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Fundamentalismo Islâmico vs. Fundamentalismo Democrático

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Filipa_83:
Fundamentalismo democrático?
 
 Calma aí... O que pode haver é um fundamentalismo americano, que tem a ver com a própria matriz com que os EUA foram fundados e que subsiste até hoje, um messianismo que promove a América como a boa nova e como o modelo a exportar para o resto do mundo. O caso do W. Bush é o de um ignorante de boas famílias que quando foi dubiamente eleito em 2000 tinha saído do seu país apenas duas vezes, e em redor do qual se deu a convergência do cristianismo evangélico (este sim, fundamentalista, que acredita que o povo americano foi escolhido por Deus) e dos neoconservadores, que se ocupam sobretudo da política externa e pensam ser possível concretizar o modelo norte-americano no resto do mundo. Há uma visão apocalíptica do mundo, de inimigos e ameaças a ser eliminadas pelos bons, sobretudo se esses inimigos estiverem sentados em cima do petróleo que a economia americana tanto necessita.

 Mas falar de fundamentalismo democrático parece-me abusado. Nós, ocidentais democratas, somos tão pouco fundamentalistas que andamos sempre a pregar a nós próprios a necessidade de compreender as razões do fundamentalismo islâmico, o que é absolutamente espantoso (quando o inverso, já se sabe, não acontece). Somos tão pouco fundamentalistas que convivemos permanentemente com o complexo do colonialismo europeu. Somos tão pouco fundamentalistas que até concebemos um conceito chamado relativismo cultural.

Joplin:
Pois é, compreendo que até aches abusado, mas é verdade porque quem manda no mundo ocidental é a América e não podemos esquecer que varios países europeus apoiaram a guerra contra o Iraque Portugal incluido, felizmente as tropas já voltaram, mas por exemplo ingleses inda estão lá.. são dois fundamentalismos um contra o outro e chega a tal ponto que se torna um amaeaça mundial, ainda ontem fez 2 anos que centenas de pessoas morreram em Espanha por causa de tudo isto.. o fundamentalismo islâmico é religioso e o democrático usa a religião pra se fazer de bem feitor, mas so quer saber de dinheiro e de petróleo e o resto não interessa nada.. são os dois igualmente maus no meu ponto de vista..

EYre:

Por acaso não concordo nada contigo, Filipa_83. Porque os mesmos que conceberam o conceito de relativismo cultural também conceberam o politicamente correcto das nossas democracias que se calhar não é senão um instrumento de outro tipo de fundamentalismos.

Em todo o caso falou-se, aquando do início da crise dos cartoons, se a defesa intransigente da liberdade de imprensa não era também uma forma de fundamentalismo, do chamado fundamentalismo democrático do ocidente. :P

Outra questão é a forma de fazer política do senhor Bush e aí penso que sim, tem toques fundamentalista. Basta que ele se veja como no comendo do mundo conta o eixo do mal (expressão horrorosamente fundamentalista). Mas não é só o senhor Bush: Tony Blair tb ele disse que era dEUS quem iria julgar a guerra do Iraque. :P

O puritanismo da sociedade americana é fundamentalismo. Não sei se é democrático (é, pelo menos, interno a uma democracia), religioso ou simplesmente moral.

Quando ao fundamentalimo islâmico, acho que seria salutar que o islão fizesse uma reflexão interna sobre si próprio. Acho que tem que partir de uma reflexão interna qualquer mudança e não por afrontação.

Joplin:
Como é que achas que o Islão era capaz de fazer uma reflexão sobre si próprio? não me parece nada que isso seja viável.. é a mesma coisa que pedir ao Bush para reflectir sobre o seu fundamentalismo.. achas possível? a religião comanda tudo naqueles países e sendo a religião fundamentalista e dogmática eles nunca a poriam em causa n achas?

Filipa_83:

--- Citação de: EYre em 12 de Março de 2006 ---
Por acaso não concordo nada contigo, Filipa_83. Porque os mesmos que conceberam o conceito de relativismo cultural também conceberam o politicamente correcto das nossas democracias que se calhar não é senão um instrumento de outro tipo de fundamentalismos.


