rede ex aequo

Olá Visitante28.jul.2021, 05:13:58

Autor Tópico: Escritores e Poetas da rede  (Lida 142146 vezes)

 
Escritores e Poetas da rede
#780

Offline Pat_Porto

  • *
  • Novo Membro
  • Género: Feminino
Para um narrador - e, possivelmente, para qualquer pessoa que visse a cena de fora - aquele desviar do olhar era um sinal claro de que o interesse não era recíproco, no entanto, S. preferiu acreditar na possibilidade da reciprocidade. Talvez tenha tomado demasiada atenção às vozes internas: "Todos/as temos diferentes formas de reagir", "Pode não estar preparada/não ser a altura certa... quantas vezes temos o que é tão certo na altura mais errada?", etc. Demorou a entender o mesmo que o narrador sabe - que é o único que vê o quadro completo para o poder descrever ao detalhe: as figuras não saem do quadro para perceberem todos os tons existentes no mesmo. S. continua a não ver o quadro todo e, hoje em dia, a figura representada com ela naquela acção parece ter-se evadido de todas as novas pinturas onde S. é representada, mas já tem mais elementos introduzidos e entendidos pela passagem do tempo: o tempo traz todas as verdades que as personagens deixaram escapar algures nas suas histórias. Hoje S. sorri da sua ingenuidade - ou da esperança natural no ser humano - enquanto abana a cabeça lentamente e fecha os seus olhos ao lembrar-se desse momento: as peças, as certezas, os tons estavam todos lá e tu não os viste.


(...)


A frase comum "Até à próxima" foi acompanhada de uma última imagem pouco nítida pois o sol apresentava-se por trás de A. obrigando S. a semicerrar os olhos e de um breve sorriso que ainda captou no meio de toda aquela luz. O sol tem voltado várias vezes e a "próxima" de "Até à próxima" era tão hipotética quanto tudo o resto: com uma tendência maior para não acontecer do que para acontecer.


(...)


E é nisto, nesta ausência de sintonia quanto ao sentimento, essencialmente, que se perpetua um bloqueio numa - também ela - hipotética boa amizade, de partilha com bons elementos para ser bem nutrida e com a habitual partilha a que S. se terá acostumado e que terá visto desvanecer-se. J. terá tido razão ao afirmar precoce mas correctamente - com toda a certeza e com um conhecimento que até ao narrador terá escapado na própria altura - que muitas das vezes pensamos que fazemos parte de algo de que já não fazemos e que S. claramente já não fazia parte, fosse de que forma fosse. J. é como as personagens que aparecem durante pouco tempo no palco, deixam um ou outro aviso, ensinam algo importante sobre algo muito maior e com mais significado e saem de cena.


É teu? :-)

    Escritores e Poetas da rede
    #781

    Offline Escoffier

    • *
    • Novo Membro
    • Género: Feminino
    Na vida há momentos em que nos perdemos, ficamos com os olhos presos entre dois caminhos que nos chamam repletos de promessas e facilitismos que sabemos serem irreais e incapazes de serem realizados. Ficamos assim parados… Fico assim parada… O tempo passa e com ele surge a necessidade de tomar uma decisão, pensada ou não, que me faça continuar com o curso normal de uma vida em tudo agora atípica. Avanço…

    Um…
    Dois…
    Três…
    Quatro…

    Conto os passos como fazia em criança no caminho para a escola, nas minhas costas a luz começa a desaparecer e vejo-me envolta por estas paredes frias e feias. Por mais que deseje neste momento já não sou capaz de voltar atrás, já não posso ir para o local em que escolhi deixar-te ficar. Volto-me e já nada vejo… Tu desapareceste como sempre fizeste…

    Vinte e cinco…
    Vinte e seis…

    De ombro junto a parede ouço-te, do outro lado no outro caminho, ouço-nos! Os nossos sorrisos, as nossas promessas, a forma que o meu nome tem quando dito por ti… Paraliso, de mãos na parede procuro ver-nos, estou repleta de pessoas e tu és quem procuro, tu que estás envolto em “e se”. E se não tivesse desistido? E se as tuas antigas promessas fossem reais? E se… E se no fim fossemos felizes?
    Não me afasto da parede, ouço as minhas lágrimas quando voltas a partir o meu coração e os sorrisos quando voltas a fazer com que confie em ti, as pessoas que passam por mim não tem a capacidade de me afastar de nós. De me afastar de vós… Aquela ao teu lado não sou mais eu, aquela é alguém que decidiu lutar contra as dificuldade que se impuseram a um amor que eu achava não ser mais real. Vejo outros caminhos, outras possibilidades de ter alguém, vejo outros futuros, outros sorrisos que não serão teus… Porque não me consigo afastar desta fria, áspera e ensanguentada parede? Porque me empurro contra ela como quem procura uma passagem para uma felicidade perdida? Tropeço e caio, tento aprender a amar de novo, tento ver para além do que me deste, dói cada ferida que o meu corpo carrega. Estas cicatrizes que mesmo longe marcas neste corpo que embora não queira admitir ainda é teu… E se eu conseguir voltar atrás?
    Corro…

