoa assim é despreocupada, não anda obcecada, e tira prazer de tudo de bom que há na vida — mas tudo o que é mau não as afecta grandemente pelo que não se incomodam muito com isso. Isso, sim, é uma vida funcional de alguém feliz!
      Não julgues, e não serás julgado.
      ---
      Algumas das minhas opiniões reflectem a minha filosofia de vida, que segue a orientação exposta pelo príncipe Siddharta, 2600 anos atrás.

       

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