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Olá Visitante29.set.2022, 13:14:12

Autor Tópico: O Homem Que Luís de Camões Amou  (Lida 6863 vezes)

 
O Homem Que Luís de Camões Amou
#0

Offline Adónis

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Até anos recentes nunca se discutiu em Portugal a orientação sexual de várias figuras marcantes da nossa História. Na literatura, foram vários os ecritores que assumiam a sua orientação publicamente, dentro dos círculos literários. Outros, deixaram nas suas obras indícios de uma possível homossexualidade e bissexualidade.

O seguinte texto fala da vida íntima de Luís de Camões e é muito interessante:

Muito se tem escrito sobre a vida e a obra de Luís de Camões (1524-1580), considerado o maior (senão um dos maiores) poeta português e uma das grandes figuras da literatura ocidental. Mas há alguns aspectos da sua vida que ainda hoje são pouco claros, ou objecto de controvérsia, e outros que foram apenas levemente aflorados e que a ortodoxia oficial prefere ocultar. Entre eles inclui-se a paixão que Camões terá nutrido pelo jovem D. António de Noronha (1536-1553), que foi pupilo do poeta e que morreu em Ceuta, nas lutas contra os mouros, apenas com 17 anos.

Ganha hoje cada vez mais consistência entre alguns eruditos que se têm dedicado ao estudo da vida e obra do vate que o célebre soneto que a seguir se transcreve, além de outros poemas explicitamente dedicados, terá sido consagrado à memória do jovem fidalgo.


Alma minha gentil, que te partiste
Tão cedo desta vida, descontente,
Repousa lá no Céu eternamente
E viva eu cá na terra sempre triste.

Se lá no assento etéreo, onde subiste,
Memória desta vida se consente,
Não te esqueças daquele amor ardente
Que já nos olhos meus tão puro viste.

E se vires que pode merecer-te
Alguma cousa a dor que me ficou
Da mágoa, sem remédio, de perder-te,

Roga a Deus, que teus anos encurtou,
Que tão cedo de cá me leve a ver-te,
Quão cedo de meus olhos te levou.


Passemos, pois, aos factos.

A primeira publicação conhecida sobre a vida de Camões, é de Pedro de Mariz (1550-1615). Com o título “Ao Estudioso da Lição Poética”, é uma espécie de prefácio à primeira edição de Os Lusíadas (1613).

Manuel Severim de Faria (1584-1665), Cónego da Sé de Évora, publica em 1624 um Vida de Camões, afirmando que se deve buscar na obra poética os vestígios da sua vida.

Ainda no século XVII, Manuel de Faria e Sousa (1590-1649) escreve duas biografias do poeta para as edições monumentais de Os Lusíadas e das Rimas. A primeira foi editada em Madrid em 1639; a segunda, estava pronta para impressão à data da morte do autor (1649) mas só foi publicada em Lisboa em 1685.

Estas biografias, ainda que quase contemporâneas do poeta, além de conterem elementos fantasiosos, suscitam mais interrogações do que fornecem esclarecimentos sobre a vida de Camões. E nelas há algo que sugere pretenderem os autores ocultar factos de que tendo conhecimento entendem preferível não mencionar.

No século XVIII, escreveu-se bastante sobre Camões, mas nada de novo veio a lume. Já no século XIX, João António de Lemos Pereira de Lacerda, 2º visconde de Juromenha (1807-1887), inicia a publicação de umas Obras Completas (1860-1869), de que saíram seis volumes. Deve-se ao visconde a determinação da data exacta da morte de Camões (1580 e não 1579, como era referido pelos anteriores biógrafos) e a descoberta da sua sepultura no convento de Sant’Ana.

Wilhelm Storck (1829-1905), eminente filólogo, publicou pela primeira vez em alemão a Vida e Obras de Luís de Camões, edição que viria a sair em versão portuguesa em 1897, com tradução e notas de Carolina Michaëlis de Vasconcelos (1851-1925), investigadora célebre e a primeira mulher a leccionar numa universidade portuguesa, a de Coimbra.

