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Pais - Reacções e Perguntas Comuns

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Planta xerófila:
38. É verdade que quando a criança mostra uma tendência para ser homossexual, se os pais reprimirem, chamando a atenção ou mesmo batendo na criança, com o tempo esta tendência desaparecerá?

Não é verdade. Esta criança sofrerá muito e desenvolverá algum tipo de distúrbio psicológico ou psiquiátrico. O reflexo virá na adolescência e na idade adulta. Poderá tornar-se violento e cair na marginalidade.

39. O que devo fazer: se pegar ele namorando, escutar uma conversar ao telefone, pegar uma carta de amor, ou alguém falar para mim que ele é homossexual?

Prepare-se e fale no momento adequado com ele. Siga as orientações da questão de número 23 (Modelo dos 7 Passos).

40. Devo falar sobre sexo seguro e Aids com ele?

Faz parte do seu papel, enquanto pai e mãe, proteger seus filhos e orientá-los com relação às questões sexuais, independente dele ser homossexual ou heterossexual. Fale de forma franca e aberta. Se achar que é um assunto que lhe causa desconforto, compre um livro e entregue para ele, ou encaminhe-o para uma palestra ou ainda peça para alguém de sua confiança abordar o assunto.

41. Será que ele vai afastar-se de mim se eu falar sobre sua homossexualidade?

Se você aceitar sua condição de homossexual acolhendo-o, certamente que não.

42. Meu primeiro filho foi muito esperado por nós. Queríamos muito que fosse uma menina. Todo o enxoval foi cor-de-rosa. Para nossa decepção nasceu um menino. Ele hoje é um jovem gay. Será que este nosso desejo influenciou para que ele fosse gay?

Não. A força de seu desejo certamente não influenciou na orientação sexual que é algo muito concreto e forte que toda pessoa traz consigo.

43. Todo gay é efeminado e toda lésbica é masculinizada?

É um mito muito presente nos debates. Posso afirmar qua a maioria dos gays são pessoas másculas e a maioria das lésbicas são bastante femininas. Existe uma parcela de gays efeminados ou caricatos (que imitam as mulheres) como existe uma parcela de lésbicas masculinizadas e caricatas também. A caricatura foi absorvida pela cultura homossexual como uma forma de descontração para aliviar o estresse emocional. É também a forma que alguns gays encontram para serem aceitos socialmente, já que a própria sociedade e a mídia estimulam este tipo de comportamento. Nesta questão existe também a abordagem da orientação sexual e os hormônios que têm influência no grau de masculinização e feminilização das pessoas. Encontramos gays extremamente femininos (não caricatos) bem como gays extremamente masculinos. O mesmo raciocínio aplica-se para as lésbicas. E encontramos também homem heterossexual efeminado e mulher heterossexual masculinizada. Estes dois últimos padrões são raros. De qualquer forma, devemos aprender a conviver com a diversidade de comportamentos, respeitando a maneira de cada pessoa comportar-se. Imaginem como o mundo seria chato se fossem estabelecidos padrões rígidos de comportamentos e todos tivessem que segui-los ao pé da letra.

44. No colégio minha filha sofre muita discriminação dos colegas por ser lésbica. Como devo orientá-la?

Esteja muito próximo dela e acompanhe de perto o seu desenvolvimento escolar. Converse com os professores e a direção da escola. Possivelmente você terá alguns problemas relacionados com a homofobia (rejeição a homossexualidade), que é bem presente também entre os professores. Apoie sua filha e ensine-a a proteger-se diante das situações concretas que aparecerem. Ganhe a confiança da sua filha e sempre converse com ela sobre o assunto. Não existe uma receita, mas existe um fundamento: Aceite-a e nunca abandone sua filha nestas situações.

45. Devo receber a namorada dela em nossa casa?

Sim, deve. Observe quem é esta pessoa que estar saindo com sua filha. Seu parâmetro de avaliação será sempre: retidão de caráter e honestidade. Sinta esta pessoa e veja se é uma boa ou má companhia para sua filha. Converse sobre este assunto com ela.

