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Cidades com e sem núcleo lgbti => Arquipélagos dos Açores e da Madeira => Angra do Heroísmo => Tópico iniciado por: maris em 20.fev.2003, 03:27:58

Título: Poesia Açoriana
Enviado por: maris em 20.fev.2003, 03:27:58
Esta terra linda que é os Açores gerou, e continua a gerar, pessoas únicas, que acho que vale a pena expôr alguns dos seus resultados aqui.

Força para quem conhecer e espero que gostem para os que vão ficar a conhecer...

Ilhotas de beijos,

marisa
Título: Re: Poesia Açoriana
Enviado por: maris em 20.fev.2003, 03:31:53
A concha


A minha casa é concha. Como os bichos
Segreguei-a de mim com paciência:
Fechada de marés, a sonhos e a lixos,
O horto e os muros só areia e ausência.

Minha casa sou eu e os meus caprichos.
O orgulho carregado de inocência
Se  vezes dá uma varanda, vence-a
O sal que os santos esboroou nos nichos.

E telhadosa de vidro, e escadarias
Frágeis, cobertas de hera, oh bronze falso!
Lareira aberta pelo vento, as salas frias.

A minha casa... Mas é outra a história:
Sou eu ao vento e à chuva, aqui descalço,
Sentado numa pedra de memória.


Vitorino Nemesio
Título: Re: Poesia Açoriana
Enviado por: maris em 20.fev.2003, 03:33:40
O sol nas noites e o luar nos dias

De amor nada mais resta que um Outubro
e quanto mais amada mais desisto:
quanto mais tu me despes mais me cubro
e quanto mais me escondo mais me avisto.

E sei que mais te enleio e te deslumbro
porque se mais me ofusco mais existo.
Por dentro me ilumino, sol oculto,
por fora te ajoelho, corpo místico.

Não me acordes. Estou morta na quermesse
dos teus beijos. Etérea, a minha espécie
nem teus zelos amantes a demovem.

Mas quanto mais em nuvem me desfaço
mais de terra e de fogo é o abraço
com que na carne queres reter-me jovem.


Natalia Correia
Título: Re: Poesia Açoriana
Enviado por: maris em 20.fev.2003, 03:38:41
Requiescat


Direi, pela noite, não ódio que tivesse
Nem detestar vida corpórea e ninhos de manha,
Mas meu alto cansaço, a tristeza de lá
Onde se sente o aqui traído, a falsa entranha.

Direi --- não "fora!" ao mundo que me cinge
(Outro onde o sei e como chegaria?),
Mas dos anos de ver, pensar durando
Retiro uma moeda de nada,
Fruto do meu suor, e pago o pão que se me deve,
Compro o silêncio que se me deve
Por ter cumprido a palavra,
Trabalhado nas palavras,
E por elas merecido a terra leve.


        Vitorino Nemesio
       15 de junho de 1971

(In: Obras completas. Vol. II. Poesia. Lisboa, Imprensa Nacional/Casa da Moeda, 1989, p. 634)
Título: Re: Poesia Açoriana
Enviado por: maris em 20.fev.2003, 03:42:12
A UM CONSTRUTOR DE BARCOS QUE FOI MEU PAI

     Os punhos que ergueste contra
     um tempo de promessas
     e a tua voz que não passou além
     do cume dos nossos montes adormecidos,

MEU PAI:  os barcos que fizeste
     eram pequenos de mais para viajar
     o teu sonho
     a tua raiva
     o teu cansaço

     tu fabricante de viagens
     amordaçadas
     arquitecto de ilhas
     naufragadas

MEU PAI:  sei bem do tempo
     em que os carangueijos roíam as raízes
     da tua ilha - apodrecendo
     e os barcos murchavam
     na baía
     (recordo que a viola perdeu
     a voz num prego da parede.)
     E daí
     o teu barco de tédio e cansaço
     único a não esbarrar
     contra os muros das ilhas vizinhas.


Urbano Bettencourt

in 21 Poetas de Aqui e de Agora, Angra do Heroísmo, 1972
Título: Re: Poesia Açoriana
Enviado por: ana em 20.fev.2003, 18:04:10
Uma piscadela de olho ao Vitorino Nemésio!  ;)
Uma boa escolha maris!  :up
Adoro o poema "A concha"...

