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Outras Conversas => Outras Conversas => Tópico iniciado por: biki em 10.fev.2008, 00:16:32

Título: Filosofando
Enviado por: biki em 10.fev.2008, 00:16:32
Achei que seria boa ideia criar um tópico para discussões filosóficas. Axiologia, ética, religião, ... Assuntos não necessariamente relativos à temática LGBT.

E começo por deixar aqui um texto com que me deparei numa aula de filosofia, há tempos, e decidi passá-lo para computador. Have fun!

Tolerância e Ofensa

Por Desidério Murcho

   A tolerância é uma das noções mais difíceis de compreender. Confunde-se geralmente com o relativismo epistémico e esta confusão denuncia incapacidade ou até falta de vontade para aceitar a tolerância. Os pensadores pós-modernistas são responsáveis por contaminar a cultura contemporânea com esta confusão grave, que acaba por tornar impossível a genuína tolerância.
   Ser tolerante é aceitar o direito de alguém afirmar o que pensamos firmemente ser falso ou errado ou inaceitável ou ofensivo. Isto é de tal modo difícil de assimilar que os pensadores pós-modernistas se sentem na necessidade de declarar que não há "verdades", mas apenas "construções socias da realidade". E, por causa disso, todas as diferentes "construções" são igualmente aceitáveis. Pensa-se, então, que esta atitude é tolerante, quando, ironicamente, torna imporssível a tolerância. Pois se ninguém pode realmente estar errado nem dizer coisas falsas nem inaceitáveis, não podemos realmente ser tolerantes: limitamo-nos a aceitar todas as perspectivas que reconhecemos à partida serem tão aceitáveis como as nossas.
  Pior: a falsa tolerância abre as portas ao fanatismo, cada vez mais presente na sociedade contemporânea. O fanatismo consiste em usar sistematicamente a noção de ofensa para silenciar os outros. Assiste-se, assim, à imposição de um discurso falsamente politicamente correcto, proibindo-se seja quem for de dizer seja o que for que possa ser ofensivo seja para quem for. Não se pode dizer que o cristianismo, o islamismo, o budismo ou o judaísmo são basicamente tolices supersticiosas, porque isso é ofensivo. Não se pode dizer, como James Walton, que os negros são menos inteligentes que os brancos. Não se podem fazer cartoons a gozar com Maomé. E, numa reviravolta digna dos Monthy Pythin, is docentes da Universidade de Roma La Sapienza declaram-se ofendidos com as opiniões do Papa sobre Galileu e os estudantes encenam protestos contra os cartoons do Maomé.
  A tolerância pressupõe a convicção do erro. Só podemos tolerar o que estamos convictos de que é um erro inaceitável, uma falsidade patente, um absurdo ofensivo. Tolerar é tolerar humanamente. Não é tolerar epistemicamente, no sentido de defender que qualquer afirmação é igualmente justificável epistemicamente. Não é epistemicamente justificável que o Holocausto não existiu ou que qualquer negro é menos inteligente do que qualquer branco ou que os seres humanos descendem de Adão e Eva. E é precisamente porque tais opiniões são claramente falsas, claramente injustificáveis, que podemos ser tolerantes relativamente a quem as defende. Ser tolerante é defender as pessoas que têm ideias falsas, idiotas ou inaceitáveis e atacar essas ideias; não é atacar as pessoas para evitar o incómodo de provar que as ideias são falsas. E, se tais ideias nos ofendem, paciência. Não é possível garantir a liberdade de expressão e, ao mesmo tempo, garantir que não seremos ofendidos.

Título: Re: Filosofando
Enviado por: poçosnegros em 19.fev.2008, 21:39:49

Vem cá...Dá-me o teu mundo outra vez!!

( Balancé)
Título: Re: Filosofando
Enviado por: origo em 21.fev.2008, 19:45:28
In a world made by Man
The reality that once was
Can't become

O que escolheriam...
 voltarmos aos tempos primórdios em que a relação com a Natureza e a Terra era de maior harmonia e paz
ou
 mantermos a nossa direcção num futuro cada vez mais tecnológico mas também capaz de atingir as estrelas
?
Título: Re: Filosofando
Enviado por: biki em 24.fev.2008, 02:03:06
In a world made by Man
The reality that once was
Can't become

O que escolheriam...
 voltarmos aos tempos primórdios em que a relação com a Natureza e a Terra era de maior harmonia e paz
ou
 mantermos a nossa direcção num futuro cada vez mais tecnológico mas também capaz de atingir as estrelas
?

Mesmo que voltássemos... Continuaríamos a criar métodos, ferramentas, etc para termos a vida mais simplificada. Íamos parar ao mesmo, a tecnologia ia acabar por se desenvolver outra vez.
Título: Re: Filosofando
Enviado por: Chuva de Verão em 24.fev.2008, 13:26:46
O Homem faz parte da Natureza, e por isso há correntes que defendem que a própria tecnologia faz parte da Natureza. Estamos habituados a pensar na tecnologia Humana como algo fora da natureza, mas até os chimpazés e as lontras têm tecnologia (usam instrumentos para facilitar as suas necessidades), claro q não tão desenvolvida como a nossa... O problema com a nossa tecnologia é que, como está, não permite o desenvolvimento de outros. Não permite um desenvolvimento sustentável a nível económico e ecológico.
Título: Re: Filosofando
Enviado por: Angel of darkness em 30.jul.2009, 11:06:58
Ontem estava no jardim e pensei naquele velho argumento do "eu faço-te isto porque fizeste primeiro/tu é que começaste"

Isto é completamente...pointless! Porque se formos a pensar assim entramos em ciclos viciosos, mas mesmo assim não será de admitir que quem começa efectivamente algo é quem tem o dever de parar?


Outra coisa que costumo pensar e exprimir é a noção de vergonha que também é algo que não faz sentido existir, aparentemente. Ora se temos vergonha de algo é porque moralmente não achamos bem fazê-lo...então porque o fazemos? Se é mesmo necessário fazê-lo o facto de ser entendido como "necessário" não atenua o valor moral da coisa?
Título: Re: Filosofando
Enviado por: Nuno_18 em 05.ago.2009, 07:24:14
diz me que sim , estou aqui , nada nos vai separar , quero estar
Título: Re: Filosofando
Enviado por: unfold em 12.jun.2021, 15:34:04
Quando foi que a maioria se permitiu retrair tanto? Quantos dos que se cruzam connosco na rua, são eles próprios, e quantos saíram de casa colocando o chip da fantochada? Lembro-me daquela senhora, no elevador, que conteve a vontade de rir. Como se rir fosse proibido. Penso no porquê de o ter feito, no porquê de não se ter permitido dar uma gargalhada no elevador. Será que só se ri em casa, nos ambientes seguros? Que amarras serão as dela? Quando foi que nos esquecemos que podemos dançar na rua, que podemos abrir os braços e abraçar a chuva que cai do céu? A maioria já não repara nessas coisas? Não sabe que pode? Quando é que as pessoas podem ser elas? É por isso que nos dizem que devemos ir de vez em quando para um local onde ninguém nos conheça? Ah, estou a ver... temos de ir para um local onde ninguém nos conheça, porque nesse local perdemos o peso de podermos ser identificados e, então, podemos ser nós próprios? Ah, teatro durante 343 dias por ano... e nos 22 dias que temos de férias, podemos ser nós, sem amarras? Que triste que isso deve ser. Manter a pose, viver direito 343 dias... e ser livre e espontâneo durante 22 dias.