46. Ouvir falar que a velhice dos gays é muito triste. Eles ficam sozinho e ninguém mais sente interesse por eles?

O homossexual, assim como o heterossexual, pode ter uma vida afetiva e sexual muito ativa na velhice. Vai depender muito da sua saúde física e mental. É verdade que tanto para o homossexual como para o heterossexual a velhice na nossa sociedade é muito difícil. No caso do gay e da lésbica a situação se agrava por conta do preconceito e do afastamento da família que já ocorreu há muitos anos; ou eles mesmos se afastam da convivência familiar, montando uma rede de amigos que substituirá a família genética. Porém, existe um fenômeno interessante entre os gays que é pouco comum entre as lésbicas e os heterossexuais. Eu, enquanto psicólogo, estou estudando esta questão para melhor entendimento. Existe uma parcela considerável de gays que sentem-se atraídos sexualmente por homens bem mais velhos, os chamados coroas, que estão na faixa dos 40 até 80 anos de idade. Não é raro encontrar jovens gays de 20, 25 ou 32 anos namorando apaixonadamente os coroas. Em São Paulo, na capital, existem bares e boites que possuem um público predominantemente de coroas, onde os casais gays encontram-se para um bom papo regado a chope. A vida dos gays que entram na chamada terceira idade pode ser bem animada.

47. É verdade que o garoto que é criado sem a presença do pai poderá ser gay?

Não é verdade. Não existe relação entre homossexualidade x ausência do pai. Pelo menos é o que indicam as pesquisas. Claro que o menino precisa na primeira infância de uma figura masculina para modelo. Não tendo o pai, ele naturalmente se identificará com alguém do seu convívio; poderá ser o tio, o vizinho, o avô, o porteiro do prédio, etc.

48. O professor de meu filho de 12 anos é gay assumido. Será que ele não pode influenciar o meu filho e ele pode tornar-se gay?

Precisamos entender que as pessoas são gays, não se tornam gays. Se o seu filho tiver a orientação homossexual, mesmo que ainda não explicitada, este professor poderá despertar esta orientação no seu filho, mesmo sem contato físico nenhum com ele. Seu filho pode apaixonar-se pelo professor, o que é comum nesta fase. Mas, se seu filho for heterossexual, portanto gostar de mulher, não existe qualquer possibilidade deste professor gay ter a capacidade de mudar a orientação sexual dele.

49. Do ponto de vista da ciência, o que já se sabe hoje sobre orientação sexual?

Alguns gays, lésbicas e grupos homossexuais organizados apresentam uma certa barreira com relações as questões científicas referentes à homossexualidade, argumentando que estas descobertas podem ser usadas para manipulações de todo tipo contra os homossexuais. Em particular os estudos da biologia e da genética são vistos com reservas por eles. Preferam conclusões mais subjetivas, humanitárias e filosóficas sobre a homossexualidade. É uma posição que deve ser respeitada. Eu, enquanto psicólogo, acredito no pensamento científico e acho que ele pode ser utilizado em benefício do homossexual. Penso que a ciência é um instrumento fundamental para guiar minha atividade profissional. Como estaria hoje a humanidade se não fossem as descobertas científicas? A humanidade já avançou muito na medicina, na informática, na engenharia, etc., melhorando nossa qualidade de vida. Do ponto de vista científico, sabe-se muito pouco ainda sobre a homossexualidade. Um dos motivos é a falta de verba e pesquisa nesta área. E o motivo é simples, o preconceito que existe no próprio meio científico contra o homossexual. As poucas pesquisas realizadas ou que estão em andamento são feitas, na maioria, por cientistas gays. É o caso do renomado cientista Dr. Simon LeVay do Institudo Salk-EUA. Algumas questões já foram evidenciadas e muitas estão sem uma conclusão definitiva ainda. Abaixo relaciono o que já se sabe hoje sobre orientação sexual homossexual. Estas questões foram elencadas por Chandler Burr no livro de sua autoria chamado Criação em Separado - Como a Biologia nos faz Homo ou Hetero.

1. Os biólogos se referem à característica como um dimorfismo estável, expresso através do comportamento. Dimorfismo significa o aparecimento de 2 formas diferentes de uma determinada característica, dentro de um mesmo grupo. Por exemplo, a orientação sexual pode ser heterossexual ou homossexual entre os Seres Humanos. Este fenômeno é um dimorfismo. Ele é estável, ou seja, fixo e permanente ao longo das gerações.