Escusado será dizer que já sinto um pouco de saudades dos verdes que outrora me toldaram a retina...........  :wor
Título: Re: Poesia Açoriana
Enviado por: Zahid em 11.mar.2003, 02:48:56
ROCHA DO MAR

Ao Armando Santos, primo e poeta


Já uma vila dos Açores
Loze ligeira no horizonte.
Será num alto das Flores,
No Pico ou logo de fronte,
Espraiadinha num cume
Ou encolhida em Calheta?
O ser nossa é que resume
Seus amores de pedra preta.
Para vila da Lagoa
Falta-lhe a cidade ao pé,
A distância de Lisboa
Já não me lembro qual é.
Para Vila Franca ser
Falta-lhe o ilhéu à ilharga,
É airosa pra se ver,
Mais comprida do que larga.
Povoação não me parece,
Nos padieiros não condiz,
Aos camiões estremece,
Mas não aguenta juíz.
Pra Ribeira Grande falta-lhe
O José Tavares no quintal,
Rija cantaria salta-lhe
Dos cunhais, branca de cal,
Mas não é Ribeira Grande:
Essa merecia foral!
No dia em que haja quem mande
Será cidade mural.
Nordeste - só enganada
Na vista da Ilha Terceira,
Longe de Ponta Delgada,
Sua sede verdadeira.
Nem Vila do Porto altiva,
A mais velha da fiada,
Em suas ruas cativa
Como princesa encantada.
De cimento a remendaram,
Coroaram-na de aviões,
Mas eternos lhe ficaram
Os bojos dos seus tàlhões.
Se é a Praia da Vitória
Não lhe reconheço a saia:
Enchem-lhe a areia de escória,
Ninguém diz que é a mesma Praia.
Talvez seja Santa Cruz
Da Graciosa, ou a sua Praia,
Com o Carapacho e a Luz
Cheirando a lenha de faia.
De S. Jorge a alva Calheta
Ou a clara vila das Velas,
E o alto, alvadio Topo
Com um monte de pedra preta
Dando realce  janelas.
As Lajes ou o Cais do Pico,
A escoteira Madalena
Vilas são de vinho rico,
Qual delas a mais morena.
Santa Cruz das Flores seria
Essa vila açoriana
Ou as Lajes de cantaria
Do bom Pimentel soberana.
Finalmente, só o Rosário,
Que do Corvo vila é,
Pequena como um armário
Ou um chinelinho de pé.
Mas não é nenhuma delas,
Nem Água de Pau, que o foi,
S. Sebastião, ou Capelas,
Da Terceira arca de boi
Como a nossa Vila Nova,
Que nem chegou a ser vila,
Tão branca na sua cova,
Tão airosa, tão tranquila.
Ah, já sei! É delas, fundo,
Que o muro alvo se perfila
Contra os corsários do mundo
Que invejam a nossa vila,
Nosso povo, na folia
De uma rocha de mar bravo,
Que o Guião da autonomia
Só por morte torna escravo.

24 de Abril de 1976



Vitorino Nemesio


Uma grande viagem aos Açores...

Beijo para ti Maris!

Zahi
Título: Re: Poesia Açoriana
Enviado por: maris em 18.mar.2003, 03:24:00
Para uma grande amiga de viagem para Aveiro...

Saudade


Eu tenho dentro de mim,
tenho dentro do peito,
uma saudade, que enfim,
me esquece o que tens feito.

Eu tenho dentro de mim,
tenho cá dentro em verdade,
aquela saudade, enfim,
do que me deste em saudade.

Esta saudade, saudade,
esta saudade sem fim
como eu a tenho em verdade
bem dentro, dentro de mim,
é talvez, só a verdade
que deva sair de mim
em bem estranha saudade.

Gilberto de Vasconcelos
(Açores Natural de São Miguel, Nascido
em 1924. Falecido em 1971.)
Título: Re: Poesia Açoriana
Enviado por: maris em 18.mar.2003, 03:25:26
ILHA


Só isto:

O céu fechado, uma ganhoa

pairando. Mar. E um barco na distância:

olhos de fome a adivinhar-se, à proa,

Califórnias perdidas de abundância.


Pedro da Silveira

in A ilha e o Mundo, Lisboa, 1952
Título: Re: Poesia Açoriana
Enviado por: maris em 18.mar.2003, 03:26:54
ETERNAMENTE

Quando eu morrer hás-de sentir o vento

a gritar através da noite escura.

- Sou eu, sou eu, que vim da sepultura

protestar contra o nosso afastamento.


