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Revista Expresso - Pais & Gays

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Revista do Expresso – 25/10/03

Até que a morte os separe
 
Dois homens, um filho, um assassínio e a sida fazem o enredo da história. Tudo começou com a paixão de Rui e José Luís. Depois apareceu a Vanda, que trouxe o Bruno. Que é feliz ao lado dos pais

Eram jovens, belos, rebeldes e transportavam um mal que questionava o sentido da família. Um amor proibido segundo as leis que gerem a harmonia humana. Mas, empurrados pela força que a paixão embala, romperam com os seus e com os outros e na solidão experimentaram a felicidade. O casal foi tão longe quanto pôde, até driblou a lei tirânica da Natureza que o impedia de ter filhos. Depois a vida deu as voltas que sempre dá e o motor da paixão, que nunca avisa quando pára, afastou-os. O mundo é mesmo assim, com jardins ocultos e ciladas. Ninguém escapa às suas armadilhas. Eles separaram-se. Mas a uni-los para sempre ficou o Bruno, o filho, uma espécie de guardião das memórias de dois homossexuais que traçaram um caminho sem pedir licença ao mundo.

José Luís mantém o mesmo ar galã de há 20 anos. Está com 46. Os cabelos brancos pintam aqui e ali a melena que o tempo não poupou. Continua de poucas palavras, o que, segundo Rui, sempre foi a sua arma. Apenas o olhar semicerrado, outro truque, agora realçado pelas rugas, espelha a cumplicidade que o passado ergueu entre os dois. Apesar de o seu coração ter um novo hóspede (os sentimentos são como os dados, caem ao acaso), não pode deixar de se rever noutros momentos: «Fomos felizes, muito felizes, amei-o muito. Acabou, acontece».

Rui, esse, apesar de tudo, não aparenta ter 38 anos. É um homem alto, magro, bem parecido. Não tem rédea nas emoções, como se nunca se tivesse estreado no teatro da vida. Apenas os olhos, como dois carvões esmorecidos, revelam as cicatrizes que o passar dos anos ferrou sem piedade. Sabe que não pode modificar nem uma unha a direcção das forças que o obrigam a um cara-a-cara permanente com a morte. Pouco importa, também pegou sempre a vida de frente. A prova é o Bruno, um pedacinho de homem de 13 anos que hoje serve de untura à sua doença: «Anda cá filhote, traz o álbum!». O miúdo reage ao pedido como se os dois fossem peças de um mecanismo harmonioso. Parece adivinhar-lhe os pensamentos, num pulo abandona a «Playstation», senta-se na alcatifa do quarto e espalha as suas fotos de bebé. Recebe o afago no cabelo rapadinho e aninha-se ao homem como um gato à espera da ração diária de ternura.

Rui fixa uma das imagens, a expressão do rosto muda. A vida, visita inusitada, enche-lhe o olhar como se apenas uma recordação fosse o remédio para a armadilha que a sorte lhe aprontou. Sim, nunca fora tão feliz como naquele ano, nem voltaria a sê-lo. Trilha o passado de foto em foto até encalhar no Verão de 90. Em Junho, Bruno saíra da Alfredo da Costa e ele sentiu o apelo da maternidade como se de repente uma onda de calor lhe tivesse entrado pelos pés e alastrasse por todo o corpo até à cabeça. Não, não estava a cometer uma infracção à Natureza. Na foto, o recém-nascido dorme ao seu colo com tranquilidade. Mas a noite tinha sido terrível. Entre as mamadas, as mudas de fraldas e os gritos do bebé que travava a sua primeira luta com a vida.

Bruno, que não se afasta um milímetro de Rui, acompanha-o no rolo da memória. Ri-se ao pensar na trabalheira que deu, trava a gargalhada como se a sua curta história se estivesse a desenrolar a cores na mente: «Quando soube que me ia ter deve ter ficado muito contente e durante os nove meses andou de certeza muito excitado, bem o conheço». A tirada do miúdo é um consolo que mantém o homem a puxar a fita do passado. Brincam os dois com outra foto. Bruno ri-se até às lágrimas ao verificar o desvelo do pai: «Quem diria que o Zé Luís tinha tanto jeito para mudar fraldas? Será que nunca me deixou cair?», O rapaz conhece a sua vida de trás para a frente, pensa com a agilidade de quem foi criado sem preconceitos e encolhe os ombros num sinal de desdém quando intrusos lhe colocam certas questões: «Claro que sou feliz, os meus pais são homossexuais mas nunca fui gozado por isso, hoje as pessoas já não ligam a essas parvoíces». Há coisas que só uma criança pode dizer, independentemente da razoabilidade.