2. Esta característica fixa existe sob forma de duas orientações básicas internas (heterossexual e homossexual), que são invisíveis. Estima-se que mais de 90% da população tem a orientação majoritária (heterossexual) e menos de 10% (um estudo confiável faz o cálculo de 7,89%) tem a orientação minoritária (homossexual), embora ainda haja debates a respeito do percentual exato, não existindo um consenso.

3. Apenas um número reduzido de pessoas (não se sabe quanto) é, de fato, orientado igualmente das duas maneiras (bissexuais).

4. Estudos da história da arte sugerem que a incidência das duas diferentes orientações (heterossexual e homossexual) tem sido constante há cinco milênios.

5. A orientação sexual de uma pessoa não pode ser identificada apenas por meio de uma rápida olhada. As pessoas que têm a orientação homossexual são tão diversas em aparência, raça, religião, e em todas as outras características das que têm a orientação sexual heterossexual.

6. Como a característica é interna e invisível, a única maneira de identificar a orientação sexual de uma pessoa é observar o comportamento dela ou os reflexos que o expressam.

Planta xerófila:
7. Em si mesmo, a característica não é um comportamento. A característica é a orientação sexual neurológica expressa, em certos momentos, através das atitudes das pessoas. Um homossexual pode assumir, quase sempre, um comportamento heterossexual, devido à repressão social. Mas, neurologicamente a característica da sua orientação sexual e homossexual. Esta orientação, depois de fixada neurologicamente, não irá mudar.

8. Nenhuma orientação sexual é doença física ou mental. Nenhuma delas é patológica.

9. Nenhuma orientação sexual é escolhida pelo indivíduo. Ela é fixada independente da sua vontade.

10. Sinais da orientação sexual são detectados na mais tenra infância. Alguns pesquisadores apontam que tanto a orientação sexual heterossexual como a homossexual são fixadas entre 2 ou 3 anos de idade. Há divergências. Outros cientistas defendem a idéia que ela é definida da seguinte forma: uns acham que antes do nascimento, outros acham que aos 2 anos de idade e uma terceira opinião de que é além dos 2 anos, mais tardiamente. Entretanto todos concordam que ocorre até o final da infância.

11. Estudos sobre adoção mostram que a orientação de uma criança adotada não tem relação com a dos pais adotivos, demonstrando que o carácter (características individualizadas de uma pessoa) não é enraizado pelo ambiente.

12. Estudo com gêmeos idênticos (que possuem genes idênticos) apresentam uma possibilidade acima da média de se compartilhar a mesma orientação sexual, comparados com pares de indivíduos selecionados aleatoriamente. Nos gêmeos idênticos a probabilidade de compartilharem a orientação homossexual, por exemplo, é acima de 12% (média mínima) e superior a 50% (média elevada). Enquanto, nos pares aleatórios de indivíduos a média está pouco abaixo de 8%.

13. A incidência da orientação homossexual é espantosamente maior na população masculina; cerca de 27% mais elevada do que na feminina.

14. Pesquisas científicas indicam que a orientação homossexual tem origem nas famílias, é passada de pais para filho num padrão indefinido, mas geneticamente característico.

15. Este padrão resulta do chamado "efeito maternal". A orientação homossexual, como foi expressa nos homens pesquisados pelo Dr. Hamer, parece ser passada pela mãe. Este "efeito maternal" foi descoberto por este cientista geneticista molecular o Dr. Dean Hamer.

Quero deixar claro que os 15 pontos colocados acima são evidências. Não há conclusões ainda. As pesquisas são muito embrionárias.

50. Pai e mãe, vocês permitem que eu deixe uma mensagem, enquanto psicólogo e estudioso do assunto?

Bem, não preocupem-se em demasia na busca da origem da homossexualidade e por que aconteceu com seu filho? Deixem esta tarefa para os cientistas e os estudiosos do assunto. Como escreveu um gay considerado um dos maiores gênios da humanidade chamado Leonardo da Vinci: Nada pode ser encontrado na natureza que não seja parte da ciência. Os cientistas cuidarão disto. Qual a parte que cabe a vocês, pai e mãe?

