rede ex aequo

Olá Visitante25.jul.2021, 14:42:22

Autor Tópico: Citações de livros  (Lida 31863 vezes)

 
Citações de livros
#140

sleepy_heart

  • Visitante
   Shimamura encarava a coisa seriamente. Se pretendia ter apenas relações de amizade com ela era porque tinha razão para preferir ficar à beira, em vez de mergulhar a fundo.
   Mas por detrás de tudo isto agia uma espécie de encantamento, produzia-se uma soberania dominadora, bastante semelhante àquela que o havia fascinado em frente do espelho, com o seu fundo de noite, no comboio. É certo que Shimamura pressentia as complicações que uma ligação com uma jovem de condição tão equívoca podia arrastar; mas era sobretudo a uma espécie de irrealidade que ele cedia, a esta curiosa sensação de diáfana transparência que ela havia suscitado nele, tão próxima da poesia do estranho reflexo que tinha contemplado no espelho; (...)


   Este ballet, a que jamais assistira tornava-se para ele uma espécie de arte ideal, um sonho de um outro mundo (...). Para quê arriscar-se a presenciar realizações decepcionantes, enfrentar o ballet concretizado em espectáculo, se a sua imaginação lhe oferecia o espectáculo incomparável e infinito da dança sonhada?

"Terra de neve" de Yasunari Kawabata

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    #141

    Offline Lilium¥

    • *
    • Novo Membro
    • Género: Feminino
    Este país (Portugal) preocupa-me, este país dói-me. E aflige-me a apatia, aflige-me a indiferença, aflige-me o egoísmo profundo em que esta sociedade vive. De vez em quando, como somos um povo de fogos de palha, ardemos muito, mas queimamos depressa.


    Jornal de Letras, Artes e Ideias (1999)
    José Saramago
      “Ora che ho perso la vista ci vedo di più."

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      #142

      Offline Lilium¥

      • *
      • Novo Membro
      • Género: Feminino

      Viagem


      "Aparelhei o barco da ilusão
      E reforcei a fé de marinheiro
      Era longe o meu sonho, e traiçoeiro
      O mar.. .
      (Só nos é concedida
      Esta vida
      Que temos;
      E é nela que é preciso
      Procurar
      O velho paraíso
      Que perdemos.)
      Prestes, larguei a vela
      E disse adeus ao cais, à paz tolhida.
      Desmedida,
      A revolta imensidão
      Transforma dia a dia a embarcação
      Numa errante e alada sepultura...
      Mas corto as ondas sem desanimar.
      Em qualquer aventura.
      O que importa é partir, não é chegar."


      Miguel Torga, Câmara Ardente
        “Ora che ho perso la vista ci vedo di più."

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        #143

        Offline Sappho

        • *****
        • Membro Elite
        • Género: Feminino
        Tenho errado como as pedras num charco
        não acerto nem perto da margem onde me
        deixei sentada a ser gente
        Está tudo por baixo deste chão, destas formigas,
        destas aberturas dos dentes
        uma realidade demasiado existente, quase sonhada,
        quase real
        É por isso que me deito entre este peito e o sol
        na minha cabeça e sou cisne ao contrário.
        Não tenho nada a acrescentar, se os dias se
        matam em círculo
        e eu tenho de ir recta para alcançar um fim
        e depois ser toda começo.

        Não sou mulher que se encontre em metades
        nem em pequenos e médios todos
        prefiro ser só eu, só falésia absoluta
        absoluta coisa nenhuma
        Por isso preparo-me para ser digna fenda
        em gloriosa cadeira de marquise,
        empenhada solidão
        Mas não desisto de acompanhar as horas
        nem o destino que me vem à boca,
        nem as plantas que mato de amor
        se o mistério de tudo latejante nas paredes
        é o interior que me faz acordada.



        ver no escuro, Cláudia R. Sampaio
        « Última modificação: 31 de Julho de 2020 por Sappho »
          I have the choice of being constantly active and happy or introspectively passive and sad. Or I can go mad by ricocheting in between.

          Sylvia Plath, The Unabridged Journals of Sylvia Plath

          Citações de livros
          #144
          "Amo-te tanto que te não sei amar, amo tanto o teu corpo e o que em ti não é o teu corpo que não compreendo porque nos perdemos se a cada passo te encontro, se sempre ao beijar-te beijei mais do que a carne de que és feita, se o nosso casamento definhou de mocidade como outros de velhice, se depois de ti a minha solidão incha do teu cheiro, do entusiasmo dos teus projectos e do redondo das tuas nádegas, se sufoco da ternura de que não consigo falar, aqui neste momento, amor, me despeço e te chamo sabendo que não virás e desejando que venhas do mesmo modo que, como diz Molero, um cego espera os olhos que encomendou pelo correio." (pág. 40)

          in Memória de Elefante (1979), António Lobo Antunes.

             

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