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Rui, que já não tem contas a esgrimir com o passado, ao ouvir a sentença do puto arregala os olhos como se de repente tivesse sido empurrado sem passar por vestíbulos ou corredores para um alçapão sem um raio de luz. Era um nada mais velho do que Bruno quando percebeu que era diferente. Vinha de uma família da classe média e crescera até então sem sobressaltos. Estudara em colégios internos, namoriscou como qualquer adolescente. Mas com as raparigas nunca teve grandes esbanjamentos de coração. Foi no Externato Solense, onde fazia o liceu, que sentiu na carne pela primeira vez as alfinetadas da paixão. O homem que geria o bar despertou-lhe sentimentos com os quais não sabia lidar: uma atracção enorme por ele, uma repulsa medonha por si próprio. E, enquanto os colegas seguiam despreocupados o seu destino, ele experimentava o inferno. Os preceitos da Igreja Católica, em que tinha sido criado, abateram-se sobre o seu espírito sem piedade. Mas nem os ditames do Evangelho conseguiam travar os seus impulsos amorosos. Os ponteiros do coração pareciam os de um relógio escangalhado. Umas vezes enfiava-se no bar e, como qualquer jovem apaixonado, fazia tudo para prender a atenção do outro; outras ouvia uma voz sinistra que o enregelava: «Tens de ser homem!». Rezou, pediu a Deus que invertesse o rumo do seu destino: «Achava que o que se passava comigo não era normal, mas mesmo assim só pensava em estar ao lado dele, tocar-lhe. Quando não estava com ele sentia-me vazio».

Tinha 15 anos e experimentava a primeira rejeição amorosa. E o pior ainda era ter de viver esse desconsolo em silêncio, como se transportasse com ele a peçonha que arrasta o fim do Mundo: «Só me apetecia gritar, contar aos meus amigos e à família o que sentia, mas como é que eu podia dizer que estava apaixonado por um homem?». Não foi preciso, era um adolescente incapaz de exercer a dissimulação. Foi o homem que geria o bar quem se apercebeu da inclinação do rapaz. Era casado, tinha filhos, e decidiu falar abertamente com ele: «Falou comigo, disse-me que tínhamos de nos afastar, que eu era um miúdo ainda muito confuso e que aquilo me ia passar».

Mas não passava, apesar de Rui se retrair como um caracol com o peso da vergonha. Até que um dia enfrentou a voz que, com uma indulgência fingida, lhe assegurava: «És homem». E era, mas diferente. Tapou os ouvidos e trocou as voltas ao fantasma que se intrometia na sua vida. Arranjou a escapadela possível e na noite, em bares gay, voltou a sentir que fazia parte da espécie. Foi aí também, ao ver um espectáculo de travestis, que descobriu a sua vocação. «Primeiro achei um bocado estranho: por que é que os homens se vestiam de mulheres?». Depois do pasmo veio o fascínio. Todas as noites estava lá caído, sem dúvida que ali era o seu lugar e queria entrar naquele faz-de-conta. Poder rir e chorar sem o medo de recriminações. «Aquilo era como um conto da Cinderela, aquelas roupas, as luzes, os artistas deslumbravam-me. E decidi: é isto que vou fazer». Começa a conhecer artistas ligados ao meio e consegue a sua primeira audição: «Mas foi um fracasso».

Parecia que nada batia certo, não tinha concerto com o mundo. Uma noite, está a dançar no Xeque-Mate, e sente que alguém o observa. Parou, petrificado, ao reparar no homem mais velho, bem vestido, bigode a fazer sombra aos lábios bem desenhados, que o fitava. Os olhares dos dois pegaram-se. Rui continuou na pista e dançou para ele: «Foi amor à primeira vista, o mundo parou quando o vi». As peripécias da vida, que transportam sempre mel e vinagre, chamavam-nos. O homem ofereceu-lhe um copo. José Luís, mais velho dez anos, transmitia-lhe confiança e, levados por um impulso amoroso, trocam as histórias das suas vidas. Forma tradicional de se começar um romance.

