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Este ano celebra-se o centenário da morte de Paul Gauguin.

aqui ficam alguns links:

imagens e cartas que testemunham a amizade entre os pintores Gauguin e Van Gogh: *

exposição no Museu Van Gogh em Amsterdão de obras dos dois autores: *

Olga's Gallery:
Várias imagens de qualidade de obras de arte de Paul Gauguin *

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Centenário da Morte
Por POR LUÍS MIGUEL QUEIRÓS
Quinta-feira, 08 de Maio de 2003

Paul Gauguin A arte da fuga

Nada indicava que Gauguin tivesse nascido para ser pintor. Aos 30 anos é um bem sucedido corretor da bolsa parisiense, casado e pai de filhos. Não era fácil adivinhar que iria abandonar tudo, a família, os amigos, o conforto da civilização europeia, para cumprir a sua vocação de artista nas remotas ilhas dos Mares do Sul, vivendo entre os nativos, pobre e com a saúde arruinada.

Ele próprio, em cartas que escreveu no final da vida, falava dos seus sofrimentos quase com orgulho, vendo neles a marca de água do artista genuíno. Mas recomendava que não se exagerasse, talvez por se recordar ainda demasiado bem dessa véspera de Natal de 1888, em Arles, quando Van Gogh cortou a sua própria orelha (ver caixa). De resto, talvez Gauguin se limitasse, afinal, a fazer o que lhe apetecia, o que lhe dava mais prazer, e a verdadeira sacrificada tenha sido essa desgraçada jovem dinamarquesa, Mette Sophie Gad, que se viu a braços com cinco filhos e poucos ou nenhuns recursos.

Apesar desse período de convencional vida burguesa a que durante algum tempo se resignou, Gauguin tinha sangue de aventureiros e a sua própria infância e adolescência foram razoavelmente movimentadas. Nasceu em 1848, em Paris, filho de um jornalista francês, Clovis Gauguin, e de uma peruana, Aline Chazal. A sua avó materna era a escritora mestiça Flora Tristan, militante feminista e seguidora de Saint-Simon.

Envolvido na política, o pai de Gauguin parte com a família para o Peru em 1851, quando Luís Napoleão chega ao poder. Morre durante a travessia e a víúva e o filho acolhem-se num palacete da família, que pertencera a um tio-avô de Flora Tristan, Don Pio Tristan y Moscoso, vice-rei do Peru. Em 1855 regressam a França e instalam-se em Orléans, onde Gauguin faz os seus estudos primários e liceais. Aline Chazal projecta para o filho uma carreira na marinha e, aos 17 anos, Gauguin alista-se como cadete no navio mercante Lusitano, que faz escala no Brasil.

À marinha mercante, segue-se a de guerra, que Gauguin abandona em 1871, após o conflito franco-prussiano. Nesse mesmo ano emprega-se numa firma de corretores de bolsa, onde permanecerá 12 anos, auferindo rendimentos francamente respeitáveis para os padrões da classe média parisiense da época. Casa-se, em 1873, com uma dinamarquesa de 24 anos, Mette, com quem terá cinco filhos. A vida corre-lhe bem.

Entre os seus colegas de trabalho conta-se Émile Schuffenecker, apreciador dos impressionistas e pintor amador. Aos domingos encontram-se para pintar e Émile convence Gauguin a frequentar, com ele, a academia parisiense Colarossi. Schuffenecker, um artista menor, adquiriu recentemente uma repentina celebridade, quando, em 1997, surgiram indícios muito convincentes de que teria sido ele o verdadeiro autor de "Jardin à Auvers", que se pensava ser uma das últimas telas de Van Gogh e que, nesse pressuposto, atingira em leilão quase 25 milhões de libras.

(continua)

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(continuação)

Enquanto aperfeiçoa a sua pintura, Gauguin frequenta as exposições dos impressionistas e gasta verbas consideráveis na compra de telas de Manet, Monet, Sisley e Pissarro. Torna-se amigos deste último, que o apresenta a Cézanne. Durante um breve período, chegam a trabalhar os três em conjunto. E em 1876, Gauguin tem o seu primeiro momento de glória: uma paisagem da sua autoria, bastante influenciada por Pissarro, é aceite no Salon, a mostra anual dos impressionistas. Dez anos mais tarde, a oitava e última exposição do grupo exibirá nada menos do que 19 telas de Gauguin, que começava precisamente por essa altura a romper com o movimento.

Mas o ano crucial fora o de 1883. Com o colapso da bolsa parisiense, abandona a empresa e decide tornar-se pintor a tempo inteiro. Como Paris era demasiado caro, muda-se com a família para Rouen, onde espera enriquecer vendendo quadros aos grandes proprietários rurais. Não vende nenhum. A falta de meios leva a mulher a regressar à Dinamarca com os filhos. Gauguin junta-se-lhes em 1884 e emprega-se como vendedor. No ano seguinte está de volta a Paris, com o terceiro filho, Clovis, o mais velho dos rapazes, e sustenta-se a colar cartazes.