Desde então, muitos têm sido os livros publicados sobre Camões, a sua vida e a sua obra, oscilando entre a investigação erudita, a investigação fantasiada e o romance: Teófilo Braga (Camões e o Sentimento Nacional, 1891; Camões, Época e Vida, 1907), José Maria Rodrigues (Fontes dos Lusíadas, 1905), Oliveira Martins (Camões, 1872, revisto em 1891), Augusto Epifânio da Silva Dias, Joaquim Lourenço de Carvalho, A.J. Costa Pimpão, Aquilino Ribeiro, Américo da Costa Ramalho, Aníbal Pinto de Castro, Campos Júnior, António Sérgio, Hernâni Cidade, António José Saraiva, José Hermano Saraiva, Jorge Borges de Macedo, Jorge de Sena, Aguiar e Silva, Vasco Graça Moura, etc., etc., para não falarmos de Almeida Garrett ou de Antero de Quental.

Tem sido pacífico entre os estudiosos que Camões serviu como criado, escudeiro ou preceptor em casa de D. Francisco de Noronha, 2º conde de Linhares e de sua mulher D. Violante de Andrade. Sobre a fidalguia de Camões apenas é mencionada a expressão “cavaleiro-fidalgo” no alvará em que o rei, em 1572, lhe concede uma tença de quinze mil reis anuais pelo período de três anos. Mas nos alvarás seguintes (a tença foi renovada) de 1575, 1576, 1578 e 1582 (este já depois da sua morte, a pedido da madrasta) a expressão desaparece surgindo tão só o nome “Luís de Camões”. Só num alvará de 1585 se diz “Luís de Camões, cavaleiro da minha casa” mas não “cavaleiro-fidalgo” o que é diferente.

A vida atribulada de Camões tem sido tratada pelos especialistas já referidos, que igualmente se debruçaram sobre a obra, que, sabemo-lo hoje, retrata aquela, ainda que num registo poético.

Mas apesar dos esforços desenvolvidos, continua a saber-se muito pouco sobre os anos que Camões passou em Portugal, no norte de África ou na Índia e Orientes. Pelo menos, as certezas são poucas, as hipóteses muitas. Não sabemos onde nasceu e onde exactamente morreu (em Lisboa) e algum tempo após a sua morte, desconhecia-se onde fora sepultado.

Constatou-se depois que o fora na Igreja de Santa Ana, mas só anos mais tarde D. Gonçalo Coutinho lhe mandou fazer sepultura própria, em campa rasa, com este epitáfio: «AQUI JAZ LUÍS DE CAMÕES. PRÍNCIPE DOS POETAS DO SEU TEMPO. VIVEU POBRE E MISERAVELMENTE E ASSIM MORREU, NO ANO DE 1579. ESTA CAMPA LHE MANDOU AQUI POR D. GONÇALO COUTINHO. NA QUAL SE NÃO ENTERRARÁ PESSOA ALGUMA». A notícia da morte foi tão pouco notada que até o ano indicado está errado. Camões morreu em 1580 e não em 1579. A igreja foi parcialmente destruída pelo terramoto de 1755 e nas escavações efectuadas no local em 1858 encontraram-se uns ossos (mas não a lápide) que se supôs serem os de Camões. Quando em 1880, em momento de grande exaltação patriótica, se procedeu à trasladação para o Mosteiro dos Jerónimos subsistiu a dúvida (que permanece) se os restos mortais depositados no Mosteiro são efectivamente de Camões. Mas neste caso é o símbolo que importa.

À morte de Camões ainda sua madrasta era viva e o poeta vivia com um escravo jau (porque natural de Java), de nome António, que teria trazido da Índia e que, presumivelmente o sustentava, pedindo esmola para ele.