Na manhã seguinte, Rui acordou como tinha adormecido: pensava em José Luís. E vice-versa. «Lembras-te?», pergunta Zé Luís com o olhar pregado ao dele, como se segurasse um quadro que emoldurou uma paixão que os outros amores nunca desalojaram. Como é que Rui pode esquecer? Tinha 16 anos: «Até aí, a minha experiência não tinha ultrapassado uns beijos, umas carícias com ele, eu queria ir mais longe». E foram. Estavam destinados a entender-se. José Luís estava com 26 anos, era «designer» e queria assentar. Entrara na vida do rapaz de supetão, disposto a todos os riscos. Uma noite, num jantar romântico em sua casa, surpreende-o. Rui abre o presente: «Eram umas chaves com um cartão que dizia: ‘Seja feliz na sua nova casa’». Depois de se entregarem às incandescências da carne, o silêncio caiu entre os dois. Rui sentia uma grande aflição: «Como é que eu ia dizer à minha família que ia viver com um homem?». José Luís, que se tinha libertado há muito da mentira e assumira a sua homossexualidade, não estava disposto a reviver demónios antigos. Propunha-lhe caminhar ao seu lado, a direito. As recordações do passado ainda pairavam nele como brasas atiçadas para lhe vedarem o caminho da felicidade.

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A história desenrola-se sem esforço na sua mente. Fora exactamente com a idade de Rui que percebera que era homossexual. Também ele pensou que transportava o ferrete do mal. A mãe costureira e o pai empregado fabril tinham depositado nele os seus desígnios. Um curso, um casamento e filhos que mantivessem intacta a roda da família. Ofereciam-lhe um destino que teria de aceitar sem escolha. E, apesar de a mãe se ter apercebido muito cedo das inclinações do filho, o único sentimento que dela se desprendia era o escárnio. A família transporta uma violência inata que dispara quando a sua segurança corre perigo: «Chegou a trancar-me as portas, a bater-me para eu não sair com os meus amigos. Achava que o problema não era meu mas das más companhias». Fizeram-no sentir-se possuído pelos piores demónios e assim violou a sua natureza: «Até lhes fiz a vontade e casei, mas só durou um ano e três dias». Agora, quando faz marcha atrás, a dor dessa época pesa tanto como um punhado de pó. Fez figas à sina que lhe tinham traçado, trocou a mulher que não lhe dizia nada por um homem. E assim foi feliz e nada o faria arredar do seu caminho. A mãe continuou a persegui-lo, opunha-se aos seus namoros: «Um dia bati com a porta, ainda hoje ela não me aceita e eu estou muito bem assim».

Rui ouvia o espólio das recordações do outro - mas continuava mesmo assim a duvidar das suas forças para abrir a guerra. Sentia-se entre a espada e a felicidade. Voltaram os fantasmas e repetiu a frase: «Como é que eu ia chegar a casa e dizer: ‘Vou viver com um homem’?». José Luís acompanhou-o. Reunida a família, Rui anunciou o enlace. Hoje os dois homens fazem um «stop» como se travassem bruscamente na paragem de uma estação fora do tempo. A risada é simultânea. Riso que nasce da alegria de quem venceu: «Ficaram de cama uns dias mas acabaram por aceitar e hoje damo-nos todos muito bem». Estavam agora prontos para o que vinha a seguir, sabiam que iam encontrar obstáculos, mas a presunção do amor determinava-os.

Rui terminara o liceu mas ainda não trabalhava. Enquanto o companheiro parte para a lide diária, o jovem confronta-se com a vida doméstica. Arruma a casa e trata das refeições. A magia quebrava-se aos poucos: «Tive um medo terrível, só me apetecia fugir, voltar para casa». José Luís via-o definhar e deixa de pensar em si próprio, sabe o que lhe falta. Tem muitos conhecimentos ao nível artístico e consegue inserir o namorado no mundo do transformismo. E, para não se afastar dele nem uma unha, abandona o emprego e torna-se um dos bailarinos do elenco do novo travesti, que num ápice faz sucesso. Hoje, de quando em quando, sentam-se no sofá e, como um velho casal, remexem a história. Frente à televisão, as fitas dos tempos áureos unem os dois de novo. Correram mundo, ganharam mãos cheias de dinheiro que esbanjaram em luxos, porque fazer previsões do futuro é sempre uma maçada. Os pensamentos derivam de novo para o passado. E, como num número de ilusionismo, Rui revê-se no ecrã 20 anos mais novo. Uma figura delicada, envolta em lantejoulas e plumas, no boneco de Shirley Bassey. Ser travesti foi a primeira e a única coisa que sempre quis ser. Adorava estar no palco, imitar pessoas. Sempre se varia. Têm os espectáculos todos gravados, mudam de cassete como quem vira a página de um livro à procura do fim. A última é escolhida com disputa. O título do «show» tem tudo a ver com o que vem a seguir: «A Sorte do Azar». Rui carrega no «pause» e apresenta uma das bailarinas, Vanda, à época com 17 anos. A figura da rapariga atira os dois homens para outro buraco do tempo. As memórias separam-se obrigatoriamente.

