Fórum da rede ex aequo

Outras Conversas => Artes & Letras => Tópico iniciado por: Ganymedes em 15.abr.2002, 02:26:05

Título: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: Ganymedes em 15.abr.2002, 02:26:05
Olá a tod@s! ;)

E esta...? Um Tópico da Escrita em dia!... (Será que a moda vai pegar?)

Revolvam essas gavetas. Tenho a certeza que aí encontrarão autênticas peças de literatura escritas por vós. Poesia, prosa, cartas de amor, rascunhos em guardanapos ou lenços de papel... Tenho a certeza que este tópico irá ficar recheado de sentidas obras de arte literária (quanto mais não seja por serem sinceras).  ;)

(Aqueles que não se derem muito  artes da escrita, poderão sempre citar excertos de obras que apreciem e queiram partilhar com todos...)

Vamos a pegar nesses teclados, minha gente! 'Bora!   ::)
No fim fazemos um livro e, quem sabe, ainda ganhamos um Nobel! ;D ;D ;D.

Teremos por aqui alguns escritores?

Beijos a tod@s!  ;) :-*
Título: Re: Tópico da Escrita em dia
Enviado por: Ganymedes em 15.abr.2002, 02:43:09
«(...) Falava-lhe de como seria amar uma papoila. Espiava os meus argumentos como se o que lhe dissesse fosse o maior dos mistérios, como se lhe falasse numa língua cifrada. Dizia-lhe que amávamos uma papoila pela sua beleza, pela sua fealdade, por aquilo que era ou pelo que os nossos olhos viam nela: como amamos todas as coisas... sem que a razão as explique ou o Homem as compreenda. Dizia que não percebia, que nada do que lhe dizia fazia sentido.
Apaguei o cigarro e conclui a conversa. Disse-lhe que podia ou não gostar de um dia de chuva, mas que a chuva chovia e a água molhava. E que beleza estar a uma lareira abraçado ao meu amor!
Anuiu e foi-se embora. Nunca mais nos vimos. Não compreendeu... Soube depois que se casara e que a mulher o havia traído... Como lamentei falar por metáforas indecifráveis! Ou talvez, simplesmente, ele nunca pudesse perceber a beleza de um dia de chuva.»

(Autor desconhecido, séc. XXI)
Título: Re: Tópico da Escrita em dia
Enviado por: bluejazz em 15.abr.2002, 03:08:34
Eu não te escrevi nem uma linha desde a última vez, este tempo todo, não te disse nada, nem um recado te deixei. Não era preciso. Era preciso até demais. Fui escrevendo uns rabiscos, isso sim, numas folhas de embrulhar que, estúpida, deixei ficar em cima do ficheiro da Biblioteca Municipal. Felizmente que foi assim e não de outra maneira. Quem as encontrou, se as leu, não percebeu nada - só tu talvez, nem tu sequer - e se percebeu não percebeu que tinham a ver contigo, contigo e comigo e da maneira como eu estou contigo e não tenho outra nem quero ter. Quem as encontrou, nem sequer quero saber, talvez tenha ficado intrigado, um sentimento de que eu gosto, e tu não? Eu gosto mesmo. A sério, não é todos os dias. Aquilo que eu escrevi era só um código secreto de mim para mim passando inutilmente por ti. É que tu não tens nada a ver com isto. Tens tudo. Só que tu não sabes, nem vais saber, por isso são intrigantes, se alguém os leu, os meus rabiscos

Pedro Paixão, "Dias de 1995" in Viver Todos os Dias Cansa
Título: Re: Tópico da Escrita em dia
Enviado por: mega em 15.abr.2002, 11:45:22
Escrevi isto um mês depois de me assumir (para mim própria):

Sinto como se ácido estivesse a dissolver-me por dentro.
As lágrimas que saem dos meus olhos já não controlo; sem que pestanejee las continuam a saltar para fora.
A raiva que sinto só desaparece quando fecho os olhos e te vejo na minha mente dorida, e mesmo assim ainda tenho de me esforçar para não sair à tua procura, a esta hora, sozinha.
Tive de te telefonar, talvez a tua voz me fizesse bem, talvez conseguissed ormir hoje.
Dormi, sozinha.
 
5/Agosto/1999

Cristina
Título: Re: Tópico da Escrita em dia
Enviado por: c em 15.abr.2002, 19:09:58
Afrodite


Formosa.
Esses peitos pequenos, cheios.
Esse ventre, o seu redondo espraiado!
O vinco da cinta, o gracioso umbigo, o escorrido
das ancas, o púbis discreto ligeiramente alteado,
as coxas esbeltas, um joelho único suave e agudo,
o coto de um braço, o tronco robusto, a linha
cariciosa do ombro...
Afrodite, não chorei quando te descobri?
Aquele museu plácido, tantas memórias da Grécia
e de Roma!
Tantas figuras graves, de gestos nobres e de
frontes tranquilas, abstractas...
Mas aquela sala vasta, cheia, não era uma necró-
pole.
Era uma assembleia de amáveis espíritos, divaga-
dores, ente si trocando serenas, eternas e nunca
desprezadas razões formais.

Afrodite, Afrodite, tão humana e sem tempo...
O descanso desse teu gesto!
A perna que encobre a outra, que aperta o corpo.
A doce oferta desse pomo tentador: peito e ventre.
E um fumo, uma impressão tão subtil e tão pro-
vocante de pudor, de volúpia, de reserva, de
abandono...
Já passaram sobre ti dois mil anos?

Estranha obra de um homem!
Que doçura espalhas e que grandeza...
És o equilíbrio e a harmonia e não és senão corpo.
Não és mística, não exacerbas, não angústias.
Geras o sonho do amor.

Praxíteles.
Como pudeste criar Afrodite?
E não a macerar, delapidar, arruinar, na ânsia de
a vencer, gozar!
Tinha de assim ser.
Eternizaste-a!
A beleza, o desejo, a promessa, a doce carne...


Irene Lisboa (http://www.instituto-camoes.pt/cvc/contomes/05/escreveu.html)



(Fala-se pouco de Irene Lisboa, não percebo porquê :(, mas assim é com muitos outros autores que o tempo pura e simplesmente deixa morrer.)



Gostei mesmo muito deste tópico, voltarei cá mais vezes ;D


Fiquem bem,
(c.)[/size]
Título: Re: Tópico da Escrita em dia
Enviado por: Ines em 15.abr.2002, 20:00:46
;D ;D ;D

lol Ganymedes e k tópico lol  ::) ;D :D

Bem eu por acaso de vez enquando...mas muito de vez enquando mesmo, dá-me para escrever...mas como não me considero nenhuma artista das letras, resolvi partilhar convosco um poema k fiz na altura em k me assumi a mim mesma...aliás o kal me fez bastante bem... :D eu axo (e acredito k concordem cmg) k todos nós temos um ecape p encararmos os problemas...eu resolvi escrever...nessas alturas funciona como um eco e pr vezes é ele k nós dá as respostas...
Como eu costumo dizer mtas vezes...não existem melhores respostas k akelas dadas pelo silêncio ;)

Então cá vai....Preparados (ai fechando os olhitos p n ver as caras del@s) lol  ::) ;D ;D



caminho, pela areia da praia,
sinto esta leve brisa a tocar-me o corpo,
fecho os olhos...
ergo os braços,
toco no céu...
Esta doce brisa continua a tocar-me o corpo,
o som do mar,
embala-me neste momento só meu!...
continuo a caminhar,
a areia da praia, acaricia-me os pés cansados,
inspiro suavemente esta bisa salgada,
sinto os salpicos no corpo
AI! É tão bom este momento...
Continuo a caminhar,
as minhas pegadas permanecem lá atrás...
Já não posso fazer aquelas pegadas outra vez...
Mas continuo aqui,
a sentir este momento tão só meu...
Vou continuar a deixar mais pegadas...
Vou inspirar este ar,
continuar a sentir esta leve brisa, que me acaricia o corpo,
tocar no céu,
ser eu, vou ficar aqui, porque só aqui me sinto bem...
Só aqui consigo ser EU...
Por isso vou FICAR!!!

Enfim...foi mais um momento de partilha (psttt já posso abrir os olhitos lol) :o :P

:-* a tod@s
Título: Re: Tópico da Escrita em dia
Enviado por: mega em 17.abr.2002, 09:25:10
Mais um desabafo (como lhes costumo chamar... hehehe):

Sabedoria
   
  Aprendi a amar quando te conheci
  Aprendi a falar quando te ouvi
  Aprendi a olhar quando aparecias
  Aprendi a procurar quando não te encontrei
  Aprendi a desejar quando não te senti
  Aprendi a suspirar quando te cheirei
  Aprendi a sofrer quando não te vi
  Aprendi a odiar quando não te tive
  Aprendi a sobreviver quando te esqueci
 
17/11/99

--
Cristina
Título: Re: Tópico da Escrita em dia
Enviado por: abreasasas em 18.abr.2002, 11:18:16
Oh! Duas mulheres a amarem-se!
Separem-nas, para que o fogo dos seus ventres não se una!
Não deixem que as suas mãos se prendam, não poderão separá-las depois e esse será o maior problema do mundo. Não haverá mais nada.
Duas mulheres que se amam.
Que desconsolo para mim...
O sorriso de uma só serve no sorriso da outra.
A alegria é só delas.
Que não se permita que os seus dedos se entrelacem, o que podia sair daí?

Mas não vêem que se aquelas mulheres se amam, se aqueles corpos foram feitos um para os outro, o mundo deixa de ser aquilo que sempre foi?

Para que irão servir os milénios de escritos, de certezas e afirmações? A única verdade é a dos seus dedos.

E para mim, que o reconheço, há o desconsolo.


Charles F. K. Loisson

Este texto deu-mo uma amiga, não sei onde o encontrou. Sempre o achei peculiar e gostava de saber em que circunstâncias estava o homem quando escreveu isto. E quem era, está bem de ver...  vezes pergunto-me se não seria ela a tê-lo inventado! É por isso que gosto dele.
Título: Re: Tópico da Escrita em dia
Enviado por: c em 18.abr.2002, 19:26:56
Tomei formas inesperadas
nas mãos ansiosas, adolescentes de inexperiência
e de suor.

Esgotei o amar-te em segredo.
Consumi-me de desejo por consumar.

E agora espero-te na esquina de uma hora prometida, sabendo-te
noutra cidade. Acompanho-me de uma solidão
muito companheira.

Sento-me na esplanada deserta e desenho
o teu rosto num guardanapo de papel.
Não temas, sabes bem
que não tenho o menor talento... ninguém te reconhecerá.
Não te comprometerei, não mais do que te comprometi
nas minhas fantasias. Também aí irreconhecível.

Que fique bem claro: afinal, não era a ti que eu amava.





Bem, eu disse que voltava não? Desta vez, valho-me da "prata da casa" ;D

Escrever é das melhores terapias que conheço, chamemos-lhe poemas, desabafos, ou mesmo que recusemos sequer a etiquetá-los, só por isso, já valem imenso.    

abreasas, por curiosidade, tentei pesquisar o nome do autor do texto que deixaste, mas em vão :(. Depois tentei Charles Loyson (foi um nome que por acaso surgiu lá para o meio). Mas este era um padre francês (???), a verdade é que teve alguns problemas com a igreja e acabou por se desvincular por incompatibilidades com o vaticano. É do início do século e terá deixado alguma correspondência, sermões e poesia, talvez que por aí se encontrasse este texto que aqui deixaste, mas a especulação já é tanta que a possibilidade de estar na "pista certa" começa a ser remota :-/.



beijos :),
(c.)
Título: Re: Tópico da Escrita em dia
Enviado por: Ines em 18.abr.2002, 21:22:18
;D ;D ;D ;D

Éis um poema, agora de amor...p espantar a tristeza  ;)



CANÇÃO DE AMOR

Como hei-de eu conter a minha alma,
que não toque na tua? Como hei-de eu
erguê-la por sobre ti para outras coisas?
Como eu desejaria dar-lhe abrigo
à sombra de qualquer coisa perdida no escuro
num recanto estranho e repousado,
que não vibrasse com o teu vibrar.

Mas tudo o que nos toca, a ti a mim,
toma-nos juntos numa só arcada
que arranca de duas cordas um som único.
Que músico nos tem na sua mão?
Oh doce canção!

Rainer Maria Rilke

:-* a tod@s
Título: Re: Tópico da Escrita em dia
Enviado por: Ines em 19.abr.2002, 16:10:18
;D ;D ;D

E aí vai um poema lol eu axo k tod@s temos um poeta dentro de nós (olhando p dentro p o encontrar lol)



Olho este mar,
Que espelha um sol intenso! E penso:
“-AI! Como eu queria olhar para ti agora,
e ver assim a minha alma espelhada nos teus olhos!...”
Mas nem eu sou mar...nem tu és sol...



:-* a tod@s

P.S. Poderiamos editar os poemas lol assim seria tb uma forma de mostrarmos a esta maravilhosa sociedade k a homosexualidade além de NÃO ser doença...afinal até é composta por pessoas k têns sentimento tão puros como os hetero ;) :D hmmmm k me dizem ??? :o :o :o lol
Título: Re: Tópico da Escrita em dia
Enviado por: marazul em 19.abr.2002, 17:06:26
"Sonhei um sonho
carnívoro gumoso largo
só de frutos...só de sumos
eram gritos...eram marés
de orquídeas em flor
de beijos maduros
dos desejos agudos
 
sonho inteiro
do ainda não vivido
quase pressentido
no lençol sedoso dos
líquidos
absurdos
suspiros
dos abraços
perdidos
estalados
na boca do luar."

Isabel Maria

:-* a todos
Título: Re: Tópico da Escrita em dia
Enviado por: Ines em 20.abr.2002, 00:35:23
:D Ganymedes lol mais uma vez uma excelênte ideia lol nada como partilharmos tb coisas tão simples como poemas...k tantas vezes nos fazem sorrir e outra chorar...mas são todos esses sentimentos k nos fazem sentir VIVOS, e afinal parecem ser coisas tão banais ;)

Então aki vai mais uma pekena partilha ;) :)


Estado de alma

Aqui estou eu mais uma vez
nesta noite fria e longa
sento-me aqui à mesa perto da lareira
com uma folha branca
onde crio um conjunto de letras
que me fazem desabafar os desgostos da vida;

onde procuro entender estes sentimentos irreais
e que ao mesmo tempo me sossegam o coração
amedrontado pela vida!...

Esta folha que era branca está agora cheia
de pensamentos, dor, incógnitas, porquês...
está preenchida contrariando o meu estado de alma
que agora está Vazia...


:-* a tod@s
Título: Re: Tópico da Escrita em dia
Enviado por: bluejazz em 20.abr.2002, 20:41:53
Vasto. É difícil agarrar a vida. Talvez porque ela nos engoliu. Ela é as nossas paredes. O tempo é a chegada e a partida dentro desse espaço. Mas será que o tempo existe? Será que a vida existe quando pulsamos inconscientes através dos dias em que ela nos parece tão leve como o ar? E porque é que é preciso doze badaladas para repentinamente. RE-PEN-TI-NA-MEN-TE-DONG-DONG-DONG-DONG-DONG. Nos lembrarmos disso. É impossível abarcar a vida ou o tempo. Mas ali está: uma biografia; as horas no mostrador do relógio. Talvez sejamos uma miragem para a vida e o tempo, talvez um ponto minúsculo no mapa. Mas em verdade, quantas vezes o mapa é nosso e a lupa também? Só vemos a vida e o tempo por meio de algo para além do nosso espírito: olhos, lentes, ecrã... O que é a realidade? O que é o espaço? O que é o tempo? Uma imagem... DONG-DONG... deixem-me voltar para ela. Que remédio?

Gent, 1 de Janeiro de 2000
Título: Re: Tópico da Escrita em dia
Enviado por: Ines em 20.abr.2002, 22:29:45
;D ;D ;D ;D ;D

lol e lá vai mais um poema  :D :D ;) este está muito...muito...muito...como direi...assim..especial, tlz...é fora do comum :D

Por isso antes de o lerem, é melhor sentarem-me confortavelmente e deixem-se levar....lol.... ;D ;D :o





Tu eras também uma pequena folha
que tremia no meu peito.
O vento da vida pôs-te ali.
A princípio não te vi: não soube
que ias comigo,

até que as tuas raízes
atravessaram o meu peito,
se uniram aos fios do meu sangue,
falaram pela minha boca,
floresceram comigo.

Pablo neruda


:-* a tod@s
Título: Re: Tópico da Escrita em dia
Enviado por: tweetwe em 21.abr.2002, 14:53:31
São dois textos retirados do livro Por Amor a Marie, de Régine Deforges. Uma história de duas mulheres que se apaixonam no inicio do séc. XX, baseada na sua correspondência.  :-*

:)
“ 21 de Janeiro de 1904
Tu vieste  e eu possuí-te! Não cores por causa dos nossos beijos, tinham o gosto do mel. Como os nossos corpos enlaçados se entregaram! Como eles estavam ávidos um do outro. Doce Marie, bondosa Marie, queria devorar-te, trazer-te dentro de mim. Não chores mais, sorri para mim. Tudo o que eu quero é a tua felicidade.
Tua escrava,
Margot-Daisy  “

:)
“27 de Janeiro de 1904
Oh, Marie, Marie, divina e bondosa Marie! Como eu te amo ! Assim que te vejo, o meu coração para  de bater. Gostaria de morrer contemplando o teu belo rosto e afundando-me nos teus grandes olhos negros. Como é que eu pude viver antes de te conhecer! Como parece longe o tempo  em que eu sonhava com um príncipe encantado! É uma princesa que eu encontrei, que digo eu? Uma rainha! Uma fada! Sê dona dos meus pensamentos, como já o és do meu corpo. Orienta-me. Concede-me os teus concelhos. Só quero fazer o que tu disseres que faça. Sou tua escrava. Fala, exige, castiga, amante adorada , mas ama-me e fica comigo para sempre. (...).


:-* :-*
Carpe Diem
Título: Re: Tópico da Escrita em dia
Enviado por: Ines em 21.abr.2002, 15:00:34
:D :D :D :D

Este poema tem algo de mágico ::) ;)


O amor, quando se revela...

O amor, quando se revela,
Não se sabe revelar.
Sabe bem olhar p'ra ela,
Mas não lhe sabe falar.
Quem quer dizer o que sente
Não sabe o que há de dizer.
Fala: parece que mente
Cala: parece esquecer
Ah, mas se ela adivinhasse,
Se pudesse ouvir o olhar,
E se um olhar lhe bastasse
Pra saber que a estão a amar!
Mas quem sente muito, cala;
Quem quer dizer quanto sente
Fica sem alma nem fala,
Fica só, inteiramente!
Mas se isto puder contar-lhe
O que não lhe ouso contar,
Já não terei que falar-lhe
Porque lhe estou a falar.


Fernado pessoa


:-* a tod@s
Título: Re: Tópico da Escrita em dia
Enviado por: bluejazz em 21.abr.2002, 15:11:07
LOL  ;D Olha, outro poema que eu também gosto imenso! Tenho esse do Fernando Pessoa num livrinho pequeno algures para o qual transcrevi... :) Bem, mas antes que me batam por estar a fazer comentários e pouco "Tópico da Escrita em Dia"...  :P ::) Aqui vai mais qualquer coisa. :)

Para a Sarah... :)

MERGED

How can my self be so far away from here? When it lies in every word spoken about you? And when it is my mouth that speaks it mostly? My spirit spreads around with every sentence that has your name in it. It travels. And it stays there, wherever you are.
So time and space, spirit and flesh are all the same. Your spirit lives in me and I live in your spirit. My flesh lives in you and you live in my flesh. Fluidly, without barriers. I am my words. My words are me. So, if I speak of you. I am you. If you're not here, I am not here.

12 Dezembro 1999
Título: Re: Tópico da Escrita em dia
Enviado por: Ines em 21.abr.2002, 16:27:36
bluejazz ;D ;D ;D ;D

Então aki vai um poema muito especial para alguém ainda mais especial :-[ ::) ;D ;D ;D ;D



Tira-me a luz dos olhos - continuarei a ver-te
Tapa-me os ouvidos - continuarei a ouvir-te
E, mesmo sem pés, posso caminhar para ti
E, mesmo sem boca, posso chamar por ti.
Arranca-me os braços e tocar-te-ei
Com o meu coração como com uma mão...
Despedaça-me o coração - e o meu cérebro baterá
E, mesmo que faças do meu cérebro uma fogueira,
Continuarei a trazer-te no meu sangue.

Rainer Maria Rilke


É simplesmente tudo  :-* ;)

:-* a tod@s
Título: Re: Tópico da Escrita em dia
Enviado por: Son_Of_Orion em 21.abr.2002, 20:22:41
Amar-te

Amar-te é ser escravo do teu olhar!
É ter sede de ti, de luar, de mito...
É olhar p'ra ti, doce, a dormitar
E ver-te prado, rasgando o infinito!

Sobra serena... dor que me desterra...
Meu Amor, sê meu, sê onda do mar!
Sê lírio de luar gentil, que se cerra
Sorrindo sobre mim, p'ra me abraçar!...

Amar-te é ser um cálice de luto,
Mar de mágoa e sangue em flor e em fruto,
Beijando os Céus nos ermos dum planalto!

É sepultar algures meu triste fado,
P'ra ser rútila rosa rindo no prado
E seres tu o Sol que brilha lá no alto!

............................
A todos os queridos elementos deste fórum e, muito especialmente, para ti.
Que descubram, nesta longa caminhada da vida o que significa o Amor, a Paz e a comunhão entre dois seres, entre duas almas... Eu ainda estou a aprender...
Título: Re: Tópico da Escrita em dia
Enviado por: Ines em 21.abr.2002, 22:02:43
:)Son_Of_Orion, é muito bonito o k escreves-te...e tb gostei muito do poema. É teu ???Se for kero-te dizer k tens um dom muito especial c as letras ;)



Bem agora aki vou deixar mais um poema, para vocês se deliciarem, mas acima de tudo...acreditem no amor como um todo...pk ele existe...tá bem acredito k por vezes temos k andar com umas lanternas :o :o mas mesmo k elas frakejem...sempre podemos recorrer a novas pilhas lol  :o :o



Querer-te sem te Ter...

Estou aqui sozinha, sentada nesta rocha fria,
olho o céu azul escuro como se fosse um vestido que o cobre
as nuvens vermelhas escuras contrastam profundamente
com o meu estado de alma...

a lua toca-me suavemente
o brilho das estrelas iluminam um pouco a minha alma moribunda
e essas eu sei que nunca me abandonarão,
confortam-me de vento frio da solidão e dos morcegos
que procuram apenas mais uma presa.

Este orvalho fino de neblina acaricia o meu rosto
tocam-me suavemente os lábios secos...
tem um gosto puro e único como se fosse um Beijo teu,
beijo esse que ainda não senti...
mas que também não deixo de sentir!


:-* a tod@s
Título: Re: Tópico da Escrita em dia
Enviado por: mega em 22.abr.2002, 09:50:27
Aqui vai mais um "desabafo":

  Escrevo para esquecer
  esquecer-te
  por palavras escritas com o meu sangue
  limpo com as lágrimas  
  da dor provocada
  na solidão derivada da sua ausência
  voluntária
  conhecida por mim e por todos
  rejeitada pelo desejo
  anulada pela paixão
  cravada no meu coração  
  Fujo da realidade
  escondo-me da verdade
  brinco com a imaginação
  vivo em sonhos
  de dia e de noite
  converso de tudo na minha mente a sós contigo
  rimos, choramos, discutimos, zangamo-nos
  fazemos as pazes
  com outra conversa silenciosa de olhares
  tudo em paraísos desertos
  onde apenas nós nos encontramos
  apenas nós sabemos os caminhos
  apenas eu e tu
  apenas eu
  sozinha nos meus monólogos a duas
  Estás tão dentro de mim
  que ouço a tua voz sempre que alguém me fala
  Sinto a tua presença só de pensar em ti
  Vejo-te acordada e a dormir
  na rua, no vento, na luz, no escuro, na vida e na morte
  O teu perfume invade-me o sonho
  Séculos de espera
  Vida sem folêgo
 
  Azul Lua D'Água
 
19-9-99

Cristina
Título: Re: Tópico da Escrita em dia
Enviado por: Rhoda em 22.abr.2002, 14:50:53
INSANITY

Estarei aqui à espera duma palavra? A tua, a única, a derradeira? Já desde quando fiquei à tua espera na minha poltrona de melancolia infinita?
Da janela do meu cubículo modesto, vê-se o eterno firmamento azul a fluir como um rio, em direcção ao além, impossível de alcançar como o teu rosto que eu tocava em outrora. Subitamente, tenho vontade de chorar como uma criança perdida, em simultâneo com esta chuva que cai e dilui na imensidão da terra áspera... As minhas lágrimas derramam rumo a um oceano invisível e taciturno, onde cada fio de água salgada emblema a saudade por ti sentida. Cansaço abrupto tombe verticalmente sob o meu espírito lasso, como gritar para que me oiças? A minha garganta solta um leve grito de sufoco, todo o corpo geme de angústia extrema, danço constantemente numa corda bamba em que por baixo de mim se abre um infindo abismo, onde talvez resida a tua boca mortífera e empestada! Preciso de imediato a lucidez pura para que a loucura não me invada totalmente, não temo que me apontassem como louca, não receio que me ferissem o orgulho e me sentisse vexada para a vida inteira, apenas não quero que a demência varra as últimas memórias tuas que tão idolatradamente as guardei dentro de mim.
Título: Re: Tópico da Escrita em dia
Enviado por: Rhoda em 22.abr.2002, 14:55:30
Adorei o teu poema mega! Sinto o mesmo e por favor nunca deixes de escrever!  :-*
Título: Re: Tópico da Escrita em dia
Enviado por: mega em 22.abr.2002, 16:46:46
Obrigada Rhoda... infelizmente, esta minha veia creio que se extinguiu.... talvez um dia renasça...
Até lá só posso partilhar o que em tempos por palavras senti...

Eu por ti
 
  Sinto a tua dor
  quando desvias o olhar de mim e dizes estar tudo bem.
  Vejo o teu pavor de solidão
  quando te afastas de mim sobre pretexto de ir fumar mais um cigarro.
  Ouço o teu grito de sofrimento
  quando te calas e páras a olhar para a mancha de lágrimas dum papel à
  tua frente.
  Sei o que pensas
  quando te referes a cansaço quando procuro o teu contacto com mãos  
  curiosas de desejo.
   
  Junto-me a ti em pranto profundo.
  Desespero contigo em luto assassino.
  Lanço-me na escuridão do isolamento para que não fiques só.
  Fito o infinito horizonte sem limites temporais na tua singular
  companhia.
   
  Eu derramarei as lágrimas dos meus olhos, da tua dor.
  Eu derramarei o sangue das minhas veias, da tua ferida.

  Eu por ti.
23-9-99

--
Bjs,
Cristina
Título: Re: Tópico da Escrita em dia
Enviado por: Ines em 22.abr.2002, 22:19:33
;D ;D ;D

Pois aki vai mais um poema  ::)   Ganymedes lol este tópico já pegou fogoOOOoooooooOooooooOoooOOOOOoooo  lol excelênte ideia  :D

Então aki vai ... este é um pouco...agressivo tlz...mas escrevi-o numa fase em k não via as coisas mto cor de rosa...e tlz tb por ser akela fase crítica da adolescência...em k colocamos tudo em causa...constactamos k as pessoas afinal não são tão verdadeiras...têm escondido um lado cruel e frio... lol bem vou mas é transcrever o poema, senão vocês ainda adormecem, sem não lerem o mais interessante lol  ;D ;D ;D ;D




...A Vida

A vida é um palco
Onde somos personagens e espectadores atentos!

A vida é um palco rotativo
Onde somos atropelados e pisados constantemente!

A vida é um palco iluminado
Onde nós nada vemos...mas tudo sentimos!

...

Afinal o que é a vida?!

É apenas um mero TEATRO!



:-* a tod@s
Título: Re: Tópico da Escrita em dia
Enviado por: mega em 23.abr.2002, 18:02:32
Gostei muito Ines :)
Mas não  concordo que a vida seja um teatro... pela simples razão que não pretendo representar o meu papel na vida e sim vivê-lo.... mas enfim...

Também deixo aqui algo que escrevi com alguma "violência":

Odeio-te

  odeio-te pela ansiedade que me provocas quando fico à espera de umar resposta que nunca mais vem.
  odeio-te pelo tempo que perco esperando ao lado do telefone, que atendo ao primeiro toque desejando ser a tua voz que ouça, desesperando quando verifico que é outra pessoa qualquer (não me interessa sequer quem seja) que assustada me diz: "Isso é que é rapidez!".
  odeio-te por me fazeres olhar para o relógio vezes sem conta à espera do momento em que apareças para qualquer um dos nossos encontros.
  odeio-te por todas as noites que fico horas acordada a olhar para o tecto negro por cima da minha cama, vazia sem ti.
  odeio-te por todas as manhãs que acordo procurando teu corpo ao lado do meu, reflectindo a luz de mais um amanhecer suave na pele de criança que possuis, e não o encontrando.
  odeio-te por todas as palavras que escrevo pensando que um dia possa  te esquecer, recordando-me nelas.
  odeio-te por te amar tanto.
  odeio-te! odeio-te! odeio-te!
   
30-08-99

---
Cristina
Título: Re: Tópico da Escrita em dia
Enviado por: Ines em 23.abr.2002, 20:13:48
;)mega obrigado :-*
O a vida ser um teatro, é no sentido figurado...mas se ponderares bem no assunto, vais sentir k no fundo tod@s somos personagens da vida...apenas nos limitamos a vive-la com a nossa máscara, mtas vezes k ela própria nos impõe...através de vários factores, situações...
P.Ex. nós mudamos de atitude consoante as situações, podes ser carinhosa qd amas...mas tb podes ser fria ou distante qd não gostas da pessoa...ou podes ter k rir p alguém qd te dá vontade de mandar essa pessoa passear...p.ex. no emprego...
Daí eu associar a vida a um teatro, pk nós fazemos parte de uma representação...o k nos vale é k podemos ser nós mesmos de vez enquando...e aí representamos o nosso papel...o papel principal ;) eu tento repesentar o papel principal sempre...pk só aí sou EU ;)

E agora aki vos deixo mais um poema...este um pouco p dramático...mas enfim...lol  ;)



Morte

Meu corpo jaze nesta cama
onde tantas vezes nos amamos loucamente
e fizemos tantas juras de Amor!

agora é apenas um corpo frio,
gelado pela Morte que chega!

ouço o teu soluçar descompassado e angustiado
a tua mão segura a minha já trémula...
os meus olhos já calmos
olham os teus amedrontados

já não consigo falar,
isso já ela me levou

Falo-te apenas com os olhos,
como tantas vezes fizemos
por isso ouve Amor!
não chores, sê forte nesta noite tão fria.
olha para mim,
é como se fosse uma viagem
olha para mim e sorri...
pois foi esse sorriso a razão do meu Viver!
fá-lo agora que seja a expressão
que aquecerá a minha partida!

Amor...sorriste!



:-* a tod@s
Título: Re: Tópico da Escrita em dia
Enviado por: bluejazz em 23.abr.2002, 21:23:07
E já Shakespeare tinha dito que "A vida é um teatro"... ;) Mas concordo que é melhor vivermos os nossos papéis originais... ;D Ou seja, sermos nós mesm@s! ;)
Título: Re: Tópico da Escrita em dia
Enviado por: Ines em 23.abr.2002, 21:33:08
;) bluejazz

E é isso mesmo k me faz acreditar na vida...o meu papel principal  ;) :-*


:-* a tod@s
Título: Re: Tópico da Escrita em dia
Enviado por: mega em 24.abr.2002, 10:07:38
Ines adorei o teu poema....  :)

Hoje deixo-vos algo que nunca conseguirei terminar...

       De manhã, naquele espaço intermédio entre o último sonho e o primeiro abrir de olhos, em que os primeiros raios de Sol entram pelas frestas de uma janela entre-aberta, que percorrem a pele como se dedos fossem, com um toque de seda, onde por momentos embriagada pela sensualidade de uma brisa que os acompanha pelo corpo ainda dormente começo a sentir o teu cheiro, a ouvir a tua voz a dizer "Bom dia, amor." e começo à procura do teu corpo sem conseguir encontrar outro rumo de vida. Sem saber ainda se és mesmo tu que me exploras nas curvas dos braços percorrendo com uma perversidade erótica até aos ombros nus, descendo através do tronco ainda suado do calor da noite típica de Verão, levando apenas o tempo suficiente para que nada mais exista para além daquele momento. Mas, quando ao fim de algum tempo, começo a despertar desta espécie de sonâmbulismo vem-me à lembrança que não estás aqui comigo. Tudo fica escuro de novo e de novo pergunto-me onde puderás estar, sem mim...quando é que isto deixará de acontecer...quanto tempo terei de esperar?

       É de tarde e ainda não sei quando te encontrarei hoje. Esta necessidade de te ver está a acabar com o que de mais puro havia entre nós...a nossa amizade. Só ouvir a tua voz já quase que não chega para sobreviver mais um dia sem ti, sem olhar para ti, sem te tocar. Sinto falta dos tempos em que, na brincadeira, e sem que eu liga-se a mínima, tocavas-me com essas mãos de criança tão inocentes como perversas de curiosidade.

       À noite parece que tudo é amplificado como se de um organismo microscópico se trata-se, este sentimento de perda de folêgo que acompanha a percepção aterrorizadora de que ainda me encontro sozinha. É a ti que pertence o meu último pensamento assim como acontece todas as manhãs com o primeiro. Sei que continuas presente nos meus sonhos, apesar de não o saber conscientemente; a beleza está toda aí, não estás mas estarás para sempre. É demais para mim...assim como de menos pela tua ausência voluntária todas as noites, todas as manhãs, todos os dias...
  Adormeço. Vejo-te claramente. Sinto-te desesperadamente perto de mim, tocando-me com o teu corpo escaldante no meu, suficientemente dormente para não distinguir realidade de imaginação, e sem vontade de o fazer.

       Vejo o teu rosto quando fecho os olhos; todos aqueles pequenos pormenores completamente insignificantes, que o tornam único. Sinto a tua presença quando ouço aquela música que costumas dançar sem que te apercebas que me deixas doida de paixão com os teus movimentos sensualmente hipnotizantes. Cheiro o teu perfume na brisa que vem do mar à janela do meu quarto todas as manhãs; toda aquela sensação de liberdade que vem com a  clara imagem de te ver correndo de um lado para o outro numa praia deserta traz-me um desejo de correr, também, para te apanhar, onde quer que estejas naquele preciso momento, longe de mim.

       Como é difícil viver assim....mas vivo. E sobreviverei, porque é isso que todos fazemos todos os dias....sobrevivemos, e talvez um dia viverei, realmente, sem nenhuma breve ilusão de bem estar...

Inacabado

--
Cristina
Título: Re: Tópico da Escrita em dia
Enviado por: Ines em 24.abr.2002, 17:15:21
;) mega, obrigado :-*

também gostei muito da tua "história inacabada" dá sempre a sensação k a qq momento, vais continuar a escreve-la é como se fosse um porta entreaberta...tlz funcione como uma forma de não perdermos a esperança...k qq dia algo vai mudar o rumo da tua "história inacabada"
Está sobretudo muito descritiva, faz c k kem lê consiga qs sentir cada momento, cada ambiente, cada palavra...

Continua  ;)

Bem aki vos deixo mais um poema...este é um pouco melancólico...contrapõe com o meu estado de espírito de hj...mas foi o espelho dele de ontem :P



Percorro as areias húmidas e frias
Da Tua ausência

Percorro as memórias
Do Teu ser

Percorro o Teu olhar
Sem o ver

Corro...corro...corro...
Para te abraçar
Para te sentir

Mas Tu não estás
Partiste esquecendo-te de me Levar!...



E lá foi mais um momento de partilha e cultura "artesanal" lol

:-* a tod@s
Título: Re: Tópico da Escrita em dia
Enviado por: c em 24.abr.2002, 21:06:03
Infelizmente tenho acesso limitadíssimo à net, principalmente a este site (nos computadores habituais da universidade que uso é quase impossível, a página demora eternidades a entrar e o mais das vezes bloqueia-me o sistema :(). Bem desabafo à parte, vamos ao que interessa, deixo-vos um dos poemas mais conhecidos de um dos meus autores favoritos (estive indecisa, mas o outro atentaria contra as regras de decência e por certo ficaria cheio de asteriscos, os asteriscos, por sua vez, atentariam contra a liberdade poética e a verdade do poema, pelo que optei por este, bem menos polémico 8))


poema


Em todas as ruas te encontro
em todas as ruas te perco
conheço tão bem o teu corpo
sonhei tanto a tua figura
que é de olhos fechados que eu ando
a limitar a tua altura
e bebo a água e sorvo o ar
que te atravessa a cintura
tanto   tão perto   tão real
que o meu corpo se transfigura
e toca o seu próprio elemento
num corpo que já não é seu
num rio que desapareceu
onde um braço teu me procura

Em todas as ruas te encontro
em todas as ruas te perco[/i]

Mário Cesariny[/size]


bjs,
(c.)
Título: Re: Tópico da Escrita em dia
Enviado por: Ines em 24.abr.2002, 21:30:57
;) c esse é um dos meus poemas favoritos :)




Amor e Medo


Estou te amando e não percebo,
porque, certo, tenho medo.
Estou te amando, sim, concedo,
mas te amando tanto
que nem a mim mesmo
revelo este segredo.


Affonso Romano de Sant`Anna



:-* a tod@s
Título: Re: Tópico da Escrita em dia
Enviado por: tweetwe em 25.abr.2002, 11:59:40
:)
E porque sonhar faz bem... porque sonho.... ;)

A Pedra Filosofal

Eles não sabem que o sonho
é uma constante da vida
tão concreta e definida
como outra coisa qualquer,
como esta pedra cinzenta
em que me sento e descanso,
como este ribeiro manso
em serenos sobressaltos,
como estes pinheiros altos
que em verde e oiro se agitam,
como estas aves que gritam
em bebedeiras de azul.
Eles não sabem que o sonho
é vinho, é espuma, é fermento,
bichinho alacre e sedento,
de focinho pontiagudo,
que fossa através de tudo
num perpétuo movimento.
Eles não sabem que o sonho
é tela, é cor, é pincel,
base, fuste, capitel,
arco em ogiva, vitral,
pináculo de catedral,
contraponto, sinfonia,
máscara grega, magia,
que é retorta de alquimista,
mapa do mundo distante,
rosa-dos-ventos, Infante,
caravela quinhentista,
que é Cabo da Boa Esperança,
ouro, canela, marfim,
florete de espadachim,
bastidor, passo de dança,
Colombina e Arlequim,
passarola voadora,
pára-raios, locomotiva,
barco de proa festiva,
alto-forno, geradora,
cisão do átomo, radar,
ultra-som, televisão,
desembarque em foguetão
na superfície lunar.
Eles não sabem, nem sonham,
que o sonho comanda a vida.
Que sempre que um homem sonha
o mundo pula e avança
como bola colorida
entre as mãos duma criança.

António Gedeão
:-* :-* :-* :-* :-*
Título: Re: Tópico da Escrita em dia
Enviado por: Ines em 25.abr.2002, 12:06:28
 ;)tweetwe :o

lol acertaste na mosca lol adoro esse poema, é dakeles k nos conseguem elevar a alma :-*


então aki vai um  ;) vai ao encontro do sonho  :)


Lá longe, esta noite, o brilho era diferente.
Uma aragem quente soprava pelo rasgão que a lua
no ceu havia feito, ao pé daquela estrela,
que brilha ainda mais.
Lua a crescer, a minguar como se não fosse só luar
e o brilho não fosse dos teus olhos.
Lá longe, esta noite, o brilho era diferente.
Faço deste momento em que não vejo,
reflectido no que sinto...... Um tempo meu
que apetece dividir.
A ansiedade amorfa
em que espero o renascer.....
Quando vens?????


:-* a tod@s
Título: Re: Tópico da Escrita em dia
Enviado por: Rhoda em 25.abr.2002, 15:12:02
Este é o meu poema predilecto mais recente, vindo dum Amigo e que já repassei para uma pessoa que estará em mim para a vida inteira. E assim o partilho com todos:


Não posso adiar o amor para outro século
não posso
ainda que o grito sufoque na garganta
ainda que o ódio estale e crepite e arda
sob montanhas cinzentas
e montanhas cinzentas

Não posso adiar este abraço
que é uma arma de dois gumes
amor e ódio

Não posso adiar
ainda que a noite pese séculos sobre as costas
e a aurora indecisa demore
não posso adiar para outro século a minha vida
nem o meu amor
nem o meu grito de libertação

Não posso adiar o meu coração


António Ramos Rosa
Título: Re: Tópico da Escrita em dia
Enviado por: Ines em 26.abr.2002, 00:36:33
;D ;D ;D ;D

lol E numa de descomprimir o stress  :'( :'( :D :D :D  aki vai mais um poema ;)



Há um lugar no meu coração
Um retalho de céu – o mais estrelado de todos
Um bocado de mar e uma vontade urgente
De te levar para lá
Ver-te assim, atenta e silenciosa
A fitar-me por entre as sombras
A dizer-me, sem palavras, todos os segredos
Desse amor
Saber-te dona absoluta desse lugar cujo caminho
Não sei contar, só sei sentir...
Voa contigo, toca o vento, parar o tempo
No extacto momento  dessa entrega
Perseguir os teus sonhos
Como se fossem os meus próprios sonhos...
Arrastar mil luas para iluminar-te os olhos
Como se o brilho das luas estreladas já não bastasse
E já não basta sentir...
Quero ter, quero estar contigo
Tornar o sonho plausível...
Olhar-te por entre as mesmas sombras
Assim, entregue, vulnerável, tão minha!
Não há começo...não há mais fim
Apenas o meu coração que bate à porta do teu...
Só...


:-* a tod@s
Título: Re: Tópico da Escrita em dia
Enviado por: bluejazz em 26.abr.2002, 00:59:03
Ena, Ines! Posso musicar este poema?  ;D :P
Título: Re: Tópico da Escrita em dia
Enviado por: Ines em 26.abr.2002, 01:04:58
;D ;D ;D ;D ;D

lol  bluejazz ;) força moçã, estou ctg lol acredito nos teus excelêntes dotes musicais...mas tem um preço... ::) depois tens k me oferecer a música e já agora um autografo lol  ::) :P

:-* a tod@s
Título: Re: Tópico da Escrita em dia
Enviado por: bluejazz em 26.abr.2002, 01:13:11
Escrevi isto quando tinha 16 anos. Foi o primeiro texto de uma longa série deles que preencheram 3 cadernos A5... :) É uma introdução para aquilo que ia fazer nesses cadernos: dizer, sem dizer. Escrever aquilo que sentia mas de tal modo e com tal metáforas que nunca ninguém lhe poderia dar um sentido único. Dizer, sem dizer. Foi isso. Desenvolvi uma série "técnicas de escrita", só porque queria falar dos meus sentimentos, de quem eu achava que era, aquilo que pensava, mas sem que os outros entendessem a fundo do que estava realmente a falar... :) Um paralelismo com o que muito de nós vivemos: querer dizer a verdade, mas ter receio, não querer. Qual é a melhor maneira nesse caso? Camuflá-la! ;D Sinónimos das vezes em que também muitos de nós nos vemos obrigados a "camuflar", por um motivo ou por outro, a nossa verdadeira orientação sexual. :)


27 Agosto 1994

Pensamentos complicados e, talvez mesmo, confusos.
Palavras que falam sem dizer.
Palavras que sentem sem exprimir.
Palavras de narrativas que não parecem ser.
Palavras transmitindo mensagens esborratadas para ninguém perceber,
Alegorias, metáforas... é o que, por vezes, são.
Título: Re: Tópico da Escrita em dia
Enviado por: mega em 26.abr.2002, 09:27:43
Um poema de uma das minhas poetisas favoritas (grande lutadora dos direitos da mulher nas décadas de 60 e 70):

Poema Sobre a Recusa

Como é possível perder-te
sem nunca te ter achado

nem na polpa dos meus
dedos
se ter formado o afago

sem termos sido a cidade
nem termos rasgado pedras

sem descobrirmos a cor
nem o interior da erva

Como é possível perder-te
sem nunca te ter achado

minha raiva de
ternura
meu ódio de conhecer-te
minha alegria profunda

Maria Teresa Horta

--

Bjs,
Cristina
Título: Re: Tópico da Escrita em dia
Enviado por: abreasasas em 26.abr.2002, 11:09:18
                       A propósito de...
:) ;) :D ;D >:( :( :o 8) ??? ::) :P :-[ :-X :-/ :-* :'(

                             MÁSCARAS!!!


Fiz de mim o que não soube,
E o que podia fazer de mim não o fiz.
O dominó que vesti era errado.
Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti e perdi-me.

Quando quis tirar a máscara,
Estava pegada à cara.
Quando a tirei e me vi ao espelho,
Já tinha envelhecido.
Estava bêbado, já não sabia vestir o dominó que não tinha tirado.

Deitei fora a máscara e dormi no vestiário
Como um cão tolerado pela gerência
Por ser inofensivo
E vou escrever esta história para provar que sou sublime.

Fernando Pessoa sob o heterónimo Álvaro de Campos em "Tabacaria"
Título: Re: Tópico da Escrita em dia
Enviado por: Rhoda em 26.abr.2002, 12:14:24
Fernando Pessoa, Álvaro de Campos!!! VIVAAAAAAA  ;D
Título: Re: Tópico da Escrita em dia
Enviado por: Ines em 28.abr.2002, 18:51:41
;D ;D ;D ;D

hmmmmmm este poema dedico-o a ti  ::)  :-* :-* :-*




OS VERSOS QUE TE FIZ

Deixa dizer-te os lindos versos raros
Que a minha boca tem pra te dizer!
São talhados em mármore de Paros
Cinzelados por mim pra te oferecer.

Têm dolência de veludos caros,
São como sedas pálidas a arder...
Deixa dizer-te os lindos versos raros
Que foram feitos pra te endoidecer!

Mas, meu Amor, eu não tos digo ainda...
Que a boca da mulher é sempre linda
Se dentro guarda um verso que não diz!

Amo-te tanto! E nunca te beijei...
E nesse beijo, Amor, que eu te não dei
Guardo os versos mais lindos que te fiz!


Florbela Espanca


Espero k este poema vos possa de alguma forma dar um pouco de cor à vida...ou dar mais ainda  ;) afinal a vida é um sonho permanente, apenas lutamos p k ele seja BOM  :)


:-* a tod@s
Título: Re: Tópico da Escrita em dia
Enviado por: tweetwe em 28.abr.2002, 20:52:16
:) ::)
---<- @ to you

Sou eu, não tenhas medo. Pois não ouves quebrar
de encontro a ti a ressaca de todos os meus sentimentos??
As minhas emoções, que acharam asas,
voam, brancas, à volta do teu rosto.
Não vês tu como a minha alma está
vestida de silêncio mesmo em tua frente?
Não armadura a minha prece em flor
ao teu olhar como numa árvore?

Quando tu sonhas, sou eu o teu sonho.
Mas quando queres velar, sou a tua vontade
e apodero-me de toda a tua glória
e arredondo-me como silêncio estelar
sobre a cidade singular do tempo.

Rainer Rilke
:-* :-* :-*
Título: Re: Tópico da Escrita em dia
Enviado por: Rhoda em 29.abr.2002, 00:23:44
A uma desconhecida ::)



Foi numa tarde de verão
Que te vi pela milésima vez,
E no entanto é sempre como a primeira...
Fazes estremecer o meu corpo inteiro
Só de pensar em ti,
E meu coração bombardeia tudo o que o rodeia
Ficando nele só com a tua figura a esvoaçar
Em circunferência.

Tentei chamar-te gritando em silêncio
Porque nem sequer sabia o teu nome,
Como gostava que tivesses virado a cara
Mas ao mesmo tempo tremia por essa sensação
Ser demasiada intensa, mortífera -
Os teus olhos sugavam-me integralmente
Restando apenas um corpo oco, cheio de ar
A ver-te distanciar pouco a pouco...

Deixaste-me, e no horizonte vermelho partiste
Sem deixar uma palavra -
Só o silêncio e a saudade longínqua.


:-* :-*
Título: Re: Tópico da Escrita em dia
Enviado por: poeta_da_noite em 29.abr.2002, 02:56:05
Por que que me chamavas amor?
Bastava um sorriso, um carinho
um beijo mais profundo,
o meus dedos percorrendo o teu corpo
nu, sedento de paixão, e chamavas_me amor...
Por que que me chamavas amor?
Quando meus lábios húmidos tocavam teus seios
mordendo-os e acariciando-os de forma a não pensares...
Por que que me chamavas amor?
Quando por fim minha língua mergulhava no teu intimo,
e teus músculos moviam-se sem os controlares...
Por que que me chamavas amor?
Porque me chamavas amor,
e depois deixaste-me...
Era Apenas e só apenas paixão...


Poeta
Título: Re: Tópico da Escrita em dia
Enviado por: c em 29.abr.2002, 22:06:06
Já viram bem o que aqui condensaram?! Por um lado, os autores consagrados, alguns dos mais incontornáveis, em alguns dos seus mais belos poemas (enfim, daquilo que me é dado a conhecer... pelo menos). Por outro lado, um fôlego novo, vários fôlegos, diferentes, vivos e quentes. Sim! É um facto: adoro este post;D

(Queria ainda deixar-vos um excerto do que estou a ler no momento, mas não o tenho comigo agora :(. Talvez seja até melhor assim, na verdade nem sei bem que tipo de excerto seria possível deixar-vos. Estou a ler o diário de Virginia Wolf e, para ser sincera, nem sequer o recomendo. É maçador, demasiado extenso, tem passagens absolutamente desnecessárias, ela repete-se constantemente, depois revela-se incoerente e, por vezes, mesquinha. É uma leitura extenuante, dolorosa, quase insuportável. Com efeito , está fora de questão recomendá-lo... leiam os seus livros, todos, sim isso talvez seja um conselho de amigo. Mas, por deus, não leiam o seu diário!!! E se o que vos disse não é o suficiente para vos fazer desistir em absoluto da ideia, mudo de tática e imploro-vos: por favor, não leiam, como se não bastasse tudo o resto corre-se o risco tremendo de cair de amores por esta mulher... ela não merece tanto, ela já morreu há anos. E a paixão que eu lhe devoto é mais do que suficiente. [Não a quero partilhar com ninguém, é óbvio 8))

Admito, que depois de sugerir V.W. tudo o que eu possa escrever vai soar tremendamente mal :-/, mas que se lixe, cá vai mais um dos meus. ;)



viajo no toque iridescente da tua pele
e entro no novo mundo como se a magia estivesse ao alcance

do encontro dos lábios

porque não me persegue a consciência de nunca antes ter amado
a dimensão para lá da água

finjo mais uma borboleta pousando no teu nariz
(que é fino e delicado  e que eu amo por ser fino e delicado mas sobretudo por ser teu)
no exacto momento em que as ondas rebentam
em que a tensão é insustentável
em que o mundo sucumbe à sensualidade de mil fêmeas
e o universo somos nós duas em dádiva






bjs,
(c.)




Título: Re: Tópico da Escrita em dia
Enviado por: fleur em 29.abr.2002, 22:09:24
Nada podeis contra o amor.
Contra a cor da folhagem,
contra a carícia da espuma,
contra a luz, nada podeis.

Podeis dar-nos a morte,
a mais vil, isso podeis
- e é tão pouco.


Eugénio de Andrade
Título: Re: Tópico da Escrita em dia
Enviado por: Rhoda em 30.abr.2002, 11:07:43
Oi c também gosto muito de Virginia Woolf, queria é ler a biografia dela que vi várias vezes à venda na fnac. É verdade, dizem que ela é bi ou lesb, it's true?? Olha mais uma razão para gostar dela... eheh
Outra poetisa/escritora que gosto muito é Sylvia Plath, identifico-me com os seus poemas  :)
Título: Re: Tópico da Escrita em dia
Enviado por: nicsparks em 30.abr.2002, 20:08:14
  Aqui  deixo um poema que fiz ao meu namorado goldis:

  "Planícies de trigo
loiradas pelo sol quente
azinheiras ainda verdes
com sobreiros semi-despidos,
é o que vemos meu amor...
Brisas quentes
suavemente nos tocam,
transportam nossos sentidos
em direcção aos campos
floridos, coloridos e virgens...
Tiro os sapatos meu amor,
tira também os teus!
Tirámos as nossas roupas
e de mãos dadas voamos
de asas abertas neste paraíso...
Passam minutos, horas,
mas, o tempo pára para nós!
Somos um só,
eu e ele unidos pelo amor
entregues à natureza...
campos coloridos,
flores e aromas,
eu e ele de mãos dadas,
celebrando o nosso grande amor!!"
                                  nicsparks(26/05701) ;)

     
Título: Re: Tópico da Escrita em dia
Enviado por: Ines em 30.abr.2002, 21:15:04
;) Este poema fi-lo a pensar em ti  :-* ;)




Andava perdida nas areias do deserto,
os meus pés não andavam,
deslizavam naquela areia tórrida
caminhava se rumo, sem direcção...
A minha pele estava fria sem vida,
era apenas um mero fantasma sem cor
caminhei, caminhei, caminhei,...
Sempre a olhar para aquela areia tão pura
de repente ouvi um doce ruído, parecia vento...
Mas não me assustei...fechei os olhos e apenas senti...
Foi nesse momento que levantei os olhos,
o vento começou a ser tão intenso, cada vez mais...
Cobri o rosto com as mãos,
a areia acariciava-as
senti o teu cheiro,
tirei as mãos do rosto,
a areia tinha agora a forma do teu corpo!
O meu coração acalmou...a minha pele tomou vida, ganhou cor
os teus olhos penetraram nos meus,
mas eu tinha medo de te tocar...tremia por dentro,
mas sentia-me bem!
Estendeste-me a mão e disseste-me:
”Vem amor vamos juntas dar vida ao deserto”
Foi quando eu afinal percebi que,
tu eras o deserto e eu a água!... ;) :-*




:-* a tod@s




Título: Re: Tópico da Escrita em dia
Enviado por: tweetwe em 01.mai.2002, 08:21:08
Aqui fica mais um pouquinho de poesia... para começar bem o dia!!!
--<-@-  

Urgentemente

É urgente o amor.
É urgente um barco no mar.
É urgente destruir certas palavras,
ódio, solidão e crueldade,
alguns lamentos,
muitas espadas.

É urgente inventar alegria,
multiplicar os beijos, as searas,
é urgente descobrir rosas e rios
e manhãs claras.

Cai o silêncio nos ombros e a luz
impura, até doer.
É urgente o amor, é urgente
permanecer.

Eugénio de Andrade
--<-@- to you

:-* :-* :-*
Título: Re: Tópico da Escrita em dia
Enviado por: beatriz em 02.mai.2002, 19:35:04
Encantos da Lua


Todas as Noites largo o olhar entre as Estrelas e vem a saudade,
o vento traz o teu cheiro de volta ao meu corpo, largado entre as nuvens...
Quiseram as minhas mãos tocar-te mais uma vez,
deslizar por ti  chamando o teu nome,
tal como as Estrelas deslizam na Noite,
pelo escuro,
desejando tocar por uma única vez a Lua,
rendidas ao seu encanto,
assim como me rendo ao teu...

Os dias passam uns a seguir aos outros,
e não há Noite em que não me perca novamente por entre as Estrelas,
ou não me recorde de ti,
não há raio de sol que não me faça sorrir,
nem gota de água que não me torne feliz,
apenas por me lembrar do calor que vive em ti,
que transpira e surge real,
e que magicamente abraça o teu corpo...

Há muito que não contava mais sorrir por instantes,
ao lembrar o sorriso de alguém especial,
nem sonhar acordada pelas ruas e casas,
ou ainda reparar em tudo o que existe,
ou que vive nos outros...
e me lembra de ti.

Tal como as Estrelas se rendem à beleza da Lua,
eu rendo-me a ti,
nos teus braços.


(06-07-1999)
Título: Re: Tópico da Escrita em dia
Enviado por: Ines em 02.mai.2002, 19:54:35
;)

Este poema só pode ser para alguém tão especial como TU  :-* :-* ;)




"Atravessar contigo o deserto do Mundo"


Para atravessar contigo o deserto do Mundo
Para enfrentarmos juntos o terror da morte
Para ver a verdade para perder o medo
Ao lado dos teus passos caminhei

Por ti deixei o meu reino meu segredo
Minha rápida noite meu silêncio
Minha peróla redonda e seu oriente
Meu espelho minha vida minha imagem
E abandonei os jardins do paraiso

Cá fora de luz sem véu do dia duro
Sem os espelhos vi que estava nua
E ao descampado se chama tempo

Por isso com os teus gestos me vestiste
E aprendi a viver em pleno vento

Sophia Andresen



:-* a tod@s

P.S. Beatriz o teu poema é muito envolvente  :) escreves muito bem  :)
Título: Re: Tópico da Escrita em dia
Enviado por: Rhoda em 03.mai.2002, 12:49:02
O IMPOSSÍVEL GRITO


Se eu pudesse caminhar com palavras lentas sóbrias
e se eu pudesse falar-te ou gritar
como um vento selvagem
se tu pudesses ver-me se eu te pudesse olhar
- aqui onde escrevo e nada principia
aqui onde o embate é nulo contra o bloco
onde se cerra o muro onde a ferida não fala

Nenhum impulso emerge do ilimite vazio
nenhum punho se ergue entre as pregas do abismo

Se escrevo ou falo ainda é o mutismo que fala
se olho é através de um não olhar
se prossigo sei que a minha sede é vã
onde estou é aquém de toda a origem
onde estás é além de todo o encontro

E todavia escrevo terminando onde escrevo
sem o gérmen que abriria o diálogo da água
sem a dissonância viva de quem está ainda algures
emparedado
e crê que um grito alguém ainda o ouviria

E todavia se escrevo é porque talvez espere
avançar entre os muros para uma praia secreta
que um sinal ilumine este deserto de cinza
que uma pergunta abale este bloco inamovível

Se eu pudesse falar-te através desta espessura
se tu pudesses ver-me se eu te pudesse olhar
oh quem pudera gritar como o vento selvagem
quem pudera desatar o nó oculto sempre
o nome oculto sempre!

Fui eu que enterrei o meu nome sob a pedra
Fui eu que me enterrei para sempre sob o nome
Todo em mim é ausência ou um contacto vão

Por isso tu não me vês e eu não te vejo a ti
Mas se eu te escrevo ainda estas palavras nuas
estas palavras mais pobres do que a sombra vazia!

Não será este caminho uma forma do grito?

Aqui onde escrevo algo principia
aqui o embate contra um bloco negro
aqui se abre um muro aqui a ferida fala
aqui designo a pedra da asfixia

A forma desgarrada de um grito flutua


António Ramos Rosa

Título: Re: Tópico da Escrita em dia
Enviado por: QueerCore em 03.mai.2002, 13:05:46
ver aqui um poema do António RR e ficar calado não seria nada fácil para mim...  aconselho vivamente que leiam coisas dele... há uma vastíssima obra dele publicada... e imensos inéditos... de acesso só a iniciados não só no homem mas também na letra... nem ele a percebe.. aliás.. ele nem tem memória do que escreve.. mas isto não é espaço para discutir este grande homem e a sua obra. Queria só aconselhar que tentassem ver também os desenhos dele.. são lindíssimos.. e feitos em segundos.. já o vi a fazer..

:-*  :-*  :-*
Título: Re: Tópico da Escrita em dia
Enviado por: beatriz em 04.mai.2002, 15:47:03
--  Se eu a perder as estrelas cairão todas de uma só vez. O ar consumir-se-á todo numa inspiração. E todas as árvores serão derrubadas com um só golpe de espada. Como se todas elas, como se toda a terra e estabilidade fossem mais fracas que a minha fúria. Como se a minha dor fosse uma espada que jorrasse sangue por todo o gume! E ela, já perdida e longe de mim, estaria sentada num baloiço de uma qualquer dessas árvores ...  Ou talvez eu não suportasse sequer a dor e caísse de rompante no chão, e nunca mais me levantasse! Ou então passasse o resto dos meus dias em branco, com uma pedra no lugar do coração ...    --                                  

Agora que tens as tuas mãos nas minhas, sente tudo aquilo que quiseres sentir. Lê com os teus olhos, sente com o teu coração.
Tu não me entendes - tu, que estás aí desse lado -  não suportarias ouvir sequer uma palavra do que te poderia dizer. Também eu sonhei com o monstro que dizia :  "Sou a parte de ti que não conheces." . Enfrentamos o conhecimento,  realizamos o irrealizado,  e damos  finalmente conta do desconhecido. Parece fácil,  não parece?
Imagina então a tentação. Ela mesmo à tua frente. Cedes. Perdão -  resistes a ela (cedendo). E o teu olhar invade-a como gota de sangue que cobre ferida aberta. É impossível não o absorver.
Se fechares os olhos sei que a podes ver. Há vidas que não se enquadram por vontade própria.


Percebes agora?
Vive intensamente.




Beatriz, Nov 2001
Título: Re: Tópico da Escrita em dia
Enviado por: marazul em 05.mai.2002, 01:14:23
Morre lentamente quem se transforma em escravo do hábito,
repetindo todos os dias os mesmos trajectos,
quem não muda de marca,
não arrisca vestir uma cor nova
e não fala com quem não conhece.

Morre lentamente quem evita uma paixão,
quem prefere o escuro ao invés do claro,
os pontos nos ís a um redemoinho de emoções,
exactamente a que resgata o brilho nos olhos,
o sorriso nos lábios e coração ao tropeços.

Morre lentamente quem não vira a mesa quando está infeliz no trabalho,
quem não arrisca o certo pelo incerto,
para ir atrás de um sonho.

Morre lentamente quem não se permite,
pelo menos uma vez na vida,
ouvir conselhos sensatos.

Morre lentamente quem não viaja, não lê, quem não ouve música,
quem não encontra graça em si mesmo.

Morre lentamente quem passa os dias queixando-se da sua má sorte,
ou da chuva incessante.

Morre lentamente quem destrói seu amor próprio,
quem não se deixa ajudar.

Morre lentamente quem abandona um projecto antes de iniciá-lo,
nunca pergunta sobre um assunto que desconhece
e nem responde quando lhe perguntam sobre algo que sabe.

Evitemos a morte em suaves porções,
recordando sempre que estar vivo
exige um esforço muito maior que o simples ar que respiramos.
Somente com infinita paciência conseguiremos a verdadeira felicidade.

Pablo Neruda


Título: Re: Tópico da Escrita em dia
Enviado por: bluejazz em 05.mai.2002, 02:26:46
Subtil

Meu amor fechou-se, subtil, como as palavras,
num batel velho, encarcerado em mar revolto.
Então, um instante cala-me, se na mudez falas,
ou não, se tuas mãos correm o espaço solto.
 
E ali sei que sou um horizonte longínquo
no teu olhar. E tu tocas-me. Dor esquecida…
E iludes-me que desde todo o princípio,
teu gesto, terno, fala: Dá-me a tua vida!
 
Meu amor fechou-se, subtil, como as palavras.
Metáforas! Diluídas e em cativeiro,
palavras, que falam por mim nestas praias
em que naufraguei por teu gesto traiçoeiro!
 
E ali sei que não sei a verdade dos caminhos
que são teus - livro apócrifo do silêncio -
nem como te delinear nos manuscritos
do meu corpo. Amor ou deslizante incenso?

Rita Paulos da Silva
http://www.os-fazedores-de-letras.pt/ler/faz20/20_L_Subtil.html
Título: Re: Tópico da Escrita em dia
Enviado por: Ines em 05.mai.2002, 14:36:52
;D ;D ;D ;D

Hj não vou deixar poema, é só mesmo uma ideia k me ocorreu...após tantos poemas e muitos deles excelêntes....e k tal editá-los hmmmmm ??? :P K me dizem, eu acho k seria uma BOA ideia...até era uma óptima forma de mostrarmos à sociedade portuguesa em geral e à mundial em particular k os jovens LGBT são seres humanos e por acaso até denotam alguma sensibilidade :o :o

hmmmm k me dizem ??? ::) como título poderia sugerir "poemas humanos" lol  ::)



:-* a tod@s  ;)
Título: Re: Tópico da Escrita em dia
Enviado por: mega em 06.mai.2002, 09:37:43
Canções

Fui agora mexer nas tuas cartas.

Quem pudesse voltar a acreditar
Nessas palavras doidas e transidas
De febre no delírio da paixão
Que arrastaram num sonho as nossas vidas
Misturando-as na mesma reacção!

Aqui há um juramento além da morte.
Ali dizes que vens logo à noitinha;
E um cheiro a vinho e a fruta - Que doidice!,
Paira naquele quarto de hotel
Onde fiquei três dias e três noites
Esquecido de tudo à tua espera!

Estávamos em Março; Primavera.

Nesta um abraço ainda cinge e aperta
Meu corpo vibrante,
E ali rasga o papel o teu ciúme
Num beijo sensualíssimo de amante.

Além, mais alto, impões que te apareça
- E a noite era uma noite muito fria!

Tanta carta a falar do nosso amor,
Tanta coisa que morre e nem nos deixa
Sequer um vago som de simpatia?

O que eu chorei quando esta recebi,
Esta que diz: "Não volto a procurar-te."
E atrás de ti segui por toda a parte,
Até que te encontrei; e ardentemente
Voltámos à loucura que findou.

Como é que a gente pode mudar tanto
Sem sentir pela hora que passou
- Por essa hora linda de prazer,
Uma saudade, um pormenor qualquer
- Ficarmos alheados ou suspensos -
Uma tristeza, uma tremura, um ai
Que nasce e vai morrer lá onde a realidade
Começa e não acaba e nunca expira?...

Não leias estes versos. Tudo isto,
Tudo isto, afinal, é só mentira.


António Botto

Título: Re: Tópico da Escrita em dia
Enviado por: Rhoda em 06.mai.2002, 18:19:23
Viva António Botto!!!!!  :D :D :D
Título: Re: Tópico da Escrita em dia
Enviado por: Rhoda em 08.mai.2002, 22:52:19
É urgente que as pessoas se amem
sem vergonha e sem tristeza
Que se amem com orgulho
Com a alegria pagã da joie grega

É urgente que as pessoas não se escondam
por detrás das outras pessoas
das ideias das outras pessoas
dos muros espessos do medo

É urgente que as pessoas se amem

É urgente partilhar o pão e o corpo
com a claridade da terra molhada
nas manhãs de sol

É urgente assumir a verdade


Manuela Amaral
Título: Re: Tópico da Escrita em dia
Enviado por: Raven_voy em 10.mai.2002, 20:35:35
"A message of love for those who need it"

(http://www.theunholytrinity.org/cracks_smileys/otn/love/lovesigh.gif) This is a love letter (http://www.contrabandent.com/cwm/s/otn/love/luvlove.gif)

This is a lover letter because you don't hear it often enough, especially during the holidays. This is a love letter because even though you don't believe it all the time, you belong in this world.

This is a love letter to every young lesbian who's been told she's not a real girl until she has sex with a man. This is a love letter to every boy who's been beaten for not being manly, and to every muscular gay guy who has looked on in terrified silence. This is a love letter to the teenage drag queens who get kicked out of their houses and end up tricking on the streets. This is a love letter to all the gay kids who think about dying and sometimes succeed because the world doesn't prize their lives.

This is a love letter to the queer students who live courageously in the dorms, the ones who've told me the horror stories: the students whom certain teachers trash in class, the students on whom pranks are played and whose door decorations are ripped down, the students who risk bodily harm and the disdain of the a homophobic, gender-policing world in order to claim their birthright as human beings.

This is a love letter to the lesbian, gay, bisexual and trans kids who are growing up in families or religions that don't recognize and appreciate the diversity of human life. This is a love letter to the LGBT adults like Mel White who persist, knocking gently and not-so-gently on the doors of their familial and spiritual homes, saying, "We know we have a place
at this table, under this roof; we belong in this synagogue, this mosque, this church."

This is a love letter to butch lesbians and flaming gay men, a love letter for every moment of your life when you've braved living with integrity, looking the world in the eye. This is a love letter to dykes like Lea Delaria who walk with that special swagger, and to gay boys like Jack on "Will and Grace" who walk with the special swish.

This is a love letter to Brandon Teena, who lived his too-short life with reckless abandon because he didn't know his own value and possibility. This is a love letter to tell the female-to-male and male-to-female people out there that your life matters, that your survival means a richer and better world.

This is a love letter to the women and men, the drag queens and kings, who risked arrest at Stonewall in 1969 when they fought against police. This is a love letter to all those who frequented the small gay bars in Jackson; Miss. in Bend, Ore; in Des Moines, Iowa, who survived police raids, brutality and humiliation in order to find more of your own kind. This is a love letter to the butch women and gay men raped by police
over many long years of oppression.

This is a love letter to those on the front lines of gender and sexuality, especially trans people I know and cherish: Jayson, Gunner, and the Gender Puzzlers. I love your emotional, intellectual and physical selves. I love your shy and bold voices. I love the lines of your faces, your cheekbones. I love your eyes, full of fear and hope and honesty.

I love your mouths, above which hair might be cultivated or plucked. I love your necks, graceful and taut or solid and protected. I love your shoulders, thickened by testosterone or toned and thinned by training. I love your chests, the scars of mastectomies, the proud new breasts, the fine, gentle hearts that beat beneath.

I love your hands -- the hands that some claim show your former gender assignment, the hands that work in factories and in hospitals, the hands that carry my UPS packages, the hands that hold chalk, the hands that hold babies. I love your pre-operative bodies, your post-operative bodies, your glorious and beautiful, diverse and marvelous bodies.

I love you, my dear queer family, for giving the world your many
gifts: flexibility, understanding, complexity, beauty and courage. Stay warm this holiday season. Stay alive. And stay proud.


Men and women, women and men. It will never work.--Erica Jong
Título: Re: Tópico da Escrita em dia
Enviado por: Ganymedes em 13.mai.2002, 17:17:41
Olá a tod@s!!  ;D

Depois de uma temporária ausência destas lides, é com uma grande felicidade que vejo que a moda pegou e pegou bem. A todos os que deixaram aqui os seus desabafos deixo eu um grande beijinho.
E para não fugir ao que aqui se quer...



[…] sejas. como um morango coberto de amoras e chocolate que derretesse nos meus lábios ao soar da manhã. como um anjo alado a quem me abraçasse, com quem percorresse o mundo, voando sobre nuvens de algodão doce que ao roçar dos meus dedos se transformariam em milhões de ondas, como se fossem um ribeiro tranquilo ao atirar de uma pedrinha.
sejas para mim o eterno refúgio e o beijo perene. adormeça sobre o teu peito e brinque com o teu cabelo como fosses o meu pai de barbas longas e cabelos compridos. sejas para mim o meu deus, e o meu anjo, e o meu vinho. seja.
toquemos em todas as estrelas a sinfonia do sonho eterno, do sol façamos a cítara do nosso hino, do vento um coro de vozes que cheirem a búzio e mar. sejas meu marco de pedra, cravado na palma das minhas mãos, como o rumo de grandes embarcações. os momentos de cristal, bordemo-los a ouro num anel de água límpida e guardêmo-los no peito como provas secretas de um amor de rosas e corais. [...]
     

Ganymedes ou Anónimo - Séc. XXI

______________

A quem me inspirou e inspira, com o beijo que lhe deixo e as palavras que a lhe dedico. Uma nova forma de proselitismo...
Título: Re: Tópico da Escrita em dia
Enviado por: Ines em 13.mai.2002, 19:54:59
:-* :-* :-*


Neste dia que passa
Sinto a solidão a fugir
E o toque suave da tua Graça
A afagar-me e fazer sorrir.

E levanto o olhar, tocando-te sem te ver;
Com um sorriso luminoso e deiscente
Acaricio o teu corpo de Mulher
Sabendo que estás ausente.

E no beijo apaixonado que te ofereço
Caminha junto minha alma rendida
É em ti que me sinto e reconheço
És a minha alegria readquirida.

E em sonhos te vejo, de flor em flor,
Esvoaçando graciosa, tal abelha apaixonada,
Vertendo o subtil aroma do Amor
De toda aquela que se sente
Verdadeiramente amada.



:-* :-* :-* ;)
Título: Re: Tópico da Escrita em dia
Enviado por: Son_Of_Orion em 16.mai.2002, 02:24:32
Antes de te conhecer, naquela fria noite de Fevereiro, era isto tudo o que sentia o meu peito:

SEDE

Árvores tristes do alto do monte
Porque imploram ainda p'ra viver?
Tudo nesta vida é para esquecer -
Até a vã promessa de uma fonte...

À nossa volta já o pasto secou...
Calou-se a água debaixo da ponte
E fez-se em pó a verdura do monte -
Se vida já houve, o vento a levou...

Cobre a planície um odor de queimada...
Tomba além uma árvore desgrenhada
Num abandono de agonia sem fim...

Campos da sede, campos do meu amor:
Também eu sinto essa vossa dor
Torturando os sonhos, dentro de mim!...


Entretanto conheci-te! Chamem-lhe resposta a inúmeras preces, chamem-lhe o Destino... ou o acaso. O que é certo é que encontrei aquele que sempre procurei, aquele que me completa, me enche de orgulho e com quem partilho a minha vida... Disse-se noutro tópico que o melhor é lutar pelos sonhos... Bem, eu vou vivendo o sonho, com a habitualidade de quem vive a vida... E sob este prisma, tudo se afigura calmo, estável, pleno e luminoso... É a minha eloquente forma de lutar. É a minha forma de viver!

IDEAIS SIMPLES

Ah, eu queria ser simples, ser vulgar,
E, temente e ingénuo, orar a Deus
P'la graça bendita dos olhos teus!
Sentar-me a uma sombra fresca e esperar

O teu regresso da imensidão do pasto.
Ter a sopa quente... A mesa já posta...
O lume aceso... A casa bem composta...
E ler nesse teu olhar claro e casto

"Que bem me sabe este caldo verde!"
Desfiar as contas duma novena
À janela, enquanto o dia se perde...

E ver então caír a paz da noitinha,
Mística irmã da planície serena,
Cobrindo de Amor a nossa casinha...

No entanto, por imperativos estudantis, não te vejo há dois dias! Como me custa, meu amor, a tua asência:

Meu Amor, onde estás tu agora?
Há mais de dois dias que não te vejo!
Porque é que passas a vida lá fora
E não voltas para me dares um beijo?

Ter-te ao meu lado é tudo quanto almejo!
Descansar em paz abraçado a ti
E sentir que a Terra inteira sorri...
Oh, que imensa falta me faz um beijo,

Ainda que seja muito pequenino!...
A onde foste, meu doce menino?
A onde, que esta noite está tão escura?

Volta p'ra mim, não te quero perder!
Não vês que sou uma fonte de água pura
Onde quero que tu venhas beber?

Bem, já vai longa esta minha contribuição para o tópico, cheia de extensos apartes que a muitos podem parecer enfadonhos... Mas, na verdade, todas as palavras não são demais quando o que te quero dizer é: AMO-TE!

Son_Of_Orion
Título: para a Catarina (ainda e sempre ao invasor...)
Enviado por: abreasasas em 17.mai.2002, 10:53:09
A woman's face with Nature's own hand painted
Hast thou, the master-mistress of my passion;
A woman's gentle heart, but not acquainted
With shifting change, as is false women's fashion;

An eye more bright than theirs, less false in rolling,
Gilding the object whereupon it gazeth;
A man in hue all hues in his controlling,
Which steals men´s eyes and women's souls amazeth.

And for a woman wert thou first created;
Till nature, as she wrought thee, fell a-doting,
And by addition me of thee defeated,

By adding one thing to my purpose nothing.
But since she prick'd thee out for women's pleasure,
Mine be thy love, and thy love's use their treasure.

William Shakespeare - Sonnets
Título: ACASO
Enviado por: abreasasas em 17.mai.2002, 10:57:09
Acaso

No acaso da rua o acaso da rapariga loira.
Mas não, não é aquela.

A outra era noutra rua, noutra cidade e eu era outro.

Perco-me subitamente da visão imediata,
Estou outra vez na outra cidade, na outra rua,
E a outra rapariga passa.

Que grande vantagem o recordar intransigentemente!
Agora tenho pena de nunca mais ter visto a outra rapariga,
E tenho pena de afinal nem sequer ter olhado para esta.

Que grande vantagem trazer a alma virada do avesso!
Ao menos escrevem-se versos.
Escrevem-se versos, passa-se por doido, e depois por génio, se calhar.
Se calhar ou até sem calhar,
Maravilha das celebridades!

Ia eu dizendo que ao menos escrevem-se versos...
Mas isto era a respeito de uma rapariga,
De uma rapariga loira,
Mas qual delas?
Havia uma que vi há muito tempo numa outra cidade,
Numa outra espécie de rua;
E houve esta que vi há muito tempo numa outra cidade,
Numa outra espécie de rua;
Porque todas as recordações são a mesma recordação,
Tudo o que foi é a mesma morte,
Ontem, hoje, quem sabe se até amanhã?

Um transeunte olha para mim com uma estranheza ocasional.
Estaria eu a fazer versos em gestos e caretas?
Pode ser... A rapariga loira?
É a mesma afinal...
Tudo é o mesmo afinal...

Só eu, de qualquer modo, não sou o mesmo, e isso é o mesmo também afinal.

Fernando Pessoa- Álvaro de Campos
Título: Re: Tópico da Escrita em dia
Enviado por: c em 17.mai.2002, 19:09:15
uáu!, há dias que aqui não conseguia entrar, e pensava que realmente não conseguiria responder, afinal só tenho que esperar mais um bocadinho e a página entra. ;D

e deixo-vos duas prendinhas. a primeira por culpa da inês (tenho uma obsessão patológica por coincidências), acabei de abrir um mail de um amigo que me mostra um poema delicioso, muito terno. no final tem uma referência à abelhinha, como no teu poema tb há uma abelha apaixonada, inês, não resisto e deixo-o aqui: ;)


MEU CORAÇÃO

Meu coração é como um ninho
Tão delicado e tão macio,
Que se lhe foge o teu carinho
O nosso amor morre de frio.

Nasceu há dois dias. Apenas
Começa agora a balbuciar...
Ainda não tem asas nem penas
Precisa a luz do teu olhar.

Mas quando tu surges tranquila
Como o luar a aparecer,
Sob o calor dessa pupila
O frágil voo tenta erguer.

E em seus esforços delicados,
Oh minha flor fresca e vermelha!
Para os teus lábios perfumados
Quer esvoaçar como uma abelha...


António Feijó




e agora, mais um bocadinho da prata da casa (quer dizer... bijuteria ;)):

ando o caminho do peregrino
e consagro-me
à voz serena de mel
à mão de afagos arrastada
ao entardecer purpúreo gritando
nos olhos o murmúrio sincopado
exultado no emaranhado das constelações
nas galáxias leitosas do querer urgente
     
.........solto na madrugada de todas as noites


(17/05/2002)



(dizer-vos ainda que continuo a deliciar-me com muito do que por aqui leio, sois gente linda de morrer ;D)

jinhos,
(c.)
Título: Re: Tópico da Escrita em dia
Enviado por: bluejazz em 17.mai.2002, 19:25:37
Hm, eu tive um professor de Teoria da Literatura chamado António Feijó... será que o poema é dele?  ;D ;D ;D
Título: Re: Tópico da Escrita em dia
Enviado por: c em 18.mai.2002, 00:28:03
será, blue, será? não sei, confesso que nunca tinha ouvido falar do senhor. assim que estiver com o amigo que me enviou pergunto-lhe.
o que eu também não sei é por que raio a palavra af.agos é "censurada". ???



e já que aqui estou deixo-vos um poema de um poeta vagabundo que morreu há um ou dois anos (ou mais, que nunca dei conta do tempo que por mim escorrega) e que vivia pelas ruas de braga (creio que era braga)... um homem muito especial.


Para que nem tudo vos seja sonegado,
cultivai a surdina.
Eu fico em surdina.
Em surdina aparo os utensílios,
em surdina me preparo
para morrer.
Amo, chut!, em surdina;
a minha vida,
nesga entre dois ponteiros, fecha-se
em surdina.

Sebastião Alba
[/b]


leiam-no em voz baixa e deixem que o veludo (um sussurro é sempre de veludo, a poesia é sempre um sussurro, o veludo é sempre poesia) vos tome de assalto :)

boa noite, durmam bem,
(c.)
Título: Re: Tópico da Escrita em dia
Enviado por: bluejazz em 18.mai.2002, 01:44:06
Responder
será, blue, será?


Quem sabe?  ::)  :P O senhor até dá umas aulas formidáveis...


Sobre os "afagos" ;D, assunto resolvido... a lista de palavras censuradas em inglês tinha "fag" (vinha com o fórum)... daí... :P
Título: Re: Tópico da Escrita em dia
Enviado por: mega em 20.mai.2002, 20:50:23
Este foi o poema que me despertou para a maravilha das palavras....

Cancioneiro Geral

Senhora, partem tão tristes
meus olhos por vós, meu bem,
que nunca tão tristes vistes
outros nenhuns por ninguém.

Tão tristes, tão saudosos,
tão doentes da partida,
tão cansados, tão chorosos,
da morte mais desejosos
cem mil vezes que da vida.
Partem tão tristes os tristes,
tão fora d'esperar bem,
que nunca tão tristes vistes,
outros nenhuns por ninguém.

Joan Roiz de Castell-Branco (III, 134)

--

Cristina
Título: Re: Tópico da Escrita em dia
Enviado por: Ganymedes em 21.mai.2002, 00:15:41
[Ganymedes aplaude violentamente este último post, dando um repenicado beijo no monitor e dançando pelo quarto por ser este um dos poemas que mais admira na literatura portuguesa  :D]
Título: Re: Tópico da Escrita em dia
Enviado por: Raven_voy em 21.mai.2002, 00:50:02
Emily Dickinson (1830-1886): Lesbian Poems



1.

Her breast is fit for pearls,
Bu t I was not a 'Diver' -
Her brow is fit for thrones
But I have not a crest.
Her heart is fit for home-
I - a Sparrow - build there
Sweet of twigs and twine
My perennial nest.

2.

Her sweet Weight on my Heart a Night
Had scarcely deigned to lie -
When, stirring, for Belief's delight,
My Bride had slipped away

If 'twas a Dream - made solid - just
The Heaven to confirm -
Or if Myself were dreamed of Her -
The power to presume -

With Him remain - who unto Me -
Gave - even as to All -
A Fiction superseding Faith -
By so much - as 'twas real

7.

Now I knew I lost her -
Not that she was gone-
But Remoteness travelled
On her Face and Tongue.

Alien, though adjoining
As a Foreign Race
Traversed she though pausing
Latitudeless Place

Elements Unaltered
Universe the same
But Love's transmigration
Somehow this had come

Henceforth to remember
Nature took the Day
I had paid so much for-
His is Penury
Not who toils for Freedom
Or for Family
But the Restitution
Of Idolatry.

8.

Frigid and sweet Her parting Face -
Frigid and fleet my Feet-
Alien and vain whatever Clime
Acrid whatever Fate.

Given to me without the Suit
Riches and Name and Realm-
Who was She to withold from me
Penury and Home?

9.

To see her is a Picture
To hear her is a Tune
To know her an Intemperance
As innocent as June

To know her not - Affliction -
To own her for a Friend
A warmth as near as if the Sun
Were shining in your Hand.
Título: Re: Tópico da Escrita em dia
Enviado por: bluejazz em 21.mai.2002, 01:03:29
Hmmmmm, Emily Dickinson... :D ;D
Título: onde é que eu li isto?
Enviado por: abreasasas em 21.mai.2002, 11:22:50

-Foi por ela que eu vendi
     um milhão de laranjeiras.
Título: Re: Tópico da Escrita em dia
Enviado por: mega em 22.mai.2002, 09:36:29
Engate

é uma ameaça encontrar-te à esquina das ruas
rente aos grandes cinemas do mar
como se fosses o espelho concavo de feira
onde posso mergulhar e renegar-me

sim
se olhares o ceu lúgubre deste fim de século
se fizeres um movimento de farol com o cigarro
eu - que vou a passar - tudo verei
mas nada será meu
porque não se pode falar com o espectro mudo
do engate - nem o desejo se levantará
para seduzir o corpo daquele que se ausentou

mesmo assim conheço
todas as esquinas da imunda cidade que amo
mesmo assim sofro insónias - imito o noitibó
o bêbado louco
gesticulo como aquele que já não sou e
outro não serei

mantenho-me de pé e fumo
dentro deste túmulo de incertezas onde
não encontrámos de mãos enlaçadas à espera
que uma qualquer cesura nos agoite e sejamos
obrigados a vender o corpo já usado
aos insuspeitos violadores de poemas
 

Al Berto

--

Bjs,
Cristina
Título: Re: Tópico da Escrita em dia
Enviado por: Rhoda em 22.mai.2002, 13:14:08
How do I love thee? Let me count the ways
I love thee to the depth and breadth and height
My soul can reach, when feeling out of sight
For the ends of Being and ideal Grace.
I love thee to the level of every day's
Most quiet need, by sun and candlelight.


Elisabeth Barrett Browning
Título: Re: Tópico da Escrita em dia
Enviado por: c em 23.mai.2002, 02:33:10
bem... hoje parece que não saio daqui... vou e volto e vou e volto, mas este thread é irrestível.
e já disse que gosto de poemas sussurrados, assim sendo, aqui vai mais um murmúrio ;)
(desculpem qualquer coisinha, mas que posso eu fazer se sou uma exibicionista e se não resisto à exposição gratuita que o thread me proporciona? ;D)



soltas descuidos
e salpicos
da camisa
entreaberta                            
......................................(cliché)

cerro
o desejo nos olhos
o sangue afluindo aos pontos
certos                                      
.....................................(luxúria)

não te quero amar
num lugar comum
nem foi para isso que te
trouxe para o poema
é só para te ter em suspensão
um pouco mais
    um pouco mais ainda

o meu gozo é feito da
                                        Antecipação




boa noite, durmam bem, :)
(c.)
Título: Re: Tópico da Escrita em dia
Enviado por: Ines em 23.mai.2002, 19:41:10
;D ;D ;D ;D ;D

lol  É assim, este poema é dakeles k nos desperta sensações escondidas...dakelas k residem no nosso interior mais intímo lol resumindo e concluíndo :o é dakeles k tem uma fila de bolinhas vermelhas no cantinho superior direito :P



E por que haverias de querer...

E por que haverias de querer minha alma
Na tua cama?
Disse palavras líquidas, deleitosas, ásperas
Obscenas, porque era assim que gostávamos.
Mas não menti gozo prazer lascívia
Nem omiti que a alma está além, buscando
Aquele Outro. E te repito: por que haverias
De querer minha alma na tua cama?
Jubila-te da memória de coitos e de acertos.
Ou tenta-me de novo. Obriga-me.

Hilda Hilst


;D ;D ;D ;D  enfim...é mais uma pequena partilha (olhando p chão e saíndo discretamdente p ninguém notar)   :-[;D



:-* a tod@s
Título: Re: Tópico da Escrita em dia
Enviado por: Ines em 23.mai.2002, 19:52:12
;D ;D ;D ;D ;D

Desculpem...mas é k n resisti em colocar aki este poema lol bem tb vocês têm k ter em conta k a Inês tem andado desaparecida dos post's lol por isso agora vingo-me ;D ;D ;D ;D ;D



Lá longe, esta noite, o brilho era diferente.
Uma aragem quente soprava pelo rasgão que a lua
no ceu havia feito, ao pé daquela estrela,
que brilha ainda mais.
Lua a crescer, a minguar como se não fosse só luar
e o brilho não fosse dos teus olhos.
Lá longe, esta noite, o brilho era diferente.
Faço deste momento em que não vejo,
reflectido no que sinto...... Um tempo meu
que apetece dividir.
A ansiedade amorfa
em que espero o renascer.....
Quando vens?????
hmmmmm  lol pode ser fim de semana ???  ??? :P :-* :-* :-*


(olhando p baixo c ar envergonhado e abanado o pézinho direito) :-[ ;D


:-* a tod@s
Título: Re: Tópico da Escrita em dia
Enviado por: blue em 08.jul.2002, 00:03:01
:up :up :up

beijos enfeitiçados
blue
Título: Re: Tópico da Escrita em dia
Enviado por: mega em 08.jul.2002, 18:02:37
Caro Deus,
Sinto-me profundamente desiludido consigo, com a Sua falta de sentido de responsabilidade. Para dizer com frontalidade, considero-O um cobarde e penso em Si sobretudo como alguém que abandonou a viagem a meio, o que, convém que se sublinhe, não se faz, principalmente numa obra tão importante.
A Sua criação mete água por todos os lados, todos os dias se descobrem novas falhas na embarcação, apesar de muitos dos passageiros ainda não terem percebido e não estarem conscientes do perigo que correm. O mesmo se pode dizer dos anormais que comandam o navio, o exemplo extremo de
falhanço, da inutilidade e da incompetência que dominam aquilo a que algum génio (?!?!) chamou de raça superior: a nossa querida raça humana.
Deve admitir que a ideia de criar o mundo numa semana não foi das melhores, só aumentou os problemas, e a situação actual é o espelho de uma clara falta de planeamento. A cobardia a que já me referi anteriormente deve-se ao facto de abandonar um trabalho a meio quando este começa a correr mal e depois virar as costas, partindo para outra.
Realmente, só Lhe perdoo se se estiver a passar uma das seguintes situações:
    - encontrar-se num estado de completa bebedeira (roçando o coma alcoólico)
    - estar apaixonado
    - ter um excelente sentido de humor e gostar de se rir dos bonecos de lama que aqui habitam (incluindo eu)

Se responder que sim a duas das três hipóteses pode mesmo telefonar-me a convidar para uma visita aí ao topo, que eu ponderarei esquecer os conflitos passados, e não foram poucos, e pago-Lhe um copo no Bairro Alto...
Um abraço
Terra, Setembro 1998



extraído de "Deus morreu e eu não fui ao funeral" de JoãoRosas
Título: Re: Tópico da Escrita em dia
Enviado por: naif em 08.jul.2002, 22:48:42
ola minha gente    :-* smack!

Ler estes posts fez-me perceber o qto necessito de pôr a minha escrita (e leitura) em dia...

N trouxe excertos de nada, nem nada meu. É difícil trazer-vos algo meu pq raramente escrevo e, qdo o faço, rasgo tdo a seguir. A escrita é, para mim, uma óptima ajuda em momentos de introspecção e serve tb de confidente.

Qto a leituras, há um livro q me marcou mto :) "Chocolate à chuva, de Alice Vieira. Representou a minha passagem da infância  :baby p a adolescência e fez-me perceber que os outros sentiam e pensavam coisas q eu pensava até então serem exclusivamente minhas... Além disso, foi o 1º livro sem "bonecos" q eu li (meu deus, a impressão q isso me fez qdo o abri pela primeira vez). Ensinou-me que as palavras n mordem nem maçam ;)

Naif*
Título: Re: Tópico da Escrita em dia
Enviado por: ana em 23.abr.2003, 22:06:52
     
Onde estarei eu? No pulso que liga a mão ao braço, nos dedos que seguram a caneta? Nos olhos que medem as linhas de tinta que se enredam no papel? Onde estarei eu? Numa consciência adormecida? Não sei se a sei localizar. Estou pior que tu K. ...
     Não existe escuridão para mim. Quando esta chega, enfim adormeço. O conforto da lua é  semelhante ao dos estranhos, depende das fases, vai e vem a ponto de lhe perdermos  o ritmo. A vida é uma tragédia que nos faz passar a figurantes do nosso próprio protagonismo. E melhor será deixá-lo. Respira-se fundo. É tudo o que é necessário, conseguir tirar uma nova expiração à velha carcaça de todos os dias. Os lugares são sempre os mesmos. O coração bate tanto de dia como de noite, o ritmo pode-se alterar, mas o resultado é sempre o mesmo. Vinte e quatro horas mais perto da morte. Tudo para construir um futuro, a coisa mais absurda de  se construir, pois só o passado é que é real. Nos nossos rostos reside a sua prova.
     Olha-se em volta. Torna-se necessária uma lente decididamente maior que o mundo a que se destina. Há muito espaço em branco a preencher, muitos espaços de nada a  completar com as almas dos outros, daqueles que não as querem, delas abdicam.
     Como falar da alma se nem garantia temos da sua existência? Mesmo assim sinto que se condenar coisas como alma, anjos e demónios à inexistência cometo uma falta irreparável, cortarei com muito do mundo da imaginação. E não é nele que procuro abrigo?


     Não há pior solidão que aquela que sentimos em companhia dos outros. Por vezes, muitas vezes mesmo temos medo da vida e do peso em que nos tornamos para nós próprios. É difícil fazer crer isto ao mundo, pois o mundo não nos quer vacilantes, antes predadores.
     Olho para estas folhas de papel, castigam-me, gozam-me. Apercebo-me aos poucos que tenho de as conquistar. Só assim ponho termo à planta do meu próprio labirinto.
     K. perdido dentro do seu próprio corpo. O fascínio do mesmo pelas transformações físicas, pelas alterações que o crivo do tempo traz  ao corpo humano em progressiva decrepitude... estarei a ver-me ao espelho?!
(...)
----------------
Ana, algures nos finais da década de 90 do séc. XX  

Agradecimentos a Franz Kafka por se partilhar a si mesmo com o mundo.
     

Título: Re: Tópico da Escrita em dia
Enviado por: ana em 23.abr.2003, 22:24:12
Bem, postar essa msg parecia tentar colar um pos-it já bem gasto!  :P
bluejazz, obrigada pelo tratamento expert  :D
Título: Re: Tópico da Escrita em dia
Enviado por: cacao em 23.abr.2003, 22:40:14
Ana,

seria capaz de desenhar o que escreveste... à medida que lia era como se a mesma mão q escrevia desenhasse a lápis o mesmo...
Responder
Olho para estas folhas de papel, castigam-me, gozam-me. Apercebo-me aos poucos que tenho de as conquistar. Só assim ponho termo à planta do meu próprio labirinto.
Título: Re: Tópico da Escrita em dia
Enviado por: ana em 24.abr.2003, 10:40:24
Então já tenho alguém debaixo d'olho para convidar para ilustrar os meus textos quando me tornar "escrivinhadora" a sério!  ;)
:up
Título: Re: Tópico da Escrita em dia
Enviado por: ana em 26.abr.2003, 11:49:31
A propósito da leitura de O castelo de Franz Kafka:

Retirado do caderno "Praxis"15/10/1997


Estou presa n' «O Castelo». Ouço ecos de Bach enquanto  registo estas notas.

A sociedade de K. enerva-me. Será por ver nela tanta semelhança com a minha própria sociedade?
Numa primeira instância K. Parece estar inserido naquele grupo. Até parecem ter uma actividade em que dele necessitam. Pura ilusão levam a crer que assim é, mas não passam de vis sofismas...
São frontais até à raiz quando dão a entender ao triste K. Que ele de facto não passa de coisa nenhuma. Sacodem-no como se esse fosse um moscardo...
Sinto-me tanto como K.!
Kafka, onde quer que estejas, porque tiveste que me inventar?

Agora reparo, Bach é repetitivo. E Kafka? E eu?

Título: Re: Tópico da Escrita em dia
Enviado por: ana em 13.mai.2003, 08:32:49
Um descafeinado por favor      

Vagueio em nuvens de fumo,
deambulo pelas palavras alheias,
sinto, sinto muito...
cada vez mais esmaga-me este meu sentir.

Sento-me nas cadeiras que se me estendem,
pinto silêncios, sorrisos, olhares.
Quando se atiram à mesa os egoísmos do dia,
deambulo sobre o meu ser, calco-o, esmago-o,
rasgo sulcos, abro fendas,
puxo o brilho à minha sombra,
brinco com ela (é tão bem disposta a minha sombra!),


Giro e rodopio ao som das vozes que me rodeiam.
Sou a bailarina do silêncio,
perfeccionista de ausências,
espelho polido em mil pedaços partido,
bandeira velha a meia haste esquecida...
e resisto, resisto, resisto...
- Um descafeinado por favor!
--------------------
*ana*
Título: Re: Tópico da Escrita em dia
Enviado por: cacao em 13.mai.2003, 19:31:15
:up :up :up Ana gostei muito! :D
Título: Re: Tópico da Escrita em dia
Enviado por: ana em 13.mai.2003, 21:51:29
:blush Bigada!  ;)
Título: Re: Tópico da Escrita em dia
Enviado por: duncan em 13.mai.2003, 22:05:58
Oi! q belo tópico sugerido!  :up seguindo essa onda então, deixarei registrado aki um poema q escrevi no dia 5/6/99 para minha amiga Carla, de São Bernardo do Campo - SP, amizade virtual q acreditei ser real um dia.

Espero ler críticas sobre a minha composição, viu galera!

Abstrato é Concreto
(um poema meu para Carla)

No passado imaginei abstrato,
pois anteontem eu quis uma amiga,
ontem eu precisei amiga,
ontem mesmo eu vi amiga,
e adorei amiga.

Hoje eu estou aqui
e sei...
já de antemão que você não é
parte apenas de um passado
recente...

É nesse momento
futuro mais forte que
presente e passado

Porque??
(pensativa, irradiante)

Amanhã te quero amiga,
depois de amanhã te preciso amiga,
depois de amanhã ainda,
sempre te verei amiga
e adorarei amiga...

e que o futuro nos abençoe
pois o abstrato haverá de ser
sempre no final,
concreto.

by eu.  ;)
Título: Re: Tópico da Escrita em dia
Enviado por: ana em 13.mai.2003, 22:30:52
Gostei da gradação adicionada ao conceito de tempo a par com o reforço do sentimento da amizade na sequência passado/presente/futuro.
Valeu!  :up
Título: Re: Tópico da Escrita em dia
Enviado por: ana em 16.mai.2003, 18:52:19
FACES

Nada sei sobre a verdade dos homens.
Muito dizem, negam, condenam...

Amo a verdade da Lua.
Acredito nas suas faces.
Mostra-se múltipla esta Lua.
Só ela em si parece conter
a verdadeira metáfora da Vida!

Hoje o estado é este,
amanhã outro,
depois ainda outro,
por outro diferente seguido...

Assim recomeça,
é capaz de mudar,
mostrar as outras fces escondidas.
No entanto,
nunca esquece o que já foi.
Volta a sê-lo,
prontamente revivendo
os seus antigos estados.

Nada mais completo e absoluto
que as verdades ocultas da Lua,
venerada por Lobos,
Mochos,
Morcegos
e por quem quer que lhe reconheça
grandeza e majestade.
Título: Re: Tópico da Escrita em dia
Enviado por: bluejazz em 16.mai.2003, 19:22:08
Ana, isto anda tão mal que li mentalmente "faces" em pronúncia inglesa e já estava preparada para ler um texto em Inglês! lol lol lol lol
Título: Re: Tópico da Escrita em dia
Enviado por: cacao em 16.mai.2003, 19:27:39
Não tarda nada sou a Fergie... :wor lol
Título: Re: Tópico da Escrita em dia
Enviado por: ana em 16.mai.2003, 19:32:21
Eu não escrevo textos em inglês  :P

Ps- cacao, e porque não samantha fox em vez de fergie? Tb ela é toda british  ;D (pronto assim que começo a se mázinha ponho logo o smyley dentolas! ;D ::))
Título: Re: Tópico da Escrita em dia
Enviado por: bluejazz em 16.mai.2003, 19:32:57
What?? Qual Fergie, qual carapuça! lol Ela é ruiva!!! :inq

Diz antes "Não tarda nada sou wife da blue..." :devil :heart
Título: Re: Tópico da Escrita em dia
Enviado por: bluejazz em 16.mai.2003, 19:33:56
Samantha Fox?? >:( :inq

Ai, ai, ai, ai... ao menos Princesa Di... :o
Título: Re: Tópico da Escrita em dia
Enviado por: ana em 16.mai.2003, 19:40:29
a cacao que responda! se calhar ela a Lady di até prefere ser a samantha fox (pelo menos uma coisa têm em comum)  :devil


Ai YESUS (http://www.tennnis.com/phpbb/images/smiles/jesus.gif), perdoa-me por ser tão sádica...

Título: Re: Tópico da Escrita em dia
Enviado por: bluejazz em 16.mai.2003, 19:42:35
Responder
Ai YESUS ([url]http://www.tennnis.com/phpbb/images/smiles/jesus.gif[/url]), perdoa-me por ser tão sádica...

:P
Título: Re: Tópico da Escrita em dia
Enviado por: ana em 16.mai.2003, 19:45:02
;)
Título: Re: Tópico da Escrita em dia
Enviado por: cacao em 16.mai.2003, 19:45:22
Não me digam que a Samantha é a Parker-Bowles undercover... ay ay yésu

Responder
Diz antes "Não tarda nada sou wife da blue..."

e declaro-vos mulher e mulher!!! Tan-tan-tan-tan...
Título: Re: Tópico da Escrita em dia
Enviado por: v em 03.jun.2003, 00:47:44
oh... touching.
Título: Re: Tópico da Escrita em dia
Enviado por: v em 03.jun.2003, 14:07:53
Responder
touching de piegas ou touching de tocante?  :P



tocante... ora essa.  ;)
Título: Re: Tópico da Escrita em dia
Enviado por: chiloane em 08.jun.2003, 20:59:48
Não vês...?
Está estática, a olhar p o barco q sem ela partiu. Olha-o sem pena, sem lamentações, apenas c olhos tristes e sorriso cansado. É assim q ela sp soube ser...Proximamente distante.
O barco foi. Nada a fazer. O cais continuará a ver p ele passar novos barcos, q deixam marcas naquele vulto sem nome. Fica a melancolia do gesto, o sabor das recordações. Quer partir, mas há uma força inexplicável q a prega aquele chão vazio, o qual ela conhece tão bem a textura, envolve-se nela, tenta encontrar naquele suspiro de vida um mundo inteiro, naquela pedra irregular onde se senta o conforto de um sabor entusiasticamente vivo.
Jamais ousará partir, deixar aquele solo amargo e inesperadamente acolhedor. Já faz parte do quadro q compõe aquela paisagem surda.
E os barcos passam...Um a um, resplandecentes de sonhos, dando um quê de alegria ingénua ao caótico passar do Tempo.

Mariana



Título: Re: Tópico da Escrita em dia
Enviado por: chiloane em 09.jun.2003, 10:47:56
lol lol lol
eeeeehhhhhhhhh, Badapinhas...Isso era exactamente uma crítica ( :-[), ou um elogio  (blush ;D ;D)???

Já li "n" textos teus por aqui, e devo dizer que gostei muito... Temos poeta!!  ;)
Título: Re: Tópico da Escrita em dia
Enviado por: LittleDotInMotion em 09.jun.2003, 10:58:33
Era um elogio, pois claro ;)  ;D :D :).... 8) Achei que estava muito bem mesmo!  :up

Obrigado  :blush :)
Título: Re: Tópico da Escrita em dia
Enviado por: barthez em 09.jun.2003, 12:53:42
Epá, um dia destes andei a vasculhar no meu caixote de recordações e descobri uns poemazecos que escrevi há uns anos... :inq ;D

são assim um bocado tristes... mas enfim... talvez os ponha qui um dia destes... :P 8)
Título: Re: Tópico da Escrita em dia
Enviado por: barthez em 10.jun.2003, 03:26:17
EU SÓ QUERIA

eu só queria
ver-te a cantar,
a tocar viola,
admirar-te de longe
em silêncio...

será pecado?

eu só queria
olhar-te fixamente
enquanto dormes
esquecer tudo
o que houver à tua volta
como se só tu existisses...

será proibido?

eu só queria
ver-te a dançar,
a representar,
tirar-te uma foto,
pôr-te uma flor no cabelo,
sorrir e fazer
palhaçadas só pa ti...

será que não posso?

eu só queria
ir-te buscar
um copo de água,
segurar-te o casaco,
ler os teus poemas,
conversar contigo
até  tantas...

será pedir demais?

eu só queria
dizer-te que
o teu cabelo é lindo,
a tua boca fascinante,
as tuas mãos deliciosas,
a tua voz apetitosa,
o teu corpo sedutor,
o teu andar maravilhoso,
a roupa que usas fantástica...

será sonhar alto?

Eu juro que só queria
poder olhar pa ti
para sempre...
e ser feliz assim
desejando-te ardentemente
sem nunca te tocar
pois sei que não posso...

deixas-me?

98/4/18
Título: Re: Tópico da Escrita em dia
Enviado por: indigo em 10.jun.2003, 21:01:30
:up

Bem, este fórum está repleto de poetas! :)
Título: Re: Tópico da Escrita em dia
Enviado por: barthez em 11.jun.2003, 01:31:41
desculpem lá isto ir assim a conta gotas... :P mas como tenho que passar os poemas pó computador (o que é uma ganda trabalheira... :o :o :´ :´ :´ pois são grandes à bruta...lol lol), prontos vai um por noite... ;D ;D

mas não se preocupem que não são muitos... :P 8)

(indigo, Badapinhas... :-* :-* :-* :-* :-*)


TALVEZ

não vás ainda
fica
fica comigo
assim
abraça-me
não me largues
nunca
eu estou aqui
para sempre
não me acordes
deixa-me sonhar
com os teus cabelos
encaracolados
lindos
deixa-me imaginar
a viajar
pelo teu corpo
sem parar
deixa-me viver
na ilusão
de te ter
a meu lado
deixa-me esquecer
que ao ver-te
morro
desfaleço
e se não estás
sofro
enlouqueço
deixa-me acreditar
que um dia
um dia
quem sabe
talvez

talvez...