Camões serviu desde muito cedo em casa de D. Francisco de Noronha (1507-1574), futuro 2º conde de Linhares, e de sua mulher D. Violante de Andrade (filha de Fernão Álvares de Andrade, que foi tesoureiro-mor e pertenceu ao Conselho de D. João III). D. Francisco era o 5º filho do 1º conde de Linhares, D. António de Noronha (1464-1551), que era filho do 1º marquês de Vila Real. Do seu casamento (cerca de 1510) nasceram 13 filhos e filhas e mais uma filha fora do casamento, isto segundo a actual genealogia oficial. Sustentam alguns autores que houve ainda mais uma filha dentro do casamento, D. Joana, isto segundo D. António Caetano de Sousa (1674-1759), autor da História Genealógica da Casa Real, que menciona duas filhas com o nome de Joana. A primeira teria sido enviada para África e teria “morrido no mar”. Mais tarde, os pais voltariam a dar o nome de Joana a uma outra filha, a décima na ordem cronológica. Porquê?

Os autores desta tese defendem que Camões teria tido uma paixão (correspondida) por sua ama D. Violante (uns dez anos mais velha), que teria tido início quando o poeta, ainda quase imberbe, entrara ao serviço da casa. Camões ter-se-ia apaixonado depois pela filha da sua patroa, a referida D. Joana, que por isso teria sido enviada para África, quiçá devido ao ciúme da mãe.

Ao longo dos anos, e analisando a obra lírica, têm-se encontrada referências susceptíveis de provar a paixão de Camões por Violante ou por Joana, ou ainda por Natércia, Catarina, Dinamene, ou mesmo pela Infanta D. Maria, e outras que nos dispensamos de citar. Como em tudo, ou quase, na vida de Camões, não existem certezas quanto a estas paixões ou suas destinatárias. Só as explícitas dedicatórias ao filho primogénito dos condes de Linhares, D. António de Noronha, aquele que morreu em Ceuta com 17 anos e que foi pupilo de Camões, permitem enxergar uma afeição especial, que poderia não ser apenas um exercício literário.

Na altura em que Camões terá privado mais de perto com D. António, teria este 14 ou 15 anos e o poeta uns 26 ou 27. É inquestionável que os ligava uma forte amizade.

O soneto seguinte, dedicado a D. António, após ter conhecimento da sua morte em Ceuta (29 de Abril de 1553), é um exemplo de uma eventual paixão pelo jovem, numa altura em que as letras não permitiam aos poetas que fossem mais explícitos:


Em flor vos arrancou, de então crescida
(Ah! senhor dom António!), a dura sorte,
Donde fazendo andava o braço forte
A fama dos Antigos esquecida.

Uma só razão tenho conhecida,
Com que tamanha mágoa se conforte:
Que, pois no mundo havia honrada morte,
Que não podíeis ter mais larga a vida.

Se meus humildes versos podem tanto
Que co desejo meu se iguale a arte,
Especial matéria me sereis.

E, celebrado em triste e longo canto,
Se morrestes nas mãos do fero Marte,
Na memória das gentes vivereis.


Também a Écloga V é dedicada a D. António de Noronha:


A quem darei queixumes namorados
Do meu pastor queixoso e namorado,
A branda voz, suspiros magoados,
De quem serão seus males consolados?
Quem lhe fará devido gasalhado?
Só vós, Senhor formoso e excelente,
Especial em graças entre a gente.

................................


Igualmente este soneto, dedicado a um jovem cavaleiro morto em combate, tem indubitavelmente como destinatário o mesmo D. António:


Alma gentil, que à firme Eternidade
Subiste clara e valerosamente,
Cá durará de ti perpetuamente
A fama, a glória, o nome a saudade.

Não sei se é mor espanto em tal idade
Deixar de teu valor inveja à gente,
Se um peito de diamante ou de serpente,
Fazeres que se mova a piedade.

Invejosas da tua acho mil sortes,
E a minha mais que todas invejosa,
Pois ao teu mal o meu tanto igualaste.