Um dia, José Luís teve uma ideia. Ele e Rui faziam a parceria ideal. Mas havia um senão que os dois não podiam tornear. Dentro das normas da Natureza, estava-lhes vedado serem pais. E ele arranjou uma forma de contrariar a regra: «Senti que só nos faltava um filho para sermos felizes, queria dar um sentido a tudo o que fazíamos e escolhi a Vanda». Não partilhou a infracção com Rui, porque o que importava era o que se passaria depois. E foi Vanda, quando soube que estava grávida, quem contou a Rui. Ele tentou fugir ao pressentimento e nem perguntou quem era o pai: «Ela disse-me que não queria ter a criança, não estava preparada para ser mãe». Ao ouvir a notícia, ele sentiu uma emoção que lhe encheu o corpo como se tivesse encontrado algo que lhe tinha sido, sem piedade, amputado, mas que ainda podia salvar: «E se eu te pedisse para teres esse filho e eu e o Zé Luís ficarmos com ele?».

E assim foi. José Luís e Rui passam a cuidar de Vanda com desvelo. Acompanham-na na sua rotina de grávida. Compram o enxoval para o bebé, o berço é colocado no quarto do casal. Bruno nasce e são os dois homens que assumem a responsabilidade da criança: «Começa aquela tarefa de mamã, o banho, o mudar de fraldas». Rui nunca tinha sido tão feliz. Mas chegou a hora de desfazer enganos. Era preciso registar a criança, e ele voltou a pensar num pormenor que sempre quis evitar: quem seria o pai? Foi Vanda quem confessou. Ele sentiu o veneno do ciúme, mas chegava tarde: «Tínhamos uma relação tão perfeita, ele era o homem da minhavida e de repente houve um corte, mas superei pelo amor que tinha ao filhote, àquela coisa tão pequenina de quem eu iria cuidar».

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Coube a José Luís trocar a poalha dourada do sucesso pelo encargo do filho, enquanto Rui e Vanda continuavam a correr mundo. A criança sempre esteve acima de tudo. E está. Ele sabe. O álbum continua espalhado na alcatifa do quarto de Bruno, que acompanha o desenrolar da memória dos pais. Da mãe guarda poucas lembranças. Mas nada lhe foi escondido. Vanda, quando o menino tinha sete anos, decidiu mudar de vida e instalou-se em Espanha. Passado algum tempo, as manchetes dos jornais espanhóis davam conta do seu fim: «Mulher atirada da ponte de Badajoz foi morta com 17 facadas». O homicida foi descoberto e condenado a 25 anos de prisão. Bruno, desejoso de mudar a conversa, refugia-se nas fotos antigas. A provocação é uma forma de arrancar pesos do coração. Num jardim, José Luís e Rui passeiam um carrinho de bebé e posam abraçados para o fotógrafo. O olhar do puto cintila: «Parece que nesta altura eles eram muito felizes».

O amor é imprevisível e um dia desapareceu como se tivesse encontrado uma brecha no ar. Mas entre os dois homens ficou Bruno, que não lhes tem dado apoquentações. É bom aluno e traquina como qualquer garoto. Mas mesmo no mundo das crianças não há céu sem sombra. Um dia, depois do banho, Rui olha-se ao espelho. Uma erupção esquisita apoderara-se do seu rosto. Corre para o hospital. O resultado das análises tem três letras e representa a maior tragédia que o novo mundo criou: HIV. Bruno foi o primeiro a saber e nunca teve tanto medo na vida. Depois a doença ganhou formas sinistras, Rui tinha a sensação de que alguma coisa no seu corpo apodrecia, as febres tiravam-lhe o tino. Mas ao seu lado tinha o filho. O miúdo ainda se lembra do dia em que começou a tomar conta das coisas da casa, a cuidar de Rui, a garantir que nada de mal lhe aconteceria: «Claro que fiquei preocupado, com medo que acontecesse alguma coisa, mas agora habituei-me». E o mundo desta família continua a rolar, e não é preciso ter-se um curso de psicologia para perceber que, apesar de tudo, são felizes. Bruno apenas não gosta de abordar um tema: a homossexualidade. Encolhe os ombros incomodado, como se o assunto fosse arrancado das trevas. E reage com insolência. Afinal, não é com ele que se tem de falar dessas tretas: «Vivemos numa sociedade livre, é a vida particular das pessoas, ninguém tem nada a ver com isso. Eu cá sou filho de homossexuais e gosto de raparigas, e depois?». Aí está, o que é preciso é ser do seu tempo!