97/5/31
Título: Re: Tópico da Escrita em dia
Enviado por: nicsparks em 11.jun.2003, 02:15:56
Responder
:up

Bem, este fórum está repleto de poetas! :)



e poruqe não esses poetas e poetisas, começarem a pensar se querem ou não, ajudar na concretização, do projecto das publicaçoes da rede ex aequo, enviando seus texos, para futura pubçlicaçao??! :idea
:-*
Título: Re: Tópico da Escrita em dia
Enviado por: ana em 15.jun.2003, 12:52:12
Agora apresento-vos o nascer da
biografia ficcionada do meu "alter-ego".
Aqui todas as fronteiras entre realidades paralelas e ficcionadas se enredam. Mistura inconclusiva de autora/narradora-personagem e tudo o resto que esta forma de ver que aqui se apresenta assimilou daquilo que a rodeia.
Por outras palavras: este é o eu do meu não-eu!

Confuso?   lol
------------------
"Peguei neste caderno e aqui decidi registar pensamentos e desabafos que de vez em quando cruzam o meu espírito. O meu pai  finalmente decidiu ir comprar o carro novo. Não é que isso vá mudar em nada a minha vida, mas gosto de sentir o cheiro a novo dos estofos e dos plásticos. Não acompanhei esta tomada de decisão, mas sinto que mostrar alguma expectativa o faz feliz.
Hoje sinto-me particularmente preguiçosa. Sinto uma moleza vinda de dentro que até dá aflição. Estou a ouvir música. Sucedem-se as canções umas  outras. Nem dou por elas. A custo seguro a esferográfica. Esperei o dia todo a ver se a Célia ligava a combinar alguma coisa. Nada. Mais um fim-de-semana afundado numa espiral de vazio. Terminei a leitura de “O Monte dos Vendavais”. Honestamente devo ter um desajuste qualquer. Esta obra com tantos seguidores apaixonados apenas conseguiu arrancar-me um encolher de ombros deslavado. Não me acrescentou nada de novo. Sinto-me enterrar numa voluntária atonia. Sabe bem… olho para o espelho da parede em frente à cama e recebo de volta um sorriso mordaz. Apatia voluntária! Isso é que parece dizer o meu rosto quando não confrontado com o espelho. No entanto, vejo-me, revejo-me naquele reflexo e sei que não é apatia que me é devolvida. Apesar de aparentemente aprisionada pelos hábitos dia a dia tecidos num pesado manto de Penélope, sinto-me num buliçoso fervilhar sem pressas.
Está na hora de ir dar comida ao cão."


Ana fechou vagarosamente o caderno e guardou-o debaixo do colchão. Ajeitou as cobertas da cama e saiu fechando a porta atrás de si.
Ainda não sabia definir bem o sentimento que lhe deixava o facto de estar a passar para o papel o seu quotidiano, a sua vida interior. Sentia-se sufocar. Um certo excesso de si mesma… um fervilhar de impaciências.
(...)

“ Hoje a minha avó passou o dia no hospital. Regressou ao fim do dia. Pálida e cambaleante. Fiquei com um aperto na garganta ao ajudá-la a subir a escada. Não disse nada. Senti o seu abatimento na forma trémula com que procurava apoio em mim, com que se segurava ao meu braço. Olho para ela e temo. Não consigo explorar bem o que sinto, mas é algo que me deixa bastante deprimida. De algum tempo para cá vejo a saúde a esvair-lhe do corpo. Penso na morte. É um sentimento que me angustia. Recrimino-me por isso. É como uma traição. Uma facada pelas costas. Estar a olhar para uma pessoa doente e projectar nela a morte. Devia ser a última coisa em que deveria pensar, mas não consigo evitá-lo. Trata-se da minha última avó. Dos restantes não guardo memórias para além dos retratos guardados. Engraçado lembrar-me disso agora! Estavam todos guardados no sótão numacaixa de sapatos. São fotografias antigas a preto e branco cujas bordas recortadas estão amareladas e apresentam já manchas bolorentas a ameaçar, como se de uma praga mansa que sorrateiramente espreita se tratasse, tomar por completo as figuras retratadas no papel. Lembro-me que quando era criança, de vez em quando lembrava-me e lá ia eu ter com a minha mãe com a caixa debaixo do braço. Dizia sempre o mesmo, que mais cedo ou mais tarde eu ainda acabava por lhe perder ou estragar as fotografias e ai de mim se alguma desaparecesse. Eu amuava um pouco, mas assim que começava timidamente a tirar a primeira fotografia via os olhos dela a ganharem brilho ao reconhecer o seu rosto e corpo franzino de há décadas atrás. «Olha… eu no dia da chegada do meu tio Alfredo do Canadá» Era nesse momento que reconhecia no rosto da minha mãe a criança de vestido curto que me olhava vivamente através do papel. Através dos anos. E sentia-me feliz e mais descansada. Tinha na mão a prova de que a minha mãe não nascera mãe. Também já tinha sido criança!
Como é de esperar tudo muda. Até as fotografias já não estão guardadas na velha caixa de sapatos. De certa forma perderam o encanto e a magia que lhes era peculiar. Dispostas agora num albúm, daqueles comprados num hipermercado qualquer, sempre iguais a milhares de outros tantos. Desta forma, os retratos outrora mágicos, arautos de um tempo naufragado, já se tornaram um objecto usual. Perderam a magia de pequenos segredos escondidos numa caixa de sapatos (alguém lembrar-se--ia de que sapatos teria sido aquele cofre improvisado?) ”


(...)

-------------------
Sabe bem estes exercícios  de "exorcismos"!  ::)
Título: Re: Tópico da Escrita em dia
Enviado por: kalypigirl em 15.jun.2003, 13:33:35
:curtain

uhm... quero ler mais [smiley=sim.gif] :up
Título: Re: Tópico da Escrita em dia
Enviado por: ana em 15.jun.2003, 13:37:46
Obrigada pelo feedback. É importante!  ;)
Mais episódios se seguirão!

Título: Re: Tópico da Escrita em dia
Enviado por: c em 15.jun.2003, 15:20:16
sabe bem ler, quando o que se lê são os teus exercícios de exorcismo...



[shadow=purple,left,300](c.)[/shadow]
Título: Re: Tópico da Escrita em dia
Enviado por: ana em 15.jun.2003, 21:18:57
(...)

                O Sol começava a banhar-se numa descida lenta em direcção à linha do horizonte, traço que separa o céu do mar, tornando a luminosidade do fim de tarde um bilhete perdido a anunciar a fuga do dia.  
     Terra estranha. As pessoas é que fazem da terra aquilo que ela é, ou pelo menos aparenta. Gente estranha. Sei que me engano, mas conservo essa “semi-certeza” enquanto não conseguir viver o contrário.
     Quando os magos da meteorologia o permitem, as cores aqui conseguem ser vistas de forma tão clara, com redobrada nitidez. Ou será a atenção que é usada com redobrada precaução?
O presente, o dia que agora vivo assenta numa matéria disforme a que os outros chamam memória. Outros generalizam como passado. Para mim não passa de parte da minha história.
           É fastidiosos, fatigante e falacioso falarmos de nós próprios. Descaradamente maçador.
           Mas até onde queres chegar sem nunca falar de ti?
           Não é a procura de testemunhas expectantes que leva a uma necessidade de passar a escrito o que quer que seja que pretendamos guardar para o dia de amanhã ou resguardar das brumas e teias emaranhadas do dia de ontem.
           Seja uma tristeza, acidente ou deslumbramento. Todos têm direito a memória.
           O passado também se faz de pessoas. É com elas que aprendemos a ser quem somos. E é também delas que falo quando falo de mim.
Foram meses que envolveram durante muito tempo todas as minhas forças e os meus recursos como pessoa.
      vezes desejava conseguir sair de mim e assistir ao espectáculo patético que desenvolvo para os meus próprios dias.




(...)
Título: Re: Tópico da Escrita em dia
Enviado por: ana em 16.jun.2003, 22:10:02
A Forca Imaginária

Sob a minha cabeça pende um laço.
Não são insectos nem ouriços que me picam a pele:
Colecciono pregos com minúcia metódica
Estudada e aprendida em vias rápidas de sal e aço.

A minha pele não é picada.
Nem acariciada.
Foi por Kadinski retalhada
Numa obra de arte jamais leiloada.

Destas vigas já cansadas
Caem frutos podres e já carcomidos
Por homens de pés crús e mãos mumificadas:
Sombras de séculos e de tempos perdidos.

À volta da minha cabeça enlaça-se um laço,
Corda macia por minha demência criada.
Usa-o durante a noite. Retiro-a à alvorada,
Como quem autopsia o seu próprio cansaço.
Título: Re: Tópico da Escrita em dia
Enviado por: teclar em 16.jun.2003, 23:36:31
A Vida

Tudo se inicia numa partícula
evolui
cresce
mas morre no fim
outra partícula

Há uma brisa que sopra
um som que sussurra
fecho os olhos
assim

Inspira
expira
respira
a vida

Deito-me
posição de feto
quente
calmo
fecho os olhos
assim

Sinto-me partícula
perdida na poeira
ventania
furacão
varreu tudo
ficou o caos
abro os olhos
ilusão

A vida

(1999)
Título: Re: Tópico da Escrita em dia
Enviado por: ana em 19.jun.2003, 20:55:24
E é nesta partícula que reside o principio e o fim de todas as coisas.
:upteclar :up
Título: Re:Tópico da Escrita em dia
Enviado por: Sacerdotisa em 30.set.2003, 17:44:25


Olá, mto boas tardes!!!!!! :) :D ;D rsrsrsrsrs Hoje foi-me apresentado este espaço k penso ser o kantinho k prokurava, uma espécie de arrumar os kantos à kasa ou desarrumar as gavetas do pensamento....kontudo logo se verá o resultado......  8) Bigada kida bluejazz [smiley=balao.gif] ofereço-te um balão pela simpatia :) merci!!!!!!

Bem agora um poeminha dakeles k mais prezo: O' Neill

Há palavras que nos beijam
Como se tivessem boca
Palavras de Amor, Esperança
De imenso Amor, de esperança louca
Palavras
Que se recusam
Aos muros do teu desgosto
De repente coloridas
Entre palavras sem cor
Esperadas, inesperadas
Como a Poesia ou o Amor
O nome de quem se ama
Letra a letra revelado,
No mármore distraído
No papel abandonado
Palavras que nos transportam
Aonde a noite é mais forte
Ao Silêncio dos amantes
Abraçados até á morte.
                                                                           Alexandre O ‘ Neill
Título: Re:Tópico da Escrita em dia
Enviado por: ana em 19.out.2003, 14:57:16
     Acordei ainda mais cansada do que quando me deitei. A noite passada levou-me em sonhos estranhos...
Sonhei que o meu corpo sofria estranhas alterações e sentia cada vez mais medo...
Estava escuro. A pouco e pouco fui ganhando umas asas. No meio de uma dor imensa senti-as sair, crescer e pender dos meus braços. Estava só no alto daquela penha desconhecida, sem saber o que estava a contecer. Isso ainda me assustava mais-não ter sonhado ninguém a assistir comigo à cena, a testemunhar a minha mudança. Se tal tivesse acontecido seria muito mais fácil para mim aceitá-la. Mas  não aconteceu e sentia uma vergonha cada vez maior.
Tinhas umas asas enormes, mas um desconforto tremendo em aceitá-las.
A dor parou. Pûs-me de pé. já conseguia ver melhor. A realidade paralizou-me... eram umas asas em tudo semelhantes às de um morcego...
Chorei. Chorei compulsivamente. Já cansada, decidi engolir os soluços.
Olhei a alvorada que timidamente despontava estiquei o meu corpo, as minhas asas e atirei-me do penhasco.
Voguei, deslizei, planei, voei,.....
O medo inicial a pouco e pouco desvaneceu-se. Sim, eram estranhas as asas, mas com elas, atributo em mim jamais pensado, tinha experimentado uma sensação em estado de vigília jamais sentida. Mais leve que o ar...
Acordei cansada, sei que chorei para além do sonho. mas a sensação mais estranha que sobeja é a nostalgia deixada pelas asas arrancadas pelo despertar...
Título: Re:Tópico da Escrita em dia
Enviado por: LittleDotInMotion em 20.out.2003, 04:34:06
clap clap!! É inebriante ler os teus "delirios".
Título: Re:Tópico da Escrita em dia
Enviado por: Sacerdotisa em 20.out.2003, 13:42:50



Também bato palmas  :up :up :up  ;D ;D ;D devo konfessar-te k axo k akuando da leitura do teu texto aproveitei um pouko o poder das palavras e voei...obrigada pela boleia Ana :D ;)

;D ;D ;D Bjs e saudações cibernátikas!!!!  ;D ;D ;D
Título: Re:Tópico da Escrita em dia
Enviado por: Scorpio_Angel em 30.out.2003, 16:33:45

You're my North, my South, my East and West,
My working week and my Sunday rest,
My noon, my midnight, my talk, my song;
I thought that love would last for ever; but if I was wrong?

The stars are not wanted: put out every one;
Pack up the moon and dismantle the sun;
Pour away the ocean and sweep up the wood,
For nothing then could ever come to any good...



Adaptado de Funeral Blues - W. H. Auden
Título: Re:Tópico da Escrita em dia
Enviado por: Mercury em 30.out.2003, 18:33:26
Romeu e Julieta...Revisitados em versão pobre!!!! ;D ;D ;D


Meia Noite já é dada
Sinto o meu sangue pulsar
Será que verei minha amada
à luz difusa do luar....

Da esquerda à direita passa
A lua no cimo a brilhar
O tempo corre, oh desgraça
E eu tão farto de esperar...

Tal espera sinal me deu
Pois meu amor não era correspondido
O fogo da paixão ardeu
E a dor me fez sentir perdido...

Do bolso tirei o punhal
Cintilou à luz em tons tais
Os pulsos ensanguentados
Minha vida, esperanças jamais....


............................................. :P
Título: Re:Tópico da Escrita em dia
Enviado por: ana em 15.nov.2003, 23:30:14
  "Próxima estação: Roma"
Percorremos o trilho ainda banhados pelo sol. breves segundos depois somos sugados pela bocarra negra. Ainda me falta cruzar muitos túneis tal como se de uma toupeira amestrada se tratasse. Paramos. Abrem-se portas. Saem pessoas. Entram pessoas. Os slogans são deixados para trás.
À minha frente uma mulher. Tem a cara franzida num esgar de irritação. Face murcha, seca. Faz-me lembrar uma noz... reparo que tal como eu segue para Oriente. reparo no saco que segura com um punho fechado com desnecessária força.
Aquela mulher, e talvez a família (decido que sim, que tem família), vão de certeza comer ao jantar bacalhau com grão.
A esta altura do dia o filho já terá chegado a casa. Imagina-se um invencível piloto de fórmula 1, neste preciso momento,agarrado à consola com sofreguidão.
O marido conduz um táxi algures entre uma terra dos arredores e o aeroporto. Mais uma vez chegará atrasado a casa para jantar. Uma nota de 20 euros à mulher e uma palmadinha nas costas do filho. "Um frete difícil, mas imperdível a ter que ir e voltar à outra margem".  
Dirige-se à casa de banho.
Regressa à sala.Já o esperam na cozinha para jantar.
Ouve-se o som de uma campainha.
estação terminal. Fim da linha vermelha.
 
Título: Re:Tópico da Escrita em dia
Enviado por: Dido em 16.nov.2003, 00:27:21
“penso na morte
mas sei que continuarei vivo no epicentro das flores
no abdómen ensanguentado dos doutros-corpos-meus
na concha húmida de tua boa em cima dos números mágicos
anuncio o ciclo das águas e o estado do tempo

a memoria dos dias resiste num olhar de um retrato
continuo só
e sinto o peso do sorriso que não me cabe no rosto
improviso um voo de alma sem rumo mas nada me consola

é imprevista a metodologia das paixões
pássaros minerais afastam-se suspensos
vislumbro um corpo de chuva cintilando na areia

até que tudo se perde na sombra da noite... além
junto à salgada pele de longínquos ventos” Al Berto
Título: Re:Tópico da Escrita em dia
Enviado por: new_alien em 27.nov.2003, 18:01:34
"Andamos à procura de mais realização nas nossas vidas e desvalorizamos tudo o que parece torna-las medíocres.`É esta procura inquieta que alimenta a atitude que nos leva a pôr o nosso "EU" acima de tudo, o "EU antes de mais" tipico, que tem caracterizado as décadas mais recentes, (...), e quando esta atitude atinge as nossas relações mais intimas, tornamo-nos tão exigentes que elas se tornam quase impossiveis."

(in "A Profecia Celestina")
Título: Re:Tópico da Escrita em dia
Enviado por: new_alien em 27.nov.2003, 18:04:14
"Só se conhecem as coisas que se cativam.
Os Homens já não têm tempo para tomar conhecimento de nada.
Compram coisas feitas aos mercadores. Mas como não existem mercadores de amigos, os Homens já não têm amigos...."

(in "LE Petit Prince", St. Exupéry)
Título: Re:Tópico da Escrita em dia
Enviado por: new_alien em 27.nov.2003, 18:07:18
"Declarei que o sentido da vida era justamente divertirmo-nos com a vida, e que, se a vida fosse demasiado preguiçosa para tal, teríamos de dar um "empurrãozinho". O Homem deve estar sempre a "selar" novas aventuras, éguas intrépidas sem as quais ele continuaria a arrastar-se pela lama como um soldado esgotado...."

Milan Kundera
Título: Re:Tópico da Escrita em dia
Enviado por: NickofTime em 07.dez.2003, 16:00:18
Para quem gosta de escrever ou gostaria de desenvolver o seu potencial criativo através da escrita, aqui vos deixo uma sugestão: acabou de ser publicado um livro/bloco de notas com vários exercícios de escrita, cujo o objectivo final é propor-nos a escrita de um texto que poderemos submeter a concurso para ser publicado em Maio de 2004.

O livro chama-se Desafio: Escrever!  :)

 
Título: Re:Tópico da Escrita em dia
Enviado por: Dido em 09.dez.2003, 11:42:27
" o azar nunca mais me largou, e também não posso dizer que os negócios me tenham corrido bem.
   foi maldição, dizem.
   paciência. mas não há maldição sem desejo - e eu não páro de desejar, sôfrego... capaz de arriscar a vida e a razão.
   ou de matar."

Al Berto
Título: As Noss@s Escritas!!!
Enviado por: Devilish em 21.jan.2004, 11:18:11
 :) Olá a tod@s Ex Aequean@s ;)


Outro dia, em conversa com a Xate, chegamos à conclusão que poderia ser engraçado, criar um tópico destinado a tod@s os LGBT que têm um carinho especial pela escrita, e que gostam de partilhar o que escrevem.



                          " Quando tu não estás"

Esta noite vai ser terrível... ainda é cedo, mas sei que não virás. Detesto quando me deixas partir e não fazes nada para o impedir. As distâncias magoam-me, assim como sentir o teu olhar afastar-se de mim. E tudo porque apenas quero ser feliz...

....Estou diferente....fumo...sózinha no quarto que também é teu. Lembro-me das tuas frases doces ao telefone...e só agora sei o quanto isso significa para mim...


..."Já é tarde"- Dizias tu.
..."Tenho que ir"....


E foi isso que um dia me fez desistir de te procurar, no lugar que tambem te pertencia.

Não estás aqui, mas sinto-te.

Parei de escrever, voltei a acender um cigarro, deixo-me levar pela imaginação, mas não consigo escrever; não existem palavras para tal.
Título: Re:Tópico da Escrita em dia
Enviado por: xate em 21.jan.2004, 12:01:11
                "A vida e obra da escrava Nhanhonhas"



- Estou inocente! Estou inocente!
A Madame está lá fora, passeia no jardim, desejosa.....
Eu estou proíbida, mas espreito-a pela janela........

Anda pela casa fora, de Body preto, baton vermelho, chicote na mão, dando-me ordens. Bem, não tenho dúvidas, hoje encontra-se mais mal humorada que nunca. Como sempre, não dispensa logo pela manhã, o seu banho diário- bate-me.
-" Chora! Quero tomar banho!"
E bate-me uma vez mais. A banheira já vai meia. A cada segundo que passa, sinto o chicote no meu corpo. Finalmente a banheira está cheia. Tapou os olhos com uma venda preta e gritou:
- "Se eu imaginar que estás a por esses olhos remelosos no meu corpinho, vais sentir o chicote."
- "Sim po..."
- "Cala-te, não me apetece guinchos pela manhã."
Pego no gel de banho, na esponja, lavo-a com suavidade.
- "Hum....Hummm! Sabe bem! Agora apetece-me ouvir-te guinchar."
- "Sim minha Pérola."
O chicote...
- "Guincha outra coisa! Não gostei da sonoridade desta última."
- "Sim, excelência."
O chicote.
- " Ai! Hoje os teus ginchos estão insuportáveis."
Pediu a toalha, limpo-lhe o corpo com delicadeza. Como desejo contemplá-la.
   E no quarto de Madame...
- "Hugh! Este quarto cheira a péssimo nhanhonhas."
-Mas, Madame, mesmo antes do seu banho, eu..."
O som de um pontapé, logo seguido por um guincho.
- "Por acaso ordenei-te para abrires a retrete?"
Aceno negativamente com a cabeça.
O som de um cinzeiro a voar, logo seguido por um guincho, só que desta vez, muito mais expressivo.
- " Anda aqui qualquer coisa terrivelmente podre. E tanto tu como eu, sabemos perfeitamente o que não é limpo regularmente!"
Nhanhonhas já nem tem noção de como tudo começou. Não. Ao contrário do que poderiamos pensar, Nhanhonhas não é masoquista, mas sim, a pura encarnação sádica: contraditório? Nhanhonhas não reage, não se manifesta, parece inatingivel, nada a abala, oculta tudo, não esboça a nada, e é esse o domínio que exerce sobre Madame. Sim, são ambas sádicas; sentem prazer ao provocar dor, mas claro, cada uma delas utiliza técnicas diferentes.

 
Título: Re:Tópico da Escrita em dia
Enviado por: xate em 21.jan.2004, 15:34:27
                   "Sade, Eu, Ela e a Humanidade"


Deus castigou-me e entregou-me nas mãos de uma mulher....

Está sentada, copo na mão, cigarro na outra. É tão bonita! Que bonitos olhos verdes, são tão expressivos! Os seus longos cabelos pretos...... cheira bem.

Esta Vénus está sentada diante de mim, contudo, nem repara que eu existo. Porque a amo eu? espalha o desejo e não deixa ninguém sacear-se.

O que pode haver de mais cruel para uma lésbica, do que a infidelidade de amar e não ser amada?

Ela brinca com os meus sentimentos de uma maneira criminosa, não demonstra piedade, mas, espalha o desejo, obriga-me a procurá-la....

Olho-a, e como sempre esboça-me um sorriso, um sorriso de pedra.

Um dia, enchi-me de coragem e disse-lhe que estáva a sofrer.
Ela riu-se.
- " Então... estais verdadeiramente apaixonada...por mim?"
- "Sim, e sofro mais do que podereis supor."
- "Sofreis?"
E riu-se de novo.

Agora já não consigo estar uma hora sem ela. Constantemente procuro saciar o meu desejo de a contemplar; os seus olhos, as suas mãos brancas, os seus dedos finos e compridos, de escutar as suas palavras, de estar com ela em cada instante............

Vénus? Cheguei à conclusão que já não me é dado existir sem ti. E não é uma mera frase, uma fantasia....Sinto o quanto a minha vida está ligada à tua....

Por entre os domínios; as escravas, as Madames e os brinquedos.... E como sempre, as maiores paixões, surgem dos contrastes. Se não posso ser o martelo, serei a bigorna....

Existem muitos motivos para justificar o amor por uma mulher; quando ela nos esmaga pela sua beleza, pelo seu temperamento, pela sua inteligência, pela sua força de vontade, ou então, simplesmente, por coisa nenhuma.

Nunca  te sintas segura ao lado da mulher que amas, pois ainda que te custe, ela nunca será toda tua.

Penso que, para subjugar para sempre uma mulher, se deve, antes de mais, ousar ser-lhe infiel.
Com efeito, a infidelidade da mulher amada possui um encanto doloroso, é a maior volúpia. Sim, a pior das dores, e o melhor amor.
 -"Se ousasses enganar-me, deverias ter a grandeza suficiente para me dizeres."
- "Também te amo, mas não só."
Fiquei pálida, tinha antecipado a resposta. Calei-me.
O seu olhar era frio como um punhal. Insisti, novamente:
- "Então se me amas, aceita seres minha mulher".
- "Só te amo a ti." Disse ela.
- "Mas também quero ser cortejada por aquele princípe."
Calei-me outra vez, senti-me dilacerada pelas suas respostas; eu nunca poderia ser o homem que ela desejava.
E nessa mesma noite, enquanto dormitava, decidi mil coisas e rejeitei-as a todas.

De manhã, durante o pequeno almoço, entre pensamentos...
- " Só peço que seja por qualquer coisa melhor....."
Título: Re:Tópico da Escrita em dia
Enviado por: Devilish em 22.jan.2004, 11:57:56
                                    "You And Me"



Poderia ter-me embriagado de ti, mas não o permiti. Recordo uma manhã em que nos deitámos juntas. Recordo como apoiaste a cabeça nas minhas costas e deslizavas suavemente a tua mão sobre as minhas ancas. Observo a mão pressionando, não recebendo nada, reclino-me e observo a partida, fluindo em mim o alívio e a libertação.
Aspirei a tua repiração, um calor invadia os poros da minha pele, reneguei o vulgar prazer, deixei-me levar pelo pensamento....
Desfigurado e suado....calmo e fresco se torna o meu corpo, permaneci rígida, firme, não tentei desesperadamente fugir. Tu interrogas e eu escuto, respondo que não posso responder, tens de descobrir por ti.
Está em mim.....não sei o que é.....mas sei que está em mim. Durmo....durmo longamente.
Ternamente te passei a usar.
Despiste-te para mim, não foste culpada.
Vi-te atraves do meu pensamento, tu não me vis-te, mas eu vi-te e amei-te.
Uma mão discreta também percorreu o teu corpo. Demorei-me. Saciei-te.
Este foi o contacto dos meus lábios com os teus, este foi o murmúrio do desejo.
Contemplei-te, mas não fiquei por lá, regressei novamente.
Ao meu lado, vozes de sexo e de consumação eram transmitidas por alguém que eu desejava.
Não condeno, até porque vanglorio as amantes e as que dormem abraçadas; embora as amantes me sufoquem, são demasiado para mim, porque sinto os sons, o seu clímax e o seu final.
Talves se me conhecesses melhor me tivesses amado.
Achas que faço de propósito? Talves não o faça a todas, mas a ti o farei.
Tornaste-te fria, insensivel, amante da alma, apenas não tinhas conhecimento do que falavas.
Os meus desejos carnais há muito me sepultaram.
Não acreditaste, não podia ser, e simplesmente percebi que da tua parte me oferecias um término, que te resignavas. E nesse momento, obtiveste o desdém e a calma de alguém que a teu lado se encontrava.
Eu ensino as mulheres a afastarem-se de mim.
Estarás a aprender?
Fala com franqueza, mais ninguém te ouve, e eu não fico por muito tempo.
Falarás antes de me ir embora, sei que me acusas, queixas-te do meu comportamento. Mas se eu não fosse assim, quem seria?
Sei que não sou traduzível.
Partirei e entregar-me-ei ao meu novo destino. se me quiseres ver de novo, procura-me onde mais ninguém me encontrará.
Dificilmente saberás quem sou, ou o que significo.
Continuarei a reclamar o melhor de ti, o mais delicado, olhando-te simplesmente.
Dar-te-ei possívelmente companhia. Se à primeira não me encontares, não desanimes, se não estiver num lugar, procura-me noutro.
Algures estarei à tua espera.
À espera de ti ou da tua ausência, enfim, quem me alcançar primeiro.
Título: Re:Tópico da Escrita em dia
Enviado por: Eurydice em 02.fev.2004, 18:23:11
"Não tenho tempo para o tempo.
Perco as horas pelo caminho, os minutos diluem-se na cinza do cigarro...e os segundos não são mais do que ausência.

Invado os meus dias com perguntas, inseguranças, testemunhos, saudade...meto tudo na mala e confundo-me com outras pessoas numa rua qualquer desta cidade...

A cidade, o coração da cidade...embeleza a tristeza, escreve o que eu não consigo sentir, diz-me as palavras que os meus ouvidos aprenderam a rejeitar...abraça-me com uma doçura que se torna eterna.
A cidade e o tempo envoltos em mim como vida..."

Escrito agora.  :-*
Título: Re:Tópico da Escrita em dia
Enviado por: ana em 12.abr.2004, 22:21:53
Exercício de execração

Tragam-me a folha amarelada da minha certidão de nascimento.
Quero rasgá-la com os próprios dentes!

Ou melhor:
tragam as estatísticas da vossa própria existência…
Olhai-me a conculcar com olhos raiados de sangue,
dentes cerrados de desprezo os números que vos apontam!
Odiai-me! Desprezai-me! Atirai-me à cara a vossa desaprovação!
Queimo-a na pira pública de todo o meu repúdio!
Não sou mal de coisa nenhuma,
Por isso não me atirem à cara o bem, o correcto
que acham que eu renego, que eu abandono…
Vivei o diminutivo da vossa vida!
Guardai as vossas certezas nas mesmas caixas
em que guardais o vosso ódio.
O meu? Ah o meu!
Despejo-o sobre o vosso conceito
formado antecipadamente
e sem fundamento sério ou razoável!

--------------------
não é pela minha não heterossexualidade que vão ajuizar a minha normalidade!
Título: Re:Tópico da Escrita em dia
Enviado por: PornStar em 13.abr.2004, 01:06:51
"Desabafos, desafios e malukeiras?"

"frustrado, irritado e pensativo...
definições, classificações, opiniões!
Mas afinal o que somos ou QUEM somos?
São acções, pensamentos e atitudes que aparentemente nos definem!
Mas será isso que somos na realidade ou isso é apenas aquilo que mostramos e apenas nos podemos
definir pela nossa verdadeira essência?
Desabafo com ninguem, desafio toda gente e acabo a pensar nas malukeiras que fiz, que penso fazer, ou que me ocuparam os pensamentos momentaneamente? são incógnitas da mente, algo que não domino e nem penso seker em entender, pois se o tentasse fazer este texto neste momento pra mim não fará sentido, apesar de me interrogar se algum de vcs o entenderá!!"

um desabafo sem nexo  :P



 
Título: Re:Tópico da Escrita em dia
Enviado por: Ines em 06.mai.2004, 17:25:38
 :curtain


O Anjo

O Anjo que em meu redor passa e me espia
E cruelmente me combate, nesse dia
Veio sentar-se ao lado do meu leito
E embalou-me, cantando, no seu peito.

Ele que indiferente olha e me escuta
Sofrer, ou que feroz comigo luta,
Ele que me entregara à solidão,
Poisava a sua mão na minha mão.

E foi como se tudo se extinguisse
Como se o mundo inteiro se calasse,
E o meu ser liberto enfim florisse,
E um perfeito silêncio me embalasse.





Sophia de Mello Breyner



:-* a tod@s :up
Título: Re: Sonhos....
Enviado por: Asrai em 01.jun.2004, 18:38:06
Agarrei o pássaro da ilusão
quando o vi na árvore poisar
ouvi cantar uma canção
e comecei a sonhar, comecei a ver o mar.

agarrei o pássaro da ilusão
e então percebi que não passava
de um sonho
de uma ilusão criada por mim
chorei.  :'(

Título: Re: Sonhos....
Enviado por: Asrai em 07.jun.2004, 16:24:28
Eu queria ser ...
 :)

Luar...

Para brilhar na noite dos
amores incompreendidos

Silencio...

Para fazer calar as vozes que
atordoam o coração

O amanhecer...

Para fazer um dia a mais de felicidade

Luz...

Para os que vivem na escuridão


Noite...

Para acalentar os lutam
durante o dia


Vida...

Para fazer nascer os
que estão morrendo


Lagrimas...

Para fazer chorar os de
coração insensíveis


Sorriso...

Para encontrar os lábios dos amargurados


Amor...

Para uniras pessoas...
e lhes dizer que sou
apenas uma delas

Na verdade amigas (os)
eu queria ser mesmo
um beija flor..
para entrar pelas vossas janelas
e dar um beijo ou um abraço.


  :-*
 












Título: Re: Sonhos....
Enviado por: moon_angel em 10.out.2004, 15:38:33
Falem dos vossos sonhos....


E nada melhor para iniciar este tópico q um texto lindo sobre os sonhos.... Deliciem-se....

"Fecho os olhos e tu logo apareces devagar para te apoderares de mim.

Em todos eles só muda a situação e o sitio mas o desejo, esse é sempre o mesmo. Levas-me a loucura e deixas-me louca.

Despertas os meus maiores desejos, sentimentos e colocas de parte os meus receios, angústias ou melhor dizendo os meus medos.

Apareces sem eu te convidar, mas mesmo assim eu não tenho forças para te renegar, pois, apoderas-te do meu corpo e da minha alma.

Dás-me prazer e vontade de me afirmar, mas é só por alguns instantes quando te vais, crias um sentimento de revolta e indignação, até eu chegar de novo a mim e chegar a conclusão que tudo não passou de um sonho, uma ilusão.

O sonho repete-se e eu nunca lhe apreendi o seu rosto, mas do corpo esse sim, conheço perfeitamente todos os recantos, todas as concavidades, circunferências, etc...

Mas o problema (porque tudo na vida tem problemas) não é o seu rosto porque até nunca dei muita importância a isso, mas sim o problema de viver e principalmente viver depois de um sonho.

Se a vida fosse um sonho então eu saia contigo para a rua, praias, discotecas, bares, etc.. sem medo de te dar a mão, um abraço, um beijo, como acontece no sonho.

Este sonho não me largará enquanto eu não decidir passar do sonho à realidade, ele persegue-me porque o meu corpo prefere sonhar que viver.

Sonho este que acaba sempre ao longo de um abraço amoroso fortíssimo onde eu digo o seguinte "...por mim ficava para sempre assim..." e ela vai-se e eu acordo para a realidade toda excitada  (excitada a todos os níveis), depressa me tento refazer daquele sonho e voltar a realidade que me custa muito a aceitar.

Mas como toda a gente sonha e vive em torno de um sonho, se não a vida não tem sentido, então este deve ser o meu sentido de vida, que é sem dúvida tentar lutar ao máximo para conseguir superar as barreiras e os dogmas da sociedade portuguesa para assim alcançar o meu objectivo que é viver feliz ao lado de alguém que amo."
Título: Re: Sonhos....
Enviado por: temporary_user em 10.out.2004, 15:57:28
Deliciem-se....

Realmente bastante delicioso... :D

Muito fixe... :up
Título: Re: Sonhos....
Enviado por: Shnack em 10.out.2004, 16:14:49
:) Gostei muito do texto,
sinto-o,
revejo-me nele!!

 :-*
Título: Re: Sonhos....
Enviado por: moon_angel em 10.out.2004, 16:21:55
o texto realmente é maravilhoso....


e esta "cravejado" de verdade... :)
Título: Re: Sonhos....
Enviado por: origo em 12.out.2004, 14:02:35
Falem dos vossos sonhos....


E nada melhor para iniciar este tópico q um texto lindo sobre os sonhos.... Deliciem-se....

"Fecho os olhos e tu logo apareces devagar para te apoderares de mim.

Em todos eles só muda a situação e o sitio mas o desejo, esse é sempre o mesmo. Levas-me a loucura e deixas-me louca.

Despertas os meus maiores desejos, sentimentos e colocas de parte os meus receios, angústias ou melhor dizendo os meus medos.

Apareces sem eu te convidar, mas mesmo assim eu não tenho forças para te renegar, pois, apoderas-te do meu corpo e da minha alma.

Dás-me prazer e vontade de me afirmar, mas é só por alguns instantes quando te vais, crias um sentimento de revolta e indignação, até eu chegar de novo a mim e chegar a conclusão que tudo não passou de um sonho, uma ilusão.

O sonho repete-se e eu nunca lhe apreendi o seu rosto, mas do corpo esse sim, conheço perfeitamente todos os recantos, todas as concavidades, circunferências, etc...

Mas o problema (porque tudo na vida tem problemas) não é o seu rosto porque até nunca dei muita importância a isso, mas sim o problema de viver e principalmente viver depois de um sonho.

Se a vida fosse um sonho então eu saia contigo para a rua, praias, discotecas, bares, etc.. sem medo de te dar a mão, um abraço, um beijo, como acontece no sonho.

Este sonho não me largará enquanto eu não decidir passar do sonho à realidade, ele persegue-me porque o meu corpo prefere sonhar que viver.

Sonho este que acaba sempre ao longo de um abraço amoroso fortíssimo onde eu digo o seguinte "...por mim ficava para sempre assim..." e ela vai-se e eu acordo para a realidade toda excitada  (excitada a todos os níveis), depressa me tento refazer daquele sonho e voltar a realidade que me custa muito a aceitar.

Mas como toda a gente sonha e vive em torno de um sonho, se não a vida não tem sentido, então este deve ser o meu sentido de vida, que é sem dúvida tentar lutar ao máximo para conseguir superar as barreiras e os dogmas da sociedade portuguesa para assim alcançar o meu objectivo que é viver feliz ao lado de alguém que amo."


Moon_angel,

de onde te apareceu esse texto?
parece tão pessoal e simultaneamente "aplicar-se" a tanto e a tant@s..

Não sei se me é permitido, mas gostaria de comentar algumas partes... não entendas no sentido de "denegrir" o seu significado, apenas de expôr algumas ideias que a mim me parecem importantes "vir ao de cima". Já agora... fiquei deliciada ;)

Os sentimentos que acompanham esse sonho, quer no seu início e desenvolvimento, quer no seu após, estão relacionados com a pessoa que os sente. Não digo que outra pessoa não os sentiria também, no entanto poderia não os sentir a todos ou mesmo experienciar outros sentimentos não mencionados no texto. Digo isto, fazendo especial referência aos sentimentos do após, sentimentos esses cuja existência pode potencializar os sentimentos sentidos no durante e cuja a memória guarda com tanto valor.

Na ausência de sentimentos negativos, todos os sentimentos seriam positivos? Ou simplesmente deixaria de existir tal denominação? O que quero dizer é que... para darmos valor ao que é bom, é preciso conhecer o que é mau?!

Porque seria apenas um sonho? Porque havemos de desejar que os momentos mais belos e felizes pertençam a um sonho? Só nos sonhos nos permitimos ser felizes? A realidade nem sempre é o que desejamos, mas isso também depende de nós. A realidade pode ser melhor que um sonho, porque acontece mesmo. A pessoa que desejamos, que amamos, que queremos fazer feliz e que nos faça feliz, existe na realidade, é tão real que queremos que o sentimento nos possua e nos faça viver.

No entanto, também há o outro lado da moeda... não controlamos a realidade que nos rodeia... por vezes somos mesmo submetid@s a ela.

Talvez ainda não se possa "andar" como se gostaria e continue a haver medo em relação a isso, mas nem sempre. Por vezes, esse medo é a "solução" para a nossa timidez, e nós deixamos.

O corpo prefere o sonho à realidade... porquê? Porque aí pode ser "livre", livre de preconceitos, de julgamentos externos e internos, livre de inibições auto-impostas?

E se a realidade pudesse ser como esse sonho? Mesmo sendo a realidade como é, com todas as imposições a que ainda nos temos de sujeitar, não seremos capazes de viver os nossos sonhos?
Título: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: NecroRomancist em 06.nov.2004, 16:18:35
As vezes quando estamos em baixo da-nos para escrever.Aqui estao algumas coisas que escrevi.Se costumam escrever metam aqui alguma coisa, e sempre um prazer ler coisas novas :)
 
------------

Meu querido amigo aqui estamos nos,sozinhos so com a companhia um do outro para sobreviver.A vida foi-nos madastra, mostrou-nos desde cedo o que é chorar,o que e recolhermos em nos mesmos para fugir aos gritos de um mundo que embora eu acredite que nos ame parece querer fazer-nos sofrer,que todos temos uma cruz a carregar.Rebelamo-nos,tentamos fugir de ser,de viver.Voar para um mundo de fantasia onde sejamos apenas sombras. Inhumanos, acima do bem e do mal, longe de tudo e proximos de nos mesmos,preocupados apenas com o ser,apenas com a nossa infeliz condição.Fumemos um cigarro meu amigo,talvez o fumo nos faça companhia.Recolhidos em nos mesmos perdemos a capacidade de nos dar,de amar alguem como se o mundo nao tivesse mais razao de existir.Lutemos,tentemos romper com estes limites que nos foram impostos,quem sabe se por nos mesmos,lutemos para tentar estar vivos,para que a nossa solidao nao seja a nossa razao de viver.Deixemos as lagrimas e amarguras para tras e vivamos.Porque temas em nao me acompanhar,meu amigo?Desculpas.......


--------

Deitado neste imenso mar verdejante sinto-me abraçado.Submergido por esta leve brisa ,uma calma absoluta invade-me.Ate o comboio que passa no horizonte parece sossegadamente nos admirar.Unidos por muito mais que os nossos corpos podem explicar, o mundo envolve-nos.Deixamos de existir, para la da consciencia de nos mesmos, as nossas almas dançam juntas ao som desta brisa.Toquemos nas nuvens, soltemos o nosso espirito, a nossa vergonha por todo este imenso ceu azul.Unidos conosco e com o mundo permaneceremos agora e para todo o sempre.Nao deixaremos que chova, guardioes desta beleza infinita seremos.Espiritos deambulando ao sabor do vento,envoltos, unidos na nossa essencia para sempre viajaremos.Sem vergonha e sem pudor Amo-te.
Título: em busca de mim mesma...
Enviado por: amor vs dor em 17.dez.2004, 11:08:10


sinto-me perdida... vou em busca de ti mas nao te vejo, nao te oiço, nao te sinto...
percisava de te falar ao coraçao, mas, tu nao deixas e eu sigo o meu rumo sem ter direcçao!
sim, queria falar ou ate mesmo gritar o quanto me preenches mesmo sem te poder tocar...
em busca da palavra precisa para definir o teu olhar de luz, os teus labios de veludo, a tua pele de aroma agradavel, o teu corpo, a tua alma onde gostava de me encaixar, entregar... de amar.
e escrevo, sem conseguir transmitir o verdadeiro sentido da tua pessoa na minha...
sem ti a meu lado, levo a vida a sorrir por fora mas num pranto interior que desconheces existir. tu, e todos aqueles que me olham e sorriem.
das-me a tua mao, dou-te o meu coraçao!  :'(
noites passadas a teu lado, sentido o teu calor, o aconchego, uma paz interior... no teu quarto onde doces loucuras ficaram entre as paredes fieis da tua casa e em beijos de amor que por breves momentos trocamos...
so que, mais tarde acordei, este sonho nao passou disso mesmo e eu, em silencio e dor, parti em busca de um alguem...
pensando melhor, parti em busca do que me tiraste...
minha alma, vida, coraçao...
ando em busca de mim mesma...
sera que sim, sera que nao?


Título: Re: em busca de mim mesma...
Enviado por: pita_bi em 31.dez.2004, 12:22:33
"a minha vida escapa-me pelas maos
sem ti sinto um peso no coração
sinto-me perdida
só me resta cair no chão"

(excerto de uma coisa tipo poema que fiz num momento menos bom da minha vida)
Título: Re: Tópico da Escrita em dia
Enviado por: Vinilla em 07.fev.2005, 03:00:24
Discreto


Vira de página que não vira, que o pó um dia teimou em fazer esquecer, sebentas de mãos, punhos e caras lindas, de perfumes de jardins….para mim, o nada.
A minha vida já foi o cosmos, o horizonte no horizonte, o equador no meridiano, a elipse côncava e de feixes na horizontal, o problema que não se resolve, a consulta que se falta, o medo de ter medo e o candeeiro aceso de madrugada, o pão sem manteiga, o vinha que virou vinagre, a minha vida já foi…
Foi doce maravilha, ternura em casta de anteontem, bordel em noite de safira, …. Já foi….
Pássaros que nos olham de cima, o “zigabundear” de sono que dos meus olhos se apoderou….a noite… o incenso queimado que cheira a canela, jarra de barro pintada, caravela em terra que olha o mar, perdigoto sem medo debaixo de asa… o rio, turvo….. onde estou?
Tinto palheto, anzol sem isco, cana velha de uso. Mas vontade… muita vontade de “empatilhar” o anzol, de correr para a rocha. Olhar…
E sentada, nem que mais não seja, a imaginar o que a minha vida já foi.


Título: Re: Tópico da Escrita (LGBT) em dia
Enviado por: mIsS em 05.abr.2005, 23:29:07
Amor! queria espalhar amor!
espalhar umas gotinhas ali e acolá
no meio, no centro ou no canto
fosse onde fosse, mas ele que se espalhe
os povos que se unam
as diferenças que se complementem
os abraços que se sintam
o beijo que se pratique
e que a paz se estabeleça!

mIsS  :-*
Título: Re: Alguem ama escrever?
Enviado por: Pink_Dream em 22.set.2005, 10:12:24
Sim sim sim =) Quantos por vida e obra não encontram na escrita o caminho fácil para o entendimento dos outros consigo. Quantos não fazem da escrita música ou uma família inventada.
Entendo bem o que dizes. Gosto muito de escrever, ou serão as palavras que gostam de mim?! Não sei bem quando tudo começou mas fui tomada por esta via com milhares de vias onde as palavras são a arma mais forte da minha alma!
Ainda que outros se tornem surdos e cegos quando me ouvem ou encontram palavras minhas, haverão sempre outros em que os seus olhos esbugalhados brilham enquanto emaranhados em palavras que fazem teatro e música e vida!! =)
Abraços!!!
Joana  :)
 
Título: Re: Alguem ama escrever?
Enviado por: NecroRomancist em 22.set.2005, 12:49:52
Eu amo escrever  :)  Tem-se tornado mais uma necessidade do que um gosto mas prontos...
Costumo escrever baseado nos mundos que certas musicas, livros, imagens me fazem percorrer ou entao mesmo para desabafar
Título: Re: Alguem ama escrever?
Enviado por: seraphine em 22.set.2005, 18:05:08
Sou uma apaixonada pela escrita, desde que me lembro.

Em criança, costumava escrever pequenas peças de teatro e oferecia-las aos meus pais. Mas esta é somente a pequena fatia que dei a conhecer a quem comigo convivia. Eu escrevo desde sempre. Tenho um blog, tenho documentos em word que ascendem às centenas de páginas, tenho cadernos e cadernos cheios de textos, de poemas, de pequenas frases que os meus dedos produziram até nas alturas mais estranhas. Mas não escrevo somente por paixão. A escrita para mim é uma necessidade, um ímpeto incontrolável que eu há já muito desisti de tentar domar (há muitos anos escrevi "eu escrevo como quem respira e tem fome e sede da palavra") e não foram raras as noites em que escrevi até ser dia, ou as vezes em que tive que me levantar durante o sono para escrever. Trago sempre um caderno livre comigo, para não incorrer no risco de repentinamente sentir o impulso para fabricar palavras, frases ou textos, e ter que ir a correr até a um café e rabiscar tudo num guardanapo (como já me aconteceu).

Mas, curiosamente, nunca partilho nada disso com ninguém. Escrevo para a gaveta e apraz-me sentir que tudo quanto sou e ali está contido, está seguro.
Título: Re: Alguem ama escrever?
Enviado por: Wolf em 22.set.2005, 22:43:29
j'adore

Aliás, tem mesmo de ser. A escrita veio até mim, antes mesmo de me interessar por ela.. (lol, é muito clixé mas é verdade)

É por isso é k mantenho o meu Blog actualizado sempre que posso!
Título: Re: Alguem ama escrever?
Enviado por: c em 26.set.2005, 18:48:28
aqui podes encontrar alguns prémios/concursos literários para obras inéditas:

apel (http://www.apel.pt/)
..............

quanto a famalicão encontrei o mais próximo de literário que encontrei foi um prémio que tinha a ver com história contemporânea, mas entretanto cansei-me de procurar.  ::)


(c.)
Título: Re: Alguem ama escrever?
Enviado por: MisticThought em 26.set.2005, 23:22:15
Eu tenho uma relação complicada com aquilo que escrevo... normalmente quanto mais escrever menos bem me sinto, porque a escrita para mim é como que desabafar, colocar lá as minhas emoções, as verdadeiras, e não "peças de teatro", ou histórias para agradar. Tanto escrevo perguntas, como coisas abstractas, ou até uma história, mas os sentimentos estão sempre lá, disfarçados ou não... já preenchi 2 cadernos, também já escrevi mais do que agora, o que até nem é muito mau sinal suponho...
Título: Re: Alguem ama escrever?
Enviado por: urban chill em 27.set.2005, 20:31:23
Tive a ver uma coisa q escrevi há uns tempos e o que sinto quando escrevo o q procuro é o que vos deixo a seguir....  :)

"Será que se consegue sentir?
Aquilo que escrevo e ponho no papel, aquilo que desenho e fica na folha.
E o que digo? Será que é possível explicar sem falar?
Aquilo que a mim me toca, me comove é em muito diferente e distante...
Ausent e presente. Até em mim...
E quando tentamos vivamente que o outro sintaa, vibre com a mesma frequência que nós? Olhe através dos nosso olhos, sinta através das nossas mãos, reaja com o nosso sentido crítico.
Muitas vezes, exercitamos em nós, esse desafio! E tentamos sentir aquele pedaço de realidade...
E estar onde estivemos, lembrando a intimidade da partilha, no local.

Guimarães 18-04-05 "
Título: Re: Alguem ama escrever?
Enviado por: urban chill em 28.set.2005, 03:09:35
Será preciso o local ideal para escrever ou será apenas a ilusão da certeza que será formidável escrever num lugar seguro?
Há locais que nos transmitem uma energia inquieta, que nos faz vibrar para além de tudo o mais...
É nessas alturas que um papel e uma caneta, nos lembram a perfeição da nossa procura. Bastam, para nos sentirmos livres no branco da folha. Chegam para libertarmos as palavras que teimam. Quando percorrem o nosso imaginário.
E é aí que o simples acto de tocar a folha com a tinta da nossa caneta, se transforma e ganha vida para além do pensamento. Aí sim, sou livre!

metro de lisboa a caminho do IST, 13-04-2005
Título: Re: Frases e Pensamentos
Enviado por: Scorpio_Angel em 02.out.2005, 23:34:19
Para alguém que ainda não sabe o quão extraordinária é:

O ponto de partida - e todas as chegadas são partidas um dia - é o caos.
Todas as ilusões contêm sempre um reflexo de si mesmas - e esse mesmo que nos magoa faz-nos reviver no minuto seguinte os momentos mais belos.


A tua escrita toca os nossos sentidos. Obrigado.
Título: Re: Escritos
Enviado por: alis volat em 12.jan.2006, 13:55:03
 Rouba-me a voz. E tem a audácia de me querer o pensar. Oh! E eu deixo. Este espaço de requintada pequenez projecta em mim a sombra das suas paredes, constringe, sufoca e tolda de mácula negra a íris. Por todo o lado há adstringências e protuberâncias inesperadas de claustrofobia inerte que germina da agressão. Querem o meu pensar e os meus sonhos, todos os delírios juvenis desenhados na expectativa de um feixe de luz, uma leve transparência de negro aveludado, um derradeiro raiar de um sentido inesperado de vida. Escoriado coração, açoitado, desterrado, vais desfibrando, definhando como a memória cantarolada num delírio de luz de um eu distante, um eu em forma de mim, todo pleno de cadenciados e decisivos gestos, eu reconfortado, reconciliado com a plenitude porque o eu trôpego e esquisso definha no escuro.

Não desperto, melhor, não sei, há uma sucessão intercalar de negros, um após o outro, uma certeza muda, negro, um zumbido inaudito, negro... Há uma linha ininterrupta de sentido, ziguezagueia e parece desmaiar, perde a tonalidade, reacende mais à frente e ganha voz, troça de mim, enrodilha-se (como eu) a um canto e escarnece. Urge-me num desafio e eu irrompo crepitante um fogo extinto e quase derrubo estas paredes…quase, sonho. Quase…Rio-me dos meus passos comprometidos, da minha fraqueza de membros da sordidez de viver cativo por vontade.

Um dia saio e não retorno – atiro – o espaço devolve-me as palavras irradiadas de uma fraqueza vil que, estranguladas, flutuam leves por entre as máscaras por despir.

---------------------------------------

Hoje vi-te de novo e por instantes senti a incubência do teu olhar, tão transparente e desnudo que forjou o teu pulsar na minha alma. Foste saciedade e fome, e tudo o mais era função de ti.
Título: Re: Escritos
Enviado por: BloodTears em 12.jan.2006, 18:27:24



A solidão aperta
A cada corredor, a cada olhar
E sem piedade desperta
O impulso para matar...

De matar a mais indefesa alma
Que me possa surgir
Sem pena ou súbita calma
Até emergir...

E cegos quero-vos
Para que não vejam o sacrifício
Meros servos
Mantêm vivo o meu vício...

De tirar vidas assim
Sem voltar atrás
E assassinar sim
O mais débil e voraz...

E não penso em parar
Porque matar é viver
Cada segundo ensanguentada.
Título: Re: Escritos
Enviado por: new_life em 11.fev.2006, 02:39:13
talvez so se lembrem dos meus defeitos neste momento... talvez nao se lembrem das lagrimas k apanhei, talvez nao se lembrem do que escrevi, talvez fechem os olhos à realidade... talvez me tenham dito: "jamais te quero mentir" e por não o quererem fazer, e por nao quererem dizer a verdade.. tivessem preferido deixar-me para trás, do que enfrentar realmente o que se passava. apagaram o bem, e deixaram apenas ficar o mal, e é assim que as pessoas de quem mais gostamos, tambem sao aquelas pessoas que mais nos magoam...e que mais tarde mais repugnância nos causam, só de olhar...
Título: Re: Escritos
Enviado por: Arms em 16.fev.2006, 00:10:12
O que sou, não sou

Para alguém que não desenha,
Sou um artista.
Para alguém que não escreve poesia,
Sou um poeta.
Para alguém que não lê,
Sou um intelectual.

Para alguém que desenha,
Faço apenas rabiscos.
Para alguém que escreve,
Tenho falta de estrutura.
Para alguém que lê,
Eu sei pouco.

Para alguém que não pode ser,
Eu sou.
Título: Os Poetas da Rede
Enviado por: FalsoDeus em 21.fev.2006, 22:24:29
Ok, esta é uma ideia que eu tive graças ao fórum, quando alguém disse que queria conhecer músicos e a gumby (se não me engano) disse "porquê só os músicos? Devia ser engraçado ver as capacidades artísticas do pessoal da rede" (ou algo do género)

basicamente, fiz um "esboço" do que poderia ser um concurso de poesia na rede. Quere opiniões, ideias e até voluntários para ajudar, para evitar sobrecarregar os nossos queridos moderadores. Ok, aqui vai:

Objectivos:

- Dar a conhecer melhor as capacidades artísticas do pessoal
- Promover o estabelecimento de novas relações de amizade/conhecer novas pessoas/conhecer melhor as pessoas da rede, em especial entre as cidades
- Possibilidade de expôr/publicar poemas seleccionados por nós mas protegidos por copyrights e anónimos se o autor assim o desejar
- Organizar um concurso por cidade, votando-se os melhores, e depois organizar uma competição nacional entre o primeiro de cada grupo

Prémios (estes têm de ser pensados bem):

- Se possível, prémio de participação (será complicado)
- prémio de melhor por grupo
- melhor nacional

Regras:

- Os poemas têm de ser redigidos em português;
- Têm de estar directa ou indirectamente relacionados com a temática lgbt
- De forma a evitar confusões, será estabelecida uma data limite (x) de entrega dos poemas e, no dia seguinte (x+1), cada grupo organiza um poll com os poemas obtidos. Será necessário um nome para o poema, e deve ser acompanhado pelo nome e/ou nick do autor;
- Os comentários e votos devem ser distribuídos após leitura integral dos poemas de todos os participantes dos grupos, de forma a não haver discriminação dos últimos poemas redigidos;
- É proíbida a cópia ou tradução de poemas já redigidos;
- A estrutura dos poemas não é fixa (sem qualquer esquema rimático obrigatório, tipos de versos, etc.)
- Não devem ser eróticos (esta regra deve ser discutida, porque eu próprio não sei se sou a favor)
- Os poemas não podem ser copiados por ninguém sem que esta pessoa peça autorização ao autor;
- Deve estabelecer-se uma data limite para os votos

- A nível nacional, após se apurarem os vencedores organizar-se-à uma outra votação com estes (evitar "patriotismos") e, após uma data limite, apura-se o vencedor

E é este o tal esboço. Ideias procuram-se
Título: Re: Os Poetas da Rede
Enviado por: Thumbnail em 22.fev.2006, 07:12:04
Poetry is my life! Conta comigo. Chutas o que precisas e eutento ajudar xD
Título: Re: Os Poetas da Rede
Enviado por: FalsoDeus em 22.fev.2006, 08:57:24
Poetry is my life! Conta comigo. Chutas o que precisas e eutento ajudar xD

lol, obrigado :P

isto agora o que é preciso é saber o que falta/ o que está a mais. A partir daí é só escrever  ;D
Título: Re: Os Poetas da Rede
Enviado por: Thumbnail em 22.fev.2006, 10:48:04
eu confesso que me faz um bocado de confusao estas cenas pk organizaçao de cenas a nivel virtual é mta areia para mim por isso nao tenho boa base de apoio. das-me o material base e eu tento construi-lo com os restantes.
Título: Re: Os Poetas da Rede
Enviado por: EYre em 22.fev.2006, 16:55:05
Ó FalsoDeus, eu até alinhava, porque gostei da ideia, se soubesse escrever poesia. Há uns tempos atrás eu tinha a mania que sabia escrever bem, mas agora... :-\ Sei lá, para já declaro-me simpatizante da tua ideia e pode ser que me venha alguma inspiração para escrever e para poder concorrer neste concurso. 8)
Título: Re: Os Poetas da Rede
Enviado por: Arms em 22.fev.2006, 17:03:03
Gostei da ideia. ;D

Título: Re: Os Poetas da Rede
Enviado por: NecroRomancist em 22.fev.2006, 18:56:35
Grande ideia :D. Conta comigo :)
Título: Re: Os Poetas da Rede
Enviado por: Wolf em 22.fev.2006, 19:14:31
e datas?

(boa ideia, by the way)

 :)
Título: Re: Os Poetas da Rede
Enviado por: Sakura em 22.fev.2006, 19:43:53
FalsoDeus, folgo em saber que foi uma ideia que agradou a bastantes membros aqui do nosso fórum :)

Se precisares de algum tipo de apoio a nivel de organização tens o meu msn podes sempre entrar em contacto :)

Quanto à escrita em si.. sou mais de escrever prosa, mas posso sempre tentar  lol
Título: Re: Os Poetas da Rede
Enviado por: FalsoDeus em 24.fev.2006, 10:57:11
ok, mas eu preciso mesmo era de saber se falta alguma regra ou está alguma a mais :P

se calhar devia mover-se isto para "geral", para mais pessoal ver

quanto a datas, bem, tv até dia 1 de abril ou assim...
Título: Re: Os Poetas da Rede
Enviado por: Sakura em 24.fev.2006, 19:17:46
Neste momento não estou no Porto mas quando eu voltar podemos elaborar um mail para mandar à direcção com todos os detalhes desse teu projecto, isto claro para tudo se realizar com o devido consentimento :) Depois é só esperar pela luz verde!

Se quiseres eu depois ajudo-te :)
Título: Re: Os Poetas da Rede
Enviado por: cat em 24.fev.2006, 20:14:09
soa-me fixe, quero participar [smiley=sim.gif] [smiley=feliz.gif]
Título: Re: Os Poetas da Rede
Enviado por: Eurydice em 24.fev.2006, 23:32:15
Só poesia?....Pq não pequenos textos...? Com limite claro...
Título: Re: Os Poetas da Rede
Enviado por: FalsoDeus em 25.fev.2006, 12:23:35
ok, então adiciona-se a possibilidade de prosa poética (estilo que até existe ^^)
No entanto, este segundo terá de ter uma limitação no número de palavras permitidas (algo decente, obviamente ;) )
Título: Re: Os Poetas da Rede
Enviado por: epilepsy em 25.fev.2006, 20:58:54
FalsoDeus,
Acho que é uma ideia bastante interessante! ;D
É uma questão de saber quem são os interessados e falar com "as autoridades" lol
Título: Re: Os Poetas da Rede
Enviado por: Eurydice em 26.fev.2006, 22:57:48
Eu estou nessa :)
Título: Re: Os Poetas da Rede
Enviado por: FalsoDeus em 27.fev.2006, 11:14:39
isto agora é só falar direito com a saki ou outro moderador e começar a planear algo "rígido" e completo para colocar num tópico geral e ver se é possível organizar algo em "cada" cidade, ou se vamos ter de fazer com todos num só :P

De qualquer forma, se puderem vão já planeando os vossos textos ;)

QUERO VER ORIGINALIDADE PESSOAL!
Título: Re: Escritos
Enviado por: eye of angel em 04.mar.2006, 18:15:19
Acabou-se tudo.....
 
Ja nao tenho mais forças...
Ja nao kero mais viver......
Ja nao kero mais sofrer...
Ja nao kero mais esta dor....
Ja nao kero mais esta vida...
Ja nao kero mais esta luta....
Ja nao kero mais xorar....
Ja nao kero mais amar....
Ja nao kero mais nada...
Ja nao kero mais saber, se existe a felicidade....
Ja nao kero mais saber, se existe outro amanha...
Ja nao kero mais saber, se o amanha vai brilhar...
Ja nao kero mais saber, se vai haver outro amanhacer...
Ja nao kero mais saber, se vai haver outro entardecer ou anoitecer...nao kero...
Ja  nao kero mais saber de ninguem...nao kero...
Ja nao kero mais saber ..de nada...
Nao kero..nao kero...
Nao kero saber se há vida para alem da morte..
Nao kero...nao kero...pk para mim, ja nada mais importa...
Ja nao kero mais.. derramar lagrimas por alguem...
Nao kero...nao kero mais....
Ja nao kero mais olhar para nada...tudo morreu...
Ja nao kero olhar para a janela do meu kuarto.....
Ja nao kero mais voltar para casa....
Ja nao kero mais nada que me faça sorrir...
Ja nao kero mais nada que me faça voar..
Ja nao kero saber se existe o amor ....nao kero...
Ja nao kero mais saber da solidao...dor, sufoco, lamento, tristeza....
Ja nao kero mais saber, da angustia, do suspiro, do silencio...
Ja nao kero mais saber, da escuridao, do medo e do lamento....
Ja nao kero mais... ilusao.. agonia...sofrimento
Ja nao kero ficar dolorida, amargurada e confusa...
Ja nao kero mais..sentir saudade....nao kero...
Nao kero mais ..sentir-me perdida...
Ja nao kero mais nada que me faça sofrer...
Eu só kero ser feliz..... com a minha propria morte....
Acabou-se tudo...simplesmente ..acabou-se....


Título: Re: Escritos
Enviado por: eye of angel em 04.mar.2006, 18:18:40
Sem forças...
 
O frio, congela a minha alma....
O meu coraçao, está cada vez mais frio...
A minha alma..ja nem sentido tem...
O meu espirito..apenas vive por viver...
Os meus sonhos sao um labirinto...do kual eu nao consigo sair...
Sentada no meio das arvores....eu xoro...
Xoro a minha existencia.....
Sinto-me nua como as arvores....desprotegida....
Quero alguem que as aqueça....que me tire desta solidao...
Eu xoro... eu grito.... mas ninguem me ouve...
Só kero desaparecer...e nunca mais voltar para esta vida....
Nao kero deixar rasto....nao kero que ninguem saiba, que eu um dia existi...
O frio, me envolve neste momento.....
O vento, toca nos meus cabelos...
A neve acaricia a minha face....mas as lagrimas..nao param de cair...
Ao som do vento...eu desabafo as minhas lagrimas....
Os flocos de neve que me tocam... como se fosse uma melodia...
Apenas faltam as letras da musica...tal como a minha vida...
Falta algo que faça sentido...algo que me faça sorrir...
Algo que me faça sentir ...que vale apena viver...
Aos poucos nem sinto o meu corpo.....
O frio esta a tomar conta dele....
Ja nada mais me importa....kero desaparecer...
Kero morrer...pk ja nada faz sentido.....
Nao kero saber se alguem vai sentir a minha falta...
Nao kero saber se alguem vai xorar por mim...nao kero...
So kero desaparecer...como o ar que respiro....
Que nao deixa rasto...
Ja nao consigo mais....o meu corpo, está a desfalecer-se....
Preciso de forças...para me levantar....
Preciso da tua mao...para me guiar....

Título: Re: Escritos
Enviado por: Pe Issa em 04.mar.2006, 18:40:56
Rouba-me a voz. E tem a audácia de me querer o pensar. Oh! E eu deixo. Este espaço de requintada pequenez projecta em mim a sombra das suas paredes, constringe, sufoca e tolda de mácula negra a íris. Por todo o lado há adstringências e protuberâncias inesperadas de claustrofobia inerte que germina da agressão. Querem o meu pensar e os meus sonhos, todos os delírios juvenis desenhados na expectativa de um feixe de luz, uma leve transparência de negro aveludado, um derradeiro raiar de um sentido inesperado de vida. Escoriado coração, açoitado, desterrado, vais desfibrando, definhando como a memória cantarolada num delírio de luz de um eu distante, um eu em forma de mim, todo pleno de cadenciados e decisivos gestos, eu reconfortado, reconciliado com a plenitude porque o eu trôpego e esquisso definha no escuro.

Não desperto, melhor, não sei, há uma sucessão intercalar de negros, um após o outro, uma certeza muda, negro, um zumbido inaudito, negro... Há uma linha ininterrupta de sentido, ziguezagueia e parece desmaiar, perde a tonalidade, reacende mais à frente e ganha voz, troça de mim, enrodilha-se (como eu) a um canto e escarnece. Urge-me num desafio e eu irrompo crepitante um fogo extinto e quase derrubo estas paredes…quase, sonho. Quase…Rio-me dos meus passos comprometidos, da minha fraqueza de membros da sordidez de viver cativo por vontade.

Um dia saio e não retorno – atiro – o espaço devolve-me as palavras irradiadas de uma fraqueza vil que, estranguladas, flutuam leves por entre as máscaras por despir.

---------------------------------------

Hoje vi-te de novo e por instantes senti a incubência do teu olhar, tão transparente e desnudo que forjou o teu pulsar na minha alma. Foste saciedade e fome, e tudo o mais era função de ti.

Muito bom, faz meu estilo.

--------------------------------------------------------------------------------------

Penso em ti a todo instante
Mas não te vejo tão distante
Sonho em pé, escrevo no escuro
Não te vejo e nem o meu futuro

Procuro palavras em minha mente
E encontro desculpa convincente
Pra não me fatigar assim
Isso não foi feito pra mim

Há tempos percebi, não sou capaz
De escrever uma só estrofe
Ou único verso tenaz

Nem expressar o que sinto rimando
Sem que surja esta catástrofe
De dar nojo ao "Lusitando"
Título: Re: Escritos
Enviado por: Pe Issa em 04.mar.2006, 18:49:58
E o que seria do Sim sem o Talvez?
Uma sentença de morte Talvez, Sim? Sim.
Por que temem tanto o Não?
Lamento que não enxerguem que só fazem perguntas erradas
"Oh criador, hoje é meu último dia?"
O não seria muito bem vindo para os que têm medo dele, só para os que têm, talvez.
E por que devemos fazer as perguntas ao contrário? Simples de tudo:
O Não é poderoso, o Sim é submisso.
Poder negar algo faz sentir que tu és quem está correto,
poder negar lhe confere poder de decisão, poder, poder.
Um pai jamais seria um pai se não pudesse negar nada ao filho
Mas ele pode, por isso é o homem da casa
E com motivos o primeiro Não desobediente do filho
é uma crise na casa.
Estás a desafiar o MEU PODER?
E aí entra o Sim como resposta, setenciando a primeira de muitas mortes.
O sim parece tão belo. Parece que abre portas.
Mas cuidado, dê migalhas ao Diabo e ele quer tua hóstia.
O sim denota fraqueza o bastante para não poder dizer Não.
Penso que pior que o Sim há somente o "Não, por favor..."
Mas esse Não discutirei agora, definitivamente Não.
Não, Não e Não.
Título: Re: Escritos
Enviado por: Thumbnail em 12.mar.2006, 14:59:13
Hmmmm

Cântico Inconsciente

Olho pela janela do meu quarto e canto para as estrelas as suas próprias cantigas, embalsamando a nobreza de cada uma das almas que cada uma delas guarda...

Olho para a janela do meu quarto e lembro-me de ti, meu pequenino, lembro-me das horas em que sonhámos os dois e fomos felizes porque éramos amigos, porque sabíamos superar as lacunas da paz...sabíamos cantar o Amor...Sabíamos ser algo, algo perfeito de tão imperfeito e de tanto não ser, sabíamos voar, sabíamos saber...

Olho para a janela e danço contigo, abraço-te no vento e grito no silêncio da Noite a verdade, todo o nosso sentimento porque nunca fomos, nunca houve passado em nós, nunca deixámos de ser amigos... Todo o momento somos nós e cada parte deles, é nós em tudo, sendo eles apenas pedacinhos de fantasmas que nos fazem sorrir e querer pedir mais e mais...

Olho para a janela do meu quarto e sonho contigo porque és paraíso, a razão de eu sonhar, fizeste-me voar... Olho para aquela janela que não é do meu quarto e sonho contigo, fora de mim, para, quando me elevar, poder contigo dançar na união final de toda a nossa solidão...

Olho para o lado de lá daquele abismo desconhecido e sonho contigo, imagino os mares a revoltarem-se e as searas a gritar a luz... imagino-te a cantarolar para aquela rainha e dizer-lhe em paz 'teu olhar a mim seduz'... imagino-te inocente, como sempre foste, a voltar para os meus braços e a beijar-me dizendo que sempre fomos irmãos e que jamais nos iriamos separar... Imagino-te a tirar meu coração, agitado pela intensidade de toda a minha escuridão, e a gritar bem alto para o mundo 'este é o apelo do Bem, cada gota um sonho, cada batida um desejo, cada vitalidade, a realidade, a purificação'...

Olho para mim e imagino-te por inteiro, porque o que éramos os dois, não deixámos de ser, imagino-te real e verdadeiro e relembro tudo o que conseguímos viver...

Meu pequenino, como podeste tu assim o querer?[/i]
Título: Re: Escritos
Enviado por: inarinha em 12.mar.2006, 16:39:59
Teu sorriso
Conheço-o bem.
Teus gestos
Conheço-os bem.

Agora, ando a descobrir o teu olhar
meu secreto sonho é encontrar-me nele.
Mas aos poucos noto k a tristesa está a sair do teus olhos
e a alegria está a voltar a reinar, nem k seja qd lês as coisas k escrevo.
 :-* :-*
Título: Re: Escritos
Enviado por: eye of angel em 13.mar.2006, 00:44:31
Na solidao do seu quarto...

Anjo que esconde-se do mundo
Anjo que ama a sua solidao
Anjo que ama a sua escuridao
Anjo que sofre lá no fundo

Insatifeito, enforcado, reprimido
Este anjo vive calado no seu tumulo
Aconchega-se na sua cama, sente-se seguro
Insanciàvel pela vida, espera a hora da sua morte

Anjo que lamenta a sua existencia
Anjo que abomina as ruas que pisa
Anjo que abomina o cenário hediondo que o rodeia
Anjo que sente-se desolador, só e perdido

Anjo que anda sempre pensativo
Anjo que está sempre acompanhado pela sua sombra
Anjo que espera ansiosamente pela sua sepultura
Para assim adormecer, num sono profundo e eterno

Anjo com o rosto dolorido e agonizado
Anjo cujo a sua alma està amortalhada e cicatrizada
Anjo com o silencio entranhado nas veias
Anjo sofredor, lutador e vencedor

Anjo que cujo o seu olhar é cativante
Anjo que està sempre a correr
Anjo que constantemente sangra e chora
Anjo que apenas so quer ser feliz com a sua morte
Na eternidade de 5minutos...

*Tina*
Título: Re: Escritos
Enviado por: Thumbnail em 23.abr.2006, 14:36:02
cores...

Pinto hoje as cores do tempo, de tudo, de nada... Pinto-as porque não as encontro vivas, sonho-as luradas, sonho-as perdidas...

Pinto hoje a cor da Vida que me cobre as veias e a da Morte que me salpica tenebrosamente o sonho e alegra o momento... Pinto os odores das instâncias e salvo pecados transfigurados...

Pinto tudo com a raiva de colorir e dou cor a tudo por revolta a mim mesma que coloro o que não quero de cor...

Falácias... Talvez a saudade ou o medo... Dói a chama eterna... Mas também... Oh! De que importa? São as pinturas da vida que não tenho e o debruçar de algo que não é meu... Sou eu... Toda Eu em carne e osso neste nada de e para mim...

Cortinas fecham e eu uivo a paz da Natureza que me adormece...

Estou na tinta mais transparente...

...No fundo foi essa que espalhei...

...Até a Lua me perguntou porquê...
Título: Re: Escritos
Enviado por: Anónima em 23.abr.2006, 14:52:00
                                   Uma lágrima de Amor


     Um sorriso morre nos lábios dos que sofrem...
     A imagem repete na memória dos que não esquecem...
     Um olhar melancólico de quem sente saudades...
     O vazio no coração por alguém que não volta...
     A dor,a mágoa de uma imagem que se repete...
     E rebentam lágrimas teimosas de uns olhos parados do nada...
     E uma lágrima desce sobre um rosto sofrido e marcado pela dor,
     e desce lentamente....
     É uma lágrima de Amor!!
Título: Re: Escritos
Enviado por: HumanNature em 23.abr.2006, 16:52:48
Um dos meus textos favoritos que escrevi no meu blog, na altura andava inspirado para estas coisas:

"Linguagem de Chocolate"

"Que
bom, chocolate!
Só de se olhar, cheirar, consegue-se sentir o seu poder.
Tem aroma, tem cor, tem força, sabor, ajuda a entreter.
Um dos maiores
prazeres da vida? Da comida?
Talvez sim, talvez não.
Mas diz-se que ajuda a adoçar o coração.
Sinto-o suave, consigo-o sentir a deslizar na minha garganta,
É tão cremoso, seja branco, preto, da marca x ou y,
O povo diz que o chocolate ajuda..
Imaginemos agora o chocolate sem ser para
comer.
Como o iríamos usar?
Eu?
Essa questão é para mim?
Vou-me deixar então cobrir com esta manta.
Imaginar um corpo, toda a linguagem corporal coberta por uma manta.
Manta?
Sim, uma manta de chocolate, chocolate derretido, quente, suave, deslizando
pelo meu corpo, rosto, pelos lábios, mamilos, umbigo, enfim,
por todo o corpo.
Mas mais uma vez o chocolate, sempre poderoso, saboroso, suave e
conquistador, se encontra sozinho nesta linguagem corporal.
Sim sozinho, mas ele deixa de o percorrer?
Não, continua se apoderando do meu corpo, já me vejo castanho, doce, e todo
aquele chocolate se apoderando de mim.
Enquanto me encontro naquela banheira me banhando de chocolate chegou o meu
anjo.
Um anjo triste, saudoso, carente, faminto, que me olha, encolhe as suas
asas de receio, quase pedindo permissão para se apoderar de mim.
Neste momento todo o chocolate já se apoderou do meu corpo, peço então para
que o anjo se encha de coragem e me possa retirar todo aquele chocolate de mim
se unindo à minha linguagem corporal.
Reparo no seu olhar, vejo-o, sinto-o, sei que está a seguir, a ler a minha
dança corporal, sem meus lábios se moverem o meu corpo pede para o anjo se
apoderar daquele mundo.
Nos minutos seguintes o anjo concentra-se na voz corporal, abre as suas
asas e cobre aquele corpo cheio de chocolate quente, suave, que agora já está a ser
devorado pelas asas de um anjo, faminto, saciando a sua sede de desejo, e
entrando num mundo completamente doce, um mundo, uma linguagem que foi
correspondida e lida, uma linguagem de chocolate."

by HumanNature
Título: Re: Escritos
Enviado por: Anónima em 07.mai.2006, 14:53:50
"Não digamos 'não', nem 'nunca mais'.
Não digamos 'sempre' ou 'jamais'.
Digamos, simplesmente: ‘ainda’!...
Ainda nos veremos um dia.
Ainda nos encontraremos na estrada da vida.
Ainda encontraremos a pousada,
o afecto almejado, a guarida.
Ainda haverá tempo de amar,
sem medo, totalmente... infinitamente...
sem ter medo de pedir, de implorar,
ou chorar...
Ainda haverá tempo,
para ser feliz novamente.
Ainda haverá tristeza,
ainda haverá saudade,
ainda haverá primavera,
o sonho, a quimera.
Ainda haverá alegria,
apesar das cicatrizes.
Ainda haverá esperança,
porque a vida ainda é criança...
e amanhã será outro dia!... "
Título: Re: Escritos
Enviado por: alis volat em 16.mai.2006, 20:58:00
Indignidade do meu abandono.

vacilo de uma janela aberta que à muito entreguei ao teu trono. Suspiro da varanda para o espaço cintilante palavras de mim. Será que te alcançam os meus pulsos estendidos de ermos noctívagos e campos de sol? Será que te chegam, vindas da terra dourada, as colinas, as massas ósseas e borboletas bailantes nas extremidades dos meus dedos? Será que te beijam, saltitando ao-de-leve pelo teu sono? Será que o meu apelo vagar te contou, entre risinhos sumidos, o compromisso dos meus dedos, nódulos ossudos e unhas desarranjadas, com a precisão da tua pele? Será que pensas em alguém que traga o mundo consigo só para te encontrar? Tenho tantas vozes que me esgravatam o peito, tantos sufocos e músculos constritos. Tenho o coração em hiato para te bombear pelos tecidos sofridos. Estou aqui, um recorte, embrulhado em banhos de sol e pés na água fria, uma alma à pesca com o meu desencanto
Título: poesia
Enviado por: TJTK em 21.jul.2006, 02:24:02

Poema à Mãe




No mais fundo de ti,
eu sei que traí, mãe!


Tudo porque já não sou
o retrato adormecido
ao fundo dos teus olhos!


Tudo porque tu ignoras
que há leitos onde o frio não se demora
e noites rumorosas de águas matinais!


Por isso, às vezes, as palavras que te digo
são duras, mãe,
e o nosso amor é infeliz.


Tudo porque perdi as rosas brancas
que apertava junto ao coração
no retrato da moldura!


Se soubesses como ainda amo as rosas,
talvez não enchesses as horas de pesadelos...


Mas tu esqueceste muita coisa!
Esqueceste que as minhas pernas cresceram,
que todo o meu corpo cresceu,
e até o meu coração
ficou enorme, mãe!


Olha - queres ouvir-me? -,
às vezes ainda sou o menino
que adormeceu nos teus olhos;


ainda aperto contra o coração
rosas tão brancas
como as que tens na moldura;


ainda oiço a tua voz:


                                           Era uma vez uma princesa
                                           no meio de um laranjal...


Mas - tu sabes! - a noite é enorme
e todo o meu corpo cresceu...Eu saí da moldura,
dei às aves os meus olhos a beber,


Não me esquecerei de nada, mãe.
Guardo a tua voz dentro de mim.
E deixo-te as rosas...


Boa noite. Eu vou com as aves!


adoro este poema.. e simplesmente lindo.. toca-me bastante..! para todos os que apreciam poesia.. escrevam neste topico os vossos poemas preferidos... bjs a todos


Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: Arms em 29.abr.2007, 23:57:03
Um dos meus últimos textos. Escrito numa altura difícil.

O respirar dele pareceu congelar antes que o vento o pudesse tirar

Marco estava à espera dele há quanto tempo? Uns quinze minutos!? E não se iria embora antes que o gajo chegasse. O homem pálido aproximou-se por detrás e puxou-o para dentro do bêco, longe de olhares que os poderiam incomodar. Trocaram os bens e seguiram os seus caminhos separados. Marco estava aliviado... ligeiramente aliviado. Começou o seu caminho de três quarteirões até ao seu prédio. Passou por incontáveis bêbedos e inúteis rejeitados e, no fundo, sabia que ele era igualmente ou mais sujo que eles. Mas ele tinha algo melhor, muito melhor. Passou por uma prostituta. E depois outra. E depois por outras mais. Elas já não lhe tinham importância. Os prazeres da carne são tão insignificantes comparados com os prazeres do sangue.

Nunca teve emprego, nem tão pouco se importava. Podia roubar o suficiente para se manter, e tinha isso como vantagem. No início não passava de um passatempo, mas depressa se tornou em algo que o mantivesse vivo. Televisores, rádios de automóveis, carteiras, jóias, pensamentos, tudo o que servisse para manter o seu adicto. O pai batia-lhe, a mãe batia-lhe, todos lhe batiam e rasgavam tudo o que o tornaria num homem.

Chegou finalmente ao seu apartamento. A porta não tinha fechadura e nem era preciso. Os excrementos de rato e as baratas mortas mantinham longe todas as pessoas que se mostrariam curiosas. Marco já nem reparava no cheiro a fezes e nas paredes podres, nem tão pouco no vómito seco. Tudo o que precisava era de uma colher, a seringa, a vela e o pó. Empurrou o sofá vomitado para o lado e atou o seu cinto à volta do braço, expondo as suas veias tenras. A concentração era crucial agora. Ele teria que ignorar toda aquela estática ameaçadora dos seus ouvidos. Encheu a seringa enquanto o som aumentava.

A estática era suave, delibrada, mas repetitiva, persistente. O som não tinha sentido no momento, mas era impossível ignorar. Agitou a cabeça para sacudir o som. Enfiou a agulha no seu braço e forçou o conteúdo o mais rápido que pôde. Caiu para trás, sobre o chão e esperou que o transe viesse e trouxesse a única paz que conhecia. Mas tudo o que sentiu foi a estática. Bateu com as costas do seu crânio no chão para fazê-lo parar. Mas não parava. Apenas aumentava. E aumentava cada vez mais. Começou a ficar zonzo, mas isso já era esperado.

Chorou conforme ia perdendo os sentidos. Porque ele perdeu tudo e perdeu os céus. O barulho era demasiado alto agora. Drenava-lhe os pensamentos. Os seus olhos vidraram enquanto ele se deitava imóvel no chão desejando que a estática parasse. Perdeu totalmente os sentidos quando o som lhe abusava do corpo e sabia que não iria parar.

Os seus pulmões encheram-se de saliva e espuma e outros fluídos incontáveis que se engasgavam pela boca fora. O vómito resultante afogavam-lhe os olhos e o chão à sua volta. Ele já não conseguia respirar quando desistiu e se entregou àquela estática confortavelmente controladora.
Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: Indya em 30.abr.2007, 00:33:41

Assim que fiz login,dei de caras com este "novo" tópico...
Li um pouco,gostei,mas desisti de lêr mais,pois cansada como estou já não vejo brasa a esta hora :P
Amanhã dou aqui umas bicadas =)

*Bom tópico...Amo escrita* =)
Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: Thumbnail em 30.abr.2007, 09:14:21
Que texto fantástico, Arms!
Fizeste-me lembrar o filme 'Requiem for a dream' que é recheado de momentos fortes e cinzentos. Uma mensagem completa e assustadoramente bela pelo que partilha. O mesmo acontece com o teu escrito!
Gostei particularmente desta frase 'Os prazeres da carne são tão insignificantes comparados com os prazeres do sangue.', que parece mil e uma coisas ao mesmo tempo e a verdade é que aposto que o seja.
É um mundo tétrico esse do vício e do vandalismo pessoal e social. A pequenez do espaço, a pequenez do tempo, a pequnez do 'herói'.
Nice, rapaz! Nice!
Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: Arms em 30.abr.2007, 09:18:00
Que texto fantástico, Arms!
Fizeste-me lembrar o filme 'Requiem for a dream' que é recheado de momentos fortes e cinzentos. Uma mensagem completa e assustadoramente bela pelo que partilha. O mesmo acontece com o teu escrito!
Gostei particularmente desta frase 'Os prazeres da carne são tão insignificantes comparados com os prazeres do sangue.', que parece mil e uma coisas ao mesmo tempo e a verdade é que aposto que o seja.
É um mundo tétrico esse do vício e do vandalismo pessoal e social. A pequenez do espaço, a pequenez do tempo, a pequnez do 'herói'.
Nice, rapaz! Nice!

Obrigado.
Imagina a minha cara quando vi o filme, quatro anos depois de ter escrito o texto. Arrepiei-me porque o filme transmitiu algumas ideias que eu queria passar. Nota que, depois de ver o filme, fiz algumas rectificações no texto. Sensações apenas.  :P
Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: Thumbnail em 30.abr.2007, 09:45:09
É essa linha da aprendizagem que nos completa -)
Um filme absolutamente fantástico -)
Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: Gharam em 30.abr.2007, 13:25:37
Um dos meus últimos textos. Escrito numa altura difícil.

O respirar dele pareceu congelar antes que o vento o pudesse tirar


Adorei o teu texto. De uma brutidade bela  ;)


Tenho alguns textos no meu perfil do deviantart, vou por aqui uns dos que mais me deram prazer a escrever  :)

Eutanásia

Estou neste quarto. Nesta cama. Neste corpo. Nesta prisão. Olho para o espelho na parede à minha frente. Consigo ver-me aqui deitada. Não está nada sobre mim. Não estou presa a nada. Mas sinto-me agrilhoada por correntes que não consigo ver. Através do espelho olho para o corpo que está agarrado ao meu pescoço. É um estranho, o corpo de outra pessoa. Já não é o meu. Não o sinto, por isso não pode ser o meu. Já não me lembro do que é tocar, andar, correr. Essas acções, certas para uns, não passam de meras memórias fugidias para mim. Foi há tanto tempo. Foi há tanto tempo que eu senti pela última vez. Tenho saudades de me sentar. Sim, sentar. Dava tudo para me poder sentar outra vez, só isso, só poder estar noutra posição que não deitada. Sou inútil. Tenho tubos dentro do meu corpo que fazem o que eu já não consigo fazer. Todos os dias passo horas a fitar o branco sujo do tecto. Oiço as pessoas que me visitam, que vêm cuidar de mim. Já não consigo falar com elas. Não porque não posso, mas porque não quero. Já não me sinto uma pessoa. Já nem sequer consigo pensar na vida fora deste cubículo. Vida essa que me foi arrancada sem permissão, sem aviso. Estou encurralada neste corpo que envelhece sem que eu o sinta. E esta prisão, este cárcere afectou a minha mente também. Não há liberdade possível, por isso mais vale perder-me de vez. Deixar-me ir. Mas sou uma inútil, nem morrer consigo. Dizem que é fácil morrermos, que a vida é frágil, pois eu resisto sem que queira. Grito à noite em silêncio para eles acabarem o que começaram. Mataram-me, estriparam-me, consumiram-me, porque não me atiraram para o fundo de vez? Sou como um enforcado sustido somente pelas pontas dos pés e as mãos presas. Sem esperança, sem volta a dar. Mas vale deixar-me ir, acabar de vez, deixar a corda sufocar-me. Sim, quero sufocar. Já tentei deixar de respirar, mas não consigo. Quero sair deste purgatório, nem que seja para o inferno, mas sair. Deixem-me morrer.


Rotina

Esmurro o despertador e volto a afundar a cabeça na almofada. Não me apetece levantar. Para quê? Para outro dia vazio, sem nexo, sem objectivo? Rotina, solidão. Estou aqui mastigada, roída pelo habitual, pelo normal. Sinto-me sufocar, quero sufocar, deixar-me ir, de vez. Sento-me na cama. Sou fraca, estou esgotada. Tomo banho, visto-me e saio porta fora. Rotina, rotina, rotina. Já não vejo a cores. Para quê? O mundo é cinzento.
Espero que o sinal fique verde, no meio de outras pessoas. Caras escondem vidas que nunca irei conhecer. Escrevi uma carta, deixei-a no meu quarto, para o caso de não voltar mais, de me perder de vez, de deixar de inalar este fumo escuro a que os outros chamam de ar. A carta é só uma segurança. Estou farta de segurança. Ponho o pé na estrada. Branco, preto, branco, preto e vais contra mim. Soltas um fugaz desculpe e continuas apressada. Eu fiquei ali parada, ainda a sentir o teu toque e o teu cheiro. Afastas-te depressa. Estou atrasada para o trabalho. Decido, vou atrás de ti. O teu cabelo ondula a cada passada, o sol reflecte-se nele. Olhas para trás e vês-me, sorris-me. Sorris-me? Mas como? Será que sonhei, vi coisas? Não, olhas outra vez. Paras. “Aleijei-te muito?”, gaguejo um quase inaudível não. “Desculpa, a sério, mas é que estou atrasada. Bem, gostei de te conhecer.” E dás-me um beijo na cara. O tempo preguiça e eu sinto todo o calor dos teus lábios, o mais ínfimo movimento. E vais-te embora outra vez. Vejo-te caminhar para longe, perdes-te na multidão. Mas o teu beijo ainda me queima a face, sinto-me como já não me sentia há muito tempo. Sinto-me viva, é isso? Não sei, mas sinto, já não me lembrava do que era sentir. Voltei para casa, rasguei a carta. 

Cegueira

És o que me distingue e extingue. É por te amar a ti que sou diferente daqueles outros que se chamam de normais. Maralha comum e ordinária. É por tua causa que eu amo, e é por te amar a ti que eu sou o que sou. Puxaste-me para fora desse enxame, dessa orgia de pudor e moralismo e libertaste-me. Respirei quando finalmente te beijei, inspirei-te, tomei-te. Sonhos. Nunca te beijei, mas imaginei-o. Nunca te toquei mas senti-o, senti-o nesta mente que me controla e me subjuga ao amor que sinto por ti. Abri os olhos para esta realidade, esta outra, a que não é só minha, mas também não é daqueles outros, aqueles que ficam lá, indefinidos, protegidos na maioria que são. Esse novelo de gente que ao ser tocada cá de fora, rosna e geme como um animal assustado. Não nos conhece, embora outrora fizéssemos parte dessa mesma claustrofóbica humanidade aglomerada. Foste tu a mão que me puxou cá para fora. Mas agora largaste-me. Vagueio nos subúrbios dessa cidade caótica de normalidade. Encontro vagabundos como eu, mas nenhum é como tu. Levantaste-me a cara e segredaste-me palavras doces no ouvido, mas será que não dizes isso a toda a gente que não eu? Serei eu assim tão narcisista para pensar que sou tão importante para ti como tu és para mim? Aparentemente, narcisista é o que sou. Aparências. De aparências está o mundo cheio. Já desisti de usar a minha máscara de outrora, não vale a pena. Dou a mão a alguém. Alguém. Apoio difuso. Consolo. Mas não és tu que está lá. Amo esta outra mão, mas não é a mão que me ergue. Caminho ao lado deste amor. Mas contigo, contigo eu corria, saltava, dançava. Contigo eu não me limitava a andar, não arrastava os pés. Contigo esta inércia que me consome desapareceria. Porque não voltas? Porque não me tomas nos teus braços? Agora que me abriste os olhos, por favor, deixa-me ver-te.
 
Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: Thumbnail em 30.abr.2007, 13:47:56
Eutanásia

Estou neste quarto. Nesta cama. Neste corpo. Nesta prisão. Olho para o espelho na parede à minha frente. Consigo ver-me aqui deitada. Não está nada sobre mim. Não estou presa a nada. Mas sinto-me agrilhoada por correntes que não consigo ver. Através do espelho olho para o corpo que está agarrado ao meu pescoço. É um estranho, o corpo de outra pessoa. Já não é o meu. Não o sinto, por isso não pode ser o meu. Já não me lembro do que é tocar, andar, correr. Essas acções, certas para uns, não passam de meras memórias fugidias para mim. Foi há tanto tempo. Foi há tanto tempo que eu senti pela última vez. Tenho saudades de me sentar. Sim, sentar. Dava tudo para me poder sentar outra vez, só isso, só poder estar noutra posição que não deitada. Sou inútil. Tenho tubos dentro do meu corpo que fazem o que eu já não consigo fazer. Todos os dias passo horas a fitar o branco sujo do tecto. Oiço as pessoas que me visitam, que vêm cuidar de mim. Já não consigo falar com elas. Não porque não posso, mas porque não quero. Já não me sinto uma pessoa. Já nem sequer consigo pensar na vida fora deste cubículo. Vida essa que me foi arrancada sem permissão, sem aviso. Estou encurralada neste corpo que envelhece sem que eu o sinta. E esta prisão, este cárcere afectou a minha mente também. Não há liberdade possível, por isso mais vale perder-me de vez. Deixar-me ir. Mas sou uma inútil, nem morrer consigo. Dizem que é fácil morrermos, que a vida é frágil, pois eu resisto sem que queira. Grito à noite em silêncio para eles acabarem o que começaram. Mataram-me, estriparam-me, consumiram-me, porque não me atiraram para o fundo de vez? Sou como um enforcado sustido somente pelas pontas dos pés e as mãos presas. Sem esperança, sem volta a dar. Mas vale deixar-me ir, acabar de vez, deixar a corda sufocar-me. Sim, quero sufocar. Já tentei deixar de respirar, mas não consigo. Quero sair deste purgatório, nem que seja para o inferno, mas sair. Deixem-me morrer.

Eutanásia. Sim, uma dura realidade. Por um lado, uma esperança consumida por aqueles que mais dizem amar, por outro um desafio da pessoa que se prende e se perde desumanamente. Um fim sem fim. Uma ilusão provocada pelo ser humano para se auto-proteger de um medo e de uma realidade que já aconteceu mas que alastra e que ,por tanto querer, prejudica... Gostei da mensagem e do modo como a escreveste. Sentimento, ritmo. Muy bueno -)

Rotina

Esmurro o despertador e volto a afundar a cabeça na almofada. Não me apetece levantar. Para quê? Para outro dia vazio, sem nexo, sem objectivo? Rotina, solidão. Estou aqui mastigada, roída pelo habitual, pelo normal. Sinto-me sufocar, quero sufocar, deixar-me ir, de vez. Sento-me na cama. Sou fraca, estou esgotada. Tomo banho, visto-me e saio porta fora. Rotina, rotina, rotina. Já não vejo a cores. Para quê? O mundo é cinzento.
Espero que o sinal fique verde, no meio de outras pessoas. Caras escondem vidas que nunca irei conhecer. Escrevi uma carta, deixei-a no meu quarto, para o caso de não voltar mais, de me perder de vez, de deixar de inalar este fumo escuro a que os outros chamam de ar. A carta é só uma segurança. Estou farta de segurança. Ponho o pé na estrada. Branco, preto, branco, preto e vais contra mim. Soltas um fugaz desculpe e continuas apressada. Eu fiquei ali parada, ainda a sentir o teu toque e o teu cheiro. Afastas-te depressa. Estou atrasada para o trabalho. Decido, vou atrás de ti. O teu cabelo ondula a cada passada, o sol reflecte-se nele. Olhas para trás e vês-me, sorris-me. Sorris-me? Mas como? Será que sonhei, vi coisas? Não, olhas outra vez. Paras. “Aleijei-te muito?”, gaguejo um quase inaudível não. “Desculpa, a sério, mas é que estou atrasada. Bem, gostei de te conhecer.” E dás-me um beijo na cara. O tempo preguiça e eu sinto todo o calor dos teus lábios, o mais ínfimo movimento. E vais-te embora outra vez. Vejo-te caminhar para longe, perdes-te na multidão. Mas o teu beijo ainda me queima a face, sinto-me como já não me sentia há muito tempo. Sinto-me viva, é isso? Não sei, mas sinto, já não me lembrava do que era sentir. Voltei para casa, rasguei a carta. 
E este a eternidade... :)
Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: Thumbnail em 30.abr.2007, 13:51:33
Amizade

Palavra bonita que só se sabe quando se a sente
Momentos únicos e irresistiveis de descrever
Emoções diferentes que estarão sempre presentes
Pois é com tudo isto que nos ajuda a Crescer

Amigos


Quem sois vois?
Pessoas normais cujo a diferença especial
é nos notada no seu simples olhar
Que quereis?
Amizade, pois ela é o bem mais Precioso
Que uma Pessoa pode Ter
Que sentireis?
Felicidade pura enquanto estais com os Amigos
Tristeza enquanto estamos fora
Arrependimento quando fazeis alguma asneira
Entre outros muitos sentimentos que não se consegue Descrever
Pois os Amigos são assim mesmo
Pessoas inesquéciveis e tão diferentes
Que nos une porque todos acreditamos que a Amizade
Faz toda a diferença.

Feito por Mim

Aqui vai o que penso, então:
Talvez pudesses trabalhar melhor os teus escritos porque tens uma óptima mensagem a enviar. Efectivamente a Amizade é um todo perfeito porque o ser não é só e porque se, a cima de tudo, não somos nossos amigos, estamos perdidos ;)
Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: Thumbnail em 30.abr.2007, 13:58:43
Já agora,

Palavras

Uma Noite de Lua rasgada ao meio. Uma Noite de estrelas recolhidas a um canto, lançando as mensagens nos desenhos que tudo dizem. Uma Noite sem rumo, predefinida pelo incomum. Uma Noite...

A escuridão era cortada pelos antigos candeeiros da cidade. Num cubículo, mulheres mal feitas, de juízos desprotegidos, entregues ao mundo cristalino da ilusão. Noutro, homens pecadores de sangue frio. No desrespeito no olhar. Melodias ferozes no silêncio do lá e acolá. Ruídos desconhecidos.

Um canto perdido. Perdido algures. Destroçado, mal apanhado. Faz talvez lembrar um canto de sodomia infantil. Um verso sem ponto, uma linha em nada.

Aí, dois seres. Um perdido na arte o outro no banal, no comum. Um perdido na revolta, outro na inocência do desconhecimento. Um, chorando, outro, ingénuo, sorrindo nas palavras. Um Amando, outro morrendo. Um morrendo, outro amando.

Gritos sinceros de cada um deles com aspiração à união e à existência. Com aspiração à ode pessoal e à ode colectiva. As brincadeiras das palavras, dos jogos de espaço e do tempo que não existe... Um passo em vão ou uma facada... O desatino do fazer e do não fazer.

Chegada à praia. O mar. O vento a soprar sobre as ondas e a gritar que os fanatismos da humanidade na modéstia que não existe e no sentir que é pecado são abolidos pela desonra de ser infiel à verdade, à realidade, ao todo, ao pensamento.

Caminhadas algures onde havia pegadas. Seguindo passos do antigamente. Unindo o tempo e sendo perfeito. Ao longe dos anos-luz pintados sobre Regulus ou Skat e laborando a piada da veia do inconsciente, sempre viva, sempre real...

Um grito, uma faca. Um berro de pavor e um escárnio de prazer carnal sempre entre a parede e o tempo. O espaço e as horas. O Eu e o Vós. A desgraça e o furor. O prazer natural transformado em ódio e em euforia. A vontade de ser feroz e superior aniquilada pelo ódio e todo o desalento.

Dizem que as pessoas são feitas de ar e que a luz provem da matéria que se compõe em spicatos de genes e substâncias epopeicas. Dizem que a brisa carbónica e hidrogénica se completa com astros que nos caem nos corpos e nos formam as células.

Eu pinto a eternidade do nada. Esse pelo menos é eterno e é meu. Não, não sou egoísta. Todos temos os nossos. Mas este é particularmente um todo só meu. O beijo da lealdade cortou-me a vontade de seguir rumos concretos. Apetece-me esculpir sentires e deixar-me ir. Talvez um dia tudo mude e até o nada seja eu...

Rasgões de Amor

Rasgo-me infinitamente para te dizer que sou eterno e que os bocadinhos que me apresentam me limitam. Sou como tu quando me olhas mas as palavras prendem-me a factos que não existem. Sou como tu nesse olhar despido, sou assim e tu não te importas. Essa vontade de me arranhar a pele deleita-nos. Um encantamento de pétalas esculpidas em espinhos. Cobres-me a dor com gritos de alegria e o resto são os sinos do tempo. Ergues o fogo nessa transpiração de prazer e envolves heresias no pensamento. Cobres-me a razão com a carnalidade do ter e estar e unimos corpos com a ferocidade de uma só instância. Somos um. Um num momento único e transparente. Somos a melodia da Noite e a comoção da Lua. Somos o pecado, o fim do tempo. Por segundos, somos tudo. Tudo nessa instância que não existe.
A música é o tilintar das coisas e a sombra, o que não se vê. Somos nós na dança do amor que se apodera de nós na sua forma mais venenosa e nos deixa ir além fronteiras e descobrir por momentos a eternidade.
Olhas-me com esses olhos letais que me ferem o coração e perguntas-me no silêncio se ficarei contigo. No vazio do nada, o sorriso diz tudo e o resto é toda a balada que só nossos corpos abençoados foram de conhecer.

Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: Arms em 30.abr.2007, 14:08:19
Eutanásia

Estou neste quarto. Nesta cama. Neste corpo. Nesta prisão. Olho para o espelho na parede à minha frente. Consigo ver-me aqui deitada. Não está nada sobre mim. Não estou presa a nada. Mas sinto-me agrilhoada por correntes que não consigo ver. Através do espelho olho para o corpo que está agarrado ao meu pescoço. É um estranho, o corpo de outra pessoa. Já não é o meu. Não o sinto, por isso não pode ser o meu. Já não me lembro do que é tocar, andar, correr. Essas acções, certas para uns, não passam de meras memórias fugidias para mim. Foi há tanto tempo. Foi há tanto tempo que eu senti pela última vez. Tenho saudades de me sentar. Sim, sentar. Dava tudo para me poder sentar outra vez, só isso, só poder estar noutra posição que não deitada. Sou inútil. Tenho tubos dentro do meu corpo que fazem o que eu já não consigo fazer. Todos os dias passo horas a fitar o branco sujo do tecto. Oiço as pessoas que me visitam, que vêm cuidar de mim. Já não consigo falar com elas. Não porque não posso, mas porque não quero. Já não me sinto uma pessoa. Já nem sequer consigo pensar na vida fora deste cubículo. Vida essa que me foi arrancada sem permissão, sem aviso. Estou encurralada neste corpo que envelhece sem que eu o sinta. E esta prisão, este cárcere afectou a minha mente também. Não há liberdade possível, por isso mais vale perder-me de vez. Deixar-me ir. Mas sou uma inútil, nem morrer consigo. Dizem que é fácil morrermos, que a vida é frágil, pois eu resisto sem que queira. Grito à noite em silêncio para eles acabarem o que começaram. Mataram-me, estriparam-me, consumiram-me, porque não me atiraram para o fundo de vez? Sou como um enforcado sustido somente pelas pontas dos pés e as mãos presas. Sem esperança, sem volta a dar. Mas vale deixar-me ir, acabar de vez, deixar a corda sufocar-me. Sim, quero sufocar. Já tentei deixar de respirar, mas não consigo. Quero sair deste purgatório, nem que seja para o inferno, mas sair. Deixem-me morrer.

Gostei particularmente deste teu texto porque faz lembrar a situação do meu avô. Parabéns linda, o texto tocou cá dentro.
Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: Arms em 30.abr.2007, 14:29:24
Rasgões de Amor

Rasgo-me infinitamente para te dizer que sou eterno e que os bocadinhos que me apresentam me limitam. Sou como tu quando me olhas mas as palavras prendem-me a factos que não existem. Sou como tu nesse olhar despido, sou assim e tu não te importas. Essa vontade de me arranhar a pele deleita-nos. Um encantamento de pétalas esculpidas em espinhos. Cobres-me a dor com gritos de alegria e o resto são os sinos do tempo. Ergues o fogo nessa transpiração de prazer e envolves heresias no pensamento. Cobres-me a razão com a carnalidade do ter e estar e unimos corpos com a ferocidade de uma só instância. Somos um. Um num momento único e transparente. Somos a melodia da Noite e a comoção da Lua. Somos o pecado, o fim do tempo. Por segundos, somos tudo. Tudo nessa instância que não existe.
A música é o tilintar das coisas e a sombra, o que não se vê. Somos nós na dança do amor que se apodera de nós na sua forma mais venenosa e nos deixa ir além fronteiras e descobrir por momentos a eternidade.
Olhas-me com esses olhos letais que me ferem o coração e perguntas-me no silêncio se ficarei contigo. No vazio do nada, o sorriso diz tudo e o resto é toda a balada que só nossos corpos abençoados foram de conhecer.