Primeiro façam um esforço tremendo para despir-se de todos os preconceitos e dogmas que carregam dentro de seus corações e mentes. Relaxem, não levem a "coisa" com muita seriedade e de forma "pesada", tenham senso de humor!

Segundo simplesmente AMEM seu filho gay e sua filha lésbica, pois eles são um prolongamento de vocês. Se vocês negam seus próprios filhos, não aceitando-os por inteiro, vocês estão negando a si próprios enquanto Seres Humanos.

Obrigado pela leitura deste guia e desejo momentos de muitas emoções e felicidades entre vocês e seu filho gay ou sua filha lésbica. Alguma dúvida, depoimento ou sugestão escreva neste meu e-mail jotapedrosa@armariox.com.br que terei a maior satisfação em responder.

Planta xerófila:
mais um textinho q me veio cair no mail ::)

Onde foi que eu errei?
Os pais não deveriam se culpar pela orientação (homo)sexual de seus
filhos
http://mixbrasil.uol.com.br/id/psi/familia/familia.asp

por Sergio Gomes da Silva (sergiogsilva1@bol.com.br) 30/4/2004

A idéia de que se errou na educação de um filho quando da descoberta de sua (homo)sexualidade, é encarada por muitos pais e mães em nossos dias com grande sofrimento.

De um modo ou de outro, os pais continuam acreditando que há um erro de sua parte quando seu filho ou filha "descobre" ser homossexual ou lésbica, gerando, em alguns casos, grandes conflitos, atitudes de violência e ódio para com os seus filhos, ou a busca de procedimentos médicos ou psicoterápicos para a correção do "erro dos pais". Muitos pais dizem preferir ver o filho morto a vê-lo com alguém do mesmo sexo. Questionam-se onde na educação dada aos seus filhos, que ocorreu o "grande erro", como se isto reflectisse o seu próprio como educador, como pai ou mãe, como homem ou como mulher.

Não foi por menos que fui procurado por uma internauta há alguns meses, me solicitando ajuda ou indicação psicoterápica para si e para seus pais, que não aceitavam seu namoro com outra pessoa do mesmo sexo.

Não foi por menos, também, que há mais de cem anos, em um mundo totalmente tomado por uma rígida moral sexual que ditava as normas a serem seguidas e perseguidas, que a mãe de um jovem homossexual
procurou Freud lhe solicitando ajuda para aquilo que nem ela mesma conseguia enunciar ou dar nome. Ao que Freud respondeu:

"Eu apreendo de sua carta que seu filho é um homossexual. Estou muito impressionado pelo fato de que a senhora não mencionou este termo nas
informações que deu sobre ele. Posso perguntar-lhe por que evitou esta palavra? Homossexualidade, seguramente, não é uma vantagem, mas não é nada de que tenhamos que ter vergonha. Não é vício, degradação e não pode ser classificada como uma doença. Consideramos a homossexualidade como uma variação da função sexual, produzida por uma certa parada no desenvolvimento sexual. Muitos indivíduos
altamente respeitáveis, nos tempos antigos e modernos foram homossexuais (Platão, Michelangelo, Leonardo da Vinci etc.). É uma grande injustiça perseguir a homossexualidade como um crime e também uma crueldade. [...] Perguntando-me se posso ajudá-la, a senhora pergunta, suponho, se posso abolir a homossexualidade substituindo-a
pela heterossexualidade normal. A resposta é: de maneira geral, não podemos prometer isto. Em um certo número de casos, somos bem sucedidos, desenvolvendo os germes das tendências heterossexuais que estão presentes em todo homossexual. Na maioria dos casos isto não é
possível. [...] O que a análise pode fazer por seu filho, caminha na linha diferente. Se ele é infeliz, neurótico, dilacerado por conflitos, inibido em sua vida social, a análise pode trazer-lhe harmonia, paz de espírito, plena eficiência, quer ele permaneça homossexual ou mude".

Como se pode ver, não é de hoje que pais e mães se perguntam onde foi que erraram. Do mesmo modo, não é de hoje que, apesar de bem mais aceita do que há cem anos, a homossexualidade ainda torna-se alvo de queixas para muitos jovens e adultos.