    Um…
    Dois…
    Três…
    Quatro…

    O grito arrasta o meu corpo, volto a cair quando todas as forças do tempo me puxam para o meu lugar, para o caminho que afinal fui eu que escolhi. Vejo os sorrisos de quem conheci apagarem-se à medida que me desconhecem, à medida que o tempo se afasta e se desfaz a cada passada que dou. Cada dolorosa e irreal passada! Vejo a luz, ouço a tua voz, vejo-nos juntos de novo. Tento gritar mas ouço o meu adeus, o que te disse quando não foste capaz de me fazer ficar, vejo as lágrimas que derramei e dói ver como me fizeste sofrer.
    “Diz algo… Não fiques simplesmente ai”
    Não falas… Partes… Aqui estou eu no local em que tudo começou, dois caminhos, duas escolhas que me assustam. De joelhos perco a força da decisão que tomei e tu partes… Tu partes sempre faça eu o que fizer… E se quisesses ficar?
    “Existe fatalismo no amor”, sei que te disse isso um dia, “nunca em tempo algum se ama sem se perder, as fasquias são altas quando colocamos a felicidade do outro acima da nossa própria capacidade de viver!”
    Olho os caminhos, levanto-me, recomponho a roupa tão rasgada como o meu metafórico coração. Olhas para mim com confusão… A tua voz chega lenta, suave, perdida…
    “Desculpa”
      Surely all art is the result of one's having been in danger, of having gone through an experience all the way to the end, where no one can go any further.

      Escritores e Poetas da rede
      #782

      Offline unicorn39

      • *****
      • Membro Elite
      • Género: Feminino
      • I think u’re made of stronger stuff than u think

      Tentação

      Observo o teu reflexo sem te aperceberes.
      Olhas pela janela, mas não me atrevo a seguir o teu olhar. Prefiro continuar a observar-te, a maneira como os raios de luz entram pela janela e iluminam a tua silhueta.
      La fora algo te faz sorrir. Terá sido um pensamento? Talvez uma memória? Aí esse sorriso... Sorrio contigo, como se estivesses a sorrir para mim, com aquele olhar profundo e de uma ternura enorme. Que vontade de ficar simplesmente a olhar essa imensidão dos teus olhos.
      Moves-te e desperto dessa imensidão. Desta vez o meu olhar recai sobre as tuas mãos. Como se movem calmamente até as voltares a pousar. Ergo a minha mão e pouso-a sobre a tua. Sei que não me sentes, mas deixo a minha mente vaguear e sentir o calor que da tua emana. Fecho os olhos, esse calor agora no meu peito. Imagino os meus dedos a percorrer suavemente a tua mão, ao longo do teus, pelas costas da mão... Agora ja não sou só eu que te procuro sentir, também tu procuras pelo meu toque.
      A tua voz... Concentro-me nela e a tua música enche o espaço. Talvez seja só eu que a ouça. Tolos que não sabem o que perdem. Embalas-me, todo o meu ser se acalma. E as nossas mãos...dançam ao som da tua melodia.
      Uma brisa traz o teu cheiro até mim. Tão perto e tão distantes. Não resisto a encostar a minha cabeça no teu ombro, próxima do teu pescoço. Os meus braços automaticamente te envolvem. Tento guardar esse bocadinho de ti em mim.
      Está na hora da partida e despeço-me com um beijo demorado no teu rosto. Sabes-me a tudo e sabes-me a tão pouco.
      Quando finalmente desperto deste sonho acordado, vens na minha direção. Passas por mim sem parar mas não sem antes os nossos olhares se cruzarem.
      Tentas-me. Em todos os meus sentidos, em toda a tua simplicidade.

      Escritores e Poetas da rede
      #783

      Offline unfold

      • ***
      • Membro Total
      Não nos iludamos, pois os mesmos que nos dizem que o sentimento é o mais importante são os mesmos que nos perguntam quanto medimos, quanto pesamos e qual o nosso status socio-profissional. Vivamos de coração aberto, mas de olhos bem abertos, também.
        Dress code: lealdade.
        Se as minhas derrotas tiverem o cunho da minha verdade, nunca foram derrotas: foram sempre vitórias do princípio ao fim.

         

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