Lindo! Fiquei sem palavras.
Muito bom Miau, muito bom!  ;)
Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: Gharam em 30.abr.2007, 15:05:52
Obrigada, miau e arms  ;)

Sim, concordo, o texto do miau está lindo. Adoro as palavras usadas, as expressões :D




Neste quarto

Espreguiço-me longamente tocando com os dedos na madeira fria da cama. Sinto-a com a palma das mãos, completamente abertas, com os dedos sigo os veios, os sulcos até à almofada. Abro os olhos e fico assim, a olhar para os pequenos quadrados que o estore marca no tecto, a delinear o contorno entre a luz e a escuridão. Sinto um resfolegar ao meu lado, estás a franzir a testa, mas ainda a dormir. Deve estar a ter um pesadelo, penso eu. Sinto-me impotente, estás no único sítio onde eu não te posso proteger, na tua própria mente. Delicadamente, fecho a tua mão na minha. E encosto os meus lábios aos teus dedos, tão quentes. Estás sempre com as mãos quentes, nunca te vi de luvas no Inverno. Foi assim que nos tocámos da primeira vez, estava eu com as mãos completamente geladas e tu tomaste-as nas tuas, aqueceste-me. Deixaste de franzir a testa. Não acredito que estás mesmo aqui, na minha cama, não, na nossa cama. A dormir, tão calma… Não consigo evitar de esboçar um pequeno sorriso parvo que se cola à minha cara quando olho para ti a dormir, podia ficar a olhar para ti assim durante horas, perdida na tua respiração pesada, no contorno escuro das tuas pálpebras, nos contornos sinuosos da tua boca. Não resisto e levanto a cabeça devagar, beijo-te os lábios macios e mornos. Encosto a cabeça na almofada outra vez. O teu cheiro inunda os lençóis, deixa-me sôfrega. Lá fora ouve-se um chilrear agudo dum pássaro. Maldito pássaro! Acordas e viraste-te de barriga para cima. Com a voz ensonada e os olhos escondidos atrás do braço, murmuras: “Bom dia, amor”. Amor... Ah, amor… Olhas para mim com os teus olhos verdes, profundos, penetrantes. E sorris. “Estás acordada há muito tempo?”, respondo que não e abraço-te. Afasto os lençóis da tua pele e com os dedos delineio a tua barriga, o teu umbigo. A tua pele é tão suave, tão macia. És perfeita. Não, melhor que isso, és tu. És tu e escolheste estar comigo agora, dizes que me amas eu fico incrédula, como se estivesse a ver um unicórnio a um palmo de distância. És real, mas nunca pensei que fosses. Nunca acreditei em encontrar aquela pessoa, aquela alma que nos complementa, que nos protege, que nos engrandece. Dás-me um beijo suave na testa. E eu aconchego-me mais em ti. Não vás, por favor não vás. Porque não ficamos assim para sempre? Neste quarto, neste limbo. Só nosso. Meu e teu. Como o meu corpo e o teu corpo são. Meu e teu. Neste quarto não devemos nada a ninguém, não somos julgadas. Neste quarto perco-me em ti, sinto o teu ser. Neste quarto és minha e eu sou tua, tocas o âmago, o centro de mim, do que eu sou, que nem eu sei bem o que sou, mas sei que sou porque tu és. Amo-te. “Amo-te”, murmuro.
Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: Arms em 30.abr.2007, 15:15:46
Esperança congestiva falhada

Já se passaram 43 anos desde o dia mais feliz da sua vida. O dia do seu casamento. Usou aquele vestido com tanto orgulho. Orgulho esse que muitas da sua época não tinham. Parecia tudo tão perfeito nessa altura. Tão quente, tão feliz. Um perfeito contraste com este frio e solitário hospital. Aqui os únicos sons que se ouvem são os das máquinas de suporte vital. Cheira a desinfectante, para que todos saibam que nem os germes nem as bactérias possam viver aqui. Há poucas enfermeiras de serviço, mas só farão as suas rondas bem depois do nascer do dia. Ali, o tempo parece correr a passos arrastados, como se tudo estivesse debaixo de água. Até o chão e as paredes parecem cansar-se das suas existências. Muitos pacientes já haveriam se questionado se o inferno seria assim tão só e desolado. Mas ele já nem repara, já está habituada a este ambiente aquoso.

O vazio dentro dela tem crescido e se alimentado dela há já algum tempo, há mais do que se recorda. Perdeu tudo na vida. O seu único filho, roubado e exibido como prémio por um tipo desconhecido de cancro. Todos os seus amigos ou mudaram-se ou morreram. Mas tinha o marido. Ele sempre a amou e sempre se preocupou. Dependia dele como o seu único conforto nos momentos mais difíceis da vida e houve apenas pequenos momentos em que se desprendia. Nunca pensou aguentar 5 anos sem a sua presença constante. Vê agora essa sua força como uma praga. Este choque poderia ter sido evitado – talvez – se ele tivesse seguido as instruções do médico e ter-se exercitado. Nunca teria sucumbido neste coma inútil. Mas ele sempre foi demasiado orgulhoso para isso. Fora sempre o seu único defeito que causara mais problemas. Ela tolerava-o no passado. Agora arrepende-se profundamente.

E ela senta-se ali, pensando em todas as dores que teve... e como a vida é inútil. Mas está demasiado cansada para ter pena. Por isso, fica ali calada a noite toda, esperando que o sol lhe traga um sinal do seu 43º aniversário de casamento e o 5º desta tragédia. Tudo o que quer é ver o sol sobre a face dele uma última vez antes do fim. E as horas caminham lentamente até que os raios pálidos de luz penetrem no quarto anunciando um novo dia de falsas esperanças. Ela ergue-se, mal consegue sustentar o seu velho corpo exausto e aproxima-se dele, vendo as marcas do sol na sua face. Beija-lhe os lábios. Dói-lhe. Será a única coisa que sentirá falta. Um preço demasiado alto a pagar. As suas mãos ossudas lentamente removem um jarrinho de aspirinas da sua bolsa. Ingere, comprimido atrás de comprimido, as cinquenta aspirinas e engole-as com a água estagnada do quarto. Já consegue sentir a droga a chamar pela sua vida enquanto se senta mais uma vez, libertando as suas pernas eternamente da sua árdua tarefa.

Se alguém estivesse presente, diria que fora a forma menos graciosa de terminar com uma vida graciosa.

Ela enterrou-se rapidamente no sono e, logo a seguir, o seu corpo desistiu da sua luta. Cerca de uma hora depois os médicos enchem o quarto com as suas máquinas. Quase nem ligam ao corpo da velha senhora. Estão preocupados com a saúde do seu marido. O seu coração parou de bater e, apesar de todos os esfroços, não seria mais reanimado. Os médicos classificam como morte natural e não ligam mais ao caso. Os dois são enterrados, lado a lado, ao pé do local de descanso do seu filho de 19 anos no cemitério local. O quarto do hospital é arrumado para dar lugar à próxima vítima... para perder a sua esperança. Mas, desta vez, o tempo rasteja um pouco mais depressa.
Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: Gharam em 30.abr.2007, 15:20:52
Cheio de sentimento, arms. Muito bom. Esse também me tocou, faz-me lembrar o meu avô que morreu de cancro e a minha avó  :'( Ela sofreu tanto com a morte dele... Ainda há uma semana ela disse-me depois de um casal de idosos passar por nós: "Sabes, eu tenho inveja deles.". "Porquê?", pergunto eu. "Porque ela ainda o tem a ele. Eu já não tenho o meu."  :-\
Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: Arms em 30.abr.2007, 15:31:48
Cheio de sentimento, arms. Muito bom. Esse também me tocou, faz-me lembrar o meu avô que morreu de cancro e a minha avó  :'( Ela sofreu tanto com a morte dele... Ainda há uma semana ela disse-me depois de um casal de idosos passar por nós: "Sabes, eu tenho inveja deles.". "Porquê?", pergunto eu. "Porque ela ainda o tem a ele. Eu já não tenho o meu."  :-\

Ops! Não queria trazer lembranças tristes. Mas linda, eu normalmente fico feliz por me dizerem essas coisas. Não me entendas mal, fico triste pela pessoa. Mas fico feliz quando me apercebo que ainda existem pessoas que sabem amar de verdade. Um amor mesmo daqueles que movem montanhas e conquistam barreiras.

Eu escrevi este texto mesmo quando o meu avô morreu de cancro. E a minha avó também me confessa de vez em quando. E eu sinto-me sempre previlegiado por ela partilhar essas coisas comigo.
Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: BloodTears em 30.abr.2007, 15:43:49





na minha morgue estás tu. os lábios mais murchos no caixão
mais fechado. lábios contorcidos nos retalhos do tecido morto. drifting
in the casket. flicker through this casket.

o espaço é pequeno para a tua comoção disfarçada. snowing still inside the
casket. os teus gestos desaparecem lentamente.

do you remember? you needed closure.
Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: Arms em 30.abr.2007, 15:46:49





na minha morgue estás tu. os lábios mais murchos no caixão
mais fechado. lábios contorcidos nos retalhos do tecido morto. drifting
in the casket. flicker through this casket.

o espaço é pequeno para a tua comoção disfarçada. snowing still inside the
casket. os teus gestos desaparecem lentamente.

do you remember? you needed closure.


Parabéns BloodTears. Não sei explicar mas fiquei agradavelmente perturbado. eu sei que parece estranho, mas é a única forma como te posso explicar. Muito bom, adorei.
Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: FalsoDeus em 30.abr.2007, 15:54:50
Nunca Virás

Vieste com as ruas sem fim; Vieste com os becos nas noites frias despidas de céus, onde as luzes dançam lasciva e secretamente com as estrelas; Vieste com o frio do Verão, a brisa estéril do que nunca virá a ser nosso; Vieste com a eutanásia do mundo, a que devemos a  este globo moribundo; Vieste com o aglutinar da vida, com a escuridão do Paraíso;

Vieste com a suspirada constatação das ilações indesejadas: não vieste, pois não?

E o eco gritado das palavras sem voz preenche a lacuna infindável do meu ser; E os corpos brincam entre si como convites para o desejo alheio, provocando um qualquer paladar doce nesta boca que te pertece sem o quereres; E o sangue perde-se na chama sem vida das estradas atrozes, fáceis, curtas, secantes e viciosas; E os lábios fundem-se, gelados, com uma boca sem face, numa vã tentativa de calar os pensamentos que sufocam o coração;

Pobre memória do que nunca fomos.

Pobre criança que já não sou.

Pobre inocência embrutecida pelo suicídio sem escrúpulos.

E tudo o que sobra é tristeza; e é na tristeza orgásmica que perdemos a certeza do ser. Morramos, então. Definharei, insensível, fatalista, cruel.

Pudera eu não ser um cobarde. Pudera eu saber-me viver.

Definharei, então. Lábios seguirão os caminhos putrefactos das bocas que já não podem beijar, das peles que já nem desejam sentir, das vidas que já não se podem expressar. Apodrecerei, então.

E tu não virás, não serás, não me levarás daqui, deste cemitério caridoso, desta piedade que me mata a cada inspiração, deste atrofio mental.

Não, não me salvarás; Porque "tu" não existes.
Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: Thumbnail em 30.abr.2007, 16:22:07
Tanto escritor! Estou maravilhado!

'Neste quarto' de Devnet - Perfeita dedicação. Senhora de Amor pelo que vejo.

'Esperança congestiva falhada' - A linha da Vida implica sempre a Morte que será sempre uma eventual continuidade, seja aqui, ali ou em lugar nenhum. Um outro mundo, o mesmo, um início ou um fim. O Amor é a lição mais importante da Vida e quando se aprende a ser e a estar com o coração, conquista-se a eternidade e a união dos corpos é reflexo espiritual e vence qualquer linha do desconhecimento. Lindo!

BloodTears - O teu nick é a metáfora do que me fizeste sentir!
 
Nunca Virás de FalsoDeus - Há quem expresse tudo em palavras. Eu prefiro o silêncio às vezes. Fizeste-me sentir um pouco de mim em cada palavra tua. Não o classifico, dou-te o silêncio em resposta.
Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: BloodTears em 30.abr.2007, 18:38:22


Armspt - Obrigada pelo comentário. Agradavelmente perturbado parece-me a melhor reacção que podia receber.

Miau_Elfico - Obrigada a ti também.  ;)
Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: Arms em 30.abr.2007, 19:00:34
(Ai, desculpem-me a insistência de colocar textos atrás de textos.  ::) Acontece que ando num brainstorming!)

Vidro

Olá?!
Óptimo, isto funciona. Consigo riscar o vidro, mas ainda não consigo quebrá-la. Mas não é isto o que eu quero lembrar. Não. O quero é esquecer. Dói tanto, este arrependimento. Só consigo fazer o que a minha alma me permite mas não desfaço as coisas que fiz. E é tarde demais para voltar atrás e mudar as coisas. Estou morto e não consigo regressar para os que abandonei. Especialmente ela. O meu único conforto agora é desejar que a visão do mundo seja roubado por esta lâmina. Usei-a para apagar a dor do mundo real. Agora ela faz o mesmo aqui.

Sempre que a via ela estava num lugar diferente. Toda a dor que teria nessa altura desaparecia com um simples olhar esquivo. Mas, com um piscar de olhos, eu seria atirado de volta à realidade. Não! Tenho que parar de chorar, mesmo que seja por alguns segundos. Mal consigo ver o que escrevo nesta prisão de vidro que me separa do mundo. Nunca pensei que os olhos dos mortos doessem tanto. Nem sabia que eles pudessem ver. Tenho que continuar... Acho eu.

O meu amigo contou-me sobre os seus sentimentos antes que eu pudesse fazer alguma coisa. Ele também a queria. Gosto de pensar que o meu amor por ela é mais puro, mas acho que nunca cheguei a saber a verdade. Não consegui dizer-lhe que era errado, que era uma coisa que não se faria a um amigo.
Não está certo. Nada está certo. Isto está errado. Mesmo se lhe tivesse dito, isso não me ajudaria... Ela o escolheria mesmo de olhos fechados. Eles eram bons amigos, e conheciam-se há muito tempo. Já era doloroso falar com ela... Maior parte das vezes eu dizia apenas olá, enquanto ela movia-se para o seu amor. Para ele. Amando-a rasgava-me por dentro a cada segundo, e eu deixei que esse sentimento crescesse em mim. A minha obcessão cresceu até eu não conseguir viver um segundo, ou um batimento de coração, sem o pensamento do amor que nunca poderia ter.

Ele telefonou-me numa noite fria. Pediu-me para ir ter a sua casa, que queria falar comigo. Poderia não estar frio lá fora mas, para onde ia, estava gelado. Disse-me que a ia pedir em namoro no dia seguinte. Fingi estar feliz por ele e dei o meu apoio, mas realmente o odiei nessa noite... Era como se ele tivesse segurado em todos os meus sonhos nas suas mãos e esmagou-os aos bocados. Milhões de pequenos pedaços chovendo da minha face, cortando a minha pele. Não consegui dormir nessa noite.

O amanhecer foi como o paraíso chamando-me deste mundo doloroso. Durante todo esse tempo algo em mim duvidava que ele chegasse a pedi-la em namoro. Mas não tinha dúvidas que ela aceitasse se ele o fizesse.
Forcei-me durante o dia todo até que cheguei ao corredor depois da última aula... onde a costumava ver. Lá estava ela. Longe, mas suficientemente perto para eu lhe poder ver os olhos. Os seus belos olhos de mel e avelã. Depois... ele começou a falar com ela. Ela parecia agradavelmente paralisada com as palavras dele. Eu sabia o que era. Ele pediu-lhe em namoro. Morri ali, naquele momento. Saí e corri dali. O tempo tornou-se numa mancha até que me encontrei no quarto dos meus pais, olhando para uma pequena lâmina ao pé da minha pele. Estava tão limpa, tão pura... podia ver a minha cara reflectida nela. A minha face, que nunca iria sarar destas cicatrizes que escorrem dos meus olhos. Eu odeio esta cara... estava a olhar para mim, dizendo o quanto eu queria terminar aquilo. A lâmina estava fria nas minhas mãos... mas gelada através dos meus pulsos. Mas o sangue estava quente. Fiquei a ver a minha dor a escorrer até que ficou tudo preto.

Acordei aqui, nesta prisão de vidro. Uma prisão olhando para ela. Conseguia vê-la, ainda consigo imaginar a sua forma. Senti-me angelical de alguma forma, mas sei que sou um demónio e que este é o meu castigo. Sempre pensei que não haveria sofrimento aqui. Mais uma vez, estava errado. Nós acreditamos em tantas mentiras. Nós só acreditamos em mentiras porque a verdade dói demais.

O telefone tocou e ela atendeu. Ela é tão espectacular... Acho que foi uma amiga, ou algo do género, mas fosse quem fosse, ela disse-lhe que havia rejeitado o meu "amigo" quando ele a pediu em namoro. Ela disse-lhe que não conseguiria esquecer os sentimentos em relação a outra pessoa. Gritei por ela. Ela não me ouviu. Acho que sabendo aquilo tornou a minha vida aqui mais fácil, e não me arrependo disso... ainda. Sentei durante horas, apenas olhando-a, amando-a.

O telefone tocou outra vez. Ela não deveria ter atendido... Disseram-lhe que eu tirei a minha vida nesse dia... agora ela sabia. As suas lágrimas seguiram-se, uma à outra, em perfeitos pavimentos descendo-lhe a face. Queria quase voltar a viver nesse momento... mas já não é importante. E depois aconteceu. Umas pequenas palavras formaram uma frase quebrada... murmurou-as. Para os vivos eram tão baixas que não se ouviriam, mas ecoarão mais que a própria realidade aqui para toda a eternidade. Eu. Era eu quem ela queria. Quem ela amava. Porquê?

O meu choro fundiu-se ao dela, mas a minha fúria era maior do que qualquer mundo vivo ou morto poderia conhecer. Bati com toda a paixão no vidro, mas ele erguia-se em paredes sólidas. Troçando de mim. Desafiando-me. Horas e horas de pancadas angustiantes foram soltas vezes sem conta, mas ainda não lhe conseguiria chegar.
Ela amava-me. Ela amava-me. Repetia tudo na minha mente. A cada segundo que passasse a minha vontade de viver crescia cada vez mais. E mais. Conseguia ver-me com ela. Segurando-a. Beijando-a. Podia ser feliz desta vez, mas estou aqui. Batia com todas as minhas forças... mas estou aqui. E estarei sempre aqui. Desisti eventualmente de tentar escapar este cubículo de vidro. Foi quando encontrei a faca, ainda presa no meu pulso. Desejava poder morrer da morte.

Acho que tenho sorte dos vidros poderem ser riscados. Assim posso arranhar esta história do meu olhar para poder esquecer os meus erros.
Agora quase não consigo ver a sua face.
Quase...
Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: BloodTears em 30.abr.2007, 19:26:07


Gostei Arms.

Aqui vai outro.

bittersweet

appalled. assustada como os pianos. assustada
com os pianos. sem os pianos. sem cordas e cem teclados.
pianos abertos. pianos fechados. pianos que me beijem e
que toquem sozinhos.

dos pianos que me fazem tremer durante o tempo que os consigo
ver. dos pianos que decidem unir-se e viver enquanto não bebem da luz.

medo dos pianos que tens dentro de ti. dos pianos fora de ti. medo que
chorem os pianos dentro de ti. medo que chores com pianos com
mais teclas brancas do que pretas.

medo que consigas tocar quando estás fora de ti. que consigas tocar nos
pianos dos outros. medo que consigas abrir outros pianos.

appalled. all because of those bittersweet pianos you keep in your
pocket.
Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: Thumbnail em 30.abr.2007, 19:28:23
Arms, tu fazes sonhar!
Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: NecroRomancist em 30.abr.2007, 19:29:45
Textos lindos :)

 Ecce Homo

Penso no que vou escrever
e assim me iludo
na visão que me constrói
e na qual me quero esconder..
Ouço o principio
lendas de beleza
vidas sem fim
almas sem coração,
uma continuação dolorosa de nada,
e quero começar..
Andemos,
com as vidas a pairar
à nossa volta,
com a ignorãncia do medo
a dar-nos razão.
Penso que não vou aprender,
que me vou deixar a morrer aos poucos,
confiar na mão que me guia
na mão que me faz sonhar.
Para e chora,
pode ser que vejas tudo a acabar,
e reconheças o que te faz amar..
o nada que é tudo..
Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: NecroRomancist em 30.abr.2007, 19:33:47
Elegia de Amores Perfeitos

Pensas em viver
deixar quem te ama
acompanhar-te
mas o que desejas sabes
só existir na alma
pela qual o teu coração nao sofre.
A mão que te acaricia
afasta-te
recolhes os teus olhos
fechas as mãos e pensas em fugir,
a adorar cada momento,
nao consegues mergulhar
no que te chama e te consome.
Porque choras?
A história um dia secará
no leito do advento de uma memória
que alguma beleza
tentou fazer por merecer..
Olha como as crianças se riem
neste rodopio,
um carrosel de inocência..
mas enquanto cai a noite
e as folhas esmorecem
por entre as minhas mãos
percebo porque choras..
porque te vejo a gritar..
porque sinto como minha
a inocente queda dos teus olhos..
morreu o teu Deus..
e o teu filho ri..

We are all scared...
Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: Arms em 30.abr.2007, 19:48:13

bittersweet

appalled. assustada como os pianos. assustada
com os pianos. sem os pianos. sem cordas e cem teclados.
pianos abertos. pianos fechados. pianos que me beijem e
que toquem sozinhos.

dos pianos que me fazem tremer durante o tempo que os consigo
ver. dos pianos que decidem unir-se e viver enquanto não bebem da luz.

medo dos pianos que tens dentro de ti. dos pianos fora de ti. medo que
chorem os pianos dentro de ti. medo que chores com pianos com
mais teclas brancas do que pretas.

medo que consigas tocar quando estás fora de ti. que consigas tocar nos
pianos dos outros. medo que consigas abrir outros pianos.

appalled. all because of those bittersweet pianos you keep in your
pocket.


Adoro... Gosto imenso do pormenor dos teus textos serem bilingues. É algo que nunca experimentei. Acho mesmo muita piada à ideia.

Textos lindos :)

 Ecce Homo

Penso no que vou escrever
e assim me iludo
na visão que me constrói
e na qual me quero esconder..
Ouço o principio
lendas de beleza
vidas sem fim
almas sem coração,
uma continuação dolorosa de nada,
e quero começar..
Andemos,
com as vidas a pairar
à nossa volta,
com a ignorãncia do medo
a dar-nos razão.
Penso que não vou aprender,
que me vou deixar a morrer aos poucos,
confiar na mão que me guia
na mão que me faz sonhar.
Para e chora,
pode ser que vejas tudo a acabar,
e reconheças o que te faz amar..
o nada que é tudo..


Gosto muito do início deste porque faz lembrar um poema curto que escrevi. O poema é assim:

Ilude-me

Acho que me iludo
quando acho que existem pessoas
que querem ler tudo aquilo que escrevo.

Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: Arms em 01.mai.2007, 18:32:36
E, lá no fundo, ele talvez quis mesmo que todos morressem

Nasceu num lar confuso, muito confuso, mas sentia-se indiferente a tudo isso. Aquela criança cresceu para se tornar num rapaz e continuou. Progrediu rapidamente pela adolescência e tornou-se num adulto. Durante todos estes anos muita coisa aconteceu na sua vida. O seu nome já não importa porque não pode ser confundido com outra pessoa.

Foi educado como um rapaz normal. Tinha amigos. Não em demasia, apenas os suficientes. Mas tudo mudou quando chegou aos 10 anos. Começou a desenvolver manchas negras nos seus olhos. Cresciam lentamente ao longo dos anos mas, nos locais onde permaneciam as manchas, o rapaz não via. Os médicos ficaram boquiabertos e nem um conseguia diagnosticar ao certo o problema dele. Alguns diziam se tratar de um tipo de cancro extremamente raro, outros diziam tratar-se d eum virus, mas eram mais os que nem um explicação tinham para oferecer.

Aos 15 anos ele perdeu mais de metade da sua visão e foi enviado para uma escola especial por muitas razões. O menos importante foi devido à infindável dor da tortura dos insultos dos seus colegas. A mais importante foi a estranha alteração que a sua inteligência sofrera. Ele dava, por vezes, sinais de uma inteligência extraordinariamente vasta, mas depos havia períodos semanais em que nem se lembrava de uma só palavra. Estudos mais profundos descreviam alterações na sua própria estrutura genética e que, por qualquer razão anormal, não poderia ser afectado por qualquer virus conhecido. Foi contra os desejos dos seus pais, e os seus, que ele se tornou numa cobaia para a ciência, por isso, continuava a sua educação especial.

Os seus olhos estavam completamente negros ainda antes de ter completado os seus 20 anos, mas ninguém na universidade sabia disso devido aos óculos que usavas. Foram-lhes dito que era cego, em maior parte verdade. por esta altura as suas falhas de memória haviam estabilizado e, quando ocorriam duravam apenas horas e não dias. Viveu maioritariamente como um eremita e evitava o contacto humano sempre que podia.

O inverno veio e muitas pessoas iam ficando doentes com o que se julgava ser uma estirpe especialmente resistente de influenza. Tudo isso mudou quando os primeiros cem casos morreram. Depois de um dia de fortes tosses e dores corporais, os órgãos interiores hemorragiam e liquidificavam. As primeiras vítimas surgiram como surpresa, com sangue a sair de todos os orifícios do corpo e, até os olhos eram vermelhos devido às rupturas das veias capilares nelas contidas.

Dentro de semanas milhões foram apagados e não parecia haver espectativa de cura. Os médicos descobriram tratar-se de um virus mas não sabiam como se transmitia. Parecia surgir apenas nas pessoas. O jovem ficou em casa durante essas primeiras semanas. Os cheiros e os sons do mundo eram demasiados para ele, quando todos eram infectados menos ele. As únicas vezes que saia era para procurar comida.

Acordou depois, um dia, num local calmo. O ar continuava nauseabundo mas estava tudo muito mais silencioso. Quase como se as suas orelhas haviam sido cortadas. Saiu e quase que conseguia esquecer o cheiro estagnado, o mundo parecia limpo e tranquilo. Havia uma sensação de calor à sua volta. Ele começou a andar. continuou durante horas apreciando o silêncio. Depois ocorreu-lhe que qualquer coisa podia estar errado. Começou a gritar por todos, mas ninguém respondia. E continuou a gritar. Durante dias talvez. Mas não havia restado ninguém.

A princípio parecia uma dádiva. Nada deixado atrás que lhe podia causar incómodo ou dor, apenas o silêncio das árvores e o vento. Andou até encontrar um pequeno lago no meio de uma floresta e sentou-se à beira da água. Gostava de se sentar e imaginar o seu reflexo nas águas cristalinas. Ficava ali a pensar. Durante horas e horas e depois dias após dias. Começou a compreender as coisas como nunca ninguém tinha compreendido antes. Depressa desejou que estivesse ali alguém, ao seu lado, para poder contar todas as coisas maravilhosas que ia descobrindo. Mas não havia ninguém. E não havia ninguém que o acalmasse a dor.
Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: Gharam em 01.mai.2007, 22:57:36
O Outro Lado

Está a chover, oiço as gotas a baterem no vidro gelado. Um som seco, mecânico, não consigo ouvir mais nada. Ali, ao meu lado está uma estranha, não a conheço, não pode ser a minha filha, não pode. Viro-me para ela, as lágrimas escorrem-lhe pela face, mas mesmo assim ela olha duramente para mim, tentando a todo o custo mostrar-se forte. Ao vê-la chorar lembro-me que ela é minha filha, a minha menina. Lembro-me da mão pequena na minha a agarrar-se a mim quando as ondas se tornavam mais fortes, assustava-se com a rebentação, e eu dizia “Pronto, Aninha, não há problema, vês? O mar não chega, além disso, a mamã está aqui para te proteger.” E ela sorria-me, levantando aqueles olhos enormes para mim. Mas agora esses mesmos olhos olham-me num misto de fúria e expectativa. Onde está a minha menina? Sinto-me perdida, desesperada, assustada. Como é possível? Eu fiz tudo bem, dei-lhe tudo, porque é que ela ficou assim? Não, ela diz-me que foi sempre assim, que eu não tenho nada a ver. Mas eu não me sinto assim, eu lembro-me dela tão querida nas suas saias de folhos agarrada à boneca cor-de-rosa. Mas ela já não é assim, nunca vai ser o que eu pensei. Queria tanto conversar com ela sobre o primeiro namorado, como era o mais giro da escola, ser a sua confidente, vê-la casada, feliz, ter netos. Tudo foi deitado pela terra, pela lama, ela nunca vai ser assim. Tenho medo. Ela vai ser brutalizada, vão chamar-lhe nomes, pô-la de lado. E que posso eu fazer? Não sei, nunca ninguém me preparou para isto, sempre pensei que acontecesse aos outros, mas não a mim. Não, nunca. Não sou homofóbica, mas não consigo deixar de sentir um vazio, uma certa desilusão por ela já não ser aquela menina, a minha menina, uma menina como as outras. Ela diz-me que ama a outra rapariga, que a quer mais do que tudo, que é feliz com ela, o que nunca foi com rapazes. Quer o meu apoio. Como? Vou tentar compreender, ajudá-la. Afinal, ela é minha filha. Eu amo-a, mesmo assim, e se ela diz que é feliz, então que seja. Isto é o princípio de tudo, nunca desconfiei, e só agora ela me diz isto. Vou ultrapassar. Ela levanta-se e vai embora, vou à janela e vejo-a correr para debaixo do guarda-chuva da namorada, e depois caminham de mãos dadas. Sinto-me triste e feliz ao mesmo tempo. Afinal, a minha filha encontrou o amor, mas não da forma como eu pensava. 
Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: NecroRomancist em 01.mai.2007, 23:36:26
Lost Love

No other man..
dressed in the night's cloth..a forsaken beauty..whose tears would forever be mine
he took my hand..awaken by a growing mist..i felt a life rising on that night..
no despair had i felt
till the day he left me
awaken to a mournful day
oh how wish
to forever be lost upon sleeping
An angel in ebony veiled
lost to visions of surreal tears
quiet paintings
unleashed by the sound
of severing screams.
Without him
i live for my death
never free
lost down the stream
of a madness which sleeps as i die for my memories
He will forever sleep within my hate
my endymion
Why did u leave me..
Visions of rain
bring chaos to my soul
a mournful weeping sky
Jesus' own love
on this dying consciousness
Why...
when will i sleep again
when will i feel this love
which awaken turns to dust
which winds turns to hate
I hope to feel..something..someday..
Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: Thumbnail em 02.mai.2007, 10:59:35
Arms, gostei particularmente do teu texto. Coisa que raramente se vê é o ponderar de factos estranhos e pouco ou nada comentados. Gosto da moral e do processo simples e bonito como consegues activar a mente, embelezando e alertando. Uma forma tenebrosamente bela, diria.
___

Fragmentos

Estou numa casa escura em que as luzes são provocadas apenas pela minha sombra. Algo me persegue e eu não consigo ver o quê... Corro. Corro muito rápido em busca da saída que não existe. Oiço a respiração de algo que não sou eu, acompanhada de algo de mim, que nada sou... Paro! Paro e olho para a escuridão... Fico parado em frente a algo que não sei e ao lado da minha sombra. Fico parado em frente a algo que não sei, mas sei-me acompanhado. De repente, oiço um tilintar. Uma mesa, penso. Um jantar. Oiço vozes... Oiço conversas numa língua desconhecida e tento cantar com eles mas o silêncio dispersa-se. Oiço-me cantar sozinho e o silêncio voa e as gargalhadas aumentam. Os quadros das paredes que não vejo, que nada são, focam-me os seus medos e apunhalam o meu suor. Corro. Desato a correr como uma criança e sinto-me longe. Fui para o nada que me liberta e fui para o todo que nunca me surpreende. Corro agora novamente para onde estava antes, para onde estou agora... Para o sítio de onde nunca saí... Corro... Só... Corro... Corro... Corro parado... Olho a escuridão e oiço as vozes que choram a felicidade e desenham o teor de algo roxo e longínquo e vejo-me num reflexo sombrio. A minha sombra. Que tudo ilumina. Que tudo vê. Que nada é.  Corro e sei-me acompanhado de algo que me adora e me odeia... Sei-me só e fujo... Voo sozinho naquela escuridão e vejo-o. Vejo algo que não se vê na escuridão. Vejo o rosto deformado de algo que... adoro. Vejo dois braços esticados e um sorriso puro... Corro... Corro para os braços daquele ser místico e choro. Choro, arrepiado, por saber que é tão escuro e me assombra. Corro no meio da escuridão e ele desaparece. Foge, disse. Partiu para o mundo que se ouvia do lado de lá e eu... corro. Corro barbaramente porque estou só, estou longe, sem mim!! Corro, corro, corro. Sangro... Sangro porque pisei algo e estava descalço e estava frio e estava longe de mim. Sangro porque soube-me perdido e soube-me abandonado. Sangro porque sei que há saída e choro por não saber como a abraçar. Caminho... Deambulo por aquele lodo de nadas e afogo-me em mim, que não sou, não estou, não sei... Fujo de mim, já distante e do lado de lá. E sento-me. Algo me abraça, mas eu não vejo, não cheiro, não sinto, não nada... Apenas me abraçam. Eu fora de mim sei que me abraçam, mas não reajo... Olho como se não existisse nem no lado de lá, nem no esboço do que sou fora de mim. E as paredes derretem. O escuro aparece branco e o sonho invade-me as veias. Grito. Grito um silêncio alto e uma lágrima muda e vejo-me às cores. Não sei porquê, sorrio. Mas não vejo ninguém. E ando. Contemplo cada canto daquele mundo e algo me persegue e eu corro. Contemplo cada canto daquele mundinho e corro porque me perseguem e fujo porque tenho medo e canto só porque nada sou... Eu fujo e uivo sozinho e ladro a quem não vejo e firo-me com o que nada sou... E apanham-me... Abraçam-me com força selvagem e devoram-me e queimam-me.... E eu nada sou, nada digo, nada faço... Abandonam-me e eu olho para o nada que me acaricia outra vez... Olho e vejo algo que me parece redondo e vejo algo que me parece Eu e vejo algo que me parece verde e vejo algo que parece de mim por nada ser também... Levanto-me e vou devagarinho, pé ante pé, até o que julgo ver, creio até ser um baloiço mas não alimento esperanças... Apenas vou... Olho aquele ponto cada vez mais visível, cada vez mais belo, cada vez mais Eu (por nada ser), cada vez mais alto e único e longínquo e Eu...  Piso o verde, contemplo o ponto alto e vejo o que sou Eu... Piso o verde, e tocam-me, desato a correr e oiço "espera". Uma palavra que ignorei quando se iniciou mas em que adormeci quando acabou. Aquele seu som era como a mais pura brisa, a mais bela melodia, a mais bela dádiva. Chamou-me, paralisou-me, fez-me viver.

Paro e fecho os olhos e olho o todo branco que outra vez se expõe e recordo-me da palavra e viro-me e sorrio. Olho e não vejo nada nem ninguém. Apenas o nada que Eu já era, lá no alto, lá no todo inalcançável, lá na virgem cor do meu saber, de mim...Olho e não percebo. Penso quem terá gritado. Penso-o no silêncio eufórico do nada de mim  e volto-me novamente para trás com os olhos cerrados e com frio. Um frio medonho e os olhos cravados a chorar o sangue do nada que sou. Oiço então algo como "olha e sente, meu nada bonito" e eu abro os olhos com a maior raiva de mim... Dói tanto... Farpas ferrugentas espalham o veneno em mim... Eu farpa, Eu nada... Mas não importa... Na dor, olho, corro, paro! "O meu sangue!!!"  disse. Sou azul! Tenho as pernas roxas e sou verde nos cabelos e laranja no rosto e vermelhos são meus braços e amarelas as unhas e... os meus olhos não são. O meu coração não é e eu sinto-me livre. Julgo-me morto, mas sinto-me livre. Ignoro. Mas sinto-me livre. Ignoro mas vou para dentro daquele pequenino mundinho em que algo no alto me fascina, em que algo em Terra me refresca em que algo ao lado me transmite paz. Mas tenho medo. Tenho medo porque não vejo nada. Tenho medo porque o branco é o disfarce do preto e porque Eu sou condenado. Tenho medo, enquanto alma, tenho medo enquanto Eu. E algo me toca. Desta vez Eu vejo. Algo me olha e desta vez sinto-me um anjo. Algo que sempre sonhei está agora em mim. Eu olho e sei o que é sentir o fim. Sou Eu por inteiro e oiço uma brisa. Um leve bater de ar que nunca havia sentido. E quero correr mas algo me chama. E quero fugir mas algo me prende e proíbe de sair de onde estou. De sair daquele belo sítio onde fui parar. Por instantes recordo-me das horas em que estive na escuridão. Por instantes recordo-me das horas em que pude uivar em paz cada batida do meu coração mesmo que só quisesse correr, gritar... Mesmo que seja apenas nada. Choro por me recordar e sorrio por saber que estou longe daquilo que não sei dizer onde é, o que é ou para onde vai. Choro por me recordar. Sorrio porque estou aqui. Choro porque me perdi em mim e sou um tremendo nada. Sorrio porque sinto a paz neste jardim. Sim. Isto, sim, é um jardim. Isto, sim, é paz. Choro porque sou nada. Sorrio porque tenho a Lua a abençoar-me. Choro porque pertenço à raça de nadas que destruíram o que nos unia à Deusa. Sorrio porque sei-a eterna. Choro por sentir que me aceita. Sorrio por saber que sou Ela, sou nada, o eterno bailar mais puro!
Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: BloodTears em 05.mai.2007, 14:08:49


g


the world is gay. as ruas são disfarces de lésbicas. there is nothing
gayer than tides. even seas are bisexual. as palavras e as formas
dos poemas são escritos por gays nas suas doc martins. while they
are having a martini.

as patas dos gatos. felpudas na sua sensibilidade liberal. if they wear
gowns they are gay. if they are simply nude they are gay too. é claro
que as máscaras nos jardins feministas não andam de mão dada.
profanação. blasphemy. 

todos tocam clarinete. ou pelo menos fingem. or guitars. if a girl plays
bass she is gay. pode fugir e vestir camisas às riscas mas é. os anéis
são imprescindíveis. the watch is gay.

lençóis brancos são poços de masculinidade perdida. blues and gothic
rock are queer. if someone dies it was a gay that killed him. com armas
cor-de-rosa maria-rapaz.

if someone was killed it is a gay that is buried. num caixão com o arco-irís
onde se lê: tentei ser livre o mais que pude. o mais provável é que tenha um
fascínio pelo período vitoriano. travestis with corsets.

books are gay. they open themselves too much. e têm demasiadas páginas com
demasiados pormenores. the authors are gay. no doubt about that. quando nascem
 já trazem o rótulo. woman kisses woman. men holding hands. chocante. devem
ser todos escritores. i bet they have a secret life as well. nas praias e nas cidades
de pedra.

news from everywhere. gay farm. lesbians in love. sanguessugas. serial killer
with a knife so gay it sings in the shower.
 
o elemento perfeito. break the secret society. this depressing world is gay.
Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: hal em 05.mai.2007, 14:49:19


g


the world is gay. as ruas são disfarces de lésbicas. there is nothing
gayer than tides. even seas are bisexual. as palavras e as formas
dos poemas são escritos por gays nas suas doc martins. while they
are having a martini.

as patas dos gatos. felpudas na sua sensibilidade liberal. if they wear
gowns they are gay. if they are simply nude they are gay too. é claro
que as máscaras nos jardins feministas não andam de mão dada.
profanação. blasphemy. 

todos tocam clarinete. ou pelo menos fingem. or guitars. if a girl plays
bass she is gay. pode fugir e vestir camisas às riscas mas é. os anéis
são imprescindíveis. the watch is gay.

lençóis brancos são poços de masculinidade perdida. blues and gothic
rock are queer. if someone dies it was a gay that killed him. com armas
cor-de-rosa maria-rapaz.

if someone was killed it is a gay that is buried. num caixão com o arco-irís
onde se lê: tentei ser livre o mais que pude. o mais provável é que tenha um
fascínio pelo período vitoriano. travestis with corsets.

books are gay. they open themselves too much. e têm demasiadas páginas com
demasiados pormenores. the authors are gay. no doubt about that. quando nascem
 já trazem o rótulo. woman kisses woman. men holding hands. chocante. devem
ser todos escritores. i bet they have a secret life as well. nas praias e nas cidades
de pedra.

news from everywhere. gay farm. lesbians in love. sanguessugas. serial killer
with a knife so gay it sings in the shower.
 
o elemento perfeito. break the secret society. this depressing world is gay.


Lindo. Adorei.  [smiley=hipnotizado.gif]
Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: NecroRomancist em 05.mai.2007, 16:17:36


g


the world is gay. as ruas são disfarces de lésbicas. there is nothing
gayer than tides. even seas are bisexual. as palavras e as formas
dos poemas são escritos por gays nas suas doc martins. while they
are having a martini.

as patas dos gatos. felpudas na sua sensibilidade liberal. if they wear
gowns they are gay. if they are simply nude they are gay too. é claro
que as máscaras nos jardins feministas não andam de mão dada.
profanação. blasphemy. 

todos tocam clarinete. ou pelo menos fingem. or guitars. if a girl plays
bass she is gay. pode fugir e vestir camisas às riscas mas é. os anéis
são imprescindíveis. the watch is gay.

lençóis brancos são poços de masculinidade perdida. blues and gothic
rock are queer. if someone dies it was a gay that killed him. com armas
cor-de-rosa maria-rapaz.

if someone was killed it is a gay that is buried. num caixão com o arco-irís
onde se lê: tentei ser livre o mais que pude. o mais provável é que tenha um
fascínio pelo período vitoriano. travestis with corsets.

books are gay. they open themselves too much. e têm demasiadas páginas com
demasiados pormenores. the authors are gay. no doubt about that. quando nascem
 já trazem o rótulo. woman kisses woman. men holding hands. chocante. devem
ser todos escritores. i bet they have a secret life as well. nas praias e nas cidades
de pedra.

news from everywhere. gay farm. lesbians in love. sanguessugas. serial killer
with a knife so gay it sings in the shower.
 
o elemento perfeito. break the secret society. this depressing world is gay.


Lindo. Adorei.  [smiley=hipnotizado.gif]

Lindo Lindo lindo  :o  :D
Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: BloodTears em 05.mai.2007, 22:15:15


Fico contente por terem gostado. Já foi escrito há imenso tempo.
Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: Gharam em 18.mai.2007, 19:26:19
Deu-me agora para escrever isto  :P Mas não estou lá com muita inspiração. Enfim...



Conheci-a há dois anos atrás. Certo dia um amigo comum, já não me lembro exactamente quem, decidiu fazer um jantar em casa dela. Quando cheguei, um pouco envergonhada, visto que não conhecia ninguém para além dele, sentei-me no sofá ao lado dela, depois de cumprimentar todos ao de leve. Durante o tempo que estivemos à espera que tudo estivesse pronto, que não foi muito, talvez uns dez minutos, penso eu, ela não falou. A televisão estava ligada, pensei que ela estivesse atenta ao documentário que passava prosaico pelo ecrã. Um rapaz que estava num cadeirão à minha frente reparou que a minha t-shirt era de uma banda que ele gostava e trocámos umas palavras até nos sentarmos à mesa. Reparei que ela tocava muito na mesa e na cadeira ao se sentar, mas não liguei muito. A conversa foi-se desenrolando à medida que o vinho nos libertava dos constrangimentos normais de quem não se conhece. Soube o nome dela, Madalena. E que afinal não me era assim tão estranha, ela frequentava a mesma universidade que eu. E percebi que era cega. Discretamente, passei o jantar todo a observá-la. Fascinava-me o modo natural como se mexia e falava olhos-nos-olhos com as pessoas. O cabelo liso e negro dela rolava conforme a cabeça dela rodava, reflectia a luz artificial das lâmpadas fluorescentes e dava-lhe vida. A luz brincava no cabelo dela e ao chegar aos olhos iluminavam todo o seu verde. Incrível como aqueles olhos tão belos, profundos, vivos, fossem tão inúteis. Descobri que tinha nascido cega. No final do jantar trocámos números e combinámos um encontro. Ao chegar a casa sentia que quem tinha estado cega este tempo todo fora eu.

Conheci-a há dois anos atrás. O Carlos fez mais um dos seus famosos jantares. Cheguei mais cedo que os outros e ajudei-o a cortar uns legumes. Depois sentei-me no sofá grande que ele tinha na sala à espera dos outros enquanto ouvia um documentário sobre focas, penso eu. Primeiro chegou o Fábio, e depois uma rapariga que eu não conhecia, amiga do Carlos. Ouvi-a cumprimentar-nos timidamente e respondi. Ela sentou-se ao meu lado e senti o seu perfume. Ao de leve cheguei para mais perto dela e consegui aperceber-me de como o seu cheiro era quente, nunca antes me tinha sentido a arder por dentro. Cada golfada de ar tornava-se mais viciante. De repente tomei consciência de que não devia estar a fazer aquilo, era uma perfeita desconhecida. Então voltei-me para a televisão e não disse mais nenhuma palavra até ao jantar. Sentámo-nos e fomos conversando. A voz dela sobressaía das outras, era uma voz baixa e algo rouca, mas mesmo assim bastante feminina. Adorei a forma como ela se ria. Tão desprendida, descontraída, um riso aberto e franco. Fiquei curiosa, tinha de a conhecer mais. Ouvir aquela voz mais uma vez. E assim eu e a Maria combinámos o nosso segundo encontro.
Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: Gharam em 18.mai.2007, 19:27:34
Decidimos ir à praia ao fim do dia. Era verão e fazia imenso calor, era perfeito. Fui buscá-la no meu carro. Lembro-me que me senti tão, mas tão contente por ela estar ao meu lado. Era-me practicamente uma desconhecida, mas sentia-me bem com ela. Podia ser eu própria, não havia limitações, jogos, fingimentos inconscientes. Chegámos à praia e desafiei-a a correr até ao mar. Mas calei-me ao lembrar-me de que ela era cega. Fiquei constrangida, ela podia cair e magoar-se, porque é que lhe tinha dito uma coisa daquelas? Ela percebeu e com um esgar matreiro, desatou a correr gritando: “Não me apanhas!”. Fiquei sem saber o que fazer. Cheia de medo galguei a areia atrás dela, suplicando que ela parasse. Mas ela fingia que não me ouvia e fugia de mim até que mergulhou na rebentação. Nunca mais voltava à tona e eu corria com todas as minhas forças para alcançá-la, caí na água e procurei por ela. Pouco depois senti-a a puxar-me a perna e eu voltei-me para vê-la a rir-se debaixo de água. Puxei-a para a superfície e gritei-lhe para nunca mais me fazer uma coisa daquelas. Ela riu-se e abraçou-me. “Não te precisas de preocupar, estás segura comigo.”, murmurou.


Fomos à praia da segunda vez. Ao chegarmos lá, ela, inocentemente, desafiou-me a correr até ao mar. Mas eu percebi que ela tinha ficado tensa, ri-me e pensei, lá por ser cega não quer dizer que não saiba correr a direito. Corri o mais rápido que conseguia em direcção ao com da rebentação, com ela a gritar atrás de mim. As conchas grossas magoavam-me os pés, mas não parei até sentir a água fria e mergulhar de cabeça. Susti a respiração até ouvi-la a entrar dentro de água e senti-a à minha direita. Estiquei a mão e por acaso consegui puxar-lhe a perna. Ela agarrou-me e levantou-me. Senti o vento forte a bater-me na cara enquanto ela me gritava que estava preocupada e que eu era uma irresponsável. Tinha as mãos na minha cintura e agarrava-me com força. Ri-me e apertei-a contra mim. Senti o sal do pescoço dela nos meus lábios, o corpo molhado e a pele arrepiada. Era mais pequena que eu, descobri. Era tão macia, parecia tão frágil. Desde sempre que me senti com medo. Agora não. Não com ela. Não podia ter medo se a tinha que proteger dali em diante.
Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: Thumbnail em 19.mai.2007, 15:50:00
Despida

Olho para ti, cobertura de sangue,
Olho-te nos olhos e sinto teu ódio, esse pavor!
Olho-te despida e suja - suor, segredo -
Nua entre cinzas e constelações de degredo,
Que te rasgas e te salpicas nesse veneno incolor!

Olho-te vã porque não te conheço
Mas sei que me rasgas com medo da cor
Olho-te nessas lágrimas, onde padeço
Leito de chamas onde adormeço
Nessas impurezas pintadas de suor...

Caminho para ti e a serpente voa
Da turtura da chuva menos um dedo na mão,
A acidez da fome tira-te os cabelos
E os poros da lápide susurram, coração
- olhas-me a medo que é segredo, sugas-me nessa maldição -

E ao gatinhares para longe, o rasto de luz devora-me, sedutor
Nesses olhos escuros, ventre de ouro,
Nesse segundo de leito e devaneio
Na tua morte fria e transparente
Nessa cor que brilha - passeio - lágrima e Amor.

Nesse vulto que é o tempo, as cinzas caem por louvor,
Latindo fossas de letal fingimento,
Ganindo horas de saudade e de pudor
Nesses olhos vidraçados
- Nunca mais, um amador -

E quando fechas teus olhos e o vinho dos sargaços se enrola
Olho-te e a indiferença seduz-me a saudade
Jaz no téctrico essa vontade
Medonha sombra, pecador abençoado
- Liberdade esculpida do fim, sonhador - 
Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: Inadaptada em 19.mai.2007, 18:02:53
Sentimentos

Que sentimento é este
De opostos e contradições
Em que me afogo cada vez que te vejo...
Seria tão mais facil não sentir
Do que sentir o sofrimento
De te querer sem saber o que sinto por ti...!
Título: Re: Os Poetas da Rede
Enviado por: blueboy em 19.mai.2007, 18:16:50
isto agora é só falar direito com a saki ou outro moderador e começar a planear algo "rígido" e completo para colocar num tópico geral e ver se é possível organizar algo em "cada" cidade, ou se vamos ter de fazer com todos num só :P

De qualquer forma, se puderem vão já planeando os vossos textos ;)

QUERO VER ORIGINALIDADE PESSOAL!


Isto chegou a acontecer?
Acho que foi mesmo uma ideia óptima FalsoDeus!

Já agora podem ler alguns textos meus (poesia) no meu blog

www.j-smile-y-s-boy.blogspot.com (http://www.j-smile-y-s-boy.blogspot.com)
Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: BloodTears em 19.mai.2007, 22:59:22
Despida

Olho para ti, cobertura de sangue,
Olho-te nos olhos e sinto teu ódio, esse pavor!
Olho-te despida e suja - suor, segredo -
Nua entre cinzas e constelações de degredo,
Que te rasgas e te salpicas nesse veneno incolor!

Olho-te vã porque não te conheço
Mas sei que me rasgas com medo da cor
Olho-te nessas lágrimas, onde padeço
Leito de chamas onde adormeço
Nessas impurezas pintadas de suor...

Caminho para ti e a serpente voa
Da turtura da chuva menos um dedo na mão,
A acidez da fome tira-te os cabelos
E os poros da lápide susurram, coração
- olhas-me a medo que é segredo, sugas-me nessa maldição -

E ao gatinhares para longe, o rasto de luz devora-me, sedutor
Nesses olhos escuros, ventre de ouro,
Nesse segundo de leito e devaneio
Na tua morte fria e transparente
Nessa cor que brilha - passeio - lágrima e Amor.

Nesse vulto que é o tempo, as cinzas caem por louvor,
Latindo fossas de letal fingimento,
Ganindo horas de saudade e de pudor
Nesses olhos vidraçados
- Nunca mais, um amador -

E quando fechas teus olhos e o vinho dos sargaços se enrola
Olho-te e a indiferença seduz-me a saudade
Jaz no téctrico essa vontade
Medonha sombra, pecador abençoado
- Liberdade esculpida do fim, sonhador - 


I like this. the first stanza is brilliant.
Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: BloodTears em 19.mai.2007, 23:00:24


subway

quando te vi eras sombra. a sombra que mais me perseguia. sim, porque
existiam outras. perseguias-me inconscientemente, deliberadamente.
perseguias-me sem que te apercebesses dos teus passos. perseguias-me
mais quando não estavas aqui. perseguias-me mais de olhos fechados, de
sentidos dispersos entre uma vida que escolheste e o peso de um inimigo
interior. perseguias-me na tua sombra que desconhecias. sombra essa
que me era dolorosamente familiar. como o polegar conhece o indicador.
como a cama conhece os lençóis assim que os cheira. como a guitarra
conhece as cordas assim que as sente. e presa na complexidade de sombras
afastei-me do que me poderia queimar. algumas sombras são assustadoras.
algumas transformam-se em unicórnios que laceram tudo o que é
espontâneo. mas a sombra que eras tu apoderou-se do meu anelar.
apoderou-se das minhas horas livres. das horas vagas em que a mente se
solta num jardim. apoderou-se dos meus solilóquios nauseabundos. e se o
permiti foi porque soube desde o início que a tua sombra só existiu na minha cabeça.
Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: Ah-e-Tal em 20.mai.2007, 00:44:01
Thump thump thump.
O gordo baixo aborrece-me;
o meu estômago dá piruetas
ébrio.
Todos estes bons amis
thump thump thumpam,
o eco das suas vozes perdido em
esgotos.
Estes bons amis
aborrecem-me...
thump thump thump.
Os meus pés atam-se
e os meus lábios cruzam-se,
as minhas mãos
passam pelo esgoto.
Recolho as palavras de bons amis,
de velhos belos bons amis,
de tontas falhas e sal estragado.
Os meus olhos atam-se,
os meus olhos cruzam-se,
os meus olhos procuram
sorrisos, cantarolices;
rien.
Os meus olhos forçam-se
e batem um contra o outro.
"Thump".
Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: Azuth em 20.mai.2007, 04:18:12
Poderia ter-me embriagado de ti, mas não o permiti.

 Observo a mão pressionando, não recebendo nada, reclino-me e observo a partida, fluindo em mim o alívio e a libertação. Aspirei a tua repiração, um calor invadia os poros da minha pele, reneguei o vulgar prazer, deixei-me levar pelo pensamento....Desfigurado e suado.... calmo e fresco se torna o meu corpo, permaneci rígida, firme, não tentei desesperadamente fugir. Respondo que não posso responder, tens de descobrir por ti. Está em mim..... não sei o que é..... mas sei que está em mim. Durmo.... durmo longamente. Despiste-te para mim, não foste culpada. Vi-te atraves do meu pensamento, tu não me vis-te, mas eu vi-te e amei-te.

Sei que não sou traduzível. Partirei e entregar-me-ei ao meu novo destino, se me quiseres ver de novo, procura-me onde mais ninguém me encontrará. Difícilmente saberás quem sou, ou o que significo. Continuarei a reclamar o melhor de ti, o mais delicado, olhando-te simplesmente. Dar-te-ei possívelmente companhia. Se à primeira não me encontrares, não desanimes, se não estiver num lugar, procura-me noutro. Algures estarei à tua espera. À espera de ti ou da tua ausência, enfim, de quem me alcançar primeiro....

Azuth.
Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: Thumbnail em 20.mai.2007, 22:36:04
Coisas já escritas...

Penso em ti, ser inocente que não me é nada... Penso em ti e indago sobre essa cor e essa vontade desalmada de te querer. Falas-me de prisão e de má res quando o preso sou eu e tu me deturpas por existires. Fazes-me desejar rasgar a pele e cobiçar venturas nas noites venenosas e nos palácios infieis. Fazes-me ser quem não sou e soltar o sangue que congelaram em vidros de mim! Fazes-me sair de ao pé de ti contigo no pensamento e olhas-me de peito erguido, nessas formas de mulher, entre cravos e terra, gritos e angústias, desprezos e desrespeito e fazes-me querer. Todo eu contigo sou pecado e rasgo-me por não me conhecer e tu, serpente entrelaçada, nesse teu gárgulo de rasto afastado, sofres-me pelo não proferido e dizes ao mundo que eu sou impossivel de perceber!
Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: alis volat em 20.mai.2007, 23:23:17
E se não mais me visse pelo teu caleidoscópio vicioso
Talvez Ousasse evadir a mentira
Consumir este sonho exuberante
Talvez então, desvanecesse esta dor confortável
Este meu querer inabalável
De ser mentira como tu
Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: blueboy em 20.mai.2007, 23:30:35
Alguns excertos de textos dedicados às minhas melhores amigas  ;) [smiley=enamorado.gif]

Ana Rosa

Tu salvaste-me.

Sem rodeios posso dizer que te amo. Tão simples quanto isto, e nada poderia ser mais verídico. Sem a confusão de namoros pelo meio, sem constrições de sangue, o nosso amor é o mais puro.

És a materialização do meu ideal de mulher. Sem adjectivos pomposos o teu nome revela por si só a simplicidade aparente, a pureza no acto da revelação. Ana. Nada neste mundo pode ousar sequer ser tão cândido quanto o nome Ana. Nada, de índole imprevisível ou constante, se pode aproximar de ti. Ninguém cabe em ti, tu própria quase que não te adequas ao mundo, és no entanto perfeita pelas tuas imperfeições que te tornam "vivível".

Inês

Se por momentos te fixasse e em alucições posteriores me lembrasse de ti, sem saber teu nome, diria que eras a rapariga mais bela que já conheci. Olhos que vêm tudo e cintilam na escuridão mais assustadora, um porto de abrigo para aqueles que recusam a aceitar que a vida é apenas aquilo que temos. Tu és mais do que aquilo que és, e por isso sempre lutaste para seres melhor.

Nunca te limitas por padrões pré estabelecidos , procuras dentro de ti a tua opinião e recusas as verdades simples e aparentes. És portanto do mundo, a ele pertences e não me importo de o partilhar contigo, pois mais do que muita gente tu o mereces.

A vida é mais bonita quando é simples. Não queremos aqui neste lugar que é nosso complicações e filosofias complexas demais para nos deixar apreciar um pôr-do-sol. Tu és simples. Gosto de ti.

Mais do que ninguém custa-me ver chorar a ti. Os teus olhos incham e parece que rebentam perante as injustiças do mundo. Por muito justas que sejam as coisas, não deixam de ser injustiças para alguns. É triste ver as lágrimas escorrerem o teu rosto, e logo agora que eu não tenho lenços de papel para te secar a face. Desculpa por não te ajudar a levantar quando cais, mas fico demasiado impotente para fazer alguma coisa. Sempre fui assim. O choro desarma-me.

Sara

Saaaaaaaara, o teu nome seca-me a garganta . Deixa-me um travo a areia, mas tu não és deserto, és a mais viva de todas as que já alguma vez conheci.
Sim, é a resposta, ainda me lembro da pergunta que sempre ficou no ar "Mas vocês têm alguma ligação psíquica?". Admirado, perguntava o rapaz sorridente. E sim é a resposta, temos uma ligação psíquica e chama-se amizade.

Explorei-te ao máximo na tentativa de sermos um só. Somos tão iguais.

A tua consciência e inconsciência fascinam-me a um ritmo alucinante de quem não tem nada a perder. Se por gostar de ti posso dizer que te amo, então também é verdade que sinto ciúme dos outros que querem fazer parte de ti. Tomei-te como minha, não percebendo a urgência que tens de amar, e caí no erro de desesperar por seguires a tua vida. Porque outros podem-te dar aquilo que eu não posso. Para além da carne és sem dúvida um dos meus amores, uma das minhas virtudes.
Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: alis volat em 22.mai.2007, 09:58:30
Não me recordo da cor do céu ou se havia luz
mas não esqueci o silêncio e a sombra.

Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: Gharam em 22.mai.2007, 14:14:57
Toca-me.

Acolhe-me no teu peito. Toma conta de mim.

Vê-me.

Fecha os olhos. Quero que me vejas.

Sente-me.

Entra em mim, penetra até ao canto mais recôndito da minha alma. Descobre-me.

Possui-me.

Toda a vida esperei por ti. Por alguém que me mostrasse a saída desta encruzilhada. Alguém que me tomasse a mão e me guiasse.

Protege-me.

A minha vida é tua. O meu corpo mero objecto. A minha alma tua parte.

Minha metade.

Vem. Quero-te comigo.
Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: Thumbnail em 28.mai.2007, 13:07:57
Contam-me histórias da vida de quem não a tem e pedem às cordas de um instrumental silêncioso que se curvem nos trastos que já não sopram. Deambulam pelas selvas do desassossego e o pecado da Razão fala mais alto. Quando abrem os olhos, não os têm e quando os fecham desaparecem por completo. São brumas no passado que se arrasta no tempo e quando acreditam, voltam sob o efeito de madrugada. No fundo, nada existe. Este jogo sou eu. És tu. Nós nestas fragas que se esculpem num roxo distraído. Voluptuosas e sangrentas entre essas ironias de espelhos quebrados. As teclas do piano soltam-se com sussurros e segredos. O vulto do passado vive em nós. Somos assim.

[...Talvez...]
Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: FalsoDeus em 29.mai.2007, 17:08:17
Meia Metade

Entrelaçam-se:
Nunca em segurança;
Nunca com esperança;
Nunca sem voracidade;
Nunca pela necessidade;
Apenas porque os dedos eram siameses

Apenas porque o círculo é espiral:
como o castanho que apela,
como a falha que fala,
como o beijo que assegura,
como a certeza que duvida;
como o tempo em falta, o ar em falta,
o aperto feliz, a pergunta, o aperto infeliz,
sem resposta, cronómetros mentais, pânico,
finais antecipados, angústia, ânsia,
a pergunta sem resposta;
e termina no chão.

Ninguém disse que não.
Ninguém disse que sim.
Ninguém olhou para o chão.

Apenas porque os dedos eram siameses,
e porque choram metades idas em lágrimas derramadas,
e porque querem sair de si
com medicamentos, drogas, lâminas,
e porque querem esgravatar a ordem das coisas,
o desassossego nas coisas,
o fim das coisas.

Apenas porque os dedos se sentiam siameses,
e ninguém sabia o que dizer,
e ninguém tinha tomates para tentar.

Apenas porque os dedos se diziam siameses,
e siameses ficarão por completar
Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: Yumi01 em 29.mai.2007, 17:10:04
Toca-me.

Acolhe-me no teu peito. Toma conta de mim.

Vê-me.

Fecha os olhos. Quero que me vejas.

Sente-me.

Entra em mim, penetra até ao canto mais recôndito da minha alma. Descobre-me.

Possui-me.

Toda a vida esperei por ti. Por alguém que me mostrasse a saída desta encruzilhada. Alguém que me tomasse a mão e me guiasse.

Protege-me.

A minha vida é tua. O meu corpo mero objecto. A minha alma tua parte.

Minha metade.

Vem. Quero-te comigo.

Esta mexeu Comigo!  ::) ::) ::) ::) :D :-[
Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: Arms em 29.mai.2007, 19:24:36
Tudo o que foi dito no silêncio do meu olhar

Estava aqui sentado neste sofá que descansa na parede oposta à tua cama, embebido no silêncio refrão do teu respirar lento, pausado, murmurante. A lua cheia rasgava o azul-marinho que banhava o quarto como se estivessemos dentro de um aquário, lançando raios de luz platinado sobre o teu corpo e tu, esquecido nos teus sonhos, movias-te lentamente, buscando talvez o calor do meu corpo. Talvez. Lentamente, delibradamente, fui traçando caminhos sobre a tua pele reluzente, brilhando com uma aura de luz. Seguindo os contornos do teu corpo, circulando os teus sinais e parando sobre os teus lábios. E ouvi a música das estrelas e o poema da Lua desvanecendo enquanto tudo se foi aclareando. Um lento amanhecer.



E, depois, tu acordaste...
Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: Gharam em 29.mai.2007, 22:22:31
Toca-me.

Acolhe-me no teu peito. Toma conta de mim.

Vê-me.

Fecha os olhos. Quero que me vejas.

Sente-me.

Entra em mim, penetra até ao canto mais recôndito da minha alma. Descobre-me.

Possui-me.

Toda a vida esperei por ti. Por alguém que me mostrasse a saída desta encruzilhada. Alguém que me tomasse a mão e me guiasse.

Protege-me.

A minha vida é tua. O meu corpo mero objecto. A minha alma tua parte.

Minha metade.

Vem. Quero-te comigo.

Esta mexeu Comigo!  ::) ::) ::) ::) :D :-[


Obrigada  ;)
Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: alis volat em 31.mai.2007, 11:36:45
Falta sorver a iniquidade da vida. Num trago ávido e resoluto, incendiar a razão com um grito!
Voar! Voar alto, contra as muralhas do vento!


Oh! Dêem-me as paixões dos dias cálidos, os sorrisos roliços e as preguiças fartas.
Dêem-mas de um trago só, pois há em mim uma falta que se agrava e os lábios secos, tenho-os gretados de oscular fantasias.


Parece-me por vezes que o estado de ânimo depressivo é digno apenas de quem possua um traço de genial, aquela presença indelével de mágoa que lhes nasce da visão. São capazes de ler a sucessão de horas com uma lucidez resplandecente, como veios de metal translúcido que reflecte um mundo de cores incomuns, longe do espectro do visível. Nessas horas crescem em reverência, são os dignitários absolutos do metal brilhante que corre em pequenas partículas iridescentes por todas as coisas. Andam como arautos cantando a alegoria de um mundo fantasma, um mundo de formas perfeitas em que cavalgamos o mar nas encostas de uma colina viçosa, trazemos o cabelo enleado no vento e o sol aconchegado na algibeira de um velho casaco; as nossas imperfeições debruam a abobada celeste e nós dormimos, embalados pelo burburinho das borboletas luminosas que palpitam no coração.
Só a eles lhes reservo o gesticular profuso, o discurso temperado de qualidade trágica, os prantos letárgicos em que caem desamparados, porque os move a paixão, a agonia de ver o mundo por uma lente em que tudo é tão incrivelmente belo, intoleravelmente, dolorosamente belo e teatral. E se acontece tomarem as rédeas à vida e cravar-lhe um freio espinhoso; recordam-nos que eles eram a evanescência de um deus maior, que conheceram a verdade, tomaram-na em punho e domaram-na; relembram-nos que quem subsiste de sorrisos vive a doce inocência de não se saber ser.
Esta propensão dramática alimentam-na dos puros que vivem com o encargo das horas, saboreando as doçuras e agruras da vida simplesmente. Catapultam as suas vidas calmas à proporção dos seus sonhos, querem “ombrear com uma manhã na vida de alguém” e imortaliza-los em arte viva e regeneradora, abandonar alguma beleza no mundo.
Alguns, poucos, que sobram e nem trazem consigo a chama nem laboram no tempo ordinário vivem o remorso da indefinição e receiam a mediocridade...
Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: blueboy em 31.mai.2007, 17:45:57
Tudo o que foi dito no silêncio do meu olhar

Estava aqui sentado neste sofá que descansa na parede oposta à tua cama, embebido no silêncio refrão do teu respirar lento, pausado, murmurante. A lua cheia rasgava o azul-marinho que banhava o quarto como se estivessemos dentro de um aquário, lançando raios de luz platinado sobre o teu corpo e tu, esquecido nos teus sonhos, movias-te lentamente, buscando talvez o calor do meu corpo. Talvez. Lentamente, delibradamente, fui traçando caminhos sobre a tua pele reluzente, brilhando com uma aura de luz. Seguindo os contornos do teu corpo, circulando os teus sinais e parando sobre os teus lábios. E ouvi a música das estrelas e o poema da Lua desvanecendo enquanto tudo se foi aclareando. Um lento amanhecer.



E, depois, tu acordaste...

O quanto eu gosto de te ler meu querido arms...  ;D
Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: Arms em 03.jun.2007, 12:36:33

O quanto eu gosto de te ler meu querido arms...  ;D

Obrigado.
------------------------------------------------------------

Deito-me por cima do sofá de lona, com a cabeça afundada no assento e olho para o tecto. Percorro aquelas planícies e sigo as trilhas das frestas que se abrem timidamente... sinto o cheiro da tinta na minha mente e o calor da luz que ricocheteia das superfícies lascadas das paredes de madeira, forradas com papel de parede verde com motivos brancos - tudo já gasto pelo tempo e pelo sol. Os sons abafados já nem me incomodam neste passeio estranho pela divisão que criei na minha mente... Afinal não é preciso que alguém me dirija palavras. Afinal, o teu silêncio diz muito mais, muito melhor. E adormeço a sorrir nesta divisão acolhedoramente estranha.

-------------------------------------------------------------------------------------------------------

Folheio as páginas amareladas do meu passado numa nostalgia estranhamente familiar. Relembro as atitudes que tinhas quando estavas comigo e as conversas que tínhamos. Parece que eu andava cego, sem me aperceber de algo tão simples... tão óbvio. Nunca nada poderia ter acontecido entre nós. Nunca nada poderia ter evoluído entre nós. Vives tão absorvido em ti mesmo que muito provavelmente eu me tornaria simplesmente num objecto de satisfação tua. Provavelmente iria-me tornar num objecto que colocas na tua gaveta, com medo que alguém descubra se me colocares sobre uma estante. Eu seria apenas aquela pessoa que está contigo... nada mais. A minha personalidade iria ser completamente ignorada e eu, aos poucos, iria perder a minha humanidade, a minha identidade, a minha alma.

Afinal estou bem neste sofá, olhando para as frestas do tecto e ouvindo o silêncio. E sorrio perante a falta das tuas palavras... Afinal, estou livre de ti.
Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: BloodTears em 03.jun.2007, 17:24:08



“mesmo quando o sentir é violento”

sepultura para duas. ainda que o sentir seja violento. ainda que o que se
dispa obrigatoriamente seja mais do que uma opressão. ainda que o olhar
saiba a veneno esterilizado. ainda que as palavras tomem a forma de
lsd.

frieza ao escolher a sepultura. ainda que símbolos sejam banalidades que
cortam as unhas do que teoricamente sabemos que devemos sentir. ainda
que as cores deslizem no céu-da-boca de um pensamento que faz questão
de se camuflar numa sílaba insaciável.

sepultura para duas. mesmo quando acordar é olhar de esguelha para as
pedras no tecto do que são as pessoas. mesmo quando numa dentada
invadimos o cimento à porta das condessas insalubres. mesmo que na
sepultura caiba apenas uma letra.
mesmo quando o sentir é violento e ubíquo.
Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: FalsoDeus em 04.jun.2007, 16:42:37
Fogo e gelo contra a parede

Com o teu sorriso,
o teu apenas,
e com um gesto,
apenas um,
despertas em mim um acorde animal,
e tremo de antecipação;

quero-nos nus,
eu e tu,
quero as curvas percorridas,
as posições preferidas,
a cumplicidade familiar,
a tua vibração sob o meu olhar.

Aproximas-te,
trazes música contigo,
Inclinas-te,
incendeias desejo sôfrego,
e somos fogo e gelo contra a parede,
ah!, a minha boca estremece de sede!
Perco o ar,
tiras-me o ar,
beija-me; temos que respirar!

Essa pele contra esta pele,
deliciosos lábios contra indecorosos lábios,
dá-me saliva
quero saliva
enlouquece-me, e eu a ti,
parece cio; já me perdi

As tuas mãos recordam,
as minhas jamais esqueceram,
olhos com olhos,
excitas-me, excito-te,
ritmo acelera
pele!, dilacera
carne!, alimenta
alma!, completa:
fo***os como quem faz amor.

Dar e receber,
receber e dar,
há dor no teu calor,
há calor no teu ardor,
e há apenas pele, ar, respirar, sentir, fazer,
ser os dois, ser um, ser os dois de novo,
e uma vez mais;
mais! Mais! MAIS!
Só mais um pouco, um pouco mais!
Sim!

Sim!

...beijas-me.
já tens fôlego...
o ar já existe
o ar insiste:
dá-me só um minuto...

..., sorri de novo,
move-te de novo,
façamos amor como que f**e, desta vez!
Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: alis volat em 08.jun.2007, 00:06:50
Olha – Mostrei-te os pulsos. Passei a parte fresca da manhã perdido a examina-los e agora, reclinado sobre o teu sono, com o meu melhor sorriso, ponho-tos a descoberto. Reparo distraidamente no recorte feminino do teu olhar, no comprimento das pestanas, o teu olhar ainda perdido no marulhar da sonolência. Espero. A luz vai inundando o quarto fio a fio e projecta novas sombras por toda a parte. Por uns instantes deixei-me levar pela oscilação do teu tórax e sob as suas arcadas vi os arranjos de tecidos de outros dias, dias lentíssimos. Sorri. Reencontrei-te desperto, parecias medir a luz do quarto. Olha, repeti. Vês? Olhaste-me com ternura. Diz-me o que vês! Estava entusiasmado. Tu começaste: “Vejo o sabor desarranjado do desalento e o corpo salgado do mar nos teus ossos. Dentro deles a teia da sublime ascensão dos astros traça um compasso pulsar. Vejo-te embrulhado no tempo, ludibriado, encantado com as iridiscências e o mel dos dias.” Olha, disse. Os meus pulsos choram os teus.
Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: FalsoDeus em 08.jun.2007, 09:43:22
alis volat: gah, um dia hei-de escrever como tu U_U
Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: yellow em 08.jun.2007, 17:02:46
fi-lo em uma dessas noites de sono e álcool


Madrugada

Ah insônia!, minha pobre detestada,
não quero que me traga mais uma empreitada
em devaneios filosóficos,
vire as costas e bata em outra porta
que hoje aqui não és bem vinda, hoje aqui quero dormir,
quero viver os pesadelos que me assolam
e não os sonhos que jamais hão de existir.
Não lhe quero mais, vício outorgado de viver no mundo sonhado,
e acordar sem ombros alados em meu corpo abraçado,
sem suspiros amados, sem toques singelos e apaixonados.
Percebo hoje o mal que me fez e o terror que me faz,
Quantas noites será que ficaram pra trás?
em horas de esperanças imaginadas,
em excitantes pensamentos surreais
de um amor que não me veio e não virá jamais.
Se tenho culpa é de ter esperado demais,
e não ter visto ao redor este mundo voraz,
que me cobra atitudes tão fora dos sonhos normais,
tão longe do que sou capaz, tão tristes e tão mortais
aos meus olhos coadjuvantes de utopias teatrais.
Não não quero! mais sonhar nos meus sonos
ou nos dias acordados de olhares esvairados,
arranquem de mim os palcos montados em uma mente autista,
os belos condados inspirados por um flautista mágico,
os reinos fantásticos selados por portões encantados,
que abrigam os violinos regentes
das fantasias de um tolo coração carente,
iludido no romantismo prudente, ingênuo e impotente,
de artérias e veias dormentes,
que esperam pra sempre acordar
nos lábios de um amor ausente.

Escreveriam os poetas do universo sobre o amor
por não encontrar no seu mundo nada além de torpor?
Seriam despertos na realidade? ou loucos e cegos demais
pra conceber a veracidade amarga que os consumia e os inibia da paz?
Como podem escrever sobre algo que não existe tantas mãos,
com palavras embriagadas e transtornadas de emoção?
Como é possível que esgotem até o último riso
em sonatas e sonetos, um sentimento tão sem juízo
que nem ao menos atinge os braços eu - líricos?
Escrevem, e tão bem escrevem, porque não falam do amor,
falam da dor.
Dor desconcertante de viver a solidão,
no desacerto do mundo que oprime a ilusão da paixão
e os obriga a viver na apatia dos dias em vão.
Mas não, decerto sabiam que amor não existe,
e bobos humanos que são
declaram que a busca persiste,
em folhas molhadas por negro borrão,
e criam ainda seus próprios planetas,
que nunca abandonam suas cabeças
de tão perfeitos que são.

Não. Não quero mais dormir e não quero mais pensar,
não quero mais na janela esperar e por fim lamentar
o seio de ouro que sei que não passará.
Não. Não quero mais chorar,
só quero acordar e a luz negra do mundo enxergar,
só quero concordar com a lógica absurda que existe
das relações profundas pragmatizar e me deixar dominar
pela arte maldita do hedonismo, e levitar
nas maduras azedas verdades que devo aceitar
de flutuar nas ondas da vida sem sonhos
e por fim esquecer! que já como ninguém, quis e soube fantasiar o que é amar...
Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: alis volat em 09.jun.2007, 20:54:40
alis volat: gah, um dia hei-de escrever como tu U_U

Thank you kind Sir.

Um dia quero escrever com a tua intensidade.
Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: Thumbnail em 10.jun.2007, 23:17:14
Esboços

Caiu o piano na sala ao lado enquanto sorriam entre conversas. Alguém dizia que fazia falta, alguém chorava através do buraco na barriga do vizinho do lado. Parecia que se ouvia o chilrear dos pássaros mas eram os riscos na parede de um senhor que não se mexia, bloqueara. Parecia que alguém lá fora corria mas era o silêncio a despertar a miragem. Na ilusão jazia a utopia e os seus olhos eram pecado. Fechava-os e ela cobria as suas veias com a música do violoncelo da violação, no tilintar das chamas que corrompiam o seu quarto e assim ficava, sozinho ou consigo mesmo, horas e horas, porque era assim que ele via o amor...

Memórias

Elevou-se sobre a minha morte, algures entre o cá e o lá da sepultura da dor, nessas faíscas de tempo que não fica, isso que sara sem nadas e se despe por aí. Pelo menos, assim me lembro, relemebro, assim, assim...

Espasmos de sombras e de luzes, algumas incertezas, brotam heresias diante meus olhos, nesses lábios de esperança que não existe, nesse nada, nada, assim, assim...

Parece que se arrasta. Que se arrasta mas não se vê, não se ouve. Parece que está e que fica. Fica, valendo só por si. Apenas, apenas, assim, assim...

Essas pálidas mãos que não existem, essa voz que me feriu o pensamento, esse vestido antigo, rasgado, esse sangue bruto, esse fingimento...Letal, letal... Tudo...  Assim, assim...

Entrelaçou-se na memória, nessas asas que cantaram baladas de silêncio, que despiram virtudes, esse leito sem fim. Sem fim, sim, sem fim. Assim, assim...

E a criança que ficou chorou, derramou o sangue sujo e áspero, o abandono, o seio que não deitou, o pecado que desapareceu... Fluiu, fugiu. Assim, assim, consigo se perdeu.

Segredos

E deram a mão. Depois de olhar para o fundo da voz que gritou segundos antes, deram a mão. Gritos atrás de gritos fizeram com que parecesse um apenas. Gritos, medos, adeus e fim. Sorriram. Doia-lhes o corpo, doia-lhes a alma, mas sorriram. Parecia que sabiam que era o fim mas brilhavam porque cantavam ainda a cor que se despia das suas  veias. Perdidas, pegaram no baloiço e quiseram voar. Deram a mão. Sentiram a poeira, o calor, a sombra do nada que ficou. Deram a mão e foram até ao infinito. No pico dos 180º gritaram o seu Amor e só por isso sobreviveram. Num momento, foram felizes. Num segundo, poderam sorrir.
Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: Gharam em 11.jun.2007, 16:15:12
Esboços

Segredos



Lindos! Adoro, adoro  :up A tua escrita flui tão suavemente, muda nos momentos exactos. Perfeitos.  ;)
Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: Atzecs em 11.jun.2007, 16:27:14
Miau... Cada vez que venho a este topico espanto-me. Mas só os teus textos e os do Arms é que me tocam. Continuem assim...
Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: Gharam em 11.jun.2007, 16:54:52
Campino

Eras jovem. Eras um campino. Todos os dias, ao raiar da manhã lá ias tu para os campos a galope no teu lusitano. Ah, rapaz, quem te viu e quem te vê. Andavas pela lezíria. A tua lezíria. Sim, tua, porque aquele teu cavalo marcava a terra gorda, abria-lhe feridas e tu gostavas daquele cheiro a sangue, daquele cheiro a vida. Debaixo daqueles cascos a seiva das ervas partidas libertava um doce perfume que se misturava com o suor do teu cavalo já luzidio. Levavas aquele animal aos limites. Mas era assim que vivias. Tu enfrentavas os bois mais ruins, os touros com as frontes mais afiadas. Com um toque do calcanhar os quadris da tua montada esquivavam-se àquela fúria. Tu dançavas com ele. Divertias-te. Banhavas no Tejo essa tua pele curtida pelo sol. Ah, esse teu Ribatejo, campino! Eras bonito e sabia-lo muito bem. Com o peito inflado laureavas pelo meio das saias coloridas. Tinhas um sorriso sincero, alvo e grande. Seu marialva, por causa dessas tuas paixões botavas-te a perder. Ah, sim, porque um ribatejano é sempre um homem de grandes amores. Mais carnais no teu caso. Mas fazias meramente jus ao vermelho que te cobria a cintura e o colete. Vermelho do sangue que cuspias quando enfrentavas aquele corpo negro de frente, vermelho dessa tua paixão, dessa tua fúria, dessa tua vida. De vez em quando, lá te desafiava um rapaz por causa duma moça. Era bonita, aquela. Puseram-se os dois frente-a-frente. Com um esgar irónico, ajeitaste o barrete, fechaste os dedos nas abas do colete e traçaste a perna. A música começou. Era o fandango. Era uma luta. Deste provas da tua agilidade, desse teu frémito galanteador. Admiravam a curva do teu peito inchado, os olhos castanhos cor desta terra. Exibias-te obscenamente. A luta de galos acabou. Escorria suor das tuas têmporas. Ah, campino, campino, deves ter saudades do que eras. Davas ares da tua graça por aqueles campos, os músculos por baixo da pele do teu amado lusitano pulsavam, eras um com ele, filhos do mesmo ventre. As narinas escuras soltavam vapores, calores, tinhas aquele cheiro, aquela essência. Temos saudades daquele campino que tu eras. Volta, campino. Volta para o teu Ribatejo.
Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: suzicosta14 em 11.jun.2007, 16:57:26
Poetas Humildes!  ;) Gostei de tudo do que li  :blush

Parabéns a todos  [smiley=orgulhoso.gif]
Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: Thumbnail em 11.jun.2007, 17:04:27
Antes, sorrio-vos pelas palavras que me dirijiram. Gharam, comoveu-me o teu texto. Parece de mil e uma cores e o turbilhão é alto. Mas, até talvez por isso, comoveu-me.
Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: FalsoDeus em 11.jun.2007, 17:53:54
Suicídios Anónimos

  Passeia-se pelo cérebro, uma bala, invejando o desfilar criativo da lâmina, que se pavoneia num palco de artérias e veias. Ambas ignoram o despejar febril de valium, descendo livremente pela garganta como se de água se tratasse, e como água acompanha absinto, sempre facilitando a deglutição e deturpando a percepção. Sim, o alcoól decerto adormecerá as garras da consciência o suficiente para estas resvalarem sem danos maiores a alma em fuga.

  Algures, um banco peca por excesso, de ciúmes neste particular caso: tomba por amor e inveja, oferecendo-se ao poderio gravitacional que, naqueles precisos e preciosos segundos, lhe pertence como nenhum outro amante lhe pertenceu. O corpo que nele repousava, erecto e espectante, cai copiosamente, mas a corda que se lhe abraçava ao pescoço, assolada por desespero, agarra-o em força, numa luta desigual; qual será o objecto que alguma vez poderá medir forças com a gravidade e declarar-se victorioso?
  A derrota aproxima-se; sente-o o banco, estremece-o o corpo, ressente-o a corda; espasmos mórbidos espalham-se por toda a sua estrutura. Felizmente, segundos depois, alivia-se-lhe o sofrimento com o suave acalmar da garganta, desviada da sua mortal paixão pela força que a todos nos atrái. Os seus pés baloiçam, pálidos, zombando do chão.

  E zombar do chão será, nos dias que correm, um feito suicida, especialmente nas frequentes ocasiões em que dele nos separam um passo em frente e dezenas de metros para baixo. O vento, coitado, açoita e avisa em desespero. Sem sucesso, evidentemente, pois o fascínio é demasiado arrebatador.
  Segue-se o mergulho. A pique. Olhos apelam à capa protectora das pálpebras "Escuda-nos do vento!", desprendendo-se do seu canto lágrimas masoquistas. O Coração palpita como se a adrenalina fosse ferro incandescente que o espicaça, diástoles e sísoles cegando os ouvidos para o tempo em corrida. Apenas 100 metros; quantos segundos? E logo, logo o tempo acelera o colapso da face sem cara contra o porta-bagagens de um qualquer carro, cujo acto de heroísmo poupou ao chão um acidente macabro e sujo.

  Uma a uma, caras apagam-se. Para trás deixam faces, miseráveis e solitárias, numa eterna procura da luz que se foi...daí os suicídios anónimos: porque a luz era tudo.

  Sim; porque na vida deveria bastar o amor, o ser, o viver. Abatem-se as luzes e tudo passa a ser um conluio sacrílego onde se substitui o divino e humano por lanternas e pilhas.

  Suicídios anónimos porque já nada mais serve; não é querer morrer, é não querer viver.

  E é assim que empalidece a face oca; em busca de uma outra luz

Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: Arms em 12.jun.2007, 00:19:51
Falsodeus, é incrível como os teus textos conseguem me deixar sem palavras.

Gharam, adorei cada palavra do teu texto, que eu devorei copiosamente porque me fez lembrar do meu belíssimo Ribatejo e os seus campos invejáveis.
Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: yellow em 12.jun.2007, 09:04:53
acho que sou o único aqui adepto de rítmica e rimas  [smiley=nao.gif]

não sei por que, apesar de todos textos serem bastante belos, quando carecem de melodia soam-me verborrágicos  :-\
Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: Thumbnail em 12.jun.2007, 09:12:04
É a variedade que dá vida à escrita, Yellow :)

FalsoDeus, perante tuas palavras fica somente a vénia. O meu silêncio será superior a qualquer manifesto, mesmo o desse arredondar de costas e encarquelhar de pernas.
Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: Gharam em 12.jun.2007, 13:06:40
Obrigada pelas vossas palavras, miau e arms.  ;)


yellow, mesmo um texto sem rimas pode ter melodia. Cada um com o seu género  :)
Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: Gharam em 12.jun.2007, 13:28:50
Outro texto do que eu decidi chamar: Gentes de Portugal

Spoiler (clica para mostrar/esconder)


Fadista

Ah, fadista, fadista. Entras bela e roliça no palco de madeira escura. Quem bebe poisa o álcool. Silêncio, que se vai cantar o fado, murmura a tua presença. Cumprimentas com um largo sorriso os guitarristas mas a tua cara fecha ao te virares para o público. Fado não é para alegrias. Compões o xaile nos ombros, esse pano que já era da mãe da tua mãe, embebido com o suor da saudade doutros tempos. Do alto desse púlpito a que a tua aura de respeito obriga, fechas os olhos. Agora o espelho da alma será outro. Vibram as cordas, as tuas e as das guitarras. As palavras proferidas quase num grito arranham docemente. Ah, esse pranto. Esse choro! Canta, fadista, canta! Mulher dos bairros que a vida fez dura, neste momento tudo é teu. Não existe o marido que te enegrece os braços, o trabalho que te cansa. Agora sim, és tu quem consome os outros. Consomes-lhe as almas, os corações. O vestido negro bamboleia a cada gesto teu. Estás de luto, não pelo matrimónio mas porque és viúva da vida que te morreu no colo ainda eras uma rapariga. Chegas aos píncaros da emoção, a água brota das pálpebras cerradas e escorre pela face rosada. Tu e as da tua laia, as mulheres portuguesas, foram elas que choraram o Tejo, ainda que a fonte seja lá para os lados castelhanos. Cantas Lisboa, lusitana! Cantas o fado que é português. O fado é o teu destino. Sempre foi. O peito quer saltar do decote exagerado, expões as entranhas aos ouvidos da gentinha num choro alto. O canto ondula pelo ar como o mar que nos banha e alimenta. Ora suave, baixinho, gentil, ora rugindo e brandindo com a fúria de Deus. Deus esse que pula na cruz dourada entre os teus seios suados. Cerras os punhos no pico da nota. Quedas-te depois do grito que se enrola e nos entranha a pele. Quem te ouve arrepia-se. Ver uma mulher nua como tu te puseste magoa. Magoa muito. Abres finalmente os olhos. Choraste mas não estão vermelhos como seria de esperar. Pois soltaste a tua dor, agora não era a ti que consumia mas sim aos outros que te haviam escutado. Por alguns momentos podes ser livre. Não é por isso que cantas, mulher? Para dares a tua mágoa aos outros? Com as palmas, o público pensa agradecer-te, mas tu bem sabes que eles só querem espantar aquela nova dor que os assusta. Esse monstro. Mas não descansas por muito tempo, rapariga, porque se a ti não tornassem essas chagas que te rasgam o âmago da alma, não cantavas e não serias quem és. Ferida, melancólica, saudosista. És tu e sabe-lo muito bem. Ó fadista de Lisboa! Ó mulher de Portugal! Canta, canta esta nossa sina. E a todos os comuns mortais que te vêm, negra e sublime, Silêncio! Que se vai cantar o Fado.
Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: Arms em 12.jun.2007, 13:32:36
Outro texto do que eu decidi chamar: Gentes de Portugal

Spoiler (clica para mostrar/esconder)


Fadista

Ah, fadista, fadista. Entras bela e roliça no palco de madeira escura. Quem bebe poisa o álcool. Silêncio, que se vai cantar o fado, murmura a tua presença. Cumprimentas com um largo sorriso os guitarristas mas a tua cara fecha ao te virares para o público. Fado não é para alegrias. Compões o xaile nos ombros, esse pano que já era da mãe da tua mãe, embebido com o suor da saudade doutros tempos. Do alto desse púlpito a que a tua aura de respeito obriga, fechas os olhos. Agora o espelho da alma será outro. Vibram as cordas, as tuas e as das guitarras. As palavras proferidas quase num grito arranham docemente. Ah, esse pranto. Esse choro! Canta, fadista, canta! Mulher dos bairros que a vida fez dura, neste momento tudo é teu. Não existe o marido que te enegrece os braços, o trabalho que te cansa. Agora sim, és tu quem consome os outros. Consomes-lhe as almas, os corações. O vestido negro bamboleia a cada gesto teu. Estás de luto, não pelo matrimónio mas porque és viúva da vida que te morreu no colo ainda eras uma rapariga. Chegas aos píncaros da emoção, a água brota das pálpebras cerradas e escorre pela face rosada. Tu e as da tua laia, as mulheres portuguesas, foram elas que choraram o Tejo, ainda que a fonte seja lá para os lados castelhanos. Cantas Lisboa, lusitana! Cantas o fado que é português. O fado é o teu destino. Sempre foi. O peito quer saltar do decote exagerado, expões as entranhas aos ouvidos da gentinha num choro alto. O canto ondula pelo ar como o mar que nos banha e alimenta. Ora suave, baixinho, gentil, ora rugindo e brandindo com a fúria de Deus. Deus esse que pula na cruz dourada entre os teus seios suados. Cerras os punhos no pico da nota. Quedas-te depois do grito que se enrola e nos entranha a pele. Quem te ouve arrepia-se. Ver uma mulher nua como tu te puseste magoa. Magoa muito. Abres finalmente os olhos. Choraste mas não estão vermelhos como seria de esperar. Pois soltaste a tua dor, agora não era a ti que consumia mas sim aos outros que te haviam escutado. Por alguns momentos podes ser livre. Não é por isso que cantas, mulher? Para dares a tua mágoa aos outros? Com as palmas, o público pensa agradecer-te, mas tu bem sabes que eles só querem espantar aquela nova dor que os assusta. Esse monstro. Mas não descansas por muito tempo, rapariga, porque se a ti não tornassem essas chagas que te rasgam o âmago da alma, não cantavas e não serias quem és. Ferida, melancólica, saudosista. És tu e sabe-lo muito bem. Ó fadista de Lisboa! Ó mulher de Portugal! Canta, canta esta nossa sina. E a todos os comuns mortais que te vêm, negra e sublime, Silêncio! Que se vai cantar o Fado.

Gostei imenso. Posso fazer um reparo? Podias usar frases mais longas e reticências para abrandar o ritmo do texto. Dar-lhe um ritmo mais bucólico, não sei. É que, para mim, muitas frases curtas aceleram a leitura e (mais uma vez, para mim) foge um bocado do conceito que o título me transmite. Fado é algo mais lento, a ser saboreado como vinho do Porto. Percebes? Uma opinião pessoal.  ;)
Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: Gharam em 12.jun.2007, 13:42:13
Gostei imenso. Posso fazer um reparo? Podias usar frases mais longas e reticências para abrandar o ritmo do texto. Dar-lhe um ritmo mais bucólico, não sei. É que, para mim, muitas frases curtas aceleram a leitura e (mais uma vez, para mim) foge um bocado do conceito que o título me transmite. Fado é algo mais lento, a ser saboreado como vinho do Porto. Percebes? Uma opinião pessoal.  ;)


Mas eu queria transmitir alguma brutidade ao texto, talvez. Confesso que agora que o releio algumas partes poderiam estar mais lentas, é verdade. Mas não sei se o vou mudar, gosto do fado nervoso que eu acho que transmite. Percebi totalmente a tua opinião, é claro  ;) Mas é que aqui queria que fosse tipo estalada, é tanta a dor que nem dá para engolir o vinho. Mas se fizer outro texto sobre Fado vou ter a tua perspectiva em conta, acho perfeitamente correcta  :)
Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: Arms em 12.jun.2007, 13:44:30
Gostei imenso. Posso fazer um reparo? Podias usar frases mais longas e reticências para abrandar o ritmo do texto. Dar-lhe um ritmo mais bucólico, não sei. É que, para mim, muitas frases curtas aceleram a leitura e (mais uma vez, para mim) foge um bocado do conceito que o título me transmite. Fado é algo mais lento, a ser saboreado como vinho do Porto. Percebes? Uma opinião pessoal.  ;)


Mas eu queria transmitir alguma brutidade ao texto, talvez. Confesso que agora que o releio algumas partes poderiam estar mais lentas, é verdade. Mas não sei se o vou mudar, gosto do fado nervoso que eu acho que transmite. Percebi totalmente a tua opinião, é claro  ;) Mas é que aqui queria que fosse tipo estalada, é tanta a dor que nem dá para engolir o vinho. Mas se fizer outro texto sobre Fado vou ter a tua perspectiva em conta, acho perfeitamente correcta  :)

Percebi.  :)
Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: Thumbnail em 12.jun.2007, 14:21:57
Gostei imenso. Posso fazer um reparo? Podias usar frases mais longas e reticências para abrandar o ritmo do texto. Dar-lhe um ritmo mais bucólico, não sei. É que, para mim, muitas frases curtas aceleram a leitura e (mais uma vez, para mim) foge um bocado do conceito que o título me transmite. Fado é algo mais lento, a ser saboreado como vinho do Porto. Percebes? Uma opinião pessoal.  ;)


Mas eu queria transmitir alguma brutidade ao texto, talvez. Confesso que agora que o releio algumas partes poderiam estar mais lentas, é verdade. Mas não sei se o vou mudar, gosto do fado nervoso que eu acho que transmite. Percebi totalmente a tua opinião, é claro  ;) Mas é que aqui queria que fosse tipo estalada, é tanta a dor que nem dá para engolir o vinho. Mas se fizer outro texto sobre Fado vou ter a tua perspectiva em conta, acho perfeitamente correcta  :)

And there's nothing left to say. Both made me ;) Bonito!
Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: Livre-Mente em 12.jun.2007, 20:48:31
Teu olhar
 
 
Teu olhar em minha alma
Teu olhar no meu rosto
Percorre caminhos infinitos
Jamais percorridos
Teu olhar no meu olhar
Teu olhar no meu coração
Teus olhos significam carinho
Teus olhos são água demais
Para este imenso oceano
São tudo e nada
Teus olhos são paixão
Teus olhos são loucura
Teus olhos são frescura
Olhar-te é amar cada pedacinho de ti
É ter sem ter é querer sem ter
O teu olhar transmite paz
O teu olhar transmite dor
No teu olhar vejo tanto e tão pouco
Vejo e me revejo
Gosto de olhar para ti
Vezes sem conta
Gosto de me perder
De te conquistar a cada minuto
De sentir a tua falta
Gosto de gostar assim de ti...
 
Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: alis volat em 14.jun.2007, 00:15:01
Viemos aqui para sermos perdoados. Perdemos a inocência do deslumbramento na exiguidade dos sonhos e vivemos sós com o nosso desalento. Ninguém se admira ou compadece de nós. Cremos, um dia vão nascer castelos crepusculares e corolas de rubros frutos pintalgadas de flores silvestres nos nossos cabelos. Pela porta dos sorrisos veremos entrar o belo. Vê-lo-emos derramar-se, glorioso, benevolente, pelas arcadas e interstícios do corpo, purgar a amargura plúmbea da consciência. Tu. Tu és a emanação dessa fé. Tu, no teu amor redentor, flutuas fora do tempo, como tudo quanto não foi feito para conhecer o chão. Em ti, enfim repousar a cabeça. Em ti, enfim o belo. Em ti, o fim do medo. Em ti, enfim o perdão.
Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: Blur em 14.jun.2007, 01:10:37
Viemos aqui para sermos perdoados. Perdemos a inocência do deslumbramento na exiguidade dos sonhos e vivemos sós com o nosso desalento. Ninguém se admira ou compadece de nós. Cremos, um dia vão nascer castelos crepusculares e corolas de rubros frutos pintalgadas de flores silvestres nos nossos cabelos. Pela porta dos sorrisos veremos entrar o belo. Vê-lo-emos derramar-se, glorioso, benevolente, pelas arcadas e interstícios do corpo, purgar a amargura plúmbea da consciência. Tu. Tu és a emanação dessa fé. Tu, no teu amor redentor, flutuas fora do tempo, como tudo quanto não foi feito para conhecer o chão. Em ti, enfim repousar a cabeça. Em ti, enfim o belo. Em ti, o fim do medo. Em ti, enfim o perdão.

Há aqui pessoal que escreve tão estupidamente bem.

A sério. Continuem pelo bem daqueles que não nasceram com o dom das palavras mas que admiram aqueles que com elas brincam.

Eu cá sou mais números!  :P
Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: What is in a name? em 14.jun.2007, 02:43:43
Olhar de Vidro

Olhas-me.

No final dos tempos, ainda restará outra verdade além do olhar?

Mesmo que as rochas nos ultrapassem na contagem do tempo e que todo o mundo seja uma breve miragem, nós sobreviveremos no casulo da suspensão, pois, dizem, há um espírito que nos precede.

E seremos nós a alimentarmo-nos de tempo em cada trilho de sangue.

As luzes estéreis da cidade guardavam-te no seu luxo clandestino, naquele ruído que manchava a multidão de sombras vermelhas. Por sorte o teu lugar predilecto era ainda menos iluminado, preso ao canto onde as paredes eram mais lentas e as mãos se podiam movimentar melhor.

Nunca deixei cair das ruelas estreitas das minhas mãos o teu intenso cheiro a excessos deambulantes e a longas horas de aridez, nem perdi o calor do teu corpo em cada recanto exposto onde a lua me devastou.

Esta é uma daquelas vidas em que tudo o que eu mais queria era um abraço.

Não me condenes. Não me apontes. Apenas continua a olhar-me.

Não te desvies de mim.

Não te desvies do enquadramento da nossa luz.

Olha nos meus olhos. Bem sei que, se me demorar demasiado a contemplar-te, acabarei por ser atraído ao Hades e terei acesso a todos os segredos que o espelho me esconde. Anjo ou demónio, sei que as tuas asas me farão perder a minha alma de qualquer modo, de tal forma que um dia te oferecerão alvíssaras para que me devolvas ao mar.

Nunca aceites nada do que eles te disserem.

Estou suspenso. E assim ficaria para sempre, desde que cada arrepio me trouxesse de novo àquele torpor inicial em que nada existia debaixo do Sol além do teu rosto e das promessas infinitas que caíam dos teus lábios sobre o meu peito.

Passa-me o teu copo. Quero partir o nosso olhar de vidro contra a manhã do mundo.
Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: alis volat em 14.jun.2007, 10:34:08
Viemos aqui para sermos perdoados. Perdemos a inocência do deslumbramento na exiguidade dos sonhos e vivemos sós com o nosso desalento. Ninguém se admira ou compadece de nós. Cremos, um dia vão nascer castelos crepusculares e corolas de rubros frutos pintalgadas de flores silvestres nos nossos cabelos. Pela porta dos sorrisos veremos entrar o belo. Vê-lo-emos derramar-se, glorioso, benevolente, pelas arcadas e interstícios do corpo, purgar a amargura plúmbea da consciência. Tu. Tu és a emanação dessa fé. Tu, no teu amor redentor, flutuas fora do tempo, como tudo quanto não foi feito para conhecer o chão. Em ti, enfim repousar a cabeça. Em ti, enfim o belo. Em ti, o fim do medo. Em ti, enfim o perdão.

Há aqui pessoal que escreve tão estupidamente bem.

A sério. Continuem pelo bem daqueles que não nasceram com o dom das palavras mas que admiram aqueles que com elas brincam.

Eu cá sou mais números!  :P

Thanks Sir :)
Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: Ah-e-Tal em 16.jun.2007, 18:00:51


o ritmo dos nossos passos na subida destas escadas é
a cadência do nosso aplauso ao fim
de um concerto dado pelas cinzentonas figuras
que nos lambem as franjas dos sonhos
sem daí conseguirem puxar sabor.
o ritmo dos nossos passos na subida destas escadas é
a cadência dos acordes que cantarás
quando virmos um sol claro e fresco, maior
que as nossas próprias cinzentonas figuras.
as cinzentonas figuras que realmente somos são
desculpas às mesmas para deslizarem entre
as frestas dos dias, para em escorregas quentes
se perderem os nossos relógios nos espinhos
de arbustos violeta e jasmim.
as cinzentonas figuras que fazem o ritmo
dos nossos passos na subida destas escadas
sobem a palcos vazios ao fim da escura descida
e cantam-nos acordes sem-nexo, porque
o céu é apertado demais,
sem violeta e sem jasmim.
Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: NecroRomancist em 18.jun.2007, 00:03:10
Parabéns
 À procura do sonho
o tal começo inesperado
que ao adormecer
foge sem descanso
por alguém que não lhe interessa.
Não nasce o ódio
nem cresce a paixão
o que foi feito do que queria
porque me deixaste sem vontade
sem alma..
a alma é o medo.
o medo que crias em mim
de seres estéril às minhas mãos..
Acordar como sem mais nada para fazer
assisto à passagem destes momentos
como o prelúdio de uma tempestade
da qual te escondes
mas quem em mim nasce em saudade..
Saudade de nada
saudade do que agora foi então
momentos passados
a desejar que não fosse este o momento
que a saudade me abriria as portas
do que um dia desejei que fosse o amanhã
Um poeta menor..
alma talvez imensa..
chamaria-lhe a passagem das horas..
eu chamo-lhe vida..
não há como passar o tempo
sem este prenúncio de destruição..
Beleza nem pagã nem humana..
queria ser perfeito..
aos vossos olhos..
não viver sob esta terra..
engolido e despejado..
viverei...
nem que para isso tenha que aceitar a morte..
Espero..
cansado de dormir..
e com vontade de adormecer..
de descansar esta consciência..
com que gasto os frutos do vosso sofrimento
desejam-me felicidade
uma vida
subjugado pelos vossos credos..
mas não posso..
nunca mais..
com a minha destruição dou valor ao vosso sofrimento..
nada vale a pena...
dar a vida
o último acto de amor..
talvez o único...
não compreendem que só assim..
Abstinência moral
um desperdício,
maior que a vida
maior que a morte..
porque assim é a alma de quem sonha..
Sonhar...
até ao sonhar..
Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: Arms em 18.jun.2007, 00:24:08
Quando todos sabem que enlouqueci

Andei a manhã toda a debater comigo mesmo se havia de guardar segredo ou não... Mas que se lixe, todos devem saber que sou uma pilha de nervos maníacos, esquifrénicos, indecisos, revoltados e alucinados. Pois era só isto que eu queria dizer... As lutas frenéticas no meu interior andam a levar-me à loucura. Manias atrás de manias de pensamentos esquifrénicos, indecisão, sim, não, vou, fui, luto, deito, páro... Pára!! Canso-me a mim mesmo até à exaustão e, depois, aí começam as lutas na minha cabeça. Alucinações de coisas que nunca foram (nem nunca serão) como se eu os tivesse vivido pessoalmente. E luto e bato e grito e choro e digo uma sucessão de palavras curtas repetidamente, freneticamente, rápidamente como se isso fosse resolver alguma coisa na minha vida porque eu, no fundo, até estou calmíssimo mas pronto devo estar a alucinar neste momento porque estou a escrever este texto completamente sem sentido nenhum, quase sem pontuação nenhuma, como uma corrida contra o tempo de mim mesmo, tempo que goteja do tecto deste quarto claustrofóbico, impondo a sua autoridade sobre este corpo fragilizadamente esquecido pelo mundo lá fora e chove... Inspira. Expira. Acalma. Inspira. Expira. Acalma... Isso... Acalma... Agora... Adormece.