Texto de Felícia Cabrita
Fotografias actuais de Jorge Simão


 

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O poder paternal e as adopções

Quando um casal homossexual masculino partilha a educação de uma criança, filha biológica de um deles, levantam-se questões de exercício da paternidade. E se houver uma mãe que esteja na disposição de lutar pela guarda do filho, os tribunais tenderão a atribui-lhe, em exclusivo, o exercício do poder paternal. Quanto ao Estado, em princípio, este não intervirá a não ser que se considere estar em causa o bem-estar da criança.

Dos vários anos de experiência no Tribunal de Família de Lisboa, a procuradora Joana Marques Vidal concluiu que a maioria dos juízes não se deixa convencer com a simples alegação da homossexualidade para concluir que a criança será prejudicada. Mas adianta que «há cada vez mais processos de divórcio em que a mãe da criança acusa o pai de viver em união homossexual, tentando com isso limitar direitos de visita ou evitar que a guarda da criança lhe seja atribuída».

Há pouco mais de uma década, os portugueses confrontaram-se pela primeira vez com um caso em que um tribunal foi instado a avaliar o peso que a sexualidade do pai tinha na capacidade deste exercer o poder paternal. Dividiu-se na época a sociedade, que seguiu o processo pelos jornais, e o aparelho judicial. Enquanto o tribunal de primeira instância deliberou a favor do progenitor, desvalorizando a sua opção de vida, e pondo em evidência as suas qualidades de educador, o tribunal da Relação decidiu o contrário.


Adopção ainda vedada

Por outro lado, há que ter em conta a situação do companheiro do pai, a quem a lei não reconhece qualquer vínculo legal com o menor. E está-lhe vedada a possibilidade de adoptar, porque a legislação portuguesa não permite que a criança tenha dois pais (ou duas mães) — um biológico e outro adoptivo — exercendo em simultâneo o poder paternal. Em Junho, uma tentativa de legalizar as adopções por casais do mesmo sexo foi chumbada na Assembleia da República, com os votos contra do PSD e do CDS-PP.

O debate deste projecto do Bloco de Esquerda é elucidativo sobre os argumentos mais invocados pró e contra a adopção por homossexuais. A favor, a deputada bloquista e psicóloga Joana Amaral Dias lembrou que «um conjunto considerável de estudos realizados em diversos países demonstra não existirem diferenças significativas no desenvolvimento social e psíquico entre crianças em famílias homossexuais e as outras». Com isto «caiu-lhe em cima» a ala direita do Parlamento. E de nada lhe valeu lembrar as leis recentemente aprovadas no Reino Unido, na Holanda e em cinco estados dos EUA, que permitem a adopção por homossexuais. Uma das interpelações mais duras veio de Teresa Morais (PSD), que desafiou Joana Amaral Dias a dar resposta a um casal de lésbicas que dias antes, na televisão, «se perguntava qual delas deveria apresentar-se à criança como pai e qual delas deveria ser conhecida como mãe».

Nesse dia, o Parlamento chumbou a lei do Bloco de Esquerda mas aprovou uma reforma do Governo às leis da adopção, com o objectivo de a tornar mais expedita e eficaz. A nova lei, em vigor desde 22 de Setembro, adapta as estruturas do Estado para responder a um processo que se pretende mais exigente. Luís Villas-Boas, director do Refúgio Aboim Ascensão, em Faro, foi um dos seus inspiradores. Psicólogo clínico de formação, com mais de vinte anos de experiência na protecção de menores, coordena a comissão que vai acompanhar a aplicação da reforma.

Villas-Boas afirma que está em curso «a uniformização de critérios científicos a que vão ser submetidos todos os candidatos à adopção» e que a avaliação da sexualidade dos candidatos «é muito relevante». Diz que «o crivo vai ser mais apertado», para evitar a possibilidade de adopção individual por um homossexual. É que se um casal homossexual não pode adoptar, não faz sentido permitir que um homossexual, individualmente, o possa fazer. Havendo que proteger a determinação sexual da criança, Villas-Boas entende que «só por milagre estatístico é que a criança que viva num ambiente homossexual pode adquirir a ideia de separação entre o papel do pai e mãe».

A psicóloga Conceição Lavadinho, que até há pouco tempo trabalhou no Gabinete de Psicologia do Tribunal de Família de Lisboa, não tem certezas absolutas, mas acredita que «a opção sexual das crianças é independente dos pais. A prova disso é que a maioria dos homossexuais cresceram no seio de famílias hetero», conclui.

Manuel Agostinho Magalhães

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