Ninguém vem ao consultório queixando-se de "heterossexualismo".
Ninguém procura o analista porque se descobriu gostando de uma pessoa do sexo oposto. A homossexualidade só se torna queixa, porque a
sociedade em que vivemos transformou a vida de pessoas com esta determinada característica desejante em um verdadeiro inferno.
Baseado no amor romântico do século XVIII, que tinha no casal heterossexual a única possibilidade de vida familiar, e pautada conseqüentemente na idéia de família e de parentalidade ou filiação, transformamos o desejo homossexual em queixa e sintoma. Aliás, a
queixa até pode ser por conta do sentimento para com o outro do mesmo sexo, mas somos nós, sociedade, que aprendeu a aceitar menos as escolhas afetivas e sexuais do outro, que infringimos no sujeito todo
o sofrimento psíquico em se conviver com a marca patogênica que se tornou comum associar a chamada homossexualidade.

Conforme diz o psicanalista Jurandir Freire Costa, em seu livro "A inocência e o vício", a linguagem amorosa em nossa cultura desde sempre foi essencialmente a linguagem do amor romântico, desde o primeiro flerte até o berçário. Nunca fomos capazes de associar a
figura do casal romântico a dois jovens do mesmo sexo; a única imagem que construímos em torno do casal gay foi a imagem da degenerescência, da promiscuidade, da sexualidade fútil e descartável, da doença, após o advento da Aids, ou da jocosa figura
do gay ou lésbica típicos cujo estereótipo faz com que os pais mais uma vez se perguntem onde foi que erraram, e os jovens gays e lésbicas permaneçam desamparados sem terem referências na construção
de sua sexualidade.

Sem modelos tais como os do casal hetero (como a adolescente que leva seu namorado para conhecer seus pais, ou o reforço da família no namoro do filho adolescente), buscam no mundo das aparências as
únicas referências na construção de suas subjetividades.

Não é a toa que dos leigos aos analistas menos desavisados, fazem que a regra da identificação sexual gerada no imaginário social da exclusão, seja justamente a de um determinado traço da personalidade ou de uma estrutura psíquica. Neste caso, prefiro mais uma vez, o argumento do psicanalista Jurandir Freire: o que é estrutura psíquica
da homossexualidade pode muito bem ser compreendida como resposta psíquica ou estratégia defensiva daquele diante das injunções morais desqualificantes, produzidas pelo preconceito e pela discriminação, ideários hegemônicos da intolerância e da violência.

Da vida cotidiana aos programas de TV, o adolescente gay ou lésbica não encontram modelos onde se espelhar, e quando encontram, vem de forma caricaturada pela mídia veiculada em novelas, programas de auditório ou humorísticos de televisão, tais como os programas Casseta e Planeta e Zorra Total exibidos pela Rede Globo de Televisão. Este último, apenas a título de ilustração, tem nos
personagens de Jorge Dória e Lúcio Mauro Filho, a perfeita encarnação da imagem do "gay típico" consumida e satirizada ao enfaro nas noites de sábado. Um personagem caricato, efeminado, explicitamente sexualizado e afetado, leva o pai às raias da loucura e da vergonha, fazendo com que este sempre se questione onde foi que errou.

Para indivíduos que procuram ajuda profissional, de norte a sul do país, o que podemos fazer enquanto profissional psi no Brasil é, por um lado, nos engajar na busca da diminuição do preconceito e da discriminação entre os nossos pares, e de outro, fazer com que a família e o paciente aprenda a crer que no campo da sexualidade, a anormalidade não é predicativa das relações homoeróticas.

É preciso um esforço, para aprender a ser sujeito neste mundo, porque é possível se viver no mundo como um sujeito que ainda não encontrou espaço para viver sua sexualidade do modo tão comum como é vivida a afetividade e a sexualidade heterossexuais.