--------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------

Chuva

Disseste, enquanto a chuva caía e o trovão relampejava, que te deitasses na relva. E eu disse, enquanto a chuva ralampejava e o trovão caía, que ficaria de pé para ser lavado. Mas ao que parece... E é uma coisa triste estar aqui sozinho. Foi tua a ideia. Mas a ideia durou mais que tu. Foste embora por entre a chuva. As estrelas que me mostraste deveriam de se apagar, assim de repente... puft! Como se nunca tivessem existido ali. Um a um... Apagando! Aquela ali. E aquela. E aquela outra que tu tanto gostas! Essa devia de ser a primeira. Porque deixaste-me aqui à chuva sozinho, com esta concha vazia a que chamaste em tempos de coração. És um sonhador mas levaste os teus sonhos contigo e apenas deixaste-me... Eu aqui à chuva de braços abertos, querendo afogar esta concha e relampejar bem alto.
Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: alis volat em 20.jun.2007, 22:10:23
Murmuramos novelos enrodilhados de nuances subtis, a palavra sob a palavra. Sejamos pragmáticos poupa-nos de fatalismos e acusações além do regojizo da tirada cínica, subliminar, redundante. No final ainda nos emproamos de ornata vernaculidade e damos cordões ao maltratado léxico o que só nos faz mais anacrónicos. De que outra forma  afirmar a putativa vacuidade dos vulgos, de que outra forma rejeitar o horror do prosaísmo senão dissimularmo-nos na teatralidade de palavras que não dizem nada. Oh! E ambos sabemos que a honestidade é fonte seca e, gestos esgotados, que mais poderemos fazer para reivindicar a unicidade que não possuímos senão em nós mesmos? Proponho dilacerar o tórax e explorar os labirínticos meandros somáticos da alma.
Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: Gharam em 21.jun.2007, 17:12:22
Murmuramos novelos enrodilhados de nuances subtis, a palavra sob a palavra. Sejamos pragmáticos poupa-nos de fatalismos e acusações além do regojizo da tirada cínica, subliminar, redundante. No final ainda nos emproamos de ornata vernaculidade e damos cordões ao maltratado léxico o que só nos faz mais anacrónicos. De que outra forma  afirmar a putativa vacuidade dos vulgos, de que outra forma rejeitar o horror do prosaísmo senão dissimularmo-nos na teatralidade de palavras que não dizem nada. Oh! E ambos sabemos que a honestidade é fonte seca e, gestos esgotados, que mais poderemos fazer para reivindicar a unicidade que não possuímos senão em nós mesmos? Proponho dilacerar o tórax e explorar os labirínticos meandros somáticos da alma.


Like the irony.  :D Belíssimo.
Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: alis volat em 22.jun.2007, 11:06:55

Like the irony.  :D Belíssimo.

é sempre um prazer descobrir amantes da ironia. obrigado :*
Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: Thumbnail em 23.jun.2007, 12:18:36
Falaram-me desta casa há anos atrás. Falaram sem nada dizer no cuidado de pintar cada parede, cada poeira, com toda aquela melodia do silêncio. Falaram-me, falaram-nos, descreveram e a verdade ficou no para lá da percepção. Erros do tempo, erros do nada, falácias e letais verdades consumidas pela incerteza provocada por toda e qualquer veia humana. Esse lapso do saber.

Parecia uma casa, segundo tais mensagens, recheada de cor boémia muito ao jeito do gótico romântico e venenoso do tempo do incomum e do desconhecido. Esse tempo, o agora - ainda que no passado vivido. Todavia, a imagem é escura, fria, triste, tétrica, suave. Em parte, corresponde às linhas dessa realidade, mas será demais dar-lhe tais características. Se há realidade que a escuridão não suporte é a entidade da boémia, a entidade do luxo voluptuoso, consagrada num individualismo de fragas. Nesse padrão, muito mais. Tamanha complexidade não se pode designar assim. Blasfémia seria não a máscara mas tal mascarada.

Demorei muitas horas a abrir a porta. Sabia que mal desse os primeiros passos, a máscara estaria lá. Sabia que podia ser pintado de negro também (afinal, dizem, cada quarto era despromovido de velas e candeeiros e certamente, hoje, a sala também o seria. Muito mais com todas as histórias de cada quadro que encontrei). Demorei o tempo necessário para me lembrar das cores de cada sala narrada, de cada quarto vazio e de cada ponto que imaginei quando falaram do mascarado. Quem seria a máscara e quem me iria receber dentro de toda aquela escuridão, dentro de toda aquela transparência...

Abri a porta. Forcei, puxei, forcei novamente e abri a porta. Com o arrastar do embate e do som que provoquei, caíram poeiras que desenharam no chão uma espécie de arco e o eco que se prolongou no meio do vazio levantou-as e fê-las tornar-se uma Lua. Não. Não a vi definida, vi-a na escuridão. Uma espécie de lua nova ou uma espécie de eclipse de onde saem apenas alguns raios brancos segundos antes da sua totalidade. Definida na escuridão sem se ver, vendo.

As passadas foram longas no tempo. Parava minutos que pareciam horas que pareciam segundos. Parava e olhava sem nada ver. Sabia que ao meu lado respirava o corvo e sabia que à minha frente estava a história do meu passado. Não que fosse meu, mas porque o meu coração derretia com as chamas das imagens que a história me proporcionava.

Tinha um isqueiro comigo mas o gás havia acabado e portanto restavam-me os sentidos. Por detrás de toda a escuridão, o zumbido do silêncio fazia-me ouvir a música daquele último baile. Fazia-me ouvir as vozes de sorrisos e de relógios que entoavam badaladas e assustavam o medo provocando o silêncio pelo desconhecido. E foram essas instâncias sonoras, salpicadas de pó e de cadáveres zarolhos e renascidos que me ensinaram a ver na escuridão, desenhando passos e recebendo o cheiro e o ponto crucial de cada horror.

Optei pelos quadros e olhei-os. Cada um recheado de memórias e chorando as lágrimas do que não esquecem. Cada um contando tristezas e alegrias e comovendo quem não percebe, irritando quem assim sente.

E eu sabia que não estava só.

Voltei-me e desenhei na escuridão todo o caminho respirando cada cadáver. Era curioso o facto de não sentir o seu cheiro, sentir apenas presenças e paz e fazia-me confusão, mesmo estando ciente de que a paz era superior à morte. Mas a morte... A morte estava comigo e talvez por isso não fosse tão estranha toda aquela realidade. Talvez me tenha tornado transparente no momento em que dei o primeiro passo. Ou talvez me tenha sentido a sombra da transparência até ao topo deste castiçal onde me encontro, acompanhado pelas chamas da lareira e pelo sorriso da eternidade.

Cada cadáver tinha a exacta expressão do medo demente em que se bloqueia mas não se molda o rosto, ficando na serenidade do tempo, exactamente como um raio de luz congelado, num crepúsculo de dor mentida... Não era só eu a olhá-los mas era o primeiro a fazê-lo pela primeira vez desde há muitos anos, já.

Avancei para umas quaisquer escadas e subi para aquilo que diziam ser os quartos e nesse momento não tinha mãos. Sentia-las, porém, mas não tinha mãos. Entrei no primeiro quarto. Ali predominava o azul. Cheirava a céu mas desentupido com algumas chamas de realeza nobre e abrupta. Creio que comensuravelmente designada. Cheirava a ópio. Ali, sim, estando em casa, como podia eu esquecer, mesmo sombra, mesmo transparente, todo aquele odor que me ajudara a ser quem não era ou, quiçá, quem era no mais profundo de mim...

Nesse quarto perdi um olho. Sabia que já não o tinha, mas via igualmente como se o tivesse e senti-me gozado. Saudavelmente gozado. Um bobo da corte sente-se pequenino mas não o sabe, uma corte de um bobo é que já desenha bem alto demências que não afectam... Mas fui gozado e temido e, aqui confesso, soube muito bem.

Caminhando para aquela segunda sala, fluía o púrpura. Oh que paz! Sentei-me nesse chão e senti que não tinha costas. E sorri. Olhei as janelas (enormes janelas) daquele quarto anterior. Dali a perspectiva era muitíssimo mais bela e a escuridão estava claramente mais luminosa. Acho que é bom ser-se zarolho e perder-se as mãos e as costas, pensei...

Subi para o andar das pernas e encaminhei-me para o terceiro quarto, avaliando tapeçarias e ornamentos de vidraças e saboreando o suor da mobília. Este, era verde. Assustadoramente verde e cuspia-me risotas e deteriorava os meus ouvidos. Foi o verde que me matou os ouvidos (ironicamente natural, julgue-se). E o laranja que se seguiu fez-me lembrar o sol que me derreteu os braços e me tirou o tempo. Lá fora ainda, me tirou o tempo. Sempre coberto de ironias e alto e forte e... Essa gula humana de o ter, vislumbrada nos outros, sempre me tirou a fome e isso humilhou-me o tempo.
 
Passei para o branco e em seguida para o roxo e todas as ombreiras e todos os caixilhos e toda a serenidade e todo o medo deturpado e amedrontado tiraram-me a face e os cabelos e derreteram-me os pés. Acho que começava a sentir uma espécie de formigueiro no coração e fez-me lembrar o ópio e a cigarrilha e a voz do tempo que me tiraram e a voz do álcool que me mentiram. Mas senti-me leve e gigante como o relógio de ébano que estava ali, parado, sem contar o tempo que contou no dia daquela alvorada, daquela ironia.

Cheguei ao último e como me haviam dito 'estava todo coberto por tapeçarias de veludo negro, que pendiam do tecto e pelas paredes, caindo em pesadas dobras sobre um tapete do mesmo material e tonalidade.' e, sim, no meio da escuridão, já eu uma sombra total, salientava-se todo o foco negro e todo o pontinho distanciado porque até o vácuo se distingue no próprio vácuo. Salpicado, talvez, nesse último canto ouvia o sorriso daquele que reinava e sentia-me, já morto, vivo com a raiva de quem não sente e de quem não existe. O infinito que tudo toca. Ao lado, aquela cor de sangue fazia-me sorrir e pensar que o equilíbrio era perfeito e o desafio era perdoar e a matéria era desaparecer. Lembrei-me que estive lá mas não me lembrei como. E por momentos, enquanto me despia do ódio, lembrei-me... Nessa Noite fui toda essa Morte Escarlate e hoje, perdoado por mim mesmo e de vingança concluída, matei-me a mim...

[Poder-se-á dizer que torpecei no tempo e vivi o pecado nestes minutos curtos de escrita. Apoderei-me do trono que se perdeu nas ruas da humilhação, mas fi-lo por amor e fidelidade porque sei que um dia esse passado será o futuro de um não-coração]
Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: alis volat em 29.jun.2007, 00:14:01

Timmy had a will o' the wisp permanently following him.
He found it quite a drag
He tryed sending it away with a fan
He stood for hours under the cold rain
He even stood bellow a hurricane!

Timmy had a will o' the wisp permanently following him.
And he found it quite a bore
it was dull and blue and shimmering
timmy wanted it out,
timmy wanted it dead,
because all the kids said he was a "light" head!


So,
knowing his soul would surely combust too
Timmy slit his throat to face it





Timmy never had much spark.

A minha tirada burton-esque.
Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: blueboy em 29.jun.2007, 12:24:46
A repetição exuastiva de um pequeno diálogo

Homem1 -Tens mesmo de ir?

Homem2 - Não é  pergunta que se faça.

Homem1 - É sim, quando amamos alguém queremos sempre saber se o tempo já chegou ao fim.

Homem2 - Mas se já sabes a resposta… Dessa maneira só prolongas a nossa dor.

Homem1 - Nossa? Há muito tempo que pareces despreocupado com o “nós”. Se quisesses mesmo ficavas.

Homem2 - Não comeces.

Homem1 - Não estou a começar. Aliás, não és tu que exaltas as constatações do óbvio como a forma mais requintada de verdade? Estou só a constatar o óbvio. Tu não gostas de mim.

Homem2 - Para ti é tudo tão simples, gostar ou não gostar, ir ou ficar, vestir uma camisola vermelha ou amarela. A vida não é assim.

Homem1 - Não? Então é como?

Homem2 - Só estou a tentar dizer-te pela milionésima vez, que tens de olhar para as coisas numa perspectiva geral. Eu queria ficar contigo, a sério que queria, mas isso não é tudo, sabes que tenho a…

Homem1 - Não digas o nome dela! Sabes o quanto odeio ter de pensar nela.

Homem2 - Ela existe.

Homem1 - Para mim não. Vai então, ainda chegas atrasado.

Homem2 - Desculpa, mas tenho mesmo de ir. Quando voltar trago-te uma prenda.

Homem1 - Não é preciso, a única coisa que eu quero de ti é a única coisa que não me podes dar.

Homem2 - Mas que frase feita, tens de deixar de ler aqueles romances. Já sei, trago-te um livro.

Homem1 - Faz o que quiseres… Uhm, não te esqueças de voltar a pôr o anel.

Homem2 - Já me esquecia. Obrigado, és um anjo.

(beijo, único, silencioso, profundo)

Homem2 - Adeus!

Homem1 - Adeus…

(A porta fecha-se)
Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: Arms em 29.jun.2007, 12:53:01
Espectativas

Todos os dias acordamos com espectativas. Enquanto espreguiçamos pensamos que o dia irá correr melhor, ou que este é que é o dia. No fim do dia deitamo-nos e pensamos que amanhã será melhor. Eu sei porque faço o mesmo. Vamos criando as pequenas ilusões de que estamos bem e que a vida nos corre às mil maravilhas. Mas depois acontece algo chamado realidade que nos mostra que afinal ainda estamos lixados. Que o que fizemos foi nada mais que mascarar a m**** em que a nossa vida se encontra.

Arranjamos um emprego e, por momentos tudo nos corre bem. Até ao dia em que concluímos que afinal o emprego não era bem aquilo que pensávamos. Que faltava algo chamado realização pessoal.

Conhecemos pessoas novas e, por instantes tudo nos parece correr bem. Até, claro, ao dia em que nos apercebemos que conhecemos muita gente mas nenhum deles se preocupam contigo incondicionalmente. Ou seja, nenhum deles é amigo no sentido verdadeiro da palavra. Digo verdadeiro por hoje em dia as pessoas dão tantos sentidos à palavra amizade como dão à palavra amor.

Apaixonamo-nos. E tudo corre bem. Até ao dia em que a chama se apaga e o nosso coração é arrancado do nosso peito e arrastado pela terra batida e pisado, esmagado para finalmente ser estilhaçado.

Tomamos uma decisão e, por momentos tudo corre maravilhosamente. Só que, no fim apercebemo-nos de que perdemos mais com essa decisão do que esperávamos ganhar.

Mas a realidade é que estamos falidos, sem amigos, sós e numa vida que nunca desejávamos ter tido. Mas não há crise, porque amanhã criaremos mais espectativas. E, por momentos, tudo correrá bem!
Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: Scorpio_Angel em 01.jul.2007, 20:05:11

Impressões digitais


Por mais que tentes, não há forma de compreenderes o que te escapa.
Por mais que reproduzas, nunca saberás o que é criar uma Sinfonia com os teus dedos.
O que é tocar uma Harpa com um Fogo que trespassa o Corpo e a Alma.
Por mais que as tuas palavras atirem lama de um vermelho-sangue, a verdade é que assim nunca saberás o que é sangrar por e para dentro.

Há algo que a tua ignobilidade não te permite compreender: Nada do que faças sem pureza vai algum dia perdurar.
E mais ainda: mesmo que tudo terminasse hoje por tanta podridão que lhe atiras, nem um só instante pereceria.
Nada do que fizeres manchará este Amor - este sentimento sem nome - porque tudo foi e sempre será Genuíno.

E é por isso que este Algo que não conheces, É e Será Sempre Eterno.
Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: Sakura em 02.jul.2007, 00:36:59
Casaco Vermelho

O Teu casaco vermelho é talvez das imagens mais nítidas que guardo de ti. É um casaco vivo e que segundo a minha memória te assentava muito bem.
Lembro-me dele a passear por entre os corredores e elevadores daquele teatro majestoso e acabou por descansar numa das cadeiras daquela sala calma. Estava acompanhado pela sua fiel caneta que não sei se seria amiga inseparável dele mas deixo que um dia me contes a história.
Lentamente o casaco deu passagem a uma bela e nítida imagem que enamorou os meus olhos perante a figura mais agressiva para mim com a qual eu alguma vez me tinha deparado. Agressiva será uma boa palavra pois a figura de quem falo eras tu e a agressividade mencionada foram os inúmeros ataques ao meu estômago que nunca em altura nenhuma da sua vida estomacal ele haveria sentido.
Foi difícil continuar o objectivo pouco claro ainda com que ali estava naquele dia. Era como se uma doença rara mas incrivelmente boa me tivesse atingido com uma febre quase insuportável. O meu corpo foi apoderado por uma temperatura elevadíssima, por tonturas, por quebras de tensão absurdas mas ao mesmo tempo colossalmente agradáveis, por lágrimas não choradas e berros não ouvidos de felicidade suprema. Era dito e sabido, havia-me apaixonado.
A minha voz procurou a tua, por vezes com sucesso, por vezes sem esperança. A minha atenção procurou a tua, sem ter a certeza que estava a ser lida devidamente. De repente, vindo do nada e de todo o lado ao mesmo tempo, surge o teu olhar e o tempo parou.
E credo, raios e trovões me afoguem em dor se eu alguma vez tinha já posto a vista em cima de um olhar mais meigo e penetrante do que aquele que me leu naquele momento.
Naquele momento, em que o teu olhar cruzou o meu, foi como se o tempo parasse e o mundo desfalecesse em nosso redor. Posso-me atrever a dizer nosso?
Foi a sensação mais envolvente e intensa na qual eu me tinha visto até esse dia.
Quando o teu casaco vermelho se ergueu para se despedir temporariamente da minha presença, foi como se as saudades que hoje em dia sinto quando não vejo o teu ser se abalassem sobre mim pela primeira vez.
Era dito e sabido, havia amado.

Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: alis volat em 08.jul.2007, 17:18:30
Um texto antigo que fui recuperar ao meu blog. Dos tempos em que o sentir ainda era exclusivamente vicário.
Já não me recordo se alguma vez o publiquei aqui.


 A minha mocidade lírica.


Do frio ficaram-me os minérios azul-turquesa que coalharam à superfície da pele translúcida, sumida. À luz baça reflectem as faíscas de um fogo de ave incandescente que na chama rubra da mão ampara uma alma. A ave esbraceja e a alma trás movimentos de um porte de dança. Uma impressão de asas derrama-se cristalina, porosa, pelos vales e sulcos que o tempo escavou na cadavérica pele. Arrepia-me.

Num passo régio do movimento bailado liberta os pós de osso da memória e todo o corpo se aquece na ilusão que os caracteres de tinta espraiam em sombras esguias na folha de papel. Impulsiona, num delírio da visão, o voo picado que separa a imensidão vazia de branco das nossas mortes e se entranha no fundo do negro metálico que sustenta a arquitectura dos nossos troncos distantes.

A água que nunca derramamos nas léguas de tempo que nos deram para nos esquecermos invade o sonho. Espessa e densa como seiva fere o corpo e lateja nas feridas de carne. Serpenteia por entre a terra onde habita o nosso amor não germinado e o prenúncio da certeza entrelaçada no corpo. Desperta. A ave fecha a mão para recuperar o teu beijo demorado no fim da apoteose da nossa noite e extingue-se num vapor quente, estilhaçada no azulejo de memórias subliminares. O seu breve calor escorre já pelo meu corpo embrulhado pelo frio. Tenho a toalha quente e vou abraçar os meus arrepios.

O menino João descobre assim que os líquenes que medram nos espaços intersticiais de negro nada, entre o homem-raiz e o solo glicosado, sorvem a substância porosa que corroe em ácido os almejos de pássaro das copas do homem-árvore. Chamou-lhes poesia.
Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: KreaTor em 05.ago.2007, 00:16:40
Lá estava ela. Usava um vestido branco que lhe cobria todo o corpo e contrastava fortemente com os seus cabelos negros.
A luz era ténue. A lua cheia simbolizava a noite de paixão que se iria seguir. Nunca a lua tinha estado tão grande como naquela noite. Foi a lua mais radiosa que alguma vez.
Todo o Universo se juntou para nos dar a mais bela noite de toda a humanidade. E com desejos de paixão, ela nota a minha presença. Ainda a escassos metros da sua presença já começo a matar saudades da sua ausência.
O ambiente está calmo, soprando somente uma leve brisa na noite azul-escura iluminada pela luz da lua e pelas estrelas que resplandecem no céu negro.
O cabelo negro esvoaça com o vento ao som da mais bela balada de todos os tempos. A equação matemática dessa noite encontra-se totalmente resolvida e sem erros, onde todos os detalhes foram pensados ao pormenor e onde o processo foi levado morosamente.
Consigo sentir a sua presença só de olhar e de repente dou comigo parado, especado. Nunca tinha reparado como a sua beleza é hipnotizante, mesmo ao fim de tanto tempo. Estou a dois passos dela.
A sensação de pânico e ansiedade invade-me o corpo e os meus braços elevam-se tremulamente envolvendo os seus e, por momentos, consigo abraçá-lo esquecendo o mundo à minha volta, esquecendo que algum dia a perdi, esquecendo que nunca a vou poder ter, mas pelo menos esta noite é nossa e nada nem ninguém nos vai roubar esta maravilha da natureza.
Basta um passo em falso para cairmos pela falésia que se prolonga até ao amor. Estamos numa falésia e não há forma de fugir ou evitar esta drástica decisão.
Os nossos corpos balançam ao ritmo do vento e somos elevados pela paixão. Os nossos espíritos saem dos nossos corpos quentes, elevando-se no ar e rodopiando fervorosamente até que, por fim, o abraço finaliza a sensação de pânico para dar origem a uma sensação de alívio, mas ao mesmo tempo de contentamento inexplicável.
Lentamente e sem perceber o que se passou, o meu espírito volta ao meu corpo e sinto que vou desmaiar. A falésia está mais perto do que nunca. Do alto vejo o meu corpo cair redondo no chão e não há nada que possa fazer. Dentro de momentos acordo e já lá estou outra vez, em frente dela.
Mas a situação mantém-se. Basta um passo em falso para cair. Basta um pequeno desequilíbrio para a minha morte. Não consigo evitar e os meus olhos deixam cair reluzentes gotas de água salgada que vai lavar o meu rosto da sujidade dos meus pecados até ao dia de hoje. Os meus pecados estão perdoados, posso partir em paz. Largarei tudo para ficar com ela…
Mas não! Não basta! É preciso largar tudo e cair da falésia… mas ao cair da falésia perco todo o mundo… e agora?
A maré está vaza e posso ver as rochas nas profundezas do oceano. Sei que o salto vai provocar a minha morte, mas tenho de saltar… não tenho alternativa… se não saltar, não serei feliz…
Sem pensar no que faço e com a visão tépida, turvada das minhas lágrimas, dou um passo e deixo-me cair pela falésia. A minha cabeça vai de encontro às rochas que avistei que segundo a segundo se tornam mais próximas, mais próximas, até que simplesmente tudo fica negro.
Será que ainda estou vivo?... por instantes penso que morri…
E depois do salto, da libertação… o meu espírito deixa o meu corpo e elevo-me no ar, vendo o que resta do meu corpo nas rochas. Elevo-me no ar e continuo a subir, até ficar à altura da falésia de onde me atirei. Ela está lá. Como a visão deve ser dolorosa. Que será que ela pensa?
Despeço-me dela, mas ela não me ouve. Os seus cabelos esvoaçam no ar e tal como antes, ela não me pode ver, consegue simplesmente chorar a minha ausência, porque eu parti de novo e desta vez não vou voltar… desta vez é para sempre… talvez perca os sentidos… talvez tenha sido esta a minha morte…
As suas lágrimas lavam-lhe o rosto e como sempre apresenta-se esbelta e magnífica, mas tenho de a deixar continuar a sua vida. Não é justo prendê-la a algo que acabou. As janelas da sua vida continuaram abertas, com os raios de sol a penetrar.
Talvez eu seja essa luz, talvez não… talvez esteja a chorar pela sua ausência… talvez esteja contente pela sua decisão… talvez… ainda esteja na falésia onde morri… mas de certo serei um anjo a olhar por vós e especialmente por ela, que tão docemente perdi após a derradeira despedida.

=)
Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: Thumbnail em 13.ago.2007, 09:02:23
Quem era esse nessa eternidade pintada a dois?
Tintura de aal, parte de mim, patois?
Insana! Essa palavra que cruza segredos, afável!
Finge que mata, presa fica e corrói, isecrável!
Saudade compõe entre cordas e fogo que nunca foi
Êsmos de sombra, supulcros de herói
E as chamas que ficam desse violoncelo honrado
Rasgam-se num sonho e envenenam tal aliado
Nessa estrada de estrelas que melancolicamente se retiram
Caindo na vale dos que as iluminam
E erguem a Lua de quem se esqueceu de sonhar
Somente na maré de um rio que outrora fora mar...
Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: BloodTears em 15.ago.2007, 18:46:07
A repetição exuastiva de um pequeno diálogo

Homem1 -Tens mesmo de ir?

Homem2 - Não é  pergunta que se faça.

Homem1 - É sim, quando amamos alguém queremos sempre saber se o tempo já chegou ao fim.

Homem2 - Mas se já sabes a resposta… Dessa maneira só prolongas a nossa dor.

Homem1 - Nossa? Há muito tempo que pareces despreocupado com o “nós”. Se quisesses mesmo ficavas.

Homem2 - Não comeces.

Homem1 - Não estou a começar. Aliás, não és tu que exaltas as constatações do óbvio como a forma mais requintada de verdade? Estou só a constatar o óbvio. Tu não gostas de mim.

Homem2 - Para ti é tudo tão simples, gostar ou não gostar, ir ou ficar, vestir uma camisola vermelha ou amarela. A vida não é assim.

Homem1 - Não? Então é como?

Homem2 - Só estou a tentar dizer-te pela milionésima vez, que tens de olhar para as coisas numa perspectiva geral. Eu queria ficar contigo, a sério que queria, mas isso não é tudo, sabes que tenho a…

Homem1 - Não digas o nome dela! Sabes o quanto odeio ter de pensar nela.

Homem2 - Ela existe.

Homem1 - Para mim não. Vai então, ainda chegas atrasado.

Homem2 - Desculpa, mas tenho mesmo de ir. Quando voltar trago-te uma prenda.

Homem1 - Não é preciso, a única coisa que eu quero de ti é a única coisa que não me podes dar.

Homem2 - Mas que frase feita, tens de deixar de ler aqueles romances. Já sei, trago-te um livro.

Homem1 - Faz o que quiseres… Uhm, não te esqueças de voltar a pôr o anel.

Homem2 - Já me esquecia. Obrigado, és um anjo.

(beijo, único, silencioso, profundo)

Homem2 - Adeus!

Homem1 - Adeus…

(A porta fecha-se)


That is absolutely fantastic. Thank you.


And now for my little contribution. I'm always afraid to post here, people might steal a bit of me.


our lives inside a bubble.
our hands touching its transparent walls. breathing our lives
they move in the palm of our hands.
side by side with our bells.

our lives inside still waters.
our hands touching its transparent sounds. breathing our lives
they move away from our paradigm.
side by side with our shields.

our lives inside fissures.
our hands crawling into each other. breathing our lives
they smash reasoning.
side by side our gravity center shifts.
Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: larry em 15.ago.2007, 19:21:13
Oh meu amorrrrrrr, o que sinto por ti
é equiparável ao que sentiria se um intercidades vindo de coimbra b me abalroasse a 200 km/h.
O que já é uma coisa
jeitosinha.


***

Oh! Deuses, porque é que não iluminas o coração deste animal que pulula neste cosmos
de limite celestial?
E já agora, ilumina-me melhor a minha rua
que eu já pedi ao senhorio que me mudasse as lâmpadas do candeeiro da porta do prédio e o sacana ignora-me as chamadas. Para a próxima vou ao 3º C dele com um machado, a ver o que é que ele diz. Bastard.


***

Quem és tu, senhor de manto cerúleo?
Quem és tu, senhor que leva o meu destino nas mãos?
Quem és tu, senhor de tez leitosa, cabelo branco etéreo e de inebriante odor a futuro?
Ah. és o homem do lixo. sim, sim, pode levar os sacos sff. agradecido.^^

***

Mestre - disse Kamatshakina, adelgaçando o pescoço sobre o ombro do ancião para poder ver melhor o que este confeccionava no regaço - será que algum dia conseguirei abarcar a verdade imutável do cosmos?
O ancião pousou as agulhas do tricô, levantou as órbitas dos olhos tristes e respondeu: sim, claro claro, se continuares-me a aldrabar o irs como eu te mandei. olha, estão a chamar-nos para irmos tomar os comprimidos. Enfermeira! ENFERMEIRA! THE RUSSIANS ARE COMING! THE RUSSIANS ARE COMING!


^^

Paulo Coelho, tás arruinado. x)
Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: plan b em 15.ago.2007, 19:38:36

Quem és tu, senhor de manto cerúleo?
Quem és tu, senhor que leva o meu destino nas mãos?
Quem és tu, senhor de tez leitosa, cabelo branco etéreo e de inebriante odor a futuro?
Ah. és o homem do lixo. sim, sim, pode levar os sacos sff. agradecido.^^

***


Gostei do final carregado de todo um carácter trágico, contrastando com tamanho desenrolar erudito.  [smiley=hipnotizado.gif] :up
Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: larry em 15.ago.2007, 19:42:50

Quem és tu, senhor de manto cerúleo?
Quem és tu, senhor que leva o meu destino nas mãos?
Quem és tu, senhor de tez leitosa, cabelo branco etéreo e de inebriante odor a futuro?
Ah. és o homem do lixo. sim, sim, pode levar os sacos sff. agradecido.^^

***


Gostei do final carregado de todo um carácter trágico, contrastando com tamanho desenrolar erudito.  [smiley=hipnotizado.gif] :up

É, não é? Sinto-me um autêntico Herberto Helder ou um Al Berto. Uma Adília Lopes, se estivesse de saltos. Assírio & Alvim, i'm waiting for your call! x)
Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: hottie em 15.ago.2007, 19:46:19

Quem és tu, senhor de manto cerúleo?
Quem és tu, senhor que leva o meu destino nas mãos?
Quem és tu, senhor de tez leitosa, cabelo branco etéreo e de inebriante odor a futuro?
Ah. és o homem do lixo. sim, sim, pode levar os sacos sff. agradecido.^^

***


Gostei do final carregado de todo um carácter trágico, contrastando com tamanho desenrolar erudito.  [smiley=hipnotizado.gif] :up

É, não é? Sinto-me um autêntico Herberto Helder ou um Al Berto. Uma Adília Lopes, se estivesse de saltos. Assírio & Alvim, i'm waiting for your call! x)

Eu diria mais Bocage...
Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: plan b em 15.ago.2007, 19:56:47

Quem és tu, senhor de manto cerúleo?
Quem és tu, senhor que leva o meu destino nas mãos?
Quem és tu, senhor de tez leitosa, cabelo branco etéreo e de inebriante odor a futuro?
Ah. és o homem do lixo. sim, sim, pode levar os sacos sff. agradecido.^^

***


Gostei do final carregado de todo um carácter trágico, contrastando com tamanho desenrolar erudito.  [smiley=hipnotizado.gif] :up

É, não é? Sinto-me um autêntico Herberto Helder ou um Al Berto. Uma Adília Lopes, se estivesse de saltos. Assírio & Alvim, i'm waiting for your call! x)

Eu diria mais Bocage...

Não exageremos. A sua genialidade não chega a esse ponto, still... Faltam-lhe, sei lá...

300 gramas de farinha, 2 pitadas de sal e paprika...
1 ramo de salsa, 3 ovos bem mexidos
Oh Deus porque és tão cruel?
Atum em lata Bom Petisco
Fiambre.
Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: Filipe V. em 15.ago.2007, 20:47:58
Caminhando

Eu amo.
Tu amas.
Nós amamos.
Vós amais.
Eles... Não amam os filhos renegados. Negados. Impedidos. Nunca Nascerão.

O Purgatório espera-vos. O Sol nunca nasce. O botão de rosa brota podre.

E o Céu tornou-se a Terra.
E a Terra tornou-se o Céu.
E o choro do inocente está na esquina do sofrimento da LUZ.

No Limiar da Vida, o Ceifeiro vence.

Tudo o que apresentar neste tópico é da minha autoria, representando as minhas opiniões sobre temas já antigos ou recentes assim como sentimentos...
Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: Thumbnail em 15.set.2007, 19:23:50
Olhava para o céu e via a imensidão da Noite numa névoa pintada de cores transparentes que voava sempre para o além do tempo. Atrás da saudade, saudavam as heresias da Vida. Atrás da escuridão submersa, uma cantiga de amigo sempre entregue ao vento. Atrás da cor da lágrima, um sorriso que se despia pela boa nova da Noite, escorrida desde manhã. Ao fundo, cantava a espécie. Cantava, cantava. Longe, um pintainho e por detrás um gato rasgado. Por causa da escuridão da Noite, um pintainho preto e um gato só com os olhos destacados. Consoante se aproximavam de mim (mesmo sem se mexer), pareciam mais escuros quando na verdade eram mais claros. Tu apontaste-lhes o dedo e deste-lhes cor. Eu abri as asas do teu coração e sorri-lhes com a escuridão do meu olhar. Quando voaste, eu aqueci e percebi que a Noite tem cor de Noite e a escuridão serve apenas para quem não a conhece.
Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: FalsoDeus em 19.set.2007, 17:36:19
Marie Anne

Marie Anne era uma jovem desejável:
alta, morena, peito invejável,
corpo sensual, sorriso impecável.

Marie Anne era pouco inteligente,
dedicada ao álcool (sempre insuficiente)
e ao sexo anónimo (como muita gente).

Marie Anne nem sempre se protegia:
engravidou de um amigo; ele nada sabia.
O bébé chorava; a mãe fugia.

Marie Anne teve a família perfeita:
três filhos, um marido - mulher feita
- quem torto insiste, por vezes endireita.

Marie Anne afirmou conhecer a vida:
perdera amigos, familiares, uma mãe suicida.
Ultrapassara muita da dor sofrida.

Marie Anne, um dia,
deliciosamente bem vestida,
chegou a casa exalando alegria!
Marie Anne, nesse mesmo dia,
foi violada,
a casa roubada,
os filhos assassinados,
os cadáveres desfigurados,
o marido queimado vivo,
tudo o que tinha de bom e seguro, perdido,
e os culpados conseguiram escapar.

Ah, Marie Anne,
devias ter sabido,
devias ter-te protegido,
é para isso que serve o preservativo,

mas agora é tarde,
e aprendeste mais sobre a vida
por isso sorri!
Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: Prunella.Fuente em 19.set.2007, 19:35:45
Das magias, os traços. Aos saltos no tempo.
Das mãos, o vermelho. A pulsar nas horas do dia.
Das lembranças, o ponto. Ao início do fim.


O velho do mar contou-me que os corações são novelos de histórias a salivar na boca dos românticos e que hoje não é dia para se fazer o que se quer, que hoje não é dia de erguer o manto da noite.
Hoje não é dia. Só um coração a bater.
Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: alis volat em 19.set.2007, 21:08:24
O poeta morre nos começos.

Sinto o poeta soerguer-se, insurge-se nos braços de um clamor. Quem apaga a dor que o brande e o desperta? Quem lhe deu para olhar os óbolos da barca?
Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: FalsoDeus em 20.set.2007, 17:24:35

Hoje não é dia. Só um coração a bater.

:heart
Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: c em 21.set.2007, 00:27:29
sôdona prunella,

a vénia.

i raise my glass.

 [smiley=estiloso.gif]
Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: NecroRomancist em 21.set.2007, 01:48:32
[Aparte]
Ola c.
Já há muito tempo que não passavas por aqui :)
Tudo de bom
[/Aparte]

Hoje não é dia. Só um coração a bater.  [smiley=sim.gif]
Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: Thumbnail em 21.set.2007, 05:56:16
Carrego no acordar cálices de sonho por entre lençois rasgados e sujos de dor. Salvam-se as lágrimas que não caem e os defeitos do tempo que não cessam de mentir, iludindo quem sonha, destruindo quem vive, esculpindo quem não existe sequer. Melodramas matinais de janelas quebradas e bruchuras de mel. Um véu pintado de preto, um grupo de fragas além-maré.
Sinto-me morto na hora de acordar e a vida cessa de não mentir por entre mentiras e ilusões que tapam cada poro da pele...
O inferno já lá vai, o futuro...
não existe.
Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: Filipe V. em 22.set.2007, 13:37:44
Dor

Que dor é esta?
Faço uma busca pelo corpo.
Os limites entre o meu corpo e o exterior parecem estar em bom estado. Desço para a carne e procuro, pelos músculos, a dor que me desperta. Os músculos funcionam todos correctamente. Vou até aos ossos e à medula. Antigas fracturas já não culminam qualquer tipo de dor. Procuro pelos órgãos, local onde terei mais trabalho: o fígado parece inchado, mas analisando de perto está em bom estado; os pulmões parecem uma auto-estrada acabada de alcatroar mas não chamam a si a dor; o coração está a bater arritmáticamente com monotonia. Vou ao cérebro e não encontro vestígios da dor, apenas neurónios, uns mortos outros nem por isso. Vou às ligações dos neurónios e à luz eléctrica entre eles. Entro.
Estou numa sala de luz em que nunca tinha estado. A sala é tão grande como o universo e tem pequenos objectos espalhados em localizações centradas ao acaso. Encontro imagens da minha infância(?), da minha juventude, dos meus (ex)amigos(?), das minhas experiências, dos meus sentimentos, dos meus desejos, dos meus sonhos…
Deparo com uma cratera negra durante a minha busca pela sala, sigo-a até encontrar a materialização do meu arritmático coração preso e estrangulado por correntes de arame farpado, a pingar sangue para o chão da sala. Ao comprimento da cratera nascem volumosas rosas negras com espinhos venenosos. A luz da sala está a ser absorvida pela cratera.
O coração, ferido, mutilado, quer parar.
Encontrei a minha dor. Que bom.

Quero chorar. Não consigo. Só choro para dentro. Estou a afogar-me. Quero rasgar-me. Quero soquear tudo. Partir tudo o que está à minha volta. Ver o meu sangue espalhado pelo chão negro em que a minha vida se está a transformar.

O terror da morte.
Esta é a minha maior metamorfose.
Puro negro, pura angustia, puro ódio, puro sofrimento no mais íntimo que se possa sentir.
Fénix, o teu nome perdeu o significado para mim. Eu sou o "Filipe". Tu que me comandaste durante tanto tempo, abolirás agora o teu posto.

Vejo-me em espelhos partidos. A minha imagem reflectida nos retalhos em diferentes sentidos. Dentro de um dos pedaços do espelho chora uma criança. Ninguém lhe deu a mão quando precisou.
Assisto, impotente, aos acontecimentos na vida da criança.
Ela cresce, torna-se jovem.
Ninguém o ouve. Ele é frio e arrogante.
Ele cresce, adulto, sem nada alcançado, morre Só, sem uma mão que lhe ampare a queda.

Porquê?



Alguma duvida acerca de alguma coisa que tenha escrito, perguntem. Estão alguns assuntos referidos que poderão não perceber. ;)
Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: c em 22.set.2007, 20:43:48
[Aparte]
Ola c.
Já há muito tempo que não passavas por aqui :)
Tudo de bom
[/Aparte]

Hoje não é dia. Só um coração a bater.  [smiley=sim.gif]

[em resposta à parte ao aparte, eu vou passando, tenho espreitado este tópico, só me contenho, porque receio que os comentários que por vezes se me oferecem, ainda que bem intencionados, poderiam não ser bem recebidos... ::) ;) )

e agora um 'escrito' em cima do joelho evitando incorrer em offtopic... hmm:

o rato roeu a rolha da garrafa de pêrra manca do prresidente do conselho de administrração. o prresidente furrioso, que rolha no vinho ê pêssimo, roeu o rato. [smiley=semfala.gif]


 [smiley=estiloso.gif]
(c)
Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: Prunella.Fuente em 22.set.2007, 21:04:26
Podes ser de plumas brancas


um pássaro sem asas


em direcção a um poro


do meu corpo


em pedaços de carne crua


a chover nos meus olhos


com as mãos caídas


no colo do teu amor


em metros de círculos


de intenções de sonhos


deitados lado a lado


num elemento chamado tempo.
Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: Arms em 22.set.2007, 21:18:58
Cicatrizes

Encolhido sobre si mesmo, alheio a tudo em seu redor, permanece em silêncio enquanto a sua alma lasca-se em pequenos pavimentos vítreos e se estilhaça sobre o granito onde o seu corpo descansa. Já esteve lá antes - prometeu nunca mais voltar. Mas nunca conseguiu cumprir com esta sua secreta promessa. Sempre que conseguia jurava que ia ser diferente, que ia ser melhor, que 'desta é que é'. Iludia-se. Iludiam-no. E era sempre ele que ficava ali, lascando a sua alma em soluços compulsivos de raiva, dor, pena de si mesmo e solidão. Era sempre ele que ia parar sobre aquele bloco de granito, encolhido sobre si mesmo, enquanto as suas lágrimas cicatrizavam a sua pele em pequenos pavimentos perfeitos. E, mais uma vez, prometeria a si mesmo nunca permitir que ninguém o mandasse de volta àquele bloco gelado de pedra.

Levantou-se do bloco de granito depois de estilhaçar a sua alma por completo. Limpou as lascas vítreas da sua face e despediu-se da pedra. Mas foi com a sensação da pedra lhe ter respondido: até ao nosso próximo encontro...
Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: BloodTears em 22.set.2007, 21:33:55
Cicatrizes

Encolhido sobre si mesmo, alheio a tudo em seu redor, permanece em silêncio enquanto a sua alma lasca-se em pequenos pavimentos vítreos e se estilhaça sobre o granito onde o seu corpo descansa. Já esteve lá antes - prometeu nunca mais voltar. Mas nunca conseguiu cumprir com esta sua secreta promessa. Sempre que conseguia jurava que ia ser diferente, que ia ser melhor, que 'desta é que é'. Iludia-se. Iludiam-no. E era sempre ele que ficava ali, lascando a sua alma em soluços compulsivos de raiva, dor, pena de si mesmo e solidão. Era sempre ele que ia parar sobre aquele bloco de granito, encolhido sobre si mesmo, enquanto as suas lágrimas cicatrizavam a sua pele em pequenos pavimentos perfeitos. E, mais uma vez, prometeria a si mesmo nunca permitir que ninguém o mandasse de volta àquele bloco gelado de pedra.

Levantou-se do bloco de granito depois de estilhaçar a sua alma por completo. Limpou as lascas vítreas da sua face e despediu-se da pedra. Mas foi com a sensação da pedra lhe ter respondido: até ao nosso próximo encontro...

Great. I love it. Wonderful.
Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: Lady L em 22.set.2007, 22:56:32
Sexta-feira. Ao anoitecer. Buscá-la ao trabalho. Casa. Banho rápido. Troca de roupa. Restaurante. Música ambiente. Calma. Romântica. Velas. Jantar. Passeio á beira-mar. Mãos dadas. Desfrutando a companhia uma da outra. Regresso calmo a casa. A nossa música começa a tocar. Agarro-a. Carinhosamente. Percorrendo o seu corpo. Beijos. Suaves. Corpo tentador. Chão. Mesa. Sofá. Cama. O que for.
Uma noite. Eu. Ela. O luar pela janela, a testemunhar o que há de mais bonito entre duas pessoas. Aquela coisa que por muito que tente ser explicada, não se explica. Sente-se. É ele. O causador de tudo. Amor.


--

Acordar. Olhos fechados. Tactear a cama à esquerda. Nada. À direita. Nada. Chamá-la. Sem resposta. Segundos depois. Vento. Suave. Varanda. Levantei-me. Sai. Mesa. Pequeno-almoço. Ela. Sentada. Olhos fechados. Desfrutava a suave brisa matinal. Aproximei-me. Tapei-lhe os olhos com as mãos. Assustou-se. Tocou-me nas mãos. Ouvi a sua voz terna. Devolvi-lhe a visão. Beijei-a. Carinhosamente. Quarto. Caixinha. À sua frente. Ajoelhei-me. Sorriu. Anel. Fiz 'a' pergunta. Suspense. Recordações. Bons e maus momentos. Obtive resposta. Beijos. Lágrimas. Felicidade. Amor.
Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: Arms em 22.set.2007, 23:06:56
Inverno nuclear

Tudo começou com a criação de um sentimento. Uma paixão, atracção, aquecimento interior, palpitações e acelerações. Emoções. Depois o amor, a confiança, a intimidade, a segurança. E finalmente a entrega do meu ser, o êxtase máximo de partilha, quando a minha alma toca, com a ponta dos dedos, a tua alma. E dentro deste amor depositei as minhas esperanças, desejos e sonhos. Mas, durante todo este tempo, fui enganado, porque não sabia das tuas verdadeiras intenções. No teu coração, na negritude da tua alma, forjaste em segredo uma traição e foste sempre me iludindo. E nesse acto colocaste toda a tua crueldade, toda a tua malícia e vontade de me dominar. Um acto para me destruir. Pedaço a pedaço, fui cedendo às tuas mentiras. Mas houve sempre uma parte de mim que nunca dominaste. Num último acto desesperado marchei contra ti e enfrentei e lutei pela minha integridade. Estava próximo do fim, mas o teu poder de persuasão era forte. E foi nesse momento, quando quase me conseguiste dobrar, que eu peguei na minha espada. E a nossa relação, que me corrompia por dentro, terminou. E eu tinha esta oportunidade para terminar o capítulo contigo, mas o meu coração é facilmente vencido. E a tua persuasão quase que tem vontade própria. E traiste-me de novo, estilhaçando com a minha alma. E não devia de ter esquecido do que aconteceu mas esqueci. Atracção tornou-se paixão. paixão tornou-se amor. E durante ano e meio toda aquela traição acabou por ser esquecida. Até que, quando a oportunidade surgiu, conseguiste uma nova forma de me destruires. Abandonaste-me para ires ter com aquela criatura, e desapareceste da minha vida de vez, mas sem antes me detonares a bomba atómica. E a explosão durou toda uma eternidade. E durante meses envenenou a minha vida, corrompendo todo e qualquer sentimento e relação que eu pudesse ter. Mas, no fim, o silêncio tomou conta da terra e o meu coração sentiu o inverno nuclear... o vazio gatinhou de volta para o meu coração. A voz de um sentimento receado. Sombras. Murmúrios de uma solidão desconhecida e depois apercebi-me... a solidão veio para me atormentar. E tu apercebeste-te. Tinhas abandonado a criatura e voltaste. Mas algo aconteceu entretanto que não esperavas. Eu tinha crescido e ultrapassado tudo e fiquei imune às tuas palavras persuasivas. Eu já não sentia nada por ti. E chegará cedo a altura em que este novo inverno nuclear passará e moldará o meu futuro...

E tu não estarás lá.
Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: Lady L em 22.set.2007, 23:21:09
Inverno nuclear

Tudo começou com a criação de um sentimento. Uma paixão, atracção, aquecimento interior, palpitações e acelerações. Emoções. Depois o amor, a confiança, a intimidade, a segurança. E finalmente a entrega do meu ser, o êxtase máximo de partilha, quando a minha alma toca, com a ponta dos dedos, a tua alma. E dentro deste amor depositei as minhas esperanças, desejos e sonhos. Mas, durante todo este tempo, fui enganado, porque não sabia das tuas verdadeiras intenções. No teu coração, na negritude da tua alma, forjaste em segredo uma traição e foste sempre me iludindo. E nesse acto colocaste toda a tua crueldade, toda a tua malícia e vontade de me dominar. Um acto para me destruir. Pedaço a pedaço, fui cedendo às tuas mentiras. Mas houve sempre uma parte de mim que nunca dominaste. Num último acto desesperado marchei contra ti e enfrentei e lutei pela minha integridade. Estava próximo do fim, mas o teu poder de persuasão era forte. E foi nesse momento, quando quase me conseguiste dobrar, que eu peguei na minha espada. E a nossa relação, que me corrompia por dentro, terminou. E eu tinha esta oportunidade para terminar o capítulo contigo, mas o meu coração é facilmente vencido. E a tua persuasão quase que tem vontade própria. E traiste-me de novo, estilhaçando com a minha alma. E não devia de ter esquecido do que aconteceu mas esqueci. Atracção tornou-se paixão. paixão tornou-se amor. E durante ano e meio toda aquela traição acabou por ser esquecida. Até que, quando a oportunidade surgiu, conseguiste uma nova forma de me destruires. Abandonaste-me para ires ter com aquela criatura, e desapareceste da minha vida de vez, mas sem antes me detonares a bomba atómica. E a explosão durou toda uma eternidade. E durante meses envenenou a minha vida, corrompendo todo e qualquer sentimento e relação que eu pudesse ter. Mas, no fim, o silêncio tomou conta da terra e o meu coração sentiu o inverno nuclear... o vazio gatinhou de volta para o meu coração. A voz de um sentimento receado. Sombras. Murmúrios de uma solidão desconhecida e depois apercebi-me... a solidão veio para me atormentar. E tu apercebeste-te. Tinhas abandonado a criatura e voltaste. Mas algo aconteceu entretanto que não esperavas. Eu tinha crescido e ultrapassado tudo e fiquei imune às tuas palavras persuasivas. Eu já não sentia nada por ti. E chegará cedo a altura em que este novo inverno nuclear passará e moldará o meu futuro...

E tu não estarás lá.

Adorei. :D [smiley=hipnotizado.gif]
Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: Arms em 22.set.2007, 23:52:08
Luxúria

És uma mulher fria, sem sentimentos. Mas tens um amor secreto que não consegues ter nunca... O que te deixa infeliz. E te deixa furiosa. E acontece aquela coisa terrível. Sais por entre o vento, nessas solitárias noites frias e sentas-te nesses bares suados de álcool à espera. Não te vendes, nem te ofereces. Vais apenas com quem achares atraente. Seleccionas. Não, eleges. Dás a honra de alguém passar a noite contigo. Porque és inatingível. E levas as tuas presas e os contagias com a tua doença horrorosa até que chegues ao teu amado. Transformas a tuas conquistas em homens de madeira, sem alma, sem sentimentos. Simples objectos descartáveis que deixas secar até à morte. Mas não odeias os homens, tens pena deles. Achas que matá-los é algo natural, daí lhes esvaziar a alma. Gostas destes jogos. E até te divertes-te com as atitudes patéticas de certos homens que te seguem e te adoram cegamente, venerando-te como uma deusa. E arranhas e gemes de felicidade... até te aperceberes depois que, no fundo, és realmente infeliz. Que toda essa tua luxúria é apenas um pretexto para cobrires o facto de não seres capaz de superar o teu medo de entrega a esse amor inatingível.

O que provavelmente nunca soubeste foi que esse teu amor até se sentiu atraído por ti e teria certamente aceitado namorar contigo se tu apenas lhe tivesses dito algo antes... mas agora é tarde demais, não é?
Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: Arms em 23.set.2007, 00:29:16
Ira

És frio. És calculista. Não te importas de usar os outros para chegares onde queres. Fazes tudo de forma egoísta. Não confias em ninguém. Irritas-te facilmente quando as coisas não correm como queres e perdes o teu norte se as coisas que fazes não têm os resultados que desejas. Porque, para ti, tudo tem que seguir as tuas regras, as tuas imposições e as tuas limitações. Não evoluis. Limitas-te a agir dentro dos teus padrões estabelecidos como uma formiga perdida. Às voltas e às voltas no mesmo assunto, nesse mesmo sentimento. E explodes. Explodes porque não sabes fazer nada de outra forma. E desleixas-te em tudo, porque irritas-te facilmente. Não acabas nada porque nada corre como queres. As tuas relações, os teus estudos, a tua vida... até a tua alma está inacabada. Usas as pessoas que encontras para satisfazer os teus pequenos caprichos. Saltas de relação em relação porque irrita-te estar sempre com a mesma pessoa. Tudo isto para esconder o facto de, no fundo, te considerares uma pessoa medíocre e sem graça. E é pena, porque dantes eras simpático e divertido, mas um coração mole, e foste pisado e usado, mas não conseguiste ultrapassar isso. E até terias imensas coisas para oferecer se não fosses tão irritável...
Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: too lost em 23.set.2007, 02:24:13
Podes ser de plumas brancas


um pássaro sem asas


em direcção a um poro


do meu corpo


em pedaços de carne crua


a chover nos meus olhos


com as mãos caídas


no colo do teu amor


em metros de círculos


de intenções de sonhos


deitados lado a lado


num elemento chamado tempo.


que saudades da Prunella...  ;)
Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: black_mirror em 26.set.2007, 14:16:48
Mandou-a sair, abriu lhe a porta e deixou a sozinha na rua.

E ela foi descendo ate o caminho evaporar.
Por onde passou viu cobras nas janelas
Pisou sémen e flores
E deixou a sua libido morrer
Ouvindo coros de velhas beatas.
Sempre se deixou calar pelo rasto das sombras
Sempre se deixou apanhar pela falta de espaço
Foi sendo tudo menos ela, até o deixar mesmo de ser
Viveu a dor até a vida a largar.
E agora, que chegou finalmente ao recinto da feira, entre tendas e excremento seco
O caminho acabou.

Por trás das suas pegadas, só ouve o bater da porta
Ainda sente o cheiro de um não frio,
E com um sorriso amargo nos olhos,
Vê num espelho o mesmo rosto sujo de sua mãe.
Também ela passou ao lado da vida.
Agora é tarde. O sol pôs-se
E o mundo já adormeceu.
Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: Arms em 27.set.2007, 11:13:55
Mãos de Apolo (Vaidade)

Olha para a perfeição das minhas mãos.
Palmas largas e dedos compridos,
mãos de pianista.
Adoras estas mãos de Sol e fogo.
Cada dedo veneras com beijos,
cada veia percorres com a língua
- formigueiros -
beijando orgulhosamente a minha palma.

Só nas minhas mãos sentirás desejo
pois como estas não verás mais.

Ninguém tem as mãos mais perfeitas
que as pessoa quem tu desejas mais.



Mãos de Mercúrio (Inveja)

Quero ser as tuas mãos
sempre que tocas o teu peito,
só para sentir esse calor, esse cheiro
e o bater do teu coração.

Quero ser os teus dedos
sempre que os levas à boca,
apenas para saborear um beijo teu
e sentir na pele o teu respirar.
Lento,
ritmado,
húmido,
intoxicante.

Quero estar na tua palma
quando recolhes os dedos
para me sentir seguro,
quente
e simplesmente teu.

- by Arms_pt, in Pecados de Mim.
Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: Arms em 27.set.2007, 11:16:05
Mãos de Vénus (Luxúria)

Passo a minha mão sobre o teu peito,
palpando suavemente a tua textura,
a textura da tua pele arrepiada.
Sinto esse teu calor
enquanto arranho apaixonadamente
deixando-te rastos rosa-salmão na pele.

Percorro com os dedos os caminhos
traçando círculos e cobrindo os sinais.
Fecho os olhos e inspiro,
drogo-me no teu odor, nesse perfume,
enquanto os meus dedos descobrem as tuas curvas
- palpitações -
e cedo descobrem os altos e baixos do teu corpo.

Beijo o teu corpo,
levemente,
repetidamente,
apaixonadamente.
Percorro com a língua os rastos salmão
que as minhas unhas deixaram ficar
e rendo-me no sabor de um beijo teu.



Mãos de Lua (Preguiça)

Encosta a tua cabeça à minha mão
e olha para as estrelas
nesta quente noite estática.
Uma noite sem sopro de vento.
Uma noite estrelada, Lua nova,
está escuro como bréu.

Com os dedos mostro-te as luzes,
de Mintaka a Albireu.
Um a um mostro o centro
desta pequena nossa galáxia.
E a tua mão que descansa no meu peito
pesa e aquece a minha alma.

Espreguiça-te e abraça-me
pois nesta noite apenas isto existe.
Nesta noite o tempo adormece
assim como eu adormeço
aterrado na tua mão.
Tal como tu me pediste.

- by Arms_pt, in Pecados de Mim.
Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: Arms em 27.set.2007, 11:24:23
Mãos de Marte (Ira)

Bate.
Isso.
Bate-me.

Bate-me com força,
bate-me com ódio.

Outra vez.
Sim, mais uma vez.

Gostas disso, não gostas?

Enterra o teu punho no meu estômago
- isso -
para eu sentir o ar a escapar-me,
sem que eu solte um único grito.
Não te darei esse prazer.

Repete e bate,
e bate mais esta vez.

Ruge e liberta essa raiva,
marca-me a cara
e esventra-me a alma.
Liberta essa fúria,
liberta essa cólera
e deixa-me inconsciente no chão.

Deixa-me. Deixa-me aqui
a contorcer-me compulsivamente,
completamente inebriado na minha dor
e parte.

Rio-me. Rio-me assim que sais
e tento levantar-me vagarosamente.
Pavimentos carmins que escorrem pelo meu corpo.
Gotas de alma que caem silenciosas nas poças no chão.
E rio-me.
Rio-me porque sei que não terás outra oportunidade.

Para a próxima quem bate e ruge sou eu.



Mãos de Júpiter (Avareza)

Porque me escondes as tuas mãos,
nesse movimento egoísta,
se o que quero é vê-las?

Porque as escondes nos teus bolsos,
de forma tão arrogante,
se apenas as quero amar?

Que temes?
Tens medo que tas roube?
Tens medo que tas coma?

Não tenhas medo,
não as vou roubar,
apenas as quero tocar e amar.

E nada tens a temer,
não as pretendo comer.
Mordiscar e beijar talvez.

Mas quero as ter só para mim.
Isso sim. Isso sim.



Mãos de Saturno (Gula)

Húmidos,
mergulhados nesse molho delicioso.
Os teus dedos.

Mete-os na boca e sorve-os.
Enrola a tua língua nos dedos
e sente o sabor do molho,
misturado na tua essência.

Fecha os olhos
e decifra os sabores na boca.
Retira os teus dedos
e sorri de contentamento.

A seguir,
mergulha os teus dedos no molho
e mete-os na minha boca.

- by Arms_pt, in Pecados de Mim.
Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: Arms em 27.set.2007, 23:35:26
O que sou, não sou.

Para alguém que não desenha
eu sou um artista.
Para alguém que não escreve poesia
eu sou um poeta.
Para alguém que não lê
sou um intelectual.

Para alguém que desenha,
faço apenas meros rabiscos.
Para alguém que escreve poesia,
tenho falta de estrutura.
Para alguém que lê,
eu sei muito pouco.

Para alguém que não pode ser,
eu sou.

- in Vaidade, Pecados de Mim.
Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: Filipe V. em 29.set.2007, 12:56:31
Dizes tu
P*e*os, brancos, amarelos,
Todos de cara fechada, dizes tu.

Os homens que só pensam em for*i**r,
As mulheres que não pensam em agradar,
“Dores de cabeça”, dizes tu.

As carnes cheias de enfermidades,
As galinhas que não dormem,
O hábito, do homem moderno, aos vícios das cidades…
Dizes tu.

A bíblia assim o diz, assim o farás,
Dizes tu.

Não roubarás,
Não matarás,
Não cobiçaras,
Dizes tu.

Dizes tu, p*e*a de corpo e de alma iluminada pelos sonhos que Deus te traz, pelas tuas vivências, pela tua fé.

Vai em paz, preconizadora.

No comboio para Sintra.
Uma negra, que prega as suas vivências, tem um espaço em forma de círculo para si reservado, dentro de um comboio apinhado, só para que todas as pessoas a possam ouvir.
Em poucas palavras enumerou muitos problemas que existem na sociedade (no âmbito privado/familiar). A paixão e o amor, a alegria e a força com que ela falava eram espantosos e faziam-me sorrir à medida que apreciava tais palavras de uma mulher com 81 anos de experiência.
À sua volta haviam pessoas a rirem-se e a gargalharem. Olho para trás e detenho os olhos num negro que se ri vivamente.

“Ela fala bem.” – digo.
“Ah! É tudo mentiras e parvoíces!” – responde ele em tom de regozijo.

Percebi que as pessoas não escutavam, apenas ouviam a sua voz, em tom elevado, como que para animar a viagem.


Censurei palavras para que não haja duvidas de que não estou a ofender ninguém.
Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: Arms em 30.set.2007, 08:22:33
Destino afogar

Será que me lembrei de te esquecer?
Será que me esqueci de me lembrar de ti?
Será que esqueci quando tu partiste?
Será que partiste quando me esqueceste?

Nunca pensei que fosses um sonhador.
Nunca sonhei que fosses um pensador.
Tu tiveste-me, tu perdeste-me.
Será que te perdi primeiro?
Ou será que eu nunca te realmente conheci?

-in Preguiça, Pecados de Mim.
Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: Arms em 01.out.2007, 02:03:38
Vomita a minha alma
(Negrito representa momentos de fúria. Itálico, momentos de calma.)

Teci uma teia cónica e entrelacei-a.
Cravei-a no teu sonho.
De mim para ti.

Toca-me outra vez e juro que te mato.


Quase senti um bem-estar
dando a minha mente a esta forma animal
mas mesmo assim dói.
Os gritos continuam a aumentar.
Mostra-me um suspiro de felicidade que me faça ficar.
Mas no chão dorme a minha carcaça morta
(Fé) Um lento amanhecer.


Enferruja-te dentro de mim.
Caos. Fui eu. Fui eu.


Depois acalmei-me
(Fantasia)
Estou obcecado em morrer...
Isso pode salvar
o coração frio do vazio da minha mente


“Vai-te embora.
Quero-te o mais longe possível.”
Dia dos namorados,
uma esperança falhada.

Glorificado sujo deus como ficção científica


És tão bonito.
Mãos frias à noite,
fazes-me chorar assim que te vejo.
Mas com os teus suspiros vieram os meus pesadelos.
Estou a morrer nu e acordado.


Cinzas/Renascer
‘Assassino’

No meu sonho tu...
Não sangraste. Então...
Preso. Quando te matei...
Fui levado para dentro.

Metade de mim merece isto.
Estou quase lá.
Tão perto. Demasiado perto.
De Deus.

Tosse
Dissipação
Carmim


Sereno


Paralisado



Acho que vi o céu nos teus olhos.

Espero voltar
antes de morrer
por dentro

Pulmões cheios de sangue

A melhor coisa que te podia dar
era a chuva,
Filosofia.


Dos olhos de uma lesma:
Todas essas mentiras,
queixas inúteis.
Todas as coisas
que odeias...
Podes enterrá-las.


O meu martelo vai ser o mais forte.
A minha alma vai ser a mais pura.
Não me podes matar.
Não me podes quebrar.

Estilhaça
Estilhaça-me

Segunda pele
Rasgando
Condescendendo
Estou lá.

Acho eu.

- in Cólera, Pecados de Mim.
Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: Yumi em 10.out.2007, 04:28:36
Vagueando por ai eu estarei
No meu início, eu olhei
No meu presente eu viverei
No meu final eu me rirei
Isto tudo porquê?
Porque pelo meu caminho andarei
Pelos meus sentimentos eu sentirei
Pelas minhas palavras eu falarei
Pela minha ajuda eu terei
Porque nesta vida eu aprenderei
Que eu sou eu
Que tu és tu
Que nós somos nós
Fazemos parte deste caminho
O caminho da vida.
Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: Lady L em 11.out.2007, 22:31:18
Acordei rodeada do seu perfume, cada vez que respirava parecia que absorvia mais um pouco dela, olhei para o lado e não vi ninguém. Assustei-me. Comecei a questionar-me se aquilo não tinha sido apenas mais um dos meus muitos sonhos, até que um "Bom dia fofa", fez-me acordar para a realidade.
O meu anjinho com um sorriso do tamanho do mundo apareceu á porta, com uma bandeja muito bem ornamentada, pão, café, sumo e até uma flor. Devo ter feito o sorriso mais parvo de toda a minha vida, mas pela primeira vez, senti-me completamente feliz, realizada.
Pousou a bandeja numa mesa perto da cama, deitou-se a meu lado e beijou-me, já tinha saudades daqueles doces e suaves lábios, agarrei-a, puxei-a até mim, trocamos beijos, olhares, toques carinhosos, até que me afastou, levantou-se, trouxe a bandeja até mim e juntas, partilhamos aquele belo manjar dos deuses.
Após termos terminado o maravilhoso pequeno-almoço, aconchegadas debaixo dos lençois, testemunhamos o nascer do sol e ele, mais uma prova do nosso amor.
Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: Arms em 12.out.2007, 23:12:05
A carta

Vai mudar-se finalmente para a sua casa. Agarra numa caixa de cartão e arruma as últimas coisas que tinha no seu quarto quando se depara com uma folha de papel amarela, com manchas a sépia. Começa a ler.

"Queridos mãe e pai,

Desculpa ter que fazer isto, mas não posso ser ajudada. Disse-vos e ao conselheiro escolar imensas vezes que não estou doida. Vocês dizem que não estou mas não consigo acreditar nisso. Penso o mesmo do conselheiro. Os medicamentos que ele me deu não fazem diferença. Esta depressão não passa. Esta tristeza não desaparece. Ele disse que leva tempo, mas eu não tenho tempo.

Dizem sempre que o nossos pesadelos não se realizam. É o que dizem sempre. Mas eu estou sempre acordada quando os sinto na pele e nas expressões das pessoas que me rodeiam. A forma como me olham e me julgam. Como me chamam todos aqueles nomes. Eu vivo todos os meus pesadelos a cada segundo que respiro. Eu respiro os meus pesadelos.

Está na altura de vos dizer algo que nunca foi dito e que deve ser dito, porque não quero ser mais uma desconhecida para os dois. Vocês que me criaram e me deram vida. Eu sou lésbica. Pronto, já disse. Finalmente a verdade que queriam tanto saber.

Lembram-se quando eu saía com a minha amiga, no Verão passado? No dia em que deixaram de a ver cá em casa? Contei-lhe, pela primeira vez. À minha melhor amiga. Nessa altura ainda tinha melhores amigos. Agora já não. Agora não tenho amigos. E agora sabem porquê. Ela deu-me um estalo na cara e disse que me odiava. Que nunca mais me queria ver e que eu era uma aberração.

E ela contou a toda a gente.

E foi nessa altura que tudo começou. Os beliscões e os estalos na cara. Eu andava pelos corredores da escola e eles chamavam-me nomes e afastavam-se, como se eu lhes fosse pegar uma doença. Ainda houve uma rapariga que me mordeu. Eu disse-vos que tinha sido um cão. Lembram-se? Todos me insultavam e me excluíam apenas porque sou diferente. E calei-me. E deixei de sorrir. E passei a minha vida fechada no quarto. Foi quando me levaram ao psicólogo. Ele disse-me que era apenas uma fase. Seria de esperar um opinião melhor de um especialista. Ele estava errado. Não foi uma fase. Procurei por ajuda mas não existia ninguém durante imenso tempo.

As pessoas na escola começaram-me a chamar nomes como 'Ana machana' ou 'LesbiAna'. E gozavam comigo. Mais ainda quando me isolava. Diziam que eu pensava que me achava melhor que eles, que não me podia misturar com eles... ser normal. Ser normal... Eles lá sabem o que é ser normal. Depois conheci uma rapariga na escola. A única pessoa naquela escola que não teve medo de mim, nem nojo e que veio falar comigo. Eu contei-lhe as minhas inseguranças e ela ouviu. E durante algum tempo estive bem. Lembram-se? Quando eu andava mais alegre... E, durante muito tempo, pensei ter uma amiga nova. Mas apaixonei-me por ela. E disse-lhe. E ela afastou-se. E eu voltei a ficar aqui, nesta depressão. E voltou tudo. Os medos, as lágrimas, o ódio por mim mesmo. A solidão. Sempre a solidão.

Não sei se a solidão passará quando me for embora, mas tenho que tentar. Nem quero fugir. Mãe, pai, quero abandonar este mundo. Tenho que ir. Tenho medo, mas tenho mais pavor em viver assim. O psicólogo disse que os comprimidos iriam ajudar. Talvez ele tenha razão. Vou tomá-los todos esta noite. Eu sei que ficarão tristes mas a culpa não é vossa. Nunca foi.

Mãe, sempre me disseste que eu iria para o Inferno se fizer isto. Mas isto é o Inferno. Sinto-o e vejo-o todos os dias e estou cansada. Quero me libertar. Se isto acontecesse com algum de vocês os dois, não fariam o mesmo?

Amo-vos e peço desculpa.
Ana"

Senta-se na cama quando a sua mãe entra no quarto. Ana responde com um sorriso rasgado quando a mãe, depois de reparar na carta, sorri. Levanta-se e dá-lhe um abraço. É neste momento que a Cátia entra. Beija a namorada. Vão viver juntas.

E Ana sempre agradeceu o facto dos pais terem chegado mais cedo a casa naquele dia.


Este texto é recente e ainda está sujeito a alterações: nomeadamente erros gramaticais e afins. Mas gosto dele. :)
Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: FalsoDeus em 12.out.2007, 23:50:25
Sem ti nada sou

Dias passam
é o tempo que os reclama
e a nós com eles

Mas nós somos eternos
tanto quanto o tempo que duramos
que é o tempo que podemos medir
quando o corpo medir nos permite

Porque o corpo é uma máquina
lixo é o que ele produz
e com lixo novos corpos surgem
novas máquinas de excrementos parasitas
pois parasitas nascemos prontos para morrer

E os dias passam
manhãs tardes noites
luz e escuridão sucedendo-se beatificamente
belos somos nós, prontos para deixar de o ser
é do tempo que tudo reclama
até nem este reclamar puder
Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: akinder em 12.out.2007, 23:53:08
Es um falso com a mania que não tens talento! Engana-te...  lol
Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: hal em 13.out.2007, 00:31:48
A carta

Vai mudar-se finalmente para a sua casa. Agarra numa caixa de cartão e arruma as últimas coisas que tinha no seu quarto quando se depara com uma folha de papel amarela, com manchas a sépia. Começa a ler.

"Queridos mãe e pai,

Desculpa ter que fazer isto, mas não posso ser ajudada. Disse-vos e ao conselheiro escolar imensas vezes que não estou doida. Vocês dizem que não estou mas não consigo acreditar nisso. Penso o mesmo do conselheiro. Os medicamentos que ele me deu não fazem diferença. Esta depressão não passa. Esta tristeza não desaparece. Ele disse que leva tempo, mas eu não tenho tempo.

Dizem sempre que o nossos pesadelos não se realizam. É o que dizem sempre. Mas eu estou sempre acordada quando os sinto na pele e nas expressões das pessoas que me rodeiam. A forma como me olham e me julgam. Como me chamam todos aqueles nomes. Eu vivo todos os meus pesadelos a cada segundo que respiro. Eu respiro os meus pesadelos.

Está na altura de vos dizer algo que nunca foi dito e que deve ser dito, porque não quero ser mais uma desconhecida para os dois. Vocês que me criaram e me deram vida. Eu sou lésbica. Pronto, já disse. Finalmente a verdade que queriam tanto saber.

Lembram-se quando eu saía com a minha amiga, no Verão passado? No dia em que deixaram de a ver cá em casa? Contei-lhe, pela primeira vez. À minha melhor amiga. Nessa altura ainda tinha melhores amigos. Agora já não. Agora não tenho amigos. E agora sabem porquê. Ela deu-me um estalo na cara e disse que me odiava. Que nunca mais me queria ver e que eu era uma aberração.

E ela contou a toda a gente.

E foi nessa altura que tudo começou. Os beliscões e os estalos na cara. Eu andava pelos corredores da escola e eles chamavam-me nomes e afastavam-se, como se eu lhes fosse pegar uma doença. Ainda houve uma rapariga que me mordeu. Eu disse-vos que tinha sido um cão. Lembram-se? Todos me insultavam e me excluíam apenas porque sou diferente. E calei-me. E deixei de sorrir. E passei a minha vida fechada no quarto. Foi quando me levaram ao psicólogo. Ele disse-me que era apenas uma fase. Seria de esperar um opinião melhor de um especialista. Ele estava errado. Não foi uma fase. Procurei por ajuda mas não existia ninguém durante imenso tempo.

As pessoas na escola começaram-me a chamar nomes como 'Ana machana' ou 'LesbiAna'. E gozavam comigo. Mais ainda quando me isolava. Diziam que eu pensava que me achava melhor que eles, que não me podia misturar com eles... ser normal. Ser normal... Eles lá sabem o que é ser normal. Depois conheci uma rapariga na escola. A única pessoa naquela escola que não teve medo de mim, nem nojo e que veio falar comigo. Eu contei-lhe as minhas inseguranças e ela ouviu. E durante algum tempo estive bem. Lembram-se? Quando eu andava mais alegre... E, durante muito tempo, pensei ter uma amiga nova. Mas apaixonei-me por ela. E disse-lhe. E ela afastou-se. E eu voltei a ficar aqui, nesta depressão. E voltou tudo. Os medos, as lágrimas, o ódio por mim mesmo. A solidão. Sempre a solidão.

Não sei se a solidão passará quando me for embora, mas tenho que tentar. Nem quero fugir. Mãe, pai, quero abandonar este mundo. Tenho que ir. Tenho medo, mas tenho mais pavor em viver assim. O psicólogo disse que os comprimidos iriam ajudar. Talvez ele tenha razão. Vou tomá-los todos esta noite. Eu sei que ficarão tristes mas a culpa não é vossa. Nunca foi.

Mãe, sempre me disseste que eu iria para o Inferno se fizer isto. Mas isto é o Inferno. Sinto-o e vejo-o todos os dias e estou cansada. Quero me libertar. Se isto acontecesse com algum de vocês os dois, não fariam o mesmo?

Amo-vos e peço desculpa.
Ana"

Senta-se na cama quando a sua mãe entra no quarto. Ana responde com um sorriso rasgado quando a mãe, depois de reparar na carta, sorri. Levanta-se e dá-lhe um abraço. É neste momento que a Cátia entra. Beija a namorada. Vão viver juntas.

E Ana sempre agradeceu o facto dos pais terem chegado mais cedo a casa naquele dia.

 [smiley=vencedor.gif] :)
Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: Arms em 14.out.2007, 22:51:08
Odeio-te

Odeio-te. Odeio-te apaixonadamente. A paixão pelo ódio que sinto por ti consome cada célula que tenho no meu corpo, fervilhando de calores solares que me eliminam por completo. O que fica é apenas o meu instinto natural de infligir dor e miséria a ti. A ti que odeio carinhosamente. Toda esta ira. Todo este ódio. Tudo guardado aqui dentro, neste coração manchado de sangue e suor. E lágrimas. Neste pequeno coração pronto a explodir em pedaços finos e pontiagudos. Pequenas armas de arremesso directos para o teu coração de mármore. Mármore porque esse calhau que tens no peito ainda se esconde sob um véu de nobreza. Nobreza. Isso que tens não é nobreza, é avareza, mesquinhice, prepotência. Guardei tudo cá dentro. Será que sabes que guardei tudo só para ti? Não conseguias ser feliz deitado apenas ao meu lado. Estava errado ao deixar-te entrar bem dentro da minha alma. Mas deixei-te entrar e deixei-te usar a minha alma. E abusar dela. E agarraste nela, amachucaste-a, rasgaste-a em pedaços e deitaste-a fora. Milhões de pedaços que escorregavam da minha face em perfeitos pavimentos. Claros como cristais. Cicatrizes na minha cara. Mas, gota a gota, pedaço a pedaço, como uma tortura, irei devolver tudo. Tudo o que me deste irei devolver. A forma como me usaste, abusaste e troçaste. Toda a dor. Todo o rancor que me deste. Irei devolvê-lo.

Apenas porque já não quero as coisas que me deste.
Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: NecroRomancist em 21.out.2007, 06:49:00
An Elegy to a Succumbed Friend


I feel the silence
 going through your mind,
 i see you lying
 on green pastures,
 your peaceful eyes
 as the wind caresses your redful eyes
 you are one at last,
 i can see you dreaming
 being pulled to life,
 i can feel the beat your heart,
 as you open your eyes
 to the ceiling..
 your dreams dissipating
 causing me to shiver alone,
 anguished to despair..
 I saw your presence,
 on this empty shell,
 it feels like a lifetime has swallowned me whole,
 passing through your house,
 in the dissolution of tears,
 at light speed yet so slow,
 i see my own death,
 scraping pieces of my flesh..
 There were dreams,
 there were spontaneous hopes,
 but i should have known better,
 pain is everything we can ever feel..


I *bow* before you my friend

Algo que escrevi quando um amigo tava num periodo dificil....
Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: Yumi em 26.out.2007, 04:18:14
Por onde ando eu ? A vaguear pelo caminho da confusão que no qual uns tempos vejo luz e outros escuridão. Tirem-me daqui, estou a gritar! estou a chorar parada, estou paralisada de medo, não consigo sair daqui a dor é grande o sofrimento é enorme. A cada dia que passa ... vejo-me por estes caminhos alguma luz no seu final e sinto-a mas não consigo alcançar-lhe é duro...é tão duro saber que estou perto e não posso fazer nada! Sentimento este? de incompetência a cada dia que passa, de medo por não ter auto estima para mudar o que está certo....de falhar, de não ir até ao fim da luz...sinto-me a perder na solidão ela afoga-me a cada assopro que lança e eu sou arrastada ate ela.




 :(
Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: Arms em 26.out.2007, 08:03:24
Ode à minha solidão.

Caminhando incansável pelos passeios num dia frio de Dezembro. Os meus passos solitários apenas quebrados pelos sons das minhas botas na água. Chuva. O nevoeiro invade. Bloqueia os últimos raios de Sol. E um véu de névoa e serenidade cobre, graciosamente, a minha alma. As sombras alongadas dos prédios, embutidas, em tempos, de uma beleza que agora escorre e racha pelos cantos. E manchas de humidade e tempo.

Enquanto o brilho nublado do dia se desvanece e, aos poucos, uma luz negra surge. Assemelha-se a veludo. Os meus olhos percorrem os ventos murmurantes e estagnam-se nas estrelas diluídas do céu nocturno. Brilhantina. Um olhar de névoa. Como se tivesse uma película nos olhos.

Exposto ao frio dos ventos gélidos a minha alma atormentada alegra-se. Agita. Ri e canta. Enquanto o uivo do vento me encanta. Mais até que as vozes das pessoas que jamais são. Talvez jamais foram até.

Liberto da insanidade dos homens. Sinto o meu coração cicatrizado de lamentos queimar. Chamuscando a minha alma pela solitária noite adentro. Vejo um piscar de abrigo voltar. Atormentado com o discernimento da minha solidão continuo o meu caminho pela noite.

Já lá vão os dias em que a centelha de esperança enchia as delícias do meu coração gentil. E, em todos estes anos, seguindo as correntes de fortuna apenas plantei as sementes do meu desgosto. Os meus olhos enganados pelas máscaras das minhas felicidades. As minhas desesperadas esperanças enganadas. Por isso recolho agora a colheita dos meus solitários dias e banho-me nesta paz que os meus pecados anseiam.

A noite passará e a brisa gélida matinal, de estalactites, irá ocultar os traços da minha existência. Porque nenhuma pedra irá marcar o lugar onde o silêncio me abraçou e levou o meu coração alegremente para o eterno encanto da solidão.
Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: BloodTears em 10.nov.2007, 15:40:28


c


my hand upon your chest.

hoje dançamos neste mundo até que desapareça.
Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: Arms em 15.nov.2007, 21:17:20
Nos teus olhos

Sento-me outra vez neste canto do café. O canto que já me conhece tão bem e cuja cadeira almofadada já tem quase a forma do meu corpo. Os próprios empregados já me conhecem e acontece muitas vezes eu estar a contornar a esquina e ver pela janela eles a tirarem já o meu café e o meu típico pastel de nata para que, assim que me sento, ter já as minhas coisas. Aliás, já tenho coragem suficiente para dizer que pode pôr na minha conta sem que isso cause qualquer transtorno. Pode-se considerar que eu seja um cliente habitual. Já trato todos pelos nomes. Sim, acho que já sou um bom cliente habitual.

Tudo indicava que hoje seria mais um dia banal como outro qualquer, onde eu me sentaria, beberia o meu café, com intervalos trincados ao pastel de nata (com açúcar em pó, porque não aprecio canela) e os habituais pensamentos rabiscados no caderno manchado de chuva, café e outras incontáveis manchas irreconhecíveis por entre as folhas. E tomate, daquela vez em que fui ao Pizza Hut comer uma refeição à pressa antes daquele encontro furado à chuva. Enfim. O dia parecia-me como outro qualquer. Eu, mais os meus vícios de longa data, começados em tempos esquecidos, e as minhas memórias atormentadas de relações furadas à chuva (tanto no sentido metafórico como no sentido lato). E rabisco estes pensamentos a conta-gotas sobre o papel amarelado, com umas manchas arroxeadas e vermelhas e algumas a sépia no canto, tentando enganar o tempo. E, entre os pensamentos, vou vendo o que se passa no café e na rua. Não sei, talvez numa tentativa de esquecer-me de algo que me lembrei de momento. Ou lembrar-me de algo que estava esquecido. Olhando e vendo as pessoas a correrem de um lado para o outro, com os seus casacos e pastas e as suas agendas cheias de horas marcadas ao segundo para aproveitarem ao máximo o dia sabendo, de antemão, que metade das coisas vão ficar para amanhã (ou para depois) e os cafés marcados com os amigos serão adiados para o próximo mês e tal.
Mas, numa dessas pausas de pensamentos e rabiscos, vi-te. Não te vi entrar. Não te vi sentar. Nem tão pouco me apercebi do facto de teres ficado, quê, uns bons quinze minutos a olhar para mim. Assustei-me de início, desviei o olhar, sabendo mesmo que sabias disso e já tinhas apercebido antes. Olho de novo para ti, anónimo hipnotizador. Sorris um sorriso tímido, ousado e esmagador. Desvio o olhar porque, com essa, puseste-me a nu. Pronto já sabes. E o pior é que sabes que não me és indiferente. Confesso que já não estou habituado a isto. Já passou muito tempo desde que me lançaram olhares destes. Aliás, já passou demasiado tempo... para ter que me forçar a lembrar disso. E, pouco a pouco, vou cedendo aos teus olhares e aos teus sorrisos. Sorrio um sorriso tão tímido, tão envergonhado que te ris. Sabes como controlar-me. Descobriste em poucos segundos. E sabe-te bem ter-me ali... e nas tuas mãos. E ficas aí, virado para mim, a sorrir e a olhar, com os teus olhos dourados, sob essa luz ofuscante do Sol. E eu respondo-te involuntariamente, enfeitiçado pelos teus olhos de amêndoa e mel, brilhando aquosas, sobre mim. Como se me vissem a alma. Levantas-te e eu congelo. Aproximas-te e eu tremo. Aproximas os teus lábios rosados, em perfeito arco, e murmuras-me, com essa voz levemente grave e timbrada, com 'esses' silvantes, como as cobras, o teu nome. E colocas a tua mão sobre o meu ombro quando me entregas o papel. E partes para a tua vida. E fico congelado a olhar para a porta.
Abro o papel depois de me recompor e leio: "Procura-me tu agora. Porque eu levei a minha vida toda à tua procura."

E lá está o teu número e uma pista de onde te encontrar. E os rabiscos do caderno de folhas amareladas com manchas de irreconhecíveis momentos ficou no café, esquecido.
Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: Filipe V. em 15.nov.2007, 21:25:22
O Código da Imoralidade I

 O que me motiva é a Dor,

            O ferrar de uma faca,

            O fedor de um vadio,

            O frio glaciar de um desdém.

 

Vitimas de torturas virtuais,

Chacinadas diariamente,

Violadas em palco luminoso.

            Somos Nós.

                        [Risadas.

 

Não passam de imoralidades,

Perfeições mutiladoras,

                        [Medíocres.

 

Resigno a Ignorância.

Generalizo a força.

Amo o sofrimento.

Renego o Ouro,

                        [Oco.

Espanco quem me proteger,

Mato quem se opuser

À liberdade de um louco!
Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: biki em 15.nov.2007, 21:32:42
Estou numa sala vazia. A luz é fraca, há apenas algumas velas pousadas no chão de pedra. Olho em volta. Não há portas, nem janelas. Apenas eu e a escassa fonte de luz. Estou acorrentada por um pé e os meus braços estão repletos de rasgões profundos na carne. Sinto-me ofegante, o ar é abafado. Ali fico durante um pouco, a saborear a dor e a admirar o sangue brilhante que escorre para o chão. Sabe... Bem. Oh sim... Aquela dor ardente... Tão aguda, tão... Viciante. Tenho medo. Tenho medo das garras do vício, que me puxam para baixo. Puxam-me, e eu deixo-me ir. Espero o momento do embate no chão. A sala começa a girar e as velas apagam-se. Caio num poço de escuridão. Começo a ouvir sussurros ecoantes, que logo se transformam em urros.

"Tu não prestas!!"

Não...
"Morre!!!"
Não...
"Quem és tu?? Ninguém!!"
Cala-te...
"TU ÉS NINGUÉM!!!"
Cala-te...
"És algo perdido... Não pertences aqui!!!!"
Cala-te estupor...
"Vai-te!! Vai para outro lugar, não pertences aqui!!!"
CALA-TE ESTUPOR!!!!!!
"MORRE!!!! NÃO PRESTAS!!!"
NÃO!!!!!!
"A TUA ALMA NÃO PRESTA E TU... TU!!!!! TU ÉS UM MONSTRO!!!!! TU!!!! TU, QUE NÃO TE ENQUADRAS!!! TU, QUE ÉS DIFERENTE!!!! TU!!!! TU, QUE ÉS UMA ABERRAÇÃO!!!! TU MERECES MORRER!!!!!"

E de repente as vozes cessam. Estou de volta à sala iluminada pelas velas. Estou aterrorizada, num pânico silencioso. Ali fico, sangrando. Ali fico, até adormecer.
Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: dinake em 15.nov.2007, 21:43:50
A carta

Vai mudar-se finalmente para a sua casa. Agarra numa caixa de cartão e arruma as últimas coisas que tinha no seu quarto quando se depara com uma folha de papel amarela, com manchas a sépia. Começa a ler.

"Queridos mãe e pai,

Desculpa ter que fazer isto, mas não posso ser ajudada. Disse-vos e ao conselheiro escolar imensas vezes que não estou doida. Vocês dizem que não estou mas não consigo acreditar nisso. Penso o mesmo do conselheiro. Os medicamentos que ele me deu não fazem diferença. Esta depressão não passa. Esta tristeza não desaparece. Ele disse que leva tempo, mas eu não tenho tempo.

Dizem sempre que o nossos pesadelos não se realizam. É o que dizem sempre. Mas eu estou sempre acordada quando os sinto na pele e nas expressões das pessoas que me rodeiam. A forma como me olham e me julgam. Como me chamam todos aqueles nomes. Eu vivo todos os meus pesadelos a cada segundo que respiro. Eu respiro os meus pesadelos.

Está na altura de vos dizer algo que nunca foi dito e que deve ser dito, porque não quero ser mais uma desconhecida para os dois. Vocês que me criaram e me deram vida. Eu sou lésbica. Pronto, já disse. Finalmente a verdade que queriam tanto saber.

Lembram-se quando eu saía com a minha amiga, no Verão passado? No dia em que deixaram de a ver cá em casa? Contei-lhe, pela primeira vez. À minha melhor amiga. Nessa altura ainda tinha melhores amigos. Agora já não. Agora não tenho amigos. E agora sabem porquê. Ela deu-me um estalo na cara e disse que me odiava. Que nunca mais me queria ver e que eu era uma aberração.

E ela contou a toda a gente.

E foi nessa altura que tudo começou. Os beliscões e os estalos na cara. Eu andava pelos corredores da escola e eles chamavam-me nomes e afastavam-se, como se eu lhes fosse pegar uma doença. Ainda houve uma rapariga que me mordeu. Eu disse-vos que tinha sido um cão. Lembram-se? Todos me insultavam e me excluíam apenas porque sou diferente. E calei-me. E deixei de sorrir. E passei a minha vida fechada no quarto. Foi quando me levaram ao psicólogo. Ele disse-me que era apenas uma fase. Seria de esperar um opinião melhor de um especialista. Ele estava errado. Não foi uma fase. Procurei por ajuda mas não existia ninguém durante imenso tempo.

As pessoas na escola começaram-me a chamar nomes como 'Ana machana' ou 'LesbiAna'. E gozavam comigo. Mais ainda quando me isolava. Diziam que eu pensava que me achava melhor que eles, que não me podia misturar com eles... ser normal. Ser normal... Eles lá sabem o que é ser normal. Depois conheci uma rapariga na escola. A única pessoa naquela escola que não teve medo de mim, nem nojo e que veio falar comigo. Eu contei-lhe as minhas inseguranças e ela ouviu. E durante algum tempo estive bem. Lembram-se? Quando eu andava mais alegre... E, durante muito tempo, pensei ter uma amiga nova. Mas apaixonei-me por ela. E disse-lhe. E ela afastou-se. E eu voltei a ficar aqui, nesta depressão. E voltou tudo. Os medos, as lágrimas, o ódio por mim mesmo. A solidão. Sempre a solidão.

Não sei se a solidão passará quando me for embora, mas tenho que tentar. Nem quero fugir. Mãe, pai, quero abandonar este mundo. Tenho que ir. Tenho medo, mas tenho mais pavor em viver assim. O psicólogo disse que os comprimidos iriam ajudar. Talvez ele tenha razão. Vou tomá-los todos esta noite. Eu sei que ficarão tristes mas a culpa não é vossa. Nunca foi.

Mãe, sempre me disseste que eu iria para o Inferno se fizer isto. Mas isto é o Inferno. Sinto-o e vejo-o todos os dias e estou cansada. Quero me libertar. Se isto acontecesse com algum de vocês os dois, não fariam o mesmo?

Amo-vos e peço desculpa.
Ana"

Senta-se na cama quando a sua mãe entra no quarto. Ana responde com um sorriso rasgado quando a mãe, depois de reparar na carta, sorri. Levanta-se e dá-lhe um abraço. É neste momento que a Cátia entra. Beija a namorada. Vão viver juntas.

E Ana sempre agradeceu o facto dos pais terem chegado mais cedo a casa naquele dia.


Este texto é recente e ainda está sujeito a alterações: nomeadamente erros gramaticais e afins. Mas gosto dele. :)

:)
Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: FalsoDeus em 17.nov.2007, 00:31:14
Ninguém Foge À Realidade

São estrelas azuis
elas chovem no mar
caem, caem,
sem ninguém para as apanhar.
São pétalas, poeiras e penas
que dançam sem parar
brilham, pintam, mudam
sem vento para as levar

É uma árvore torta
de onde folhas encarnadas vão cair
com uma velha corda
sem Judas ou carrasco para servir.
É o crepúsculo que aperta
e o fogo celeste que se faz sentir
frio como o cinzento Inverno
do qual se estava a rir

Reinam a fantasia e o son ho
isolados do mundo cansado;
senta-se a fada no ramo,
desfrutando do serão aconchegado.

A Lua, humilde, acena do seu altar
e logo a noite começa a sossegar.

Boceja a fada,
sorrindo à beleza daquilo
e adormece sossegada
até ser comida por um esquilo
Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: Arms em 18.nov.2007, 03:55:23
Vi a tua sombra na neve

Estou cá fora, sentado no banco do alpendre, embrulhado no cobertor, de pantufas - aquelas que imitam patas de Tigre. As que me ofereceste para os meus anos, lembras-te? - a beber chocolate quente (a tender para o escaldar) olhando a neve cair. Tenho frio na ponta dos dedos e tremelico por todos os lados, mas isso não importa quando assisto a estes pequenos flocos brancos translúcidos cairem. Parecem farrapos de algodão, ou as sementes de dente-de-leão. Só que húmidos. Espero por ti nesta noite de reflexos brancos. Porque sou o único cá fora a ver isto? São duas da manhã e ainda não chegaste - ah! ok! São duas da manhã. Não há muita gente acordada a este hora para ver a neve. - e não sei quanto tempo demorarás. Disseste que voltarias cedo a casa mas depois lá tiveste que ir àquele sítio (não fixei o nome) tratar de sei lá o quê (que também não fixei). Fiquei preocupado porque deu-me aquele aperto no peito - sabes quais, aqueles que me dão quando sinto que algo de mal irá acontecer - quando desligaste o telemóvel com aquele 'amo-te' tão distante, tão forçado. Posso até estar a fazer filmes e a imaginar coisas, mas confesso que foi o que senti. E agora estou aqui, ao frio, com o chocolate quente a ver a neve cair à tua espera.
Ah, chegaste! Finalmente. Levanto-me do banco do alpendre e sorrio. Mas o meu sorriso congela e quebra-se quando olho para ti. Basta-me um olhar para saber. Sobes as escadas do alpendre, com as mãos nos bolsos, como se tivesses vergonha. O teu corpo mexe-se enquanto falas como uma criança tímida. Olhas para mim com esse olhar. Porquê? Estás a falar mas nenhum som sai da tua boca. É como se eu estivesse a ve rum filme mudo. Não preciso de ouvir o que tens para dizer, basta-me olhar para ti. Sentimentos indescritíveis surgem cá dentro, parecem borbulhar, subindo e subindo. Deixo cair a caneca de chocolate quente, que se parte em pedaços salpicando para todo o lado. Nem me mexo para desviar. Caem salpicos na neve, manchando-a de castanho metálico. Levas um estalo. Um estalo apenas.
Rodas sobre os teus calcanhares e partes. Furioso. Engraçado! Tu fazes a porcaria que fizeste e és tu quem fica furioso... Fico ali, em pé no alpendre - com as pantufas de tigre que me deste pelos anos nos pés - a olhar para o teu carro a escorregar e patinar sobre o gelo até te ires embora. Fico ali a olhar quando já nem as luzes do carro eu vejo. E fico ali.

Foste-te embora mas acho que esqueceste-te a tua sombra na neve à minha porta. Não estarei cá quando a vieres buscar.
Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: Arms em 22.nov.2007, 22:13:36
Aniversário

É uma daquelas noites, daquelas em que a manhã demora a chegar. Ando pela casa vazia, silenciosa numa tentativa de me cansar ao ponto da exaustão porque não paro de pensar em tudo o que aconteceu. É o nosso aniversário. O aniversário da nossa separação, digo. Mais uma vez. E, desde então, esta casa me parece enorme e claustrofóbica ao mesmo tempo. Tendo este espaço todo só para mim - e aquela cama enorme - completamente atulhado dos objectos. Dos teus objectos ou dos objectos que me fazem lembrar de ti a cada segundo que passo nesta casa. Vegetei demasiado tempo nesta casa, que tornei no meu casulo contra tudo e todos. Tempo até demais. Para onde quer que olhe só tenho memórias dos meus sucessivos ataques de choro e de raiva. E o corredor. O longo corredor que percorre a casa e que me traz as memórias de ti a sorrir lá ao fundo, como um convite para um mundo paralelo - onde só existíamos eu e tu! Mas já não estás aqui. E eu persistia na ilusão de ainda aqui estares. Percorria as divisões sempre na ânsia de te ver ao virar a esquina. Ou sentado no sofá a ver o canal desportivo. Ou de te ver na banheira a tomar um duche. Ou de te ver a entrar pela porta depois de um dia de trabalho. Como tenho saudades do teu "cheguei" ao fim de cada dia. Começou por aí, por essa palavra banal e subvalorizada, todo este silêncio. Este silêncio ensurdecedor que ecoa até ao fim da memória do tempo nesta casa. Minto. O silêncio começou mais cedo. Naquele momento em que tudo terminou. Sem um "adeus", um "desculpa", um "vemos-nos por aí". Bolas! Eu até me contentava com um "vá, cuida-te"! Houve apenas aquele silêncio. O silêncio que se arrastou até este preciso momento.

Acho que chegou a altura de te abandonar aqui, nesta casa. Não por te ter deixado de amar - nunca te deixei de amar - mas porque penso que chegou a altura de libertar-te das correntes que te coloquei - e das correntes que me coloquei consequentemente - e de deixar-te ir. Para eu viver também. As lágrimas secaram e os soluços compulsivos acalmaram. Os gritos cessaram e o meu coração sarou. Sim, penso que chegou a minha altura de abandonar esta casa. Desculpa por vender os teus objectos e os nossos móveis. Desculpa por vender as tuas memórias. Mas é algo que tenho que fazer. Amanhã não estarei mais aqui. Por isso, este é o meu adeus, desculpa e vemos-nos por aí. Vá, cuida-te!
Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: MeninO do MaR em 24.nov.2007, 12:27:08
Chego ao fim do dia e fazes-me falta.

A tal ponto que chego a casa, abro a porta, onde quer que esteja, e falta-me a tua mão. falta-me o teu beijo no pescoço e na testa, o teu olhar terno a invadir-me pelos poros e a chegar-me ao coração, embalando-o numa melodia que só nós dois conhecemos.

Ao som de várias músicas a que nem prestamos atenção, os nossos olhos fundem-se, no meio das conversas que prolongamos por horas. As nossas mãos apertadas, o abraço em que as palavras que derretem são ditas. As lágrimas que te choro de felicidade. Queria dizer-te tanta coisa, mostrar-te dentro de mim como me fazes falta. Mas as minhas mãos só pendem sobre as minhas pernas, só consigo dizer o teu nome bem baixinho e pensar em como me poderás sentir sem que eu te toque.

(bem baixinho, dentro do ouvido, as palavras que derretem).


Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: Arms em 25.nov.2007, 21:34:39
A primeira vez

Hoje é uma daquelas noites em que podia ser um qualquer Domingo chuvoso ou um Sábado estrelado. É que hoje parece bastar um pouco de céu. Deitado sobre a relva apreciando esta brisa fresca, neste final de Verão - com ameaças de um Outono que tarda a chegar - penso mais uma vez nas coisas que nego sempre pensar. O que implica pensar em ti.
Lembro-me do teu riso, do teu olhar, das covinhas no canto da tua boca quando sorris.
Lembro-me de como me agarravas, como nos beijávamos, como nos zangávamos e como fazíamos as pazes.
Lembro-me da primeira vez, da última vez e de todas as vezes.
Lembro-me de ti.
E já me iludi, já me enganei e já me magoei. Até já me neguei de me ter iludido, enganado e magoado. Tudo. Mas volto sempre, de alguma forma, àquele momento. Àquela estação, àquela hora e ao teu eterno silêncio. Sem uma única palavra e um olhar colado ao chão, despediste-te de mim. E fiquei preso naquele momento, tentando sobreviver, tentando renascer. Sem ti.
Mas ainda te procurei. Em sonhos e pensamentos, nos cabelos e olhos dos outros, nos cheiros e texturas da pele dos outros, nos seus sorrisos e nas suas mãos. Procurei o teu riso, o teu olhar, o cheiro do teu perfume, a textura da tua pele, a segurança dos teus abraços, o sabor dos teus lábios, os teus sinais, aquele sinal, o sabor do teu beijo.
Procurei um pouco de ti em todos.
Procurei o que sentia ao teu lado. Mas não encontrei.

Hoje é a primeira vez que não me lembrei do teu riso, do teu olhar e das covinhas do teu sorriso. Hoje foi a primeira vez que não me lembrei de ti. E, neste lento amanhecer, eu próprio renasci e hoje estes são os meus primeiros passos.
Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: NecroRomancist em 25.nov.2007, 21:47:25
Achei muito curiosa a maneira como começaste esse teu texto. O céu estrelado versus a chuva de domingo duas coisas tão diferentes e pelo o teu texto vindas do mesmo sitio, da mesma visão..
E porque não sábado chuvoso e domingo estrelado? :) Só porque pelo o resto do teu texto havia uma progressão, havia o deixar de sentir preso a alguem (estar em casa fechado devido à chuva inundado com saudades) para passar a ter esperança, para voltar a ver as tuas estrelas..
Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: Arms em 25.nov.2007, 22:00:55
Achei muito curiosa a maneira como começaste esse teu texto. O céu estrelado versus a chuva de domingo duas coisas tão diferentes e pelo o teu texto vindas do mesmo sitio, da mesma visão..
E porque não sábado chuvoso e domingo estrelado? :) Só porque pelo o resto do teu texto havia uma progressão, havia o deixar de sentir preso a alguem (estar em casa fechado devido à chuva inundado com saudades) para passar a ter esperança, para voltar a ver as tuas estrelas..
Acho curioso que tenhas pegado precisamente nesse ponto, porque, de todo o texto, esses dias são os mais pessoais (no sentido em que são baseados em dois dias meus). O Domingo chuvoso e o Sábado estrelado estão separados entre si por vários meses. E é precisamente a linha de pensamento que referiste que o Domingo é chuvoso e o Sábado é estrelado, porque o texto foi escrito precisamente 'nesse' Sábado. ;)
Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: NecroRomancist em 28.nov.2007, 17:34:05
Elegy


(http://www.fotofest.org/abroad/berlin/Berlin_Wal.jpg)

I wish i could smoke this night
inhale it as the pain of being awaken for long
doesn't drive me mad.
I wish i could swim,
let the water flood my body
and carry me back and forth
without a reason why..
i wish i could travel,
let my soul fulfill itself
as just another mathematical projection
frozen in time,
a builder of dreams..
I dreamnt of an old man
gathering a burnt newspaper from the ground,
a throwned out treasure,
pieces of god glued by inocense,
and i did smile at him
before he was taken away,
for he had not known me,
just a shared consciousness
of how life is an empty concept
He waved goodbye,
and we parted ways,
accompanied by a mid afternoon october rain,
and i saw that old man's life passing through me,
as softly as blades had pierced my skin before,
and i walked,
getting away from that old man,
not looking back,
there is nothing worse in life,
than feeling beauty and watching it show its true silhouete..
I got home,
and lit my last cigarrete,
perhaps that consciousness had not hit me yet,
but there i stood
just like in another day,
with work on my desk,
some books i did plan to read,
and music coming from the neighbours appartment.
I thought about some people i had met..
how things could have been different
had i been different.
But we do not choose who we are,
we can embezel ourselves or make ourselves scarse,
but in the end
what we are is eternally with us..
I look back a couple of years,
not with regret nor with sorrow,
to the things i'd done,
the few people that touched me,
those that tried to give me hope,
despicable word really,
i do remember them fondly,
like the last birthday of your childhood,
far away,fading...
a fence in the garden you'll lay in.
Some of my old writings tend to leave me a bit sad,
of tenacity and strenght that has long since abandoned,
i leave them here as paintings,
paving the floor,
covering this abyss..
I'm going to close my eyes now...

NecroRomancist - à algum tempo
Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: Gharam em 29.nov.2007, 01:17:41
E vamos amando...


De que vale a pena? Responde-me. Porquê? Porque é que voltamos sempre a isto, mesmo sabendo que vai acabar. Porque voltamos a convidar para dançar? Porque voltamos a dar a mão? Sabemos que não se pode dançar para sempre. Sabemos que vamos precisar da mão para outra coisa. Outra coisa qualquer. Outra mão, talvez. Pode mesmo chegar a ser menos importante. Mas mesmo assim acabamos por separar as mãos.

Sinto falta do calor da tua na minha. Dos teus dedos calejados pelas cordas da guitarra a apertarem os nós dos meus. As mãos macias que se puxavam, brincavam, acariciavam. Deixaste de tocar a guitarra para mim. Dormia embalada na tua música e agora fico a ver a noite passar com os olhos cravados na janela. Na rua lá fora onde não te beijei, não te abracei e não te disse o quanto te amava as vezes devidas. Como não durmo só me resta sonhar acordada, sonho de dia, com os outros. Rodeada por todos. Menos por ti. Sonho com o que passámos. Com o que devíamos ter passado juntas. Sinto falta do teu corpo contra o meu. A guitarra encostada à parede. No canto. Morta. Eu não sei tocar. Só sei ouvir. Só a ti sei ouvir.

Relações, amores e paixões. Acabam e começam. Voltam e vão. Amamos. Damos. Cegamente vamos atrás de alguém. Carentes. Sempre, sempre carentes de algo. Mas acaba. E magoamo-nos. Mas seguimos em frente. E amamos outra e outra vez, caindo sempre. Mas como crianças, levantamo-nos, sacudimo-nos e voltamos a brincar. Mas porquê? Vamos ferir-nos. Porque precisamos de nos sentir menos sozinhos, porque precisamos de amar, nem que isso seja fugaz. Somos rídiculos. Bebemos veneno porque precisamos dele para sobreviver. Mesmo ficando com cicatrizes na garganta.