Oh! ditoso morrer! sorte ditosa!
Pois o que não se alcança com mil sortes,
Tu com uma só morte o alcançaste!


Comecei a escrever este texto há alguns meses. Devido a outros afazeres, fui obrigado a interrompê-lo, não tendo podido retomar até agora a investigação que me propusera efectuar. Assim, e para que ele não fique totalmente no olvido, já que ignoro quando poderei concluí-lo, resolvi proceder hoje,  Dia consagrado a Camões, à sua publicação.

Acrescentarei apenas que D. António de Noronha está sepultado no Convento do Beato, como quase toda a sua família. A história dos descendentes do 2º conde de Linhares, especialmente de sua filha D. Joana, e onde se poderão encontrar elementos que corroborem a tese aqui expendida, ainda que contrariada pela ortodoxia oficial, da paixão do Poeta pelo seu discípulo (uma atracção perfeitamente natural, ontem como hoje), constitui matéria a que me dedicarei oportunamente.


http://domedioorienteeafins.blogspot.pt/



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    #1

    Offline _ricardo_

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    • Membro Sénior
    • Género: Masculino
    Um tópico bastante interessante!
    É verdade que alguns sonetos parecem transparecer qualquer coisa, mas acho difícil afirmar com muita certeza que de facto Camões tenha tido essa relação com o tal D. António de Noronha.
      "Great spirits have always found violent opposition from mediocrities. The latter cannot understand it when a man does not thoughtlessly submit to hereditary prejudices but honestly and courageously uses his intelligence." Albert Einstein

      O Homem Que Luís de Camões Amou
      #2

      Offline Adónis

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      • Membro Sénior
      Um tópico bastante interessante!
      É verdade que alguns sonetos parecem transparecer qualquer coisa, mas acho difícil afirmar com muita certeza que de facto Camões tenha tido essa relação com o tal D. António de Noronha.

      Poderá não ter ocorrido relação, mas pelos factos apresentados facilmente se infere que pelo menos da parte de Luís de Camões havia uma forte atracção afectiva que ultrapassa a esfera da amizade. Portanto, existem sérias hipóteses de Luís de Camões ter tido uma vida sentimental diferente daquela que nos é contada nos bancos das escolas e liceus,

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        #3

        Offline Simone10

        • **
        • Membro Júnior
        • Género: Feminino
        Um tópico bastante interessante!
        É verdade que alguns sonetos parecem transparecer qualquer coisa, mas acho difícil afirmar com muita certeza que de facto Camões tenha tido essa relação com o tal D. António de Noronha.

        Poderá não ter ocorrido relação, mas pelos factos apresentados facilmente se infere que pelo menos da parte de Luís de Camões havia uma forte atracção afectiva que ultrapassa a esfera da amizade. Portanto, existem sérias hipóteses de Luís de Camões ter tido uma vida sentimental diferente daquela que nos é contada nos bancos das escolas e liceus,

        Para variar...
          "Homosexuality exists in over 450 species. Homophobia exists in only one. Which seems unnatural now?"

          O Homem Que Luís de Camões Amou
          #4

          Offline Adónis

          • ****
          • Membro Sénior
          Curioso.

          Um tema que poderia levantar tanta polémica e ninguém se interessa.

            O Homem Que Luís de Camões Amou
            #5

            Offline _ricardo_

            • ****
            • Membro Sénior
            • Género: Masculino
            Eu acredito que há-de chegar o dia em que se falará deste tipo de coisas na escola com toda a normalidade :)
              "Great spirits have always found violent opposition from mediocrities. The latter cannot understand it when a man does not thoughtlessly submit to hereditary prejudices but honestly and courageously uses his intelligence." Albert Einstein

              O Homem Que Luís de Camões Amou
              #6

              Offline Daniela Oliveira

              • *
              • Novo Membro
              • Género: Feminino
              • Podem tirar-te tudo, menos o teu sorriso.
              Eu também acredito que sim mas penso que pelo menos por cá ainda à muito a fazer nesse sentido...  :-\

              Agora, Luís de Camões homossexual?! Não fazia a mínima ideia. Tem vindo a "saber-se" que alguns dos nossos reis e rainhas tiveram amores "proibidos" o que é sempre bom para muita gente ver que a homossexualidade não é uma doença do século XXi, fruto de uma geração perdida.  :P
                Não discutas com idiotas! Vão fazer-te descer ao nível deles e depois ganham-te pela experiência.