E ser sujeito neste mundo é muito oneroso, para alguns. Ser sujeito é amar, odiar, ter medo, sofrer com a morte dos nossos entes queridos, é fazer amigos, e também perdê-los, é perder noites de sono pela prova na faculdade que obteve nota baixa, é perder horas no trânsito, receber broncas do chefe e ainda ter que produzir muito para ganhar um salário no fim do mês, é pagar contas, é chorar diante das impossibilidades de nossos sonhos, é realizar ou não nossos ideais de
eu, é apaixonar-se e perder a quem se ama, é fazer sexo e ter com quem dividir o espaço na mesma cama, mas também é sentir esse espaço vazio em noites solitárias e frias de outono ou inverno, e mais um
sem fim de exemplos que se arrastariam por aqui, que faz parte da constituição de nossas subjetividades. Aprender a amar e fazer sexo com quem se ama, por exemplo, é apenas uma pequena parte da constituição de nossas subjetividades. Daí o fato de escolhermos uma mulher ou homem como nosso objeto de amor, é escolha erótica de cada um. Portanto, os pais não deveriam se sentir culpados diante da escolha e do desejo do filho, pois eles já fizeram a escolha deles.
Ensinar-lhes a ser um ser humano ético, ter caráter, dignidade e respeito pela pessoa humana, vale muito mais do que julgá-los pela escolha afetiva e sexual que fizeram. Do mesmo modo, é assim que o adolescente ou adulto em nossa sociedade deveria se situar no mundo.
No caso da adolescência, vale um comentário a mais: se nada em nossa natureza é fixo e imutável, muito menos o é na adolescência, onde estamos no ponto de maturação para aprendermos a ser adultos dignos.

Portanto, essa é a nossa tarefa enquanto profissional psi: ajudar o nosso paciente a aprender a se situar no mundo, a aceitar as contingências de sua própria vida e conviver com a descoberta fervilhante de suas pulsões sexuais, visto que, no campo da sexualidade, somos sempre grandes aprendizes da inefável natureza humana.


P.S.: Vale a pena, para pais e mães de gays e lésbicas, lerem o livro "Agora que você já sabe", lançado há alguns anos, e que se presta bem a essa questão.

Sergio Gomes da Silva é Psicólogo Clínico, e Especialista em Sexualidade Humana e Direitos Humanos.

Phoenix:
ADOLESCENTES GAYS - COMO AS MÃES ESTÃO ENCARANDO A QUESTÃO
por Regina Valadares