A vida não lhe corre nada bem, mas toma uma decisão acertada: instala-se, em 1886, em Pont-Aven, na Bretanha, um conhecido refúgio de artistas, onde a sua arte começa a revelar um estilo francamente autónomo, com a utilização de grandes manchas de cor, que não pretendem reproduzir as da natureza, e o recurso a tintas puras, não misturadas na paleta. No fim do ano regressa à capital, onde conhece Van Gogh: um encontro que se revelará decisivo.

Paris não é o cenário ideal para buscas interiores, sobretudo quando o dinheiro escasseia. Van Gogh parte para Arles e Gauguin embarca para a América Central com o pintor Charles Lavall. Trabalha um par de semanas no Panamá, na Companhia do Canal, e depois segue para a Martinica, a primeira aproximação ao primitivo paraíso natural que depois acreditará ter encontrado no Tahiti e, finalmente, nas selvagens Ilhas Marquesas.

No início de 1888 está de novo em Pont-Aven, com um grupo de pintores, entre os quais se destaca Émile Bernard, cujo "cloisonnisme", com os seus campos de cor bem definidos, o irá influenciar. É nestes meses que antecedem a turbulenta coabitação com Van Gogh que Gauguin pinta "A Visão Depois do Sermão ou Jacob e o Anjo", tida hoje como a obra em que o artista rompe definitivamente com o impressionismo e anuncia o seu estilo posterior, conhecido como simbolismo sintético por assentar no desejo de associar a realidade e a abstracção, a natureza e as emoções, a herança cultural do Ocidente e as lições da arte primitiva. Quando Van Gogh enlouquece e o ameaça com uma navalha de barba, é mais uma vez na Bretanha que procurará refúgio. Rodeiam-no vários jovens pintores e há quem se desloque de Paris só para ver Gauguin em acção. Começa a criar discípulos, como Sérusier ou o jovem Pierre Bonnard.

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Desta vez, o pintor passa a maior parte do tempo numa aldeia próxima de Pont-Aven, Le Poldu, acolhendo-se com o pintor holandês Jacob Meyer De Haan na estalagem de Marie Henry, cuja sala de jantar pintam em conjunto. De Haan paga as contas e serve de modelo a Gauguin, que, em troca, lhe dá aulas de pintura. Um acordo perfeito, mas que não tarda a turvar-se quando ambos se tornam amantes da estalajadeira. Um deles, ao que parece De Haan, engravida-a. Nos últimos retratos que Gauguin faz do amigo e rival, este aparece com olhos lascivos e orelhas animalescas. Picasso, ao assistir em 1906 à primeira grande retrospectiva póstuma de Gauguin, interessou-se por estas deformações deliberadas, que terão influenciado a composição, no ano seguinte, das suas célebres "Demoiselles d'Avignon".

Depois da decisão existencial de 1883, a segunda e última grande viragem na vida de Gauguin ocorre em 1891, quando decide deixar a Europa e radicar-se no Tahiti, na Polinésia Francesa. Nesse mesmo ano nasce em Paris a sua filha Germaine Chardon, futura pintora, cuja mãe, Juliette Huais, servira de modelo a Gauguin em 1890. Já no Tahiti, improvisa um casamento com uma nativa de 13 anos, Tehamana, de quem tem um filho em 1892. Na sua tela "Tehamana Tem Muitos Pais", é perturbante o contraste que as formas sensuais e o olhar melancólico e distante da jovem tahitiana criam com as pudicas roupas que enverga, impingidas pelos missionários católicos.

Quando regressa a Paris, em 1893, Gauguin expõe os trabalhos que realizou na Polinésia. Fracasso total. Há quem lhe chame selvagem e bárbaro, o que, secretamente, talvez tenha apreciado. A boa notícia é que um tio lhe deixou uma pequena herança. Gauguin desbarata-a rapidamente com uma rapariga javanesa, Annah, que lhe esvazia o "atelier" e desaparece sem deixar rastro. Já está de novo falido quando, após uma breve surtida à Dinamarca, para se despedir da ex-mulher e dos filhos, regressa definitivamente aos Mares do Sul. Para custear a viagem coloca em leilão 74 pinturas, conseguindo vender 47. Não se pode queixar. Em toda a sua vida, Van Gogh só conseguiu vender uma obra.

Com falta de dinheiro e a saúde deteriorada pela sífilis, os seus últimos anos no éden polinésio são tudo menos paradisíacos. Em Janeiro de 1898 chega mesmo a tentar suicidar-se, logo após ter concluído a espantosa obra-prima a que chamou "De Onde Vimos? Quem Somos? Para Onde Vamos?", uma imensa tela de mais de quatro metros de comprimento. Apesar das dificuldades, Gauguin pinta, escreve e faz filhos, todos de mães diferentes.

Em 1901, quando o fim já está próximo, troca o Tahiti por Atuona, na ilha de Hiva Oa, arquipélago das Marquesas. É aqui que morre, a 8 de Maio de 1903, quando acabara de se ver condenado a três meses de prisão por desacatos com a igreja e com a autoridade colonial.

Nos anos seguintes, a sua obra, que abrange ainda a escultura, a cerâmica e a gravura, influenciará muitas das principais correntes artísticas do início do século XX: expressionistas, fauvistas, primitivistas, talvez mesmo os primeiros surrealistas.

in Público

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