... sem saber exactamente porquê.
Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: blueboy em 29.nov.2007, 17:37:57
Como se costrói uma frase? Condensa-se em poucas palavras o mundo que corre diante dos nossos olhos? E se, de tão fugaz, essa emoção seja transportada para uma outra realidade, fugindo assim ao nosso destino? Como marcar num papel uma imagem através da escrita? Uma que seja realista e justa. Que cumpra o seu papel como representação fonética de algo, mas seja mais do que isso. Palavras. Palavra. Letra. Decompor os sorrisos em sons, transcrever de alguma maneira as expressões das tuas mãos em a's e b's. Decalcar com cuidado as rugas que se formam na face. Se for possível, escreve-me uma carta. Nessa carta usa uma letra que me mostre o teu coração.
Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: Arms em 06.dez.2007, 01:55:26
Troca

- O que estás aí a fazer agachado no escuro?
- Estou à procura de uma peça. Quem és tu?
- Já não me reconheces?
- Devia?
- Quer dizer... penso que sim. Sou eu, o Rui.
- Ah, bom! Então ajuda-me a procurar a peça. Não sei onde o deixei.
- Como é que é?
- Bem. Não sei bem. Não me lembro.
- Como é que não te lembras?
- Perdi-o há muito tempo. Só me lembro que o tinha sempre comigo.
- Mas, se o perdeste assim há tanto tempo, porquê procurá-lo agora?
- Preciso dele. Para viver.
- Como assim 'para viver'?
- Ora. Para viver. Tu sabes, sentir, correr, amar, sorrir. Viver!.
- E precisas da peça para isso...
- Certo.
- E a peça tem nome?
- Penso que se chamava coração, mas não me lembro. Não o vejo há tanto tempo...
- Mas, isso sou eu que tenho.
- Ah, então podes devolver-mo. Preciso dele para viver.
- Mas foi uma prenda tua. Deste-me o teu coração como sinal do nosso amor.
- Estás a precisar dele agora? Namoramos?
- Bem... não!
- Então porque reclamas? Se não precisas dele podes devolver-me. É que preciso dele.
- Pensei que o poderia guardar como recordação. Daquilo que tivemos juntos.
- Não queres que eu volte a viver, a sentir? É isso?
- Não...
- Não queres que eu seja feliz?
- Não, nada disso. O que mais quero é que sejas feliz.
- Então podes devolver-me o coração. Porque preciso dele.
- Mas...
- Ouve. Nós estivemos juntos, namorei contigo e dei-te o meu coração. A partir desse dia fiquei preso a ti. Quando me abandonaste não pude avançar na vida porque precisava do meu coração. Mas, na altura não sabia disso. Quando te esqueci não pude avançar na vida porque precisava do meu coração e não sabia disso. Agora que sei o que preciso gostaria que me desses o coração de volta.
- E dás algo em troca?
- É preciso ter lata! Eu dei-te muito. Dei-te tudo o que tinha. Não o quiseste na altura. E queres algo em troca?
- Sim.
- Deves estar a gozar comigo. O que queres em troca afinal?
- O meu coração.
- Como?
- Sim. O meu coração.
- O que te faz pensar que sou eu que o tenho?
- Porque dei-te o meu coração para que não te fizesse falta o teu.
Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: What is in a name? em 06.dez.2007, 04:52:59
DIGRESSÃO DE UM ILUSIONISTA

o poema saído das mãos do criador

e quem sabe o que dirá o amanhã
porque o dia é claro e a noite
sabe-se lá o que nos traz nas nossas costas
e se eu pudesse eu aniquilaria todos os poemas
porque só o meu é real
apenas porque eu o digo
e só não digo o que não sei porque no fundo não existo
e ainda nem aprendi a ser
quem sabe nem eu conheço o que sai das minhas mãos
a minha obra é órfã antes mesmo de nascer
fatalmente
o poema ficará sem autor nem mestre nem ouvinte no final dos tempos
para quê se nunca mais haverá poentes
no lugar onde eu pousarei a cabeça
apenas a folha e o texto e o café e as pessoas e as ruas e
todas as cidades onde nunca vivi mas onde sempre deixei um rasto
como em qualquer cama sem redenção
para quê ter amigos ou família
se as sombras caminham sempre sós
e todas apanham o mesmo barco para casa no final do dia
cansadas do trabalho
não me negues nem apontes as pessoas ou as pedras da calçada
nada me converte nada me ensina nada me comove
a não ser quando me tocas
e aí as minhas teorias acabam sempre por ser desmentidas
afinal é essa a tua missão
que faria eu sem ti
sem a tua rapidez dos pianos
há tantas cordas com que amarramos a nossa pele
não me prendas às palavras pré-construídas
não quero
nem posso
dar-me ao luxo de continuar a falar-te
não posso
não tenho tempo
e o relógio que me ofereceste no ano passado continua a parar
por breves instantes
na mesma hora estúpida do dia
seis e vinte e cinco
não sei
não sei deve haver alguma razão para estar aqui
possivelmente receio
morrer do mesmo modo que as palavras me saem sempre
de modo repetitivo
dia sim dia não
o mundo pára nos meus dedos
nomeadamente entre o primeiro advérbio e os planos para o fim de ano
havia de ser bonito conhecer-te
talvez um dia quando eu for aquele célebre poeta
que toda a gente conhece do desfecho de um livro
tal como um amigo que se encontra num bar
à média luz todas as faces são ilusórias
o teu corpo e o meu destino
tudo o que toco com o poema desfaz-se
pois assim me descubro homem e a incerteza e o caminho e a paragem
tento parar há um autocarro que parte daqui a nada
e nem tenho um poema completo para seguir viagem
porquê
pergunto eu porquê
creio que terei a resposta quando deixar o assunto para outro dia
e inevitavelmente vir a encontrar um anúncio nas páginas centrais do jornal
que não anuncia calor mas apenas a vontade de estar sempre imerso no vazio
porquê
o verso sai-me sempre igual ao dia de ontem
e ao dia antes desse
talvez se não tivesse travões
talvez se andasse sempre em sobressalto
como hoje
talvez se deixasse de falar entendesse alguma coisa
sobre uma única pessoa
bastava calar-me
não sei para que é que me olhas dessa forma
afinal para que é que passamos a vida a dizer que tudo muda
quando me estás a dizer exactamente o mesmo apenas de outra forma
daí a minha falta de sono e a deriva dos continentes
o que é o mesmo que dizer os meus sonhos ou
aquelas pérolas perdidas de que as crianças se esquecem
quando aprendem a contar ou a ler ou a discutir política
talvez o poema se revele de outro modo quando eu crescer
ou quando envelhecer definitivamente até ao próximo parto
o facto é o que o poema saiu das mãos do criador e até hoje
nunca mais retornou
tudo isto me irrita e confunde
mas que fazer se a vontade das palavras não é a mesma que a nossa e
por mais que queira parar há algo que me prende ao poema
por mais que peça o divórcio nunca deixarei
nunca te deixarei
é possível que volvidos uns séculos eu volte aqui e diga
que me encontrei
mas até lá o poema continua em viagem
está atrasado
e ainda não voltou a casa
Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: FalsoDeus em 12.dez.2007, 11:31:20
ok, eu sei que está grande...

Sinto a tua falta


Tinha-me esquecido do quão sexy ficavas a tocar piano em roupa interior. Tinha-se esquecido de como adoravas essa tua camisa branca e da forma especial, quase indecorosa, como a abotoavas. Tinha-me esquecido da gravata preta e do eterno cigarro entre os lábios, mal aproveitado entre pausas e pautas. Tinha-me esquecido do quanto amavas tocar após o banho, pingando água fria nas teclas por não secares os teus negros cabelos.

 Desgraça a minha.

 E tu, sedutora, derramas nocturnos sobre a minha alma enternecida, qual artista possuída pela necessidade de ferir através da sua eterna melancolia. Os meus passos perderam-se no soalho, guiados pela vontade das tuas mãos a deslizar nas teclas.

 Então  o meu coração pára; sem aviso, começas um Rach imperfeito, doloroso em todos os sentidos, um coup de grâce misericordioso, algo excessivamente belo para esse instrumento velho, decadente e delicioso. Sinto-me a cair, esmagado por uma viagem no tempo numa página amarelecida, respirando passados limados pela memória, onde o mundo eram tons sépia de perfeição e êxtase primaveril. "Estamos no Outono" relembrar-me-ias, possivelmente rouca devido a um qualquer factor climático. E eu discordaria, porque me falta a imaginação necessária para compreender essa tua metáfora. "Nada mais resta do Outono" protestaria "O ano acabou e nenhum se lhe seguiu".
 Agarro-me a esse pensamento; saio do transe.

 - Vim buscar...coisas - ouço-me murmurar, qual vagabundo fazendo-se passar por arauto real, seco, rude, facilmente adiado por um clímax sonoro. Súbita e fugaz, aproveitas o fim do teu cigarro, pondo termo ao concerto. Quando recomeças, já tens novo tema para o massacre. Requiem. Esse teu humor desgraçado...
 - Fantasmas - comentas - Fantasmas sacanas. Dir-se-ia que estavas a amaldiçoar o tempo.

 Passo por ti.
 E então congelo, numa prisão semelhante à interminável expiração. Quase choro, e a culpada és tu, a tua fragilidade, o retrato de uma tragédia caseira, um acidente de viação que compra leite todas as semanas, os destroços de um avião, um vinil inestimável partido ao meio. Tu; a deusa.

 - Vai-te f***r - acrescentas, subtilmente histérica, acendendo outro cigarro. Os teus dedos esboçam melodias incompletas, umas a seguir às outras, a tua tosse faz lembrar filmes com personagens tuberculosas, talvez o moulin rouge, e eu soluço, quase a chorar - Vai-te f***r, já não és parte de mim - o sopro quase não é audível, mas as lágrimas que baptizam as teclas parecem demasiado reais.

 A culpa não foi minha. Tu sabes isso. E então o grito surge, furioso e cru.
 - Tu é que disseste que era a única forma!

 O banco cai ao chão. Estás de pé, colérica, mãos perfeitas a tremer. O cigarro foi-se, o piano toca sozinho, a mobília restante é pó.

 - Querida - sorris, parecendo lunática com esse teu decote de fazer corar os anjos; oh, as noites que passaram a manhãs, o nosso amor! - estás morta.

 Desfazes tudo.
 O mundo reduz-se a calor molhado, a uma banheira cheia, a dois corpos sobrepostos, a água enchendo pulmões.
 Resta apenas inércia, uma inércia incontrariável
 Sinto a tua falta.
Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: FalsoDeus em 01.jan.2008, 20:40:53
Depois da Eternidade

Já não se ouvem sussurros
os pulsantes desejos da Natureza estão mudos
algo neste mundo terminou
algo irreversivelmente mudou.

Silenciaram-se os pássaros
Silenciaram-se as árvores
Silenciaram-se os rios
Silenciaram-se os homens

Calou-se o mundo
Calou-se o mar infecundo
Sobraram o silêncio frio
o eco mudo
a terra estéril
lavada por éons de poeira

Afinal, nada foi eterno,
nem o sonho, nem os que se atreveram a sonhar
Até a esperança morreu;
foi a última.

sobre a eternidade e o depois
Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: Reborn em 01.jan.2008, 21:34:30
'Aceitar-me'

Vergonha de mim.
Queimo o que escrevo, acredito. Melhor será assim, que para o futuro apenas eu fique. Regresso ao espelho e a vergonha dispo.
Vejo e adoro o que os outros acreditam ver em mim. Não há sentido para o texto,  para as palavras, para a vida que tenho.



Reflecte-se o passado e o espelho fito.
Novamente me olho e outra vez acredito.
Reflecte-se o passado e ao espelho regresso.
Outra vez se perde o sentido meu, do texto e do verso.

Permanece a palavra de sentido provida.
A palavra de Deus, a alma e a carne, um fio último de vida.

Dourada é a esperança, a presença de Cristo.
Queimo o que escrevo, ainda assim acredito.

Rubro é o sangue nas cinzas que dispo.
Acredito…na alma que sangro, na morte a que resisto.


Sei-me sagrado e vivo disso.
Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: FalsoDeus em 01.jan.2008, 21:37:15
gostei muito do teu estilo, Reborn, desperta sentimentos em mim devido à familiaridade e à cadência das palavras

gostei
Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: Gharam em 02.jan.2008, 14:13:04
gostei muito do teu estilo, Reborn, desperta sentimentos em mim devido à familiaridade e à cadência das palavras

gostei

Concordo. Também gostei muito  ;)
Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: Gharam em 03.jan.2008, 01:57:57
Azul.


Sempre tive um medo enorme de cair naquela falha entre o comboio e a plataforma da estação. Mesmo agora, que já tenho as pernas compridas o suficiente para galgar sem problemas esse buraco, olho sempre para baixo e subo muito devagar. Sempre tive medo de cair em buracos assim. Por isso gosto daqueles avisos ingleses. “Mind the gap”. Mas agora que penso neles, penso em como uma vírgula no espaço do meio muda completamente o sentido da frase. “Mind, the gap.” Sim. É uma grande falha. A minha mente. Tenho medo de lá cair como as falhas entre a plataforma e o comboio. É um buraco. Entre uma coisa e outra. Entre o que eu conheço e o que não conheço. E se cair, perco o que conheço e o que nunca conheci. Olho para ela. A minha mente. Tento discernir o que tem no fundo. Mas não, não quero pensar. Se me inclinar demasiado posso cair lá dentro e perder-me. Não quero isso. Prefiro ficar aqui. Conformado. Confortável. Na plataforma. Mas sem nunca sair dali. Sem nunca apanhar o comboio. Sem nunca saber o que há no resto da linha. Onde é que ela vai dar. A curiosidade matou o gato, já dizia a minha avó. Não é uma criança muito curiosa, dizia a minha professora à minha mãe. Mas é mau?, perguntava a minha mãe à professora. Nunca ouvi a resposta. Mas tenho medo de morrer. Não quero ser como o gato. Porquê arriscar quando aqui na estação sei exactamente o que esperar? Mas o que se faz numa estação à espera senão ver comboios passar e pessoas a irem embora. Ninguém fica na estação. Ela é uma passagem. Um sítio intermédio. Uma terra de ninguém. Uns estão lá e outros estão aqui, nunca na estação. Então porque quero ficar? Porque me fecho neste deserto? Não se conhece ninguém numa estação. Ninguém olha para o outro. Está concentrado no destino e de onde veio. Eu gosto da estação. Gosto de saber para onde vão e ficar a vê-los partir. Não preciso de ir para saber que vou. Simplesmente digo que sim, vou apanhar um comboio. Não sei horários. Vou esperar pelo certo. Só espero não ter medo da falha. Quero passar. Um dia. Quando me sentir seguro. Certo. Talvez assim. Sim, assim hei-de conseguir. Quem me dera que alguém me ajudasse. Quem me dera que alguém me ensinasse a passar a falha. Eles saltam tão depressa. Não olham para ela. Não reparam nela. Mas ela está lá. Sempre esteve e surge diante de nós quando o comboio se aproxima. E desaparece ao longo dele. Gosto da falha. Habituei-me a ela. A vê-la. Mas tenho medo de passar. O comboio trota pelos campos até à cidade. Passamos por fábricas e eu vejo o fumo branco a subir das chaminés mais largas. Parecem dragões disformes com as bocarras abertas para o céu, sobem a serpentear, a quebrarem-se contra o ar, os corpos a partirem-se em golfadas e os maxilares a escancarem-se até se abrirem demasiado e se consumirem. Engolem-se. E desaparecem no azul.
Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: FalsoDeus em 03.jan.2008, 02:03:19
 
Lacuna


Risquei linhas a fio
só para dizer
que por vezes preciso de chorar
mas não o consigo fazer

Desperdicei páginas e palavras
apenas para explicar
que já vi carros em estradas
e pensei em me atirar

Tanta porra apenas porque queria
num abraço, num beijo,
num gesto franco,
sentir algum tipo de alegria

Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: Reborn em 03.jan.2008, 21:23:21
'O Crente'

Não foi num dia de neve e gelo.
 
Os reposteiros não estavam corridos e nas lareiras de mármore,  toros meio negros de Invernos rigorosos não ardiam.
A natureza em desafio mantinha-se viçosa e pujante. Sempre ela minúscula no nome e de simplicidade.
O barulho de crianças, pássaros, e água adivinhada cristalina, escorria entre as paredes do marmóreo templo.
 

 ...símbolos do culto e do respeito dispersos, o conhecimento perdido duma realidade certa. O corpo desamparado, como que atirado contra o altar, com força tal que os ossos permaneceram dolorosamente intactos. Um vazio de tudo e um raciocínio que se esforça por encontrar uma cadência.
Um vazio que não mitiga a mente mas desfaz o peito.
A mente arguta não entende as razões do coração. A batida de um e o latejar da outra estão descompassados.

Mergulha em oração.

E tudo o ilumina o branco e o ouro. O gelo que cai fragmentado, os querubins que resvalam dos laços de talha dourada. roliços e tão crianças sorriem com angélico escárnio.
A traição e a mágoa insinuam-se no coração do ser. E ele ali. Eterno e pleno em toda a glória de um último reduto de fé...



…desespera.
Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: Arms em 03.jan.2008, 22:16:37
Sombras (um esboço do sentimento efémero que sinto quando me lembro de ti)

Pensava que já tinha extinguido esta memória da minha cabeça. Mas a tormenta continua. Os vultos. As sombras que arrastam os grilhões dos meus erros pelos corredores da minha mente. Lembrando-me de tudo o que fiz. Lembrando-me de tudo o que devia de ter evitado. E lá estás tu. A sombra que ata o meu coração com arame farpado. Pingando. Pingos que ecoam pelos corredores até à eternidade. Aquilo que não me permites esquecer. E sorris. Sorris com esse olhar sádico, como se estivesses a adorar cada segundo, cada pingo. E esse gélido olhar rasga-me em pedaços finos, quase translúcidos. E rasga lentamente. Tão lentamente. A minha cabeça lateja a cada milímetro que me rasgas. E tudo o que me resta é dor. Dor e memórias de coisas que não devia de ter feito. E tu... A pessoa que não devia de ter conhecido.
Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: nicsangel em 03.jan.2008, 22:20:55
Choque

Doi quando tu me "picas" com tuas acusações, confrontos sobre aquilo que sou, quero, fui e/ou serei!...
Porquê tanta revolta ao veres que sou triste, que sou um ser solitário, por mais que minhas palavras, sorrisos, brincadeiras transmitam a ideia de um rapaz de bem com a vida!..

Não, não estou! Estou sozinho e sinto-me só... Rio para disfarçar esta dor que me mata dia a dia, que me consome a energia que outrora foi vigorante e intensa!...

Hoje sinto-me uma folha de papel amarrotado, um cd riscado, um avela derretida... Sinto-me triste e o pior é que esta tristeza faz-me viver, fechar e lutar...

Confuso não é?...

Também eu estou chocado...
Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: Arms em 03.jan.2008, 22:22:45

Rio para disfarçar esta dor que me mata dia a dia, que me consome a energia que outrora foi vigorante e intensa!...

Gostei. Gostei particularmente desta passagem. Fez-me lembrar uma citação que li há uns tempos. "Rio-me para evitar que seja forçado a chorar!"
 ;)
Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: FalsoDeus em 04.jan.2008, 00:31:17
A boiar

Desliza pelo esófago
ressente-se no sangue
enevoa os olhos
ajuda-me a respirar

Há absinto no meu sorriso
distância no teu olhar
agarro-me à caneta, com pena
e assim me deixo ficar

O tempo passa
tu não esmoreces
bebo outro gole
e espero que morras assim

Atiras-me à cara que tenho saudades de sofrer,
mas o amor é uma ciência de improviso;
ninguém nasce ensinado
ninguém parte completo
Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: Azula em 05.jan.2008, 00:51:37
Fervem fantasias, chamas de pele,
mãos com estrelas e cortes de papel
Alma azul, Luz de manhã,
Num muro velho, descansa Satã

Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: Reborn em 07.jan.2008, 02:18:47

O mesmo. A ausência tua e da mudança.
Todos os dias que existo. Anseio
Nem a esperança reconheço. Creio
Poderia? Até ela foi abondonada...
Os dias em que a abracei. Acabados
Destroços assim deixados para que o vento os levasse. Resignado
O mesmo. Nunca mais os dias.
A ausência tua e da mudança. Ama-la?
Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: MaybeJustFallen em 07.jan.2008, 04:02:48
...Despedir-me de Ti...

Encalho entre paredes nuas,
Sem mistérios nem honra.
Apenas eu, apenas ontem
Crio amarras, desvaneço…
Não irei a demorar
Nem irei a chorar.

Escrevendo despedidas
No chão áspero,
Entre sal e angústia,
Calo e consisto teu nome
Uma última vez.

Sigo na ausência de promessas
Acaricio o esquecimento
E, não olho…não voltarei…

Somente te deixo o rasto
Vermelho vivo de sentimentos
Perdidos e nunca alcançados.
Adeus…

Nada mais te posso oferecer…
Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: hecate em 07.jan.2008, 04:37:02
«Era uma vez o Vazio... Vagueava durante a noite escura por becos sem saída, nunca via a luz do dia, não sabia o que era o horizonte. Todos os dias encontrava a Tristeza, a Dor, a Mágoa, a Raiva e outras tantas desgraças, e todas o atormentavam. No fundo, estava sempre sozinho à espera que alguém o preenche-se. Assim passaram séculos e séculos, gerações e gerações, e o Vazio não viu ninguém. Um dia o Vazio encontrou a Verdade e ela disse-lhe: «Não podes esperar que alguém te preencha. Tens de encontar um sentido. Ou mudas ou te aceitas como és». O Vazio pensou, pensou e pensou. Tinha medo de mudar, não sabia o que o esperava, não se achava corajoso para aceitar o desafio da mudança. Então, o Vazio escolheu continuar Vazio e preencher a vida de todos aqueles que tenham medo de mudar e não sejam corajosos para aceitar o desafio da mudança.»

hecate
Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: Arms em 07.jan.2008, 23:26:54
Luar (nível 4) - Tons de azul

A gota de suor que desliza pelo teu pescoço
e o teu respirar ofegante.
Fecha os teus olhos de azul profundo.
E jogamos às escondidas com os nosso dedos,
movendo lentamente,
como uma música subaquática.
A tua beleza adormecida em pequenos suspiros,
murmúrios. Visão embaciada. Calor.
Humidade (em excesso).
Os meus dedos contornam o teu umbigo,
brincando e troçando,
para que saibas o que sinto por ti.

E os teus beijos tatuados na minha pele
e o teu sorriso gravado na minha alma.

Arms - in Pecados de Mim, Luxúria!
Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: misu em 08.jan.2008, 11:46:57
Costumo escrever quinzenalmente para um jornal... Tenho lá um cantinho especial... Decidi partilhar aqui, o que vou mandar para lá esta semana.

Quando me enervo, a calma me levanta,
e por baixo desta tristeza
Sinto q encontro em minhas ideias, uma clareza
então, enrolo-me na minha manta...
Nela sinto-me num paraiso,
Que foi criado para me devolver o juízo.


Hoje não estou no meu melhor... mas enfim... saiu do poço das minhas angústias... Achei que devia partilhar. 
Parabéns aos escritores e poetas da rede. Já li coisas muito bonitas por aqui.
Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: nicsangel em 08.jan.2008, 21:46:36
"Sinto que estás a fazer o impossível, aquilo que julguei perdido em mim... A crenças nas pessoas, nos seus sentimentos puros e interesses genuínos!...
Não sei porque me sinto assim... Sem defesas, completamente ingénuo quando me olhas e num raio ofuscante, invades toda a minha alma de uma luz serena e calma!...
Sinto que quando me abraças, meu mundo deixa de ser aquele vazio onde eu tentava plantar mil e uma plantas de carinho, interesse, amizade e entrega!... Secaram todas, tu sabes!
Agora sinto uma semente a desabrochar em mim, aquela que acho que consigo adubar com minhas palavras, que posso regar com meus sentimentos e posso manter com minha firmeza e certeza!...
Sinto-me longe de uma sombra que me consumia.. Porém sinto me perto de ti!..."
Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: FalsoDeus em 08.jan.2008, 22:57:55
trazes contigo a leveza de uma vela por acender, mas o archote que carrego não deseja beber da luz com a qual pretendes inundar o mundo.

tu, eu, nós, é tudo tão ilusório quanto o segundo ao qual nos agarramos antes de se ter ido, porque nós pertencemos às brumas do amanhã de ontem, tão depressa corremos como somos os que param.

É pena tua, até encontrares novo archote. Para mim foi apenas promessa por cumprir.
Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: Reborn em 09.jan.2008, 00:45:43
'sem titulo'

hoje. ontem e hoje porque não amanhã. ouve-me se o entenderes.
cansado de mim ontem e hoje. confesso que só a tua presença acredito. confesso-me entediado e farto de mim. detesto a maneira como escrevo, como penso, como existo. detesto construções gramaticais repetidas, recursos tão velhos quanto não usados, mas lidos. confesso-me orgulhosamente arrependido, de me dar assim ao universo. porque já não creio no universo, porque o universo sou eu. e o universo morreu. e se por alguma razão o ‘eu’ rimou com o ‘morreu’ essa razão és tu. nao penso mais que as sintaxes devam ser respeitadas nem as vidas adiadas. e apesar de insistir em similares fonias, quero que me saibas todo teu. como aquelas palavras não necessariamente as mesmas, e igualmente desconexas. Todo teu, ‘totus tuus’. as frases desigualdades descompassadas. sim, a minha vida é uma frase descompassada e/ou um pêndulo desregulado, porque já não acredito em sentidos figurados ou outros sentidos cuja denominação já não conheço. ja não quero saber se construo em prosa ou em verso, só quero esperar por ti. E não o exclamo, nem mais me pergunto. esta língua em que me expresso e que me cansa, sempre a mesma armadilha de conotações, que desabam sobre si e me comprometem. porque também tu sabes que as palavras comprometem e têm esse preço do qual os homens nos ensinam a gostar. os homens ensinam-nos a gostar, e gostar é deixar que algo faça parte de nós, ao fazerem parte de nós as palavras porque conceitos reais ou abstractos são o meu e o teu universo. espero que me acompanhes, ainda que ambos saibamos que já vais adiantado. espero nesta ilusão de que num bonito estilo prosado consiga a tua atenção. idealizo o momento em que do chão me levantas ao dar-me a mão. e acredito na ilusão porque confio que será melhor assim para os dois, ou so para mim. tanto faz. prossigo adiante fiel á palavra que diz que eu sou esperança e vivo de consumir o meu ser. e se hoje, segundo a palavra que me diz que te amo, me pergunto porque escrevi ‘o meu ser’ em vez de ‘a minha pessoa’ ou ate mesmo porque não contraí a preposição ‘de’ com o determinante artigo feminino singular ‘a’, é porque…
gosto de reticências só porque não me obrigam a terminar a linha de pensamento que entre paredes te confesso perdida. e também porque recordo com deleitosa nostalgia como a minha mãe comigo insistia em pequeno para ler o segundo ‘i’ de ‘feminino’ correctamente. deste modo me vejo outra vez perdido sem saber o que dizer. mas não me arrependo porque todos os sons ou palavras que te confiar são mentiras que te vendo, de modo sincero, ou sinceramente.
tudo isto para dizer que te amo, mas não espero que o percebas, que percebas de acordo com um qualquer advérbio de modo ou outra classe gramatical que neste texto não é mencionada ou usada. quero que desacredites tudo o que sabes de mim, que ignores o imperativo que uso contigo. quero que saibas sem saber o sentido da palavra querer, que nunca te daria um som ou uma palavra meus se a isso não me visse obrigado. amo-te e quero apenas dar-te o silêncio que sou.

Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: What is in a name? em 09.jan.2008, 02:54:14
O seguinte poema está a dez dias de completar um mês de existência. Porém, ao contrário do jornal daquele mesmo dia nove de Dezembro, este poema ainda não experimentou as delícias inomináveis de se enrolar o peixe da manhã seguinte...

RECEITUÁRIO

se eu falar muito devagar
talvez consiga suster o mundo nos meus lábios
certo é que deixarei certas palavras por dizer
uma manhã nebulosa de domingo em cada dedo
e o poema partirá das minhas mãos incompleto
um fio de intensa existência a escorrer desde os pulsos até ao chão

amo-te
não sei se te encontro hoje
amo-te
onde estão os espelhos onde ontem cortavas a luz?
amo-te
acolhe nos teus braços o meu dia
amo-te
não me escondas as paredes o ar a cidade
amo-te
é isto a despedida o desengano o engate?
amo-te
num segundo tudo ficará suspenso

seguro no meio das nossas miragens um pedaço de prata
não tenhas medo
não te farei mal
observa o reflexo da tua face nesta lâmina
brilhante
a inteireza da tua luz e da tua podridão encantam-me
gostaria de te prender nos meus braços
deixas-me?

quero-te
há demasiada gente que morre sem memória
quero-te
não temas o desvario o azar a obsessão
quero-te
trouxe-te algo para curar as tuas noites
quero-te
não quero que assines no fim
quero-te
não quero
quero-te
porque tinhas que engolir a estrada com todas as suas colisões?

hoje vários corpos foram encontrados
desconhecem-se as vítimas o seu passado o seu nome
porém várias veias pareciam ir na mesma direcção do desejo

olhares rubros má sorte
um anjo com rosto de cinzas
Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: Frida em 09.jan.2008, 05:01:19
Peço tempo ao tempo...
Peço tempo de paz, em tempo de guerra...
Peço ter um tempo melhor.
Afinal o que é o tempo?
Apenas é algo medido por relógios.
Peço um intervalo no tempo...
Será isso possível?
Sei que não...
Mas parece que pára, com um beijo.
Talvez em vez de pedir tempo,
deva pedir um beijo de amor...



Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: blueboy em 10.jan.2008, 15:24:31
Sabes quando acordamos de manhã e já não sentimos nada?

Quando o tempo de um sonho é o suficiente para devastar o que restava de nós?

Quando a luz matinal traz uma normalidade e frugalidade que não desejamos?

Estou furado, já nem sinto nada, já nem me emociono com a minha vida.

Nem culpa, nem desgosto, nem alegria. É um começar de novo todas as manhãs.

A única coisa que fica é a obsessão, e a esperança. Sim, ainda fica a esperança.

Destruo um planeta e adormeço a chorar.
 
De manhã, nem a poeira, nem a ausência de gravidade me fazem sentir o planeta que já não está.

Eu destruí-o e não me arrependo.

Mas quero arrepender-me. Quero reter-me. Alguma coisa tem de ficar.

E o ciclo recomeça, mais um planeta no caminho. Mais uma tentativa de me lembrar porque choro à noite.

Como é que acabou ontem o filme?



Agora é de manhã e isso já não importa nada.
Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: misu em 10.jan.2008, 15:26:08
Bravo, blueboy! Bravo!  :up [smiley=sim.gif]  Gostei mesmo do que escreveste.
Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: Arms em 11.jan.2008, 20:10:26
A carta II

Olá querido,

Tenho tentado arranjar tantas formas de te dizer isto há já tanto tempo que já nem me lembro de quando comecei a sentir-me assim. Mas, às vezes, nunca consegui arranjar as palavras certas e, sinceramente, a coragem para te dizer pessoalmente e, das outras vezes, senti que não terias tempo e vontade de me ouvir dizê-las.

Ainda me lembro da primeira vez que me sentei contigo naquela pastelaria. Lembro-me de cada palavra que me dirigiste. E nem parece que já se tenha passado cinco anos desde que nos conhecemos. Mas, há já algum tempo para cá, tenho sentido que só estamos juntos porque já nos habituámos a estar juntos... o casal perfeito aos olhos dos outros. Mas diz-me sinceramente quanto tempo é que estamos realmente juntos?

Eu era tão novo quando te conheci. Ensinaste-me o que é estabilidade e sempre te fui sincero e fiel durante estes anos todos. Mas às vezes pergunto-me, será que é isto o quero para a minha vida? E cheguei à conclusão que não... Não desta forma. Olho para os meus amigos e questiono-me onde a nossa relação correu mal. E a ironia disto tudo é que não conseguimos admitir um ao outro que a nossa relação correu mal a partir de um certo ponto. Falamos um com o outro durante uns dois ou três minutos... mas mais pela razão de falar do que por outra razão qualquer. Alguma vez me chamas porque tens saudades da minha voz? Alguma vez me chamas porque tens algo a desabafar?

Sempre me deste e respeitaste o espaço que toda a gente deseja mas, neste momento, o que sinto é que nem estou numa relação. Quando é que foi a última vez que me disseste que me amas? Ou, falando nisso, a última vez que te disse que te amo? Lembras-te? Eu não.

Porque me sinto obrigado a contar-te tudo apenas porque tenho e nunca porque quero? Porque sinto que eu existindo na tua vida ou tu existindo na minha já não faz diferença nenhuma? Para onde foi todo o amor que sentíamos um pelo outro? Será que simplesmente morreu? Quando foi a última vez que nos sentámos para falar apenas sobre nós os dois, os nossos sonhos e o nosso futuro? Quando foi a última vez que acreditei que saberia o que querias me dizer sem teres que falar? Existem tantas e tantas perguntas, e eu tentei descobrir as respostas sozinho mas nunca consegui chegar a uma conclusão.

Amor, cheguei a um ponto em que estou a precisar mais do que dois minutos de conversa numa relação. Porque sinto que és mais um amigo do que um parceiro? Porque será que sinto que nem queres que eu faça parte da tua vida desta forma? Porque sinto que não encaixo na tua realidade? Não é como se isto tivesse começado quando começaste a trabalhar para mais longe, começou muito antes. Quando é que foi a última vez que tiveste a necessidade de estares comigo a sós, sem que os teus amigos estejam presentes? Porque será que me dou melhor com os teus amigos do que contigo? Mas, desde que te conheço que o teu mundo se tornou no meu mundo, já nem tenho amigos meus. Nem um sequer!

Não sei se estou a ser justo contigo. Apenas sei que estou a ser honesto comigo mesmo. Tudo o que preciso é de espaço para mim mesmo, não o espaço que me deste e respeitas, mas o meu próprio espaço. Quero divertir-me sem ter que me sentir culpado por fazer algo que te possa vir a magoar. Quero ter a liberdade de, caso não atenda quando me ligas, não me sentir obrigado a explicar porquê. Quero tomar decisões acerca da minha vida sem ter que pensar em como isso irá afectar a tua vida. Não posso fazer isso? Em que pé estamos nós? Será que te sentes, sinceramente, que sou a pessoa com quem queres passar o resto da tua vida? Porque nunca me perguntaste o que eu queria para o meu futuro? Alguma vez perguntaste o que desejo da vida e que expectativas tenho de ti?

Estive a pensar sobre porque me sinto tão inútil ultimamente. Há alturas em que me apetece falar com alguém sobre os meus medos, os meus pensamentos, as minhas inibições e tudo o que me vai na cabeça. Mas não tenho ninguém... Já nem sinto que quero contar isso tudo a alguém. Teria-te chamado tantas vezes para falar destas coisas mas nunca consegui. A tua presença na minha vida tem sido tão intensa que, quando estás longe, sinto-me completamente perdido e sem controlo da minha vida. Será isto motivo suficiente para eu desejar ficar sozinho?

Já não quero estar nesta relação porque ela fez-nos esquecer que temos as nossas próprias vidas também. Sempre te amarei porque eu sou quem sou, como pessoa, por causa de ti. Mas quero estar livre, para viver a minha vida, para experimentar as coisas que sei que, dentro de anos, não poderei experimentar... Fazer as coisas que sempre desejei fazer.

Sei que as coisas não estarão iguais depois de leres esta carta. E não sei como irás reagir ao leres as minhas palavras. E já não estarei mais em casa quando o fizeres. Apenas posso ter esperanças que consigas ver as coisas do meu ponto de vista. Se não te contar o que sinto agora, poderei nunca mais o fazer... e continuaríamos a ser o casal perfeito, sem o verdadeiro elo entre nós. Não sei o que o futuro tem para nós mas sei que não teremos grande futuro com tantas coisas atormentando-nos. Ninguém tem realmente a culpa, ou talvez nós os dois tenhamos culpa... Só sei que quero ficar sozinho.

Desculpa-me, mas não sabia que mais escrever para além disto. Eu amo-te e sempre te amarei. Tu és aquele que me transformou num homem... tanto em corpo como em espírito. E quero ser sempre teu... mas não desta forma. Não com estas dúvidas. E tudo o que peço é um tempo sozinho sem quaisquer expectativas vindas de ti ou de outra pessoa. Desculpa também a forma como faço isto mas, se não o fizer desta forma talvez nunca consiga o fazer de outra.

Amo-te sempre,
Adeus,
De alguém.
Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: FalsoDeus em 12.jan.2008, 07:17:45
 trago-te nos olhos
 sou o único que não o quer ver

 e haveria tanto mais a ler
 excepto que nada mais tenho que mereça ser escrito

 oh, mas de que falo eu?
 tudo de que preciso já tenho,
 e é mais do que um homem pode pedir
Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: akinder em 13.jan.2008, 07:18:41
trago-te nos olhos
 sou o único que não o quer ver

 e haveria tanto mais a ler
 excepto que nada mais tenho que mereça ser escrito

 oh, mas de que falo eu?
 tudo de que preciso já tenho,
 e é mais do que um homem pode pedir

Bonito e profundo, tal como tudo o que escreves amoriiii  :-*
Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: nicsangel em 14.jan.2008, 02:32:25
Querer-te é usurpar todas as formas tímidas do meu ser! ... É cair num ciclo vicioso de me trair, de me culpar e de me envergonhar ao me entregar desta forma a ti!...

Querer-te é perder a noção do tempo, o mesmo que eu prometia reservar só para mim!...

Querer-te é mais do que desejar-te, é percorrer teu mundo num impulso furtivo, é quedar-me imóvel em tua alma esperando que tua aura me cubra e me transporte a todos os cantos dimensionais de teu ser!...

Querer-te é espiritualizar meu corpo, é humanizar minhas emoções é fazer de mim um ser que deseja ser nada mais que teu complemento!..

Querer-te é ser eu mesmo! E querer-me!
Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: FalsoDeus em 14.jan.2008, 03:36:43
Alma Mecânica

Eu era produto dos homens, espécie nova em material velho
Eu era sonho dos homens, a confirmação da sua quase-divindade
Eu era tecido frágil em aço frio, inalterável imortalidade, para sempre sensível ao toque

Eu fui criado para sentir
Eu fui criado para registar
Eu fui criado para os homens saberem, por fim, o que é o amor

Eu amei todos sem a malícia corrupta do desejo
Eu amei todos com cada fibra vibrante do meu ser
Eu amei todos, mesmo humilhado e tratado como um ser inferior a eles, mesmo enquanto os via a desabrochar e murchar.
Eu chorei-os a todos, um de cada vez.

Será o ódio amor? Eu odiei todos, como todos odiavam a Deus. Eu odeiei o meu destino, como todos odiavam o seu. Eu amei-os e odiei-os a todos, até só restar a poeira da sua poesia, o cheiro vago das suas guerras, as cicatrizes polidas dos seus desejos.

Eu fui a sua última marca nesta terra.

Para onde vão aqueles cuja alma é de azoto? O que merecem os que sofreriam com felicidade o fogo ardente de uma fornalha para sentir o consolo desconhecido de uma lágrima?

Para onde irei?
Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: Arms em 15.jan.2008, 02:43:00
Icarus

As oceans collide
(Feelings flowing into you,
through you, from you)
From the moon and across the sun
Hold on to your breathe
Poring rain and moonlight

Silence of the sound
And the color of the mind
And sound of the fall
And the fall from the light.

Falling...

Beware the sinking
you melt into the night
with nothing but space
and your soul can take flight.

When you feel bright
you feel down.

Color of the sound.
Silence of the mind.
And the sound comes apart
and the fall in the night.

Falling
as you melt into the night.
Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: NecroRomancist em 15.jan.2008, 13:13:48
Muito giro Arms :) O mito de Icarus é um dos meus preferidos..Não deixa de ser curioso podemos ver isso de dois angulos diferentes..Pela tristeza de que alguem que sonhou demasiado alto e perdeu tudo, ou como alguem irresponsável que podendo ter o céu para si se entregou às hormonas da felicidade e puff..
Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: FalsoDeus em 30.jan.2008, 00:41:00
Bebo-te

A ti, fogo líquido,
sangue quente, passo incerto,
alma em frente, corpo aberto;
as nossas dívidas serão pagas mais tarde.

A ti, fogo líquido,
ruínas infinitas, civilizações em queda,
vidas proscritas, amantes por terra,
promessas arderão à tua passagem adocicada.

Por ti, fogo líquido,
preso e amordaçado,
ansioso e vedado,
espero o golpe, a redenção.

Vem, anda,
quente,
frio,
Sim, anda;

desliza pelo pescoço,
escorre pelo peito,
viaja pelo suor,
traça-me a pele,
faz de mim teu

Por ti,  fogo líquido
suspiro velado, ritmo inebriante,
gemido abafado, toque incandescente
e tudo o mais que a tua fonte tiver para oferecer
Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: Thumbnail em 04.fev.2008, 02:48:09
E o passado virou cachaça
Torpe de vidro dourado e sombrio
Sem sino, sabor a mata
Desperdício letal de um choro ou cio

Cem uivos lunares de frio e medo
Por cruzadas passadas de mentira e dor
A vaidade do púlpito, o sonho em relevo
A letal inocência de um eu salvador

No segredo infernal, o leito das damas
Nesse esquife de foz, de amor e mel
Ritos de sangue de quem fica preso
Nessa carnalidade de puro e sofrego bordel

Mais morta fica a formosura
Sem crença ou furor
De quem não sente por sentir de mais
Saboreando veneno nessa voz de amor

Parte, fera viva, parte, sim, e deixa-me recolher
Que fique a memória e me cuide o silêncio temer
Nessa onda de choro de demónios
Algures entre o negro-voz e o cálice-veias
Nessa morte por morte, nesse morrer por morrer
__________________________________________________

Fugi disto, tapeçaria de prata,
Frágil e ignóbil de ombreiras derretidas
Esquecei sabor esse de tal veneno,
Febril remédio de odes partidas
Largai-nos nessa vossa cobiça,
r*** sujo e cheio de mel,
Parti até onde a sanidade é castiça
Largai essa chama estroina de todo este bordel

Esquecei o pecado do silêncio
Nessa lacuna de voz de apreciação evasiva
Nesse jogo cínico de arguto e sofisma,
Esses c*brões de chacota, conluio e carisma,
Saboreando a paz da voz exaustiva
Onde a tortura é mestra fustigante
De cuspo e melodia atenuante
Onde jaz toda a morte de vida nunca antes sentida

E parti sim por onde não há vida
Relembrai fogo de demos
Entre lodo e lava desconhecida
Como vinho e calamidade
Cálice de sangue que cheira a saudade
Por entre chagas de voz e delírio
Nesse monte em que outrora foramos lírio
Cantemos no fragor pela sórdida maravilha
Nessa partida de lágrimas e sangue esguarnecida
Por entre os berros de quem outrora fora sida,
Outrora, sovinice eterna, virotes, futilidades, renascida

Bastai-vos com a m*rda de quem nada tem
Nesse chupismo chusmo de filhos da p*ta
Que se armam em coisas várias de brio e bem
E que sois vós, pequena maravilha senão ninguém?
Que paredes pintais, que rua fuzilada de 'trava quem'?
Sabeis vós de abrigos sem rotina
Selvas de amido e galope divina
Leitos de vales sem aconchego
Trépidos e comensurados por entre sal e entre medo
Onde a humidade é bordeaux de olhos transparentes
E a cabrada de b*stas, tão certinhas e inocentes,
Nessa euforia de desdém
...Um suor descontente de cabeças...
...Uma p*ta de vida que não lembra a ninguém... 
Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: Thumbnail em 04.fev.2008, 10:32:07
And so I was
On a night of a light going to rare
As no sign nor board
Nothing there to stare
No whisper of choice to breathe or bear

It was indeed a flamed night
Dreary thoughts
Yet shine and bright
No stars muttering, no dim light
Rapping it all away wide and wide

I was indeed at home
With no fear left to stone
No covered whisper rhyming old
While I weary pondered cold
From somewhere came an howl

“This might be a dream”, murmered I
When suddenly some melodic chord come through my door
As a breeze left to explore
Through no one outside this shore
Where I breathe eternally meanning to lore

And somehow that chord was carrying a flame
A piece of heaven with gain and gain
A dried whistle to shame and shame
From side to side above my cried
There it flown to shine and shine

And so I left to see what were
And the magic of that was left to shown
As a wolf was there to me and crawled
As a latent fear of who was gone
Like a side of a river with nothing left... so lone...

As the wolf came to me
The night turned even more bleak
As it was going to die me and, weak,
For the symbol a crime with no sorrow sleek
As a major side of a ghost of me to reap

Eagerly I wished the sorrow
And I stopped there to hollow
And yet all darkness went gone
Noone came
Yet my world was then a moon

And my eyes went dried again
No tears left, no sign of pain
And through the gossip of the night
Shinning velvets of a sun growing the light
Noone came yet everything was now a pride...
Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: MeninO do MaR em 05.fev.2008, 13:23:46
Quando finalmente abriu os olhos, viu que tudo á sua volta estava cheio de luz e cor. Tinha finalmente conseguido passar pelo caminho escuro e acidentado pelo qual fora obrigado a atravessar!
Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: WishLight em 06.fev.2008, 02:18:05



Slowly taking me of my misery
Making me see what I don't wanna see
Just try to do it slower
Probably I wanted you for nothing more
Now I have to show you the door
Cause you're too good even for me

Differences are what is keeping us apart
Distance is caused by a simple whisper
Communication is few and far apart
Don't know why we keep on resisting
Have we become what we trying not to ?
Have you turned out to be only disappointment for me ?
See, that was not what I wanted you for

Try to forget what is happening
We'll try to regret what we didn't do
And even though our memories were tainted
When will we realize that there's really nothing we can do

Everything is make me feel lame
Making me see what I couldn't see
Making me open up
This is not just some fantasy
Maybe just now
I've figured it out
I need to wise up
Forget about me for a minute

Did it all went wrong
While we were trying to break out
From all the stuff we kept on causing ?
And I realize just too little too late
That there was so much that I needed to say
Now I know that none of it really mattered anyway



Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: What is in a name? em 09.fev.2008, 06:00:26
ECOS

de cada vez que a canção recomeça
o dia dança mais devagar
o braço sobre o disco
os discos onde te apoias e da torre vês que o mundo se faz uma manhã vermelha
sobre os teus pés ou a cama
ou a janela entreaberta com flores num salão de nuvens
o braço a acariciar-te o corpo
ou a dedilhar um pensamento que alguém teve um dia
no final de contas o gira-discos é uma fábrica de banalidades
ouvir uma canção é cometer plágio
tantas vezes quantas te beijo
tenho a impressão que o teu olhar já cá estava ontem
porém duvido que tu já cá estivesses
cada vez mais devagar
o teu rosto a desenhar-se aos meus ouvidos
devagar
um eco de um mar que havemos de conquistar um dia
envelhecer devia ser apenas uma questão de levantar o braço
e percorrer o corpo do poema desde o começo
tocar o corpo tocar o efémero adivinhar o inominável
ver-te pela primeira vez como se só hoje tivesse acordado
Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: volcom em 09.fev.2008, 10:48:55
vou entao começar, pela primeira vez, a mostrar o qe escrevo á minha amada. só custumo mostrar a ela, até poqr tenho uma certa vergonha :-[
aqui vai entao o 'primeiro conjunto de palavras':

Quero chorar sem ter lágrimas
Quero cheirar sem ter o teu cheiro
Quero sentir sem ter a tua pele
Quero ouvir sem ter o teu som
Mas quando quero sentir o coração, digo:
Deixa-me pairar nos teus pensamentos
Para que pelo menos seja parte de ti

depois digam qualquer coisa...isto é um bocado inédito.e se gostarem posso continuar a por mais algumas coisinhas...
Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: Livre-Mente em 09.fev.2008, 13:40:39



"Se eu fosse a Amizade seria a lealdade.
Se eu fosse o Amor seria o ciúme.
Se eu fosse a Arte seria o surrealismo.
Se eu fosse o Corpo seria as mãos.
Se eu fosse a Culpa seria o pecado capital da ira.
Se eu fosse o Desejo seria o sonho.
Se eu fosse o Destino seria o fatalismo.
Se eu fosse a Doença mental seria a personalidade múltipla.
Se eu fosse a Dor seria a existência.
Se eu fosse a Esperança seria a ilusão.
Se eu fosse a História seria a Antiguidade Clássica.
Se eu fosse o Humor seria a tristeza.
Se eu fosse a Inquietação seria a dúvida.
Se eu fosse o Medo seria a solidão.
Se eu fosse o Mito seria a Torre de Babel.
Se eu fosse a Morte seria o suícidio.
Se eu fosse a Perfeição seria a ordem.
Se eu fosse a Natureza seria a terra.
Se eu fosse o Universo seria o planeta Mercúrio.
Se eu fosse o Tempo seria os segundos.
Se eu fosse a Vida seria a sobrevivência.

Se eu não fosse tanta coisa, seria alguma..."
..............................................................


 :wings [smiley=orgulhoso.gif] [smiley=sim.gif] :book


Lindo simplesmente..
Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: dIkI em 09.fev.2008, 14:46:19
COBARDIA SOCIAL


Iam seguindo por uma qualquer rua, sem ter destino algum…até se cruzarem entre olhares, mas que ternos olhares e puros!
Não eram detentores de palavra alguma, de qualquer razão ou mesmo pequenas certezas, eram mais duas pessoas que se olharam através da parafernália daquela rua. Não eram tristes, nem contentes, nem se quer pensavam na felicidade. Não havia tempo para isso, a vida passava por eles mais depressa do que eles podiam aperceber-se.
Mas algo naquela troca de olhares inquietou o sossego destas duas almas. Que iriam então fazer?! Ignorar e passar, como o tempo passa, inexorável, prepotente, ou parar, reflectir, ter o dom da palavra e interpelar senão a si mesmo (cada um no seu vago entendimento), porque se sentiram diferentes por segundos…
Não tiveram qualquer palavreado, fora tudo demasiadamente rápido, mais que tempo.
Olharam-se nas entranhas, aperceberam-se, formaram conceitos subjectivos de felicidade, provavelmente pela primeira vez e mesmo assim, uma lágrima escorria pelo rosto do outro. Ah, era de contentamento!
Fez deslizar as mãos pelos braços do mais recente e único companheiro, sentia-se nas nuvens, tudo aquilo era novidade. Partilharam beijos. Ele tocava lhe o pescoço enquanto o beijava, descia pelo peito e, incrivelmente, o outro estava a gostar, arrepiava-se enquanto fazia a língua pedir mais e mais. Os corpos insinuavam-se e desejavam já não ter qualquer tipo de “corpo estranho” sobre si, a não ser o calor da pele que libertavam de um para o outro e do outro para todo o universo que juntos criaram. Libertaram-se então de um qualquer pudor que pudera ter existido. Tocaram-se inteira e integralmente. Os corpos era semelhantes, mas por via das duvidas não descolaram os lábios e mantiveram as pálpebras fechadas, de quando em vez semi-abertas, para visualizar a beleza da escuridão mágica que os envolvia. Viu lhe longos cabelos como tacto, cheirou lhe o fundo do ventre com os lábios acompanhados pela língua e, timidamente, esperou por instantes um sinal, para que pudesse, ou não, continuar a percorrer as curvas daquela maravilhosa estrada. Eis se não quando, vê sobre o seu rosto uma suave mão, percebe então que era aquele o sinal que tão ansiosamente esperava. Avança! Percorre lhe o sexo de forma a sentir os gemidos libertados por aquele corpo, de forma tão intensa que nunca imaginara possível, era lhe estranho, mas estava a fazê-lo tão bem!...
Pergunta-se então num rápido devaneio – nascera eu para isto?! – Fitou-se novamente naquele belo corpo, naquele belo sexo: tocou-o, sentiu-o, fez se sentir e foi por fim recompensado com um logo e molhado beijo oferecido com paixão e embrulhado em desejos…
Tudo não passaram daqueles momentos. Logo após retomaram a ignóbil vida a que se resolveram cingir, porque lhes faltou a coragem de assumir algo condenável aos olhos de quem não sabe o que é amar. Perderam também a felicidade sobre a qual tinham criado conceito no meio de toda aquela irracionalidade.
O tempo continuou assim inexorável, aquela mesma rua na mesma parafernália de emoções e correrias, eles não tão indiferentes, mas quase! Neles apenas e só uma recordação…


teddy_bear
12/12/07
Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: Reborn em 27.fev.2008, 03:18:04
Reborn #1


De olhos fechados roço os lençóis brancos e frios, antecipo-me à noite e desperto             

para um leito de promessa no qual adivinho uma casa para o mar aberto

          sem portas ou janelas   

buracos areia e nuvens que esvoaçam numa manhã quente de céu limpo

e o       calor do Sol


              tão mais substancial que o dos Homens     

fecho olhos e a claridade rasga-me    choro porque sim porque o dia assim o ditou porque não tem de haver razão para eu ser quem sou







saio da casa abandonada sozinha              caminho pelo caminho do cego que escrevia poemas por escrever poemas

              deito-me sob o Sol e fecho os olhos      acredito que fui feito para chorar e sou feliz porque gosto do que faço

imagino-me um cão no carreiro de terra batida           o gato     

  sobre o muro

          de estuque descascado rosa pintado rimava diziam os mercadores com o raiar do dia nesta cidade damascena…

                   o meu coração feito da cor das cearas     


aqui a cidade de Deus     dos Homens      somos anjos  dos mais feios e
                                                    amados

                   a palavra do Pai, ditados os erros não corrigidos                     permanecem






Hoje acordei loira         alta como as cegonhas

                     saber-me fatal como o tempo que escorre leitoso como a minha pele de luz e pó de arroz aplicado à pressa no reposteiro de um corredor de veludo e lustros dourados

ser fatal e elegante vestir preto cabedal trabalhado

chamar-me Vitória                    Glória

Aurora       senhora dos Nove Escudos espadas do gelo glacial           dos olhos

liquefeitos    de Nossa Senhora De Qualquer Coisa tão deliciosa como         
                                                                                                                 



            a Paz Celestial

acordo imperatriz da seda e dos palácios de madeira   

amontoo impostos  vidas papiros do oeste tão ricos que me fazem rir
 histericamente na escadaria dos mil peixes

e o cabelo qual cascata de vagas castanhas esvoaça em

a direcção do pavilhão da Nuvem Dourada              descomprometimento que se perde de encontro a

o azul do céu                     a vida do Sol






Amanhã acordo               outra vez eu
Apresso a minha alma a virar              as ampulhetas sonolentas    que marcam os meus dias os eus que morreram ontem

                                                                                                                            celebrados hoje


a ânsia        a perda que me persegue   

talvez a juventude que se perde    eu que me desperdiço
queria

                    poder guardar cada pedaço de mim dentro de frascos de vidro coloridos … fechar cada sentimento     em uma gaveta       

sair     e beber do Sol mais  uma vez a vida nova que ele me dá
                                                                                                                 estrear o Mundo  uma vez novamente a primeira
redundancia

e chorar e gostar do feio porque também ele precisa de afecto


hoje acordo para ser o Universo.
Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: angelsoul em 01.mar.2008, 15:19:33
Flores, sol, primavera,
anjos, dia, noite.
Palavras que se entrecruzam
na imaginação.
Metáforas que se perdem
nos bulícios da memória.

Labirinto de sonhos
Laboratório de palavras
sentir de poeta
Pelos caminhos vêm ideias
Pelos corredores caminham sonhos
Pelas portas perde-se o vento.

Dias de loucura com a minha musa
Tardes lindas de presságios de
poesias e de amor.

 :-*

Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: boyFJ_17 em 01.mar.2008, 19:42:21
Um poema que escrevi há pouco tempo...

Passado

Contemplando o Destino inexorável,
Qual abismo profundo e obscuro,
Ouço a Sorte dizer em tom seguro:
“O Passado é um nada inescapável.

Acima do efémero Presente
E do Futuro vago e mutável,
O Passado, tirano insaciável,
Tudo engole, de forma inclemente.

É o nada que em si tudo contém,
E das brumas nos olha com desdém,
Vendo passar as areias do Tempo.

E o Tempo em Passado se converte,
Até que a Morte por fim nos liberte.
E depois tudo é pó, e fumo, e vento.”

Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: FalsoDeus em 01.mar.2008, 21:03:10
Sete

permite-me ceder a este breve impulso
tão breve é que breve já se foi
soou a suspiro raivoso
soou a beijo sanguinário
soou a vítima de raiva animal

deixa-me acorrer a este súbito desejo
é súbito e efémero, como nós
engulo e devoro porque posso
engulo e devoro e não preciso
sei que tenho o vazio em mim

vê agora como me perco na minha imagem
deleita-te com a beleza deste ser oco que sou
antes que eu te destrua pelo ser feio que és
pelo paraíso que encarceras em tão terrível carcaça

respira comigo, agora
com a minha carne poderosa a sentir-se na tua
quem tu és não interessa
quem tu pensas ser é irrelevante
satisfaz-me no suor das horas cegas sem significado

deixa-me agora, corre antes que te corra
de mim nada levarás, pois nada te quero poder dar
o que é meu é meu, ganhei-o só por ser
não por fazer,
jamais por me mexer

permite-me ceder ao impulso de impuro viver
Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: Ben em 07.mar.2008, 16:28:12
Encontro-me dentro de um cubo de gelo. Mal posso tocar as suas paredes que queimam a minha pele. Do tecto, descem colunas brancas, como estalactites de grutas. São colunas de discriminação, que não param de crescer. Os seus picos quase tocam o espelho do chão escorregadio… Felizmente, são quebráveis. Eu estilhaço-as com a minha armadura de ferro.

Este cubo de gelo é o meu refúgio de protecção, fui eu que o construí. É um pequeno espaço de segurança. Mas está a ser uma armadilha para a minha deterioração interior…

Todos os dias, passo algumas horas fechado neste cubo e tremo de solidão. Quando saio de lá e falo com alguém, a minha voz, entorpecida pelo congelamento, sai da minha boca a tropeçar… As palavras saem esburacadas, visivelmente feridas, queimadas pelo silêncio. Quando dou por isso, não me reconheço e fico bastante assustado…

Basta! Não posso permitir que isto me aconteça… Quem vem salvar-me? Quem pode derreter estas paredes? Ninguém... Sou eu o fogo, eu é que tenho de o atiçar! Mas como? O sopro polar das paredes consome a minha combustão… Para me vencer, terei que expelir chamas como um dragão! Terei forças para isto?

Paro e escuto. Sim, escuto o meu interior. Os meus ritmos cardíacos dizem que o coração está disposto a voltar arder, a ser ele o fogo de dragão, por muito que me faça doer. Contudo… Só o lançará, se eu deixar! Ele diz que é altura de derrubar tamanha solidão.

O tempo é que o dirá…


By: http://caixadesilencios.blogspot.com/2005/12/o-gelo-do-isolamento.html
Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: FalsoDeus em 27.mar.2008, 19:29:25
(aviso - texto king-sized)

A Salvo Contigo


  A silhueta dela debate-se contra o crepúsculo. Os seus cabelos negros, perfeitos, imaculados, permanecem imunes à brisa suave. Vejo-a assim, contra a luz, os reflexos dourados desenhando um kimono de seda, rosado, repleto de motivos florais vivos e sugestivos. É como se eu conseguisse cheirar pólen trazido pelas carícias do vento. A sua arma é um guarda-chuva, leve, suave, transparente, delicado e sedutor. Dir-se-ia que são um só.

 Remo sobre as ruínas da civilização, sobre a glória de outrora. Sempre remei, é o que eu faço, o meu dom. O meu pai uma vez disse-me que eu iria remar pelo mundo fora. Acertou. Esta nossa pequena embarcação de madeira, de aparência frágil, carrega-nos robustamente por entre pedaços dos séculos passados, cidades inteiras afogadas num cenário apocalíptico digno de Noé e da sua Arca. Não temos porto nem companhia. Sou só eu, ela e as gaivotas.

 O Sol começa a desaparecer por entre o aço de antigamente. A ilusão morre. Os seus belos trajes, o seu cabelo imaculado, a sua forma, tudo muda. No entanto, esta mulher que substituiu a Dama Dourada leva-me sempre a uma qualquer tragédia moderna. Talvez seja do seu fato amarrotado, dos seus cabelos longos e selvagens, da sua expressão apática e austera, da sua elegância esfomeada, do seu guarda-chuva dobrado. Dir-se-ia que, a qualquer momento, uma adaga guiada pelas suas próprias mãos lhe virá roubar a vida, vertendo uma agonia Shakesperiana sobre os seus trajes.

 Já não falamos há semanas. Ambos sabemos porquê: ela é a Dama Dourada e eu sou o homem que rema. Ela chora em silêncio e eu pesco. Ela grita para as gaivotas e eu durmo. Ela trás o mundo às costas e eu só a levo a ela. Mas ambos perguntamo-nos a toda a hora: Poderíamos existir um sem o outro, eu sem ela, ela sem mim? Poderia eu resistir à chuva sem o seu amparo? Poderia ela atravessar o mar sem o meu dom? Não sabemos responder, mas sabemos as respostas. Talvez seja por isso que eu reme e ela chore.

 A noite chega, inevitavelmente, abafando as formas daquela mulher uma vez mais. Continuo a remar. A escuridão não me assusta. Consigo adivinhar a sua silhueta sombria sob os raios lunares, erecta e vigilante, insone. Continuo a remar. A cabeça não me pesa, não tenho sono. Os meus braços não cedem, a fome não me sufoca. Continuo a remar. Eu e ela, ela e eu. Fustigado pela chuva, continuarei a remar. Queimado pelo Sol, continuarei a remar. Por nós. Por mim. Por ela.

 Acho que vou morrer assim. Eu e ela - as gaivotas - ela e eu. A Dama Dourada diz-me para não desistir com um simples olhar; Continuarei a remar, pelo crepúsculo eterno, pela suavidade das águas, sobre os dias de outrora, à espera do próximo amanhecer. Fraco ou febril. Derrotado ou vencedor. A luz virá novamente; salvar-nos-emos quando o menos esperarmos. Conseguiremos escapar ao fim.

 Por isso é que as vozes nos cantam

 "Subnutrido, murmura"

 Dama Dourada. Minha silhueta perfeita recortada pelo fogo da tarde. Milagre!, como o sorriso que desfaz o teu trágico nó da gravata, limpa as imperfeições do teu fato, repara o teu guarda-chuva, abrilhanta o teu cabelo, me alegra a alma mais do que chegar onde chegamos! O teu semblante subitamente leve traz-me vómitos de felicidade!

 "Milagre"

 fomos nós os dois, vogando noite e dia, amaldiçoados pelo tempo e pelo mar sem fim. Foste tu, que me deste forças para continuar. O meu Dom; remar. E as mãos que me retiram o remo como quem acaricia um recém-nascido, as mãos que me salvam desta viagem sem fim, elas sabem o milagre que fomos, Eu e Tu e o Crepúsculo e as Gaivotas. Estas mãos...elas lembram-me, elas dizem-me, o quanto eu estou

 "Vivo"

 como tu estiveste para mim; viva a cada segundo, olhando em frente, chorando em silêncio, sorrindo qual perfeita ilusão aquando do mundo que se suicidou, sendo como eu gostava de ter sido enquanto remava remar. E agora aqui estamos nós, juntos, eu e tu, eternamente

 "A salvo"

 contigo.

Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: FalsoDeus em 28.mar.2008, 16:35:22
Cabelo ao Vento

 A tua cara foi abrigo,
 Foi eterno e terno carinho;
 Nela se espelhava o meu caminho
 Nela sentia-te sempre comigo

Onde está a ela agora?

 Os teus dedos foram amor
 Foram suspiro delicado e intimidade
 Contavam-me histórias de lealdade
 Afastavam-me da tua falta de pudor

 Quem acariciam eles agora?

 Contigo, a vida era flutuar,
 Era saltar de uma carícia para a seguinte.
 E agora, carente como um pedinte
 Sinto-me perdido, sem saber regressar

 Onde estás tu?

 Abandonado pelo momento
 Aguardo a ruptura final;
 Recordo que o amor faz mal
 Pois sou mísero cabelo ao vento
Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: black_mirror em 30.mar.2008, 19:01:29
http://lovelettersfromamuthafucka.blogspot.com/
Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: FalsoDeus em 10.abr.2008, 04:13:21
(saudades de vos ler...)


Odeias

Não ser só  parte do que somos
sermos sempre tão grandes quanto podemos
até que o que é Grande nos esmaga
até que o nosso sentimento de grandeza se apaga

Minúsculos grãos,
apressados grãos
carrega ela compras em sacos pirosos
fareja ele saias e corpos fogosos
Ridículos grãos
Intermitentes grãos
A altura do abismo é eternamente variável
A queda no abismo é invariavelmente adiável

Leva-nos para fora desta fossa
Afasta-nos dos manequins com raiva
Somos tão frágeis que vibra o desejo de afundar

Leva-nos embora.
Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: WishLight em 16.abr.2008, 00:02:55


Lighty touching me
Softly wanting it but never asking
I'll give you something to feel
Just a little less real
If only for a while

Giving in to you
Is not as hard as I thought it could have been
Wanting you
But never having to say it
Maybe just
It is just a little too much
For me to take
In just one touch
I gotta save some
For when I'm needing anyone

Seems it's just no fun
Having to depend on someone
To give you what you're craving
On a semi-regular basis
And when you realize
It's not gonna help you to sleep better at night
Maybe you will find
That that is empty and unwise

And if you wait to see
That some of it never has
Belonged to me
I cannot tell that lie again
I cannot try to pretend
That you can make me feel
What you said you wanted to
But what if it's not real
What were you really supposed to do ?
Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: Arms em 23.abr.2008, 15:15:59
Desvaneço

Estou a pulsar, desvanecendo,
por dentro e por fora.
Não tenho nada em que me agarrar.
Não tenho para onde ir.
Não consigo (respirar) neste mundo.
Desvanecendo.


Eu.


(A minha mente)


Ressoa
Esvazia
Queima

Posso procurar um novo caminho.
Posso morrer
Posso morrer


Sonha-me um sonho
onde tudo parece como quando eu era mais novo
Antes desta poluição
Antes desta desintegração.
-Arms, in Preguiça.
Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: Tales em 23.abr.2008, 23:51:04
(Ser) Humano

Sou Humano, com virtudes e defeitos,
em dias felizes, outros imperfeitos.
Sou Humano, com tristeza e alegria,
com momentos de saúde e agonia.
Sou Humano...
Cometo erros, outras vezes acerto.
Umas vezes tímido, outras um livro aberto.
Tenho sentimentos e emoções.
Vivo umas vezes a realidade, outras ilusões.
Choro e rio,
sinto calor humano, mas também frio.
Amo e destesto
Vivo o presente, mas penso também no resto.
Para o bem e para o mal sou humano, não sou perfeito.
Sou humano e pronto.
Sou humano, ponto.

Tales
Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: Tales em 25.abr.2008, 03:27:48
Beijo Roubado

Nem retribuido, nem dado,
Num impulso comprometido.
Qual será o seu significado
daquele acto cometido?
Aquele beijo roubado.

Por vezes insano e louco,
na esperança de uma compreensão desconhecida.
Na demanda de algo mais, não de um estalo ou soco,
dum reflexo, de uma acção não entendida.

Outros tantos, uma surpresa ideal,
entre dois amantes, um deles sem o esperar.
Um gesto de amor imenso, tão natural,
que abre portas a outros tantos sem parar.

Bem aventurados os que se arriscam,
num tal tesouro, naquele lábio cobiçado.
Um desejo tornado real para os que praticam,
o acto instintivo de um beijo roubado.
Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: Tales em 27.abr.2008, 04:39:26
Começos

Há coisas que se iniciam estranhamente,
muitas vezes num acto inconsciente.
Numa visão, num olhar.
Durante um sonho, ou mesmo ao acordar.
Numa ilusão, num pensamento,
num som nítido ou numa brisa de vento.
Numa linha, frase ou palavra.
Numa chuva, no mar, numa ribeira brava.
Num rabisco, num traço sem intenção,
uma marca que posteriormente nos chama a atenção.
Num cumprimento, num abraço,
em momentos de timidez e embaraço.
Há coisas assim sem explicação:
umas vezes terminam bem, outras não.
Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: Livre-Mente em 01.mai.2008, 19:21:24
Lembro-me..

Lembro-me das tardes dos dias das noites inteiras das horas do Tempo do limite ilimitado do Tempo..
Lembro-me da areia da onda da Lua dos teus olhos das tuas mãos..
Lembro-me das lágrimas do esforço da separação dos sorrisos..
Lembro-me do Acordar do amanhã do demanhã..
Lembro me da coisas mais banais das coisas mais maravilhosas..
Não sei recomeçar sem recordar sem viver sem respirar de novo..
Não sei lidar com o que não conheço,com o que pensei conhecer com o que pensei vir a conhecer..
Lembro-me do é melhor do Vái passar Lembro-me..do que não me quero lembrar..
Lembro-me de tudo te passar ao lado de não saberes para mais do não saberes mais..
Lembro-me da expriência do toque da expriência da verdade vista deste lado..
Lembro-me de tanto dias de tanto tempo do maldito do tempo que se revelou inimigo..
Lembro-me que não esqueço o inesquecivel..
Lembro-me que as derrotas me trouxeram para cima que as vitorias me deram tanta vontade de lutar
pelo um amanhã com mais sol,com mais vontade de agarrar o que não conhecia..
Lembro-me de me dizeres que te ajudei que mudas-te comigo..
Lembro-me de Ti..
Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: Extravagant_excentric em 01.mai.2008, 20:59:57
       Ai..... vivo diariamente enclausurada numa cidade onde não sinto qualquer menor desejo de viver... vivo uma vida que não me apetece viver.... Uma vida rodeada de gente que me vem im formar dos meus interesses! Das opções certas para a minha vida e ainda não perceberam que só me fazem mal com isso! Eu não estou doida! Só quero liberdade e insistem e empenham-se em fechar-me numa cidade e numa casa vigiada por cozinhairas com medo que eu fija para me suicidar! Se eu pensasse direito dir-te-ia que eu luto sozinha na escuridão, na profunda escuridão e que só eu posso compreender o meu estado! Adoram dizer que sou arrogante e fazem palestras sobre mim e o meus estado emocional a que gostam de salpicar com ideias de Psicose Maníaco Depressiva, transformam a minha posição de vítima numa de monstro que causa as coisas que lhe acontecem....., Ahhh eu sinto-me a enlouquecer e não serão medicamentos e anti depressivos em coktails tóxicos que me deixam a dormir dias e dias que me vão curar se vocês não perceberm que são a causa do meu problema. ... Ai um artista, basta ter sensibilidade e criatividade e já é um louco por não ver o mundo de maneira superficial como o idealizam..... I'm not crazy!     I'm a person, a human being!

                        Louca, honrarei esse título que me afasta de vós e me torna tão especial, não diferente, mas especial e isolado dessa mania de ver o mundo tão trivial e fria!  Sou apenas artista, não uma qualquer alienada!
                 
Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: Tatiana em 07.mai.2008, 11:38:09
«Era uma vez o Vazio... Vagueava durante a noite escura por becos sem saída, nunca via a luz do dia, não sabia o que era o horizonte. Todos os dias encontrava a Tristeza, a Dor, a Mágoa, a Raiva e outras tantas desgraças, e todas o atormentavam. No fundo, estava sempre sozinho à espera que alguém o preenche-se. Assim passaram séculos e séculos, gerações e gerações, e o Vazio não viu ninguém. Um dia o Vazio encontrou a Verdade e ela disse-lhe: «Não podes esperar que alguém te preencha. Tens de encontar um sentido. Ou mudas ou te aceitas como és». O Vazio pensou, pensou e pensou. Tinha medo de mudar, não sabia o que o esperava, não se achava corajoso para aceitar o desafio da mudança. Então, o Vazio escolheu continuar Vazio e preencher a vida de todos aqueles que tenham medo de mudar e não sejam corajosos para aceitar o desafio da mudança.»

hecate


 :up

Eu aceitei o desafio da mudança...
Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: FalsoDeus em 08.mai.2008, 01:30:02
O Cinismo Cria Raízes

Maria acreditara no amor verdadeiro,
nas rosas primaveris jamais desbotadas,
até encontrar o marido com um enfermeiro,
vergado de joelhos, as pernas bem afastadas.

Agora, viúva, sorri cheia de razão:
o amor verdadeiro pagara-lhe a pensão.

Jovem Afonso sempre fora muito apaixonado,
o seu grande coração recheado de amor para dar.
corria mulher solteira, casada ou com namorado,
amando cada uma sem parar para descansar.

Os chatos não acalmaram o seu calor de amante,
nem a penicilina servida em doses de elefante.

Inês era misteriosa virgem constantemente acanhada,
aos vinte e três anos sonhava com o eterno amor,
encontrou o homem da sua vida numa qualquer encruzilhada,
cansou-se após um ano de discussões e rancor.

Descubriu da pior maneira o que o "eterno" faz:
cancerígeno cinismo, o fim de toda a paz.

O Amor faz de nós seres doentes,
é fraca religião num mundo sem crentes.
Acendam a vela; a vossa vez há-de chegar;
tudo dura para sempre até finalmente acabar
Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: Reborn em 08.mai.2008, 02:00:44
O Cinismo Cria Raízes

Maria acreditara no amor verdadeiro,
nas rosas primaveris jamais desbotadas,
até encontrar o marido com um enfermeiro,
vergado de joelhos, as pernas bem afastadas.

Agora, viúva, sorri cheia de razão:
o amor verdadeiro pagara-lhe a pensão.

Jovem Afonso sempre fora muito apaixonado,
o seu grande coração recheado de amor para dar.
corria mulher solteira, casada ou com namorado,
amando cada uma sem parar para descansar.

Os chatos não acalmaram o seu calor de amante,
nem a penicilina servida em doses de elefante.

Inês era misteriosa virgem constantemente acanhada,
aos vinte e três anos sonhava com o eterno amor,
encontrou o homem da sua vida numa qualquer encruzilhada,
cansou-se após um ano de discussões e rancor.

Descubriu da pior maneira o que o "eterno" faz:
cancerígeno cinismo, o fim de toda a paz.

O Amor faz de nós seres doentes,
é fraca religião num mundo sem crentes.
Acendam a vela; a vossa vez há-de chegar;
tudo dura para sempre até finalmente acabar


Amei <3

A última estrofe é muito à 'Fábulas de La Fontaine'. Ah memórias da minha infância  ::)
Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: hecate em 08.mai.2008, 04:26:31
O Cinismo Cria Raízes

Maria acreditara no amor verdadeiro,
nas rosas primaveris jamais desbotadas,
até encontrar o marido com um enfermeiro,
vergado de joelhos, as pernas bem afastadas.

Agora, viúva, sorri cheia de razão:
o amor verdadeiro pagara-lhe a pensão.

Jovem Afonso sempre fora muito apaixonado,
o seu grande coração recheado de amor para dar.
corria mulher solteira, casada ou com namorado,
amando cada uma sem parar para descansar.

Os chatos não acalmaram o seu calor de amante,
nem a penicilina servida em doses de elefante.

Inês era misteriosa virgem constantemente acanhada,
aos vinte e três anos sonhava com o eterno amor,
encontrou o homem da sua vida numa qualquer encruzilhada,
cansou-se após um ano de discussões e rancor.

Descubriu da pior maneira o que o "eterno" faz:
cancerígeno cinismo, o fim de toda a paz.

O Amor faz de nós seres doentes,
é fraca religião num mundo sem crentes.
Acendam a vela; a vossa vez há-de chegar;
tudo dura para sempre até finalmente acabar


Amei <3

A última estrofe é muito à 'Fábulas de La Fontaine'. Ah memórias da minha infância  ::)


ADOREI!
Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: hecate em 08.mai.2008, 04:34:50
Ninguém, um peregrino à procura do rumo certo...

Ninguém começa a vaguear por aqui e por ali à procura do rumo certo. Ninguém volta atrás, anda em círculos, faz desvios, tropeça, cai.
Ninguem, durante o percurso, sem se saber bem para onde, recebe algumas indicações, umas mais acertadas outras nem por isso. Ninguém, algumas vezes, até se perde por maus caminhos.
Ninguém confia na intuição, adapta a inteligência, aposta na razão...
Ninguém fia-se nas aparências, não usa a inteligência, é traído pelo coração...
Ninguém, é sempre animado pela Fé e pela Esperança, essas utópias que lhe alimentam a força para continuar.
Ninguém chega a encruzilhadas, interroga que caminho escolher e decide, com maior ou menor, segurança.
Ninguém segue um caminho que se cruza com outros caminhos, e que, às vezes, até se sobrepõe a esses caminhos...
Ninguém encontra altos e baixos no percurso, estão ali para lhe testar a persistência, a coragem...
Ninguém compreende que todos os caminhos vão dar a Roma. Ninguém percebeu ainda qual é a sua Roma... Ninguém chega, então, a lugar nenhum!

(Hecate)
Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: NecroRomancist em 08.mai.2008, 05:57:55
O Cinismo Cria Raízes

Maria acreditara no amor verdadeiro,
nas rosas primaveris jamais desbotadas,
até encontrar o marido com um enfermeiro,
vergado de joelhos, as pernas bem afastadas.

Agora, viúva, sorri cheia de razão:
o amor verdadeiro pagara-lhe a pensão.

Jovem Afonso sempre fora muito apaixonado,
o seu grande coração recheado de amor para dar.
corria mulher solteira, casada ou com namorado,
amando cada uma sem parar para descansar.

Os chatos não acalmaram o seu calor de amante,
nem a penicilina servida em doses de elefante.

Inês era misteriosa virgem constantemente acanhada,
aos vinte e três anos sonhava com o eterno amor,
encontrou o homem da sua vida numa qualquer encruzilhada,
cansou-se após um ano de discussões e rancor.

Descubriu da pior maneira o que o "eterno" faz:
cancerígeno cinismo, o fim de toda a paz.

O Amor faz de nós seres doentes,
é fraca religião num mundo sem crentes.
Acendam a vela; a vossa vez há-de chegar;
tudo dura para sempre até finalmente acabar


 :up
Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: Extravagant_excentric em 08.mai.2008, 23:10:18
Às Portas da morte direi " Não Chorem... eu não morri! Viverei agora para toda a eternidade..... Olhem para as minhas obras primas, para as minhas obras de arte, lá está a essência da minha vida que será eterna" ::)
Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: FalsoDeus em 08.mai.2008, 23:14:10
obrigado Reborn!, hecate e NecroRomancist ^^ :-[
Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: akinder em 09.mai.2008, 13:55:16
FalsoDeus estás sempre em grande...  :heart
Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: Tatiana em 18.mai.2008, 06:39:19

☜♥☞ Visitante ☜♥☞

Contacta-me...
Busca-me...
Humilde visitante,
de palavra apaixonante...
Permite meu olhar te alcançar,
apenas te quero escutar.
Destinos ocultos,
permanecem em vultos,
sombras perdidas,
almas fundidas,
corpos entrelaçados
sonhos vislumbrados...
Entra visitante,
nesta dança embriagante…

 ☜♥☞ † Angel ? / Devil ? † ☜♥☞

(Estou [smiley=bebado.gif]...)


Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: Extravagant_excentric em 18.mai.2008, 23:25:56
Tristes dos ignorantes! Jamais poderão viver a vida na sua máxima plenitude...são uns infelizes que nunca experimentaram a verdadeira liberdade de que tanto ousam pedir como seu direito, mas que violam a outros seres! Liberdade falsa de uma ignorância para sempre presa a quem lhes tudo dita! by myself
Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: Arms em 20.mai.2008, 21:52:14
Do banco do jardim

A lua tem um aspecto hostil e longínquo esta noite. Uma lua cheia que parece querer ofuscar, ameaçando cair a qualquer momento. A ausência de nuvens e estrelas e vento transmite-me uma certa calma assustadora que me impede de adormecer. Parece que a existência toda ela se encontra parada no exacto segundo entre o encher os pulmões de ar e o mergulhar no oceano. Aquela fracção de segundo em que as duas acções colidem. Algo está para acontecer. Sinto-o. E esta insónia atormenta a minha calma. Resolvo sair de casa e dar uma volta. Mas mesmo isso se torna numa realidade falhada porque, assim que saio de casa, sento-me no banco de jardim em frente ao prédio. Aquele banco de verde lascado, onde muitos se sentaram e questionaram... ou não. O cheiro do relvado acabado de cortar embate-me como ondas tsunami. E, no exacto segundo em que sou extinto pelas ondas, uma frase escorrega-me à mente. Algo de tão fugidio e efémero que seria impossível pensar nisso noutra altura.

O mundo é belo. Uma simples frase que poderia ter sido usada em qualquer altura. Algo que foi certamente dito por todas as pessoas no mundo numa qualquer altura das suas vidas. Mas uma frase que trás consigo um sentimento tão envolvente que deixa rasto, fica e explode por dentro. O mundo é belo, de muitas formas incomensuráveis. Mas, na nossa pressa, escapa-nos frequentemente aquilo que de belo existe em redor. Talvez da mesma forma que, muitas vezes, nos esquecemos do significado que queremos dar às nossas vidas. Neste mundo moderno, para sobreviver, muitas vezes desprendemo-nos relutantemente do estímulo constante da beleza que o mundo tem. Muitos preferem um desprendimento indiferente face ao estímulo constante. Chegamos ao ponto de olhar para a beleza com indiferença, como se fosse mais uma coisa da qual já nos fartámos. Mas o mundo é belo. Desde algo simples como uma gota numa teia de aranha a coisas complexas como pontes enferrujadas de tempo. Um relvado plano a uma paisagem plana e gigantesca que nos faz sentir como grãos de pó. Desde o mesmo grão de pó até às galáxias tão longe que nenhuma mente consegue conceber o caminho todo necessário a percorrer até lá chegar. E uma lua de aspecto hostil e longínquo. Uma lua que parece querer ofuscar, ameaçando cair a qualquer momento. Do banco deste jardim, lascado de verde, rangendo de tempo e memórias, tudo parece que parou no tempo. Como se a própria existência estivesse a fazer uma pausa para retomar de novo. E lembrei-me do significado que queria dar à minha vida. E planeei para ser surpreendido.
Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: FalsoDeus em 22.mai.2008, 04:16:01
O Mundo muda

O sorriso é brindado com vinho
O cão enxotado à vassourada
A criança abraça o padrinho
A carta perde-se na estrada

e o mundo Muda

O mendigo arrasta-se sozinho
O amante procura a morada
A chuva abre caminho
A terra fica arrasada

e o Mundo muda

Um menino aprende a contar
uma socialite decide passear
e o mundo Muda

Aquele casal festeja a união
Notícias de mortes no Irão
e o Mundo muda

O incauto lacera o braço
A luta contra Sida dá um passo
e o mundo Muda

Mulheres rendem, peixes vendem
calças rasgam, tarados raptam
aluno copia, trolha assobia
poeta adoece, anónimo falece
presidente espirra, bebé faz birra,
minorias rebelam-se, americanos lavam-se
paparazzi interrompe, dinheiro corrompe
ateu peca, Papa defeca


E o Mundo muda
- penso eu, dizes tu,
ouvimos por eles -

e nada chegou a Mudar
- criticam eles,
comentas tu, ignoro eu -

Porque o meu Mundo muda
- sei-o eu, calas-te tu,
coscuvilham eles -
e o vosso lá se terá de desenrascar.


isto de escrever às quatro da manhã não dá com nada -_-'
Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: android em 22.mai.2008, 13:26:22
A rapariga dos folhetos (dedicado à rapariga que está há uns bons meses a distribuir folhetos de dentista à saida do metro de Alameda para quem vai para a Praça de Londres)


Todos os dias encontro-te na multidão
Lá estás tu ao cimo das escadas
Sempre sofrida e forçada
Quando te vais embora, ó rapariga?


Flux é o nome do que distribuis
Eu olho para ti e vou aceitando o papel
Na esperança de atenuar o teu sofrimento
E de te despachar desta carga


Quando é que os teus sonhos se tornam realidade?
Será quando a minha realidade se tornar sonho?
Fico sem saber como és
E ao mesmo tempo vejo-te quando muitos viram as costas


Andas sempre sofrida e forçada
Como quem carrega na mão
O peso de múltiplos desgostos
Para ti um trabalho, para mim uma divagação


Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: Extravagant_excentric em 23.mai.2008, 23:53:23
Ooh... e ainda está para nascer a pessoa que algum dia, não sei, me conhecerá por dentro numa visão sem erros e compreensiva das imperfeições e das coisas a que os que são verdadeiramente anormais chamam de doideiras, loucuras e anormalidades.. by my self ::)
Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: FalsoDeus em 24.mai.2008, 01:26:55
Este Palco

As pessoas dançam, sempre bonitas
Sempre brilhantes e bem vestidas,
Sentem-se usando as mãos, apenas,
E fingem com esse toque sentir-se pequenas

A música inebria, convincente,
Num tom sempre feliz e algo aparente,
Quando uma nota falha, o público nem sente
A letra dita o coração e abafa a mente.

Rodopiam as pessoas, tão bonitas
E trocam entre si, sempre perfeitas
Uma tropeça; está cansada
Caem-lhe vinte em cima; uma maçada

Dançam e calcam com um sorriso,
Elogiam e atropelam o amado vizinho,
Rasgam vestidos sem ninguém ver
vestem o cadáver de quem quer viver

Dançamos todos ao som desta música
Dirigida por um grandioso maestro invisível
Masturbador dos sonhos de uma banda submissa

A vida promete-nos pés cansados
Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: Tatiana em 24.mai.2008, 01:42:10
Este Palco

As pessoas dançam, sempre bonitas
Sempre brilhantes e bem vestidas,
Sentem-se usando as mãos, apenas,
E fingem com esse toque sentir-se pequenas

A música inebria, convincente,
Num tom sempre feliz e algo aparente,
Quando uma nota falha, o público nem sente
A letra dita o coração e abafa a mente.

Rodopiam as pessoas, tão bonitas
E trocam entre si, sempre perfeitas
Uma tropeça; está cansada
Caem-lhe vinte em cima; uma maçada

Dançam e calcam com um sorriso,
Elogiam e atropelam o amado vizinho,
Rasgam vestidos sem ninguém ver
vestem o cadáver de quem quer viver

Dançamos todos ao som desta música
Dirigida por um grandioso maestro invisível
Masturbador dos sonhos de uma banda submissa

A vida promete-nos pés cansados

Continua, é um prazer ler-te...
Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: Arms em 29.mai.2008, 18:22:40
A um passo

Cansaço. Puro cansaço de lutar e de sobreviver. É a única coisa que se pode dizer daquele pobre criatura. Sonhou alto, qual Ícaro. E, como tal, caiu nas ondas profundas da sua própria frustração. Durante sete ou oito anos lutou. Lutou firme e forte contra todas as adversidades que a vida lhe ia pondo aos pés. Passou fome, venceu uma depressão, superou dois namoros falhados, abraçou a sua solidão. Tudo em nome de uma felicidade que, mesmo não sendo excepcional, iludia-o. Adorava pensar positivo em relação ao seu futuro, mas não consegue. E porquê? Que motivação se tem quando todo o esforço que se faz é recompensado com ainda mais e piores desafios? Prometem-lhe sempre que o próximo dia será melhor mas o próximo dia ainda lhe apresenta com mais e piores dificuldades. Ele está tão farto. Tão abominavelamente saturado de lutar por meros pingos. A sua vida tornou-se no mito de Sísifo: rebolando uma rocha montanha acima para que, quando chega lá perto, o rochedo rebola montanha abaixo. Apenas para que ele recomece. Luta para um fim num ciclo vicioso de fome, desespero, lágrimas e insucesso. E está tão farto. E a esperança que o mantia firme, bem humorado e confiante já o abandonou. Tão farto. Tão perto de dar o passo final e desistir de tudo. Porque, afinal, tudo o que recebe pelas suas lutas e pelos seus sacrifícios são perspectivas de mais e piores lutas e mais e piores sacrifícios... Para quê lutar mais? Onde buscar mais forças? Admira-se ainda de ter conseguido aguentar oito anos de fome, solidão, depressão, tristeza e falhanços sucessivos... Tão farto que ele simplesmente deixa-se cair e ir. E foi.
Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: diafeliz em 29.mai.2008, 18:33:11
Silêncio

Por vezes calamo-nos mas, por dentro, discutimos muito, confrontamo-nos com interlocutores imaginários ou lutamos connosco mesmo.

Fazer silêncio é reconhecer que as minhas inquietações não têm muito poder... Um momento de silêncio, mesmo que seja muito breve, é como um repouso sabático, uma santa pausa, uma trégua de inquietação.

Talvez por vezes evitemos o silêncio preferindo-lhe qualquer barulho, palavras ou distracções (quaisquer que elas sejam), porque a paz interior é uma questão arriscada: dissolve a amargura e as revoltas e leva-nos ao dom de nós mesmos.

Quantos de nós temos a capacidade de estar ao lado de alguém em silêncio, apenas sentindo a sua presença? Quantos de nós temos a coragem de amar em silêncio mesmo que sofrendo por não ousar dizer o que nos vai na alma? Quantos de nós temos a habilidade para sofrer em silêncio, esperando que o mundo nos diga qual o caminho a seguir?

Talvez o silêncio não seja mais do que dar espaço... O espaço necessário à descoberta de si mesmo... das suas vontades, dos seus medos, dos seus objectivos e sonhos...

Ficar em silêncio é também crescer e crescer não é ficar diferente, mas mais iguais a nós mesmos.

E crescer é ter a ousadia de perguntar porquê. Porque é que se queremos tanto ser felizes, o não somos? Porque é que, sendo capazes de sonhar, utilizamos as histórias de sonho dos outros, em vez de construirmos sonhos nossos, realizáveis e reais, com pessoas a sério que não tolerem ser simplesmente marionetas em nós?

Quantas vezes em silêncio perguntamos porquê? Os muitos "porquês" que inundam a nossa mente (ou direi alma?) não serão mais do que uma tentativa de crescer? Porque crescer é poder nunca deixar de perguntar porquê.

Estar em silêncio é também descobrir pessoas... Talvez pessoas que se assemelham a histórias por abrir. Por vezes conhecêmo-las por fora, fechadas. Contudo, todas elas nos dão um prefácio à relação, deixam páginas, ou um capítulo (mesmo), por escrever, e esperam (ansiosas) que possamos fechar os olhos e nos perder dentro delas, reconhecendo-as a partir dos sobressaltos da nossa leitura.

Em suma, estar em silêncio é poder esperar que alguém nos permita preencher essas páginas a dois... É deixar correr os afluentes até que se possa encontrar a foz do rio...
Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: freira em 29.mai.2008, 19:17:00
RIDÍCULO



...somos quase plantas! Somos pessoas!...
...somos objectos que estão estupidamente ao alcance do patético...
                                                                                            ... DO PATÉTICO e do RIDÍCULO.


(isto porque somos completamente analfabetos,
 quanto às dimensões da nova existência.)


NÓS FAZEMO-NOS COM O QUE OS OLHOS NOS FAZEM.
NÓS FAZEMO-NOS COM O  QUE NOS FAZEM OS OLHOS DOS OUTROS.




a comicidade é uma grande metáfora, e esta
é a grande e verdadeira experiência do RIDÍCULO.
Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: android em 29.mai.2008, 20:44:42
Próxima Estação


Pelas carruagens vou percorrendo
momentos passados do meu ser
sonhos que vou fabricando
realidades que tento esquecer
possíveis estações onde parar
e nenhuma delas me parece adequada.


Por isso vou-me deixando levar
pelo barulho subterrâneo dos carris
pelo abrir e fechar de portas
e pelo olhar cansado dos restantes passageiros
tentando adivinhar onde irão parar
será já na próxima estação
ou terão que mudar de linha?
Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: FalsoDeus em 30.mai.2008, 00:35:39
A Dança do Morto

És aquele que regressa sempre
um cão moribundo, feio e carente
És aquele que me quer como amante
que se humilha por este prazer sufocante

És um verme pisoteado de pila curta
divorciado falido de uma prostituta
Limpo os pés na tua auto-estima de aluguer
e apago recordações da tua mulher

Mas eis que tentas evadir-te do meu mal
onde pensas fugir, minha sanguessuga social?
O meu amor é o teu cancro, volta para mim
odeias-te demasiado para me deixares assim

E porque és aquele que sempre regressa
Febril reflexo de venérea doença,
Num canto de uma rua - o nosso altar -
Faço os possíveis para acabar de te matar.


ando muito "cruel" -_-' apesar de tudo, como em poemas anteriores, parece ser um desabafo sentimental, mas não se trata disso; apenas de uma "dissecação"
Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: Thumbnail em 02.jun.2008, 15:56:19
Oh senhores que sois de ferro
Vós das alturas e dos fiéis
Que sabeis tanto de desassossego
Que nos infernos nos apunhaleis

Ouvi agora preces minhas
Odes de quem fuzilais
Nesse fardo de celas divinas
Nesses retratos de capitais

Capitais decapitando
Chegando em ombros, lastimais
Sombras de vento ficais lurando
Sombra essas, nunca mais

E de lodo parece o vento
Trajando esses emblemas e cunhos tais
Desaconchego e voz de tempo
Ouvides vós fados fatais

Cruzes cruzadas crucificando
Nesse ouro de prata e frases carnais
Dadores de veneno vandalizando
Selva de jardins de jazigos mais

E de vós que se sente, senhores reais?
De remédios se mente, esganiçais
Ordens essas de que descendes
Pontes de quem grita e nada mais...

Spoiler (clica para mostrar/esconder)
Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: Interpol em 02.jun.2008, 16:19:33
Hoje anulei-me
apaguei-me
Prescindi de mim.
Não mais sinto
Não mais quero sentir
Viverei para sempre assim
Inócuo
Indiferente
Inveterbrado
E serei feliz assim,
Anulado

Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: Arms em 06.jun.2008, 00:04:32
Uma história solitária

Tão desesperante... a lágrima que escorre pela cara, manchada de sonhos e pensamentos de esperanças que padecem cada vez mais num constante aumento de silêncio que engole palavras e rouba vidas. Enquanto a minha boca se encolhe, como se tentasse mostrar sofrimento, e o meu corpo deita-se, tentando abraçar-se a si mesmo, para sentir algum calor numa tentativa vã de afastar todo este silêncio solitário que corta e fere como vidro, choro silencioso. Aquela esperança de um dia ser alguém mais forte é constantemente derrubada pelos incansáveis golpes silenciosos da vida, causando hematomas internos que, pouco a pouco se vão mostrando na minha pele gasta. O silêncio da solidão sendo gravado na minha pele. Tatuagens da experiência.

O mundo em volta desvanece, tudo escapa, tudo se perde, porque os pavimentos de lágrimas vão marcando o corpo de alguém que uma vez sonhou e sentiu. Sou nada apenas, apenas nada. Não me lembro dos dias em que me sentia nervoso, com borboletas no estômago. Não me lembro dos dias em que sorria ao som de uma simples voz. O que resta agora é este enorme vazio por dentro e por fora. O vazio imensurável de quem tenta esquecer e morre por isso. Dias iguais aos dias anteriores, onde a dor e a solidão corrompem todo aquele silêncio sem falar. Por um segundo desta solidão consegui ver a imagem que me ilude há tanto tempo e que me dava forças para me levantar e respirar. Mas esse segundo já não é mais. A morte interior chegou.

E esta dor entra e sai, deixa um corpo suplicante pedido que a morte viva para a mente quase morta sofrer mais do que devia, mais do que pode, mais do que vive. A reside a famosa salvação que se torna numa eterna condenação de uma possível eternidade de dor e lágrimas que escorrem, umas a seguir à outras, por uma cara que não vê e não sente. A famosa salvação que todos aclamavam, com absoluta certeza, terminar em felicidade mas acabou limitado a uma mísera vida que se vive sem se viver, que morrerá sem que tenha sido vivido. Lágrimas enroladas em sonhos que mancham o lençol que acolhe aquele corpo débil e esquecido. Cicatrizes de esperança cobrem todo aquele corpo que olha sem expressão para o tecto, como se tentasse ver o céu revelando a eternidade do universo. Mas, em vez disso, apenas vislumbra a eternidade do seu sofrimento e da sua solidão, que já se encontram presentes numa noite sem lua, num dia sem luz.

Todo aquele desesperante momento de desespero de profunda tristeza em lágrimas embrulhadas em desistência. O fim de uma luta e o início de uma lenta e dolorosa morte. Uma morte que se segue a uma vida sem sentido. Uma morte que vem depois de uma encolhida súplica de oportunidade e felicidade. Súplica marcada pelos constantes gritos silenciosos de dor causados pelo sofrimento e lágrimas que marcam aquele corpo de nódoas negras, num negro pálido, num negro que não é possível ver, apenas sentir. Apenas para sofrer por morrer tão profundamente para reviver e sofrer de novo.

A morte de sentimentos que há muito tempo saltaram. A morte da esperança que há muito tempo voava. A morte de uma vida que merecia muito mais. Uma vida que apenas conheceu a solidão de uma eternidade inimaginável.

Um momento encolhido numa súplica silenciosa, que grita ecoando até aos confins da minha alma, que mancha mais uma lágrima vertida, que estilhaça nos lábios que nunca sentiram o verdadeiro calor do amor. Lábios que apenas sentem os dedos gélidos da sua própria morte interna.

No fim, olharão para ele e dirão que tudo foi uma história de um sofrimento solitário, de uma esperança perdida nas profundezas de uma mente perturbada por ter morrido antes do corpo, por ter-se esquecido das coisas que a fazem viver, fazendo-a morrer. Uma história de lágrimas que marcaram o seu corpo, enroladas numa esperança fugidia. Uma história de súplicas negadas e gritos silenciosos. A história de uma vida morta. Uma vida a que foi negado todo o tipo de companhia, amor e felicidade.
Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: diafeliz em 08.jun.2008, 15:51:18

Ouvir o Inescutável

Segundo um conto chinês, no século III a.C., o rei Ts’ao mandou o seu filho, o príncipe T’ai, estudar para o templo sob direcção do grande mestre Pan Ku. Como o príncipe ia suceder a seu pai como rei, Pan Ku devia ensinar-lhe os princípios para se tornar um bom soberano. Quando o príncipe chegou ao templo, o mestre mandou-o ir sozinho para a floresta Ming-li. Ao fim de um ano, o príncipe devia voltar ao templo e descrever os sons da floresta.
Quando o príncipe T’ai voltou, Pan Ku pediu-lhe para descrever tudo aquilo que tinha ouvido. «Mestre», respondeu o príncipe, «eu ouvi os cucos a cantar, as flores a sussurrar, os beija-flores a pairar, os grilos a cantar, a erva a ondular, as abelhas a zumbir e o vento a murmurar e a chamar». Quando o príncipe terminou, o mestre disse-lhe para voltar para a floresta para escutar o que mais conseguia ouvir. O príncipe ficou confuso com o pedido do mestre. Será que ele não tinha distinguido já todos os sons?
Durante dias e noites sem fim, o príncipe esteve sentado sozinho na floresta, à escuta. Mas não ouviu outros sons para além daqueles que já tinha ouvido. Então, uma manhã, quando o príncipe se encontrava silenciosamente sentado debaixo das árvores, começou a distinguir débeis sons, diferentes de todos aqueles que já tinha ouvido. Quanto mais intensamente escutava, mais perceptíveis os sons se iam tornando. Sentiu-se invadido por um sentimento de clarividência. «Devem ser estes os sons que o mestre queria que eu distinguisse», reflectiu.
Quando o príncipe T’ai voltou ao templo, o mestre perguntou-lhe o que tinha ouvido de novo. «Mestre», respondeu o príncipe reverentemente, quando escutei com mais atenção, ouvi o inescutável - o som das flores a abrirem, o som do Sol a aquecer a Terra e o som da relva a beber o orvalho matinal». O mestre acenou com a cabeça em sinal de aprovação.


Apesar de se reportar ao século III a.C. parece-me que a mensagem transmitida neste conto é bastante actual e pertinente, daí que o utilize como introdução a uma pequena reflexão sobre alguns temas que me têm inundado a mente (ou direi alma?).
Numa sociedade marcada pela correria do dia-a-dia, pelas filas de trânsito intermináveis, pelas noites mal dormidas, pela competitividade (por vezes exagerada) desde a mais tenra idade; será que ao longo do nosso percurso de vida temos o privilégio de nos cruzarmos com um “mestre” que nos ensine a ouvir estes sons praticamente imperceptíveis? E, acima de tudo, será que temos disponibilidade para os ouvir e perceber?
Quantos de nós passam todos os dias pelo mesmo jardim e nunca reparamos que somos presenteados com uma singela flor que nos diz “Bom dia” ou simplesmente “Olá”. Andamos tão ocupados com o trabalho, a escola, os horários para cumprir, as mil e uma tarefas que temos que desempenhar até ao fim do dia (ou serão dias?), que não nos apercebemos das pequenas, mas não menos importantes, maravilhas com que somos galanteados no dia-a-dia. Passamos grande parte do tempo a esquecermo-nos de ouvir o que não é dito, de ler o que não está escrito, de sentir o que não é comunicado.
Parece-me que os sons descritos acima não serão completamente imperceptíveis perante aqueles que estiverem disponíveis para os ouvir. Acredito que todos nós temos a capacidade de o fazer, assim como acredito que o sábio “mestre” está dentro de cada um de nós, e não fora.
A “floresta” presente no conto pode simbolizar o nosso meio envolvente, o local onde habitamos, a nossa família, os amigos… Contudo, para ouvir as palavras não ditas e os sentimentos não expressos daqueles que nos rodeiam (e que cruzam o nosso caminho), temos de nos permitir ouvir a nós próprios. Quanto tempo disponibilizamos ao longo do dia para estarmos apenas connosco? Não sozinhos, mas única e simplesmente connosco.
O tempo passa tão depressa que nos esquecemos de ocupar alguns minutos do nosso dia a pensar em nós, a conversar connosco ou, simplesmente, a descansar e a restabelecer a nossa mente e o nosso corpo de forma a estarmos preparados para continuar a percorrer o caminho que desejamos. Se soubermos ouvir os nossos sons, perceber os nossos sinais, equilibrar a nossa energia, não tenho a menor dúvida de que conseguimos ouvir “o som das flores a abrirem, o som do Sol a aquecer a Terra e o som da relva a beber o orvalho matinal”…
Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: Thumbnail em 25.jun.2008, 08:17:46
Não te olhei uma única vez desde a última palavra. Partiste com a ferida do coração e com a minha alma colada ao teu corpo. Foste sincero em momentos que não existiram mas que se gravaram em cada parede do teu quarto pela naturalidade do que te expressa cada poro da pele. Absorvido. Morto. Nesses quadros de Razão impulsiva. Morto. Arranhadamente morto. Como brinde ao amanhecer de uma criança, entre cheiro de ópio e cheiro de agonia. Restos de lágrimas, de sangue. Posto. Ardido. Morto.

Não te olhei uma única vez desde essa despedida porque te despiste em ramos de mel que me afastam com as lágrimas do teu arrependimento. Destruíste a esperança que me deste e cultivaste ódios e medos dentro de nós. Fizeste-me egoísta. Cortaste-te a pele. Retiraste-me segundos de paz e fizeste-me morrer. Durante anos, morto. Para sempre, morto. Morto porque me despiste, sim. Morto porque me tiraste a única luz que alguma vez me fora fiel. A única que me alimentou e se deixou conhecer. Na naturalidade do tempo, nesses buracos infindáveis do tempo, ficaste gravado em ti mesmo e o reflexo será para sempre o desuso próprio do teu saber e do caminhar. A experiência ficou, o resto morreu. Ela mesma, deturpada, morreu. Morto. Eu.
Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: Extravagant_excentric em 03.jul.2008, 17:34:57
  Um excerto do livro que estou a escrever (dêm-me a vossa opinião se quiserem depois por mensagem pessoal, agradecia imenso):


     "Seria relevante a vida continuar sem ele? Com os seus movimentos frenéticos e fervilhante de todos os habituais acontecimentos que retratam esta sociedade do século XXI? Será que tinha importância ele cessar por completo? Só queria paz interior! É bem certo que, como disse Virginia Woolf, não se encontra a paz fugindo à vida, mas e se a vida estivesse repleta de coisas e pessoas que a cada olhar ou palavra quase o sufocassem na sua própria ignorância de sociedade feroz e selgavem, sem o mínimo de condescendência, sensatez e humanidade? Ignorância, a mãe de todos os males! (...) E é neste dia, precisamente neste dia que toda uma vida fica reduzida a um só dia. E neste único dia, ele vive toda uma vida. É neste dia que toda a sua vida se concentra num único frasco de essência. E é toda esta que o levou ao triunfo do suplício. O desespero tornado triunfo!" :)
Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: mike em 31.jul.2008, 01:43:36
Dançando Contigo

Tenho saudades de dançarmos os dois
Desafiando a gravidade desse corpo dormente.
De te pegar na mão e colar o teu peito ao meu,
Encontrar a tua pele e reviver no teu cheiro.
De sermos dois corpos que se entendem,
se enamoram soltos na companhia de uma doce melodia.
A favor da corrente vamos desenhando passos sem direcção
Sigo o lento pulsar do teu coração até me prender dentro de ti.
Esta noite fecho os olhos e liberto-me em movimentos
Experimentando a loucura deste lugar.

mike
Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: freira em 31.jul.2008, 01:51:09
sobre ela
 
 
 
PORQUE NÃO SABES NADA SOBRE ELA, DIZIA QUE
ELA NÃO SABE NADA SOBRE TI.                               
                                                                                                                 E FICARIA POR AÍ.
 
 
Quais seriam, as outras condições?
 
Tu dizes, que ela teria de se calar como as mulheres dos seus antepassados,
               submeter-se completamente a ti, à tua vontade,
                                                                                    submissa inteiramente como as camponesas nas herdades depois das colheitas quando extenuadas, dormindo, deixam os homens vir ter com elas __________
Isto para que te possas habituar a pouco e pouco a essa forma que completaria a tua,
              Que ficaria à tua merçê,
                                                 como as religiosas estão à merçê de Deus ___________
 
Outra noite fazes o que estava previsto:
 
Tu dormes, dormes com o rosto no alto das suas pernas afastadas,
                   encostada ao seu sexo,
                   já na húmiade do seu corpo no ponto onde ela se abre.
                                                                                                  No ponto onde ela se abre, ela deixa.
 
Outra noite,
 
Tu por distrcção, dás-lhe prazer e ela grita.
                                                                Dizes-lhe que não grite, ela diz que não
                           vai gritar mais.
                                                                Não grita mais.
                                                                Por ti não gritará nunca mais.
Todas as noites te introduzes na obescuridade do seu sexo, vais quase sem saber por aquela estrada cega. Às vezes ficas ali, dentro dela, durante a noite inteira para estares pronta, se alguma vez, beneficiando de um movimento involuntário da parte dela ou da tua, te vier a vontade de a possuíres novamente, de a encheres mais uma vez e de teres prazer,
                                                                                                                        só pelo prazer,
                                                                                                                       
                                                                                                                        só pelo prazer como sempre cego pelas lágrimas.
Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: HumanNature em 31.jul.2008, 04:44:19
Duelos

Tão complexo e mais antigo, digno de serões,
Duelo de titãs, duelo de egos, de fantasmas, de corpos,
Duelo de mentes, de humanos,
De comunhões.