--- Fim de Citação ---

 
   EYre, não percebo bem o que queres dizer com isto. Explica-me melhor, por favor :)

 
   Acho que estamos a fazer uma certa confusão com os termos.
   É que "fundamentalismo" tem a ver exclusivamente com a questão religiosa. Fundamentalismo é a defesa dos princípios ortodoxos de uma religião, tidos como verdades absolutas. Portanto, o fundamentalista é aquele interpreta literalmente os textos sagrados, sejam os cristãos ou os islâmicos, o que faz com que renegue por completo os valores e conquistas da modernidade.
   Não estou a ver, por isso, que sentido faz a expressão "fundamentalismo democrático", visto que, para além de assumirem uma separação Estado / confissões religiosas, as democracias são sociedades modernizadas (liberalismo, individualismo, conforto, lazer, consumismo, materialismo, emancipação feminina, etc).

  No caso das caricaturas de Maomé, e algumas bem tinham piada, se a defesa intransigente da liberdade de expressão é, não fundamentalista, mas fanática e radical (penso que é isto que querem dizer no título deste tópico), então eu declaro-me uma democrata fanática até à quinta casa. Não sou a favor de uma cruzada contra o mundo islâmico no sentido de lhes impôr a liberdade de expressão nos países deles, mas quero poder fazer uso dela na sociedade em que eu vivo.

  Quando dizes, EYre, que para resolver o problema do fundamentalismo islâmico que tem levado ao radicalismo fanático (=terrorismo) o Islão deveria uma reflexão sobre si próprio, penso que sabes que isso é uma impossibilidade. O grosso das sociedades islâmicas são dominadas ou manipuladas por grupos fundamentalistas. E os grupos fundamentalistas querem manter a lei corânica, a Sharia, onde ela está implementada (no Irão, na Arábia Saudita, estava no Afeganistão taliban) e impô-la no resto do mundo islâmico (Hamas em Israel, Hezbollah no Líbano, Irmandade Muçulmana no Egipto, Osama Bin Laden com o seu sonho de um califado único). Ora o fundamentalismo não tolera o criticismo e a Sharia não permite a liberdade de pensamento e expressão.
  "Discussão interna" é o que pode ser feito nas sociedades democráticas (p.e., a propósito de porque é que o jornal dinamarquês publicou os cartoons de Maomé quando se recusou a publicar os cartoons de Cristo), mas porque temos liberdade de expressão. Eles não podem, nós podemos.


  Diferente da causa da liberdade de expressão nas democracias ocidentais é a especificidade dos EUA no seu papel de "líder do mundo livre". E eu não aceito que juntem as coisas e lhe decidam dar o nome de "fundamentalismo democrático", volta e meia cá estamos nós de novo a condenar-nos a nós próprios, nós ocidentais, oh, somos sempre uns desnaturados com esta coisa da liberdade, em vez de caricaturarmos Maomé devíamos era ajudar o Islão bonzinho e pacífico a sair debaixo da cama. Não obrigada...

  Há fundamentalismo, sim, nos EUA. Os grupos cristãos evangélicos americanos, opositores de tudo quanto sejam modos de vida não condizentes com a interpretação literal da Bíblia, têm desde há muito tempo grande influência sobretudo na política doméstica americana (a Lei Seca dos anos 20 é só um exemplo), e têm-na certamente na dentro da Administração Bush Jr. No entanto, eu penso que a actuação dos Estados Unidos fora das suas fronteiras vai muito para além da influência desses grupos cristãos. O americanismo tem uma raíz religiosa peculiar (e aqui é que se aplica bem a expressão "judaico-cristianismo"), mas eu não lhe chamaria "fundamentalismo".

   Agora só por curiosidade, que moda é esta de trocar as letras maiúsculas?
   dEUS, dEus, que diabo aconteceu ao bom e velho Deus?

  :)

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