- Ninguém quer ter um filho ou uma filha homossexual. Por mais esclarecidos que sejam os pais, a notícia cai sempre como uma bomba. Desperta culpa, suscita raiva, vergonha, tristeza..."Não queria ter uma filha gay", diz Loreta*, 49 anos, arquiteta. Há cinco anos, quando Renata*, 19, chamou-a no quarto para conversar e contou que era lésbica, ela caiu no choro."Tudo que consegui dizer foi:'Eu queria que você casasse e me desse netos!' "Levou três meses para parar de chorar e mais um ano até entender que não era culpa  dela."Ficava me torturando:'Será que foi a minha separação? Será que fui superprotetora? Onde foi que errei?'"
A reação de Loreta é comum. Segundo a psicóloga carioca Adriana Nunan, autora de Homossexualidade: do Preconceito aos Padrões de Consumo, os pais geralmente acham que fizeram alguma coisa errada e que, por culpa deles, o filho ou filha optou por esse caminho. "Mas não é algo que se escolhe ou que pode ser ensinado", afirma Adriana. "A idéia de que uma mãe dominadora e um pai ausente geraram a homossexualidade do filho é baseada em teorias antigas que já foram 'desconfirmadas'. Se fosse assim, após períodos de guerra, quando os homens se afastam de suas famílias para lutar, veríamos um aumento significativo de homossexualidade. Isso, naturalmente, não ocorre." De qualquer forma, vem o questionamento. O bancário Maurício*, 57 anos, soube há três meses que seu filho mais velho é gay. "Não entendo o que aconteceu. Não foi comigo que ele aprendeu isso. Jogo futebol todo fim de semana, nado, não tenho amantes, sou bem-casado e gosto de fêmeas. Ele não seguiu o meu exemplo." Zeca* tem 17 anos, se assumiu há dois e só agora teve coragem de contar em casa. "Para amenizar, disse que
era bi. Minha mãe começou a chorar e meu pai perdeu a fala. Com certeza não ficaram felizes com a notícia. Mesmo assim, sei que me aceitaram, sinto-os mais próximos de mim", conta. Embora Maurício sofra muito com a novidade, está se esforçando para se conformar. "Não entendo, mas estou resignado", confessa. Há dois anos fiz uma cirurgia cardíaca. Preferia ter morrido a passar por esse problema na família, mas fazer o quê? É melhor do que se ele fosse drogado, né?"
O desespero é tanto que a maioria dos pais, ao receber a notícia, acaba se surpreendendo com a própria reação. "Bati na minha filha até nós duas cairmos no chão, exaustas", conta Sônia*, 47 anos, professora de inglês. Há um ano, sua única filha, Luana, 15, contou que gostava de outra mulher. Foi uma facada no meu coração. Tive que convencer meu marido a não colocá-la para fora de casa e, desde então, eles não se falam. Até hoje não sei o que aconteceu. Se Deus quiser, vai passar, é só moda, uma fase", diz, com o olhar vago de quem já não acredita muito nas próprias palavras. "Não é fase, muito menos doença. E não há nada que se possa fazer a respeito, a não ser ajudá-la a lidar com os preconceitos que terá que enfrentar", comenta Adriana Nunan. Entre eles, brincadeiras grosseiras, olhares incriminadores e até violência física... Há movimentos e ONGs batalhando para que a sociedade olhe com respeito esses cidadãos. Mas, se ser aceito em casa já é difícil, imagine no mundo lá fora... "Tinha calafrios imaginando que poderiam chamar meu filho de bichinha", diz Vânia*, 38 anos, comerciante. Ela tentou de tudo para que ele "largasse mão dessa bobagem" e voltasse a ser homem. "Minha mãe chamou até um exorcista!", conta Danilo*, 17 anos, que saiu do armário há quatro. "Jogou minhas roupas fora e substituiu por outras que achava mais masculinas. Disse que meu problema era não ter encontrado uma moça legal e que ela mesma ia arranjar uma namorada pra mim! Só sossegou quando o psicólogo falou que não era possível me fazer mudar e que, se me amava, tinha que me aceitar como sou." Muitas vezes, a notícia é apenas uma confirmação, pois os pais já intuíam, mesmo que inconscientemente. Nem por isso deixam de tentar convencer o filho de que está enganado. Vânia levou dois anos para aceitar. Não queria que ele sofresse, temia que fosse se meter com gente esquisita, mas conheço seus amigos, são pessoas ótimas, e quem não sofre neste mundo?" Sônia, por sua vez, ainda está tentando. "Não vou me afastar de Luana, eu a amo muito, mas ainda não consegui digerir essa história."
Os pais têm todo o direito de pedir um tempo para acomodar suas emoções, diz Lidia Aratangy, psicóloga de casais e de família. "O filho amadureceu a idéia, pensou o que ia dizer, escolheu o momento, por isso tem que permitir que a mãe e o pai façam o mesmo caminho." Ela enfatiza que, mesmo sem entender, os pais podem acolher se mostrando abertos para ouvir mais do que falar. Edith Lopes Modesto, escritora e fundadora do primeiro grupo de pais de homossexuais pela internet, considera esse o momento em que os filhos mais precisam dos pais. "Paradoxalmente, é quando estes estão menos capacitados a apoiá-los." Ela, que viveu na pele essa experiência, tem certeza de que nada pode ser mais útil do que a verdade. Ajuda, também, parar de buscar a causa e focar na dificuldade de aceitar a diferença. "É outra forma de amar, de ser, de viver a sexualidade", diz Bianca Alfano, coordenadora do departamento de psicologia da ONG Arco-Íris, no Rio de Janeiro, que oferece atendimento psicológico gratuito a toda a população GLBT (gays, lésbicas, bissexuais, travestis e transexuais) e familiares. Porque é extremamente sofrido para o adolescente se perceber diferente. Uma pesquisa americana revela que o índice de suicídio entre jovens gays é três vezes mais alto que entre os heterossexuais. Ao contar em casa, afirma Adriana, a pessoa pretende ser aceita na sua totalidade, isto é, quer parar de fingir ser algo que não é, deseja compartilhar seus sentimentos e idéias abertamente, sem estar constantemente preocupada com a avaliação dos outros. Mais que tudo, esse filho ou filha quer o amor da família. E poder contar com ele é o melhor começo.
*Os nomes foram trocados a pedido dos entrevistados

fonte: http://claudia.abril.com.br/edicoes/532/fechado/familia_filhos/conteudo_110881.shtm

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