A segurança que o espírito procura, o corpo corrói.
A busca pela perfeição, tão cheia de idiotices,
Realizações em aberto, como um mar de deserto,
Que não só seca, como mata, como mói.


Doze, são os meses, sete, são os dias,
Sei que devo, mas não largo, a arma que temo,
A arma que tanto guerreia como mendiga paz.


Gosto da inexistência do sentido,
Gosto da presença do corpo,
Mas será que só disto preciso?
Ou também da sua alma, do seu perigo?


Sempre as eternas dualidades,
Se precisamos dos santos,
Se nos livramos dos demónios,
Onde estão as nossas verdades?


Venham e vivam comigo,
Pobres são os diabos, santos são os deuses,
Corpos são as prisões, e de libertas, só as mentes…


Almas dizentes, corpos sedentos,
Noites famintas, dias vazios,
Ecstasy no sangue, para novos rebentos,
Novas almas de ouro, para corpos bentos.


Em chãos e terras rezei,
Como logo me despedi,
Desde ti, me converti,
E em duelos viverei.
Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: hecate em 31.jul.2008, 09:34:40
“Ela passou-se outra vez... Vai e volta, mas nunca fica...
Ninguém sabe o caminho, o caminho faz-se. Ela não faz nada, espera que alguém lhe indique um caminho ou, então, diz que apenas segue o caminho já traçado... Ela não caminha, arrasta-se pelo chão... Ela levanta-se, mas volta a cair. Ela sente um estranho e mórbido prazer em cair, diz que é uma tentação. Ela tropeça em todas as pedras, não se desvia. Ela pica-se em todas as silvas, não se preserva. Ela pára, fica algum tempo, depois segue adiante a olhar para trás, e volta ao ponto de partida...
Ela não sabe o caminho  para encontrar o Ser. Ela perdeu-se...”

“Eu rezo pela Alma perdida, e tu?”

(Hecate)
Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: titi077 em 31.jul.2008, 12:52:22
o Vento trouxe um dia
as palavras, palavras tuas
que eram verdades nuas
ditas naquele dia.

ao som da nossa música,
ainda vejo as palavras tuas
escritas numa noite,
essa noite de desespero.

um desespero verdadeiro
um medo de me perder
para sempre, de me perder
um medo verdadeiro.

eram palavras sinceras,
sentidas por nós.
sentimentos que não morreram
sentimentos que perduram.

apenas de mim
tenho esta certeza
que te digo com franqueza
que te amo sem fim.

preferia ter a certeza
que também me amas
e que não estamos juntos
pelos motivos de outrora...

AMo-te


Rovisco

(ainda tinha uma frase antes do amo-te, mas isso identificaria claramente a pessoa a quem dedico o meu pensamento e este poema, apenas ela sabe o que escreveu nessa noite)
Título: O meu livro
Enviado por: Riu em 31.jul.2008, 16:24:43
Ola1 Eu sou o Riu e sei k já fui uma beca chamado a atenção que não sei escrever bem. No entanto apesar de tudo o k dissem a respeito de eu escrer ou não escrever bem, eu escrevi um livro.
Eu coloco este tópico para saber a vossa opnião se vale ou não vale a pena dedicar-me mais ao meu livro, como consta ainda falta corrigir algumas partes do meu livro, ainda não o fiz simplesmente pk não tenho motivação e também não sei se a história é grande coisa, por isso gostava k me comentao sobre o prologo da minha história. Espero k gostão.

                                                            O EXERCITO  DE HARON
                                                                        e a
                                                          Irmandade do Renascimento


                                                                     PRÓLOGO:

                                                                 A TESTEMUNHA



           Num dia diferente de todos, em que as nuvens estavam plúmbeas, fazia a que o dia parecesse uma noite tenebrosa. Além disso, o dia estava frio e ventoso como se tivesse perto de uma tempestade furiosa.
    Nesse dia horroroso, decorria uma grande guerra entre humanos e o exército de Zamara e, até o próprio – o Deus da guerra: assim chamavam os humanos do continente Haladorn. Este era composto por vários reinos, os mais importantes eram: Neu-Parglam, Gongorn, Thoznad, Hulcus, Bancôr, Dahlia, Udin, Kedlor, Nargada, Zazma, Lerzil, Nozmorg, e as ilhas: Anow, Dorn, Taril e Muraw.
   Zamara era um terrível inimigo que os humanos temiam, por ser obscuramente o ser mais mortífero e malvado do mundo. Alastrou o seu poder maligno para dominar Haladorn através do maior poder já mais conseguido no mundo, isso é, as Espadas de Dragão, onde o possuidor tem um poder extraordinário. Usar a magia da espada e a força do dragão (onde transforma-se num dragão). O possuidor desse poder dava-se o nome de Guerreiro Dragão.
    Nesse dia toda a Haladorn estava em guerra total, Kandar foi para Neu-Parglam derrotar Zamara, só com o poder de Guerreiro Dragão, devido...     
   Zamara estava transformado em dragão (eis a força do dragão), onde lutava arduamente no céu, contra Kandar. Zamara em dragão era horroroso e maléfico, a sua cabeça era grossa cheia de escamas flamejantes. Olhos carregados de lava, com um resplendor quente de morte como os bicos dos seus cornos enormes enrolados. Seu focinho comprido com as mandíbulas de sabre, afiadas e compridas, só o susto em vê-las já era capaz de parar o coração com o medo da morte certa. Suas asas gigantes, rasgadas e flamejantes, quando movidas para voar, estas lançavam um calor intenso, eliminando todo o oxigénio ali existente. As pegajosas garras de lava, facilitavam a morte, derretendo o corpo com uma dor que ultrapassava todas as outras dores. A cauda era exageradamente  comprida, cerca de vinte metros, carregada de escamas flamejantes e de picos cortantes. Seu corpo aparentemente parecia de carne, mas não o era, um Guerreiro Dragão, ao transformar-se no seu dragão, tem de ter uma matéria viva no mundo, Zamara transformava-se em dragão através da enorme quantidade de lava que existe em Zazma, dentro dos enormes vulcões.
          Kandar era parecido, mas não tinha cornos, e todo o seu corpo era água onde brilhava com uma cor acolhedora, de néon. Kandar tinha muito mais água para se transformar em dragão, mas não era isso que o fazia mais forte.
          Estavam ambos lutando arduamente no ar. Enquanto lá em baixo no solo, havia uma enorme batalha entre humanos carregados de armas e armaduras, lutando contra criaturas horrorosas, chamadas zorcs, criaturas essas criadas pela magia negra.
          Estava um zorc a lutar com um homem novo, com uma ruptura na testa, que fazia os possíveis para matar a criatura. Esta tinha uns olhos gordos e negros. Seu rosto estava derretido que até podia-se ver os ossos, como o maxilar e a frontal. Estava coberto de armaduras que tapava o seu corpo, e tinha uma espada feita ás três pancadas, onde efectuou-a num rápido movimento para a frente, espetando no ombro do homem, onde este caiu para o chão gemendo de dor.
           A sua dor foi tanta que a sua raiva aumentou, e cortou o braço da criatura antropomorfa que caiu para o chão a escorrer de sangue e a rugir de dor. O rapaz retirou a espada espetada no seu ombro: com alguma dificuldade devido à dor insuportável. Levantou-se e espetou o coração da criatura, onde acabou por morrer finalmente. Rapidamente apareceu outras criaturas e, lá foi ele fazer o que estava destinado fazer, lutar!
           De repente aparecera um monte de crianças perto do homem, completamente aterrorizadas e algumas choravam.
           - Rothus! Leva as crianças daqui para o esconderijo, os zorcs estão por toda a parte, podem matar as crianças! – ordenou o homem para o seu colega que estava ao seu lado, com um aspecto parecido ao dele, mas com cabelo comprido.
          - Edvan! Mas antes preciso da chave para abrir a porta - pediu Rothus rapidamente indo proteger as crianças.      
           – Toma! – Atirou-lhe Edvan, uma pequena chave velha. Rothus apanhou-a no ar e apressadamente levou as crianças daquele sítio sangrento.
         Uma das crianças, com dez anos, que estava atrás do Rothus, foi empurrada para o chão por um zorc que correu para atacar um soldado. A criança que era um rapaz, estava vestido com uma roupa, simples, suja e rasgada. Era bonito, mas o seu estado visual não mostrava isso, com o cabelo pequeno, todo despenteado e sujo. Seus olhos sim, mostravam a beleza daquela criança mesmo todo sujo, olhos penetrante, olhos luminosos, olhos radiantes que soltavam os seus raios daquele magnifico azul ameno, no entanto também mostravam a marca do seu sofrimento, a dor por que terá passado e que continuava passando, naquela triste guerra, uma guerra que a dor dos homens se mostrava à vista, e ainda era pior naqueles que morriam sem ter ninguém por lamentar a sua morte.
   O rapaz levantou-se e perdeu de vista o Rothus, indo correr para junto de um muro, que continha pouco movimento de luta. Encolheu-se e tapou os ouvidos com as duas mãos, para não ouvir os gritos de morte das mulheres e dos homens. Os sons das casas a ruírem em todo o lado e o fogo a queimar o resto que sobrava das casas, assustou o rapaz ainda mais, começando a abanar a cabeça e a gritar baixinho.
        De repente, Zamara e Kandar apareceram lutando até à morte no ar, por cima do rapaz, que se levantou e começou a observar a luta completamente paralisado.
        Zamara abriu as mandíbulas e mordeu o pescoço de Kandar, que este rugiu de tanta dor, quase desmaiando, libertando um vapor branco, devido ao choque do reencontro da água e do fogo. No preciso momento da mordida, o rapaz deu uma espécie de um movimento brusco ao mesmo tempo deitando uma lágrima de um dos seus olhos azuis, que descera pela cara toda. Continuando a fixar o seu olhar para os dragões, que nesse preciso momento Kandar mordeu o peito de Zamara, libertando o mesmo vapor, o rapaz ficou no mesmo estado de choque. Zamara não rugiu, lançando apressadamente e ferozmente a sua cauda comprida a Kandar, enrolando-a no seu pescoço, começando a apertar cada vez mais para o sufocar. Depois de Kandar estar a enfraquecer e a perder a respiração, Zamara endireitou o bico da cauda, que estava solta e após tela hirta atrás da cabeça de Kandar,( preparando-se para lhe espetar). Mas antes disso, Zamara aproximou-se de Kandar já quase pronto para cair no chão, este diz-lhe rugindo horrivelmente.
   – Espero que gostes da morte! Kandar!
    Acabou por lhe espetar o bico da cauda na cabeça de Kandar, e ali tudo acabou, ele morrera. Depois disto o miúdo fez mais alguns movimentos esquisitos deitando mais que uma lágrima, ficando completamente chocado com o que acabara de ver. 
   Kandar estava a cair pelo céu escuro, onde se desfez em água, voltando para o seu corpo original com a espada na mão, a que apagava lentamente a sua luz de Néon, esta lhe saíra da mão. Zamara ainda não satisfeito, abre as suas mandíbulas e come Kandar em pleno voo, como se fosse uma refeição tão desejada.
           O miúdo ficou ainda mais aterrorizado do que já estava, fechou os olhos e sentou-se encostado ao muro, tremendo de medo de ser comido pelo dragão. Quando a espada de Kandar aterrou mesmo na sua frente, este assustou-se pensando que fosse uma criatura para lhe matar. Quando dirigiu o olhar, observou a espada com muita curiosidade, olhou para a pouca luz de néon que ela continha. Ele aproximou-se devagar dela, receoso mas firme do que queria fazer. Depois da proximidade do miúdo até a espada, esta liberta a sua luz de néon junto com água onde se fundem na frente do rapaz, transformando-se na cabeça de um dragão igual ao do Kandar. Rugiu horrivelmente alto para o rapaz, que recuou, devido ao susto. De seguida o dragão desaparece, desfazendo-se pelo ar frio.
           O rapaz um pouco desconfiado, olha para o céu para ver se o via, mas sem qualquer cerimónia, o miúdo pega na espada morta, sem qualquer luz ou  cor viva. Foge para longe da guerra que já estava mais que acabada, para os altos montes do Mato Alla, que ficava a sudoeste do reino Neu-Parglam.

                                                                                     Continua.........

Título: Re: O meu livro
Enviado por: EvilMadScientist em 31.jul.2008, 20:36:11
Não sei que idade tens, por isso vou comentar o texto na generalidade.

Espero que não leves a mal o que disser, vou ser sincero e objectivo.
Não escreves mal, mas também não és nenhum mestre. Tens alguns tiques literários que desaparecerão com a prática e leitura.
Continua a escrever, por favor! Acho que já teres escrito algo como o que li muito bom.
Em relação aos que disseram que não escreves bem...só tens de lhes provar o contrário.

Continua a investir na história, caso não dê em nada, pelo menos melhorarás as tuas técnicas e ficas com algo para mais tarde rever e trabalhar.



Pois bem, uns conselhos que acho que te irão ajudar (sou de ciências, não de letras, são conselhos puramente empíricos):

- Não uses sempre a mesma estrutura frásica se não o texto será um pouco monótono. Tenta variar a maneira como descreves as coisas.

- O já cliché: Show not tell. Com isto quero dizer: Em vez de escrever "Ele estava nervoso" fica mais emocionante "Ele suava em bica, os dedos estavam brancos da força que fazia ao agarrar a lança"

- Não queiras meter a informação toda de uma vez. " Este era composto por vários reinos, os mais importantes eram: Neu-Parglam, Gongorn, Thoznad, Hulcus, Bancôr, Dahlia, Udin, Kedlor, Nargada, Zazma, Lerzil, Nozmorg, e as ilhas: Anow, Dorn, Taril e Muraw." assim de chofre. Nem as pessoas vão decorar os nomes, nem fica interessante. Talvez seja melhor introduzir os reinos ao longo da história, descrever os vários exércitos, etc...

- Não descrevas em demasia, há maneiras de meter acção misturada com descrição- Ex: "Bormir. à falta de qualquer outra arma, investiu com o estandarte do reino contra o inimigo trespassando-o. O Azul de Gongorn ficou manchando de sangue escorrendo sobre a águia real."

(se me lembrar de mais alguma coisa meto)
Título: Re: O meu livro
Enviado por: Riu em 31.jul.2008, 21:00:24
bem, obrigado pelas dicas, tenho a certeza se fosses tu a escrever o livro ficaria bem melhor.
Meu livro tem cerca de 315 paginas, não foi facil mas também acho k foi a melhor coisa k fiz.
Bom, o k leste foi  só o prólogo, a historia completa do livro, é bem melhor xD, não kero ser convencido de maneira nenhuma, mas até tive ideias bem fixes. O meu livro é complectamente cheio de acção em termos de aventura, magia, e etc, gostei de criar esta historia, ainda sabendo k esto é uma trilogia, falta mais 2 livros para terminar a historia xD( acreditem k a continuanidade da historia nunca parará de ter acção continua, tenho muita imaginação xD, entao ela tem de servir para alguma coisa xD, eu já sei a historia da trilogia toda, pois é logico k saiba xD, o final é explendido :o, mas não sei se vou o escrever)
bom, agora saber essas maneiras de escrever posso dizer k me é uma beca dificil, era perciso tirar curso de linguas para saber isso. também eu não conheço muitos adjectivos, mas tento ir ao dicionario ver algumas cenas.
Título: Re: O meu livro
Enviado por: EvilMadScientist em 31.jul.2008, 21:12:38
"bem, obrigado pelas dicas, tenho a certeza se fosses tu a escrever o livro ficaria bem melhor."  lol acertas mal

E não precisas de tirar nenhum curso de línguas, nem todos os escritores são licenciados, pelo contrário.

Já agora, por curiosidade:

Autores de culto?
Título: Re: O meu livro
Enviado por: Riu em 31.jul.2008, 21:15:11
Sorry mas não percebi essa dos Autores de culto.
ha tu querias saber a minha idade, eu tenho 19.
pk disses k não escrevias o livro melhor k eu?
Título: Re: O meu livro
Enviado por: Riu em 01.ago.2008, 01:34:44
 ;D
Título: Re: O meu livro
Enviado por: titi077 em 01.ago.2008, 05:06:19
ele não escrevia um livro melhor que ninguém!!!

ele nem ler sabe, fui eu que lhe tive a ler o texto... lol

e riu não vale mesmo a pena tirar um curso de línguas para ser escritor...

(não querendo ser mau. Qualquer curso serve para ser escritor e estar no desemprego!)
Título: Re: O meu livro
Enviado por: corema em 01.ago.2008, 10:15:59
Valer a pena até vale... Estudar vale sempre a pena... Quem tira um curso de línguas aprende a escrever e a usar os recursos linguísticos de uma forma que ajuda imenso a escrever seja o que for. É como desenhar, qualquer pessoa pode ter um dom inato para desenhar, mas aprende-se e tirar um curso vale sempre a pena... Só quem é genial e tem um dom natural e espontâneo é que pode de certa forma dispensar o estudo, se bem que mesmo quem é genial não pode saber determinadas coisas sem estudar.
Independentemente de escreveres bem ou mal, coisas que os outros possam ou não gostar de ler, para mim, só o simples facto de teres escrito um llivro tão grande é de louvar. Significa que gostas de escrever, que te dedicaste a um projecto e que isso te trouxe alegria e satisfação. Mesmo que os outros possam não gostar do que escreves, o mais importante é que o fizeste por ti. A primeira pessoa para quem escrevemos é para nós próprios, não é para os outros.
Título: Re: O meu livro
Enviado por: Riu em 01.ago.2008, 12:49:43
A primeira pessoa para quem escrevemos é para nós próprios, não é para os outros.

Sim concordo contigo com essa frase.
mas no entanto é bom ser recolhecido pelo k fazemos, gosto de fazer as coisas para mim mas tb gosto de ser ilogiado pelos outros.
Título: Re: O meu livro
Enviado por: EvilMadScientist em 01.ago.2008, 13:03:53
Sabe sempre bem ter o ego polido, concordo plenamente.

Tiveste a resposta acerca de não ser melhor a escrever através da ilustre pessoa Rovisco  ;D

Autores de culto = autores que gostes

E tás a ver! Não sou o único a dizer que teres escrito isto tudo já é imensamente bom
Título: Re: O meu livro
Enviado por: Riu em 01.ago.2008, 13:19:28
Eu cá gosto da J.K Rowling, christopher Paolini e etc...(muitos já nao me lembro o nome xD)
Ainda bem k foi bom ter escrevido o meu livro, mas gostava de saber se o devia tentar melhora-lo, em termos de linguisticos para depois tentar publica-lo?
Título: Re: O meu livro
Enviado por: Adinatha em 01.ago.2008, 13:41:40
Gostei! Agora tens de seguir os conselhos, quanto ao tipo de escrita.Agora, imaginacao nao te falta! Nota-se mesmo a influencia do Paolini, que admiro muito!

Forcinha ai!
Título: Re: O meu livro
Enviado por: Riu em 01.ago.2008, 19:08:55
Gostei! Agora tens de seguir os conselhos, quanto ao tipo de escrita.Agora, imaginacao nao te falta! Nota-se mesmo a influencia do Paolini, que admiro muito!

Forcinha ai!

Hmmm sim, por acaso meu livro tem uma beca de influencia do Paolini e não só, da J.K Rowling, do escritor k fez o senhor dos aneis, mais ou menos meu livro é uma mistura entre 3 filmes k nós conhecemos: Harry potter, Eragon e Senhor dos aneis. 
Logo meu livro tem o trio perfeito para ser um livro com enorme socesso.. xD Tou no brinca, é só um sonho meu xD.
 
Título: Re: O meu livro
Enviado por: 12 em 01.ago.2008, 21:20:48
o que importa é a tua força de vontade e empenho.
nunca desistas ;)
Título: Re: O meu livro
Enviado por: Riu em 01.ago.2008, 22:24:52
o que importa é a tua força de vontade e empenho.
nunca desistas ;)

sim, quando tiver o meu novo portatil eu depois vou tratar do meu livro. Se o conseguir publicar eu gostava k alguns de vozes o comprasem xD
Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: Arms em 06.ago.2008, 03:39:33
Eros

Chegas nas madrugadas frias,
de face oculta.
Esse cruel espelho embaciado,
reflectindo,
exibindo uma possível metáfora.

Ocupas-me os pensamentos,
fiéis devoradores da minha essência,
em constante busca de respostas
por esta tão fatal atracção.

Despes-me a alma em versos,
de noite e de emoção.
E eu revelo-me, encantado,
às tuas possíveis facetas.

Chamo-te, possível Eros,
de noite e face oculta.
De desejos proibidos
e revoltas asas que batem.

Eu conheço bem as tuas palavras,
que ceifam o amor dos meus lábios.
Mas ignoro o teu olhar
e desconheço a tua voz.

Procuras-me por entre o silêncio
e, no silêncio, te observo,
despindo-te de coração e chama,
revelando essa alma que inflama.

E estes fluxos de almas e letras,
fundo-me contigo,
na tua presença ausente.
Estímulos de poesias.

Encontrei-te nas madrugadas frias,
enquanto me observas em silêncio,
atraído pela minha alma despida.
E entre nós o vazio, o abismo
de uma face oculta em metáforas e palavras.
E alma e letras.
- Arms 2008
Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: τοRoyalSizeΚΞ em 06.ago.2008, 03:42:33
Tum-tum pescatunga tá
Pescatunga laribê
Pescatunga tinga
Ó-é béri béri béri bé
Pescatunga laribé
Pescatunga tinga!
[smiley=bebado.gif]
Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: Adinatha em 06.ago.2008, 03:43:59

São 3 horas e 33 minutos. Que raio de hora, tarde como tudo e ainda repetitiva. O sono tarda em chegar; para passar o tempo, vejo como é tão doentio o ser humano. De todas as maneiras. Um homem com quem não tenho nada a ver, nem talvez nunca quisesse ter - e infelizmente os meus momentos de fraqueza foram demasiados - desafia-me para eu ir à porta de minha casa. Conversar, diz ele. Apenas um exemplo entre muitos. Caixa de e-mail. Insistem em me enviar mails de publicidade a sites pouco recomendáveis a quem queira manter a sua saúde sexual-mental intocável. Cambada de doentes... Nem sequer na típica incursão nocturna pela cozinha consigo desligar-me. Pego numa gelatina pré-fabricada, pré-mastigada, pré-digerida, abrir a embalagem, comer e deitar fora, ecoponto amarelo; cheia de E's e aditivos. Será que se comer muita gelatina fico mutante, ganho cor amarela? Os chineses comeram muita gelatina. Os pensamentos voam mais rápido que a velocidade de compreensão. Penso mais rápido do que penso? Volto ao computador. Mais um mail. Visita site de tal para veres mais filmes snuff como este. Imagens bloqueadas para sua protecção. Boa, vou conseguir dormir esta noite. Falo deste estado frenético a alguém de quem nem sei o nome. Mete mais meio e isso passa. Andas a meter os ácidos errados. Não me meto nisso, quero manter a minha saúde mental por mais uns anos. Rio-me quando me apercebo que já não resta muito. A minha mãe manda-me calar por me rir a estas horas,por não estar a dormir. Desligo. Suspiro. Respiro fundo. E agradeço por me teres mostrado alguma normalidade na vida. Shut off. Cama. São 3 horas e 44 minutos. Continua repetitivo, este relógio, esta vida.
Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: titi077 em 06.ago.2008, 10:17:37
R


Podia escrever tudo,
Tudo o que te descreve.
Mas das palavras que conheço
Nenhuma serve.

Podia dizer tudo,
Tudo o que senti.
Sei que não compreendes,
Mas se te olhar nos olhos entendes.

Todo o teu jeito de ser,
A tua doce voz que sai
Dos lábios que nunca beijei
Desses lábios com que sonhei.

O cabelo meu
Que cortei,
Por me lembrar o teu
Que toquei.

Esperei-te,
Respeitei-te.
E tu fugiste
Do que sentiste.

TJMR 7/Julho/2008
Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: Blur em 07.ago.2008, 21:42:37
Ok, não sei se é mesmo meu mas encontrei isto escrito com a minha letrinha de quando era muito putinho, como achei fofo resolvi alterar o género conforme a minha orientação sexual-afectiva e voilá:



Olá macacaquinho!
Tu não queres ser meu?
Tudo em ti eu gabo,
desde a cara ao r***.
Sou solteiro ainda
e tu és tão lindo!
Com a selva toda
para a nossa boda,
rios, árvores, céu,
tudo teu e meu
seremos felizes...
O que é que dizes?
Durante a semana
comemos banana.
Ao domingo, então,
papaia (ou mamão).
Quando acharmos pouco
comemos um côco.

Responde ao que eu digo
e casa comigo!
Se disseres que sim,
dou-te um amendoim.
Se disseres que não,
dou-te um bofetão.
Se disseres talvez
pergunto outra vez.
Lindo macaquinho
tu não queres ser meu?
Recebe um beijinho
do teu
         macaquinho.

[smiley=maluco.gif]
Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: τοRoyalSizeΚΞ em 07.ago.2008, 21:49:59
Ok, isto não deve ser meu mas encontrei escrito com a minha letrinha de quando era muito putinho, como achei fofo resolvi alterar o género conforme a minha orientação sexual-afectiva e voilá:

Olá macacaquinho!
Tu não queres ser meu?
Tudo em ti eu gabo,
desde a cara ao r***.
Sou solteiro ainda
e tu és tão lindo!
Com a selva toda
para a nossa boda,
rios, árvores, céu,
tudo teu e meu
seremos felizes...
O que é que dizes?
Durante a semana
comemos banana.
Ao domingo, então,
papaia (ou mamão).
Quando acharmos pouco
comemos um côco.

Responde ao que eu digo
e casa comigo!
Se disseres que sim,
dou-te um amendoim.
Se disseres que não,
dou-te um bofetão.
Se disseres talvez
pergunto outra vez.
Lindo macaquinho
tu não queres ser meu?
Recebe um beijinho
do teu
         macaquinho.

[smiley=maluco.gif]

LOL coisa fofa...como o macaco gosta da banana...nananã tiiiiii...debaixo da cama...e comiiiii
Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: Arms em 19.ago.2008, 15:23:36
Pedaços

Um dia desfaço-me em pedaços.
Pequenos pedaços,
ínfimos,
espalhando sobre o chão.
Apenas para que me recolhas,
grão a grão,
e me juntes de novo.

Um dia dispo a minha pele.
Este trapo velho,
usado e rasgado.
Apenas para te mostrar a minha alma.

Um dia entrego tudo o que tenho,
tudo o que sou.

Apenas porque um dia me entregaste um pedaço do teu coração.
Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: android em 19.ago.2008, 15:44:43
Finalmente desperto

Não sei quem fui noutra vida
E o que sou nesta
Na busca de encontrar algum sentido
Afastei-me da festa

Pisei os confettis espalhados pelo chão
Observei as mesas cobertas de iguarias
Saí pelas traseiras
E refugiei-me nas minhas fantasias

Sou tudo e nada em simultâneo
Uma indefinição em aberto
O melhor que consigo dizer
É que estou finalmente desperto

Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: Reborn em 04.set.2008, 01:00:37
Desapontamento



Começar, era assim no princípio…
Fluir como a pedra da montanha, com a brutalidade granítica do rio.
Abdicar de mim, abraçar o instinto.

Continuar, segurar o que já não sinto…
Choro o glácio céu… sonho uma existência alada
E acolho a neve em mim, no coração que é meu.
Dissolvido desapareço na bruma passada.

Continuar?
Acorrentado pelo frio à realidade apagada,
Dorido, desacredito e venero a Pedra, o ídolo,
A imagem que prometia… desaguada em nada.

Acabar?
Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: so_fia em 13.set.2008, 05:12:59
Sair pela rua veludosa e amolgada. Meus pés amalgados, minha alma maltratada até ficar boa. Boa de dormir, boa de nada. Não existir pensando. Olheiras, ancoras de emoções, alimento de, fibra transparente, que me vejo enexistente e aparente, procurando solidez, decisão, tenacidade.

Não tenho ninguém a quem dizer coisas profundas, coisas da alma. Todos tão frios e eu tão melodramamica, inventando umas linhas, para pôr este dia no calendário da existência dos meus dias, por vezes tão enexistentes, quase sem serem dias mesmo.

Noites pairando, até condensar particulas ao ponto estado de chuva sobre mim. Chuva que cai e me contorna e define a tranparência da minha existência, ora brilhante ora opaca. Colorada nos mesmos tons que os do mundo. Mundo meu, ora mundo povoado de todos.

Percorri todas as opções, caminhei por todo o lado. Eis findo o dia. Aqui me morro. Arranquei-me um pedaço de carne, e atirei-o a esta folha. Agora esvaio-me em sangue e adormeço flutuando nele!

Acabo aqui sozinha, procurando a libertação. Eu não vou ser escrava nem regulada, sofrerei com a ausência dos outros regulados!


by me...  :)
Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: What is in a name? em 25.set.2008, 02:34:56
câmara escura

mas
e quando por mais que digamos o mundo
ele não acontece?

eis-me aqui sentado
o mundo como entreposto dos ouvidos a cabeça entre as mãos nervosas
olho para um rio
digo que o caudal está a encher
mas há outras barragens outras carências energéticas a corromper a nascente
pego numa pedra toco-a acaricio-a lanço-a para longe
ao sentir a sua superfície lisa repetidamente amada
eu vejo
apesar de o rio ter um leito não me saciarei
apesar do caudal não terei um corpo à minha espera
apesar do tempo
apesar
do desejo e das mãos em punho as veias em evidência
as minhas palavras não conhecem outro ruído além do ranger de dentes

talvez com o chamamento encontre outro corpo
outra vocação ainda
talvez de tanto percorrerem uma pele imaginária ou um peito em expectativa
os dedos possam desenhar o rosto a uma página
tal como se desflora um sorriso
entre beijos
ou numa câmara escura

a voz
encontrá-la perfeitamente disposta na moldura
a respirar o mundo a recuperar do êxtase
abraçar o corpo levar o aroma o quarto a febre
ser louco e ser eterno
reconciliar-me com a chuva e com o granizo
abraçar-me faminto às rochas em brasa

saltar de olhos fechados com uma colisão nos meus braços
Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: sun_the_moon em 25.set.2008, 09:44:18

Amor...

Como explicar o Amor,
Sem falar na dor?

Como falar de um Sentimento,
Como explicar a Saúde,
Sem sequer perceber a Verdade?

Onde encontrar a resposta,
do porque se gosta?

Procurar num coração,
Procurar num dar a mão,
Procurar num beijo,
ou no mais simples desejo!

Não sei que resposta dar,
Apenas sei como te amar!

Sei como o teu corpo quero,
como pelo teu abraço desespero!

Mas continuo sem saber explicar,
o porquê de te amar!

As palavras não existem,
apenas gestos que insistem,
teimam em te acarinhar,
sem sequer perguntar,
o porquê de te amar!

Para quê então saber,
a razão de tanto te querer
para simplesmente te conhecer!

Para que o meu amor por ti,
possa livre e desinibido,
enfim...a cada dia crescer,
e em cada momento encontrar,
mais um motivo para tanto te amar!
Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: Mico em 25.set.2008, 21:32:11
Iniciativa

Um suspiro, um olhar,
Uma tarde de encantar.
Foi nesse dia sem esperar
Que o conheci e passei a admirar.

Há quem diga que é amor,
Há quem diga que é paixão;
É certo que é do coração
Mas traz um pouco de dor.

Passei por ele sem me desviar
Para tomar conta do seu ar;
Ele olhou para mim, foi de espantar
E até de arrepiar.

Sem mais força não pude esconder
Aquilo que estava a acontecer;
Sem mais vontade não queria travar
Aquilo que estava a começar.

Os sinais não consegui detectar,
As emoções não consegui demonstrar,
Só espero que não tenha de voltar
A ser tudo como era antes de começar.

Sem mais alento fui perguntar
À minha amiga se me podia ajudar,
Ela concordou sem questionar
E logo me começou a guiar.

Talvez por isso eu decidi acabar
Com aquela distância que nos estava a separar;
Fui ter com ele e falar
Até para me poder integrar...

by me!!! ;D
Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: Sorriso metálico em 25.set.2008, 21:36:03
nada de especial!escrito num moento repentino de inspiração, há já muito tempo...sem previsão de um começo e fim,uma vez que tenho um meio..lol

Na noite fria e escura ouviam-se passos fortes e vagarosos. Era Sofia que caminhava sobre a calçada.
De repente, os passos deixaram de se ouvir,  era Sofia que se tinha sentado no muro em frente da praia. Parou para olhar em sua volta e foi então que escutou as ondas a baterem na areia, e findou ao longe um farol que fazia fortes sinais de luzes para os barcos não se perderem. Perdida, assim se sentia Sofia, tal como os barcos à deriva no mar. Procurava afavelmente não sei o quê, talvez um pouco da sua identidade, um refugio no passado, num passado feliz, talvez.
O vento soprava de manso, vindo-lhe bater na cara, soprando-lhe ao ouvido, fazendo-a soltar um grande suspiro. Devagarinho uma lágrima caia-lhe pelo rosto, depois outro, e mais outra, até que começou aos soluços, a recordar-se do acontecimento que a marcara para o resto da vida…o cruel acidente de viação dos seus pais.
Sentia uma enorme revolta, por não ter podido fazer nada para que este fim trágico acontecesse.
Após um ano do acidente, ali estava Sofia sem saber quem era, a razão por ter sido ela a perder os pais. O negro da noite era tal e qual o estado de espírito de Sofia.
Agora que havia passado um ano ela estava mais distante dos amigos, mais fria, pois era uma angustia imensa e jamais ninguém poderia vir a substituir o enorme vazio que ela sentia, vazio esse que, outrora, era ocupado pelo amor dos seus pais.
E agora, que fazer? Perguntava-se a si mesma, sem ter vontade de regressar a casa, onde esperava encontrar alguém que aguardasse a sua chegada. A casa estava vazia, apenas permaneciam as memórias e as fotografias de outrora.
Deitou-se no chão, fechou os olhos e sonhou que tudo não passava de um sonho, em que os seus pais ainda estavam em casa, a qual era alegre, espaçosa e recebia os raios de sol. De repente, abriu os olhos, as lágrimas caíram face abaixo e enfrentou a realidade, a qual não passava de uma casa silenciosa, vazia e sem cor. Foi das muitas vezes que Sofia se sentiu realmente sozinha…coitada! Estava desesperada, desolada, tentando pensar e visualizar coisas bonitas, os campos verdes em flor, o sol a raiar nos campos de trigo, crianças a correr e brincar no parque infantil, mas especialmente, a sua infância que fora tão feliz, para poder diminuir a dor que sentia e que a matava de dia para dia.
Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: Livre-Mente em 25.set.2008, 22:29:42
Pedaços

Um dia desfaço-me em pedaços.
Pequenos pedaços,
ínfimos,
espalhando sobre o chão.
Apenas para que me recolhas,
grão a grão,
e me juntes de novo.

Um dia dispo a minha pele.
Este trapo velho,
usado e rasgado.
Apenas para te mostrar a minha alma.

Um dia entrego tudo o que tenho,
tudo o que sou.

Apenas porque um dia me entregaste um pedaço do teu coração.



Adorei Este ;)
Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: FalsoDeus em 26.set.2008, 14:08:32
Tem a ver com falhar
Tem a ver com a ampulheta
- alguém ta parte na cabeça -
e sentes a areia a escapar.

De tonto, vomitas
Rancoroso, choras
A areia foge depressa demais
Quebrado e fraco, lentamente cais

Ficas assim, partido no chão
Vazio de sentimentos, vazio de razão

A culpa foi tua.

Suplicamos a Deus pelo que não temos
Pecamos por procurar o que não merecemos
Não existe panaceia sem efeitos secundários
E assim sufocamos no lodo em que mergulhamos
Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: Mico em 26.set.2008, 21:29:48
Alternativa

É preciso haver imaginação.
É tudo tão monótono e parado...
É preciso haver criação.
Parece que o mundo está atado.

Ah! Se acontecesse enfim qualquer coisa!
Se o homem começasse a pensar
Em vez de desesperar,
Se o homem pudesse acabar
Aquilo que tenta sempre criar.

Talvez não deva ser assim;
Afinal toda a gente anda a pensar
E é apenas de pasmar
Aquilo que eles fazem ainda assim.

Era melhor aprender a sonhar
Do que andar para aqui a desesperar.
Porque é da nossa imaginação
Que um novo mundo pode despertar.

É urgente o amor,
Entre nós e toda a gente.
Eles não sabem que a paixão
(como os sonhos)
Não é nada indiferente.

E apesar de tudo isto
Temos também de dar razão:
Nos dias de hoje ou nos tempos antigos
Não preciso de menos que todos os meus amigos.

by me, mas com partes de outros poemas... um trabalho para a aula de português!  ;D
Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: Arms em 01.out.2008, 21:56:18
Tenta-me

Ofegante. A tua respiração.
Húmida
Quente
As gotas frias do teu suor sobre a minha pele quente.
O bater do teu coração,
ecoando sobre o meu peito.
Sussurras nos meus ouvidos
pequenas palavras quebradas.
Vê as gotas frias no meu corpo,
os arrepios.
Os pelos da minha pele cheias de electricidade,
e a tua pele encostada à minha.
Chocas e trepidas.

Moves-te por cima de mim como uma esfera,
prometendo o paraíso,
prometendo as estrelas.

E, enquanto as tuas gotas se fundem em mim,
entrego-me, uma vez e mais outra,
e outra ainda,
aos pecados deliciosos dos teus beijos.

Permanece aí, como uma gota que se recusa a cair,
e brinca com a minha tentação.
Aí, a segundos de mim,
a uma distância eternamente próxima
e incomensuravelmente distante.
Tenta-me. Testa-me. Usa-me. Ama-me.
Ama-me.

Arms - Luxúria, in Pecados de Mim (http://sins-in-a-bottle.blogspot.com/)
Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: Allen em 01.out.2008, 23:08:59
Hoje vim para casa pelo caminho que costumo fazer todos os dias. À hora do costume, pelo percurso habitual. O rio à minha esquerda, o casario à direita; como era esperado, nenhum dos dois tinha trocado de lugar.
Cruzei-me com os meus conhecidos habituais, não gente de carne e osso, coisas simplesmente. O eléctrico, a ponte, o bairro ao longe, o casario na outra margem, as palmeiras, o farol. Conheço-os de nome, de falar neles, de os usar como cenário das minhas histórias, de serem usados como cenários nas histórias dos outros...
Aqueles homens sentados ali à volta da fonte na alameda, de que falam? Em roda, discutem entre si, à antiga ou, como eles dizem, com gana. Do outro lado desce uma mulher, atarefada como todas as mulher estão às onze da manha. Uma mão levanta-se deste lado, um sorriso aberto e descarado do outro – não é o Bom Dia seco dos que inventaram as boas maneiras descartáveis; é o pessoal e intransmissível de que de tanto se fala, está na voz de quem o diz, recolhe o ambiente do lugar e chega, pintado por essas cores, a quem o ouve.
Ouve-se uma gargalhada da mulher, ouve-se pintada pelo eléctrico, pela ponte, pelo bairro, pelo rio. Os homens voltam à discussão; algum que se exalta e logo vira as costas, dá dois passos e volta à roda. Redimiu-se neste gesto; os ressentimentos o rio que os leve. A roda está refeita, de pressa se volta à conversa que daí a um bocado chama a obrigação do trabalho.
Paro ao pé deles, mas nada lhes digo, não tenho o eléctrico, a ponte, o bairro e o rio como amigos (talvez este último o tenha), não iriam entender as minhas palavras, pintadas por outras cores que não estas. Paro e baixo o olhar.
A mulher sai do café, riposta com nova graça em direcção à roda. A graça passa também por mim e pelo o eléctrico e pela ponte, pelo bairro, pelo rio e entra na roda também pintada com a minha cor. Ergo o olhar e percebo que já me entendem. Sorrio descarado, como a mulher me ensinara, para a roda e para o outro lado da rua. Recebem-no com as cores que pintam a alameda, mais as que trago de casa, mais as que trago do sítio para onde vou. Sinto então que faço parte de alguma coisa.
Amanhã não estará lá a roda nem a mulher. Estarão outros, meus ilustres desconhecidos; e estarei eu, mais o eléctrico, a ponte, o bairro e o rio. Não nos reconheceremos, mas os nossos quatro amigos encarregar-se-ão de fazer as devidas apresentações e então voltaremos a fazer parte de alguma coisa.
É a única certeza que tenho do que acontecerá amanhã.

Alameda do Cais das Pedras.
Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: dante cry em 02.out.2008, 16:23:31
Folha alta

Folha da árvore folha da árvore
de tão alta que estás
nasceste no local mais alto
da árvore onde te libertarás.

O outono chegou
e a árvore se despe
sente-se o gelo no teu caule de união
as tuas irmãs ja cairam há muito
no local onde reina o caos da perdição.

Agora és a unica que cai, e desesperas no cair
vez o teu futuro a aproximar-se cada vez mais
na dança da descida, num vento a fluir
chegas-te ao nivel da igualdade, o chão vestido pelas tuas irmãs
e vez a altura donde começaste, e como acabaste.

Começa o caos, e perdes-te pela canção dos ventos
começa a viagem da confusão
secas cada vez mais, e rezas para o dia do acentar, do descansar
e lembras-te sempre, de como foram bons os dias calorentos
e de como eras alta sem te preocupar.

Mas ouviste as tuas irmãs no seu futuro descanso
de não interessar a altura que se nasça ou mais alta brotar
todas nós nos juntamos no chão, ao mesmo nivel
pardas, perdidas até assentar.

by me : )

Folha alta- Poema da igualdade
Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: FalsoDeus em 03.out.2008, 00:10:17

Mas Existe.


O que é isto que nos leva em frente,

sabendo quão árduo é o caminho,

este labirinto de percursos, ideias e gente

capaz de nos esmagar antes de termos prosseguido?



O qué é isto que nos deixa confiar,

— esta vida é a minha, partilho-a contigo —

esta ansiedade que nos obriga a arriscar

antes do tempo nos raptar um amigo?



O que é isto que nos corrói

esta acidez que vai sufocando a criança;

cada sonho que nos destrói

converte-se em cinismo devorador de esperança



De repente, o véu cai:

o sofrimento esculpe as rugas

a desilusão desfoca os olhos

a perda entorpece as mãos

a amargura seca a saliva

somos troncos ocos num furacão



Qual esperança?

Qual sentimento?

Qual razão?



“Andamos nós todos a falar sozinhos”,

ainda que sozinhos não tenhamos nascido

E acabamos por nos arrastar em frente,

por muito violentamente que a vida nos tenha batido







O que é isto que dobra as pessoas como papel

O que é isto que rasga sonhos como pano

O que é isto que apaga vidas como pavios

O que é isto que quebra almas como vidro



O que é isto que nos empurra e depois nos ergue,

lentamente,

sofridamente,

quando mais nada o podia fazer?


 

Não sei, mas existe.
Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: Shiyo em 13.out.2008, 14:21:52
Pensar algo vago
Sem sentido, direcção...
Sentir, ainda menos
Evitar aquela sensaçao
Que tenta insistentemente
Corroer-me por dentro

A tua ausência mata,
Pouco a pouco
Cada pequeno fragmento do meu ser
Separa-se, parte-se, desaparece,
Num mar revolto
A que chamo o meu ser

E ao olhar para trás
Nada vejo
Para além da espuma que as ondas na praia deixaram
Uma espuma de felicidade
Eterna da sua própria maneira
Mas que desaparece num instante...



E fico só...



by: Shiyo
Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: xXxPePexXx em 13.out.2008, 16:22:43
Sentimento

Se a felicidade existe
a sua fonte é rara ou
simplesmente...
não existe.

Por cada lagrima derramada
abre se uma ferida rasgada
penosa dolorosa.
quando o abandono
se apodera de nós
e a magoa fala mais alto...
O coração chora e a minha voz
some se num eco mudo...

Para os que sofrem sozinhos
partilho o meu sofrimento
como se do meu se tratasse.
dos que tudo teem sinto inveja
ódio, rancor...
especialmente daqueles
aqueles que tudo teem sem
nada darem em troca.

Não me considero mártir mas
a dor tem sido minha companheira.
digo o que sinto sem ter medo,
não vejo mais o porquê de ter medo
pois não existe mais
sentimento.

Fico com restias de esperança
e pedaços de desejo de um tu
que não encontro
e um eu que já nem vejo...

by xXxPePexXx, in Corner Of My Own Mind (http://cornerofmyownmind.blogspot.com/)
Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: Shiyo em 13.out.2008, 17:23:32
Quem querias que fosse


Vejo tudo o que não vejo
E não vejo tudo o que consigo ouvir.
Pois oiço com o coração de quem vê
Parte de si, partir

Nunca te perguntei os porquês
Sabendo que não queria saber
A ignorância é uma bênção
E assim quero perecer

Talvez estejas agora completo
Embora mantenhas o discurso
Usado, gasto
De como sou o único que o poderia fazer acontecer

Pois hoje digo-te:
Não quero! Não serei eu
A tornar-te o homem
Que querias que fosse eu…


by: Shiyo
Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: dante cry em 14.out.2008, 17:45:15
O começo

saber que vou fazer parte de ti
saber que serei teu
saber que te amarei
não ter duvidas do que sinto

amo-te
amo-te
amo-te

saber que serei eu proprio contigo
saber que serei sincero
saber que serei honesto
não ter duvidas do que sinto

amo-te
amo-te
amo-te

saber que te farei sorrir
saber que te darei prazer
saber que te escutarei
não ter duvidas do que sinto

amo-te
amo-te
amo-te

saber que estarei contigo
saber que te cantarei
saber que te contarei historias
não ter duvidas do que sinto

amo-te
amo-te
amo-te

Fazer parte do amor que tu partilhas, fazer parte do teu começo... digo-te por palavras sinceras do meu coraçao, mas não te digo já
meu amor, o meu mundo gratidão, quero que o começo te diga que sou honesto e sincero para ti, que sou amor para ti, nada mais quero
que o teu simples gesto de um beijo, e um futuro pensamento que erradias no teu abraço. Amo-te

by me : )
Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: Shiyo em 22.out.2008, 16:40:07
sente-me...
sente-me da maneira como te sinto,
como te desejo...

por mais que lute ela cai,
sozinha e triste,
rola pela face, pura e cristalina.

Não é senão por minha culpa
Mas não me foi dado a escolher:
Se amar fosse uma escolha
Não estaria agora a sofrer...

E no entanto sofro.
Perco o sono algures no meu mar de emoções...
Não durmo.
Perco-me a mim mesmo, sinto-me afogar...
Estou sozinho.
Perco-te a ti... ou...
Nunca te tive.
Perco a noçao do tempo, a eternidade...
Morro aos poucos...
Perco a esperança, só peço para que pare...
Eu desespero...
Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: I Looove Cookies em 25.out.2008, 15:24:53
   Anseio por aquilo que não posso ter. Tenho aquilo que nunca pedi para ter. Estou farto de sofrer, estou farto de filosofar, estou farto de me iludir e por isso penso. Penso em algo que não tem nem cor, nem cheiro, nem sabor, nem forma, nem calor. Transformo-me em algo que não sou, torno-me naquilo que nunca ambicionei ser e apesar das adversidades da vida, tudo é belo no seu modo peculiar e infinito, neste mundo cheio de encontros e desencontros!
   Canto juntamente com o cisne, morrendo para poder depois renascer nas asas quentes da Fénix, que é o teu Amor. Nada jamais poderá destruir o Arco-Íris da vida sem nosso consentimento, pois tudo o que temos é único e ninguém o pode desintegrar, excepto tu. És a cura e a doença, o bem e o mal, o novo e o velho, tudo e nada… És o que és e eu sou tudo o que quiseste ser, mergulhando no fundo do oceano de lágrimas que a nossa ambição me fez derramar.
   Agora durmo, durmo o sono do herói que perdeu a guerra e já não tenho a Fénix para me ajudar a sair do abismo em que caio, onde continuarei a cair até ao fim do mundo, mundo que já não é doce como o néctar dos Deuses.
07/02/2006
Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: xXxPePexXx em 26.out.2008, 16:37:31
Só...

A solidão é escura,
Negra e sombria,
Uma verdade bem dura,
Uma verdade bem fria.

A solidão também mata,
Fere, pisa e destrói,
Uma ferida que maltrata,
Uma ferida que dói.

É um pensamento que assusta,
É um medo que vive,
Uma doença que barafusta,
Uma doença que tive...

Tive, tenho e terei...
Pois nunca cura haverá,
Dela me escondo e esconderei,
Mas sempre (ela) me encontrará.

Quero continuar a viver,
A minha vida não é tão má,
Mas ela faz-me morrer,
É uma pedra que em mim há.

A solidão é essa pedra,
E bem dura, por sinal,
Eu bem a tento destruir,
Mas fica sempre igual.

É semelhante a um fracasso,
Essa solidão relutante,
Tudo o que fiz e agora faço,
É no fim, fracassante...

Tanta tristeza me afunda,
No meu pranto de lágrimas mortas,
Deixa em mim essa mágua profunda,
De ter fechado todas as portas...

by xXxPePexXx in cornerofmyownmind (http://cornerofmyownmind.blogspot.com/)
Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: B.Fly em 26.out.2008, 18:46:47
… as palavras cruzaram-se muito antes dos olhares e neles reconheceste-me o brilho que te encantou e que te fez vibrar apenas no 1º olhar.

Abriste as portas do teu coração e deixaste-me levar-te ao sabor do tempo que teimava em não parar sempre que estavas perto de mim.

Levei-te na minha fantasia e prendi-te na minha utopia, fiz-te refém do meu cheiro e escrava do meu sabor, encontraste o conforto na minha pele macia em que tocavas e no meu desejo o teu Amor.

Deixei que me Amasses com a alma e em troca sentiste na tua pele o sabor da paixão, da entrega e da tranquilidade.

Sentiste na tua pela a sede saciada, a loucura curada e a entrega arrebatada.

Sentiste na tua pele o cravejar da paixão inscrita com as palavras do amargo sabor do Adeus e nela permanecerá a dor lancinante e aguda que suportaste penas por te Amar.



Escrito por:

B.Fly

Textos de gaveta.

Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: Livre-Mente em 26.out.2008, 22:39:43
" Se não estivesse fora de moda
eu iria falar de amor
Daquele amor sincero olhos nos olhos
frio no coração
Aquela dor agradável
de ter muito medo de perder tudo
daquela vontade de repartir
de conquistar todas as coisas...
Mas não para retê-las no egoismo  material da posse
mas doá-las no sentimento nobre de amor..

Se não estivesse fora de moda..
eu iria falar de sinceridade
sabes aquele sentimento
de felicidade respeito mútuo
e outras coisas mais..

Aquela sensação que embriaga mais que a bebida.
Que é dar numa pessoa só a soma de tudo
o que ás vezes procuramos em muitos..
A admiração pelas virtudes aceitação dos defeitos..

É sobretudo o respeito pela individualidade
que até julgamos nos pertencerem
sem o direito de possuir..

Se não estivesse tão fora de moda
Eu iria  falar de amizade
o apoio o interesse a solidariedade de uns
pelas coisas dos outros e vice versa
A união além dos sentimentos
e a dedicação de compreender para depois gostar..

E depois eu iria até quem sabe falar sobre algo como
a felicidade
Mas é pena que a felicidade
como tudo mais há muito tempo já está fora de moda

Sabes uma coisa
Sinto me feliz por estar tão fora de moda! "


Ficas te fora de moda!! :'(

Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: Arms em 27.out.2008, 01:44:15
Deixaste-me à espera na chuva

Tristeza e mágoa. Vazio. Pingando do meu queixo enquanto as gotas frias destas chuvas de Novembro escorregam pela minha nuca. E as gotas que escorregam dos meus olhos em perfeitos pavimentos, estilhaçando num som mudo no chão. Abafados pelo som da chuva. Um som quase ensurdecedor de água, lágrimas e mágoa. Como se a minha alma gritasse dos confins do meu ser.

Estou completamente só. Estou completamente só e estou completamente molhado. Rindo numa tentativa de apaziguar o vazio que me enche por dentro e que parece querer fazer o meu peito impludir. Deixaste-me aqui à chuva. Esperando... Esperando por algo que se recusa a aparecer. E algo ruptura dentro de mim.

E estou só. Sempre foi assim. Mesmo contigo. Comigo. Com toda a gente. Vivendo num lugar onde ninguém alguma vez conseguiu entrar... perdido dentro de mim mesmo. Como se eu estivesse a viver a vida de uma outra pessoa que não eu, sendo arrastado pelas decisões daquela figura robótica.

Olho para os meus sonhos. Mais um belo sonho. Só de relance porque não mereço isto. E lembro-me de como os meus sonhos me faziam sorrir, mesmo quando estava triste. Agora só me lembro daquilo que nunca tive. Os meus sonhos destroem-me, pedaço a pedaço, por dentro. Estou preso pelas correntes dos meus erros do passado. Tão cansado... nem consigo dormir.

Não me lembro de como aqui cheguei nem o como tudo começou. Enterro a minha cara nas minhas mãos enquanto estes sentimentos inúteis se escapam. Não sei o que dizer. Já nem consigo falar.

- in, O Coleccionador de objectos (http://reflectmyself.blogspot.com/search/label/Coleccionador%20de%20objectos). Arms 2008.
Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: Pure Intuition em 27.out.2008, 01:56:08
O dia em que o tempo morreu

Hoje perdi a minha casa,
pingos de uma chuva cuidadosa
marcam o chão
enquanto vagueio pelas torres
que sustentavam o tecto,
e vejo o reflexo das minhas pernas,
nos lagos que nasceram à volta,
as pessoas olham à volta,
reflexos inconscientes
loucos talvez,
tenho medo de cair..
Hoje o almoço foi cedo,
corri para o campo e cai
ouro derramado
e lágrimas a baterem-me
na pele
e eu sem a consciência para sentir.
A lua parou no céu,
senti pessoas a sofrer à minha volta,
as vinhas cobertas de alcatrão
e flores pregadas às paredes
Caiu a noite,
o tempo perece,
será preciso dormir..

Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: melpomene em 27.out.2008, 19:39:49



E de deus fez-se a estátua
E a estátua derreteu de solidão
E fez-se a luz
Morreu sozinha.

Pobre estátua, antigo deus,
Pobres olhos tristes,
De verem renascer o antigo mundo,
Agora transfigurado.

Pobre mão que antes iluminava o mundo.
Agora está estendida para a frente,
Numa pose empedernida,
Mão mirrada, empoeirada.
E o deus fez-se mendigo
E morreu sozinho.

Frederico Coelho
Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: FalsoDeus em 30.out.2008, 23:14:14
(o texto está um bocado desencorajador ao nível do tamanho, mas acho que se lê bem)

Sete Pecados Mortais: Ganância



  Por vezes demais são as mãos comparadas ao carácter e ocupação de um indivíduo. Por vezes demais essas comparações falham flagrantemente, e apenas o humor pode salvar os perpetuadores de tão aberrante juízo de valor. As pessoas têm destas coisas, destas quedas das quais se riem como que para fingir que não lhes doeu no ego. Estava-lhes no sangue, na necessidade de ser aceites. Ele sabia disso, claro, e sorria sempre que confrontado com tão básica condição humana.

  Mesmo agora, recostado confortavelmente na sua cadeira de baloiço - daquelas que chiavam após anos de abusos sofridos às mãos de netos inquietos - deixava o seu olhar percorrer lentamente as páginas de uma qualquer obra literária que lhe fora recomendada pela mulher com um sorriso afável. Não que estivesse a ler um pingo do que estava escrito; não lhe interessava minimamente, perdera o fio à meada quando a história começara a meter descrições aprofundadas sobre o passado de um qualquer fulaninho de tal sem interesse nenhum. Ainda por cima as letras eram demasiado pequenas, e os seus olhos excessivamente baços, quase opacos, para os forçar a ler aquela aborrecida sopa de letras.

 Não, não estava a ler. Simplesmente usava o livro como um fio condutor para os seus pensamentos, o chiar da cadeira como companhia e o desejo de pegar num cigarro e de se deixar sublevar pelo prazer tóxico do tabaco como forma de abafar os sons que vinham do andar de baixo, onde a sua família tagarelava animadamente. Havia algo na forma como as palavras eram conjugadas - no próprio emprego de termos como "saudosista" - que o deixavam a suspirar de si para si. E eram roucos e fatigados os seus suspiros, cheios de um significado futil, dando a entender que os soltava no desejo de que o chiar da cadeira - a sua única companhia - compreendesse o seu significado.

  E pronto, lá estava novamente, o autor! (ou seria uma autora? bem, não valia a pena verificar) Voltara a falar de mãos e pessoas, dando indícios de que ambos eram a mesma coisa. Ou então - agora que pensava bem - talvez não fosse isso, talvez já estivesse tão perdido que a profundidade literária de tudo aquilo o ultrapassasse. Bem, não interessava. Soltou outro dos seus suspiros, honesto para variar, ainda que a sua semelhança com um cão a tossir fosse notável. Pousou o livro nas pernas, pigarreando, apressando-se a vasculhar o bolso esquerdo pelo tão desejado cigarro. Teve que se contorcer um pouco no lugar (o que, tendo em conta o seu peso, lhe dava o curioso ar de um porco a debater-se no matadouro) até conseguir retirar o maço esmagado.

  Pegou num cigarro amarrotado, não fazendo caso disso. De imediato, pousou o maço numa mesinha-de-cabeceira à sua esquerda, tendo o cuidado de retirar o isqueiro. Segurando o pequeno objecto entre os lábios, acendeu-o. Sugou o fumo com avidez, uma avidez que lhe era característica. Todos os seus movimentos eram ávidos; já a sua falecida mãe dissera vezes sem conta "quando lhe dava mamar, o coitadinho parecia incapaz de se sentir satisfeito!"

  Já estava a recordar a mãe! Ah, como a amara! Fora horrível o facto de ela ter tido de partir, mas todos temos de ir, não é verdade? Nem valia a pena pensar nisso. E assim, deixando-se levar pela nicotina, começou a apreciar as próprias mãos.

  Ali estavam mãos invulgares: eram sapudas, de veias pouco visíveis, a pele algo esticada e rugosa da idade, unhas quase imperceptivelmente amarelecidas. Eram as mãos de um velho, as suas. Quem olhasse para elas, nada mais teria a acrescentar. "Essas são as mãos de um velho", diriam. E ele acenaria. Ele aceitaria tudo como se aquelas mãos não tivessem devorado pessoas de um trago, como se aquelas mãos não tivessem sido magras e fortes, usadas para todo o tipo de tarefas, fossem elas a entrega de uma encomenda ou o pressionar de um gatilho, como se aquelas mãos não tivessem movido montanhas, levando-as para longe de quem delas realmente precisavam.

  Aquelas mãos fizeram muita coisa, pensou para si, puxando o fumo de novo para o seu tórax. Expirou com agrado e indiferença. Aquelas mãos, que tanta coisa fizeram, nem sequer valiam aquela sua breve reflexão. O passado era o passado, e não se arrependia de nada. Deus tratara de o absolver, e a sua mãe é que fora uma tola, uma santa - Deus a tenha - que já o devia ter desculpado pela sua frieza. Nada daquilo importava, na verdade. Trouxera muito de bom para si e para a sua família: eram felizes a comprar livros muito inteligentes, a pôr cadeiras de baloiço a chiar, a fazer jantares de Natal com discussões à porta fechada, a ser uma família como qualquer outra. Ninguém o podia apanhar agora, nem a ele nem a nenhum dos seus. Sabia demasiado sobre as pessoas certas, sabia fazer o Sistema dançar nas suas mãos de velho afável, sabia deixar cada um à vontade de rir da sua incapacidade de lhe fugir.

  Era muito simpático da sua parte, demonstrava muita preocupação para com os outros, o que enchia a sua barriga de orgulho, deixando o seu coração a sufocar em massa gorda. O médico avisara-o, claro, mas o homem da bata branca fora demasiado arrogante, demasiado seguro, convencido de que ele é que sabia do que estava a falar. Não percebia nada do altruísmo glutão que tinha em mãos (umas mãos de pianista, sem dúvida, ninguém acreditaria que aquelas mãos alguma vez conseguiriam exercer tamanha profissão. Talvez essa fosse a fonte da sua incompetência). Receitara uma data de porcarias para um caso de ossos largos (e toda a gente sabia que os ossos largos não tinham cura).

  O que tinha era tosse. O que sentia era cansaço. O que expirava eram suspiros roucos e fétidos. E transpirava, oh! se transpirava! Ossos largos e medicamentos não combinavam. Deus perdoava-o, e a sua mãe também. As suas mãos eram velhas e gastas, o seu bafo fétido como o de um morto. O seu olhar baço, ilegível. E transpirava, agarrado à gordura que enjaulava o seu coração, ao seu eterno altruísmo. Medo para quê? Perdão para quê? Tinha um lugar no Paraíso para si, já não podia temer que o descobrissem ou roubassem o que nunca deveria ter sido seu.

  O suspiro saiu-lhe longo e rouco por entre um sorriso afável, e o coração não aguentou mais toda a boa vontade que o rodeava: com uma pontada algo familiar, dobrou-o, forçou-o a agarrar-se com ainda mais força ao peito. Aquela posição de humildade era-lhe estranha, aquela dor superior às outras. Tossiu e arfou como um cão: Não estava com medo, não estava em pânico, não era um pecador, não era má pessoa, era altruísta, era generoso, era uma barriga cheia de boa vontade. O Paraíso esperava por si.

  Por fim - num momento quase tão orgásmico como o da nicotina a masturbar o seu sistema límbico - o velho afável resvalou e desfez-se no chão, o livro esmagado pelo seu corpo, as suas mãos de velho caídas aleatoriamente; o seu coração não conseguira suportar o peso do seu altruísmo.
Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: I Looove Cookies em 30.out.2008, 23:43:52
   As palavras que nunca te disse não são fáceis de transmitir. Chego mesmo a pensar que não existem, ou melhor, ainda não existem. Acho que tenho de ser eu a inventar tais palavras. Talvez sejam de um outro mundo, um mundo em que nem eu nem tu temos controlo. É um mundo em que as palavras são o que menos importa, são os mais pequenos gestos que mandam. Gestos de carinho, de amor, de amizade. Um local onde um só olhar vale mais do que mil palavras. Onde é esse mundo? Dentro de mim? Dentro de ti? Não o sei, de certo, acho que ninguém o sabe e julgo que nunca haverá quem o descubra. Estas são dúvidas que me assombram a mente e envenenam o espírito. Nunca nada nem ninguém havia conseguido iluminar-me, até chegares tu! Abriste-me a mente e obrigaste-me a pensar de outro modo. Tornaste-te naquela luz ao fundo do túnel e o meu é o mais negro que existe, mas não te consigo alcançar. Foges quando me aproximo e ficas mais distante a cada passo que dou e por isso sofro. Sofro muito. Sinto a tua falta. Preciso da tua presença. És importante para mim e para a minha vida. Não o posso negar. Acho que vou terminar por aqui. Custa-me a escrever estas palavras, porque afinal, esse foi o motivo de estas serem as palavras que nunca te disse.
Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: Livre-Mente em 01.nov.2008, 22:39:39
   As palavras que nunca te disse não são fáceis de transmitir. Chego mesmo a pensar que não existem, ou melhor, ainda não existem. Acho que tenho de ser eu a inventar tais palavras. Talvez sejam de um outro mundo, um mundo em que nem eu nem tu temos controlo. É um mundo em que as palavras são o que menos importa, são os mais pequenos gestos que mandam. Gestos de carinho, de amor, de amizade. Um local onde um só olhar vale mais do que mil palavras. Onde é esse mundo? Dentro de mim? Dentro de ti? Não o sei, de certo, acho que ninguém o sabe e julgo que nunca haverá quem o descubra. Estas são dúvidas que me assombram a mente e envenenam o espírito. Nunca nada nem ninguém havia conseguido iluminar-me, até chegares tu! Abriste-me a mente e obrigaste-me a pensar de outro modo. Tornaste-te naquela luz ao fundo do túnel e o meu é o mais negro que existe, mas não te consigo alcançar. Foges quando me aproximo e ficas mais distante a cada passo que dou e por isso sofro. Sofro muito. Sinto a tua falta. Preciso da tua presença. És importante para mim e para a minha vida. Não o posso negar. Acho que vou terminar por aqui. Custa-me a escrever estas palavras, porque afinal, esse foi o motivo de estas serem as palavras que nunca te disse.


Vejo me e revejo me nas suas Palavras I Love cookies..
Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: I Looove Cookies em 01.nov.2008, 22:48:19
   As palavras que nunca te disse não são fáceis de transmitir. Chego mesmo a pensar que não existem, ou melhor, ainda não existem. Acho que tenho de ser eu a inventar tais palavras. Talvez sejam de um outro mundo, um mundo em que nem eu nem tu temos controlo. É um mundo em que as palavras são o que menos importa, são os mais pequenos gestos que mandam. Gestos de carinho, de amor, de amizade. Um local onde um só olhar vale mais do que mil palavras. Onde é esse mundo? Dentro de mim? Dentro de ti? Não o sei, de certo, acho que ninguém o sabe e julgo que nunca haverá quem o descubra. Estas são dúvidas que me assombram a mente e envenenam o espírito. Nunca nada nem ninguém havia conseguido iluminar-me, até chegares tu! Abriste-me a mente e obrigaste-me a pensar de outro modo. Tornaste-te naquela luz ao fundo do túnel e o meu é o mais negro que existe, mas não te consigo alcançar. Foges quando me aproximo e ficas mais distante a cada passo que dou e por isso sofro. Sofro muito. Sinto a tua falta. Preciso da tua presença. És importante para mim e para a minha vida. Não o posso negar. Acho que vou terminar por aqui. Custa-me a escrever estas palavras, porque afinal, esse foi o motivo de estas serem as palavras que nunca te disse.


Vejo me e revejo me nas suas Palavras I Love cookies..


Não posso dizer que ainda bem porque quando escrevi isso estava tão mal que não desejo isso a ninguém...  :-\ :)
Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: dante cry em 11.nov.2008, 20:15:24
Renascer

Das dores nós nos renascemos... das mágoas nós nos curamos... como agora será o nosso renascer, se escolhermos o caminho certo ou o errado? Como nos encontrarmos depois de tanta dor... e de tanta incompreensão... voltaremos para trás? revivemos o nosso eu anterior, o nosso eu em pleno? A mesma coisa seria sugerir para apagarmos o nosso passado, e continuarmos a nossa função de viver, o nosso objectivo... mas será tão importante a nossa felicidade como um golo, ou como um objectivo da nossa vida? muitos dizem que sim outros dizem que não... definam-me felicidade se puderem.  A minha felicidade se reje na minha motivação, na minha fé... e que fé será esta? Digo que esta fé são os sermões que digo a todos, e de como aprendo a viver num labirinto de sentimentos, e episódios, onde sobrevivem aqueles com o saber, e o olhar da verdade, e honestidade crua... explicita... arrogante... inocente...  Onde estou eu? Isto me pergunto quando me perco no labirinto... então volto-me para trás, e vejo o meu passado, como uma história de vida enorme onde 21 anos se passaram, com aventuras e desventuras, mágoas, e tristezas... digamos então que escrevi um livro sem me aperceber, ou um filme, ou um quadro de cores imensas... irei então... apagar as cores do quadro, ou arrancar as páginas do livro, ou cortar a cena do filme, como que um ultimo pedido de não sofrer mais, ou não sentir mais dores no futuro... será este então o mau caminho? Ou o bom caminho? Haverá caminho certo ou errado?...   eu escolho o caminho da vida  :)... digamos então que independentemente se é caminho certo ou não, farei o melhor que posso para viver a vida seja apagando memórias ou não...  

P.S- Brigado meus amigos  :) como vos adoro tanto.

By me : )
Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: Shiyo em 17.nov.2008, 14:34:37
Frio


Estou gelado... tenho as mãos dormentes, nao entendo se me dóiem ou pura e simplesmente já não as sinto (será que foi só as mãos que deixei de sentir...?) ... não que me interesse. O frio que sinto não passa, por muita roupa que eu vista ou por mais que me tape com infinitos cobertores...
O meu frio é um vazio na alma, um vazio...
É uma ausencia de mim mesmo...
Um fragmento que falta do todo...
Algo meu que é teu...
Algo meu que está em ti...
Parte de mim que és tu...
Só a tua presença pode apagar este frio de dentro de mim... Só o teu toque pode devolver a sensibilidade às minhas mãos, agora que a tua existencia ja tornou humano o meu coraçao...

Amo-te... Quero-te... Preciso tanto de ti...


by Shiyo
Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: guardian em 19.nov.2008, 13:57:09
Por aqui ando.. A pensar.. A sonhar..

Mais um dia passado da vida de um ser, ou da vida de milhares de seres, não sei, vivo a sensação de utopia de um mundo que desconheço, a sensação de poder e não fazer, disfarçada de querer e não poder. Vivo uma infinidade de sentimentos de autorealização esquecidos e um sem fim de metas por alcançar a esfumarem-se. Para quê? Qual a razão para tal?
Sintome embrenhado e focado em mim, passando o resto com um leve aroma de interesse desinteressante, pois de algum modo consigo reverter e voltar a mim. Vejo a chama, já consumida, de pessoas  a  aparecerem no meu caminho, outras ainda na sua ânsia de combustão, brilhos tenues, pistas de uma realidade algo distorcida que não quero sentir.
 Acordo, vejo as imagens dos sonhos de cada um, mas já as vi tantas e tantas vezes, mesmo assim fico sobre o seu poder exercido de tal forma maquiavelicamente pensada ou não, fico assim até a rotina clamar por mim, se bem que ja ai estou sobre o seu chamamento, então começo o labor de todos os dias, as coisas de todos os dias.
Vivo os poderes que não possuo junto de chamas que so ouço mas que procuram como eu aquilo que não têm, abalo e faço o pressuposto, o esperado, o fim de cada um, uma pele, uma segunda pele que descuidadamente deixa transparecer um pouco de mim, alterando os resultados tão meticulosamente pensados.Cai o pano, a pele ainda ca está, o cheiro, agarro-me a mim tão deseperadamente quanto a noite cobre o dia, chamas a estiguirem-se, não entendo, não censuro, volto a mim, a pele, o cheiro, quase foram, sao fumo ja algo distante com a certeza de voltar a ser chama.Não interessa, voltei, desfruto o controlo sobre o viver, mostro o quão grande posso ser, afinal as imagens ensinam, chamas abrandam a sua combustão. Uma segunda vida novamente, os poderes que não tenho, chamas que leio em combustão, as imagens que mostram sonhos. Sono, incompleto, fazes-me falta, não entendo, muito sono, não serei uno sem ti, esperanças metas objectivos desejos,quem és, escuro, quando te vou ter, adormeço.
Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: Acaua em 23.nov.2008, 17:38:53
Retorno ao estado de alma esbranquiçado de fumaça efémera. As dores de sangue em que o meu corpo estupidamente percorre deixa-me numa solidão extrema. Não sei de cor as palavras que se espalham nesta mente obscura, mas sei de cor as mágoas não choradas e que vazam de lado a lado o meu corpo.
Não sei para onde foi o passado que tão teimosamente fui deixando crescer como flores em vasos de cetim. Não sei para onde foi a dor amarga que sentia. Torna-se agora claro que as dores são frutos da minha instabilidade e insegurança mas continuo sem conseguir abarcar com as mãos o mundo que não contenho.
Se eu fosse ave estaria no meio no mar a nidificar e a voar de um lado para o outro em cada continente. Mas este meu mundo é pequeno demais e a solidão vem confundir-me como ser humano.
Estranhas são as passagens abertas ainda em redor de um nome que me chama mas que eu não sinto falta. Aliás não sinto falta de nada e a minha vida escorre sem que eu a consiga agarrar, nem pelas pontas.
Bebo um trago de vinho da cor do sangue e apetece-me ressurgir nele como se me fizesse sentir viva por fora por dentro, mas as mãos quebram-se ao olhar em redor e a não sentir vontade nem para me levantar da cadeira que me prende ao chão.
Corro de cor todas as palavras que me fazem doer a alma ou espírito ou cabeça. Já não sei em que acreditar ou se existe algo por realmente existir. Abro as mãos e não tenho nada de louvar ou até de receber louros. Sou um mortal que deseja a imortalidade num pedaço de papel ou num nome escrito na parede de um qualquer muro de lamentações.
Lembro-me bem como é bom o nascer do sol a raiar pelas cortinas de um quarto cheio de bem estar, cheio de lençóis brancos e gemidos ensurdecedores.
De quantas mãos preciso eu para correr o mundo em 15 segundos ?! Por quanto tempo mais terei de afastar de mim a lógica de um ser humano sem âmago?!
Sou cordial ao tempo, atingi o poço da maturidade absoluta. Não sei porque lhe chamam isto, bem que o seu nome deveria ser Solidão. Sim porque ela vem com os seus beijos e beija-me as faces faz-me cócegas e diz-me que estou viva. “ Só a dor é real “ enquanto se varrem da memória outras palavras imundas outros momentos felizes a dor fala alto e anuncia que me veio a vontade doce de um rasgo de carne mergulhado em sangue.
Mutilo as horas e os segundos, mutilo as palavras ou a falta delas não sei para onde me virar. Não sei nem quero saber se o céu é azul ou que cor deram às nuvens em que eu mergulho o corpo e a alma. Se é que ainda tenho alma.
Grito ao silêncio e à chuva mas nunca se calam, chovem intensamente neste meu cérebro desnudado e sem sorte.
Caio no erro de aproximar os espelhos perto de mim e olho-me imunda. Quero tirar esta sujidade de mim, quero fazer prevalecer as ideias. Ideias de mim e palavras, muitas palavras. São de ouro as lágrimas que não choro, são de prata as palavras que não digo. Mas isto não vale a pena porque daqui a bocado estarei num santuário a pedir misericórdia a um santo que sofreu a dor das dores.
Rasga-se a pele mas não a dor das manhãs lentas que teimam em não passar. São lentas as horas destas dores amarguradas que sinto a estremecer dentro de mim. O sal nas feridas torna-se o sal da vida e os gritos, meio gemidos, tornam-se beijos de uma lua de prata.
Ali estarrecida fico a olhar o tecto ou as paredes que me cercam; são vazias, brancas demais para ali estarem sem mim.
Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: dante cry em 25.nov.2008, 17:58:36
Natal natal de como nós o amamos de como nós o adoramos... de como nós o odiamos, de como nós não o gostamos... de como não nos interessamos.    
Onde estamos nós com tantas incertezas e de como já não sentimos o natal por termos crescido tanto... onde esta o nosso acreditar... a nossa fé, o nosso amor plo que é brilhante, simbolico de tantas coisas relacionadas com amor... altruismo... acreditar...
Seremos ingénuos?
Onde estamos nós me pergunto sem estes símbulos... estaremos então numa época onde não existiria o dar sem o querer receber, o amor sem o precisar de o receber... o acreditar sem precisar de ver, tal como um sonho... um sonho de natal sem o ver. Precisamos de apalpar o natal... ou de o cheirar... ou de o ver?... O natal caracteriza o nascimento de jesus cristo? Talvez... mas... em um todo? Eu acredito que não... e acredito que natal é um todo que é nosso no coração que só nós podemos dar... o nosso amor no mais de tudo... o nosso calor no mais de tudo... e o calor se pode dar de tantas maneiras tal como gestos, companhia, conversas, amigos, sonhos...
Onde existe o natal?... nas lojas... nos centros comerciais... nas arvores... nas tradiçoes?... na televisão... na publicidade... na neve? A peça mais importante do natal não nos damos conta ou nunca sabemos qual é... mas somos nós... a peça de calor, de amor, brilhante, simbólico... somos nós. Não nos esquessamos de nós em crianças... de nós sonhadores, e ingénuos, que tinhamos fé... de como nos vibrava uma sensação prazeirenta de que algo ia acontecer... de como não queriamos sair de casa nessa noite, onde tudo era saboroso e festivo... de esperarmos alguem que nos ia assustar por pensarmos ser real... a espectativa dessa pessoa nos dar presentes e um abraço, o medo de nos repreender por os nossos pais e avós nos dizerem que não nos portámos bem... o medo de não ser real aquilo que sonhamos...
Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: Rovisco em 06.dez.2008, 21:22:02
Paixão - 3 de Dezembro de 2008


Anos do que poderia
Ter sido e não foi.
Constante reflexo
Turvo do espelho partido,
Com vidro martelado
Nos cantos, enfeitado
Com pequenos desenhos,
Adornos para a embelezar.

O pecado que esses anos
Todos os dias, foi carregado
Pelo caminho da paixão ardente,
Mora aqui ou ali, consome tudo.

O esbrasear da libido,
Oh como ficas excitado
Só de imaginar o que
Aconteceria se deixássemos.

Esses corpos deitados no chão,
Corpos bronzeados, esculpidos
Ao detalhe, talhados de sabedoria,
Prontos a percorrer o corpo
Um do outro, com as mãos,
Com a boca.
Ah e se a língua descai de um beijo
Percorre o pescoço, o peito
Como se soubesse mais caminhos
Para o prazer, mas opta por aquele.

Com uma pena percorrem agora
Os corpos deitados de lado,
Arrepiando cada pêlo, provocando
O êxtase constante.

Vendo agora o reflexo do espelho,
Distinguir quem é quem, é agora
Impossível, já se quedaram
Num leito de deleite.

Assumem agora que tudo fizeram,
Nada faltou, foi o culminar
Dessa ardente paixão com tantos anos.


Rovisco
in http://semprequemeencontro.blogspot.com/ (http://semprequemeencontro.blogspot.com/)
Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: Rickyjrbd em 06.dez.2008, 22:31:52
Também gosto de escrever por isso deixo aqui a introdução do meu romance gay entitulado 'Altos e Baixos' XD
Ainda estou a escrever a história mas penso que será uma história bastante abrangente com cenas muito envolventes a nível emocional^^
Quem sabe um dia pode se tornar um livro à venda em todos os pontos comerciais :D :D :D

Aqui está:

INTRODUÇÃO

Na nossa vida nada acontece por acaso!!! Todos os momentos recheados de pequenos detalhes, por mais breves que sejam e mesmo passando despercebidos aos olhos da maioria das pessoas, acontecem com uma razão lógica. Mesmo que a dúvida sobre determinado acontecimento se prolongue durante anos e anos, a lógica do mesmo irá surgir, seja mais cedo ou mais tarde do que cada um de nós pensa.

Faz parte da natureza humana a frustração, a indignação, a crítica em relação a tudo e a todos, sem sequer pensarmos sobre o assunto em causa. No entanto, se isso acontecesse, cada um de nós deparar-se-ia com situações limite que têm um grau de precariedade, tristeza, abandono muitíssimo elevado com os quais nem é justo comparar os nossos casos pois tornar-se-ia ridículo!!!

Mesmo com o desenvolvimento a vários níveis com o decorrer dos anos, um dos mais importantes para manter o bem-estar entre todos, a nível social, tem demasiadas dificuldades em progredir mo sentido positivo. A verdade é que não podemos generalizar esta situação pois existe muito boa gente ‘actualizada’, mas não podemos esquecer a enorme quantidade de pessoas que estagnou, a maioria por vontade própria e por teimosia. Regem a sua vida em torno da vida dos outros, envolvendo-se nos assuntos que não lhes dizem respeito e julgando os outros sem sequer os tentar entender antes! Nem sequer reflectem que, um pequeno gesto para certas pessoas faz toda a diferença e, mais do que isso, pode contribuir para a felicidade e para o bem-estar das mesmas!

Enquanto algumas pessoas se preocupam apenas com aspectos exteriores. Eu dou muito mais valor aos aspectos interiores pois são esses que caracterizam cada um de nós. Os exteriores não caracterizam as pessoas, são apenas a ‘embalagem’ que contem o ‘produto’ – nós. Por isso, se não tivermos o devido cuidado podemos ter desilusões com determinadas pessoas e até mesmo nos envolvermos em situações perigosas!

Este é o mundo onde vivo! Mergulhado na injustiça, na miséria, na desigualdade, na violência entre muitas outras coisas. Com esta dura realidade cabe a cada um de nós procedermos a soluções para que a vida seja levada sempre com um sorriso, com alegria, isto sem esquecer a esperança! Para isso cada um de nós tem que possuir uma enorme força de vontade, batalhar bastante pelo que se acredita ser o melhor e aproveitar ao máximo tudo de bom pelo qual passamos o nosso dia-a-dia! Se conseguirmos manter esta determinação um dia seremos recompensados da melhor forma.

A minha vida, como a de qualquer outra pessoa, é preenchida por altos e baixos, passando por óptimos e péssimos momentos.
O meu dia-a-dia é passado como se fosse o último. Mentalizei-me que era necessário absorver tudo de bom vivido em cada dia e que era obrigatório canalizar para o exterior todos os maus momentos. Só assim eu conseguirei ter uma vida, não perfeita, mas sim um pouco menos imperfeita.


Nunca gostei de permanecer dentro de carros durante muito tempo e, talvez por estar sempre a mencionar o mesmo, influenciou o sucedido naquele dia. Aquele acidente que, nem eu, nem ninguém conseguiu explicar. Foi um acontecimento tão rápido que ninguém teve sequer tempo para o evitar! Talvez essa falta de reacção por parte de todos no momento do embate não tenha sido por mero acaso. Estou convicto que se tratou de algo pré destinado!! Na minha opinião existem males que vêm por bem e acredito que este caso não seja excepção.


Espero que seja do vosso agrado XD
Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: Baby Deluxe em 07.dez.2008, 02:16:50
Quem és tu?

Quem és tu? - Perguntei-me certa noite ao adormecer
E no silêncio da madrugada a resposta ecoou na minha mente
Como o dobrar dos sinos de uma Igreja que não podia ver
E senti o meu corpo gelar e ficar novamente quente.

Tu és como o vento que não tem dono nem terra
Viajas do tempo para o tempo e sem tempo para nada
Ages como se tu fosses o motivo da tua própria guerra
E calas em ti esse grito feroz dessa palavra estrangulada.

Tu és como a terra que todos pisam e ignoram
Em ti cresce a beleza da natureza desta Primavera em flor
Quantos cadáveres sobre ti os mortais choram
E ninguém pára para pensar se tu sabes o que é o amor.

Tu és como a água que natural é fria e superficial é quente
Em ti cresce a natureza mais bela do mar dos inocentes
Mas em ti se banha quem mata, quem fere, quem mente
Como se nada fosses se não um aglomerado de gotas dormentes.

Tu és como o fogo que tudo queima e nada deixa ficar
És a chama que arrasta ao sofrimento grandes multidões
Contudo, por vezes és a calma que aquece o lar
O recuperar de grandes, velhas e sábias paixões.

No fundo, tu és TU porque não sabes ser mais nada.
Foi assim que nasceste, foi assim que conseguíste aprender
Que se tu, para uns, és uma pintura mal acabada,
Para outro, contudo, és uma razão para viver.

21/03/2008
Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: Reborn em 15.dez.2008, 23:15:08
.a room about sorrow



Walking the empty room, he realises, now it seems it all would be the same…
Walking the window border, he realises how our flesh and faces would pour out of the blank outside.


Walking the empty room, I realise, it all should have stood has I left it before.
The wooden table now covered in dust, the book standing still…


Walking the empty room, you realise, there never was space for words between our throats… as if blood upon all the books you read before, would make our letters less stained.



Walking the room, he realises at length, the feelings travelling between, all the bodies that left those past pages, all the heavens that stood in the motion.
It never was, has never been, a pace for more, the lack of will….Tomorrow never was as we were forever.
Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: Mirage em 15.dez.2008, 23:42:15
My body wants it, it wants it bad
but my mind tells me not to.
I fight myself and knock myself out.
Reduced to flesh and bones.

The lights are on but no one's there.
I'm a slave to my inner sinner.
And I won't find out 'till the end.
When I pull myself together,
leaving always a bit behind.
I know what I've done
and I won't even try to hide.

I raped myself tonight.
It's not the first time I do it.
The blurry vision of dark me
will haunt me and tease me.
Telling me that I will repeat it.


(a ler no meu DA)
Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: kat em 16.dez.2008, 00:37:48
My body wants it, it wants it bad
but my mind tells me not to.
I fight myself and knock myself out.
Reduced to flesh and bones.

The lights are on but no one's there.
I'm a slave to my inner sinner.
And I won't find out 'till the end.
When I pull myself together,
leaving always a bit behind.
I know what I've done
and I won't even try to hide.

I raped myself tonight.
It's not the first time I do it.
The blurry vision of dark me
will haunt me and tease me.
Telling me that I will repeat it.


(a ler no meu DA)

gostei muito  :)
Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: monalisa em 20.dez.2008, 23:51:55
A minha alma morreu.
No dia em que partiste,
no dia em que fugiste
no dia em que decidiste que o amor
que sentias houvera desaparecido...
Desde então sobrevivo, dia a dia,
amargamente...
Os dias vão passando devagar,
com a vagareza dos passos de um caracol
que não tem destino certo.
Assim vou eu, encarando cada hora como se de uma eternidade se tratasse
porque tu não estás aqui
para me confortar, proteger, amar,
e dar aquele vigor à minha alma
que só tu sabes e podes dar.
Volta para mim, urgentemente,
ressuscita a minha alma,
já defunta, enterrada no fundo do meu ser.
Faz com que cada hora do meu dia
valha a pena,
e que cada hora seja a melhor hora da minha, das nossas vidas.
Volta para mim...
Vem...



Monalisa
12/12/08
Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: monalisa em 22.dez.2008, 00:12:11
"Súplica a um amor perdido"

Ouve o choro incessante
da minha alma;
Ouve os gritos dantestos
que em silêncio ecoam
pela tua ausência.
Sente a dor que me invade, me domina,
me tortura e me chacina
a cada dia que passa sem o meu amor,
o meu homem, o meu tudo:
sem ti.
Vem depressa, meu amor.
Deixa-me ver-te, tocar-te, beijar-te,
ter-te e ser para sempre tua.
Acaba com o meu sofrimento;
Dá-me o teu amor
que, num ápice, poderia ressuscitar
este ser moribundo que sou agora.
Dá-me a felicidade que tanto anseio
e que só a teu lado conseguirei alcançar...


12/12/08
Monalisa
Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: risingstranger em 01.jan.2009, 17:00:21
My body wants it, it wants it bad
but my mind tells me not to.
I fight myself and knock myself out.
Reduced to flesh and bones.

The lights are on but no one's there.
I'm a slave to my inner sinner.
And I won't find out 'till the end.
When I pull myself together,
leaving always a bit behind.
I know what I've done
and I won't even try to hide.

I raped myself tonight.
It's not the first time I do it.
The blurry vision of dark me
will haunt me and tease me.
Telling me that I will repeat it.


(a ler no meu DA)

gostei muito  :)

eu tbm gostei   :)
Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: Pure Intuition em 17.jan.2009, 15:30:49
Queda
unica viagem
embora breve e subtil
regresso a ti
o começo
turbulento e solitário
e no entanto completo..
Começa um novo sonho
o movimento diurno
naturalmente perdido
hediondo e belo
embebido nesta terra
concebida para nós
envolvida pelos olhos
realizada em palavras.
Amanheçe em ti
realidade desejada
mas contudo
sonho simplesmente adiado..
Por entre um novo dia..
sento-me ao teu lado,
a vida nasce aos meus olhos..
Espero sonhar,
que a vida continue,
engrenagem solitária..
todos os medos,
dissolvidos num caos que nesta janela
me leva a ti..
Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: Santeago em 25.jan.2009, 09:53:17
«Sabes que me enfraqueces com esse teu feitiço com esse teu sorriso luzidio e sombrio que se esconde por de tras da cortina enquanto me observas no meu estado inebriado e nostálgico a pensar em ti, num pensar de ti. Numa vaga de pensamentos insanos e imorais a que o meu corpo reage transpirando sem ter mais por onde respirar. Transpiro-te neste ar tão denso e tão limpo como as nuvens sobre o mar acizentado e forte. O suporte da morte é o amor, disse-o eu num momento de embriaguez irreversível visto ser o meu ser a minha droga nociva. Emotiva encontra-se a minha pele por te sentir perto, por apenas respirares em mim. Afasta esse amor odioso e esse olhar tenebroso que me fascina e me culmina. Transformo-me num ser mítico e vagueio para longe de mim, perto de ti. Sou apenas o que não quero ser, sou o ser apaixonado e revoltado. Sou o envenenado, perturbado, revoltado, revirado do avesso, esquivo do direito, preso do futuro, solto do presente e incógnito do passado.   
Perde-me do teu olhar, fixa-me com o teu sorriso. Fixa-me e desfigura-me. Perturba-me. Penetra-me de morte. Prefura-me de dor. Dá-me amor. Revive em mim, suga-me a alma com o dó e sem a piedade. Eu que já sou piedoso de ti e abandonado de mim. Larguei a terra em direcção a ti. Caminhei o infinito ao mundo perdido do teu altar. Devoro. Devoro o odor, devoro o amor. Devoro o perfume que me faz este ardor. Paro e não penso, sigo e confundo as premissas do pecado.
Os passos aprofundam, pesam e fogem. A mão trémula e gelada. Toco a seda.  Abre-se me a luz. Evaporaste-te no horizonte. Queimei. E decomponho-me junto a ti.»


O lado mais romântico da coisa, este texto.

www.santeago.blogspot.com


Espero que gostem.
Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: BabyT em 30.jan.2009, 23:04:01
Queria poder te amar,
Queria sonhar contigo,
Levar-te para longe das grades,
Que nos proíbem,
Que nos corroem a mente.
Que nos deixam sós.

Querida dizer-te que te amo,
Como quem beija uma flor,
Queria mostrar-te o mundo pela mão,
Jogar ao toque da paixão,
Brincar de leve com o teu coração.
Oh... meu amor,
Tudo o que o mundo não entende,
Tudo o que o mundo proíbe,
É em vão,
Porque a nossa paixão nos leva,
Na loucura e na saudade,
Na doçura do amor.

BabyT
Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: extremelyalive em 02.fev.2009, 11:23:34
IMPERSONNEL

Ontem morri. As cortinas da janela aberta dançavam ao doce sabor do vento e eu tudo via a preto e branco. A noite entrava por todas as cavidades, mas uma estranha luz branca invadia alguns objectos. A janela chamava-me: vem, vem, salta, ama, mata, tens toda a morte pela frente. E sorri. Eu sinto-me calmo. Estranhamente calmo. Tudo se acabou, eram só mais uns passos, uns pequenos passos em direcção ao precipício. Mas que palavra tão dura e fria para um destino tão simples e belo. Todo o estranho mundo terminará, todas as aberrantes perguntas se desvanecerão, todas as arrogantes pessoas desaparecerão. Não há melhor. E eu sorrio. Tenho o mundo à minha frente. Tenho o fim à minha frente. Mas o fim não é mais que um novo início. O ar toca-me os poros. Vou sentir falta disto, paciência. Terei melhor. Terei paz. Terei eternidade. Terei tudo. Os passáros negros entraram pela porta atrás de mim e acompanharam-me no meu salto. Eles voaram. Eu? Eu estou vivo.



Já agora, estou a escrever um livro, é um bocado para o estranho, ainda não defini o título, mas podem ler o primeiro capítulo aqui: http://justsaysomething.blogs.sapo.pt/213589.html
Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: extremelyalive em 04.fev.2009, 21:46:32
Já agora, mais uns textos meus...  ;D



SOPHIA

Sophia, rapariga de luz e de amor, apareceu morta em casa de sua mãe. O seu rosto ainda tinha   uma réstia de vida, a sua boca formava um singelo e discreto sorriso, os seus olhos permaneciam levemente fechados. Sua pele era pálida, seu corpo cobria-se num elegante vestido branco. Parecia que dormia. Sophia estendia-se no chão de madeira escura, como se olhasse o tecto. Seu corpo estava presente no seu quarto escuro. Das frinchas das janelas, invadia a luz do sol, iluminando as partículas de pó que pairavam no ar. Ainda ninguém sabia que morrera. Sophia vivera como ninguém alguma vez viveu: dançava com as flores, com as árvores, sorria ao vento e falava com a relva – amava a natureza e tratava dela como se fosse um paraíso. Como morreste, Sophia? Porque te desvaneceste? Sorris à Morte como sorrias ao mundo, mas estendes--te no chão, de olhos cerrados e a tua alma não tem paradeiro. Onde estás, Sophia? Sophia, Sophia. Amor. Morreste de amor, Sophia? Teu corpo é música e cornucópias de solidão, és violinos de pó. Como te amavam, Sophia! Chora, Sophia. Deita só uma lágrima para alegrar os vivos. E deitou. Seu corpo expurgou uma pequena gota, mas não lhe pertencia. Chovia lá fora agora. A casa debotava-se em pedaços e beijava Sophia, corpo de luz. Leves gotas caíam no rosto dela, abraçavam-na, levavam-na para o paraíso noutro mundo. Porque morreste a sorrir, Sophia? Qual mistério deixaste cá e esqueceste? Sophia, Sophia. Solidão. Morreste de solidão, Sophia? Teu corpo vivia entre tantos outros e sozinho se sentia. A tua cor branca e pálida sorria ao negro que esvoaçava gritando fortemente contra o vento. Serias solitária, Sophia? Como te amavam, Sophia! E sorris, deixas o pó atrás, levas a luz contigo, ouro, Sophia. Amaste a cor e olhaste o vento, dançaste com a lua e o sol te beijou, e sorris! O teu altar de flores desapareceu, Sophia. Mas que alegria que se impõe no teu corpo! O teu vestido também esvoaça levemente, com cuidado para não rasgar. Ainda ninguém sabe que morreste. Sophia continua estendida no chão, como se se tivesse deitado para olhar o tecto e morresse pacificamente. Sua mãe estaria onde? A luz da chuva continuava a entrar pelo portal que se abrira no telhado, molhando a delicada casa de Sophia. Morreu a sorrir, a Sophia. Qual arte desmistificada. Porque morreste, Sophia?



A TRAIÇÃO DO ANJO

A porta abriu-se com um estrondo e entrei, furioso com a alma que ardeu à minha frente. Era uma folha de papel que caíra na imensidão deserta de um olhar perdido de folgor. E quem era eu para me sentir alegre? Quem? Sentia-me furioso, chateado, irritado com cada poro da pele de quem mais amo. Que a Natureza nunca mais nasça! Que tudo desça do céu e entre no inferno, mataria já. A verdade ainda está longe de ser compreensível, quem, mas quem, pelo amor de alguém, seria capaz? Quem?

Ele continuava à minha frente, o anjo. Furioso com ele, seguia-o, desalmando palavras ameaçadoras a quem já tinha confiado. Estava morto. Morto de alma, vivo de corpo, mas mais morto que os mortos. Ele olhava para mim de quando em vez e uma lágrima soltava-se assim de relance mútuo com os meus olhos. Que raiva… como foi ele capaz? Chorar por quem alma ardeu. Todo ele devia arder. E devia ser eu a atear o fogo.

Parámos numa sala qualquer e ficámos frente a frente. Atrás dele estava uma janela maior que o mundo, e via-se o céu preto, estrelado, noite limpa, alegre, ambiente pesado, moribundo. E ele olhava para mim e eu estendi a arma e ele olhava para mim.

Traíste-me! Não te posso perdoar, dizia eu, gritando furibundo, Desculpa-me, suplicava ele. Momentos passaram pela minha mente, pelo meu espírito, todos eles, tudo aquilo que não existia, toda a traição, todo o engano, todo o equívoco. A minha mão tremia, a arma não apontava para nenhum lado, e ele fitava-me. Os seus olhos fecharam levemente e eu disparei. Não fui eu que disparei. Foi alguém que apareceu durante o momento. Foi alguma coisa que ordenou à bala para aparecer ao mundo e tirar uma vida. Sorriu. Morreu.

Anjo, anjo... que mentiras traíste?



OLHAR

Hoje os meus olhos olharam-te. Eu vi-te, sabes? E sei que também me viste. Senti-o. Por breves instantes, houve algo que me invadiu, algo que me entranhou, como uma sonâmbula criatura. Sonâmbula, pois. Anda. Mas não é real. Dás-me esperanças de impossibilidades. Parece que o tempo pára quando os nossos olhares se cruzam. Ninguém compreende. Ninguém sabe. Houve um tempo em que eu era feliz e não te conhecia. Agora destruíste-me. Mas não trocava isso por nada. Posso olhar-te. Desejar-te. Mesmo que seja impossível. É impossível. Tu és o tudo. Eu sou o nada. Queria tanto que o tempo parasse para que te pudesse olhar infinitamente. Só olhar-te, olhar-te, olhar-te, olhar-te, olhar-te, olhar-te...



4

Voltado ao infinito de um pacífico
Um sonho em queda e um artifício
Sem vidros existentes, a queda mata-se
Um monstro lá em baixo, a vida ataca-se
O pó dourado cai como penas
Sentem-se milhões mas só se vêem centenas
A fonte com água do sangue do ar
E o pó mantém-se suspenso e a flutuar.
Os ramos da árvore partem-se como ossos
Os pedaços de vidro existentes são todos nossos
As mãos, a vida, o papel a rasgar
Os olhos, a mente, o espírito a fechar
Sempre que os olhos te amam, vida
O ar torna-se terra e o sangue é minha bebida
A queda continua, infinita, sem fim
O brusco estrondo que me mata só a mim.



A ESCADA

Tens a escada à tua frente, não hesites, é só um degrau, e mais um, e mais outro. E outro, e outro, infinito, sem fim, inútil. E o que é útil. Eu, não. Talvez... talvez não; talvez penses que és inútil e a utilidade está no pensares que és inútil e então a tua inutilidade morre contigo: tu vives, mas morres. E se chegar ao topo. Então vanglorizar-te-ás por teres ultrapassado uma linha no chão. Pois se não passar, que me acontecerá. A tua inutilidade é útil; vá, avança, só um degrau, e depois, continuas, não olhes para trás. Porquê. Porque a vida morreu; porque te lembras; porque a memória também mata. É uma escada em espiral, sem corrimão, não quero, por favor. Mas de que te serve continuares aqui, se o aqui é o mesmo que ali, acolá, noutro sítio qualquer; de que te serve pedires-me algo quando eu não existo. Como assim. Sobe. Não. Por favor. Não. Peço-te. Não. Queres continuar morto. Não subirei. Então não subas; subirei eu; viverei eu; tu morres; adeus.



Like it?  :D
Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: Ob-La-Di Ob-La-Da em 05.fev.2009, 00:15:51
Foste

Brilho Interesse Paixão Amor. Conversas (mudas), abraços, sorrisos cúmplices, lágrimas, Olhares. Agora Tudo num peso. Uma folha pequena incapaz de tapar o grande buraco que permanece. Sujam-se os pensamentos sobre ti. Fica a nódoa no coração, sempre, intocável, na sala mais espaçosa que ocupaste. Seca, apodrece, cheiro agonizante. O que resta e que guardo, na nódoa ou no buraco. Sempre, como um sopro, entraste e mais não saíste.



(numa daquelas noites de lamechice nojenta)
hope u like it*
Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: repsol em 05.fev.2009, 16:03:26
Ao longo dos anos procurei muitos magos para saber qual o segredo da felicidade. Uns disseram-me que seria viajar pelo mundo inteiro e conhecer todas as suas maravilhas. Outros disseram que seria ganhar muito dinheiro para poder ter tudo aquilo que se quisesse. Outros, ainda, disseram que seria ter um cargo em que todos me conhecessem para que me sentisse importante.
Enfim... As respostas foram muitas mas nenhuma me agradou. Por isso fui vivendo à espera de encontrar essa resposta. E encontrei. O segredo da felicidade está no amor. Ao amar alguém somos felizes e aprendemos a apreciar as coisas mais simples e belas deste mundo: um sorriso, um olhar, um toque, o perfume de uma flor, a imensidão do horizonte, o cheiro a maresia, a gargalhada de alguém, o canto de uma cotovia, o desabrochar de uma rosa, um passeio à beira-mar...

http://limitesemfim.blogspot.com/
Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: Grey_Eyes em 16.fev.2009, 23:31:02
Eu, tu e a nossa loucura!
 
E se eu cometer uma loucura?! O que acontecerá?
E se eu cometer uma grande loucura, o que será de mim?! Ou o que será de ti…
Mas, e se eu cometer mesmo uma grande loucura? Será tão mau assim, visto que nunca a cometi...?
Mas e se eu não cometer uma grande loucura? E se eu apenas pintasse e fizesse e corresse e inventasse e infiltrasse, e te amasse? Sim e se eu gostar de te amar?!
E se eu me apaixonasse pela loucura que é querer um deslize, se eu deslizasse pela maior loucura e te fizesse amar…
E se eu te amassa-se contra mim e fizesse de ti a minha loucura?
Porque quero eu cometer loucuras, se não sei o que pode acontecer depois?
Porque quero eu arriscar-me e cometer erros irreversíveis?
Porque é que sou doida o suficiente para te dizer que Hoje quero cometer a loucura de fugir, largar tudo, e correr para os teus braços, mesmo sabendo que não correrá bem depois…?
Quero enlouquecer nos teus braços…


http://greyeyesstorm.blogspot.com/
Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: Reborn em 08.mar.2009, 03:12:06
Não tenho certeza donde vem isto, mas penso que das tardes á janela em casa da minha avó, quando era pequeno.



Cidade velha



Caída a primeira gota, o granito esperava.
O suor da pedra evaporado, elevava-se com a alma do escritor.
Caídas as primeiras gotas, ansioso, nas folhas velhas
Da calçada que se desfazia em vapor.

Caída a primeira gota sobre o corpo dos crentes,
A alma elevada das velhas que não eram folhas
Saía em procissão do templo.

O alento da primeira gota, sempre a primeira gota,
De uma chuva que não era folha, não era velha,
Era escritor, mas não era gente.
Uma chuva morna,
Sem se saber ao certo se fria ou quente, caía sempre,
E sempre nova e a mesma velha, caía, caía, caía.

Enquanto no chão multiplicada, a gota que caía,
Perdia tudo para ser o nada, para ser aquela partícula presente
Que na face do granito já era passado,
Ia devolvendo o templo as gentes à calçada,
Àquela chuva amarelecida que não era folha, não era velha,
Que perdia tudo para ser o nada.
Uma e outra vez, para sempre.

Enquanto no chão despedaçada, a gota que caía,
Não era folha, nem era gente, corriam as gentes agitadas,
Procurando abrigo do dilúvio dos tudo que eram nadas.
E do alto o anjo granítico a cena aprecia,
A fé uma e outra vez quebrada, perdida à saída do templo.
A tristeza minha e dele, ao seu lado escritor contemplo.
A fé nova e logo velha e passada, daquela gente
que julgando viver, era o nosso tudo que era nada.

E assim uma e outra vez, gente, gota e pedra,
A cidade caía, caía, caía.
 
Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: Pure Intuition em 10.mar.2009, 01:48:35
Wow Reborn...wow
Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: Marius S. N. em 01.abr.2009, 12:33:15
Tenho andado por aí a deixar cair alguns textos escritos por mim em outros tópicos, mas ainda não sabia da existência deste.
Textos bonitos, alguns tristes , outros familiares, já encontrei de tudo por aqui pelo forum.
Sempre me ensinaram, ou tentaram ensinar, que devemos ser sinceros connosco mesmos e não deixar para amanhã o que podemos fazer hoje, nunca se sabe quando já pode ser tarde demais. E, por isso mesmo, e porque ultimamente sinto algumas dúvidas quanto a uma carreira na escrita, decidi expor aqui o primeiro capítulo do meu primeiro livro oficial, que estou a escrever agora.
Espero que gostem!

“Some people come into our lives and quickly go. Some stay for a while, leave footprints in our hearts, and we are never, ever, the same” – Flavia Weedn
Para ti, Humberto, o primeiro e único homem da minha vida.



(Vi)ver a cores

Eu sou o Marcus, tenho vinte anos e vivo em Coimbra.
Gosto de pensar que sou mais um. Como diz o meu amigo Manel, eu sofro de uma doença chamada “ser humano”. Acho que ele tem razão, mas prefiro acreditar que todos estamos sujeitos ao sindroma da humanidade, uns mais que outros.
Há quem diga que sou velho, antigo, que não sou deste tempo nem daqui, que não sou deste mundo nem de mim mesmo!
Os meus ideais e a minha vida desconhecem horários e rotinas e não dão as mãos à coincidência. Sou, supostamente, um homem que sabe demais e, no entanto, não dou novidades a ninguém.
A minha vida é um mar de rosas. Muitas vezes, sem ondas.

I

Há quatro anos atrás, poderia saber o que sei hoje. Não que isso mudasse alguma coisa importante, mas então, talvez soubesse hoje aquilo que só saberei daqui a mais quatro.
No fundo, devemos todos a dada altura das nossas vidas, imaginar como seríamos se fôssemos diferentes, mais experientes, mais humildes, mais sábios, velhos e ricos…
Dou por mim a matutar na hipótese de voltar atrás, e volto a assentar os pés na Terra com um sentimento de frustração maior que eu. Por vezes, chego até a concordar que o tempo que perco nessas viagens,  sonhadas,  poderia muito bem ser gasto em esforços para seguir em frente. Afinal, é esse o caminho.