                O Homem Que Luís de Camões Amou
                #7

                natacha

                • Visitante
                Eu também acredito que sim mas penso que pelo menos por cá ainda à muito a fazer nesse sentido...  :-\

                Agora, Luís de Camões homossexual?! Não fazia a mínima ideia. Tem vindo a "saber-se" que alguns dos nossos reis e rainhas tiveram amores "proibidos" o que é sempre bom para muita gente ver que a homossexualidade não é uma doença do século XXi, fruto de uma geração perdida.  :P



                Pois é verdade a  homossexualidade não é uma doença.

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                  #8

                  Offline Imaterial

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                  • Go ask Alice, I think she'll know
                  Leitura interessante. De resto, ortodoxos a passar por cima de possibilidades como Camões ter sentido uma atracção homossexual não é nada de demasiado surpreendente.
                    It all starts when you sink into his arms and ends with your arms on his sink

                    O Homem Que Luís de Camões Amou
                    #9

                    Offline carolinalg

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                    • Moderação Geral
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                    • call it Magic... call it true...
                    Leitura interessante!
                    Mas... será verdade? Nunca encontraremos (teremos) evidências suficientes para ter a certeza.

                    Os poemas que postaram abaixo são lindos. E eu cá não me importava nadinha com essa possível paixoneta do Camões. Continuará sempre a ser um grande homem, uma excelente representação da Língua Portuguesa e do nosso país.

                      O Homem Que Luís de Camões Amou
                      #10

                      Offline strings

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                      • Membro Total
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                      • Don't tread on me
                      Relatos como estes são enganadores, pois opinam da perspectiva de alguém no século XXI. Vejam, por exemplo, a seguinte passagem do 'Senhor dos Anéis', de J.R.R. Tolkien. Lembro que o Tolkien era um católico ultraconservador, casado e com quatro filhos:

                      'Well, you have now, Sam, dear Sam,' said Frodo, and he lay back in Sam's gentle arms, closing his eyes, like a child at rest when night-fears are driven away by some loved voice or hand. Sam felt that he could sit like that in endless happiness.'

                      A correspondência escrita entre amigos (do mesmo sexo) até à segunda metade do século XX usa recorrentemente linguagem deste género. É exemplo a do compositor Franz Schubert (1792 - 1828), nas aproximadamente 100 cartas que sobrevivem da sua autoria, grande parte escritas a amigos. Este paradigma cultural é semelhante àquele que, particularmente em finais do século XVIII, considerava que a sensibilidade e a demonstração efusiva das emoções eram características de masculinidade. O melhor exemplo deste fenómeno é o livro 'As Mágoas do Jovem Werther', de Göethe, que causou uma febre na Europa, mas podemos remontar inclusive à 'Ilíada' de Homero, em que os protagonistas, valentes guerreiros, choram copiosamente em mais que uma ocasião.

                      Por fim, recordo um artigo online com fotografias de amigos tirados ao longo do século XIX. Há várias fotografias em que os homens estão sentados ao colo uns dos outros.



                      Isto foi na época em que a chamada 'sodomia' era ilegal em praticamente todo o mundo ocidental, com excepção de França.

                      Creio que foi precisamente a 'normalização' do comportamento homossexual na sociedade, e da abertura em relação à sexualidade em geral, que levou a que passássemos a ver cariz romântico/sexual em linguagem e atitudes que anteriormente não o possuiam, e se referiam puramente à amizade. O resultado é uma acrescida pressão junto dos rapazes mais novos em evitar o comportamento 'efeminado', reprimindo emoções, instintos, opiniões, desejos e maneiras de estar em geral.