Quando eu morrer, se ouvires um lamento

rezado pela brisa que murmura,

sou eu, sou eu, chorando com ternura

a saudade do nosso casamento.


Quando eu morrer, escuta a voz da água

gemendo na vidraça a minha mágoa,

a soluçar, a soluçar por ti.


E se houvires bater à nossa porta,

abre sem medo, meu amor - que importa ? -

- Sou eu, sou eu, que nunca te esqueci.



Espínola de Mendonça
in Sicómoro, Ponta Delgada, 1937.
Título: Re: Poesia Açoriana
Enviado por: maris em 18.mar.2003, 03:28:56
A UM CRUCIFXO


Pregado em uma cruz de ébano expira
O alvor do corpo de marfim deslumbra
A vista que divaga na penumbra
Dentro de uma cela aonde a alma suspira.

Cada pisada chaga é de safira;
Reluz na sombra que o altar obumbra!
São alforges as lágrimas... Ressumbra
Em tudo a dor que em êxtase delira.


Doce Jesus ! sem conhecer a vida,
E sem saber porquê, na flor da idade,
Chora a teus pés a infância amortecida:

Ver perder-se a legria, a mocidade,
Ou ver-te exengue nessa cruz erguida,
Qual fará, bom Jesus, mais piedade ?



Teófilo Braga
Título: Re: Poesia Açoriana
Enviado por: maris em 18.mar.2003, 03:30:07
A UM POETA
Surge et ambula


Tu, que dormes, espírito sereno,
Posto à sombra dos cedros seculares,
Como um levita à sombra dos altares,
Longe da luta e do fragor terreno,

Acorda! é tempo! O sol, já alto e pleno,
Afugentou as larvas tumulares...
Para surgir do seio desses mares,
Um mundo novo espera um só aceno...

Escuta! é a grande voz das multidões
São teus irmãos, que se erguem! são canções...
Mas de guerra... e são vozes a rebate!

Ergue-te, pois, soldado do Futuro,
E dos raios de luz do sonho puro,
Sonhador, faze espada de combate!


Antero de Quental
Título: Re: Poesia Açoriana
Enviado por: ana em 22.abr.2003, 22:04:44
Morte que mataste Lira

Morte que mataste lira
Mata-me a mim que sou teu
Mata-me com os mesmos ferros
Com que a lira morreu

A lira por ser ingrata
Tiranamente morreu
A morte a mim não me mata
Firme e constante sou eu

Veio um pastor lá da serra
À minha porta bateu
Veio me dar por notícia
Que a minha lira morreu

Popular
Título: Re: Poesia Açoriana
Enviado por: Scorpio_Angel em 24.mai.2006, 17:08:20
Morte que mataste Lira
Popular

Sempre a conheci e não fazia ideia que vinha dos Açores!  :o

(as coisas que uma pessoa fica a saber no fórum :))
Título: Re: Poesia Açoriana
Enviado por: Eyre em 24.mai.2006, 17:14:14
Morte que mataste Lira
Popular

Sempre a conheci e não fazia ideia que vinha dos Açores!  :o

(as coisas que uma pessoa fica a saber no fórum :))

É verdade, Morte Que Mataste Lira é popular açoriana. Eu tenho essa música cantada pelo Adriano Correia de Oliveira que foi um dos intérpretes que gravou esta música..
Título: Re: Poesia Açoriana
Enviado por: source_code em 18.abr.2008, 11:33:54
Aqui fica a letra de umas das minhas músicas preferidas... é o que mata a saudade das minhas ilhas.  :'(

Link: http://www.youtube.com/watch?v=cnwOWnxbnls

Ilhas de Bruma
Autor: José Ferreira


1.
Ainda sinto os pés no terreiro
Onde os meus avós bailavam o pezinho
A bela Aurora e a Sapateia
É que nas veias corre-me basalto negro
E na lembrança vulcões e terramotos



Refrão:
Por isso é que eu sou das ilhas de bruma
Onde as gaivotas vão beijar a terra
(REPETE-SE)



2.
Se no olhar trago a dolência das ondas
O olhar é a doçura das lagoas
É que trago a ternura das hortênsias
No coração a ardência das caldeiras.
Refrão



3.
É que nas veias corre-me basalto negro
No coração a ardência das caldeiras
O mar imenso me enche a alma
E tenho verde, tanto verde a indicar-me a esperança.