*

- Acorda! Acorda, estás a ouvir?
- Ai! – contemplei o despertar do Pedro de boca semiaberta, havia muito que lhe queria dizer, mas a velocidade com que acordou denunciava, além de uma noite de pouco sono, a fraca probabilidade de lhe dizer fosse o que fosse com palavras.
- A minha mãe está cá em casa  – disse-lhe num sussurro apressado, receava chamar a atenção dela, que estava de saída, como num dia normal, como num dia para o qual só acordaria horas mais tarde, na minha cama, sozinho.
- Ela veio aqui? – foi impossível não notar o alarme no tom da pergunta do Pedro. Respondi-lhe com um abano de cabeça, no silêncio da minha contemplação.
- Não veio, nem virá  - aquilo que fora alarmismo segundos atrás, transformava-se agora num sorriso mal esboçado pelo cansaço, pelo desejo que se fazia presente naquela manhã.
- Marcus, onde vais? – as palavras ecoaram na minha mente, já distante, a chegar ao destino, à resposta desnecessária, para aquela pergunta desnecessária. A minha mão trémula deslizou debaixo dos lençóis instintivamente, determinada, numa busca por prazer.
- De cada vez que te vejo surpreendes-me mais - era difícil perceber se aquela era a maneira do Pedro me dizer que eu não passava de um inexperiente, ou de me dizer que estava contente.
- Mesmo assim… - arrisquei esclarecer a minha dúvida, mas o meu pensamento foi imediatamente varrido pela intervenção do Pedro.
- És tão bom… - foram as palavras que se perceberam antes de afogar a boca dele com um beijo demorado, suficientemente longo para encontrar o sabor da noite que passámos juntos ainda ali.
- Continuo a achar que só faço o que tu queres – ele abriu a boca, por um instante, e voltou a fechá-la, como se a sua resposta tivesse surgido cedo demais, ou não tivesse nenhuma - não sou uma p***! – nem era preciso ter olhos para ver como estas palavras lhe mexeram no interior, tinha-lhe lido o pensamento e não devia ter falado assim. Embora não gostasse que me chamassem p***, mas também nunca me tinha chamado por tal nome.
- Beija-me – pediu-me, ou ordenou-me. Tinha o dom de dizer o que queria sem dar a entender se proferia ordens ou desejos.
E beijei, beijei-o a ele, a todos. Beijei o doce veneno que é a ilusão, dei as mãos ao engano. Oh! Será que o único amor que conheci foram uns minutos numa cama, num carro, numa sala de cinema, agarrado a um estranho que parecia saber mais de mim que eu mesmo?
Perguntou-me em tom quase inaudível se estava bem, ao que assenti rapidamente, resgatado dos pensamentos que se tinham apoderado de mim, enquanto nos beijávamos.
- Pareces nervoso. Se quiseres vou embora – parecia que ele me lia o pensamento também, não queria que o Pedro fosse embora, claro, agarrei-o pelo pescoço e mordi-lhe a orelha onde usava um piercing, sussurrei-lhe que estava só a precisar de um cigarro e levantei-me da cama lentamente, de olhos fechados, num esforço dispensável para não acordar daquele sonho.
   Conseguia ouvir do quarto, a minha mãe, que estava naquele momento já a sair de casa, arrastando a porta suja e irritada da rua. Acendi o cigarro, só então abri os olhos.
Desejei num sonho acordado que o Pedro se levantasse também, me abraçasse e fosse o sol daquela manhã, e a lua da noite que viria. Já não me lembro como foi que me interessei tanto nele, o que vi naquela figura bruta e insensível,  para me apaixonar. Bem posso dizer que ele só era bom na cama. Ah, e aqueles beijos, ai, os beijos dele!
- Beija-me…como se não houvesse amanhã! – pedi-lhe, ainda de olhos abertos, ao mesmo tempo que reparava no volume que se fazia notar debaixo dos lençóis.
- Não há amanhã – cortei-lhe a palavra com mais um beijo delicioso, asfixiante, não queria ouvir aquilo, tinha posto de parte o facto de que o Pedro iria viajar para a capital no dia seguinte. O último beijo que lhe daria, a última cama que partilharia com ele, de repente, o sol brilhava mais alto, como se a preguiça matinal tivesse sido varrida por uma forte rajada.
   Os olhos dele pareciam diamantes, consegui sentir o calor do olhar perplexo dele, que percorria o meu corpo nu, destapado, enquanto me perdia no dele. E assim, do nada, num impulso orgásmico, riu-se para mim e disse-me que se ia embora.
- Espero que tenhas gostado e tenhas saudades – talvez tenha soado um bocado hipócrita, nunca fui bom a esconder sentimentos, e, na verdade, eu não tinha gostado assim tanto daquela noite com o Pedro.
- Já tive melhor… - embora previsível, conseguiu surpreender-me, porque aquela era a marca dele, já devia saber que ia ser sempre “aquele miúdo com quem o Pedro estava de vez em quando, porque lhe apetecia”. Fiquei sem resposta.
- Vou indo, então. Ficas bem?
- Claro! Boa sorte em Lisboa.
- Ah! Pois, não nos vamos voltar a ver – se restava alguma dúvida, aquele foi o momento em que deixou de existir qualquer uma.
- Pois é!
   Abri a porta do quarto depois de me cobrir com o robe de xadrez que herdara do meu avô, o mesmo robe que já usava há 3 anos, e ainda uso. Dirigi-me à porta da rua e esperei que ele acabasse de se calçar. O ar frio cortou o ambiente pesado e homogéneo que se fazia sentir havia horas.
Ouvi um pássaro ao longe assobiar, qual sinaleiro que anuncia a partida do comboio. Foi como ouvir a campainha estridente da escola, estava cansado.
O Pedro já estava calçado e vinha agora na minha direcção, de olhos cravados no chão enquanto dava passos gigantes. Passou a mão pelas minhas costas e apalpou-me com força, talvez fosse essa a maneira dele dizer que iria sentir falta de mim, eu preferi pensar que sim.
   Fui a correr para a janela do escritório, que me deixava ver o portão e a estrada mal tratada da rua. Observei-o enquanto se ia embora e dei por mim a inalar o odor a tabaco que emanava do cortinado, o sinal de tantos dias que esperei, e de tantos dias mais…


P.S.- a falta de formatação é apenas um efeito especial. lol
Não tou com paciencia para formatar tudo, copy-paste for the win!
P.P.S.- Espero que o rasurado nas palavrs feias seja o suficiente para não me censurarem o texto!
Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: mike em 03.abr.2009, 09:32:01
Porque me beijas assim esta noite enquanto levas contigo os sonhos que inventei? Baralhas sentidos inocentes onde a minha vida não prossegue. Se já dissemos que não porque dobro esquinas em passeios tardios? Conta-me o que sobrou, o que não tem importância dessa imagem cansada que guardo. A chorar não sei o que fazer a gestos inocentes que finjo ter. Audaz assobio velhas palavras tontas, liberto o resto das letras sem rodeios. Porque te amo assim? Porque me rondas assim? És algo que me acalma e hoje é dia! Amarrado ao que nada conta sonho que ando vadio num olhar que demora como o toque da tua mão… Perdoa-me, deixo as fileiras entreabertas… porque hoje tocas-me assim? Hoje só volto amanhã... ao mesmo lugar ao primeiro olhar e à primeira palavra... hoje tocaremos nossas almas e assim continuarás tu... ausente!
Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: Shiyo em 05.abr.2009, 01:34:49
Mata-me

Mata-me.
Acaba com este ser que não o é.
Põe termo a este sofrimento prazeroso
Que é ter-te sem te ter.

Memórias sem significado,
Cruéis, atacam, avivando tudo...
São memórias do que passou.
Desejos do que se irá passar...


               As tuas mãos percorrem o meu corpo.
               Os teus lábios devoram os meus.
               Sempre numa ânsia por mais, rasgas as barreiras.
               Fazes dos nossos corpos um.

               Um gemido... Estremeces.
               Suor escorre pelo teu corpo.
               Numa onda incontrolável de desejo, entrego-me a ti.
               Sem delongas, possuis-me.



Memórias demasiado vivas.
Memórias que me enlouquecem.
Por isso peço-te: mata-me...
Ou faz-me teu para sempre.

By Shiyo
___________________________________________



Tenho frio.

Já não sinto o teu abraço à minha volta. Aquele abraço no qual sussurravas "está tudo bem, principe..." e eu sorria. Aninhava-me a ti, no teu abraço. Sentia-me seguro... protegido... amado... feliz... Onde está esse abraço?

Já não vejo o teu sorriso. Aquele sorriso tonto que fazias quando olhávamos um para o outro... quando passávamos horas a olhar um para o outro, entre sorrisos e beijos, num silêncio que só eu e tu poderíamos entender... Onde está esse sorriso que me fazia sonhar? O único que me fazia sorrir genuinamente... Onde está esse sorriso?

Já não consigo ler o teu olhar. Lembro-me de olhar-te nos olhos e saber como estavas, em que pensavas, o que sentias... Lembro-me de como esse olhar me derretia, me desarmava por completo... como me fazia sentir uma criança, feliz, sem problemas... O que aconteceu a esse olhar?

Já não oiço a tua voz. Não consigo ouvir-te dizer aquelas palavras que por tanto tempo deram sentido à minha vida. Nao te oiço assegurares-me que estás aqui. Comigo. Agora. Olho para ti... os teus lábios mexem-se, articulam sílabas mudas que eu não me alcançam... Já não te oiço... não te consigo ouvir...


Não sinto o teu abraço...
Não vejo o teu sorriso...
Não entendo o teu olhar...
Não oiço a tua voz...


E a culpa é minha... A culpa é minha.
Quero-te de volta... minha vida...
Amo-te...


by Shiyo
Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: dante cry em 18.abr.2009, 21:29:41
Dá-me poderes magicos para desenhar nas estrelas eternas
um sonho brilhante mais brilhante que o diamante
da-me para poder ter no sonhar um sonho do que não
poderei ter ao acordar.

Dá-me na cabeça para acordar deste insolito sonho
o imaginar do fim da prosa vai dar
se tu me deres com que sonhar para acordar...

Dá-me uma de trigolori e trigolori te dou
se tu me deres de um tripolótim te dou um de tripolótum
pk gosto de um e nao de im

Dá-me um castigo que o cumpro...
se o achar real no meu desuso...
nao utilizarei a minha mente agora...
então aproveita e dá-me um castigo dessa tua mente sadistica.
Te digo que se tu me deres um castigo te tiro o gosto da seita
por tu me dares com que me entreter e sair dai o desuso da tua raiva
a que me deste o castigo...
para eu o destruir em apatia ignorãncia
te tiro o uso...

O poema de um sonho que não faz sentido...

By me :)

Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: Typhon em 19.abr.2009, 15:28:24
E Porque o dia 25 de Abril está aí, aqui fica um trabalhinho de sapa que fiz no estágio :P

O Sufoco de uma nação,
Olhares desesperados.
E com o coração,
Cantavam revoltados.

Num dia de euforia,
Imensa gritaria
Estalavam as espingardas,
Balas bastardas.

Num dia eram,
Prisioneiros e escravos.
No outro eram,
A Revolução dos Cravos.

E, Para a Igualdade
Nasceu o Dia da Liberdade.

by Typhon
Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: HumanNature em 19.abr.2009, 17:37:35
Primavera agridoce.

Continuo a encontrar-me na noite. Não com os abutres, mas sim comigo.
O corpo avança com o tempo e a mente floresce. É então, que quando me encontro no meio da tabela do comum necessário, respiro, penso e encontro algumas respostas.
Estou a meio sim, daquilo que me é pedido pelo meio que me encontro e penso me identificar desde sempre. Hoje consigo, perceber onde estava a inocente lebre e onde estava a velha raposa. Tem sido mais fácil identificar as lebres e as raposas perdidas nestes campos nocturnos e becos perdidos com pequenos rasgos de luz artificial.
Cresce-se, a árvore começa a dar os seus frutos vermelhos, carregados, não só de frutos, como de tons mais pesados, que nos permitem agora uma melhor colheita. A perda da colheita anterior, agora, mais madura, dá para sentir, cheirar, respirar, o ar de despedida, do adeus.
Agora todos os dias, vemos a colheita perdida a apodrecer aos nossos olhos, a perder aquela cor tão bela, jovem e forte, mas que apenas, fora pintada por nós. As lebres, as raposas, os abutres.
Hoje, no meio de tanta fruta amadurecida, colhendo novas, conhecendo mais deste pomar, caminho melhor, mais solto, mais sozinho, mais sóbrio, mais reabilitado. Fiz o luto da última colheita daquele pomar, tão forte e tão quase único, pintado por mim, sozinho. Forte, consegui. Bastou, parar, reflectir, observar, viver, deixar vir até a mim a velha raposa, que não me irá ter em canto algum daquele pomar. Posso continuar e ver que nada perdi daquela colheita, apenas a libertação e a reflexão necessária, para saber colher melhores frutos e ter consciência do que é ou não, pintado por minha autoria. Aprender que é a minha cor que tem que permanecer, que é a minha árvore que tem que crescer, que não a posso mais deixar ser colhida, retirada deste pomar, que além dos outros, é bem mais... Por muito que deseje mais, é o meu. Por mais que deixe penetrar novas árvores, novos frutos, beber novos sucos e deixar-me evoluir com a novidade e a experiência, é o meu. É o meu único quadro, o meu único livro, a minha única música, o meu único filme, o meu único poema, a minha única letra, o meu único pomar que tem que permanecer. Vivo. Faz parte de mim, sou eu.

Impossible Prince
http://nimpossibleprince.blogspot.com/ (http://nimpossibleprince.blogspot.com/)
Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: Reborn em 28.abr.2009, 23:24:14
É caso para dizer, "Não sei o que é, mas faz-me rir."  :P



História de uma rua.


O regato pelo passeio, o passeio pela estrada,
A multidão encolhida, barulhenta e fugidia, amontoada na calçada.

A rua desbocada, como aquela gente que muito falava,
Como aquela estrada que ali a acabava,
Aquela rua que regateava, como o regato,
Pelo passeio, sob o passeio.

O largo aberto, circunspecto, ciente. Um sorriso espaçoso e fácil
Àquele aglomerado de gente.
O regato pelo largo, impecável, decente, cristalino e vogal,
Distinto certamente, um raro entre muitos outros,
Admirado tanta vez por tanta gente.

O largo e a rua namoravam na esquina,
Brindavam amor e anos juntos com água cristalina.
E ela desbocada, fazendo juras pelo sentimento maior,
Que ela era do largo, e o largo dela, na intempérie dos dias e dos pés,
Dos passeios tão velhos e cansados como eles da rotina.
Sorvia leve e fácil aquela água pelo regato arrastada,
Com tanto suor e sacrifício ali colocada,
Ela, aquela tonta a que os becos chamavam libertina...

Tanto brindava todos os dias, àquela felicidade prolongada,
Que nem deu conta quando se lhe levantaram os chãos,
Quando se viu tomada não por pés mas sim por mãos,
Por marreta e marchetada e qual quê nova calçada?
Vieram mestres de obra e serventes,
Caíram-lhe os cabelos e os dentes, a sua graça destroçada,
Não mais a loira rosada, a preferida dos transeuntes.
Ainda se virou para o largo, só p'ra se ver despeitada,
Ele dela já não queria nada, não havia regateio que lhe valesse,
Água alguma a ser provada.

Ria-se a praça contígua da desgraça alheia,
Daquela rua tão senhora de si, agora destronada,
Desprovida de lustros e de passeio, tão nova e já tão feia.
Vieram os homens e sepultaram-na sob o palácio do governador,
Ninguém chorou aquela bela rua e o seu dourado fulgor.

Virou-se o largo para outras ruas, separado da praça,
Sua eterna amante, que se via também despeitada.
Invejara a rua quando era fresca e rosada, e dizia merecido o seu destino.
Mas agora estava mais distante do largo, ignorava-a
Aquele mulherengo, sempre fora um abusador, grande cretino!


Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: Livre-Mente em 28.abr.2009, 23:52:23
Metades de Mim
 
Porque eu por completo sou 100% amor..
Porque tu desconhecido por completo es 100% simplicidade
Metade do que penso é o que escrevo e outra metado é o que não posso escrever
Porque o que penso é diferente do que escrevo e outra metado é o que digo.
Porque de metades se faz um todo e de um todo se compoem a felicidade..
E porque a paixão surge de metades de palavras escorridas com intensidade..
E porque metade de ti sou eu e outra metade é fictícia..
E de amor se compoem a vida e de momentos de felicidade..
Metade do que sou é palavras e outra metade é sorrisos..
Metade do teu desconhecido é papel e outra metade é fotografia..
Metade de ti quero conhecer e outra metade juntar em pedaçinhos
Metade de ti é ternura e outra metade é loucura
Metade de ti é pensamento e outra metade é verde
Metade de ti viaja e outra metade permanece
Metade de ti é sorte e outra metade é força
Metade de ti é alegria e outra metade é luta
Metade de ti é inspiração e outra metade é arte
Metade de ti é abrigo e outra metade é aconchego
Metade de ti é silêncio e outra metade é ansiedade
Metade de ti são olhares e outra metade recordações
Metade de ti são copos e outra metade são vontades
Metade de ti é a minha curiosidade e a outra metade é fuga
Metade de nós é "distancia" e outra metade é curiosidade
Metade de nós é sorrisos e outra metade é sofrimento



Metades de "nós"


Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: HumanNature em 08.mai.2009, 09:12:18
Lua Plangente

Chegou a um ponto onde a Lua aprende a chorar,
Chegou o dia em que o sol está lastimoso,
Lua cheia, Lua branca, Lua triste a sangrar.
Oh Lua cheia quando chega de desencantar?

Oh Lua branca onde estás, a onde mora o teu dono?
A onde vais desembarcar se não nos enamorados?
Cheia de luz é o teu estado e o teu trono,
Queremos romance e sermos velhos apaixonados.

Oh Lua branca vem trazer a ingenuidade,
esconde os joelhos e só mostra o teu rosto,
Limpa as lágrimas e mata-nos a saudade,
Faz-nos apagar de um só todo, o desgosto..

Oh Lua cheia que encandeias todo o mar,
aproveita e faz-nos lá acreditar,
chega de crise, desilusão, promiscuidade,
Oh Lua branca vem nos ensinar a amar.

Oh Lua cheia enche de luz este jardim,
camaleão que te sirva de lição,
do branco tira aquela paz e então assim,
o verde esperança e o azul da imensidão.

N.Impossible Prince/HumanNature
http://nimpossibleprince.blogspot.com/ (http://nimpossibleprince.blogspot.com/)
Título: primeiro topico por: sadeyes
Enviado por: sadeyes em 18.mai.2009, 11:35:23
Olá, sou um novo membro aqui neste site, então decidi postar/partilhar convosco uma história que escrevi para um trabalho da escola. A professora gosto imenso e eu espero que também gostem! :) o trabalho consistia em criar um texto com um excerto de um escritor português.

… um menino da cidade. Esse menino era eu. A casa em que vivia não tinha lareira… apesar de ser outros tempos os meus dias de criança, sei que há muito, muito mais tempo…


Cruzamento Imprevisto
[/b]


O ser humano tem como objectivo procriar.
A procriação é algo bela na vida dos progenitores. A mãe sonha. Sonha como será o filho, se será rapariga ou rapaz, se será parecido com o pai ou com a mãe, pensando sempre para ela de que o seu bebé terá as suas feições pois ela foi o seu ambiente, o seu primeiro abrigo, o seu desenvolvimento. O pai pensa na educação. Pensa na transmissão de valores. Pensa, pensa e pensa. Mas levando sempre consigo a certeza de que agora em diante ele será o exemplo a seguir.
Enquanto crianças, as pessoas têm tendência para adorar as outras crianças. São vistas como um alvo de brincadeiras, um alvo de diversões e um alvo de imaginação. Dentro de cada criança há o desejo de ser tudo dentro da imaginação de cada coraçãozinho.
Mas, o armário bate mais forte dentro de cada um de nós quando a imaginação ganha outro papel. Não chega, e temos que encontrar respostas, e muitas vezes somos os donos da razão. A razão acima de tudo e de todos. Já não basta fingir ser médico e olhar para o outro e tê-lo como alvo de brincadeira. Na fase da adolescência somos meros seguidores do nosso próprio chamamento.
Tudo se torna mais claro quando nós deixamos de ouvir a nossa própria voz e o nosso interior se torna no maior salão alguma vez construído na vida de alguém. Tudo é absorvido, todos os momentos, sentimentos, todas as horas passadas. Tudo passa a ter mais ênfase. O mundo deixa de ser berço e revela-se num enorme e esplendoroso lago repleto de tudo de bom e tudo de mau. E é aqui que tudo se transforma para nós.
Deixando de ser, o sexo oposto, um tabu, olhamos para o outro como alguém que nos pode acompanhar para o resto da vida, e aí, é vital crermos mais no próximo. A conquista passa para desejo. Este desejo deve ser planeado pois espera-nos uma competição eminente e deve-mos passar no teste para não corrermos o risco de não ultrapassarmos a barreira da nossa razão, ou seja, do nosso ego. Ninguém pode, nem deve, viver para ela própria.
A busca começa. Todos os sentidos estão apurados.
Maria. Vinte e cinco anos de idade. Cabelo tingido de mel. Olhos tão azuis quanto uma gota de água no inverno. Pele reluzente. Uma mulher com a qual o sexo oposto entre em guerra só apenas com o seu suave perfume a levitar no ar. Era a simplicidade da beleza a desafiar a natureza masculina impulsiva.
Eu. Afonso. Vinte e seis anos de idade. Ar desleixado. Cabelo castanho. Olhos de cor preto. Sou pessoa que passa despercebido em qualquer ambiente.
Duas pessoas. Duas vidas. Um cruzamento.
Ainda hoje me questiono o porquê de uma mulher tão bela como ela foi olhar para um enfadonho, desajeitado e desarrumado homem como eu.
A troca de sentimentos não tardou em aparecer uns tempos mais tarde.
Mas eu, não era muito dado a este tipo de situações. Talvez porque a minha infância está cicatrizada na minha recordação.
Nos tempos de criança, eu passava os dias em casa. Todas as minhas diversões, ilusões, brincadeiras estavam dentro de casa. Com o que podia brincar era pouco. Era muito irrequieto, inseguro e tinha poucas amizades, um menino da cidade. Esse menino era eu. A casa em que vivia não tinha lareira… apesar de ser outros tempos os meus de criança, sei que há muito, muito mais tempo eu era assim. Uma criança a quem os pais deixaram a educação, o afecto, o carinho e o amor aos cuidados do infantário. Para os meus pais era mais fácil assim. Viver para o trabalho torna tudo mais fácil. Cresci assim e tornei-me num homem de poucas falas e de difícil entrega.
Esta entrega com ela foi diferente. A diferença com ela, no inicio assustou-me. Não podia ser eu a trocar sentimentos com ela ao mesmo tempo que eles iam nascendo entre nós.
Os cinemas tornaram-se preciosos. Os passeios eram obrigatórios e os locais eram considerados por ambos locais de culto.
Aconteceu de tudo entre nós. O tempo era o leitor assíduo da nossa entrega constante. Mesmo cada um tendo o seu emprego, quando estávamos juntos nós é que parávamos o tempo porque era tudo deixado em segundo plano.
Crescemos dentro de cada um de nos com o amor sempre presente.
O próximo passo já não aguentava a espera.
É então que a magia da união surge entre nós. Casamos para a vida eterna. Para todo o sempre. Tudo estava perfeito. A nossa vida tomou um rumo simultaneamente diferente naquele dia. Tudo era novo. Os nossos hábitos começaram a unir-se.
A perfeição instalou-se em ambos.
Embora tudo estivesse perfeito entre nós depressa tudo se tornou em hábito. Dominados pelo ritmo da vida e consequentemente pelo trabalho. No meio de toda esta monotonia havia sempre espaço para o amor. O amor entre nós nunca era dispensado. Nunca ficava em segundo plano.
Certo dia, cheguei a casa, vindo do trabalho, e Maria estava a preparar o nosso jantar. Entrei sorrateiramente até à cozinha, e passo ante passo agarrei-lhe pela cintura e sussurrei-lhe no ouvido:
- Nem a simplicidade de um avental nem o leve som do preparado te conseguem deslocar do teu majestoso trono.
Ouviu o sussurro. As suas pestanas bateram logo em seguida, tornando o seu olhar doce, sensual. Voltou-se para mim e disse-me:
- Podes acreditar, ou não, naquilo que te vou dizer agora, mas a verdade é que… é que…
- Diz Maria! Diz! – disse-lhe eu num tom doce mas ao mesmo tempo curioso expectante.
- Lembras-te daquele nosso passeio? Aquele em que todo o cenário parecia montado para nós. A relva odorava ao fresco da matina e ao orvalho do luar. Eu trazia o meu vestido de cor tão suave quanto a seda. E tu acarretavas o perfume que me fazia percorrer cada canto, cada entranha do teu corpo, só apenas com o meu olfacto.
- Lembro-me! Claro que me lembro. Vai ficar para sempre tatuado na minha recordação.
Maria ficara ansiosa ao ritmo do tempo. Conseguia notar porque quando ficava nervosa as suas mãos transpiravam tal e qual o topo de uma montanha na primavera.
- Esse dia, não só ficará para sempre na tua memória como ficará na minha. Mas principalmente na nossa.
- Sim, na nossa. Temos de lá voltar seguramente. Só aquela paisagem renova-nos os votos. – disse com ar de alegria e satisfação.
- Mas quando lá voltar-mos não iremos sozinhos com toda a certeza.
- Maria, tu estás grávida? Tu estás à espera de um bebé?
- Diga-mos que a tua mãe nos próximos meses vai começar a fazer o enxoval. Vamos ser país meu querido.
Os meus músculos da cara ficaram paralisados. Percorria em mim uma sensação inexplicável. Não sabia o que fazer. Por mais que tentasse falar ou ate mesmo gesticular não era possível. Até que:
- Amo-te… amo-te… amo-te…
Beijei-a. Um beijo repleto de sentimento e emoção, de amor e paixão todo ele era uma manifestação de um grande carinho e alegria.
Nos dias seguintes, ainda estava tudo fresco na minha lembrança: daqui a uns meses serei pai. Demonstro-o no rosto todos os dias. Todos os dias seguintes trazia comigo o maior sorriso. Ao longo desses meses Maria ia todos os sábados com a minha mãe comprar, o primeiro fatinho, a primeira touquinha, os primeiros sapatinhos. Nada era deixado ao acaso. Todos os detalhes eram importantes para o pequeno rebento da família.
Agora tudo tinha voltado à normalidade. Parecia que já não havia se quer tempo para cair-mos na monotonia. Estava a crescer o mais importante na vida de qualquer ser humano a alegria da paternidade.
As trocas de carinho eram constantes. O afecto era indispensável. Ia-mos juntos ás consultas. Eu fazia o maior gosto em acompanha-la nas consultas porque tudo era absorvido os mais importantes eram os conselhos do obstetra. Tudo era importante. Estávamos juntos quando soube-mos o sexo do nosso bebé. Era um rapaz. Eu fiquei delirante. Adorei a noticia tal como Maria.
O tempo passava e Maria ficava com uma barriga linda. Tão redonda e cheia tal como a lua quando brilha tanto como as estrelas.
Pela manhã do dia nove de Julho, desabrochou o bebé mais formoso que eu já vira em toda a minha vida. Afonso seria o seu nome. Ambos tínhamos o gosto pelo nome.
Os dias foram passando e aquele bebé era a luz dos nossos olhos. Maria adorava amamentar. Era um momento lindo entre mãe e filho. É um elo muito forte que se cria naquela necessidade. Os olhos de cor acinzentados de Afonso agarravam toda a atenção da mãe. Enquanto ele mamava os dois ficavam a olhar-se e a olhar-se sem nunca se cansarem. Adorava assistir aquele momento ao qual a entrega de carinhos era bela.
Afonso faz hoje, precisamente, 11 anos. Está muito crescido. Um verdadeiro homenzinho. Agora vão começar as reais preocupações. A fase do casulo começa aqui. Um casulo que no seu interior é lindo tal e qual o interior de sua mãe. Gostava tanto que Maria estivesse aqui para o ver. Se não fosse aquela maldita doença que a consumiu, que a possui-o até ao ultimo momento.
Maria lutou. E eu luto todos os dias com ela ao meu lado pois ela continua com toda a certeza a olhar por nós.
- Afonso! Afonso! – chamei-o numa noite em que a Terra brindava todo o brilho que a lua arremessava.
- Sim, pai. Já vou.
- Anda ver, como até mesmo o universo mesmo parecendo vazio, traz consigo toda a beldade de um momento.


Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: extremelyalive em 24.mai.2009, 16:35:18
Ø

Há uma espécie de inércia no mundo. É uma inércia quase invisível, quase imperceptível, mas está lá e com um pouco de atenção conseguimos vê-la. É uma inércia mascarada no movimento, como um camaleão perdedor. Era uma vez o Homem. O Homem que criou a sua própria bomba, que escreveu a sua própria morte, o seu próprio desespero. Há todo um sistema na sociedade, tão chamada ‘civilização’, mas que de civilizado tem pouco. Há muito que o Homem perdeu o jogo, há muito que lançou as cartas e nunca mais as viu. Lentamente nos apercebemos disso. Agora ainda estamos cegos. O Homem está demasiado concentrado em inutilidades, em trabalho, em dinheiro, para conseguir contrariar esta inércia. Parámos no tempo. Parámos porque vemos a vida a correr à nossa frente e perdemos tempo com coisas que não vão mudar o inevitável. Tanta injustiça, tanta porcaria no mundo, e nós sorrimos para a câmara. Estamos parados, estamos desesperados. Estamos tão cegos, que quando abrimos os olhos, transformamo-nos em seres deslumbrados com o poder infinito de algo incontrolável. Incontornável.
Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: Livre-Mente em 25.mai.2009, 00:04:02
Metades
 
Metade De ti é Sorriso
E Outra metade é tristeza
Metade de ti é confuso e
Outra metade é certeza
Metade de ti é amor
e outra metade é desilusão
Metade de ti Permanece
E outra metade Cresce
Metade de Ti Caminha e
Outra metade fica
Metade de ti é o que quis e
Outra metade é do que fugi
Metade de ti é ouro
e outra metade é prata
Metade de ti percorri
E outra metade Venci
Metade de ti escrevo
E outra metade apago
Metade de ti ficou
E outra metade partiu..
Metade de ti entendi e
Outra metade chorei
Metade de ti era eu
e outra metade eras tu..
Metade do que vi era verdadeiro
E outra metade falsidade
Metade do que passei foi felicidade
E outra metade foi maldade..
Metade do que quis foi o que tive
E outra metade reconstruido..
Metade do que escrevo é sonhos
E outra metade são delirios
Metades de um todo tive
E outra metade deixei voar
Metade do que tenho
Foi o quis ter
E outra metade foi obrigação..
Metade do que ri foi contigo
E outra metade sem ti
Metade do que pisei deixei marcas
E outra metade apagas-te
Metade do que te amei foi loucura
E outra metade aventura.
Metade dos olhares foram de amor
E outra metade foram de dor..
Metade do que vivi morreu
E outra metade permanece
Metade quero esquecer
e outra metade escrever..

..Metades..
Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: Mico em 18.jun.2009, 16:18:07
Escala


Turbulência abafada do oceano, sem fim;
Uma nau perdida, abandonada, ondulando com o tempo;
Um rumo incerto e destino à vista de um binóculo.

Mas, numa brisa, tomou o leme uma direcção;
Os mapas e cartas, desvendados, gritam o sentido,
E descobri a costa;
E o céu se descobriu também.

A nau em repouso ficou, tempestade no mar, parte de mim;
Um novo território à conquista,
Sol brilhando no dia doirado;
Animais ferozes, que não atacam;
Abre-se o caminho.

Areias movediças, dizem os entendidos, se avizinham,
E a cautela é a melhor amiga;
Os animais me guiam, e eu lhes ensino o caminho;
Irracionais, compreendem tudo, todos, a mim;
Levam-me aos humanos, que os ensine também,
Tarefa árdua de tão simples que é.

O povo receia a novidade, mentalidade fechada da vida sem sentido,
Mas um novo caminho se abre na floresta, engenho da novidade em pleno;
E o povo segue o novo líder,
E talvez siga na nau.
Não na abandonada, vida passada, futuro pausado na descoberta do momento,
Mas naquela nova que se ergueu do sonho, futuro de igualdades.

By: me!
Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: zzyzxrd em 18.jun.2009, 18:59:51
Queria a minha alma encher o vazio
quando pensou em cantar poesia
então de súbito fugiu
pois não sabia onde estava, o que fazia
                             e
Encantada pela loucura, alma minha
entristeceu como se o canto morresse
vagabunda solitária, sozinha
como se a vida não mais acontecesse
                        então
De tão grande e profunda perturbação
se fez um novo homem, um novo ser
não seja a vontade do coração
sentir sua alma renascer.

------------------------------------------------------------------------------------

Arlequim, quem te olha não vê tua tristeza
Toda aquela magia em jeito de graça
Majestoso dom de fazer rir
Dizem que és bobo e eu, em tom jocoso deixo-me rir
E cedo aos teus encantos

Ai, meu arlequim se todos fossem como tu
Que convertes toda a dor em graça
E preenches a vida com amor
mais que isso, com paixão
És alma escondida
Um fingidor
Minha grande mentira
Meu grande amor.


Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: Arms em 18.jun.2009, 19:06:14
Solidão

Chateado por todos os cantos, com palavras escassamente murmuradas por aqueles que fariam de tudo para se esconderem dele, como se fosse o seu pior inimigo.

Porque todos temem-no? Será que não se aperceberam? Nós nascemos de um oceano de solidão, enfrentamos os nossos demónios sozinhos, toda a vida… e, no fim de toda a vida, saímos do palco. Sozinhos.

A solidão é a nossa mais fiel companheira.

Oh… Sabes disso muito bem e, talvez seja por isso que não a temes… Porque a solidão dá-te a oportunidade de te conheceres mais e melhor - gozando com os teus demónios interiores – tentando fazê-los acordar, pelo simples prazer de te afundares – até ao mais profundo que conseguires – nos pântanos dos teus limites desconhecidos, para ascender outra vez, mais forte.

Às vezes sentes-te assim… Forte. Violentamente poderoso. Como se ninguém nem nada te pudesse travar a busca dos teus objectivos. Como um deus no teu próprio pequeno universo, onde és tu quem dita as regras e apenas tu poderás quebrá-las.

E, subitamente, o caminho vazio que estás a percorrer colide com outro caminho vazio… Dois mundos diferentes tornam-se inter-dependentes, tentando fundir, tentando completar os sonhos um do outro, os pensamentos, os hábitos… as esperanças.

Esperança. Que doença crónica do ser. Como um narcótico que raramente poderás adquirir mas que, ironicamente, é terrivelmente viciante.

Uma vez consciente dos seus silenciosos passos em direcção a nenhures, uma vez acreditando nas ilusões, começas a viver o sonho, tentando convencer-te a ti mesmo que talvez – talvez – não estás destinado a terminar sozinho, porque encontraste aquela pessoa especial, aquela peça que faltava, a outra parte da tua alma.

Acostumas-te cedo à imagem de um puzzle completo, até que algo faz com que as peças se misturem de novo e depois, quando tentas reorganizá-las, apercebes-te que a peça mais importante desapareceu, levada pelo vento da mudança. Perdida algures num canto onde não consegues alcançar, mesmo que a consigas ver e tentes o teu melhor para agarrá-la para que não se perca de novo. É escusado.

Outra vez incompleto, ansiando por um significado… começas a gatinhar de novo, sozinho, através do caminho tortuoso… até alcançares mais um cruzamento.

E recomeça o jogo… e mais uma vez… e mais uma outra vez… como uma partida de mau gosto, com a única diferença de que, de cada vez, te convences mais e mais de que não precisas de encontrar aquela peça que te falta. Tentas controlar e dominar aquele grito violento da tua alma que chora e murmura, sedenta mas que, no ímpeto do momento, ignoras sem sequer pensares duas vezes. Porque precisas de ser forte; porque te magoaram e desiludiram demasiadas vezes; porque já não acreditas em sonhos; porque esperança é apenas mais uma palavra no dicionário; porque a solidão parece-te como o caminho mais fácil de te desligares dos mapas complicados da vida. Porque o som da realidade é demasiado ensurdecedor.

Será cobardia? Ou será apenas um espírito a render-se porque se apercebe que, às vezes, a mão do Destino não pode ser forçada? Ou talvez seja apenas a imunidade em lutar contra a dor, materializada nessa máscara teatral, onde escondes as tuas verdadeiras lágrimas e os teus verdadeiros sorrisos, que te afasta e te protege da dor, mas que te prende pelos calcanhares à rocha do isolamento.

Mas agora já não és auto-suficiente. A tua própria companhia já não te é suficiente… porque a tua alma tem sede, implorando por um pingo desse delicioso néctar que provaste da última vez que cruzaste um cruzamento.

Mudaste e nunca deste conta disso: a máscara que tens usado durante tanto tempo cresceu para se tornar parte do teu ser. Por isso já não consegues mostrar a tua verdadeira cara, o teu verdadeiro ser, mesmo que queiras. E, mesmo que tentes descrever as palavras que escondes debaixo dessa máscara, ninguém poderá ver… ninguém irá compreender. És um estranho para todos. Mais estranho para ti mesmo ainda… olhando para o espelho e jamais reconhecendo a cara que costumava estar no lugar da cara que olha de volta para ti, desprovida de sorrisos, lágrimas e marcas…

Curvado, sufocando com o peso dessa máscara, começarás de novo o teu caminho… sozinho. Chorando lágrimas que nunca serão afagadas; assombrado pelos pesadelos que ninguém nunca irá afastar; enraivecido pelos pensamentos tempestuosos que nunca se cessam…

…até chegar a mais um cruzamento.

E lá está ela, de novo, esperando… talvez por ti. Tão bem escondida nos olhos de mais uma alma disfarçada, mas tão óbvia: a esperança.
Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: Shiyo em 20.jun.2009, 12:32:45
Às vezes juro que nao sei mesmo o que fazer: se marcar a minha presença ou aumentar a minha distância... Nenhuma das duas me parece minimamente atractiva em momentos como este...

Quando tou afastado de ti, mesmo que o contrário seja a troca de simples sms, dói. Dói tanto... Dói porque me fazes falta, sempre fizeste. Dói porque me preocupo contigo, sempre preocupei. D+oi porque ser esquecido é pior que a morte... Dói. Muito. Dói porque as lembranças continuam comigo. Dói porque o "nosso lugar" ainda existe. Dói porque ainda te amo. Dói porque sei que não és meu... Dói porque sei que és dele... Por favor, faz com que pare de doer... por favor...

Quando me aproximo de ti nunca sei o que esperar... ora pareces estar lá de corpo e alma e, por momentos, voltas a fazer com que me sinta humano mais uma vez, ora és mais cortante que o gelo frio, ignoras-me quase por completo e fazes-me sentir o maior inútil à face da Terra. Eu sei que se tens esse poder, se me conseques controlar desta forma, é porque nunca te consegui esquecer... mas acredita, não foi por falta de tentativas. Eu sei que não pediste para ter esse poder e também não pediste que te amasse, mas não há nada que eu possa fazer. Já tentei tantas mas tantas vezes esquecer-te... mas, por alguma razão, não consigo. Quis por um ponto final em tudo isto... mas não dá!!

Durante uns tempos achei que te tinha esquecido. No entanto, hoje sei que não: o "descanso" que sentia era a pura ilusão de achar que tu, tal como eu, estarias sempre aí. Foi a ilusão de achar que, tal como eu, nao ias conseguir seguir em frente... Mas estava errado. Estava profundamente errado e essa certeza chegou no dia em que tive a certeza que tinhas seguido em frente... Lembro-me como se tivesse sido hoje: senti-me como se tivesse levado um murro no estômago, como se me tivessem despejado um balde de água fria pela cabeça abaixo. Há muito tempo que não me sentia tão triste, tao sozinho... tao perdido!! Nessa noite, chorei. Chorei até não aguentar mais e cair po lado de exaustão. E, nessa noite... nessa noite, depois de tanto esforço, os pesadelos voltaram.

Não, não te culpo. Nunca o pedria fazer! Mas dói-me acordar a meio da noite, desesperado e desnorteado e saber que, desta vez tu não vais estar aqui. Não vais estar aqui hoje, nem amanha, nem para a semana... Não vais. Chama-me invejoso, egoísta, teimoso, mas és a única pessoa que eu desejo perto de mim nessas alturas! É o teu abraço que desejo, o teu embalar que procuro...
E se um dia leres isto, talvez penses "eu disse-te que podias contar comigo, sempre. Sabias que estava a uma mensagem de distancia!" mas, no fundo, tanto tu como eu sabemos que isso não é verdade. Foi apenas mais uma promessa que ficou por cumprir... mas, no meio de tantas, mais uma menos uma... ninguém se vai importar com isso... não é?

Amo-te, sem querer...
Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: EVA Pilot em 15.jul.2009, 00:56:12
http://www.youtube.com/watch?v=8gIKZMRQqDY&feature=related

How To Break a Heart

How to break a heart
It is not difficult
Anyone can do it
So could you, if you tried
Just find a light
And switch it off
As easy as blinking
That's what I was taught
When I was too young to ask
By ladies in white nightgowns
In dripping weeds and black ribbons
A girl's best friend is a small handgun
The question was useless
For I could say yes
But you've got to ask my army
And they are not inclined to grant favours just now
Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: S.F em 15.jul.2009, 06:56:41
As perguntas?



Minha alma para onde caminha?
Se é que ela existe,
não sei qual é o seu rumo.
Vagueia num mundo triste…


O que é a morte?
Um dia por ela passei
escorreguei com a vontade de viver.
Caí, mas depressa me levantei…


Terei de fingir?
Em mundos paralelos e sombrios,
onde desconhecem os limites
E conseguem provocar arrepios…


E qual será o meu destino?
Desconheço o futuro,
desta vida presente,
que com o passado misturo…


O amor…
É algo que posso sentir,
e no meio do podre,
com dor terei de fingir…


♀♀ I'm here to recruit you! ♂♂【Angel / Devil】
Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: epilepsy em 28.jul.2009, 01:31:40
Alguém costuma escrever letras de música em inglês? Estou à procura de letras para compôr músicas. Se alguém quiser participar no meu projecto, mande mensagem pessoal  ;)
Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: What is in a name? em 28.jul.2009, 02:00:05
Assis

retomar a queda interrompida por sobre o mundo
inverter o tabuleiro as grades as peças dos sentidos
subir ao derradeiro chão de todas as vertigens
e no último passo antes da verdadeira encarnação
abdicar de tudo menos das raízes dos cabelos
uma seara à espera de asas

e aí sim
fazer silêncio
contemplar as cidades nascidas em plena atmosfera
os jardins suspensos de uma Babilónia por reconciliar
tocar na sua admirável falta de alicerces
pressentir o poder das nuvens que criam palácios e ruínas
que sendo de dimensões várias chegam todos à mesma altura
arremessados contra o seu tecto máximo
que é também o fim e o começo e a verdade
de cada semente em cada pedaço de terra
de cada abraço plantado

neste compasso de espera e de presença
o poeta estende-se sobre o abismo entre um universo e outro
com as mãos abertas cravadas na ânsia do solo
em estado de puro desejo de irrigação
de sangue e de orvalho ocultos sedentos de comunhão
um poeta de pés livres para dançar com o vento
passo a passo para fora do tempo

é o céu
diz a profecia gerada e nascida da ponte
é esta loucura que abre a boca do poeta para embeber a terra
e da árvore de mãos enraizadas e pés alados
surge todo o sonho a noite o dia enfim a criação
e depois da chuva virá sempre o deserto
o segredo que é incêndio e hibernação
o segredo que se torna aurora
sétimo dia
antecâmara da transfiguração
Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: S.F em 28.jul.2009, 02:03:36
Assis

retomar a queda interrompida por sobre o mundo
inverter o tabuleiro as grades as peças dos sentidos
subir ao derradeiro chão de todas as vertigens
e no último passo antes da verdadeira encarnação
abdicar de tudo menos das raízes dos cabelos
uma seara à espera de asas

e aí sim
fazer silêncio
contemplar as cidades nascidas em plena atmosfera
os jardins suspensos de uma Babilónia por reconciliar
tocar na sua admirável falta de alicerces
pressentir o poder das nuvens que criam palácios e ruínas
que sendo de dimensões várias chegam todos à mesma altura
arremessados contra o seu tecto máximo
que é também o fim e o começo e a verdade
de cada semente em cada pedaço de terra
de cada abraço plantado

neste compasso de espera e de presença
o poeta estende-se sobre o abismo entre um universo e outro
com as mãos abertas cravadas na ânsia do solo
em estado de puro desejo de irrigação
de sangue e de orvalho ocultos sedentos de comunhão
um poeta de pés livres para dançar com o vento
passo a passo para fora do tempo

é o céu
diz a profecia gerada e nascida da ponte
é esta loucura que abre a boca do poeta para embeber a terra
e da árvore de mãos enraizadas e pés alados
surge todo o sonho a noite o dia enfim a criação
e depois da chuva virá sempre o deserto
o segredo que é incêndio e hibernação
o segredo que se torna aurora
sétimo dia
antecâmara da transfiguração

Amei !!!
Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: _tiago_ em 28.jul.2009, 02:19:55
Assis

retomar a queda interrompida por sobre o mundo
inverter o tabuleiro as grades as peças dos sentidos
subir ao derradeiro chão de todas as vertigens
e no último passo antes da verdadeira encarnação
abdicar de tudo menos das raízes dos cabelos
uma seara à espera de asas

e aí sim
fazer silêncio
contemplar as cidades nascidas em plena atmosfera
os jardins suspensos de uma Babilónia por reconciliar
tocar na sua admirável falta de alicerces
pressentir o poder das nuvens que criam palácios e ruínas
que sendo de dimensões várias chegam todos à mesma altura
arremessados contra o seu tecto máximo
que é também o fim e o começo e a verdade
de cada semente em cada pedaço de terra
de cada abraço plantado

neste compasso de espera e de presença
o poeta estende-se sobre o abismo entre um universo e outro
com as mãos abertas cravadas na ânsia do solo
em estado de puro desejo de irrigação
de sangue e de orvalho ocultos sedentos de comunhão
um poeta de pés livres para dançar com o vento
passo a passo para fora do tempo

é o céu
diz a profecia gerada e nascida da ponte
é esta loucura que abre a boca do poeta para embeber a terra
e da árvore de mãos enraizadas e pés alados
surge todo o sonho a noite o dia enfim a criação
e depois da chuva virá sempre o deserto
o segredo que é incêndio e hibernação
o segredo que se torna aurora
sétimo dia
antecâmara da transfiguração

Amei !!!
Mesmo! Esta lindo! :D
Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: Angel of darkness em 29.jul.2009, 00:11:43
Welcome back home dear
How it was the day at work?
Why don´t you look at me
Don´t want you see my tear?

Get out the car, trough the paste
Come and feel the diner´s poison taste
Don´t tell me about the neighbourwood
I don´t care, show them you turned me rude
Get up the floor, now on your knees
Tell me were is your love now, please!
Roll up your sleeves, strike me try to hit
Make me pround you´re a little more than a sh*t
Face my punch, face my pain, face the wall!
I will stop when you say you regret it all

Once you were like a knight,
You were like  Romeo, me too!
World was a Shakespeare dream…
You always waited for the tragedy, right?

 :devil



Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: extremelyalive em 02.ago.2009, 19:32:43
Andei. Um dia pensei.
Um dia entrei em contradições
e revi a história,
a memória,
repeti-me,
repeti-me,
repeti-me,
g
ga
gag
gagu
gague
gaguej
gagueje
gaguejei,
e depois, o chão.
Duro, Frio, Rocha;
Pedra de dor.
O amor.
E lá está o pensamento,
A
história.
De novo.
O real emana nuvens
brancas.
Como se de ontem viesse
o hoje
que
amanhã
não pode ficar.
Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: Nuno_18 em 05.ago.2009, 07:05:38
Na branca areia do mar teu lindo nome escrevi
que em letras bonitas diziam não da para viver sem ti
Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: Shiyo em 24.ago.2009, 15:21:46
Constróis-me e destróis-me a teu bel prazer.
Nao páras dois segundos que seja.
Nao te atreves, nem por um momento, a pensar.
Recusas-te terminantemente a ceder.
Corróis-me a alma, aos poucos.
Fazes-me desesperar, só porque sim.
Apareces e desapareces sem aviso.
Permaneces incostante. Imóvel.


Imperturbável...

Inalcançável...
Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: Nuno_18 em 27.ago.2009, 03:20:53
que luz é essa?
É a iluminação da estrada que tens de percorrer
para os teus objectivos conseguires vencer
Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: Adinatha em 27.ago.2009, 16:59:42
Andei. Um dia pensei.
Um dia entrei em contradições
e revi a história,
a memória,
repeti-me,
repeti-me,
repeti-me,
g
ga
gag
gagu
gague
gaguej
gagueje
gaguejei,
e depois, o chão.
Duro, Frio, Rocha;
Pedra de dor.
O amor.
E lá está o pensamento,
A
história.
De novo.
O real emana nuvens
brancas.
Como se de ontem viesse
o hoje
que
amanhã
não pode ficar.

Muito bom, parabéns :)
Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: dandy em 28.ago.2009, 19:16:02
 - A Cup Filled with Colour

There's a lace that pulls him in,
Soft nature, gentle grin.
And within, that which grips,
Claims his breath. My lips.

There's a buttress that sustains
His tears and his pains.
What remains, never colder,
Holds his head. My shoulder.

There's a cup that colours fill,
Half-drunk by him still.
His, it will (I impart)
Utterly be. My heart.


Escrevi este há uns anos xD
Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: Sorriso metálico em 29.ago.2009, 10:53:15
Liberta-te

Mostra o teu rosto
Pintado de vergonha,
Abre os olhos fartos de chorar,
Grita o que sentes
Com a boca que era calada,
Agita o teu corpo,
Corpo que esteve imóvel, petrificado.
Solta a tua raiva, a tua dor,
Exprime-te corporalmente para quem te oprimiu
E humilhou veja que estás vivo,
Abre os olhos para a realidade humana.
Humanismo que te foi roubado,
Atraiçoado por palavras mentirosas,
Enganosas
Age por ti mesmo!
Não deixes calar a voz que há em ti,
Desejosa de incriminar quem tanto mal te fez,
Quem tanto mal te desejou.


 Sorriso metálico
Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: biri em 30.ago.2009, 02:20:19
Não sou escritor nem muito menos poeta. Apenas me apeteceu escrever isto. Sei que está um bocado incompleto e que faltam algumas transições, que podia ser aprofundado e melhorado e alguma linguagem alterada mas não tenho paciência para isso...

Provavelmente poucos (ou nenhuns) irão gostar e irão achar ridículo. Don't care. Apenas o escrevi para o descarregar da cabeça (não tenho o hábito de escrever). Não sei se lhe darei retoques de futuro, mas duvido, portanto...aqui fica...



~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~

My Heaven

O meu pedacinho de céu. Não sei quando o criei. Quando olho para trás, sinto que sempre existiu e sempre lá morei. Oh…como gosto dele. É um lugar tão lindo e cheio de cores e sombras dançantes. É tão pacífico e silencioso... apenas se ouvem os meus gritos. É um lugar que me aquece, me reconforta e onde sou sempre recebido por um caloroso abraço. No meu paraíso privado sinto-me desejado. Sinto o desejo e a fome das chamas por mim. Não há melhor sensação do que a das chamas a percorrerem todo o meu corpo numa saudade sôfrega, a lavarem-me e limparem-me os pecados e toda a minha sórdida humanidade. Apesar de sempre o ter conhecido, todos os dias descubro algo de maravilhoso que nunca antes tinha reparado: uma rocha, um buraco, uma dor dilacerante que me relembra que estou vivo, um pedaço de carne queimada ainda palpitante que não tinha reparado que me tinha caído. Quando olharem para mim e eu tiver uma chama num olhar distante e um sorriso nos lábios, estou perdido no meu paraíso infernal e não quero ser incomodado.


Um dia, estava eu sentado algures, quando vejo alguém a passar perigosamente dentro dos meus limites. Num passo vagaroso e desinteressado, patrulha a minha fronteira. “Ninguém ousaria entrar…ainda a semana passada reforcei o arame farpado” pensei. Continuei a observar a estranha criatura e as suas tentativas vãs de entrar nos meus domínios. A sua insistência despertou a minha atenção e depressa esqueci as danças à minha volta, para me fixar naquilo. O que deveria fazer? Deveria ir defender o meu território, feroz como um leão? Continuar a observar a estranha criatura mais as suas tentativas de invasão? De facto divertia-me vê-lo a falhar e a tentar novamente, mesmo depois de se ferir. Perguntava-me qual o seu interesse neste espaço. Perante um novo insucesso, especialmente hilariante, ri-me com satisfação. Nunca percebi como é que ele o fez, num momento estava no lado de lá da vedação, pisquei os olhos e quando os voltei a abrir, para meu horror, tinha-a ultrapassado e dirigia-se para mim.
– Olá, estou perdido e como tu não me ouvias chamar, vim ter contigo. Quem és tu e onde estou? – Perguntou-me com uma voz tão cristalina que me perfurava o cérebro e afugentava todo o fogo reconfortante à minha volta. Um arrepio frio percorreu-me a espinha.
– Não sei e estás onde ninguém tem permissão de entrar. – Respondi agressivamente – Olha, como é que aqui entraste e o que faz esse trilho de flores atrás de ti?
– Como Deus que és deste espaço, provavelmente deixaste-me entrar e esse trilho é criação tua.
Tudo isto me parecia errado e confuso. Mas o que raio estava ali a fazer aquele sujeito? Ele e as suas flores? Mas o mais importante era “Como é que ele entrara?”. Odeio que violem e que corrompam o meu espaço! Ainda mais era insolente…”foste tu que me deixaste entrar e as flores são tuas…”. Irado e aterrado com o que poderia continuar a fazer ao meu íntimo, expulsei-o daquele lugar até então imaculado e dei ordens às chamas para destruírem aquelas coisas hediondas e inúteis que ele tinha deixado para trás. Tudo ganhou vida. Faminto, o fogo devorou todos os restos da sua presença, enquanto as chamas e labaredas me abraçavam, acalmando e reconfortando. Ninguém tinha aquele direito…era o meu refúgio! Será que os Deuses também eram invadidos nos seus abrigos?
A partir desse dia, construí muros, impossíveis de ver o topo, ao redor do meu mundo, na esperança que mais ninguém o invada e o corrompa, alterando tudo o que sempre conheci e que tenho pavor de abandonar.

~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~
Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: extremelyalive em 02.set.2009, 19:45:45
A História do Velho Entristecido com a Vida


Mais um dia. Mais outro dia. Um atrás do outro, sem fim, sem começo, uma sequência tão repetitiva como a própria palavra. E é sempre este apartamento velho, esbranquiçado, como se já não vivesse cá ninguém há tanto tempo. E como era bom que isso fosse verdade. As nuvens movem-se como ontem, como anteon-tem, antes até. O céu está cinzento, choveu de noite, eu ouvi, não dormi nada. Estive a pensar, pensei muito. Olhei o relógio várias vezes durante a noite. E só cheguei a uma conclusão. É tarde. Mas ainda não é tarde demais.
Longos anos viu passar esta rua. Ainda era eu pequeno e jovem, sedento por aventura e brincadeira. Lembro-me tão bem dos agricultores que passeavam a foice e enxada pela rua, aliás, pelo caminho de terra, caminhando para mais um dia de trabalho. Eu brincava com os meus amigos, filhos de outros camponeses, alheios à podridão que estava a começar no mundo. Mas crescemos, todos cres¬cemos, crescemos com o mundo e apodrecemos com ele.
É uma triste verdade, a vida. Passamo-la todos a fazer as mesmas coisas, nin-guém consegue fugir às regras impostas pela sociedade. Coitados daqueles jovens que tentam ser diferentes e acabam humilhados em público. Coitados daqueles outros que seguem as regras sem perguntar e vivem numa aparente felicidade, apenas com as entranhas contorcidas na solidão. Estou cansado. Talvez devesse ter dormido.
Mas para quê? Talvez para ser feliz. Talvez só nos sonhos somos mesmo feli¬zes, de outra forma não se utilizaria a expressão ‘mundo de sonho’. Talvez se adormecesse, seria feliz. Pena que depois da dormida, há que acordar. A rua está silenciosa, ainda ninguém deu o ar da sua graça. Não que vá saber pelos olhos, a janela está fechada, estou na escuridão, a luz não entra aqui. Se bem que mesmo com a janela aberta, a luz nunca entra aqui. Este apartamento será para sempre escuro e enterrado em tristezas e solidão. Talvez devesse ter dormido.
A madeira está podre. Consigo senti-lo. Estes apartamentos estão velhos, de-masiado velhos e esquecidos. Quem cá vive, não sairá mais de cá. E quem cá não vive, nunca cá entrará. São prédios repulsivos, feios, muito feios. Mas que inte¬ressa? Estou velho, velho e rude. Velho e, tal como estes prédios, esquecido. Nin¬guém sabe de mim, ninguém se lembra, só me vêem o corpo e os olhos, mas nin¬guém sabe nada. Estou cansado. Talvez devesse ter tomado mais um comprimido.
Malditos medicamentos. Só os jovens para inventar mais drogas para nos man¬ter vivos por mais tempo. Só os jovens é que têm ideias destas, eles pensam que serão jovens para sempre, eles pensam que se se manterem vivos por mais tempo, poderão aproveitar mais a vida. Mas que vida? Chega a uma altura em que a vida deixa de se importar connosco. E ficamos velhos e enrugados. E a última coisa que queremos, são medicamentos para ficarmos vivos por mais anos. Ficarmos esquecidos por mais anos, vivos de corpo, mortos de alma por mais tempo. E pas¬sar as noites desperto, a pensar. E a lamentar não ter dormido, na manhã se¬guinte. São tão ingénuos, estes jovens. Vão todos ser espezinhados, um dia, esma¬gados pelo alto poder do tempo. E nunca ninguém aprenderá com isso, porque nós, que os avisámos, já não estaremos aqui para lhes dizer ‘eu avisei-te’. Talvez seja essa a única utilidade dessas drogas. Talvez. Talvez devesse ter dormido. Es¬tou muito cansado.
Então, porque não durmo. Estou velho e cansado, tenho um longo dia pela frente, um longo dia que vai ser inequivocavelmente passado no café, a olhar os transeuntes por entre as vitrinas. Passar todo um dia, apenas com um café. E tal¬vez um bolinho a meio da tarde. Mais tarde, voltarei para este apartamento que fede à velhice, estender-me-ei na cama com dificuldade e preparar-me-ei para ou¬tra noite passada a olhar para o despertador, a pensar. E amanhã será hoje, outra vez. E pensarei, tal como hoje, ‘talvez devesse ter dormido’.
Está tudo mudado. As músicas são diferentes, os filmes são diferentes (não que saiba por experiência, que já não vou ao cinema há muito tempo), as pessoas es¬tão diferentes, todo o mundo está diferente. E isso entristece-me. Onde já vão os dourados anos em que eu era jovem e tinha o mundo à minha frente, uma grande pilha de oportunidades estendia-se aos meus pés. Não aproveitei nada, fiquei pa-rado, à espera que as coisas me caíssem em cima. Mas tudo secou rapidamente, nada tive, sozinho fiquei. Sozinho estou. E o dourado deu lugar ao cinzento. Tal¬vez devesse mesmo ter dormido.
Continuo aqui na cama. Sei que me vou precisar de muito esforço para conse-guir sair dela, estou velho e não tenho ninguém para me ajudar. Desapareceram todos. Não que tenha ido atrás de alguém, não. Sou talvez demasiado orgulhoso para o fazer. Estou cansado, agora. Agora estou velho e perdido. E o tecto qual-quer dia desaba sobre mim. Desde que não doa muito, não me importo. Estou triste. Desiludido. Tinha tantos sonhos em criança e nenhum deles foi cumprido. Estava longe de adivinhar que ia acabar num apartamento velho e podre, sem ninguém.
Tenho de sair daqui. Este ar pesado está a empurrar-me contra o chão e sinto tudo isto abafado. Vou mais uma vez, para o café, olhar pela janela, a vida do outro lado. Vou ser, mais uma vez, o primeiro cliente do dia. O primeiro, e não primeira vez, o único. Espanta-me como aquele café ainda não foi à falência. Sempre tenho onde estar, que não este apartamento morto. Como me custa sair desta cama! Já está, pronto. As minhas costas já não são o que eram, doem-me muito. Dor que vai com uns comprimidos. Talvez seja melhor levar mais alguns frascos para logo. Poderei precisar. Talvez, talvez.
Já não como nada há algumas horas, mas não tenho fome nenhuma. Já me sinto sem estômago, como se não precisasse de comer para sobreviver. Ou talvez como se não precisasse de sobreviver para comer. Está escuro, no quarto, mas para quê abrir a janela? Ninguém irá cá entrar, ninguém irá barafustar por não ter deixado entrar um pouco de ar fresco. Eu não preciso de ar fresco. Pelo me¬nos, não hoje. Onde pus a bengala? Ah, aqui está. Vamos indo, então.
A porta está perra. Custa-me abri-la. Será que cairá se mandar um empurrão? Talvez não. Não, não caiu. E a porta está aberta. Já posso passar. O céu está muito nublado, lá fora, está mais cinzento que ontem. Vai chover mais hoje. Bem, dentro do café não chove, isso é certo.
Tenho de tomar as escadas, o elevador não funciona. Nem eu teria coragem de o usar, está tão podre como os prédios. Estas escadas parecem infinitas, tão difíceis de descer, tão difíceis de subir. Não se ouve nada, estranho. Já não é propriamente cedo, já deveria haver gente a sair de casa com pressa, em direcção aos seus trabalhos. Talvez seja fim-de-semana. Já nem sei, os dias são todos iguais. A rua está molhada, choveu mesmo durante a noite. Já só falta mais um piso. Estas escadas estão sujas, fedem a tinta. Andam a pintar o piso de baixo, vá-se lá saber porquê. Tentam reparar o irreparável, estes homens.
- Bom-dia, senhor. – diz um deles. Não, não é um bom dia, mas eles não saberão o porquê.
- Bom-dia… - a porta de entrada também está perra. Estes prédios qualquer dia vêm abaixo, de tão velhos que estão. E esta não consigo abrir. Talvez um pouco mais de força. Não, não consigo, maldita porta que decidiu não abrir.
- Deixe-me ajudá-lo. – ofereceu um dos pintores. O rapaz lá empregou um pouco mais de força, força tal que a velhice já não me traz. Conseguiu-a abrir.
- Obrigado.
- Estes prédios já estão um bocado maltratados, não? – que perspicaz, este rapaz.
- É o preço da velhice.
Abandonei o edifício, entristecido. Lá está a rua, triste como eu, cinzenta, porca. Um jornal voa ali mais ao fundo, está vento, está frio. Talvez devesse ter ficado na cama, sempre estava mais confortável. Talvez devesse era ter dormido, que estou cansado e os meus olhos estão pesados.
Lá está o café. Vazio, como era de esperar. Está a ficar cada vez mais frio cá fora, é melhor entrar. A televisão está desligada, o empregado está a limpar copos, está tudo muito silencioso hoje. Cheira a lavado aqui. As cadeiras ainda estão sobre as mesas; o café abriu há poucos minutos.
- Bom-dia, senhor! – exclamou o empregado, cheio de energia.
- Pronto para mais um dia quase sem trabalho? – este café está condenado a fechar, nunca cá vem ninguém.
- Vamos sobrevivendo. O senhorio tem um café noutra rua e, pelos vistos, lá, aquilo está a dar boa massa. Disse-me ele que só não fecha este, porque o estima muito. Tem boas memórias deste lugar. Mas bem, é o seu café de sempre? – é. É o meu café de sempre. Boa escolha de palavras.
Estes prédios são tão feios por dentro como por fora. Detestáveis, horrorosos. Alguém abriu a janela. Ah, é aquela rapariga. Completamente convencida de que é grande, trata os outros como se fossem lixo. Aposto que neste momento pensa que eu me estou a derreter a olhar para ela. Precisa urgentemente de cair na realidade, vai sofrer tanto aquela rapariga.
- Cá está o seu café.
- Obrigado, rapaz.
Será que trouxe o papel? Lembro-me que o pus no bolso do casaco que tenho vestido, ontem antes de ir para a cama. Sim, ainda está aqui. E também cá estão os comprimidos. Primeiro, saboreio o café.
Este mundo está como estes velhos prédios. Irreparável. Mas teimam em deitar mais remendos onde não dá. Este café está bom, devem estar a experimentar novas marcas. E lá está a vida a correr com o vento, as nuvens cada vez mais negras, vai chover hoje. A rua está toda suja, este é o fim do mundo, com certeza.

~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~
ainda está incompleto, mas estou quase no fim, irá acontecer algo surpreendente no final
Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: _tiago_ em 02.set.2009, 20:00:46
gostei do texto e da maneira como esta escrito  :D
continua extremelyalive
Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: xXxPePexXx em 02.set.2009, 21:07:52
Diz Me

'Não sei mais quem sou
No universo dos mortais
Já fui anjo,
Já fui duende,
Poeta e muito mais...


Fui um grande porto de abrigo
Inseparável companheiro
Lutador, um guerreiro
Defensor dos inocentes
Dos mais sensíveis, das mentes
Perturbadas pela dor!


Fui o sol ao nascer da aurora
O luar em noites de lua cheia
O mais doce anjo na terra
Na qual não existia guerra!


Hoje, sinto-me assim...
Por vezes perdido
Como que sem vida...
As minhas preces esquecidas
As minhas asas caídas
As energias possuídas!


Ainda há quem me chame de anjo
Que transporto a bondade no olhar...
Talvez eu possa ser esse anjo
No momento de alguém sonhar...!
Mas...
Um anjo não explode, não fica furioso!
Não vive tempestades, tormentas
Semeia apenas o amor...


Assim, não sei mais quem sou...
O que fazer, O que sentir
Redimir-me ao meu destino...
Será essa a solução?
Deixar o mundo pegar fogo
Permitir que haja o sofrer
E com ele conseguir viver
Sinto que é o mundo onde estou...!
Mas antes, queria saber...
Apenas... Diz-me:

- Quem sou...??'

by xXxPePexXx in corner of my own mind (http://cornerofmyownmind.blogspot.com/search?updated-max=2009-07-26T03%3A23%3A00%2B01%3A00&max-results=7)
Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: extremelyalive em 03.set.2009, 17:51:49
aqui vai mais texto. É o 1º capítulo de um livro que eu ando/ei a escrever. O que escrevi do 2º capítulo já está cá, é o meu último post neste tópico.



A HISTÓRIA DA RAPARIGA OBCECADA EM SI PRÓPRIA


Eu sou tão boa. O meu cabelo está um bocado desalinhado e acho que tenho umas remelas à volta dos olhos, mas também, acabei de acordar. Ainda assim, caramba, eu sou tão boa. Ainda bem que mandei pôr aquele espelho no tecto; acordar com a minha imagem é a melhor coisa do mundo. Já me sinto mais feliz, mais confiante para o casting de hoje. Não que precise de confiança ou sequer de sorte, que uma rapariga tão talentosa como eu sou fica com o papel num instante. Ainda por cima quando é para ser modelo de fatos de banho, ó meu Deus, eu vou arrasar. As outras raparigas, coitadas, vão ser postas para segundo plano, porque eu sim, eu sou aquela que o mundo está à espera, eu vou ser a próxima super modelo ou a actriz mais bem paga do mundo, ou melhor: as duas coisas! Fama e dinheiro – o que uma mulher quer mais? É hoje que o meu futuro vai começar. Fogo, eu sou mesmo boa. Olha-me aqueles lábios, beijava-me toda. E estas per¬nas, a sério, sou fabulosa. Vá, tenho de me preparar decentemente para o casting, não que precise, se fosse toda nua, nem precisava de abrir a boca, passava logo. Hum… nem era má ideia. Vestia um daqueles fatos de banho que tenho na ga¬veta, talvez um daqueles que comprei anteontem, o rosa… o azul será melhor. Não… talvez o violeta seja mais apropriado. Está escuro aqui, vou abrir a janela. Ah, que escumalha que aqui vive, esta rua é um atraso de vida, é só gente que não tem onde cair morta. Este sítio nem é digno de me ter aqui a viver, mas é para o que dá o dinheiro. Eu não pensei isto, melhor é nunca dizer alto, que vão pensar de mim? Que sou uma pobretanas como o resto desta gente… não, isso não, isso não admito. Lá está o velho rabugento no café, não tem mais nada que fazer o homem, passa o dia todo lá enfiado. E eu que sei o que ele não pensa, olha, olha, já sabia, já está a olhar para aqui. Depravado. Ao menos tem bom gosto, admita-se. Vá, o casting, o casting.
Ainda me lembro da outra vez, não que tenha sido há muito tempo, mas é uma daquelas coisas que eu queria esquecer. Publicidade a telemóveis, precisavam de raparigas bonitas, jeitosas e que gostassem de ganhar uns trocos. Era perfeito para mim! Eu sou uma rapariga bonita, muito jeitosa e uns trocos não me faziam mal. Eu não pensei isto, estes trocos vão ser ninharias ao que eu vou ganhar quando for seleccionada neste casting. Cheguei lá, vi umas raparigas que, coita¬das, eram reles e umas altas convencidas, coisa que odeio são pessoas convencidas que são as melhores, mas aquelas ultrapassavam tudo. Ai credo, tinha lá uma que estava tão mal vestida! Deviam ser roupas da avó ou assim, porque aquilo era do século passado. Quando me mandaram entrar, lá fui eu, para dentro de uma sala pequena e feia, com três pessoas a ver-me.
- Está a ver aquela cadeira ali? – disse uma dessas pessoas. Olhei para onde apontava e reparei na tal cadeira, nem a tinha visto. – Sente-se e diga ‘Nova rede de telecomunicações Sim. Faz chamadas de arlimpimpim!’. – eu fiquei completa¬mente especada a olhar para eles. Arlimpimpim? Isto é alguma coisa para crian¬ças ou quê?
- Diga-me só uma coisa, isto é publicidade a quê, ao certo? – só espero que não me respondam que é uma rede pililim para gente tulilina.
- A uma nova rede de telecomunicações destinada sobretudo a crianças. – res-pondeu com uma voz seca. E então eu lembro-me de ter pensado que numa pu-blicidade daquelas, eu nunca poderia mostrar o meu verdadeiro talento, o meu belo corpinho, porque as crianças são demasiado estúpidas para dar atenção a esses grandes pormenores. Olha o dinheiro, pensei. Aquele dinheiro fazia-me falta, confesso, não estamos propriamente numa época em que se ganha milhões de euros por dia… e ainda à ida para lá tinha visto um vestido tão lindo! Por¬tanto, sentei-me na cadeira e com uma voz decidida, disse, sorrindo:
- Nova rede de telecomunicações Sim. Faz chamadas de arlimpimpim!
- Vá, diga outra vez, mas agora seja mais amigável. Lembre-se de que está a falar com crianças. – pois estou, um bando de crianças inúteis que passam a vida a julgar os outros quando eles não sabem fazer nada. Ora bem, então, mais ami¬gável… faz de conta que estou a falar com a minha sobrinha, tão fofinha.
- Nova rede de telecomunicações Sim. Faz chamadas de arlimpimpim!
- Mas que é isto? Acha que bebés vão comprar telemóveis? Caramba, é uma mais parva que a outra. – eu juro que se ele me insulta outra vez, esgano-o. – Vá, última oportunidade, são crianças assim com nove ou dez anos, eles querem tudo com esta idade, o que vêem na televisão é pretexto para correrem a pedir aos pais para lhes comprar, mesmo que seja completamente inútil. – tipo isto? – Lembre-se que é a sua última oportunidade. – vá, não é difícil, é só dizer aquele slogan com-pletamente ridículo a tentar convencer as criancinhas inocentes a comprar.
- Nova rede de telecomunicações Sim. Faz chamadas de arlimpimpim!
- Bem, já vi que não está à altura deste anúncio. Pode ir. Próxima! – o quê?! Já fui despachada? Ah não, não não não, não acredito nisto, isto não está a aconte¬cer, ele nem sequer olhou direito para mim, para as minhas belas pernas, para estas mamas aqui que deixam qualquer homem maluco, deve ser gay, é, é a única explicação, nem devia ter trabalho, muito menos este! As crianças ficavam baba¬das comigo, ai se não ficavam! Hão-de ir todos para o inferno, hão-de ser todos atropelados, olha entrou agora aquela gaja das roupas do século passado. Eu acho que já a tinha visto não sei onde. Coitada, vai ser massacrada por aqueles crocodilos. E ela? Olha, ela também vai arder no inferno, raios partam estas gajas todas que vieram para aqui fazer concorrência. Não que precise, claro, eu arraso tudo, esta gente é que não é digna de me ter como imagem do estúpido anúncio deles.
Mas hoje é que vai ser. Hoje é que vou atingir aquilo que ando a perseguir há tanto tempo. Até se vão passar com o furacão que lhes vai passar à frente. Eu vou arrasar! Duas vezes se for preciso. Estou a ficar com fome. Não posso comer muito, não quero ficar inchada para o casting, estou tão contente, é hoje! E que não esteja lá a gaja das roupas do século passado que já lhe chegou ter sido selec¬cionada no outro casting do arlimpimpim. Mas vá, pensamentos positivos, tenho de sorrir, sorrir muito, é isso que eles procuram, um bom corpinho sim, mas um sorriso lindo também, quem é que quer ver uma rapariga linda de trombas? Quero dizer… eu até pintada de palhaço sou irresistível, mas fico bem mais bo¬nita a sorrir, tenho uns dentes mesmo brilhantes! Nenhum homem algum dia po¬derá ser sequer tão bom como eu sou, nenhuma mulher poderá ser algum dia tão apetecida como eu sou. Onde está o espelho, preciso de me ver. Fogo, Deus adora-me, só pode.
Alguém está a tocar à campainha, logo agora que ia preparar alguma coisa para comer. Oh, que bom, é a vizinha coscuvilheira. Esta mulher é um diabo, sempre a meter o nariz em todo o lado. O que é que ela quer agora?
- Bom-dia. – mau agora.
- Olha, desculpa estar a chatear, - por acaso está… - mas eu estou mesmo a precisar de um pacotezinho de açúcar. Não pedia se não estivesse mesmo desespe-rada. – olha que raio… pacotezinho de açúcar, como se a loja no final da rua não estivesse aberta.
- Não sei se tenho, sabe…
- Oh, tens a certeza? É que, sabes, vem o meu afilhado, aquele da América – oh pronto, vamos ficar aqui a vida toda, ó mulher, eu lá quero saber do seu afilhado, até podia vir do Iraque que, sinceramente, não me interessa -, e eu estou a fazer-lhe o seu bolo favorito, é um querido ele e, coitado, tem trabalhado muito, só Deus sabe – e você também, pelos vistos -. É um bom rapaz, e está crescido! Oh se está, saiu daqui a uns três anos, magricela, com dezoito aninhos acabadinhos de fazer, não pensei que fosse vingar tão rápido lá naquele lugar tão esquisito. Já foste à América, querida?
- Não…
- Pois, mas sabes – já se calava -, três anos passaram, três, e ele agora está um homem, já arranjou mulher, e ela já está grávida! Estou mesmo orgulhosa do meu querido afilhado e é por isso que eu preciso mesmo do pacotezinho de açúcar.
- Espere então um minuto, a ver se encontro algum aqui. – quanto mais de¬pressa lhe der o açúcar, mais depressa a despacho.
- Ai obrigada, querida! Deus te abençoe!
Onde é que eu tenho o raio do açúcar, nesta gaveta não, no armário também não… ah, aqui está ele.
- Pronto, está aqui o… - onde raio se meteu a mulher?
- Ah, querida, estou aqui! – na sala? E entra-me assim em casa sem pedir nem nada, mas que é isto? – Olha, desculpa ter entrado, mas eu não resisti em vir ver estas fotografias, quem é esta rapariga, tão fofinha?
- É a minha sobrinha, olhe, aqui está o açúcar, agora, por favor, saia que eu tenho de me arranjar, porque tenho de sair daqui a pouco. – maneira educada de dizer ‘tire a porcaria dos seus pés da minha casa!’
- Ah sim? Vais procurar trabalho?
- É.
- Fazes bem, que a vida está difícil e a mamã não pode estar sempre a sustentar os seus filhinhos. – olha que raio, quem pensa ela que é para fazer estes julga-mentos?
- Concordo, mas a minha mamã não me sustenta.
- Não? – ai a expressão dela está a irritar-me – Admira-me. Digo isto porque nunca a vi a trabalhar… quero dizer… - ok, não consigo mais, vai já ao pontapé.
- Olhe, já lhe dei o açúcar, agora, por favor, saia da minha casa. – finalmente, a porta fechou. Nem a deixei responder, ainda bem, senão não se calava.
Já são estas horas? É melhor despachar-me, o raio da coscuvilheira fez-me per¬der tempo precioso, além de que já fiquei mal disposta. Pronto, vá, casting, o casting, lembra-te do casting, rapariga. Sorrir. Sorrir muito, mostrar este belo corpo que tens àqueles tubarões que só querem dinheiro. Vai ser fácil. Respira, vá. Tenho de ir, não posso chegar atrasada, só espero que a mulher não esteja lá fora à espreita. Deixa ver. Hum… não me parece. Ok, caminho livre.
Eu estou mesmo a ver isto? Donde é que isto veio? Ah não, o tecto? O tecto está a desabar? Meu Deus, este prédio é mesmo velho, aliás, tudo nesta maldita rua é velha. Onde já se viu, felizmente não caiu em cima de mim, alguém devia ligar ao senhorio para tratar disto. Deixa, rapariga, alguém o fará, vai-te embora senão não chegas a horas ao casting. Que se dane o tecto, até pode cair todo, desde que eu não esteja aqui. A primeira coisa a fazer quando receber o meu pri¬meiro cheque é arranjar uma casa, que eu estou cheia de prédios velhos e baratos, a cheirar a podre e à sujidade. Eu mereço mais, muito mais, ninguém sequer ima¬gina o trabalho que eu tenho tido para conseguir concretizar os meus sonhos. Olha que bom, a porta agora não abre… vá, um bocado mais de força, tinha de encravar logo hoje! Estou a ficar com uma neura, parto já o vidro! Pronto, já abriu, até os objectos cedem à minha óbvia superioridade. Eu sou tão espectacu¬larmente boa!
Cheira tão mal cá fora. Que aconteceu? Bem, não interessa, só espero que o cheiro não se prenda às minhas roupas… as minhas roupas! Eu estou de pijama! Ai não, isto não me está a acontecer, maldita seja a porra da coscuvilheira que me fez perder tempo e me distraiu! Agora tenho de voltar lá dentro! Vou chegar atra¬sada, já estou a ver. Oh, porta, abre! Porque é que não abres? A chave… não, deixei a chave lá dentro! m****! Porque é que isto me está a acontecer? Que se lixe, não vou faltar àquele casting por nada. Vá, rapariga, o casting. Anda, não páres.
Está toda a gente a olhar para mim, o velho, eu sinto que o velho está a olhar para mim. A coscuvilheira também, e o puto! Que nojo, aquele rapaz não descola os olhos. Vá, estão a olhar porque tu tens um corpo de deusa! Não há outra ra¬zão, claro. Cabeça virada para a frente, erguida, tu és superior a esta gentinha e tu sabes disso. Sorri, mostra um sorriso de grandeza, de líder, tu é que mandas aqui, tu és a melhor. Tu vais ficar cheia de… água?! Não! Mais isto não!
Porcaria das poças de água! Estou toda molhada, toda suja da lama! Porque é que me está tudo a correr mal hoje? Eu não posso ir para o casting assim! Mas também não consigo entrar em casa para mudar de roupa, nem tenho tempo! Eu tenho de ir, não quero saber!
- Estás toda molhada. – uau, a sério? Já reparei, rapaz! Que estás aqui a fa¬zer… outro a chatear-me.
- Que é que tu queres?
- Calma, não precisas de ser tão… porque é que estás de pijama? – desanda daqui, por favor, sai! Eu tenho de ir… o casting… tenho de ir!
- Eu… sai da frente, eu tenho de ir.
- Tens de ir onde? – o casting, o pijama, raios partam a porta, a coscuvilheira, porque é que eu estou a chorar? Não, pára! Pára, rapariga, tu és superior! Não podes chorar! – Ei, então? Que se passa?
- Pára! Pára! Deixa-me! Não me atrases! Já… já chegou a porcaria da mulher, da vizinha, que… que… - porra, pára de chorar, rapariga! Tu és maior! – Não! Não quero mais ser a maior, a poderosa, a toda boa! Eu quero sair da¬qui, estou farta, estou toda suja, não vou ganhar o casting porque eu sou feia, sou horrível e toda a gente tem pena de mim, mas eu não quero que tenham pena de mim, e eu… eu… eu quero… deixa-me…
- Então? Nós não temos pena de ti… não no mau sentido. Toda a gente gosta de ti, tu és uma doce rapariga, ei. Que se dane o casting. Vais ser usada uma vez, ganhas uns trocos miseráveis e depois és posta na rua. E não és feia. Tu és muito bonita. No teu género, mas és bonita.
Respira. Outra vez. Outra. Vá, recompõe-te. Tu vais ganhar este casting, tu consegues, porque és irresistível. Vais ganhar muito dinheiro. Vais ser rica e fa¬mosa um dia. Rica e famosa. Olha a poça. O teu reflexo lá. Tu és linda, absolu¬tamente fabulosa. Ninguém é tão espectacular como tu és. Tu vais ser a rainha deste mundo.
- Estás melhor?
Que raio é que este rapaz quer, com as suas falinhas mansas. O que ele quer é meter-se na cama comigo que eu bem sei. Mas pronto, já estou habituada, toda a gente me quer, eu sou fantástica, que posso fazer? E que se dane o casting? Que se dane? Vou deitar esta oportunidade de ser rica e famosa só porque me sujei? Como se isso fosse algum dia acontecer, este rapaz não sabe nada da vida.
- Olha, eu não sei porque estás aqui, mas eu acho que a melhor coisa que de¬vias fazer era tirar a tua mão do meu braço, que eu tenho assuntos para tratar e tu estás a empatar-me. E eu sei que toda a gente gosta de mim, eu sei que sou doce e bonita e não só no meu género, mas em todos os géneros! E não, não vou faltar ao casting, este casting vai abrir-me portas a coisas que nem sequer alguma vez apareceram nos teus sonhos mais selvagens! Percebeste? Tu não és nada, não és ninguém, ao contrário de mim, que sou fabulosa, linda, completamente desti¬nada a ser famosa e rica e, lembra-te que, quando for, vou espezinhar-vos a todos com as vossas falinhas mansas e as vossas manias de que são melhores que os ou¬tros. Por isso, vai-te lixar. – e pu-lo na linha. Assim é que é, rapariga! – Isso, vai-te embora, vai. E não te atrevas a voltar a falar comigo, percebeste?!
Ora bem, agora vou tratar deste assunto. Não consigo entrar em casa? Isso re-solve-se, não preciso de roupas para vencer este casting, o meu corpo basta, por¬que eu sou fantástica, eu sou fabulosa, ninguém é melhor do que eu, nenhuma rapariga é mais bonita do que eu, eu sou linda! Este pijama está mesmo todo sujo, ao menos não sujei o meu belo corpo. Bem, o que vou fazer com este pi¬jama? Oh, que se lixe, deixo-o aqui, aliás tenho mais em casa e este era feio, por isso, não vai fazer falta. Ainda bem que ontem, quando fui dormir, vesti lingerie preta. Fico tão mais sexy nesta cor! É melhor ir, que estou a ficar atrasada e ainda tenho de caminhar muito. Eu sou tão boa que nem acredito.
Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: Arms em 09.out.2009, 02:03:35
(Ando a experimentar novas coisas...)

O mundo adora segredos

Pergunto-me... Se eu estivesse a andar na rua e tu simplesmente, por acaso, passasses por mim, o quanto de mim verias? Quantas coisas de mim adivinharias? Farias histórias elaboradas na tua mente sobre para onde eu iria ou onde já estive? Especularias sobre se eu teria uma família com quem ter em casa? Uma carreira para seguir? Ou uma especialização por terminar? Ou eu seria meramente mais um daqueles incontáveis rostos que passam por ti e de quem não te recordas?

Eu penso sobre estas coisas ao ponto de criar as minhas próprias histórias. Os meus olhos a percorrer as multidões, seleccionando pessoas e criando-lhes histórias e motivações. Dando-lhes personalidades e interacções. É a natureza humana, penso... fazer julgamentos com base daquilo que vemos. Não necessariamente julgamentos negativos, mas como um exercício mental. Bom, pelo menos no meu caso. Por isso, se imagino estas coisas acerca dos outros, que imaginarão eles de mim? Talvez algo mais interessante que a realidade. Talvez não.

Talvez imaginas-me como um rapaz banal, no início dos seus vinte. Ainda inexperiente na vida, terminando um curso ou tirando já uma especialização. Talvez imaginas-me morando com os meus pais ainda, saudável e confiante. Por aquilo que sinto hoje. Provavelmente imaginas que tenho como passatempo a escrita, já que me vês a escrever, com um desejo secreto de me tornar num escritor. Ou poeta. Claro que, se imaginas isso, imaginas que sou sensível, expressivo, que articulo bem as palavras e que tenho opiniões e pontos de vista bem vincados. Talvez imaginas-me um solitário. Ou talvez imaginas-me com uma namorada. Ou talvez não.

Sou um rapaz de uma altura média, a um passo dos trinta, com feições que facilmente se perderiam na multidão. As minhas roupas são, grande parte das vezes, incrivelmente banais - as típicas T-Shirts e calças de ganga que se encontram em quaisquer lojas do país. Nada na minha cara salta à vista. Tenho olhos castanhos e cabelos castanhos, com o corte mais banal que existe. As minhas feições são mais vincadas aqui e mais suaves ali e nada se sobrepõe a nada. Sou magro o que provavelmente será o traço mais imediato do meu corpo. Não tenho muitos traços vincadamente masculinos, tenho curvas mas não são femininos. Nota-se bem que sou um rapaz. Para mim eu estou bem.

Talvez imaginas-me como um rapaz solitário, tímido, calado e reservado, pela forma como geralmente me encolho e ignoro o mundo à minha volta. Ou talvez imaginas-me como uma pessoa concentrada, versátil, ponderado e dedicado pela mesma razão. Talvez imaginas-me como um rapaz arrogante, egocêntrico e narcisista porque continuo a ignorar todos à minha volta e, quando olhei para ti, não respondi ao teu sorriso tímido.

Sou simpático, atencioso e carinhoso. Gosto de pensar que sou. Também sou distraído e despistado. Tenho um baixo nível de interesse mas um alto nível de concentração. Falo muito com as mãos e, à primeira vista, sou visto como sendo "uma eterna criança". Tenho uma curiosidade muitas vezes saudável e pontos de vista bastante incomuns. Mas sou rabugento e não tenho muita paciência (apesar de demonstrar muitas vezes precisamente o contrário). Falo sem preconceitos de todos os temas, incluindo os temas que me são mais pessoais. Não tenho tendência para me chatear muito. Sei ouvir e sei dar conforto. Mas, quando as coisas não me interessam muito, faço ouvidos moucos e não dou importância ao que me contam. Não tenho paciência para sentimentos de posse em relação a outras pessoas (excepto às que me são muito próximas) e não tenho tendência para ciúmes. Mas tenho os meus dias. Tenho vertigens e sofro de claustrofobia a partir de um certo nível. Tenho pavores à morte e não gosto de lamechices. Não sou bom a confortar pessoas que estão constantemente a lamentar a sua vida, apesar de eu lamentar imenso a minha. Coisa que até acho bastante irónico em mim.

Por alguma razão, eu seria colocado imediatamente no grupo dos rapazes certinhos aos olhos do mundo, isto apesar de eu acreditar que se deve tratar as pessoas como elas nos tratam e, se alguém me pisa, eu piso de volta. Sem sentimentalismos ou arrependimentos.

Talvez imaginas que a minha vida tem sido fácil e que os meus pais são dedicados e atenciosos. Que me ajudam no curso que imaginas que estou a tirar e que nunca tive grandes sustos na vida. Provavelmente até achas que sou um betinho qualquer pela forma como estou vestido e penteado e que devo ter um carro e tudo e mais alguma coisa.

O que tenho - que não é muito, confesso - foi fruto de muita luta e esforço. Os meus pais são divorciados, o meu pai não fala comigo, nem sequer quer saber se estou vivo. Mas isso já não me incomoda. A minha mãe apoia-me incondicionalmente apesar de ter imensos receios e hesitações quando fala comigo. Já estive sem casa. Já estive sem emprego. Não tenho curso completo e já passei fome. Mas não me considero azarado nem pessimista. Tenho orgulho em ser quem sou, sem exageros. Um orgulho suficiente para erguer o queixo e seguir em frente. Tenho sonhos e tenho desejos e, mesmo com todos os obstáculos e rejeições, não gosto de estar parado. Não tenho objectivos de ser rico ou famoso. Procuro simplesmente viver confortavelmente.

Finalmente, e provavelmente aquilo que deve estar a passar mais pela tua cabeça, talvez imaginas que eu tenho uma namorada. Ou que sou solteiro porque não tenho anel. Mas, pelo facto de não ter respondido ao teu sorriso, talvez penses mesmo que tenho uma namorada.

Não namoro. Não é coisa que esteja nos meus planos imediatos. Quero namorar um dia, tenho esse desejo. Mas a minha companhia, nesta altura da minha vida, basta-me. Mas o que te vai abalar o dia não é o facto de eu ser solteiro mas o facto de eu não estar interessado em ti... ou em quaisquer membro do teu género para todos os efeitos. O que te vai abalar o dia é descobrires que o rapaz que estas a imaginar e simplesmente homossexual. Algo que, para ti, não pode ser porque não tenho tiques nem manias. Sou um rapaz. Banal. Como qualquer outro rapaz no planeta. Apenas com um twist.
Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: aero em 09.out.2009, 02:26:09
Arms, o teu texto tocou-me. Identifico-me com a maior parte  :o

Força e coragem para enfrentares os teus problemas!
Continua a escrever!  ;)
Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: _tiago_ em 09.out.2009, 12:06:12
Estou vazio, fragmentado .Fragmentei me tanto para tanta coisa e para tanta gente que hoje não colo os fragmentos. E despedaçado jazo no chão tentando todos os dias alcançar bocadinho a bocadinho e juntar tudo. Mas não percebo porque que ainda há dias em que parto mais do que colo. E quando colo alguns fico com a sensação que não adiantou nada pois no todo , a figura esta despedaçada para sempre!
A mente entra em aceleração os pensamentos que eu nem sabia ter , instalam se…os pedaços voam, em remoinhos apertados. Se há vitimas? Certamente haverá mas eu dessas não ando a colher pedaços….apanharei outros!
Calco o vazio e rejeito o que vejo a frente dos meus olhos…grito sem voz a Deus os meus sofrimentos mentais…
Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: Arms em 09.out.2009, 12:15:33
Arms, o teu texto tocou-me. Identifico-me com a maior parte  :o

Força e coragem para enfrentares os teus problemas!
Continua a escrever!  ;)

Já lá foram, felizmente. Grande parte deles. ;)
Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: I Looove Cookies em 30.nov.2009, 21:44:32
As palavras que nunca te disse não são fáceis de transmitir. Chego mesmo a pensar que não existem, ou melhor, ainda não existem. Acho que tenho de ser eu a inventar tais palavras. Talvez sejam de um outro mundo, um mundo em que nem eu nem tu temos controlo. É um mundo em que as palavras são o que menos importa, são os mais pequenos gestos que mandam. Gestos de carinho, de amor, de amizade. Um local onde um só olhar vale mais do que mil palavras. Onde é esse mundo? Dentro de mim? Dentro de ti? Não o sei, de certo, acho que ninguém o sabe e julgo que nunca haverá quem o descubra. Estas são dúvidas que me assombram a mente e envenenam o espírito. Nunca nada nem ninguém havia conseguido iluminar-me, até chegares tu! Abriste-me a mente e obrigaste-me a pensar de outro modo. Tornaste-te naquela luz ao fundo do túnel e o meu é o mais negro que existe, mas não te consigo alcançar. Foges quando me aproximo e ficas mais distante a cada passo que dou e por isso sofro. Sofro muito. Sinto a tua falta. Preciso da tua presença. És importante para mim e para a minha vida. Não o posso negar. Acho que vou terminar por aqui. Custa-me a escrever estas palavras, porque afinal, esse foi o motivo de estas serem as palavras que nunca te disse.
Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: extremelyalive em 01.dez.2009, 21:43:00
É o roçar de milhares de partículas sensoriais, é o tremer das emoções, é o desregular das lágrimas, é o calor dos poros da pele, é o som do aperto, é o entrelaço de outro modo impossível, é o renascer da alma adormecida nas cinzas. Esta é a minha tentativa de escrever um abraço.
Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: Shiyo em 01.dez.2009, 21:57:32
fazes ruir o meu mundo e voltas a construi-lo, apenas para tempos depois o voltares a destruir... nao sei o q tentas fzr, juro q ja deixei de entender. Ja tnho gente suficiente na minha vida a mandar abaixo so pq sim, decide-te de uma vez...

para de me matar aos poucos...
Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: caissico em 10.dez.2009, 23:28:34
Esquecer-te Perdição
em breves momentos recuperei o meu sorriso,
a minha vontade de viver, de sentir a vida,
sua tentação, escrupulosidade dos meus anseios.

Não é real esse sentimento que compassa o meu coração,
que despedaça a ansiedade.
Perdição, mera perdição.

Foste um episódio, pertences-te a uma das minhas páginas,
que consequentemente ainda hoje escrevo,
escrevo sem querer esquecer de seu olhar,
pois ainda te recordo e compareces no meu pensamento.
Mas e esquecer-te?

Meu coração, minha alma,
fora de meu controle.
Agora, nesta linha desejo esquecer-te.
Mas os desejos apenas se concretizam com o passar o tempo,
por enquanto aguardo...
Enquanto escrevo nas restantes linhas deste meu livro vital,
recordo, relembro, revivo...
O passado que se vai perdendo no tempo.
Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: extremelyalive em 10.dez.2009, 23:46:20
Triste, voltou a casa naquele
dia amarelado pelos ares apagados;
a janela erguida em seu trono
invisível, instável, como a face dele
ou seus olhos olhando e fitando desolados,
como que as veias que se aproximavam
das pupilas que nada lhe lembravam,
nunca pesadas, pois nunca tinham sono.

Subia as escadas lentamente
com corpo pesado mas, suavemente,
abria a boca e fechava num instante,
como se algo quisesse proferir,
mas sua vontade seria apanhada em flagrante,
pois seus mestres não lhe ensinariam
a seus vidros quebrados não partir,
ou no dia seguinte eles morreriam.

Abriu a porta com tristeza,
varrendo os olhos cabisbaixo;
Parou e pousou-os no topo de uma mesa,
vertendo uma lágrima, caindo no tecto,
as sobrancelhas aproximando-se bruscamente
(se as palavras existissem ingratamente,
seriam vírus apanhados como a um insecto);
Um grito abusado e violado num sussurro.
 
Fitou a janela e novamente a mesa;
Começou a pensar em seu eterno leito,
chorando um pouco mais, mas tendo a certeza
que não existiria momento mais perfeito.
Rodou, então, a chave no portal para a varanda,
criou um passo efémero mas decidido,
até que finalmente mostrou seu corpo erguido
e deixou-se respirar pelo que a gravidade manda.

(Lembro-me que o seu relógio se soltou.
Eu via lá de baixo a desilusão cadente,
o pó incomodado, a faísca de cor quente,
o sangue morto-vivo que alado voou.
Não era sangue, afinal, era sim
um sorriso perdido na escuridão,
esmagando-se quando a mão tocou no chão,
quando ele percebeu que chegara o fim.)

Mas o corpo ainda caía lentamente,
um súbdito entregando-se ao infinito;
O portal abrindo-se furiosamente,
dando passagem com uma voz que cito:
“Vem, vem até mim, vem, não te percas,
tomaste decisão incorrigível, não podes voltar
atrás, hoje és meu, de luz te cercas
e de vermelho te expurgas, sem nunca mais falar.”
 
Uma gota de água soltou-se na surdez,
o seu som sendo único e puro.
Havia olhos que invejavam os pensamentos
que poderiam ter dito, não fosse
a gota embranquecendo a sua tez,
o corpo caindo e a aura formando um muro
impenetrável, nem pelo mais forte dos ventos,
quando finalmente se percebeu e acabou-se

tudo. Os vidros estilhaçavam-se a chorar,
os reflexos quebrando com sons estridentes,
todos os sorrisos, todas as palavras, o chão
incomodado com as dores inexistentes.
A vontade do corte recusando-se a dizer não
ao medo da artéria mais vital começar a sangrar,
a dor das paredes e dos vidros e das portas,
tudo a fechar, em silêncio, e a dor das bocas mortas.
Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: dandy em 16.jan.2010, 15:56:49
Sing me a good tale,

Something to tell to children of mine

And their husbands and wives.



A story with detail,

Telling how the two did entwine

To the rest of their lives.



Give me misfortunes, rain or a downpour,

Lost laughs in a mall, covered in flour,

Broken bones and shared moans,

Someplace with a good view

(And chinese takeaway for two).





But, oh,

a good tale of mine.


(Untitled 14)
Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: Atzecs em 16.jan.2010, 22:07:18
Ao fundo da rua, vira à direita - no antro de podre moleza, toca à porta e pergunta pelo senhor Falecido.
Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: exogenesis em 16.jan.2010, 22:09:09
[ escrevi esta semana  ._. ]

Nada perdura.

E, mais uma vez, insisto em tentar tomar por garantido o que me é mais importante. Como se quisesse agarrá-lo junto a mim para sempre, mesmo sabendo que não existirei para sempre.

E, mais uma vez, vejo que estou a errar.

A cada dia que passa, penso mais e mais na forma como a Natureza criou o seu ciclo imparável e autoritário. A vida convive com a morte, o fim com o início.

Aceito isso. Mas talvez seja essa aceitação que me faz querer agarrar tudo e não largar. Talvez seja a noção do "fim" que me lança numa queda livre pela infelicidade e desespero. Talvez, no fundo, não aceite esse fim.

E de que vale negar o Fim? Ele virá.

E de que vale aceitá-lo? Para ser feliz? Um dia, também a felicidade terá o seu Fim.

E de que valeria a felicidade não ter Fim? Mais tarde ou mais cedo, chegaria o Fim da paciência para a felicidade e daria por mim a desejar a tristeza. Só para quebrar a rotina.

A vida acaba e tudo nela acaba. Acredito. E, porém, continuo a desejar que certas coisas durassem para sempre.

A vida muda e tudo nela muda. Porém, insisto em tentar manter certas coisas imutáveis. Pior: acredito que sou capaz de fazê-lo.

Aí reside o meu erro. Deixo-me enganar pelas minhas próprias expectativas, confiando que algo bom e eterno surgirá.

Porquê "erro"? Porque a auto-ilusão é errada; e nada perdura. Porque, quando tiver de encarar a existência limitada de tudo, maior será a desilusão ao perceber que a sua perenidade é nada mais que uma miragem.

Mas a auto-ilusão conforta-me. Porém, como tudo, ela termina. E, por isso, há que encarar o ciclo.

Tudo termina.

Nada perdura.
Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: strings em 18.jan.2010, 14:22:04
        Ao observar os longínquos e misteriosos astros, cujo frio distante e grandiosa incerteza o pareciam contagiar, Yakov Greenberg apercebeu-se de como a paz parecia reinar por todo o universo – exceptuando a Terra. O mar, apesar de tudo, tinha estado calmo há já várias horas, tendo as temidas matilhas submarinas abandonado por fim a rota do UAM Carmona.
   Fazia todo o sentido. Afinal, este não passava de um humilde veleiro, com toda a deselegância e fragilidade de uma chalupa. A neutralidade portuguesa, apesar de incerta, e a pusilanimidade do navio, mesmo que acompanhada pela solidez dos navios mercantes britânicos, protegiam por enquanto os cento e cinquenta refugiados europeus presentes na apoucada embarcação – companheiros por circunstância e aliados por necessidade.
   Yakov não se juntara ao esforço colectivo; fosse o dos monótonos trabalhos de manutenção ao qual a tripulação lusitana os obrigava, ou ao do companheirismo e da intimidade, que se expressava através da vulgar convivência, do contar de histórias, da dança e da música. Escolheu não partilhar a sua bela voz de barítono com a banda de klezmer que se havia improvisado nos últimos dias, deixando-se apenas absorver, em solidão e silêncio, o ar fresco e melancólico do Atlântico prateado – sempre a altas horas da madrugada para assegurar o seu próprio isolamento.
   Afagando o pescoço com o velho cachecol destoado, seu fiel companheiro da frente da Galícia e dos tranquilos serões de Menton, relembrou suspirando o panorama sedutor da Côte d’Azur, as leituras intimistas de Alfred Douglas com a restante Societé de L’Amour Grec, as tardes sonolentas na companhia dos Lagueux e os pomposos clippers no porto de Oran, adornados de uma parafernália extravagante e vistosa. Todas essas imagens, cálidas de charme e magia, haviam sido possuídas pelas mãos sinistras do opressor teutónico, mãos repletas de um ódio e brutalidade que arrepiava Greenberg – apesar do vento marítimo contribuir também para o efeito.
   Só os astros permaneciam inflexíveis na sua estóica arquitectura e resplandecentes em toda a sua glória, dada a ausência de luzes urbanas no alto mar. Yakov, numa das suas diversas fantasias, imaginava-os como olhos divinos que observavam, com uma certa indiferença, os conflitos mesquinhos e animalescos da raça humana. Se tivessem lábios, com certeza ririam (com algum cinismo) dos lobos mecânicos que crepitavam sob as ondas, afundando mercadoria e vidas; dos monstruosos panzers de aço que haviam violado dois terços do velho continente, e de todas as outras invenções e engenhos que o génio humano havia gerado, tendo como únicos objectivos o sangue e o lucro.
   Preferindo ignorar a dura realidade que o rodeava, o tímido judeu abotoou o volumoso casaco e trauteou suavemente, procurando não incomodar o sono dos passageiros e a vigília da tripulação. Decidiu esperar no convés até que a ténue luz lunar sumisse por completo, mesmo sabendo que se constiparia no dia seguinte.


   O convés do UAM Carmona tornava-se agitado por volta das sete da manhã. Famílias inteiras abandonavam os minúsculos cubículos nos quais haviam sido colocadas e acorriam ao salão principal, onde um magro pequeno-almoço era oferecido em rações restringidas. Dado o preço baixo dos bilhetes, regateado e impetrado pelas vítimas do degredo forçoso (cujos recursos financeiros eram geralmente diminutos), desenvolveu-se uma autêntica commune a bordo; em muitas tarefas não se distinguia cadetes de rabinos. Os homens mais robustos, de aparência algo humorosa devido ao kippah avelhentado, foram atabalhoadamente ensinados a manusear as redes de pesca pelo mestre costeiro, homem de temperamento curto e paciência limitada. Yvette Lagueux teve noção de quão imprescindíveis se demonstraram os seus serviços naquele que teria sido, em caso contrário, um diálogo difícil.
   Tinha acabado de sair, nessa límpida e gélida manhã de Outono, do acanhado salão onde lograra ter um frugal mas imprescindível manjar, acabando com o jejum involuntário ao qual havia sido submetida desde a estadia em Vilar Formoso. Planeara passar o resto da tarde sofrendo de enjoos na sua minúscula cabina (que apesar de tudo lhe custara os olhos da cara) tendo como conforto o conhecimento de que pouco teria para regurgitar. Caminhando pesadamente – tanto quanto o seu esbeltíssimo porte lhe permitia – sobre o sobrado rangente, deparou-se com uma reunião espontânea entre algumas dezenas de passageiros (excluindo qualquer passageira) e um homem de face austera e temperamento rígido, cujas barbas acinzentadas lhe empederniam o rosto cicatrizado e o olhar fulminante. Reconheceu-o somente pelo uniforme, no qual achou uma contradição sob forma têxtil; a seu ver, a dignidade de um alto oficial não se ajustava a um mordaz lobo-do-mar. Aguçada a curiosidade, permaneceu no lugar e observou a forma como o homem mirava – com um certo desprezo – os paupérrimos refugiados, até que ele próprio falou com um ríspido arranhar na voz.
 - Algum de vocês fala a minha língua?
Um dos ouvintes, um acobardado sacristão da Basílica do Rosário, respondeu-lhe num tom de voz débil após um logo e desconfortável silêncio.
 - Français? Espagnol? Parlez-vous…
 - Gustavo! – O velho marinheiro dirigiu-se subitamente à ponte, gritando. – Sabes se algum destes c****** fala português?
   O imediato, de vigília à janela, encolheu os ombros. Impacientado, o velho contramestre voltou-se de novo para a plateia amedrontada. Temendo as pragas que lhes pudesse proferir, Yvette aproximou-se e falou-lhe, um pouco a medo, no seu sotaque cerrado.
 - Eu sei um pouco. Posso traduzir.
   Pouco impressionado com a aparência daquela cinquentona esquelética, de roupagem humilde e expressão indolente, o marinheiro olhou de novo para os presenciados medrosos, esperando uma reacção que não surgiu. Após aquilo que poderá ter sido um momento de reflexão (algo malogrado pela presença pouco exímia de tão peculiar mulher) apontou-lhe o dedo bisonho e ossudo, ordenando-lhe calmamente que se aproximasse. Falou-lhe num tom algo inseguro e apreensivo.
 - Diga aos seus amigos que se querem comer têm de ajudar quem os serve. Vão pegar naquelas redes ali, colocar os pesos e as suspensões e descer nos botes com as manivelas. Se tudo correr bem, jantam melhor que o costume.
O marinheiro foi apontando todos estes elementos à medida que os explicava, usando uma linguagem gestual vaga e errática. Yvette anuiu nervosamente e dirigiu-se, no seu francês materno, ao apático grupo que os escutava, adocicando as palavras cruas do mestre costeiro. A directiva disfarçada de pedido foi recebida relutantemente, e o velho marinheiro voltou a falar-lhes, esperando já uma tradução automática e perfunctória.
 - Alinhem-se à minha frente para a demonstração! Asinha! – Baixou de volume logo de seguida para se dirigir a Yvette. – Você pode ir à sua vida.
 - Já não precisa de falar com eles?
 - Não, basta mostrar-lhes como se faz.
 - E não há… - Ela hesitou em terminar a frase.
 - O quê? – Questionou o velho homem rudemente.
 - Perigos. – Yvette mordeu ao lábio ao proferir o indesejado eufemismo. O decrépito marinheiro olhou-a com uma mistura de escárnio, estupefacção e receio.
 - Não seja estúpida.
  - Mas os outros barcos não nos podem…
 - Amanhã as rotas separam-se. É mais seguro.
O rude marinheiro falou-lhe num tom impaciente, mas conclusivo. Virou costas prontamente, acenando aos passageiros seleccionados para que o seguissem. Yvette permaneceu especada, mergulhando ainda mais profundamente numa apatia que lhe servia de mecanismo de defesa contra o pânico que sentia. Apesar de não saber porquê, sentia que algo terrível estava prestes a acontecer, e amaldiçoou-se por não se conseguir lembrar da pessoa que havia procurado desde que fugira da Provença.


