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Comunicado: Gisberta, 15 anos depois - Reportagem

22 de fevereiro 2021

Ontem, 15 anos após a morte violenta de Gisberta, a TVI lançou uma reportagem que trouxe uma abordagem negativa e de marginalização da pessoa que ela foi.

Caso tenha existido alguma intenção de consciencializar e informar acerca do crime de ódio que se sucedeu, alertamos para o seguinte: 

  • A utilização do nome de registo de uma pessoa trans e com o qual a mesma não se identifica/identificava é um desrespeito para com a pessoa e a sua auto-determinação. Repetidamente e não exclusivamente nesta reportagem são utilizados os nomes atribuídos à nascença a diversas pessoas trans - atitude que causa imenso sofrimento para as pessoas visadas e que não é tolerável nem pode perdurar. 
  • Atendendo a toda a evolução que a ciência e o país conquistaram, é sabido que alguém identificar-se enquanto pessoa trans não é uma escolha. A repetição e banalização da auto-determinação de uma pessoa trans através destas afirmações que culpabilizam a pessoa por ser quem é, impede um avanço em termos de legitimidade que cada pessoa tem na sua afirmação pessoal.
  • Todo o contexto social de onde as pessoas que assassinaram e repetidamente espancaram Gisberta vieram não valida nem desculpa o comportamento extremo e desumano que levou à perda de uma vida. Suavizar um assassinato não educa nem permite que seja dada a devida importância a este fatal acontecimento.
  • Apesar de ao longo da reportagem ser transmitida uma mensagem de integração, inclusão social e normalidade de uma das pessoas envolvidas neste crime, é importante denotar que o mesmo não é feito pela vítima do seu crime. A Gisberta é sistematicamente marginalizada e desumanizada, sendo as suas más condições de vida atribuídas implícita e explicitamente ao facto de ela ser trans, em vez de ser dado foco à falta de apoio social e institucional que ela sofreu e que continua vigente hoje em dia. 
  • Lamentamos profundamente a constante má utilização do espaço de antena para com as questões que visam crimes de ódio. As vidas das pessoas trans não são acessórias e não existem para entretenimento. Todos os dias morrem pessoas às mãos de crimes de ódio e todos os dias esses casos são arquivados, só para depois surgirem em formato de reportagens que sensacionalizam o sofrimento das pessoas e parabenizam quem se ‘’reabilitou’’ depois de o ter causado.

A rede ex aequo já contactou anteriormente várias redacções e canais de televisão, de modo a apoiar jornalistas e profissionais da área no tratamento apropriado e responsável no que diz direito a questões trans, nomeadamente no seguimento de vários artigos lançados após o coming out de Elliot Page. Um dos nossos projetos principais, o Projeto Educação LGBTI, foi criado exatamente com o propósito de apoiar a população geral, não só instituições de ensino, para que possam abordar e refletir apropriadamente sobre questões de direitos humanos. Infelizmente, apesar de nos termos oferecido para dialogar com os meios de comunicação social, praticamente não obtivemos resposta dos mesmos.

Por este motivo, concluímos que, salvo raras excepções, os meios de comunicação não são apenas apáticos em relação a estas questões, como também tomam activamente a decisão de menosprezar pessoas trans usando-as como meio para obter espectadores, sem qualquer cuidado e respeito por quem estão a retratar.

Estas questões vão para além de audiências e de encher programação - porque retratar a vida de alguém, especialmente quando se trata de uma pessoa tão discriminada, deve tornar-se um acto de humanidade e justiça por quem não a teve. Mas neste caso, custa-nos concluir que, lamentavelmente, esta reportagem conseguiu ser exatamente o oposto.

Apelamos aos profissionais que trabalham nesta área que se eduquem e informem, questionem por que razão as associações LGBTI contestam as peças que exibem e que vejam quem poderão estar a prejudicar. 

Mas, acima de tudo, que assumam a responsabilidade pelo que escolhem transmitir à sociedade e todos os danos que daí advierem.