                      Outra coisa interessante que importa referir é que, no caso de personagens históricos que sabemos terem tido relações homossexuais, não se conhecerem praticamente quaisquer casos de androfilia - atração entre homens de faixas etárias semelhantes - mas conhecerem-se amplos casos de efebofilia, paixões de homens por rapazes adolescentes. Temos Lord Byron com Nicolo Giraud e Loukas Chalandritsanos, Tchaikovsky com Bob Davidov, Miguel Ângelo com Febo di Poggio, Szymanoswski com Boris Kochno (dedicatório do seu livro 'Ephebos')... e Oscar Wilde, no seu célebre julgamento, definiu expressamente o 'amor que não ousa dizer o seu nome' como aquele entre o homem maduro e o jovem. Até o nosso Bocage, num jocoso poema intitulado 'Adeus às p****', conclui assim:

                      p****, adeus! Não sou vosso devoto;
                      Co'um sesso engannarei a phantasia,
                      Numa escada enrabando um bom garoto.


                      Théophile Gautier, em Voyage en Espagne, é bastante mais refinado. Escreve:

                      L’éphèbe grec, le yalouled algérien, le ragazzo italien, le muchacho espagnol, comblent de leur grâce jeune et de leur beauté encore indécise entre les deux sexes la lacune qui sépare l’enfant de l’homme.

                      Mesmo no século XX, activistas pioneiros dos direitos LGBT como Larry Kramer expressaram ideias positivas acerca destas relações. Kramer opôs-se à marginalização da NAMBLA e procurou homenageá-la na Marcha Gay de São Francisco em 1994 (na qual foi proibido de participar). O fenómeno da relação homossexual igualitária como a mais visível e politicamente correcta é recente e limitador.
                      « Última modificação: 11 de Janeiro de 2017 por strings »

                        O Homem Que Luís de Camões Amou
                        #11

                        Offline quiquo

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                          Muito interessante strings, obrigado por teres postado :)
                         
                        Relatos como estes são enganadores, pois opinam da perspectiva de alguém no século XXI.
                         
                          Concordo e sou céptico quando as pessoas revisitam a história sem considerar que o mundo e as mentalidades eram muito diferentes. A homossexualidade apenas surge como conceito no século XIX e só com o tempo é que ganhou o estatuto de identidade (assim como a heterossexualidade, por oposição binária; um conceito/identidade não existe sem o outro). Os atos e as relações entre pessoas do mesmo sexo sempre existiram, claro, mas a construção social em torno delas (e tudo o que isso implica), o ser-se LGBT+, é recente.
                         
                          Abraço!
                        « Última modificação: 16 de Janeiro de 2017 por quiquo »

                          O Homem Que Luís de Camões Amou
                          #12

                          Offline strings

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                          • Don't tread on me
                            Muito interessante strings, obrigado por teres postado :)
                           
                          Relatos como estes são enganadores, pois opinam da perspectiva de alguém no século XXI.
                           
                            Concordo e sou céptico quando as pessoas revisitam a história sem considerar que o mundo e as mentalidades eram muito diferentes. A homossexualidade sou surge como conceito no século XIX e, só com o tempo, é que ganhou o estatuto de identidade (assim como a heterossexualidade, por oposição binária; um conceito/identidade não existe sem o outro). Os atos e as relações entre pessoas do mesmo sexo sempre existiram, claro, mas a construção social em torno delas (e tudo o que isso implica), o ser-se LGBT+, é recente.
                           
                            Abraço!

                          Estás certíssimo, e aproveito para confessar que me identifico mais com a vaga 'construção social' do fin de siècle, de pessoas como os poetas Uranistas, do que com a construção social LGBT, mais moderna. Esta última tem uma série de bagagens políticas que a mim não dizem muito, pelas razões que já escrevi acima.

                             

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