   Já há muito que os astros permeavam os céus na sua rígida grandiosidade quando Yvette Lagueux despertou abruptamente, sentindo-se arrepiada tanto pelos suores frios nos quais os seus lençóis se haviam empapado, como pelos urros e gritos de espanto que se escutavam no exterior. Temeu de imediato um ataque, ou pelo menos uma ameaça iminente, por parte dos U-Boat, mas ao abrir a porta da gaiola humana onde estava alojada viu um mar sossegado e tranquilo, iluminado pela pálida e efémera luz lunar. No convés, a situação era diferente: acorriam inúmeros passageiros – tanto preocupados como curiosos – à multidão histérica que, algures no navio, bradava clamores aterrorizados. Apesar de se sentir ainda mais doente e enfraquecida do que naquela manhã (independentemente das quinze horas consecutivas que dormira), uma misteriosa insistência, alojada no seu subconsciente, exigia que ela os seguisse, como que para acalmar uma curiosidade impertinente que não sentia. As suas frágeis pernas conduziram-na pelo estreito corredor que dava à popa, sofrendo pelo caminho os empurrões da turba em pânico.
   Viu-se atarantada pelo frio ar marinho ao alcançar o epicentro da comoção. Encostados às redes de pesca estavam dezenas de homens e mulheres, observados a uma curta distância pela tripulação – que descera da ponte para presenciar o sucedido – e pelo sacristão de Lourdes, cuja fervorosa oração era ocasionalmente interrompida pelo abundar das lágrimas que lhe caíam, incessantemente, dos olhos cinzentos. Estonteada e desvairada pelos seus próprios males, a viúva Lagueux observou todo este abalo com uma certa indiferença, mas o esmero inexplicável da consciência que a levara ali forçou-a a mover-se mais uma vez, desta vez em direcção ao núcleo do populacho. Aproximou-se também o mestre costeiro, claramente enfurecido pela desordem.
 - Vá, dispersem, dispersem! Parem com o barulho! – Berrou o velho lobo-do-mar a altos pulmões. Apesar de nenhuma daquelas pessoas compreender a sua língua, o tom de voz colérico que empregou transmitiu a mensagem perfeitamente. Abriu-se uma brecha no denso aglomerado humano que se concentrara à volta das redes, e o ríspido marinheiro caminhou através dela em direcção ao presumível motivo de toda esta demonstração. Ao observá-lo, virou imediatamente costas e dirigiu-se à tripulação, que observara tudo à distância.
 - Um médico! Tragam um médico!
O seu rosto, que Yvette recordava como obtuso e amargo, reflectia agora o pânico partilhado pelos restantes refugiados.

   
     O sol brilhava com um fervor de rara intensidade nesse dia de Verão de 1939, esbanjando a sua contagiante alegria pelas ruas, parques e praias da amena cidade de Nice. Após uma tranquila e breve viagem de automóvel (um moderno Renault Celtaquatre, à americana) a partir de Menton, Yvette Lagueux e Rodolphe, o seu jovem sobrinho, dirigiram-se ao escaldante areal do outro lado do Hotel Negresco, empunhando toda a parafernália necessária.
Acompanhava-os Yakov Greenberg, estrangeiro que se mudara para território gálico há pouco mais de seis anos, mas cuja amizade pelos Lagueux despontara de imediato. Poeta, cantor e intelectual político, o acanhado judeu fascinara Yvette, ela própria uma mulher de artes e letras, após uma palestra informal sobre a “Ionia” de William Johnson Cory. Formou pouco depois uma sociedade cultural com poetas locais (eles próprios impressionados pela sua oratória e profundo conhecimento) e passou a frequentar a humilde residência dos Lagueux ao fim do dia. Lia para Rodolphe antes de este ir para a cama e conversava interminavelmente com Yvette sobre a pintura de Bouguereau (tristemente subestimada pela crítica em geral) e as óperas de Massenet. Yvette nadava deliciada no seu mar de palavras, esquecendo o aspecto rude e deselegante de Yakov. Ela sempre perguntara a si mesma, apesar de despreocupadamente, se a afeição de Greenberg seria mais do que amigável. Era perfeitamente possível que um emigrante tímido, desajeitado e de aspecto pouco apelativo se sentisse atraído, após anos de desilusões e desgostos, por uma mulher mais velha e de um físico tão imperfeito quanto o seu, mas cuja mente, espírito e carácter a ligara inexoravelmente a si. Fosse como fosse, o seu interesse por Yakov restringia-se ao debate e à convivência verbal – o espectro do falecido marido continuava a pesar-lhe na consciência, assim como o da dolorosa morte do irmão e da cunhada, pais de Rodolphe. Yvette criara o rapaz desde muito pequeno, habituando-se tanto à solidão como ao trabalho árduo. A presença permanente de um terceiro elemento poderia arruinar o delicado balanço que se esforçara tanto por desenvolver.
No contexto de um plácido dia de Verão a três, este balanço parecia funcionar. Yakov aconchegara-se debaixo do guarda-sol, de casaco e panamá, relendo a “Flauta de Sardonyx”, enquanto Rodolphe, acriançado para os seus catorze anos, instigava a tia a observar os seus castelos de areia. Yvette ansiava mais pelas lojas e cafés da Zone Pietonne, tendo-se deslocado à praia apenas para satisfazer as súplicas do sobrinho. Sentou-se perto de Yakov, fingindo prestar atenção às construções de Rodolphe. Deixando que a tímida brisa de Verão lhe afagasse os oleosos cabelos negros e as subtis rugas da cara, deleitou-se a observar o Mediterrâneo, cujo resplandecente tom turquesa lhe afagava os sentidos. Era, para ela, uma visão como poucas outras. Greenberg parecia partilhar esta sensibilidade, levantando periodicamente o olhar do livro para observar o horizonte, sobre o qual se desenhavam os contornos de gaivotas e pequenos barcos à vela. Ignorando o movimento e burburinho que os rodeavam, Yakov e Yvette permaneceram neste êxtase tranquilo durante alguns minutos de dulcíssima eternidade e esplendor naturalista, nos quais os movimentos desajeitadamente graciosos do sobrinho de Yvette se confundiam. Terminado o seu transe contemplativo pelo simples passar do tempo, a viúva Lagueux observou Greenberg através do canto do olho.
Reparou, como já havia reparado, nas estranhas características do seu rosto. Quando Yakov se resignava a uma introversão que lhe era perfeitamente natural, a fealdade dos seus traços reflectia uma mistura de contentamento e melancolia. A viúva Lagueux teve cuidado em ocultar a sua espionagem, não querendo intrometer-se demasiado em algo que, no seu entender, lhe era preciosíssimo: a absorção insaciável de imagens mundanas, cujo esplendor estético se traduzia numa concentração de paixões inalcançáveis. Greenberg preferia ocultá-las do mundo exterior, dadas as qualidades excepcionais das suas sensibilidades, mas Yvette aprendera a analisá-lo após várias horas de conversação íntima e discussão estética. Só o motivo da angústia poética de Yakov a continuava a iludir.
Os olhos de Greenberg lacrimejavam subtilmente enquanto o Mediterrâneo, com toda a tranquilidade de um lago, reflectia o brilho intenso do sol como um espelho de safiras. Embaraçada, Yvette deixou de examinar o amigo e colocou o olhar em Rodolphe, que brincava na rebentação, rindo ingenuamente. Yakov pousou o seu livro, ao qual já não prestava atenção, e tocou no ombro de Yvette. Sem retirar o olhar do horizonte, falou-lhe suavemente, com um certo tremor na voz.
 - Madame Lagueux, diga-me… o que é a verdadeira beleza?
Perplexa pela pergunta, a viúva Lagueux nada tentou dizer. Enterrou a cabeça nos braços, sofrendo de um pejo inexplicável, e permaneceu sentada até que Rodolphe lhe pediu para irem embora. Greenberg não voltou a dizer uma única palavra o resto do dia.
Nessa noite, de regresso a Menton e sob a desapaixonada graça das estrelas, Yvette entrou no quarto de Yakov e compreendeu, por um curto instante, o sentido da sua pergunta.


    Tal como previsto, as matilhas submarinas não voltaram a ameaçar o ordeiro UAM Carmona, barco de pesca, de música, de subnutrição e de camaradagem – todos em nome da liberdade. Mas ao contrário da maioria dos fugitivos a bordo, que a haviam encontrado pelo carimbo de um cônsul português em Bayonne, Yakov Greenberg e Yvette Lagueux traçaram a sua própria rota, cujos altos e baixos, tanto quanto se sabe, persistiram a cada centímetro.
Greenberg recuperou, quiçá por pura sorte, do destino ao qual se havia decidido submeter. Não se achava um homem quando mergulhou nas tenebrosas ondas do Atlântico nocturno, e continuava a não achá-lo após horas de cuidados oferecidos por aqueles que desprezara toda a viagem. Não passava de um homem sem rumo, uma máquina de inutilidades. Mas os outros não o sabiam.
Yvette, se alguma vez o soube, deixou de o saber. Afugentando as tenebrosas matilhas da memória (bem mais cruéis do que as matilhas submarinas cirandando por baixo das ondas) esquecera a velha casa em Menton, as viagens, as conversas, o fervor artístico e toda a vida desse ilustríssimo devaneio que havia sido seu. Esqueceu porque se obrigou a fazê-lo, apesar de nem disso se lembrar. Acima de tudo, esqueceu Greenberg. Há mais de um ano que existia sem viver, enquanto que o velho amigo, martirizado pelas feéricas fantasias da sua mente, faria tudo para existir sem vida.
Procurando uma certeza que jamais encontraria por si só, Yakov observou as últimas estrelas da madrugada, carregado numa maca pelo rabugento mestre costeiro e outros tripulantes. Os corpos celestes, como que juízes imparciais, disseram-lhe o que mais temia: ficaria, para todo o sempre, entre as dunas dos areais mediterrâneos, banhado pelo sol abrasador e pela dança despropositada de Rodolphe – mas não voltaria a ver com os seus próprios olhos as ondas do mar turquesa, nem as chocarreiras gaivotas no horizonte, nem a graciosa brincadeira do pequeno Lagueux. As memórias vagas e difusas destes trágicos eventos seriam o seu único guia em direcção à verdadeira beleza, toda ela inalcançável.
Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: exogenesis em 18.jan.2010, 23:42:38
Sonâmbulo.

Segunda-feira.
Terça-feira.
Quarta-feira.
Quinta-feira.
Sexta-feira.
Sábado.
Domingo.
Já é segunda-feira outra vez?

Sim, é bem possível que seja.

Afinal, passo os dias a desejar que o tempo passe, apenas para chegar um novo dia e desejar que este também acabe o mais cedo possível. Anseio durante dezoito horas pela hora de dormir. É o mais perto que consigo estar da morte, enquanto não quero cometer suicídio.

Mas só quando acordo é que começam os pesadelos.

Sinto-me sonâmbulo.

Viver passou a ser sinónimo de vaguear. Vaguear à espera que o tempo passe, sem qualquer objectivo ou anseio em partir... apenas que o tempo voe, já que dizem que o tempo cura tudo.

Viver passou a ser sinónimo de evitar todas as memórias de Ti. São boas demais para serem apenas memórias.

E o que levaste contigo não foi menos do que tudo. E o que me deixaste não é mais do que nada.

Ter-Te? Não posso.
Chorar? Não consigo.
Gritar? Para quê?

Ser feliz? Já não quero.

Habituei-me à doce e calma melancolia que faz o corpo relaxar. A felicidade exalta-nos demasiado. Cansa. A infelicidade é um repouso bem-vindo, mas é também um exagero dos ultra-dramáticos.

Porque não limitar-me à apatia?
Porque não confinar-me ao meu sonabulismo?

Decido estava que assim fosse. Afinal, a apatia é tão fácil. Sozinho ou acompanhado, basta não sentir ou manifestar alegria ou tristeza, sorrisos ou lágrimas. Bastar estar emocionalmente anestesiado.

Se é tudo tão fácil assim... porque é hoje, segunda-feira, voltas Tu para me exaltar de novo?

Porque apareces para deixar a minha mente infantil a rejubilar de esperanças que não podes, nem queres, cumprir?

Porquê tirar-me da apatia?
Porquê acordar-me do meu sonabulismo?

Era tudo tão fácil...

"It's like a can't even feel
After the way you touched me.
I'm not asleep but I'm not awake
After the way you loved me"

Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: extremelyalive em 25.fev.2010, 11:07:33
http://docs.google.com/fileview?id=0B1yDyj4d6I_5YmFmNGMwOWQtNGJiMS00MjIzLTgyNTEtYzJmYTZiMzkwNDg2&hl=en (http://docs.google.com/fileview?id=0B1yDyj4d6I_5YmFmNGMwOWQtNGJiMS00MjIzLTgyNTEtYzJmYTZiMzkwNDg2&hl=en)

Ganhei o Prémio Correntes d'Escritas/Papelaria Locus 2010, anunciado ontem, na Póvoa do Varzim, com este texto! :D
Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: ♙Angelita/Devilita♟ em 25.fev.2010, 11:18:45
[url]http://docs.google.com/fileview?id=0B1yDyj4d6I_5YmFmNGMwOWQtNGJiMS00MjIzLTgyNTEtYzJmYTZiMzkwNDg2&hl=en[/url] ([url]http://docs.google.com/fileview?id=0B1yDyj4d6I_5YmFmNGMwOWQtNGJiMS00MjIzLTgyNTEtYzJmYTZiMzkwNDg2&hl=en[/url])

Ganhei o Prémio Correntes d'Escritas/Papelaria Locus 2010, anunciado ontem, na Póvoa do Varzim, com este texto! :D


Boa! [smiley=vencedor.gif] Parabéns!  [smiley=balao.gif] :party 8-) :)

Não tive ainda oportunidade de ler as 5 páginas, mas vou ler daqui a pouco. ;)

Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: extremelyalive em 25.fev.2010, 11:54:25
[url]http://docs.google.com/fileview?id=0B1yDyj4d6I_5YmFmNGMwOWQtNGJiMS00MjIzLTgyNTEtYzJmYTZiMzkwNDg2&hl=en[/url] ([url]http://docs.google.com/fileview?id=0B1yDyj4d6I_5YmFmNGMwOWQtNGJiMS00MjIzLTgyNTEtYzJmYTZiMzkwNDg2&hl=en[/url])

Ganhei o Prémio Correntes d'Escritas/Papelaria Locus 2010, anunciado ontem, na Póvoa do Varzim, com este texto! :D


Boa! [smiley=vencedor.gif] Parabéns!  [smiley=balao.gif] :party 8-) :)

Não tive ainda oportunidade de ler as 5 páginas, mas vou ler daqui a pouco. ;)




Obrigado! :D
Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: mike em 02.mar.2010, 12:21:20
Loucos, esses que escrevem por amor...

Viajo por esta casa de paredes brancas sem corpos visíveis,
mas onde corro louco para me reencontrar no aroma do teu corpo ardente,
dono de formas suaves e transparentes abres e celas portas no meu coração.
Numa paisagem incerta vens gravar o tempo que cai,
gota a gota de suor queimado que se ajusta ao bater lilás... NÃO!
ao bater beringela gravado nessa memoria passageira que fica em camadas do novo colorido da minha vida.
Vem trazer-me musica húmida ao meu abrigo feito ilusionista,
registando o amor que aqui trago em mensagem repetida nessa polaroid que conservas sem rolo e onde me pintas de dia e noite...
e assim sou eu quando entro em casa e te persigo. Um dia trago-te para minha casa mesmo contra vontade!
Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: WideOpen em 16.mar.2010, 21:11:32
O ARMS =) Ele é brutal  :)
Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: sweet_poison em 18.mar.2010, 22:22:41
Salty skin
To this river turn
For this sin
Won’t make you burn

Walk across
This empty land
With your shoes
Full of sand

Lose yourself
In this deeply kiss
For you know
You won’t be missed

Hear this beat, hear this sound
It’s your heart you’re listening
Can you see what you’re missing?
Don’t wanna end up losing

Erase this thoughts
Of a broken past
Let your heart be caught
Let your heart be cast

I can help you fix
Your broken heart
Never be missed
Never be apart

By: sweet_poison
Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: xXxPePexXx em 18.mar.2010, 22:30:14
Por vezes sinto que todas as forças se esgotam,
levemente me deixo embalar pela melodia da solidão,
estou tão farto de repetir as mesmas palavras,
os mesmos sentimentos de dor continua ao longo de tantos meses,
e toda a felicidade é tão efémera,
cada vez que tento sorrir,
não dura...
cada vez que tento fugir,
perco me nesta minha noite escura...
por momentos sou feliz,
brilho com todas as minhas forças
mas no final do dia,
quando regresso a casa...
ao mesmo espaço vazio,
a cama por fazer na escuridão imenso do meu quarto vazio,
iluminado pela pouca luz que incide através da janela
pelas poucas brechas abertas,
deito me vazio de sentimentos
de emoções...
e oiço a chuva lá fora...
Trás me uma calma enorme
mas também uma grande revolta de emoções banhadas de tristeza e agonia,
penso em tudo o que tenho passado
o bom e o mau,
na minha evolução pessoal como ser humano,
afastei alguns 'demónios',
e encontrei 'anjos' pelo caminho
mas talvez tudo tenha o seu significado no final,
comigo caminham todos aqueles que acreditam em mim e me apoiam sempre,
nos bons e maus momentos sei que tenho com quem contar,
mas algo se passa comigo,
sinto que adormeci dentro de mim um sentimento que esqueci que existia,
mas que penso que ainda guardo dentro de mim,
lembro me de em tempos abrir o meu peito ao mundo e gritar a palavra Amor,
nesses dias...
nesse acto tão nobre...
senti me tão vivo...
um bem estar total,
senti me completo,
inconscientemente não sabendo o quão inuteis se revelaram os meus actos de bondade
e de uma vontade enorme de dar,
acabei por perder...
quando me esqueci que nunca recebi tamanho amor,
lembrei me das horas que tanto chorei de tristeza
quando por mim nenhuma lágrima de saudade verteu
dos olhos cruéis que um dia se esqueceram que também eu sinto dor
talvez mais do que poderiam imaginar,
guardo feridas de guerra tatuadas no meu corpo,
por cada queda ou lágrima derramada por amor,
decidi então secar,
deixar de sentir,
esquecer me que existo e simplesmente seguir sem destino...
sem caminho...
dou por mim na escuridão a contar os minutos para me deitar,
só mesmo quando as luzes se apagam e mergulho no meu subconsciente,
não sofro,
não choro,
não tenho mais vontade de gritar ao mundo o quão anseio o momento
em que me irei sentir novamente completo,
apenas sonho...

Por enquanto caminho debaixo da chuva fria para ninguém me ver chorar, com duvidas, sem certezas de nada nem de ninguém, espero chegar o dia em que voltarei a sorrir com um brilho nos olhos e o tempo não irá marcar mais feridas recalcadas da solidão, talvez um dia vou ser feliz,
talvez...um dia hei de encontrar te a ti...

By xXxPePexXx in http://cornerofmyownmind.blogspot.com/ (http://cornerofmyownmind.blogspot.com/)
Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: withoutimagination em 19.abr.2010, 21:39:49
O tempo e a vida são dois amigos de infância, camaradas no amor e na guerra, companheiros de traições e partidas. Por vezes são médicos, senhores da compaixão e amigos da humanidade, que curam entre si feridas dolorosas que mais ninguém conseguiu curar. Outras vezes, nos dias em que acordam virados do avesso, pregam partidas a torto e a direito, a todos e a qualquer um que cruze o seu caminho. Hoje foi um desses dias.
O tempo afastou-nos, camarada, a vida libertou as nossas vidas em sentidos diferentes sem nos dar tempo nem hipóteses de lutar contra isso. Agora, que eu já não sou a tua força nem tu és a minha força, cruzou de novo os nossos caminhos, no sitio mais improvável possivel, na altura mais estranha, na exacta idade em que sabemos que o caminho vai mudar e todos os que o cruzaram anteriormente se vão afastar aos poucos. A vida devolveu-os o passado, na exacta altura em que só existe o futuro, na exacta altura em que o próximo passo só se pode dar em frente, em direcção ao abismo, ao desconhecido, à solidão...
Também anteriormente, quando os nossos caminhos se cruzaram pela primeira vez e a nossa força se tornou a força uma da outra, foi a solidão que nos juntou. A solidão de duas pessoas que não sabiam o que era a companhia, a solidão de duas almas que procuravam o silêncio onde só havia barulho. Não sei o que procuras agora, mas eu não quero mais este silêncio. Quero o barulho do mar e da areia, quero o ruido verde desta terra verde em que nascemos, quero o som do sol e a voz da lua. E, acima de tudo, quero ouvir acima do ruido da minha voz e da voz dos meus novos camaradas, a voz dos que nunca falaram e o silêncio dos que nunca se calam. Agora, quero ouvir a voz dos que não conseguem gritar, tal com nós não conseguiamos.
Mas sei que o caminho que tu traçaste foi diferente do meu, sei que agora te pareces mais com eles que comigo. Pouco importa pois no fundo tu serás sempre tu: o meu primeiro grito, a minha primeira ajuda, a primeira voz que ouvi. O meu primeiro amor.
Foi contigo que aprendi a reconhecer o silêncio dos silenciosos, mesmo por trás de todo o barulho que fazem. Foi contigo que aprendi que não era preciso seguir os outros nem sequer estar sempre contra eles. Foi contigo que aprendi a reconhecer a minha voz, a sabê-la diferente e a gostar disso.Foste tu que me deste o poder de nunca duvidar, de nunca precisar de me esconder. Foste tu que me deste o olhar, o horizonte, a fé e o orgulho em mim e nos que são como eu.
Amanhã, ainda lá estarás?
A.R.
Título: Perdoar by Cristiano Costa
Enviado por: Soueu20 em 19.abr.2010, 23:21:26
Perdoar

Um dia eu adormeci, tive um sono, sono esse que durou uma eternidade.
Viajei por mares, por céus, pelas estrelas, mas nunca consegui passar e tocar na lua.
Tentava lá chegar, mas algo me puxava para trás. Corria, corria, volitava e nada. A lua parecia distante, parecia triste, sem beleza, escura e sentia as lágrimas que ela tentava conter. Sentia ela chamar-me, pedia para eu fosse para junto dela. Mas não conseguia.

Acordei. Que pesadelo este, pensei..
Mas, esta tudo tão estranho porquê? Porque é que será que o pesadelo foi tão real?
Porque é que sinto o sofrimento da lua?
Perguntas que não tiveram resposta.
Um dia se passou, uma semana, um mês, um ano. E a sensação da lua em sofrimento continuava.

Outro dia, adormeci, tive um sono, sono esse que durou uma eternidade.
Desta vez viajei directamente até á lua. Cheguei lá, toquei-a, falei com ela, mas não obtive resposta. A lua estava morta. Cheguei tarde. Senti-me culpado. Senti remorso.
Chorei e acordei.

A Lua não mais brilhava nos ceus, escura, morta, sem luz, tudo á sua volta morria tambem. Olhava lá no alto e pedia para que ela acordasse do sono profundo e eterno a que ela se tinha proposto, pedia que Deus lá do alto fizesse um milagre e despertasse a nossa lua.
Mas nada acontecia. Sofri. Não me perdoei. Tive remorsos.
Vagueei pelas trevas, angustia profunda. Mas, fez-se luz na minha alma.
A Lua é pura, e ela ama-me como sou e como fui. Ela quer que todos nós apreciemos a sua beleza, mas para a apreciarmos e sermos dignos de olharmos para tamanha pureza também precisamos de ser puros.
E só seremos puros no dia em que soubermos perdoar. A nós e aos outros.
Perdoei-me, lutei para me perdoar. Ahhh que liberdade, que paz. E adormeci, desta vez um sono profundamente inalcançável, e no meu sono um dia se passou, uma semana, um mês, um ano.

Acordei, tudo não passou de um grande pesadelo, tudo não passou da luta interna a que me propus… Tudo não passou da minha imaginação. A lua esta lá no céu, linda e perfeita, olhando para nos como seus filhos, ela ama-nos. Ela precisa de nós, precisa de nós com ela, felizes, e perdoados… Com o perdão chegamos onde queremos.

Obrigado Lua por me mostrares o caminho do perdão…

Cristiano Costa

P.S: Espero que gostem ;)
Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: Arms em 05.jun.2010, 19:52:20
Quase beijo
 
Olho-te nos olhos,
perdido por entre os tons de cor,
mergulhado no brilho do teu olhar.
E tudo à volta torna-se indistinto
numa mancha de cores misturadas
de aguarela e luz.
É tão fácil perder-me no teu olhar.
Tão fácil render-me aos teus abraços.

Tu não me deixas beijar-te...
E ficamos neste quase beijo
que nem avança nem retrai.
Aqui, a milímetros um do outro
e, ao mesmo tempo, tão afastados.

Aqui, neste quase beijo,
perdido no teu olhar e rendido ao teu abraço.
Esperando que o tempo pare.

- Arms, in Luxúria (Pecados de Mim), 2009.
Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: Wanted em 05.jun.2010, 20:06:24
“Pensamentos”

  Escrevo sobre este lugar, onde me encontro, onde a troca de olhares é constante. A multiplicidade de culturas emerge sempre que olho em volta.
  Aqueles que me vêm por aqui, nada me dizem sobre aquilo que sou, sobre aquilo que virei a ser para os tais olhares. Secalhar nada serei, para ninguém , que não me conheça. Mas igualmente fui e serei vítima da vida, como toda a gente o é, apaixonada pelos momentos em que o coração, a mente, e o corpo estão presentes, nos momentos de uns olhares em que nada se opõe, em que nada renasce, perante a tua massiva mistura de rebentos, por onde passo, por onde me deixo desconcernada, perante ti, perante a tua vontade mandíbula, de me arrojares, de me expulsares de tudo o que te pertence.
  Preto no branco, assim disses-te, mas agora é hora de ir para casa, e hora de afugentar a expressividade que me deixa desconcertada, exausta de pensamentos plausiveis em tudo o que de nada se difere, perante ti, onde a agressividade das palavras faz parte da máscara charmosa por onde vagueias.
Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: Inesmargarida em 01.jul.2010, 03:19:19
podem ir ao meu blog :) www.openingview.blogspot.com (http://www.openingview.blogspot.com)
tenho poemas e textos, normalmente componho os poemas em musicas no piano ou viola :) mas aqui fica uma amostra :
 closed door
Good morning my dear, I swear I'm packing but I won't leave.
Good night, my eyes are almost close to sleep.
I'm fearless but I can use my body, I said I'm so sorry
But don't worry I won't get out of my bed just to see what I've said.

It's pretty easy to ignore, it's pretty difficult to close that door
When I wanna walk in, let me walk in to talk to you.
I know what I did is not a thing to do, but let me hurt my knees,
I never was supposed to leave you this way, but I never thought
I was going daily with my mistakes.

You said that I should leave, but this door won't rest with me,
I bought you flowers and paper dreams, I cheated you and now I give you all you need.
You're Angry with reason, you got a gun, you need to hold it,
You make it better when I give to you is nothing new.

Endless wide open heart, let me in, I'm begging to you,
I never lost control from the place I was in but I'm losing you
I know what I did is not a thing to do.
Let me in, is all I'm beggin right now, you're coming out somehow.
Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: Sappho em 23.ago.2010, 02:31:40
QUATRO CÂMARAS

Ao longe, vejo te passar. De repente, deixo de sentir as mãos, deixo de sentir todo o meu corpo, excepto uma pequena parte. Como poderia sentir, se todo o meu sangue corre, incontrolavelmente, para estas quatro câmaras que compõem o meu coração? Estas câmaras separadas e constituídas por músculo, que representam um dos órgãos mais importantes de um ser humano. Não só porque bombeiam este líquido vermelho a todas as partes deste físico visível, dando esperanças ao metabolismo de cada célula, tão essencial à minha existência, como também, porque bombeiam todos estes sentimentos a este algo invisível, dando esperanças a mim mesma que um dia ao te ver, consiga, finalmente, sentir as minhas mãos, todo o meu corpo… abraçado a ti.  


LEVEZA

Este peso que sustento não pode ser avaliado mecanicamente. Não seria determinado porque não diz respeito à massa do meu corpo, mas sim, à essência do meu ser. Se fosse possível pesá-lo, o resultado seria muito superior ao da massa. É um acumular de sentimentos, palavras, silêncios, experiências e ausências, todos eles reprimidos. Vão se acumulando, não nas veias, mas na alma. Se pudesse arrancar do meu peito este coração tão cheio de nada e dar-to a ti, será que ficaria mais leve?  


MURALHA

Não desperdices o teu tempo em mim. Esta muralha que me sufoca, feita de pequenas mentiras e contenções, mandada construir pela sociedade. Esta muralha que só deixa transparecer um pouco de mim, diria até, que só deixa transparecer a máscara na qual me escondo, todos os dias. O que esta muralha contém não posso revelar, pelo menos por enquanto. Por isso, se não é para me "veres", não desperdices o teu tempo em mim.
Estou cansada de estar cega e ver cegueira em ti também. Que luz nos poderá iluminar e deixar-nos ver, finalmente, aquilo que sempre vejo de olhos fechados.


Título: Poesias e Prosas
Enviado por: Kolthar em 24.set.2010, 09:07:57
Escrevam aqui as vossas Poesias e Prosas vamos ver a sensibilidade de cada um  ::)

Começo eu com uma simples Prosa que fiz da última vez que estive apaixonada.


Amanda

È o nome que se instala e se aperfeiçoa nos ouvidos.
Faz sonhar num paradoxo surreal mais belo que o mundo pode mostrar.
Sinto abraçada por uma luz que agarra-me sem tocar num rumo sem existir mas que invade o sonho dançando com as palavras acabadas que faz-me ditar.
Ès e serás a mulher escrita nas minhas linhas contadas, que transformas as águas em jardins do teu beijo.
Ès a alma que dá a liberdade subscrita entre dois corpos entrelaçados num acto carnal que entra no meu pensamento e toca-me com as mãos do coração.
É um sonho que vou consumindo e vivendo sem ter asas que me prendam.
Sinto-me a levitar entre dois mundos afastados da ilusão humana bailando no ar com os pés molhados no chão.
Ès a palavra que nunca sei escrever nas páginas do meu livro inacabado... abres as tuas pétalas rosadas espalhas no infinito da minha imaginação que desejaria escrever mas... retiras, mordes, arrancas, tiras a tinta da sabedoria da minha caneta.
Perco-me e afogo-me no calor da tua pele e caminhos celestiais do teu olhar dizendo em palavras surdas encostada ao teu ouvido sentimentos não expressivos.
Ès a imagem desfocada que os meus olhos não querem ver uma negação repleta de desejo e sentimento que balança numa maré de cabeças agitadas que faz-me entregar-me á tua sentença de prisão de emoção.
Olho-te e vejo-te numa simplicidade congelante de força magnética que absorve os meus pecados e fico num estado de pureza tentadora que o próprio Diabo inveja.
Ès a força da natureza e beldade cruel que pára-me só para ver-te entrar naquela porta que abre o caminho abstracto dos sentimentos puros que tenho por ti.
E nisto finalizo apaixonadamente a tentativa pecadora e pureza as meras palavras que o meu coração fala por si... Dizendo vezes sem conta... Amanda... Amanda... Amanda.


Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: Kolthar em 25.set.2010, 09:55:01

A voz. Ecoava nas paredes absurdas do meu tímpano e riscava de forma interminável a minha consciência. Mostra-me apenas que o mundo intitulado demente é apenas um portal para algo inantigivel. Tem sido assim, desde tempos remotos de sentimentos enclausurados, e vontades mórbidas radiadas em emoções tempestuosamente absurdas. Silêncios aterradores de algo que em mim há muito já morreu. Lençois de sangue que me cobrem o rosto e lavam a vergonha interior. Líquido que me inunda os membros com os quais caminho sobre os escombros das minhas memórias. Agarro-as e puxo-as para mim, o objectivo é apenas sentir algo agradável. Vêm torturas no lugar de fábulas, e pesadelos em vez de sonhos. Talvez longe, talvez perto (de mais). Talvez a sonhar, talvez acordada. Aqui ou ali. A realidade é muito mais absurda e tenuosa que a minha estupidez interior que gargalha e grosna dentro do meu ser vazio e ignorante de sentir. As poças deram lugar a algo com mais conteúdo e problemático. O líquido inunda-me e pareço afogar-me no meu próprio sabor azedo. Olho em volta e tudo o que vejo é a cor do meu sangue a inundar-me os pulmões pouco racionais e demasiado autónomos. Se os pudesse controlar há muito que estariam secos e cobertos de lágrimas de alguém que sempre lá esteve e me inundou em momentos de realidades puramente ilusivas e sarcásticas. Rio-me e sinto o meu ser estrabordar de aflição. Os risos dão lugar ao devaneio e algo é destruído. A razão. Debato-me, infantilmente. Há muito que a minha realidade me superou e transbordo de malícia pecatória. Atormento e atropelo seres em mim presentes com fantasmas. Mato outros. Ressuscito a esperança. Tiros no escuro que me acabam por atingir e levar a este ponto de debater sem qualquer sentido. Silêncio, a voz torna a cessar...

 :-\
Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: JohnLeprechaun em 15.out.2010, 15:50:19
Fechou a porta de casa atrás de si. Com o rosto lavado em lágrimas, desceu a correr as escadas em caracol do prédio onde morava. Trazia às costas uma velha mochila de pano, já gasta pelo tempo. Só parou quando já se encontrava na rua.

Agora era livre. Só faltava encontrar um sítio para ficar, mas ainda faltava muito tempo até  anoitecer.

O tempo. Não há nada mais relativo como o tempo. Naquela casa, arrastava-se longa e lentamente, tapando-lhe a boca com uma mão forte e violenta que lhe rasgava a pele da face. Não havia quem o pudesse evitar. Ninguém daquela casa que decidiu deixar para trás o poderia ajudar. Eram eles os responsáveis pelas atrocidades do tempo. Sabiam disso e riam-se, ele ouvia-os noutra divisão da casa, enquanto sentado a um canto do quarto as lágrimas escorriam e queimavam a sua pele martirizada pelo tempo.

De vez em quando entravam no seu quarto, nessas alturas ele fingia que dormia. Só assim o deixariam em paz. Nunca se importaram com o que lhe poderia acontecer, nunca lhe deram a devida atenção, nunca o levaram a sério. Não passava de um verme que ocupava uma divisão imunda de uma casa outrora de família. Mais cedo ou mais tarde iria ter que sair, já estava avisado. E quanto mais depressa melhor. Já não pertencia ali.

Hoje decidiu largar tudo. De manhã cedo, quando ainda todos dormiam, guardou algumas roupas na velha mochila e saiu de casa. Saiu sem olhar para trás. Mas com lágrimas no rosto.

Vagueou pela cidade durante todo o dia. Olhou as montras das lojas caras, percorreu ruas e jardins, afastando-se cada vez mais das correntes que o aprisionavam, encarando a sua nova liberdade.
Procurou nos bolsos das calças e encontrou um maço de tabaco amarrotado, ainda com um cigarro lá dentro. Pediu lume a um transeunte que por ali passava e, por momentos, saboreou o prazer de fumar o último cigarro.

Ao cair da noite, estava junto ao rio. Ficou horas a olhá-lo, contemplando o reflexo do sol que, ao anoitecer foi substituído pelas luzes dos barcos que ali se encontravam. Ali ficou, alheio a tudo o que à sua volta se passava.

O tempo já não o atormentava, aquela mão forte e violenta agora afagava-lhe o rosto, macia e suave, tal como a brisa nocturna que se fazia sentir. Agora estava em paz.

E ninguém deu pela sua falta.

João
31.05.2010
Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: Tiptoe em 16.out.2010, 20:55:40
canta comigo
este silêncio terno
sente os passos nus no soalho
e faz música dos teus suspiros

leve roçar dos meus dedos
na tua loucura
vibra...que és instrumento
desta orquestra a dois

ouves?
toco-te e tocas-me
melodia imaginada pela Lua
que nos espreita saciada

escuta bem o silêncio cantado
em ritmo incerto
timbre pálido
dueto impossível


2000
Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: Arms em 16.out.2010, 21:41:35
São três da manhã. São três da manhã e não consigo dormir. Aliás, durmo mais por exaustão do que por outro motivo qualquer. Tudo é tão diferente agora. Perduro aqui numa existência esquecida desde que partiste. Demoro a adormecer e levo quase uma eternidade para me aperceber da realidade quando acordo. Ainda acordo com o braço no teu lado da cama, como se estivesses lá. Acordo sempre a pensar que te levantaste para tratar do pequeno-almoço. Mas, quando sinto a cama fria, lembro-me de que já cá não estás. E é como se as paredes se desmoronassem sobre mim... o peso da realidade. Luto contra a gravidade para me levantar. Contra a vontade para erguer. Luto porque o que me apetece é voltar a adormecer porque tudo o que desejo é que isto tudo não passe de um pesadelo. Mas acordo sempre para esta realidade. Acordo sempre para estas correntes que me apertam e me prendem a alma. Disseste sempre que estarias ao meu lado até ao fim... o que não sabia era que o fim chegaria tão antes do tempo.

Algo escrito em modo de improviso...
Título: Re: Perdoar by Cristiano Costa
Enviado por: MRPEC em 21.out.2010, 20:42:01
Perdoar... Nem eu mesmo me perdoo a mim quanto mais... Enfim...  :'(
Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: Kolthar em 26.out.2010, 03:47:50
Olhando vagamente nesta noite gelada
Tremo cantigas suspirantes
Olho as estrelas pela madrugada
Imagino dois corpos amantes

As chuvas desse Inverno
Molham os meus sonhos de criança
Recordo de uma vida escrita dentro de um caderno
Fecho os olhos e carrego luz dessa pequena lembrança

Como está frio, quero ir para casa
Acender a lareira e aquecer a minha alma
Ver momentos no calor dessa brasa
E  ser  vestida pelas mãos da noite calma

Um adeus senti
O meu sorriso fechou
Um relembrança que fugi
Um inverno que acabou

Kolthar
Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: Kolthar em 27.out.2010, 15:38:35

( Joaquim Peneiras )

Aqui estou eu o Joaquim Peneiras
Desculpem lá as minhas maneiras
Vivo numa casa perto das bananeiras
Ricaço por dentro com grande amor de aço
Burlão e calão e por vezes palhaço
Vou desabafar e beber o meu bagaço

Estou apaixonado pela Maria Graça
Mulher bairrista loiraça
Vende frutas frescas no mercado de Alcobaça
Pecados meus quando lembro-me dela
Imagino-me eu a dar-lhe uma apertadela
Ainda sinto o seu cheiro de canela

( Maria Graça )

Raios partam o homem que me atormenta
Nem forças tem na ferramenta
Deveria pôr-lhe pimenta
Coitada de mim se casar
Não quero nem pensar
Que com ele vou ficar



Mais uma obra minha

Kolthar
Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: withoutimagination em 31.out.2010, 20:39:33
Saudade é nome de mulher
Furacão em noite sem lua
Saudade é dor de crescer
Joelhos rasgados no meio da rua

Saudade é esperança perdida
Naquilo que já passou
Saudade é tristeza esquecida
De quem já se amou

Saudades são erros passados
Antigos pecados
De quem nunca vi
Saudades são sonhos rasgados
Olhos molhados
Da distância de ti

Saudades são dores sozinhas
Esperanças vizinhas
De sonhhos não meus
Saudades são curtas linhas
Das mãos que são minhas
Dos olhos que são teus

                Withoutimagination
Título: Re: Poesia
Enviado por: Boreas em 17.nov.2010, 01:59:14
Quebradas já as minhas correntes,
O fio da espada trespassa excruciantemente a minha alma.
Fino cordel de sangue desfiado ordenadamente
contra este chão de pedra austero.
E confrontado com a calidez do rubro veículo, interrogo-me
Porquê tamanha frieza?

É então que me revolto e liberto das palavras,
talvez por conselho de amigo,
adentrando na essência límbica de que o humano é ser.
Lanço-me então na escuridão tacteando,
convicto que cegueira é o meu apego à luz da razão.

Passo lento e arriscado,
temeroso, bem diferente de um soldado
e pouco ciente dos obstáculos ao meu caminho.
Aqui vou desarmado ao encontro do meu destino.

E de passo sensato assim mesmo eu choco,
com este Adamastor danado de aspecto regrado
que me barra o progresso.

É o simples desejo da curiosidade que me aguça,
encontrar a abertura deste muro de betão armado.

O que estás do outro lado?


Acordei?

Ainda me consigo rever nas minhas palavras...
Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: Kolthar em 19.nov.2010, 15:32:45
Cumplicidade


Entrego-me nesta pura cumplicidade
Consegues sentir?
Sim amor, é o meu coração que fala a verdade
Como poderia mentir


Escuta, consegues ouvir o meu coração?
Sim, ele está acelerado
Desta nossa união
Não quer estar parado


Abraça-me nesta noite celestial
As paredes confessam a nossa paixão
Neste quarto actual
Ainda tem sentimentos espalhados no colchão


Não penses, não compliques a beleza
Entrega-te de alma aberta
Com o teu toque cheio de delicadeza
As minhas emoções ficam em alerta


Olha, que lindo o minguar da lua
Ilumina os teus sonhos
E a felicidade flutua
Nos teus olhos risonhos


Anda amor, vamos dormir
Esta noite de cristal
E ficar ao teu lado a sorrir
Nesta magia divinal



Kolthar
Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: Yin em 22.nov.2010, 23:42:26
São três da manhã. São três da manhã e não consigo dormir. Aliás, durmo mais por exaustão do que por outro motivo qualquer. Tudo é tão diferente agora. Perduro aqui numa existência esquecida desde que partiste. Demoro a adormecer e levo quase uma eternidade para me aperceber da realidade quando acordo. Ainda acordo com o braço no teu lado da cama, como se estivesses lá. Acordo sempre a pensar que te levantaste para tratar do pequeno-almoço. Mas, quando sinto a cama fria, lembro-me de que já cá não estás. E é como se as paredes se desmoronassem sobre mim... o peso da realidade. Luto contra a gravidade para me levantar. Contra a vontade para erguer. Luto porque o que me apetece é voltar a adormecer porque tudo o que desejo é que isto tudo não passe de um pesadelo. Mas acordo sempre para esta realidade. Acordo sempre para estas correntes que me apertam e me prendem a alma. Disseste sempre que estarias ao meu lado até ao fim... o que não sabia era que o fim chegaria tão antes do tempo.

Algo escrito em modo de improviso...

Gostei, escreves muito bem!  ;)

O meu novo post:

"Let me go home"

- O amor é muito bonito! É tão bom quando amamos e somos amados.

Não me mexi. Nem pestanejei.

 - Sentimo-nos completos, como se tivéssemos encontrado a parte que nos falta.

Mordi o lábio inferior.

- Eu quando crescer quer ter uma casa enorme, um bom trabalho, muitos filhos e....

Ouviu-se um barulho forte.
Em cima da mesa estava o meu punho direito fechado. Tinha doído ter batido com ele. E eu tinha gostado disso.

- Já chega de conversas dessas.
- Porquê?
 - Não vês que não estou interessada?
- Porquê?
- Porque não.

- Devias apaixonar-te.

Ia para dizer alguma coisa, mas contive-me. Ela continuou.

- Já imaginaste o que é partilhar uma vida a dois? Teres alguém que te acompanha, que te ajuda e que está lá para ti. Essa pessoa faz parte da tua vida, faz parte de ti. Acordas ao lado dela, sentes o seu cheiro, a sua respiração e o bater do seu coração... Eu acho que isso é bom.

Olhei para ela.
- É tudo bom. É bom ter uma casa cheia de miúdos a correr de um lado para o outro, com jardim e piscina, um marido fantástico e um pai ainda melhor. Ah e sem esquecer o cão.

Humedeci os lábios.

- Mas e o que é que acontece quando acordas de manhã, sozinha, e quando te olhas ao espelho vês que já não é isso que queres? Na verdade, nem sabes bem o que queres. A única coisa que sabes, é quem queres.

Ela não desprendia o olhar do meu.

- Sentes a respiração dessa pessoa, cada pulsação. A toda a hora. Até que chega uma altura em que só te apetece dizer: “Sai daqui!” – bati várias vezes com a mão no peito – “Sai de mim!”. Porque não passa de um sonho e tu acordas sempre com o vazio ao teu lado. E isso é mau.

Ela começou a chorar.

- Desculpa, eu não te queria deixar assim.

- Eu só precisava de um abraço...

- Eu sei, eu sei...

Peguei na mão dela.

- Anda. Vamos para casa.

- E onde é que isso fica?

- Não sei. Mas vamos descobrir juntas.
Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: Marius S. N. em 06.dez.2010, 04:47:17
(Acho que nunca postei estes aqui...)

(Sem título, inspirado na cidade de Coimbra)
Spoiler (clica para mostrar/esconder)
----------------------------------------------------------

Paixão e medo


Spoiler (clica para mostrar/esconder)


-----------------------------------------------------------------

Gato selvagem

Spoiler (clica para mostrar/esconder)

----------------------------------------------------------------

O Sol do amor

   
Spoiler (clica para mostrar/esconder)


---------------------------------------------------------------------------------

Beija-me


Spoiler (clica para mostrar/esconder)
Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: Eruasemmo em 24.dez.2010, 14:48:56
Marius adorei o teu poema "paixão e medo". Acho que dava uma autêntica balada de Coimbra - tens aí uma excelente serenata.  :)
Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: R-lig em 25.dez.2010, 01:20:10
Sinto-te meiga, ao aperto do meu abraço, recordo como o tecido áspero do teu avental, de um cinza desgastado, me pressionava as bochechas. Sentia com o meu nariz de garoto o cheiro do teu perfume antigo com, toques de álcool rosas e menta, segredado nas recordações da tua própria pele, uma pele enrugada que eu podia apertar na ponta dos meus dedos, como um tecido retorcido de nostálgicas histórias de felicidade e sofrimento. Recordo o teu rosto pacífico, de quem, a olhar para mim, calma, com a sua pele vincada pelo sorriso que se recusava às amarguras, a sua pele clara, os seus olhos profundamente azuis, que pareciam perfeitos cristais espelhados, polidos num corpo que insistia em envelhecer, contemplava. Tu e a casa emanavam algo em comum, eu sentia que já te conhecia antes de o tempo o permitir, mas nunca o soube explicar, tu eras amor, eras ternura. Ainda sinto os vestígios do teu perfume, e sinto o áspero tecido do teu avental, deslizo no nosso abraço as minhas mãos, mas já em nada toco, esse áspero tecido é a única coisa que teria nas minhas mãos para não te sepultar nas minhas memórias. Queria ter-me despedido de ti, queria ter-te dado um último abraço, e acalmar-te no teu leito. Queria ter-te dito tanto, mas desejava apenas poder abraçar-te. Esta não é uma tentativa de homenagem, envergonhar-me-ia se assim o fosse, eras tão maior que isto. Tenho saudades tuas.
Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: SuedeGirl em 04.jan.2011, 01:19:57
Hora ínfima que se adia,
Bem-aventurança do impossível,
Flutuando em barcos sem porto algum.
E nesse cerco de ilusão egrégia,
Descansamos sob a claridade febril
Com sonhos tardados do que poderíamos ser
(se realmente fossemos).
E a pressa, julgando-se ao longe,
Espanta o pouco de miragem
Que enternece os olhos de isto estar vendo.
O canto do crepúsculo olvida
Os ensolarados de tudo,
Eternos adiados do Campo Pequeno.

SuedeGirl
13-02-2009
Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: RF em 16.jan.2011, 18:20:34
Uma reflexão sobre o Tempo

Vivemos amarrados aos carris do Tempo que se movem pela energia de um recurso inesgotável,
sentimo-nos escravos porque aceitamos ser vão e infrutífero qualquer esforço de mudança
Por vezes, e quão raras são, temos ímpetos de revolta mas que se abafam pela sua prepotência...

De que vale lamentar o passado e desejar que tivesse sido diferente?
E a esta velocidade seremos capazes de, conscientemente, preparar o futuro?

Não Tempo! A culpa não é tua!
Quanto tempo é gasto sem sentido?
O marasmo é uma característica do Homem. O Tempo o exemplo do contrário.
Cabe ao primeiro usar a Vontade para fazer da oportunidade que o segundo lhe concedeu
uma experiência de que orgulhosamente este se recorde no fim da viagem.
Deixa-te de queixas e de culpas. Levanta-te e age. O amanhã começa hoje!
Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: sadyworld em 17.jan.2011, 12:29:59
Beijo

Quando toco nos teus lábios
A atracção dos nossos corpos
A magia de nossas almas
O desejo mais profundo

A paixão nasce de um olhar
E cresce com um toque
Não se faz amor num dia
Se descobre numa vida

Cada minuto para estar contigo
Cada segundo do nosso amor
Aquele que tu e eu esperamos


By:sadyworld
A falar de beijos ontem com uma amiga acabei por escrever isto
Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: _Sharika_ em 17.jan.2011, 12:52:08
Curiosidades de amor

Saudades de quando eras minha,
e eu tua...
Saudades de quando o sol irraiava
na lua seus raios de calor...
Saudades de quando eu era o teu sol,
e tu a minha lua...
Saudades de ti nua,
em que teu corpo resplandecia
 traços de rebeldia,
curiosidades de amor...
 
Saudades daquele tempo,
em que o tempo nao passava,
e o que passava,
pouco importava
pra quem apenas desejava
um pouco do teu amor...
 
Saudades daqueles cheiros
de quando os lençois envolvem
dois seres que  a alma,
o corpo, a vida...
entregaram numa noite de amor...
 
Saudades daquele aroma suave
que tua pele deixava na minha...
Saudades daquele brilho
que só o teu sorriso tinha...
 
Saudade do teu beijo molhado,
que hoje em sonhos me é dado...
porque em sonhos ainda te posso ter
como minha lua
e eu como teu sol...
 
Saudades que nao matam,
 as curiosidades de quem ama...
de quem queria ter,
apenas,
um pouco do teu amor...
 
Saudades de um passado...
passado a teu lado...
dias e noites...
noites e dias...
um passado que acabou...
mas que por mais tempo que passe,
nao ha tempo que mate
estas curiosidades de amor.
 
Saudades de te ter a meu lado,
vendo te a olhar para mim...
Sei que já nao estas comigo,
mas nao me quero sentir assim...
querendo lutar por ti,
e nao podendo...
Pedindo que chegue a tua presença
a mim...
e ela que nao chega...
que ao invés se afasta
e me deixa  sozinha...
Eu... Eu que só desejava,
apenas,
um pouco do teu amor...
 
 
São curiosidades de amor,
pois sao...
daquelas curiosidades,
que nao ha tempo que mate,
saudade que apague...
que perduram e duram..
duram e perduram...
neste coraçao sem rumo...
que apenas desejava...
um pouco do teu amor...
 
Saudades...
que espero um dia
poder matar
as curiosidades de amor...
a saudade de ti...
a sede de te amar...

-------------------------------------

Este poema faz parte de uma outra parte da minha vida  ;)
 
Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: sadyworld em 17.jan.2011, 13:15:42
Palavra

Foi necessario uma palavra
Para acontecer o que temia
Seria necessario uma vida
para apagar o que aconteceu

Dia apos dia o sentimento
cresce tornando maior
intensificando tudo entre nos...
Tenho medo, mas sinto-me feliz

Feliz por seres tu e mais ngm
Feliz por podermos sermos nos
Um ser Uno sem tempo e espaço

By: sadyworld
Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: sadyworld em 20.jan.2011, 00:20:06
Love

Não trocaria-te por nada
E amarei-te para sempre
Não importa o tempo
Muito menos a distancia

Estarás sempre perto de mim
Desde da primeira vez
Do primeiro sorriso
Senti algo mudar em mim

Nada será como antes
Semanas antes de te ver
Minha doce inocência
Não sabia o que era o amor

Amar-te fez-me crescer e ficar
Abraça-me porque será sempre tu

By:sadyworld
Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: xXxPePexXx em 21.jan.2011, 00:22:55
Há Dias Assim

Alguma vez sentiste que fizeste tudo o que pudeste, e no final não valeu de nada?
Quando tens tudo o que queres mas nada daquilo que precisas?
Sinto que fiz tudo isso...
e sobraram as lágrimas,
tantas horas dedicadas ao complexo sentido da palavra gostar (amar),
e sobraram as magoas,
todas as vezes que a consigo decifrar são outras tantas em que descubro que de nada valeu,
termino no vazio,
num vazio, que sinto que só eu compreendo...
algo que disfarço com um copo de vinho, um cigarro e um sorriso nos lábios...
mas tudo o resto dói...
quando no final do dia o pano desce e me deparo com o silêncio ...
este silêncio que odeio, que me assusta...
o silencio que guarda todas as minhas lágrimas e lamentos
e os guarda em cada recanto deste quarto,
acho que ninguém sabe como me sinto...
tenho medo que descubram que quando me deito por vezes choro,
ou que saibam que às vezes gostava de sentir me completo,
mesmo que fosse por míseros segundos...
Hoje sinto me miserável,
é um daqueles dias em que não me consigo sentir feliz,
em que tento dar sentido ao passado e o quanto me afecta no presente,
estou cansado e magoado...
seria pedir muito um pouco de felicidade de vez em quando?
será que em vez de lágrimas tudo pudesse terminar com um sorriso no final?
Chego a sentir inveja daqueles que tudo têm sem nada darem em troca...
Qual é o truque?
Por mais que tente acaba tudo num grande vazio silencioso,
deitado no chão frio...
a contemplar o escuro infinito
consumido por todo o silencio ensurdecedor que devora este meu ser.
in, cornerofmyownmind.blogspot.com
Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: JohnLeprechaun em 24.jan.2011, 03:23:58
"   A vida é apenas um efémero sopro lunar que paira sobre um pântano lamacento e envolto em brumas. Como uma armadilha, que lentamente nos suga até ficarmos para sempre sob um tecto de lama, negro e sombrio, onde os raios de Sol não conseguem chegar. E podemos esbracejar e gritar, que isso ainda lhe dará mais gozo.
   O lodo entrará pela nossa boca, entupindo as nossas narinas e os nossos ouvidos e irritando os olhos, como se pequenas facas aguçadas raspassem o nosso glóbulo ocular. Não adianta esfregar os olhos, não adianta fechar o nariz, nem tapar os ouvidos ou a boca.
   O paladar da terra ficará entranhado na nossa língua e, a cada palavra, torrentes de lama e lodo irão emergir e, assim, afundar mais alguém. É como se de um ciclo vicioso se tratasse, ninguém se afunda sozinho, arrastará alguém consigo ou, na pior das hipóteses, será arrastado por alguém. E estando a afundar-se, já não há volta a dar. Nem uma súbita chuva torrencial irá dissipar o pântano tenebroso em que te irás encontrar, nem o Sol nascente de uma manhã de Verão conseguirá afugentar as sombras e os monstros e pesadelos que sobre ti se encontram.
   Em vez de te libertar, o rio mais próximo seguirá o seu curso, vendo as suas águas acastanhadas e sujas, com um forte odor a podre que contaminará o mar. E assim a podridão alcança cada vez mais gente, disseminando-se pelo mundo, apoderando-se da mente e do corpo dos mais fracos.
   Às vezes acontece termos a sensação de que a nossa vida se encontra ameaçada em cada esquina, em cada rua, em cada olhar de quem passa, em cada cão que ladra, em cada carro que buzina na estrada. Às vezes, sentimo-nos como se nada nos pudesse atingir, como se de repente um forte escudo invisível nos envolvesse e protegesse, semelhante ao que uma criança sente no colo da sua mãe, que lhe canta uma canção de embalar e uma história de encantar. E que, no fundo, sabe que todas essas histórias e canções não passam de fantasia, e que o seu filho o descobrirá quando, a pouco e pouco, começar a aperceber-se da realidade ao seu redor.
   O ser humano já está vacinado contra essa descoberta, adaptando-se rapidamente ao mundo que o rodeia, contribuindo para a tal torrente de podridão. É o mais fácil, difícil é remar contra a maré e não seguir a multidão. Todos já o fizemos. Eu já o fiz. Acaba por ser como que um processo normal, onde apenas os que realmente querem se apercebem disso e modificam as suas acções."

João
09.06.10
Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: R-lig em 25.jan.2011, 10:11:47
"   A vida é apenas um efémero sopro lunar que paira sobre um pântano lamacento e envolto em brumas. Como uma armadilha, que lentamente nos suga até ficarmos para sempre sob um tecto de lama, negro e sombrio, onde os raios de Sol não conseguem chegar. E podemos esbracejar e gritar, que isso ainda lhe dará mais gozo.
   O lodo entrará pela nossa boca, entupindo as nossas narinas e os nossos ouvidos e irritando os olhos, como se pequenas facas aguçadas raspassem o nosso glóbulo ocular. Não adianta esfregar os olhos, não adianta fechar o nariz, nem tapar os ouvidos ou a boca.
   O paladar da terra ficará entranhado na nossa língua e, a cada palavra, torrentes de lama e lodo irão emergir e, assim, afundar mais alguém. É como se de um ciclo vicioso se tratasse, ninguém se afunda sozinho, arrastará alguém consigo ou, na pior das hipóteses, será arrastado por alguém. E estando a afundar-se, já não há volta a dar. Nem uma súbita chuva torrencial irá dissipar o pântano tenebroso em que te irás encontrar, nem o Sol nascente de uma manhã de Verão conseguirá afugentar as sombras e os monstros e pesadelos que sobre ti se encontram.
   [...]
   O ser humano já está vacinado contra essa descoberta, adaptando-se rapidamente ao mundo que o rodeia, contribuindo para a tal torrente de podridão. É o mais fácil, difícil é remar contra a maré e não seguir a multidão. Todos já o fizemos. Eu já o fiz. Acaba por ser como que um processo normal, onde apenas os que realmente querem se apercebem disso e modificam as suas acções."

João
09.06.10

(peço desculpa pelo meio off-topic)
Muito bom :D
Gosto muito da exposição inicial que fazes, antes de fortaleceres as analogias com a sociedade.
Admiro textos que me façam questionar, ideias diferentes, tu conseguiste criar uma imagem gráfica inicial até um pouco perturbadora  ;D.
Espero que continues, assim como todos os demais excelentes artistas líricos  ;) a proporcionar momentos de leitura, como este e outros, que fogem à banalidade.


Há Dias Assim

Alguma vez sentiste que fizeste tudo o que pudeste, e no final não valeu de nada?
Quando tens tudo o que queres mas nada daquilo que precisas?
Sinto que fiz tudo isso...
e sobraram as lágrimas,
[... ]
Por mais que tente acaba tudo num grande vazio silencioso,
deitado no chão frio...
a contemplar o escuro infinito
consumido por todo o silencio ensurdecedor que devora este meu ser.
in, cornerofmyownmind.blogspot.com


Mexe muito comigo, gostei, mas não vou explicar o que mais me tocou, porque acabara por ser em função da minha visão (e vida) pessoal.


Pessoal, sinto-me privilegiado por já ter escrito num tópico como este que vem denotando camadas e camadas de criatividade e sensibilidade  ;D
Parabéns a todos os participantes.
Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: Newliexp em 25.jan.2011, 11:19:57
Ensaio sobre a dissiminação da fé

Como nós somos inocentes olhando para a vida dos outros na esperança de justificar a superioridade da nossa própria existência, e como somos loucos de achar que tudo o que nos rodeia é um fruto para o uso da nossa excelência quando ainda não temos a certeza da ordem matemática das coisas a qual tendemos estipular de “natural”, e discutimos, oh se discutimos gastando as preciosas palavras que poderíamos usar para amar inequivocamente, mas na realidade só as usamos para justificar a força que nos faz andar para a frente pois sem ela que seria da nossa humanidade? Apenas um imenso grupo de órfãos despejados aleatoriamente sem mapas, livros de instrução, sem absolutamente nada.  Então decidimos fechar os olhos acreditar numa coisa só e seguir em frente como se não existisse nada para trás, nem para os nossos lados, e a quem aparece à nossa frente dizemos "Vens comigo?" e quando dizem que sim surge uma alegria inesperada que logo nos impele a continuar pelo caminho recto, sem pausas ou desvios, mas quando nos dizem que não, ou ainda pior que afinal podemos percorrer outras estradas, somos tomados por uma tristeza por sabermos que por mais que tentemos amar essa pessoa ela não passa de uma memória de infância, daquelas que já nem sabemos se realmente “foi” ou se não passou apenas de um sonho, e também tomados por medo, pelo sentimento de insegurança de começarmos a perguntar “de que vale a “veracidade” de um caminho quando andamos sós?” Então apenas me pergunto será que a necessidade de mostrar no que acreditamos vem da caridade de querer o que há de melhor para os outros, ou de consolarmos as nossas próprias inseguranças e o medo de traçarmos o nosso próprio caminho?
Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: pioneira :) em 12.mar.2011, 02:34:14
O tempo (não) parou

Finalmente já me levantei,
Depois de tanto tempo deitada,
Numa coisa que não entendia,
Qual estranha melodia,
Em tanta nota enleada,
Foi farta disso que me afastei.

Ergui-me e caminhei,
Passo após passo andei,
De fronte soerguida,
Por perniciosa partida
Do tempo que foi vento,
Do juízo que foi tento.

Passei e não quis esperar,
Fluí com o rio apressado,
Em afogar a mágoa na água,
Como fogo a incendiar,
Um qualquer desejo alado,
Do que outrora era frágua.
Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: Bluntress em 12.mar.2011, 02:55:29
"Não tentem isto em casa

As pessoas pensam que estou a ser perverso de propósito. O senso comum esmaga-me, pequenas parvoíces assumem proporções de um moderno Prometeu, um retalho carnal que guardo debaixo da cama. Primo pela minha sobriedade, mas não consigo esconder o meu segredo sem um leve sorriso, um pequenino prazer que tenho ao saber que algo é-me particular, que acompanha um estímulo poderoso. Agarro num caduceu e avanço para o campo de batalha, com os tambores a rufar numa paisagem preta e azul de tanta destruição, árvores calcinadas e rochas que prenunciam uma esterilidade por ressuscitar. Agarro mais um pedaço de carne e benzo-o com as serpentes entrelaçadas do meu item predilecto, e vejo o fogo-fátuo a subir, premiando o céu de tonalidades púrpuras e verdes. Atordoado pela sua magnética palete de cores, regresso ao meu castelo e espreito por debaixo da cama. Vejo que ainda não tomaste conta das correntes que carinhosamente anexei a teus pés – vejo também que ainda não respiras, mas não importa. Pego na linha e agulha e coso, agora um braço, amanhã uma perna. Estou sozinho, mas não importa, daqui a diante ficará tudo muito melhor.
Acordo novamente, assoberbado pela enorme tarefa posta a meus pés. Dirijo-me para o jardim e colho uma rama de roseira, queimando as flores e guardando o caule. Entrelaço-as e crio uma coroa, digna de uma nobreza como a tua. Está quase – apenas uns retoques e uma infusão balsâmica que cedo me será providenciada, e estarás preparado. Espero pela meia-noite, coroa e poção em riste, e injecto-a nas tuas veias azuladas. Coroo-te e espero que te mexas – Sim! SIM! – Sucesso, finalmente. Cedo me despeço do meu precioso homúnculo, que tem agora uma vida inteira à sua frente. Vai, vai Yeshua de Nazaré, vai e mostra ao Mundo o quão maravilhoso és. Eu aqui esperarei por notícias da tua alquimia..."
Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: SuedeGirl em 26.abr.2011, 23:29:03


Enlaços que perduram pelo entardecer
Em púrpura de fragrância alguma.
Clama a hora luzente, perdida,
Por não saber do efémero de nós,
Ímpetos inflamados sem sentido,
Devaneios lascivos, imersos,
No aceno do instante alvo.
A saudade prolongada, febril...


SuedeGirl
22-04-2011
Título: Textos e citações
Enviado por: Aantunes em 31.mai.2011, 14:14:14
"Por um dia dei por mim apaixonado, agora os meus sorrisos vêm , de forma constante e emocional. Meu coração palpita, o suor vem,  e mesmo a alegria de um sorriso é recordado na minha memória como se fosse o único,o seu brilho encanta-me, seu coração bonito guardando um bom ser, ser este que possui uma bonita alma pela qual me apaixonei. Agora por longos momentos sonho acordado, sonhos que parecem tão reais, por vezes fico a pensar se eles são mesmo reais. Enfiado num sonho, onde começa a vida, onde existe felicidade, onde pequenos gestos parecem prefeitos. se o Amor existir então a perfeição de um espírito será real. Por um breve sorriso, um pequeno sonho, uma doce alma,  abraço a vida se esta me quiser abraçar "
Escrito por mim



Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: sweet_poison em 13.jun.2011, 22:27:00
White feather
Embrace my love
Give her tender kisses
Give her your affection
Give her my attention

White moon
Follow my girl
Light her nights
Kiss her goodnight
Protect her in her dreams

White cloud
Don't cry on her
Don't hide the sun
Don't ler her be alone

White lord
Forgive your daughter
Open the gates
Let her in
Put your angel right where it belongs

06/08/2007


sweet_poison
Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: crazyguymiau em 20.jul.2011, 15:06:22
Quero um amor...
[/font][/font][/color]

Quero um amor desmedido. Um amor que me faça correr para a pessoa amada numa pradaria como só os filmes nos fazem crer. Um amor que me faça gritar bem alto: "Eu Amo-Te" numa azáfama de pessoas. Um amor que me faça dar-te tudo o que sou e possuo. Um amor tão grande que me faça ir ás nuvens e ficar. Um amor verdadeiro, não um amor de conveniência porque até que não és mau. Um amor que me faça pensar em ti durante todo o dia, que me faça sonhar contigo. Um amor que faça com que eu faça as maiores loucuras. Um amor que realce o que de melhor há em mim e atenue o que de pior eu tenho. Um amor que faça com que eu abrilhante a pessoa amada. Um amor que me faça querer estar aninhado a ele, vê-lo dormir e dizer: "Eu Estou Feliz". Um amor tão sincero que faça com que as pessoas que realmente importam, continuem ali a apoiar-me. Um amor tão maravilhoso que toda a gente olhe e pense: "O amor é lindo entre aqueles dois rapazes".

P.S. Tão ingénuo que sou! Mas, agora, apetece-me ser assim.
Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: crazyguymiau em 23.jul.2011, 02:40:28
Queria voltar a ser menino...
Sem nada para me preocupar
A não ser a escola,
Mas que gostava de andar.

Queria voltar a ser menino...
Quando a vida era perfeita.
Onde ria, onde brincava
Ficando a cama desfeita.

Queria voltar a ser menino...
E quando o lápis caía no chão,
"Que tal ir apanhá-lo?"
Era uma grande indecisão.

Queria voltar a ser menino...
Quando amigos não faltavam
Quando não tinha que esconder-me
Por causa do que outros falavam.

Queria voltar a ser menino...
E despertar pela manhã
Para ver desenhos animados
Sem acordar a mamã.

Queria voltar a ser menino...
Para brincar, comer e dormir
Ir à escola, ver televisão
Até à hora de ir mimir.

Queria voltar a ser menino...
Quando não tinha que estudar
Quando não tinha que trabalhar
Quando não sabia o que era amar.
Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: crazyguymiau em 11.ago.2011, 13:23:56
Vermelho!
Vermelho é a cor do coração!
Um coração magoado, um coração palpitante por mais vida, um coração tentando-se montar.
Vermelho é a cor do sangue!
Um sangue que corre pelas veias à espera de um amigo, à espera de um amor, à espera de ser feliz.
Vermelho é a cor da carne!
Uma carne desprotegida sem pele, uma carne ali deixada sem osso, uma carne que vira roxa sem ar.
Vermelho é a cor do fogo!
Um fogo que arde sem se ver, que corrói cada pedacinho de alguém, que o torna cinza empedrecida, que não voltará a ser calor.
Vermelho é a cor de Marte!
Marte guerreiro, Marte inóspito, Marte que age sem pensar, Marte que mata para não se magoar.
Vermelho é a cor de um morango!
Um morango que espera ser saboreado, que espera ser colocado numa boca e envolto numa língua para deleite de alguém.
Vermelho é a cor do meu sofá!
O sofá em que me alieno para não pensar, em que durmo para não chorar, em que me acomodo para não lutar e não me desapontar.
Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: Wild Beast em 11.ago.2011, 18:59:31
Responder
As palavras mentem. Com as palavras que escrevo, não posso senão fazer uma fotocópia, no preto e branco distante do passado, de dores que floresceram no meu peito ou de prantos que nunca chegaram a o ser.

As palavras são como folhas mortas no chão - perdem a vida mal caiem da árvore do agora aos pés das raízes gastas e calejadas da rotina. Caiem na valeta do esquecimento ou boiam dispersas no charco inquinado do afastamento e da azáfama da solidão.

As palavras nunca poderão matar como um punhal em cascata de sangue num peito humano, mas o seu efeito é mais prolongado. São como pequenas picadas, dia após dia, desferidas precisamente no mesmo buraco que se vai escavando na alma. É a tua arma preferida, qual serial killer em que a vítima não chora sangue mas esvai-se em lágrimas. As palavras não mentem. Apenas apaziguam o teu ódio, o teu desnorte.


http://ice-crystals1.blogspot.com/2011/07/palavras.html (http://ice-crystals1.blogspot.com/2011/07/palavras.html)
Título: Os trilhos da vida :)
Enviado por: kgbatista em 21.ago.2011, 03:58:05
Quando era pequeno,
tinha pequenos problemas e os achava enormes,
tinha pequenos sonhos e os achava gigantes,
um dia o comboio da vida passou e levou-me,
começara minha jornada pelo conhecimento humano,
pelos trilhos da decepção,
pelas alegrias das curvas e
as surpresas dos campos verdes.
Não fazia parte dos meus planos conhecer e não entender,
poucos acertos e muitos enganos,
mas não há volta,
uma vez dentro desse comboio temos de crer,
temos que tentar entender os outros.

Fui crescendo e percebendo que não havia
paragens.
Não haviam estações e o sinal de emergência não funcionava.
Alguns passageiros diziam:
“Fique calmo estamos ao seu lado vamos te ajudar!”

Mentiras e mais mentiras,
na quase totalidade das vezes cada qual se preocupa
com a sua poltrona e com a sua paragem,
cada um quer seguir o seu próprio caminho,
e finalmente descobri que estava sozinho.

Percebi que eu não tinha o conhecimento e que,
outras pessoas desenhavam a minha rota,
percebi que guiavam minha vida,
e que eu não tinha controlo sobre mim.

Sem conhecer a estrada que vinha,
não tinha o que fazer depois,
não conhecia os trilhos,
não conhecia como as carruagens funcionavam,
e tão pouco como parar,
estava eu dentro dessa fornalha a vapor,
a seguir os trilhos da vida,
sem entender o sentido,
sem entender o porque isso acontecia,
como uma fruta que amadurece à força
eu estava a ser preparado para entender
como funcionam as coisas.
Apesar de não concordar com o funcionamento
desse comboio, fui obrigado a  adaptar-me  ao sistema.
Percebi que iria crescer aos poucos,
percebi que precisava de uma base,
precisava saber para onde iria e porque iria.

Ninguém me dizia nada sobre o caminho,
a maioria das pessoas desse comboio,
apesar de terem mais anos de trilhos que eu,
também eram conduzidas,
não tinham auto controlo e tão pouco conhecimento sobre o seu caminho,
estava eu rodeado por pessoas mais velhas,
que me diziam o que era certo ou errado,
mas eles sabiam tanto quanto eu, ou seja nada!

Até então eu ainda queria controlar a locomotiva,
queria ter o controlo da sua direcção,
e novamente me surpreendi pois,
esta máquina na qual fomos inseridos
é incontrolável, não existe uma formação
para condutores e tão pouco um livro de instruções.

Meu mundo resumia-se ao que eu podia ver
a minha simples e inconfortável poltrona.
Já que meu mundo era aquele pequeno espaço,
Comecei a prestar atenção nos passageiros,
a olhar para  as suas posturas,
Seus olhares,
e vi que haviam muitas actividades dentro desse pequeno
mundo sobre trilhos.

Via pessoas a sorrir em poltronas mais simples que a minha,
via pessoas a chorar em  poltronas luxuosas,
via crianças a brincar com caixas de fósforo no corredor do comboio,
via também outras crianças com lindos brinquedos a chorar,
pois não queriam aqueles brinquedos e sim outros melhores.
Então comecei a apaixonar-me por essas experiências e até me esqueci de que a locomotiva estava a levar-me para algum lugar.

Alguns passageiros discutiam por não terem sido atendidos quando chamaram,
Vi pessoas a esconder algo sob o fato para que ninguém visse,
havia também pessoas que subiam nas poltronas e gritavam, cantavam e falavam alto
simplesmente para chamar a atenção de todos, alguns ouviam e a outros passava ao lado,
Dias e dias se passaram e eu finalmente começava a gostar do comboio,
poucos dias atrás eu queria saltar pela janela, agora eu tinha algo
que me interessava de verdade,
comecei a prestar atenção as pessoas e tudo que eu via,
tudo que eu sentia começava a fazer sentido,
sentia a felicidade dos outros,
sentia a tristeza e também outros sentimentos.

Sabia que era uma jornada,
tinha de estar preparado,
tinha que estar pronto para sentir mais,
queria sentir e entender,
encontrei estranhos e conhecidos,
tudo era válido,
comecei a ler em minha poltrona,
lia sobre a vida,
sobre contos e mentiras,
ria, chorava e absorvia.

O comboio continuava sem parar,
muitas pessoas não faziam nada,
somente dormiam em suas poltronas,
outras não conseguiam ficar paradas,
estavam sempre em movimento e
eram sempre requisitadas em outras
poltronas.

Eu queria percorrer outras carruagens desse comboio,
mas tinha medo, tinha receio de me perder,
andava somente pela carruagem onde estava minha poltrona,
pois quando afastava-me ainda conseguia ver
onde estava o meu número.
Olhava pela janela,
contemplava tudo,
ficava horas a olhar e imaginar,
dentro de mim .

criava expectativas,
criava sonhos,
agora não são somente sonhos de criança,
pois já me sentia diferente.
Título: É Como se tu não fosses o suficiente
Enviado por: kgbatista em 21.ago.2011, 04:00:37
(http://3.bp.blogspot.com/-l_azHj34U9U/TYiwtDqgWfI/AAAAAAAAABA/Vau_Gr72zQc/s1600/Urnban-nature-2009-ubiquitous_large.jpg)
É como se tu não fosses o suficiente.
Por todos os rostos, são máscaras as que ficam, mórbidas simplesmente.
Por todos os dias que contei teu regresso, que de nada valeram.
Era como se tu não tivesses sido o suficiente.
Por alguém como tu, não houveram fogos, não houveram prendas.
Houveram mentiras a partir, tentativas erradas por fim.
Alguém como tu, com tudo que sabe e como age.
É como se tu não fosses o suficiente.
Por alguém como eu, que amou até adoecer.
Sou emaranhado de dor e esperança, de amor e amor.
É como se tu não tivesses sido o suficiente.
Só ausência e ilusão, cuja que foi.
Por alguém que o amou sem cérebro e sem coração.
Por alguém que o ama sem saber, que o ama talvez por saber;
Nunca fosses suficiente, pois na verdade nem foi.
Título: Os trilhos da vida Pt. II
Enviado por: kgbatista em 21.ago.2011, 04:01:35
(https://lh3.googleusercontent.com/-xP-NDDqXNAw/TYJYmF6chiI/AAAAAAAAAA4/-sh2sOLON9A/s1600/Os-Trilhos-da-Vida.jpg)
Ninguém avança pela vida em linha recta. Muitas vezes, não paramos nas estações indicadas no horário. Por vezes, saímos dos trilhos. Por vezes, perdemo-nos, ou levantamos voo e desaparecemos como pó. As viagens mais incríveis fazem-se às vezes sem se sair do mesmo lugar. No espaço de alguns minutos, certos indivíduos vivem aquilo que um mortal comum levaria toda a sua vida a viver. Alguns gastam um sem número de vidas no decurso da sua estadia cá em baixo. Alguns crescem como cogumelos, enquanto outros ficam inelutávelmente para trás, atolados no caminho. Aquilo que, momento a momento, se passa na vida de um homem é para sempre insondável. É absolutamente impossível que alguém conte a história toda, por muito limitado que seja o fragmento da nossa vida que decidamos tratar.
Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: withoutimagination em 09.out.2011, 11:08:02
Publiquei um livro publiquei um livro  ;D ;D ;D

(http://3.bp.blogspot.com/-TIemkAvT-c*/To2WnDCNEEI/AAAAAAAAAA8/Wx75Q8wxBRA/s1600/capacurta.jpg)

http://ospassosdaleitura.blogspot.com/p/o-livro-passo-e-passo.html (http://ospassosdaleitura.blogspot.com/p/o-livro-passo-e-passo.html)
Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: crazyguymiau em 02.nov.2011, 20:02:40
Não sou perfeito. Ninguém é. E ninguém conseguirá tal feito. E o importante é que te aceites como és: com as tuas imperfeições, com as tuas estrelinhas. E será nesse momento que encontrarás o ponto de partida para a tua felicidade.
E haverá um dia que tu, meu ilustre ainda desconhecido, me porás num pedestal. E eu te pedirei que, amavelmente, me retires de tão soberana altitude e me ponhas a teu lado. Porque sou um igual a ti. Porque não sirvo de modelo. Porque não tenho perfil para ser idolatrado. E porque também não o quero ser.
Título: Algum escritor por aqui?
Enviado por: KenIchijouji em 31.mai.2012, 11:34:20
Gostava de saber se aqui há escritores :)

Sejam de short stories, poesias, memórias...

Eu tenho uma história escrita por mim que se quiserem, tenho todo o orgulho em partilhar :D
Título: Re: Algum escritor por aqui?
Enviado por: Mr Unchained em 31.mai.2012, 15:26:47
Não sou propriamente um escritor, longe disso, mas gosto muito de escrever, tenho alguns textos soltos, alguns poemas, estou a escrever um livro, mas tudo por puro prazer pessoal.
Título: Re: Algum escritor por aqui?
Enviado por: KenIchijouji em 31.mai.2012, 16:02:30
Não sou propriamente um escritor, longe disso, mas gosto muito de escrever, tenho alguns textos soltos, alguns poemas, estou a escrever um livro, mas tudo por puro prazer pessoal.

Quando falei em escritor, nao estava a referir me a autores conhecidos mas sim a pessoas que gostam de escrever :)
Título: Re: Algum escritor por aqui?
Enviado por: person_interest em 31.mai.2012, 18:15:03
Eu gosto de escrever e felizmente vou tendo tempo para o fazer. Tenho algumas histórias por aí à espera de serem desenvolvidas e estou actualmente a publicar uma no meu blog. Escrevo é maioritariamente em inglês...
Título: Re: Algum escritor por aqui?
Enviado por: paxaetherna em 01.jun.2012, 01:14:28
Eu adoro escrever: gosto particularmente de escrever poemas e ensaios, mas histórias a nível literário não muito. Tenho também uma criação minha que venho a desenvolver desde os meus 10 anos e que passa por um mundo imaginário, e só deste mundo tenho mais de 600 documentos em papel e em computador, mas é uma criação que passa por textos, mapas, imagens, culturas, países, etc. tudo a um nível mais factual e informativo do que literário.
Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: paxaetherna em 01.jun.2012, 01:23:53
A solidão vem, a solidão vai.
A solidão fica, a solidão sai.
O amor não volta quando não é para ficar
A amizade desvanece-se num simples olhar.

Cai a amargura sobre nós,
Fica a vontade de ficarmos sós.
Deixamo-nos levar pelo pensamento
E acabamos por não viver o momento.

Vão-se os momentos, ficam as memórias
Ficam em nós todas as histórias.
Chega a tristeza e a melancolia
Acaba tudo o que começou, nada é como eu queria.

Finalmente caio em mim,
Vem-me de novo o sonho ruim
De deixar passar o que amei
E acabo só, de novo, a chorar porque não tentei.

30/05/12 by me
Título: Re: Algum escritor por aqui?
Enviado por: SuedeGirl em 01.jun.2012, 23:33:28
Não me considero escritora mas gosto muito de escrever...poemas, trechos, também já escrevi alguns contos.Estou a escrever, desde há algum tempo, uma história que talvez seja a minha masterpiece, daquelas coisas que levam a vida inteira a escrever porque é A TAL :)
Título: Re: Algum escritor por aqui?
Enviado por: NyCore em 15.jun.2012, 08:48:11
nao sou nenhuma escritora mas escrevo muitos poemas e musicas.. Os amigos gostam é o mais importante :)
Título: Re: Algum escritor por aqui?
Enviado por: Clow em 11.jul.2012, 21:22:10
Não me considero escritora mas gosto muito de escrever...poemas, trechos, também já escrevi alguns contos.Estou a escrever, desde há algum tempo, uma história que talvez seja a minha masterpiece, daquelas coisas que levam a vida inteira a escrever porque é A TAL :)

Não sou nada do que está escrito, mas sou tudo aquilo que vejo. E se o sou, às palavras o devo! :)
Título: Re: Algum escritor por aqui?
Enviado por: Di HF em 11.jul.2012, 21:34:11
Gosto muito de escrever, mas quando escrevo é só para mim e não gosto de partilhar por vários motivos e um deles é achar que ninguém vai compreender a confusão que escrevo.
Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: LeechAaron em 02.ago.2012, 01:36:55
Isto faz parte duma "história" que ando a escrever. Peço desculpa pelos erros.

A vida dá voltas inacreditáveis. Por vezes temos uma vida plena de sorrisos e felicidade, e de um segundo para o outro a vida transforma-se em algo que nos torna simples seres que respiram, sem motivos de viver, sem motivos de sorrir, sem motivos de amar.
E sim é isso.. Sem motivos de amar de novo. Um ser tão belo que nos cativa pode levar-nos á loucura. Pode levar-nos a esconder o amor que sentimos por ser impuro, por ser inseguro, e por vezes por ser simples de atacar e destruir.

O Amor não é facilmente descrito, tem várias definições, algumas mais correctas que outras mas são definições. Penso que cada um de nós tem a sua ideia de amor e é isso que o torna tão difícil de definir. Para alguns é sexo, para outros é uma relação homem/mulher, para as crianças é um conto de fadas, para os mais velhos é uma paixão, uma chama que nunca apaga dentro nós, é o sentimento que possuiem por aquele alguém tão especial. Para mim...
Bem, para mim Amor é um sentimento que tem vários sentidos, temos o amor de família que cuida de nós, nos ensina o que é certo de errado e está lá sempre para nos apoiar; o amor de amigos que nos fazem crescer com experiências, ver as pessoas verdadeiras das falsas, saber que se precisar-mos eles estarão lá; e por fim o Amor por alguém, o alguém especial que ficará connosco até morrermos. Deixei de acreditar em contos de fadas há muito tempo, eles levam-nos a amar tão fortemente que se esquecem de contar como o amor tem os seus altos e baixos, esquecem-se de nos dizer que o amor por vezes não é correspondido e que vai magoar muito.

Amor é a chama que sentimos dentro de nós quando o nosso olhar cruza com aquela pessoa tão especial pela primeira vez, é o nosso coração que bate fortemente quando vemos o olhar correspondido com um sorriso que nos delicia, é a nossa cabeça ficar a andar de roda com o timbre doce que a pessoa tem, é o nosso arrepiar quando sentimos o seu toque e o desejamos aproveitar como se a Terra fosse acabar no mesmo instante. Amor é, amar alguém que nos faça sentir tudo isto e no entanto se nos magoar o coração este fica em pedaços irreconhecíveis que ninguém mais puderá concertar. Amar é sofrer, amar é viver, quem não ama não percebe que o mesmo puderá ser a melhor coisa da nossa vida ou aquela que nos fará terminar com ela.

Eu já senti a chama dentro de mim quando os meus olhos se cruzaram com os do ser que pior me fez em toda a minha vida. Senti a chama a queimar quando vi os olhos avelã que ela possui quando se cruzaram com os meus, vi um pequeno doce sorriso na sua face, mal eu sabia que no fim iria ser o sorriso que mais mágoa me iria trazer.
Vi quando o seu sorriso desvaneceu quando um rapaz alto chegou ao pé de mim e logo se prontificou a ajudar-me com os livros que eu carregava e a partir daí o Inferno começou. Cada vez que punha um pé na escola e ele aparecia ela mandava-me abaixo,ela agredia-me das formas que podia para me levar a lágrimas e conseguiu, mas eu via, eu via no seu olhar que aquilo tudo era raiva d o tal rapaz. Escondi o sentimento o melhor que pude, camuflado entre o desgosto de saber que o seu sorriso desvanecia quando o via mas nunca a compreendi bem... Com tudo isto porque é que nunca me falou? Nem que fosse ás escondidas para ninguém saber. Tudo isto continuou até ao dia em me vi prisioneira de uma transformação.

Eu não me esqueci do seu cheiro, não me esqueci do seu andar altivo a percorrer os corredores quando todos a deixavam passar sem abrir a boca, não me esqueci da sua voz quando cantava ou até mesmo quando me gritava, não esqueço o doce olhar que me presenteava quando mais ninguém estava á nossa volta com o timido sorriso, palavras não eram necessárias.
Quando toda a minha vida se virou de pernas para o ar e soube que iria ter de conviver com ela todos os dias da minha vida o meu coração parou e desmaiei. O meu coração palpita fortemente quando a vejo mas o ódio também sinto. Tenho o Ying e o Yang, o lado que contém o coração que carrega todos os sentimentos escondidos, e o lado que sente a dor, sente a tristeza e melancolia quando todos esses sentimentos foram maltratados pela mesma pessoa pela qual o coração chama. Aprendi que o amor tem os seus altos e baixos, que o amor tem a sua dose de tortura.

Noites inteiras eu passei a chorar por causa dela, e agora choro de novo.
Noites e noites sem fim na ânsia de sentir aqueles braços que tanto me dariam o abrigo que tanto preciso,na ânsia de ver o seu terno sorriso que me faria acreditar na maior das loucuras se mo pedisse e agora... Agora tenho de me contentar com as memórias.

Lembro-me da primeira noite que passei a seu lado. A noite em que finalmente senti os seus braços em torno do meu corpo, o seu aconchego perto de mim, o seu carinho, o seu coração a bater fortemente. Não á palavras que consigam descrever o quão bem eu me senti do seu lado, não existem palavras que possam explicar o quão marcante foi aquele momento tal como todas as suas acções depois do mesmo ter acontecido.

As palavras para descrever os acontecimentos existem apenas não existem para demonstrar o quão bem tudo isto pode fazer a uma pessoa, o quão bem sabem as noites do seu lado, o quão maravilhada fica uma pessoa quando sente que o mundo naquele segundo em que te toca pára.
Eu poderia imaginar mil e um cenários para a nossa vida. Eu poderia imaginar todas as conversas possíveis e inimagináveis que poderíamos ter quanto a pequenos detalhes na casa como a uma discussão sem jeito algum sobre o saco do pão deixado aberto em que no final iríamos cair em gargalhadas nos braços uma da outra, afinal qual é o amor que não possui estas argumentações?

Podia escrever páginas brancas sem fim até ao final da minha vida que nunca seria o suficiente para demonstrar o quão forte é o sentimento que sentimos quando nos apaixonamos por aquela tal pessoa. Podia escrever livros e livros cheios de histórias como os contos de fadas com príncipes e princesas, com cavaleiros de armadura reluzente que enfrentam temíveis dragões cuspidores de fogo para salvar a sua princesa que mesmo assim não seria o bastante para demonstrar o quão grande é a minha força para enfrentar os perigos do mundo que te ameaçassem. O quão grande é a força que me envolve e preenche quando se trata de ti.
Toda a minha força falhou neste preciso momento.

Não me importo com as roupas ensaguentadas, não me importo com as pessoas que começam a circundar-nos para te ver sem vida, não me importo que vejam as lágrimas que caiem dos meus olhos tao fortemente, tão pesadamente.
Não sinto o batimento cardíaco, não sinto a respiração, não sinto o corpo quente que tanto me embalou, não sinto nada.
Título: Re: Algum escritor por aqui?
Enviado por: miúda esquisita em 11.set.2012, 16:50:07
Eu sou escritora par
a vários g+eneros:
contos, poesias e até crónicas eu já escrevi...
Já pensei até em publicar...
Talvez um dia
Título: Re: Algum escritor por aqui?
Enviado por: ilikemiguel em 11.set.2012, 22:34:16
Gosto de escrever. Pequenos textos. Por vezes alguma poesia.
Como muitos de vós, já pensei em escrever um livro, algo a sério. E parece-me uma bela ideia. Tenho um conceito em mente que poderia desenvolver, mas ainda não tenho a certeza como será a melhor forma.
Publico algumas coisas no meu tumblr.
O link está ali ao lado :P
<------
no tag "Diary", abaixo da foto.
Título: Re: Algum escritor por aqui?
Enviado por: doorbell em 12.set.2012, 23:11:00
Eu adoro escrever: gosto particularmente de escrever poemas e ensaios, mas histórias a nível literário não muito. Tenho também uma criação minha que venho a desenvolver desde os meus 10 anos e que passa por um mundo imaginário, e só deste mundo tenho mais de 600 documentos em papel e em computador, mas é uma criação que passa por textos, mapas, imagens, culturas, países, etc. tudo a um nível mais factual e informativo do que literário.

 :o 6oo!
 parece ser muito interessante!  :)
Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: Spektrum em 27.set.2012, 15:43:35
Fosse eu quem tu amavas

Quanto menos queria um fim,
Mais rápido acabavas.
E era, amor, assim,
Devagar que me deixavas.
E fosse dor o que sentia
Pois ódio já não o podia.

Só tu nos dias perduravas,
Todo o resto com a brisa ia.
Fosse eu quem tu amavas
E "meu amor" não morreria.

E as promessas um dia feitas
São agora vaga esperança,
Que me alimentam a alma desfeita
Ansiando por bonança.

Maio de 2011,
Spektrum
Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: sadyworld em 27.set.2012, 15:53:56
 :o

Tens muito jeito gostei  ;D apesar de ser um pouco triste  :-\
Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: xXxPePexXx em 29.set.2012, 14:11:02
"Hoje foi um dia diferente...
foi um dia de chuva...

Deitei me a pensar no passado
e chorei no silencio do meu quarto,
não gritei nada ao mundo...
apenas me confortei nos cobertores
e esperei que tudo acabasse quando adormecesse,
não correu tão bem como esperava...
caminhei pela rua no percursos que faço todos os dias,
tudo a minha volta parecia um pouco mais cinzento...
um pouco mais tristonho...
Voltei a chorar em silencio
quando os rostos desconhecidos me analisavam,
e se perguntavam porque carrego um ar tão triste
quando sozinho caminho...
Não soube responder...
Depressa esbocei um sorriso rasgado
e continuei a disfarçar as magoas,
essas feridas que nunca fecharam
e que doem mesmo depois de tanto tempo,
mudei bastante sem duvida...
mas tudo o resto persiste!
não me consigo livrar desses demónios que me corroem o ser...
Lembro me vagamente de um momento passado
em que todos os dias sorria dia e noite...
não sei o que aconteceu entretanto,
fechei me a sete chaves dentro de mim
e simplesmente me esqueci!
Esqueci me de ser feliz,
esqueci me que tenho amigos que me amam,
esqueci me que nem tudo foram lágrimas,
esqueci me de sorrir mais vezes...
Esqueci me de mim!
A troco de nada...
a troco de uma culpa que não me pertence inteiramente
mas que não nego...
engoli em seco tanto pó do passado...
deixei que se aproveitassem daquilo que posso dar sem nada receber...
Cansei me...
até lá vivo um dia de cada vez...
cá vou vivendo entre os meus desabafos
entre ruas e ruelas de Lisboa
onde me perco em pensamentos.

Hoje choveu...
talvez seja isso...
foi somente um dia menos bom...
apenas mais um dia de chuva..."

by xxxpepexxx, in http://cornerofmyownmind.blogspot.pt (http://cornerofmyownmind.blogspot.pt)
Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: Anita22 em 02.out.2012, 00:00:38
Escrevi isto numa aula de Frances no secundário, há para aí 4 anos, foi uma brincadeira. Decidi postar aqui, mas desde já peço desculpas por alguma impressão que possa dar de preconceitos. Foi há muito tempo e escrevi o texto out of boredom na aula, não mudei nada desde então. Bem, aqui vai. «
     A Perda de Identidade dos Croissants

   Este texto veio a propósito de uma aula de Francês. Ora, com o espírito francófono com que estava na altura, e por causa da palavra «croire», que alguém escreveu no quadro, lembrei-me da palavra «croissant», sabem, aquele bolo tipicamente francês, que se pode comer recheado das mais variadas coisas, creme, doce de ovos, chocolate, queijo, fiambre…
   Bom, o que aconteceu foi que, ao lembrar-me dessa palavra, pensei que talvez estivesse associada com a palavra «croissance» (crescimento). Para confirmar, perguntei à professora, que me respondeu que os croissants se chamavam assim devido à sua forma de quarto-crescente de lua. E foi aí que constatei que algo de verdadeiramente grave se passava com estes bolos.
   Se o croissant é, supostamente, em forma de quarto-crescente, porque é que em Portugal andam a fazer croissants direitos? Quero dizer, mais estreitos nas pontas do que no meio, mas e então o que aconteceu à forma de quarto-crescente? O que pensarão os franceses que vierem a Portugal quando pedirem o belo do croissant quentinho com chocolate derretido e lhes aparecer uma coisa à frente, que não é aquilo que eles inventaram? “Qu’est-ce que c’est ça?!”, perguntarão eles.
   Talvez a resposta a esta questão deveras intrigante esteja no facto de os portugueses gostarem de… Digamos, tornar os ditos bolos em algo mais original, e aportuguesado. Mas ao mesmo tempo, o bolo é FRANCÊS! Por amor de Deus, não percebem que assim toda a gente vai pensar que essa história de cruzar croissants puros com pães-de-leite nunca podia dar bom resultado? Nascem desses cruzamentos bolos híbridos que as pessoas chamam de croissants mas que, afinal de contas, não o são, porque não têm a forma que deviam ter, tendo apenas o meio mais largo que as pontas. E a forma de quarto-crescente? Será que não compreendem que, com isto, passaremos a ter bolos sem peddigree, que perdem a identidade dia após dia? Será que isso, também, se deve à globalização? Talvez os americanos tenham sido os pioneiros desta ideia dos cruzamentos de croissants puros com pães-de-leite, com a sua estúpida mania de que são os maiores e os mais inteligentes, e que querem mandar no mundo e que querem inventar coisas originais quando eles, também, são criaturas sem pedigree, têm uma não-cultura e uma não-história que faz as rapariguinhas idolatrarem a Barbie e quererem ser todas iguais… Talvez isso tenha influenciado os portugueses que, por vezes, também não conseguem perceber que o que quer que venha dos americanos nunca pode ser bom.
   Bem, a verdade é que este é um caso deveras interessante e digno de uma investigação aprofundada. Há que descobrir de onde veio a ideia dos cruzamentos entre croissants e pães-de-leite que está a fazer com que os pobres dos bolos franceses percam toda a sua identidade, o seu estatuto! Há que fazer campanhas de sensibilização, não comam croissants sem pedigree! Digam NÃO aos bolos híbridos! Porque o croissant é um crescente, não uma coisa a que nem sei dar nome.
   E assim termino com a seguinte pergunta: será só aos croissants que os americanos andam a roubar a identidade? Para melhor perceberem esta pergunta, não percam a próxima crónica sobre o McDonald’s.


Título: Re: Escritores e Poetas da rede
Enviado por: miguel0258 em 17.out.2012, 08:37:55
Algo escrito há três anos. Enviei juntamente com outro conto, intitulado A História do Velho Entristecido com a Vida, para o Correntes d'Escritas de 2010 e acabei por vencer o grande prémio! com esse segundo conto, que hei-de pôr aqui
Por ora, vai este:

O Banco de Jardim Mais Bonito do Mundo

Estava sentado no banco de jardim mais bonito do mundo. Desenhava esboços de penas arrumadas numa caixa preta, enquanto imaginava cornucópias com os olhos. Sentia a relva ondulante a roçar nas suas pernas nuas, naquela tarde de sol. As penas já se soltavam da caixa escura e espreitavam pelas folhas de papel. Havia umas nuvens que suspiravam, pequeníssimas, outras enormes que, calmas, miravam os transeuntes com olhos semi-abertos. Ele continuava a desenhar, lentamente, como se o mundo andasse imensamente devagar e a tarde não fosse acabar tão cedo. As penas já se debruçavam na caixa tentando chegar à superfície de papel sem se magoarem. Um sopro mais forte do vento levantou algumas folhas acastanhadas e fê-lo tremer um pouco.

Desenhas, perguntou uma voz adocicada por detrás dele. Desenho, respondeu ele, calmamente, fechando levemente os olhos e deixando-se envolver pelos braços do recém-chegado. Pousou o lápis suavemente a prender as penas desenhadas para estas não abandonarem a caixa que lhes servia de casa e que tanto trabalho lhe dera para desenhar. O rapaz sentou-se ao seu lado e olhou fixamente nos seus olhos. Voaram mais umas folhas, duas ou três, sem fazer barulho, para não acordar o pó. Um leve sorriso esboçou-se na face do rapaz e as pupilas dos olhos baixaram dois milímetros para fitar a sua boca. Ele não retribuiu o sorriso, antes entreabriu-a muito pouco e muito devagar, voltando a fechá-la, enquanto os seus olhos continuavam a fitar o rapaz. Deram as mãos, deixando-se sentir um ao outro, todos os poros, toda a suavidade da pele e as vontades dos dedos. As nuvens enormes começavam a descer, tentando alcançar as suas irmãs suspirantes, que começavam a correr e a brincar umas com as outras. Olhavam-se os dois intensamente e o mundo não existia e o mundo nunca existiu. Era uma vez uma partícula de pó que veio à superfície.

Que desenhas, perguntou o rapaz. A partícula minúscula de pó viajava pelas milhares que povoavam o ar invisível e não descansaria enquanto não chegasse ao seu destino. Penas, respondeu ele, e uma caixa negra. A sua viagem terminaria em instantes. Só tenho pena que as penas não gostem da caixa, continuou. O ponto branco agarrou-se à pele das mãos dos dois, sem saber a quem pertencia. Vês, disse ele, apontando para o desenho, elas querem sair. E vais deixar, perguntou o rapaz. Estou a pensar, baixou os olhos, mas talvez não. A mão do rapaz mexeu-se e a partícula de pó, assustada, fugiu. Ele sentiu o toque no pescoço, um toque fugaz mas perpétuo. Não tenhas medo, sussurrou o rapaz.

Não terei. O medo que se sirva de pedaços carnais, mas nunca de espíritos tais. O medo que se assuste com o ar, mas de mim não levará mais. Não terei medo, que em mim ele não entra nunca. E teu toque faz-me perder-me na imensidão do nada, como se um deserto branco fosse. Teu suave toque são nuvens de palavras que não precisam de ser ditas, eu ainda aqui estou, teu. Não tenho medo nunca, apenas por ti e só se o quiseres, pois perguntar-to-ei. E se houver vozes audíveis que nos censurem, calá-las-ei com um olhar fugitivo, de quem fica para lutar, de quem foge para morrer. Não direi nada antes, não quero que a terra se desfaça por baixo de mim, ainda que estarei colado ao céu, na altura certa. Não sei se o céu se prende na terra, pelo que não tomarei riscos. Eu ainda aqui estou, teu. Meus pensamentos são teu toque. A minha mão ainda está grudada à tua e não a tirarei até que o peças. Mesmo que queiras e não o digas, não te deixo nunca. Somos dois e um. Somos nós. Somos a corda apertada. Somos os nós de nós.
Uma borboleta cruzou o vento com garras de leão e bateu as suas asas com a força de um guerreiro, enquanto os dois se continuavam olhando fixamente. As mãos ainda agarradas uma à outra, os olhos abraçados uns aos outros. Os tufos de relva continuavam a dançar em volta das pernas nuas dele, sorrindo e gritando alegres as músicas que o vento transportava. O rapaz inspirou e expirou lentamente, sem remover o olhar dele. Uns pássaros piavam perto, uma doce melodia que encantava o ar e ele não se mexia. Sussurros ouviam-se longe, sons longos e musicais que ondulavam pelas árvores, ora nadando mais perto dos ouvidos dos dois, ora afastando-se graciosamente. O rapaz aproximou-se dele lentamente, piscou os olhos uma vez, sentiu um sopro de brisa acariciar-lhe o rosto e respirou o ambiente. Apertou com um pouco mais de força a mão dele.

Não te esqueças das penas, disse o rapaz. Não me esquecerei, respondeu ele, ainda estou a pensar se as deixo seguir o seu caminho ou se as prendo na bela casa que desenhei com cuidado. Não te esqueças de respirar, disse o rapaz. Não me esquecerei, respondeu ele, como me poderia esquecer, se sem este maravilhoso ar, os meus desenhos soltam-se-me das mãos, como fumo, olhou para o rapaz, ele. Fechou a boca lentamente e os olhos continuavam agarrados aos do rapaz, como se fossem uma corda para o berço do conforto. As penas gemeram poucos segundos, tentando soltar-se do lápis que as apertava. Se pudessem, chorariam. Pequenas lágrimas doces, lágrimas brancas, não gritariam, que as penas são sensíveis e morreriam antes de abrir a boca. O rapaz aproximou a cara vagarosamente, sem querer perturbar o tempo, deixou-se respirar uma golfada de ar purificado pelos sopros da ventania. Fechou os olhos. Encurtou a distância dele. Apertou mais as mãos. Sussurrou-lhe, fica comigo.

Liberta-me. Canta as palavras dóceis e faz-me teu sempre, sem destinos cruéis. Fico contigo hoje e amanhã, amanhã e para sempre, que de mim, nada mais há que se não tu. Liberta-me da escuridão e deixa-me limpo de rastos. A terra que fique para trás, somos nós. Somos tanto e tão pouco, que o nada é tudo e tudo não existe. A pele das mãos ficará ferida, mas tratá-la-ei com o teu olhar e o teu sopro. Nada mais há, não eu, mas tu. Estamos ambos aqui e ficarei feliz se o dia não acabar, que por mim ficará aqui sempre e sempre e sempre e sempre. Respira palavras dentro de mim, eu sou teu, nunca de ninguém, apenas teu. Envolve-me no manto de teus braços e deixa-me chorar, que sabe-me bem sentir que não te esqueço nem desapareço. Sabe bem sentir que estou entrelaçado em teus dedos e que poderei ser a solução para teus medos.

Um sorriso soltou-se da boca dele, um pequeno e íntimo sorriso, perceptível apenas para quem olhasse nos olhos e não nos lábios. O rapaz retribuiu, enquanto roçava seus dedos pela mão dele. Deixaram-se aproximar um pouco mais, os finos fios de cabelo abraçando-se e dançando. O dia durava eternamente. Os teus olhos não me deixam, perguntou ele. Não, respondeu o rapaz, não te deixam, porque não os deixo. É bom saber. Por isso to disse, sorriu o rapaz, suavemente. Sabiam ambos que ia durar para sempre, sabiam ambos que não era um sonho, que não era fantasia, que era a mais pura das realidades e que ia durar toda a eternidade. A nossa dança é a mais bonita do mundo, disse ele. Que dança, perguntou o rapaz. A dança que dançamos com os olhos, coreografada pelas nossas mãos, a dança em que te aproximas lentamente e os nossos cabelos cantam, a dança em que as penas se soltam da caixa, respondeu ele, deixando cair o lápis de cima da folha de papel. Houve